Episódios de Cinema em Transe

#48 - Cinema em Transe com Fábio Leal.

07 de maio de 20261h29min
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Episódio mais que especial com esse que é um legítimo Faz-Tudo do nosso cinema! Fábio Leal (@fabioleal)!

Diretor, ator, roteirista... Cineasta! Fábio bateu um papo massa sobre Cinema, sexo, criação; e refletimos sobre o atual momento para nós, agentes criadores de cultura e arte no Brasil e no Mundo . Vem que tá interessante.

Atrasamos esse e vários outros conteúdos, mas por uma boa causa: vem muito episódio por aí!

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Arte: @blackrucat

Edição e apresentação: @gabrielmataveldossantos

Assuntos2
  • Cinema e AudiovisualCinema de Ação e Espetáculo · Marvel · Master and Commander · Caçadores de Emoção · Devoradores de Estrelas · Ficção Científica
  • Cinema BrasileiroCinema da Fundação · Kleber Mendonça Filho · Cinemascópio · Som ao Redor · Vitrine Filmes · Aquarius · O Porteiro do Dia · Reforma · Seguindo Todos os Protocolos · Deus Tem AIDS
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Muito bom dia, muito boa tarde, muito boa noite, muito boa madrugada para quem é de madrugada. Estamos começando mais um Cinema em Transe. Episódio especial, especialíssimo aliás. A gente está aqui com ele que não posso chamar só de diretor, só de roteirista, só de ator. Ele tal qual faz tudo, ele é o faz tudo. É o cineasta com todos os...

talentos, digamos que o nosso cinema brasileiro precisa, que são os faz-tudos. Faz-tudos, se é que isso existe, Fábio Leal. E aí? Gabriel, tudo bom? Obrigado pelo convite. Vamos trocar uma ideia sobre filmografia, cinema, sobre tudo e vier. Valeu? Roda a vinheta!

E o cinema brasileiro é a vergonha nacional. O mundo vai explodir. As mortes são os poderes do fogo. Estou falando que branco, lá fora e preta que liga. Os filhotes devem tirar máscara da cara. Terei chuva que irá fertilizar essa terra maldita. Essa terra que me assassina. Preciso usar as máscaras da macumba brasileira. É o artesanato contra a tecnologia. Vamos falar de cultura.

Então, Fábio, eu gosto de começar com o pé na porta, mas eu acho que eu vou trocar um pouco, porque a gente sempre fala sobre início de trajetória, como que começou na caminhada no cinema. Eu queria falar com você, que você sempre está dando opinião nas redes sociais e tal, e seus filmes são bastante pessoais. O que você tem assistido? Você tem saído para ir no cinema? Porque a gente não pode falar hoje só de...

cinema no âmbito do longa-metragem, da sala de cinema, porque tem tanta coisa que a gente assiste que são de outros formatos dentro do audiovisual. Então, o que tem tomado seu tempo que se utiliza da linguagem? Você tem visto mais série, mais filme? Você tem ido ao cinema? O que você tem se ligado nesses últimos tempos?

Eu tenho gostado de ver filme de ação. Eu gosto muito desse cinema espetáculo, assim. Eu tenho sentido falta desse cinema espetáculo que seja minimamente interessante em imagem e som de uma forma menos estúpida que essas coisas Marvel, assim. Eu acho que a gente...

Não sei, eu tenho uma certa impressão de que esses times da Marvel foram meio um experimento para ir derretendo o cérebro das pessoas para elas chegarem hoje nesse ponto das redes sociais e dos Reels já bem domesticadas, assim, porque o próprio cinema já foi criando essa coisa que hoje a IA pode replicar sem nenhum...

sem nenhum constrangimento e sem nenhum trabalho mesmo. É muito fácil replicar um filme desses. E aí eu tenho buscado uns filmes dos anos...

90 e até início dos anos 2000, que era um cinema espetáculo, mas muito com domínio da imagem, com domínio da linguagem, muito bons. Eu vi dois recentemente, que são o Mestre dos Mários, se não me engano, em português.

em inglês é Master and Commander, do Peter Weir, com Russell Crowe. E é um filmaço, assim, quase inteiro no mar, e muito masculino. Acho que não tem nenhuma personagem feminina, são só homens marinheiros.

E vi há uns 3, 4 dias, nunca tinha visto Caçadores de Emoção, da Catherine Bigelow. E que também, conhecimentos também, tem uma coisa do mar, mas na verdade da praia, né? No universo do surf. E tem uma coisa homoerótica desde o início, assim. Primeira...

Primeira aparição do Keanu Reeves, ainda nos créditos, é meio empinando a bunda. E... E eu acho interessante essa masculinidade... Quase estereotipada dos times de ação, assim. Então eu tenho...

Tenho tido vontade de ver essas coisas. E no cinema, o último que eu vi foi o Caçadores de Estrelas. Devoradores de Estrelas. E que achei bem bom, principalmente em comparação com o que a gente tem visto ultimamente no cinema americano comercial. Acho um filme muito decente. Com interpretações...

que não estão no piloto automático. O Ryan Gosling está impressionantemente muito bem para um filme desses que poderia não exigir muito dele, mas ele tem uma verdade ali muito impressionante até. E ainda uma participação...

que eu acho que é subutilizada, mas ela é sempre muito boa, da Sandra Uller. E a ficção científica também é um gênero que me atrai muito. Talvez de todos os gêneros do cinema seja o meu preferido, a ficção científica.

Massa demais, massa demais. E voltando para a nossa pergunta tradicional, a sua caminhada no cinema, porque você hoje se atua bastante como roteirista também, quando não são projetos que se iniciam, digamos, com você, você atua bastante como roteirista, mas como é que foi esse seu início da caminhada? Foi no roteiro que você começou a fazer seus projetos, suas paradas?

Ou não, assim, você entrou em outro lugar, em outro rolê. Porque é sempre bom conversar sobre início de caminhada, porque muita gente, e eu falo pela minha experiência própria, muita gente fala sobre o cineasta independente, o cineasta começou fazendo várias coisas, mas assim, o uso de Thames, né, do caminho, até chegar a lançar um filme no cinema, até chegar a viver de cinema, é uma coisa que fica sempre no ar, né? Então, como é que foi o seu início de caminhada no cinema, cara?

Minha caminhada, enquanto você perguntar, eu fiquei pensando quando é o ponto inicial, o marco zero. E pela primeira vez eu me dei conta que é muito lá atrás, assim, quando eu ainda era muito adolescente.

Sempre fui cinéfilo desde criança mesmo, de ficar passando muitas horas na locadora. Às vezes era até mais legal o tempo na locadora e passava realmente horas, duas horas, lendo a contracapa das fitas e tal, conversando com as atendentes e analisando qual levaria, ou quais levaria, tinha aquelas promoções, pegue três, leve quatro, passa no final de semana e tal.

E quando eu tinha uns 12 anos, o Kleber Mendonça Filho era crítico do jornal do comércio. E aí eu comecei a me corresponder com ele por e-mail.

E quando eu tinha 14, não sei muito bem como, mas eu fui estagiar no Cinema da Fundação, que era o cinema que ele programava aqui no Recife. E aí eu acho que eu ia três vezes por semana para o Cinema da Fundação, aí às tardes.

Então eu comecei aos 14 anos como estagiário do cinema da Fundação. Fiquei lá uns seis meses, um ano, não lembro agora. E aí foi muito...

Foi muito divisor de águas mesmo na vida, de entender o funcionamento do cinema, o funcionamento de como é que chegam aqueles filmes no cinema, a negociação com as distribuidoras. O cinema da Fundação, na época, ainda não era...

Sei lá, não era o que ele é hoje. Kleber estava lá há um ano, dois, três, e já era bastante frequentado. Mas hoje em dia o cinema da Fundação são três cinemas na cidade. E uma referência, a primeira, de quando você quer o que se chamava de cinema de arte.

Mas na época, o cinema da fundação tinha que lutar para ter os filmes das distribuidoras, porque existia uma coisa nos multiplexes que estavam iniciando e ainda nos outros cinemas de rua que tinham três salas, que era a...

a sessão de arte. Então, sexta à noite e sábado de manhã tinham essas sessões de arte. E o Cinema da Fundação oferecia a semana inteira para os filmes, para as distribuidoras, mas elas preferiam a sessão de arte porque senão pegava mal com esses exibidores que eram mais...

pica no sentido da grana. Depois desse estágio no cinema da fundação, eu fiz making-off para um curta de Kleber, que se chama Eletrodoméstica, acho que eu tinha uns 16.

E aí depois eu fui estudar artes cênicas. Não tinha faculdade de cinema aqui em Recife. E sempre tinha essa vontade de ser ator desde criança.

Eu queria fazer cinema, mas não tinha como, não tinha como estudar fora e tal. E aí fui estudar artes cênicas aqui na UFPE. E depois de dois anos, fui estudar artes cênicas em São Paulo, numa faculdade de atores, assim, porque aqui só tinha licenciatura. Então eu, na época, achava, não, não quero ensinar e tal, quero ser ator. E aí fui fazer bacharelado em São Paulo.

E aí, quando eu voltei para Recife, eu fui trabalhar no Janela Internacional de Cinema fazendo legendagem eletrônica, que na época não tinha um programa para você simplesmente soltar a legenda. Você tinha que fazer um PowerPoint com uma tela com a legenda, outra tela em branco. Uma tela com a legenda, outra tela em branco.

E na hora você ia apertando botão por botão para ir passando a legenda. Era engraçado. E aí eu lembro que no Janela, a gente foi exibir... O Janela sempre tinha essa seção dos clássicos, os clássicos do Janela. E esses DCPs oficiais, eles não têm legenda em português. Tem que ter uma legendagem eletrônica. E a gente foi exibir o Leopardo, que tem três horas e caralhada, do Bisconte.

E a legenda, e é um filme muito falado, e a legenda tinha, sei lá, quantos slides, muitos, muitos, muitos slides, e no meio do filme deu pau, porque o computador não deu conta.

E aí foi uma gritaria, o povo gritando, legenda, legenda, legenda. E quando a gente volta pra legenda, a gente não tem o ponto em que parou. Eu tinha que ir entre aqueles 10 mil slides entendendo o que estava sendo falado e achar rapidamente onde estava a legenda e tal.

Mas era um trabalho que eu adorava fazer, porque a relação com os filmes mudava. Você fica muito prestando atenção na boca do ator. Antes dele começar a falar, você já tem que apertar o botão. Então era uma relação diferente com a imagem. Seria muito centralizada na boca dos atores. E tinha sessões...

maravilhosos de fazer, que era tipo a novice rebelde. E aí você vai apertando os botões quase que no ritmo da música. E aí da legendagem eu passei para a programação do Janela, programação de curtos internacionais e nacionais.

E comecei a trabalhar com Kleber e Emily na Cinemascópio, na época do lançamento do Som ao Redor. E passei seis meses na Cinemascópio nessa época, da época do lançamento de dezembro de 2012 a junho de 2013. Trabalhei na Cinemascópio. O filme foi lançado em janeiro de 2013. E foi muito massa também acompanhar esse lançamento.

E aí eu pedi pra Kleber pra fazer o Facebook do filme. Na época não tinha essa coisa das redes sociais pra filmes. Mas eu via nos filmes americanos já um pouco essa coisa da legenda, do frame do filme com a legenda e tal. E o som ao redor tem muitas falas icônicas, né? Muitas falas...

Sei lá, aqui não é favela não, carai, do menino, a minha veja tá fora do plástico, e que eu sentia que podia...

engajar. E aí eu comecei a fazer o Facebook do filme e começou a dar muito certo essa coisa do Facebook do filme e a vitrine me chamou para trabalhar com eles nas redes sociais deles. E aí eu fiquei na vitrine fazendo coordenação de comunicação, mas principalmente as redes sociais, de 2013 a 2016.

E no Janela conheci Dora Morin, que era produtora do Janela, e aí falei para ela da ideia de um curta-metragem que era baseado na história de vida mesmo de um amigo nosso que tinha um relacionamento com o porteiro do prédio dele.

E aí eu contei a história, e ela falou, não, vamos escrever no Funcultura, que é o edital daqui. E a gente escreveu, passou, e na mesma época, em 2015, passei um teste para fazer um papel em Aquários. Fiz um personagem chamado Benedito, que cuidava do arquivo público.

Onde o personagem da Sônia Braga e a advogada iam tentar achar documentos que incriminavam a empresa que estava querendo comprar o apartamento da Clara. E aí foi muito incrível. Então eu estreei no cinema como ator, num longa-metragem que foi para a Cannes, e contracionando com Sônia Braga. E era uma... Não sei, era uma coisa quase...

fantástica no sentido mesmo de fora da realidade. E aí a gente ganhou o Funcultura, a gente filmou em abril de 2016 e em seguida a gente descobriu que o Aquarius tinha sido selecionado para a Cannes.

E aí fomos uma caravana pra Cannes, assim. Cada um pagando sua passagem, mas saiu na imprensa da época, que era a época do golpe contra Dilma, que a gente tava mamando nas tetas do governo e tinha sido tudo pago. Passei quase dois anos pagando meu cartão de crédito dessa viagem. Mas valeu muito a pena porque também era uma outra coisa, meio o sonho encantado, assim. E...

E aí parecia também que tudo era daí pra melhor. E aí eu acho importante falar, não só pra quem tá começando, mas pra quem também tá na mesma situação que eu, que nunca foi tão bom, sabe? Eu nunca tive tanto dinheiro pra fazer um filme quanto eu tive pra fazer O Porteiro do Dia, por exemplo. É... e...

E aí a cultura foi, teve a coisa das plaquinhas que a gente levantou em Cannes, e aí uma perseguição, enfim. E aí foi tudo meio que por água abaixo, também no sentido da política pública. Mas com o Porteiro do Dia, eu ganhei um prêmio aqui no...

num festival aqui de Recife, que agora até me foge o nome, acho que é Fast Scene, que dava um prêmio em dinheiro para o Melhor Curta. A gente ganhou o Melhor Curta e aí com esse dinheiro a gente filmou o meu filme seguinte, que foi o Reforma, um curta-metragem. A gente filmou com 5, 6 mil reais.

Depois a gente teve um aporte do Festival de Brasília, quando o filme foi selecionado, a gente conseguiu finalizar o curta com esse dinheiro. No final de tudo, eu achei que o orçamento do filme ficou em 13 mil reais. E aí já foi completamente diferente, porque era uma equipe muito menor, a gente não tinha dinheiro mesmo, mas tinha...

Foi aí no Reforma que eu descobri que a falta de dinheiro no cinema também te dá uma liberdade artística, e não só artística, mas uma liberdade grande de, assim, você faz o que você quiser. Não tem que prestar conta, nem você precisa convencer ninguém a te bancar, porque você já tem aquele, ou aquele dinheiro que você já tinha, ou você não tem nada mesmo, e está todo mundo fazendo na brodagem.

Então dá para você fazer diários menores, se for o caso, porque 12 horas é uma parada extremamente extenuante para você e para todo mundo. E nesse caso foi a primeira vez que eu estava protagonizando e dirigindo ao mesmo tempo, então era...

difícil de me entender também ali. Então dá para você sair um pouco da rigidez do cinema, porque o cinema também pode ser muito rígido.

Mas não sei se eu já estou me atropelando e falando, falando, falando. Massa ouvir. E massa ouvir que o Kleber deu essa passada de bastão igual foi com o Marcelo Gomes, no caso dele, que ele visitava o Cine Club e tal. Então foi muito legal ouvir isso. O Kleber eu acho que é uma figura que ainda precisa... Como ele tem um sucesso absolutamente estrondoso como diretor...

Acho que outros feitos dele ficam até um pouco apagados e acho que...

se precisa falar sobre isso, assim, não só pra enaltecer, mas pra que, porra, sinto falta de outros Klebers, sabe? E... Porque é uma figura que é, ela é central no cinema pernambucano, no sentido também de, tipo, assim como foi comigo, foi com diversas outras pessoas. Kleber tinha um curso chamado O Olhar Crítico, que teve três edições.

que formou muita gente. Por exemplo, Pedro Sotero, ele estudava agronomia. E depois do filme de Kleber, ele passou a fazer cinema. Hoje, ele é um dos maiores fotógrafos do Brasil. Vai trabalhar agora com Brian de Palma. Mas ele estava estudando agronomia até fazer o curso de Kleber.

Então tinha essa coisa do cinema da fundação, de uma formação de olhar, não só para quem fez esse curso, mas para quem frequentava mesmo o cinema da fundação. E...

E essa coisa de trazer para junto, trazer para o cinema. E acho que todos os cineastas pernambucanos de hoje em dia, mais novos que Kleber, devem muito a ele nesse sentido, de abrir uma...

uma porta através do cinema da fundação, através dos cursos, através de ele chamar para trabalhar, do Janela Internacional de Cinema. Então a carreira de Kleber é quase que... Acho que ele odiaria isso, mas é quase como uma jornada do herói perfeitinha.

Não tem quebra, sabe? É uma pessoa que não tinha curso de cinema, foi fazer jornalismo crítico, aí foi para a programação, aí da programação já tinha também fazendo os vídeos, que na época nem é. Os festivais nem sequer aceitavam na época, porque tinha essa coisa, tinha que ser em película, não sendo em película, enfim. Só para dizer que assim como eu, outras várias pessoas,

tiveram, sei lá, o futuro dentro do cinema impactado a partir do momento em que conheceu Kleber ou mesmo frequentou o cinema da Fundação, sabe?

Bonito, bonito ouvir isso. E bonito ouvir que, por mais que a produção, produção de fato no sentido de filmar, você circundou a produção por um tempo, mas você sempre estava presente na distribuição, na divulgação. Eu achei massa ouvir isso, muito massa, porque uma galera, quando se fala de Brasil...

A galera esquece do quão difícil é produzir um filme, financiar um filme. E é muito louco que você estava não só na cinefilia, como você comentou, mas estava em todos esses processos de programação, distribuição, divulgação. Isso é muito massa de ouvir. E ainda ficando um pouco que eu quero falar dos filmes na segunda parte do papo, eu acho que nessa primeira parte falar um pouco sobre da prática de produção, de realização.

A gente vê nos seus filmes algumas figuras repetidas nos créditos. E isso mostra esse laço forte que você tem aí com o pessoal. Tem Matheus Farias, se não me engano...

Tales fez, Tales dirigiu arte só um, Tales Junqueiro dirigiu arte em só um filme seu, não foi isso? Isso, o período disso. Mas Matheus Farias eu acho que fez mais de um filme, enfim, você tem alguns parceiros que estão aí na sua trajetória também.

eu queria que você comentasse um pouco sobre essa questão da parceria, barra, essa palavra que eu detesto, que é o network, pra botar o filme na praça. Porque uma galera pensa que a questão da parceria, do network, da comunicação é tudo, mas será que é tudo mesmo? Como é que funciona pra você essa coisa de...

ter esses colegas, ter esses parceiros dos seus projetos. E como é que é isso, sabe? De ter essa evolução junto da galera que trabalha com você, ter esse diálogo constante, essa relação positiva. Porque muita gente não tem isso. Muita gente não encontra isso no seu contexto, não tem o privilégio de estar num cenário tão efervescente quanto é Pernambuco.

Eu sou de contagem, né? Eu morei grande parte da minha vida de contagem. Então, assim, como contagem tem sido, como tantos outros lugares tem sido. Como é que é a figura da parceria, da colaboração do networking, ensinar a sua trajetória? Do networking, eu acho que eu não sei muito bem, porque essas pessoas são minhas amigas. Então, assim, é... E de muitos anos, sei lá. Tales é meu amigo. A...

uns 15 anos, 12 no mínimo. Então... Hoje ele é, eu acho o Tales o melhor diretor de arte do Brasil, porque para além da questão técnica e da...

do apuro visual, o Thales é uma pessoa muito brilhante, ele é inteligentíssimo, então as referências dele são de todas as ordens, não só... não é uma coisa exclusivamente visual, é tudo. E aí um parceiro como esse extrapola também a direção de arte, tem um impacto no filme como um todo, porque ele enxerga o filme como um todo, não é uma coisa setorizada.

Então, Matheus Farias eu conheci no Janela quando ele fazia vinhetas do Janela, e que eram das melhores coisas do Janela, e era uma coisa que você via essas vinhetas.

E tinha um frisson dentro de você, sabe? Então era uma montagem, que é isso. Ele pegava trechos de filmes pré-existentes, a maioria clássicos, mas não somente. Ele pegava trechos de todos os times que iam passar na janela e fazia uma vinheta. E essas vinhetas eram geniais todas. Então, obviamente, essa pessoa...

Tem uma visão de cinema, né? Uma visão de... Não é nem só de cinema, mas de emoção mesmo. De como te causar coisas. Mas Matheus é um pouco mais novo que eu. Ou bastante mais novo que eu. Acho que seis, sete anos mais novo que eu. Então a gente se encontrava no saguão ali do São Luís e tal. E a gente começou meio junto. Eu lembro que o porteiro do dia passou...

no Janela, numa sessão extra-oficial, numa sessão não competitiva, também com o primeiro filme de Mateus e Enoch, o primeiro curto de Mateus e Enoch. Então essas pessoas fazem parte da minha vida também fora do trabalho, são meus amigos. Então viram esses filmes nascerem...

desde a primeira ideia. Acho que Tales principalmente. Então vira a primeiríssima versão do roteiro, um rascunho e tal. E fomos fazendo juntos. E aí Matheus, por exemplo, fez também... Ele fez uma montagem adicional para o Porteiro do Dia, que...

deu um gás para o filme. A gente estava há meses montando com uma pessoa que não trabalha mais no cinema hoje em dia, que é o André Valença, mas que é maravilhoso, inteligentíssimo também. Mas a gente estava meio encalacrado ali.

E aí Matheus ajudou a gente a ter um filme. Sem Matheus, acho que a gente não teria um filme, sabe? E um filme que fosse ágil como eu queria que fosse. Então, pra mim, o networking é uma parada muito difícil. Eu acho...

Não sei, sendo bem sincero aqui, talvez cometer um certo sincericídio, pra mim, eu acho que eu não sei fazer. Me deixa muito aflito. Às vezes eu me sinto até meio... Eu não sei muito bem o que é isso, porque não é algo...

é algo que é muito sutil, né? O que é que vai sair dali? Isso é uma relação de trabalho ou não? Isso é uma amizade ou não? Então, quando eu não gosto desses eventos, sei lá, coquetéis, não sei o que lá, sabe? Porque entra num lugar...

que eu não consigo ler, sabe? Que eu não consigo entender de fato o que é aquilo. Se aquilo vai pra frente ou não, se... Ah, quero ver o seu projeto, de fato quer ver. Às vezes me sinto com medo de encher o saco de alguém, sabe? E ao mesmo tempo, feliz ou infelizmente, isso é uma boa parte.

do cinema no sentido de se você vai financiar ou não o seu filme, se você... Enfim, quem vai te ajudar? O cinema, principalmente hoje em dia, essa coisa da coprodução está muito forte, então você tem que... E os editais, por exemplo, aqui em Recife, em Pernambuco, o Funcultura, ele tinha um... ele tinha o valor de um milhão e meio para a longa.

E esse valor de 2019 para cá passou a ser 750 mil. Então 750 mil é um filme absolutamente diferente de um milhão e meio. Um milhão e meio já é assim, hoje em dia aqui no Brasil é considerado BO 4 milhões de reais. Tenho amigos que estão fazendo seus primeiros longas com 6 milhões de reais.

o máximo que eu tive para fazer um filme foi 600 mil reais, que é esse meu próximo longa que se chama O Vale, uma pornô chanchada triste que a gente ainda está finalizando. Mas, então assim, eu não faço ideia do que é essa realidade, mas os festivais hoje em dia, quase todos eles,

exigem não oficialmente um filme com valor de produção alto. Então, por exemplo, acho que um filme que é um dos meus preferidos do cinema brasileiro de todos os tempos, que é O Dia Que Eu Te Conheci, do André Novaes, ele não entrou num festival A.

que são esses festivais de Berlim, Cannes, Veneza, Rotterdam, Sundance. E eu acho que ele não entrou. Um dos motivos é porque é um filme simples no sentido de produção. Barato. E os festivais não querem mais esses filmes. Ou tem um, dois para contar a história. Você pode dizer, ah, não, ainda temos esse. Mas...

Talvez seja uma impressão minha, talvez eu esteja errado, mas eu lembro de quando eu decidi fazer cinema, tinha muito mais espaço para filmes pobres. E um certo cinema de invenção, e que nem acho que se aplica aqui, por exemplo, ao caso do Dia que eu Te Conheci. É apenas um filme genial. Não tem uma coisa de invenção, sabe? Mas é um filme genial que entende o orçamento dele.

e aplica essa precariedade orçamentária, digamos assim, na estrutura. E eu acho que isso é muito importante, assim, tipo, não dá ou não deveria dar para o diretor...

Simplesmente se apartar. Tem colegas que nem sabem o orçamento do filme que eu estou fazendo. Que eles estão fazendo. E eu preciso saber do orçamento que eu estou fazendo. Porque isso faz parte de como é que eu vou contar essa história. Então, muitas vezes eu vejo filmes que tentam parecer que custam mais do que eles custaram. E esbarram na questão...

O orçamento está diretamente ligado à técnica. Então você não pode ter uma grua com um orçamento barato. Ou se você tiver a grua, você vai ter que cortar em outro lugar. E você tem que saber onde cortar. Tanto no roteiro, quanto na mise-en-scene, sabe? Quanto no diálogo com os atores. Se você vai fazer um plano de sequência, porque...

sei lá, naquele contexto é mais rápido de fazer do que se você for fazer 3, 4, 5 planos naquela cena, o ator tem que saber que aquilo é um plano sequência, que lente é aquela, o tempo daquilo, que ele só vai ter 1 ou 2 takes. O orçamento, ele impacta no filme, sabe? Então, assim, se você tem...

se faz um filme de grande orçamento, é mais fácil para você se abster disso e ficar no seu espaço de diretor somente, só pensando outras coisas, porque o seu grande orçamento está lá garantido. Mas se você é um diretor de cinema no Brasil, até mesmo com um médio orçamento, eu acho...

importantíssimo você saber quanto dinheiro o FEMI tem e onde é que dramaturgicamente até você vai alocar esse orçamento.

Massa, massa. Finalizando aí essa primeira parte do papo sobre a prática da realização, eu fiquei pensando um pouco quando você falava sobre distribuição. E a gente conversou no que vai lançar em breve também.

Com a Elida da Malut, a distribuidora ligada, né? Não vou falar que a distribuidora da Filmes de Plástico, porque ela agora vai começar a distribuir filmes de outros cineastas, né? Então, assim, a distribuidora aqui de VH, né? Mas que começou dentro da Filmes de Plástico. E a Elida fala um pouco sobre mudança de paradigma e tal. Enfim, o papo vai vir aí, a galera vai... Eu não quero dar muito spoiler. E eu fiquei pensando como é que tá sendo lançar a Filmes no Brasil, assim. Porque...

Como realizador, falo eu no caso, e como realizador LGBT também, eu sinto que alguns festivais e alguns lugares que são locais de difusão de filmes dissidentes,

eles acabam também sendo um meio que uma um tipo de prisão assim sabe o filme ele não ganha um espaço que é um espaço de difusão de abrir caminho se eu não sei eu não tenho uma definição sabe para esse campo que certos filmes tem mas a gente vai entrar um pouco na sua na sua né nos as na parte específica dos seus filmes eu queria que você falasse um pouco sobre distribuição porque se lançou filme no cinema já né a gente

Teve aqui perto alguns lançamentos seus, né? Eu acho que em BH lançou Deus Tem Aids, lançou seguindo todos os protocolos. Pelo que eu me lembro, Deus Tem Aids lançou, isso eu tenho certeza. Mas como é que é, assim, lançar um filme no Brasil? Porque o cinema mudou muito, né?

o cinema mudou muito. A gente tinha antes, como você falou, uma abertura para certos filmes, uma abertura de espaço, mas hoje até mesmo os cinemas ditos como cinemas de arte, eles têm que abrir um espaço na programação para o filme pop, para o filme mega produção. Então, assim, eu já fui num bate-papo de programador que falou isso. Tem uma revista que, aliás, recomendo a todos que possam ter acesso à revista Elipse.

e a revista do Minas Tênis, que me falha a memória agora, que é o que o Samuel Marota programa, que fala sobre esse assunto de programação. E eu queria que você falasse um pouco sobre isso, sobre essa questão da distribuição, porque eu basicamente estou começando nesse assunto agora, de forma mais específica, mais técnica, mas os meandros eu ainda não sei. Está mais difícil?

Tem aberturas, por exemplo, a gente tem um Ibaúba Play aí, tem novos caminhos aí que você vê como positivos ou ainda o cenário está arenoso ainda.

Eu não sei muito bem, porque, assim, esses dois filmes eu lancei no mesmo ano, no cinema, né? Seguindo todos os protocolos, eu lancei em junho de 2022 e o Deus tem AIDS em dezembro de 2022. Então, assim, já faz quatro anos e era um momento meio específico, principalmente no Protocolos, que a gente tinha tido a última onda de Covid, de fechar e tal.

em janeiro de 2022, eu lancei em junho de 2022. Em janeiro, por exemplo, a mostra de Tiradentes, onde o filme estreou, ia ser presencial e foi cancelada e virou online de última hora.

Então ainda tinha uma coisa meio... As pessoas com medo de ir ao cinema, um ambiente fechado, com muita gente e tal. Eu, por exemplo, acho que eu não vi... Era um lançamento também com muito pouco dinheiro. A vitrine estava sem o patrocínio da Petrobras para a sessão vitrine, porque ainda era dentro do governo Bolsonaro, né? Que tinha cortado esse patrocínio. Então...

não tinha dinheiro para viajar, eu não viajei com protocolos e nem com Deus tem AIDS. De certa forma, eu acho que até piorou de 22 para cá.

porque hoje a gente nem tem, entre aspas, a desculpa ou a justificativa da Covid. Hoje, realmente, é um cenário meio de terra arrasada, porque...

Também dentro desse período da pandemia, houve essa coisa do streaming muito forte e de múltiplas opções e uma certa falta de sentido para muita gente de sair de casa, pagar o ingresso e tal. E no caso específico desses filmes e dos filmes da Sessão Vitrine, por exemplo, nem acho que a questão financeira é muito preponderante, porque são filmes que têm o ingresso subsidiado, então eles têm um teto.

se não me engano, de 20 reais ou até menos em alguns casos, e que obviamente para uma grande parcela da população ainda é um impeditivo, mas para a população que frequentava o cinema antes, obviamente não é um impeditivo essa questão do preço do ingresso. E mesmo assim os filmes lutam para fazer mil, dois mil espectadores.

Eu acho que, primeiro, uma questão sobre distribuição em geral, eu acho, teve alguns anos atrás, acho que há dois anos atrás, o lançamento de um filme da Paula Gaitan, que não estou lembrando agora exatamente qual era o filme, se era o Luz nos Trópicos, que foi lançado pela Descoloniza.

e que não teve um lançamento normal, digamos assim. Eram eventos. Então, a Paula Gaitan ia com o filme para determinadas cidades, então era quase que uma lógica do teatro. Só existiria aquela sessão, mas aquela sessão seria especial, com a realizadora, com um debate, e única. Se você não fosse para essa sessão, você não veria o filme.

Eu acho que a gente tem que começar a pensar um pouco nesse sentido, entender...

O tamanho dos filmes. É óbvio que um filme como o Agente Secreto tem um apelo de público muito grande. Então faz sentido ter um grande lançamento para esse filme e ele ter várias sessões por dia e tudo mais. Para outros filmes, pelo menos no cenário de agora, talvez não faça tanto.

sendo mais sincero, não faz tanto. Então, se o seu filme é um filme pequeno, não tem atores famosos e tudo mais, faz muito mais sentido você fazer um evento daquilo e pensar como é que você divulga esse filme de uma forma específica também, a partir dos temas que ele levanta, ou da forma do filme, ou sei lá do que.

Mas não faz sentido você aplicar. Me dá muita agonia, por exemplo, quando eu vejo os posts de filmes brasileiros que é, sei lá, João Ramos é Paulo de Tarso. Mas quem é João Ramos? Ele não é um ator conhecido, sabe? Então, obviamente, só expõe o ator, o filme.

a divulgação, o marketing, sabe? Se você coloca Wagner Moura é Armando, eu até ainda acho que essa divulgação é meio fraca, já deu esse tipo de divulgação, esse tipo de marketing. Mas ainda faz sentido, porque Wagner Moura significa algo. Mas João Ramos...

Ninguém sabe quem ele é, fora de um circuito muito fechado. Então não faz sentido fazer posts nesse sentido com um elenco que não é conhecido e achar que esse tipo de post vai gerar engajamento, vai gerar reconhecimento desse filme por aí. Então é preciso pensar também como é que você...

Como é que você desenha a divulgação do seu filme e a distribuição do seu filme? Às vezes eu acho que as distribuidoras, também pelo volume de filmes, são 200 longas brasileiras feitas por ano, aplicam uma mesma fórmula a tudo.

E não dá pra ser assim, né? Então tem que pensar, tem que quebrar a cabeça, tem que entender como é que você vai comunicar ali. Eu acho que uma... Não sei se chama agência isso, mas uma produtora que faz isso muito bem é a tanto da Marina Cosa e do Bernardo, que, por exemplo, lançaram o Onda Nova, que é...

Alguns dizem que nem faz parte mais da pornochanchada, mas seria, sei lá, o último suspiro da pornochanchada, digamos assim, uma pornochanchada já revisitada, mesmo sendo feita ali na primeira metade dos anos 80. Mas era um filme...

que não era a hora da estrela sendo relançada, era um filme muito mais obscuro, mas que eles conseguiram comunicar de uma forma muito eficiente, muito atual, pop, mas respeitando o espírito do filme. Então, acho que...

Pra você meio furar a bolha, ou mesmo nem precisa furar a bolha hoje em dia, é pra você comunicar para a sua própria bolha. A bolha não tá mais indo no cinema, né? Eu vejo muitos colegas meus, assim, tipo, não vão ao cinema mais. E se a gente não vai ao cinema, como é que a gente quer que o público vá ver nossos filmes, sabe? Nem mesmo a gente tá indo. E acho que falta um pouco de parar pra pensar.

As coisas estão muito, muito rápidas, com muita coisa, muita demanda, muito tudo, e ninguém para para pensar, tipo, por que eu não estou indo ao cinema? Se eu não vou... O que quem me faria ir ao cinema? Então, será que o que me faz ao cinema faria outras pessoas irem ao cinema? E...

Enfim, é preciso pensar, é preciso encarar esse problema, não apenas fazer um story dizendo que tem pouca gente indo ao cinema. A Belia Bahia fez um artigo muito bom para a Folha de São Paulo, analisando um pouco. Porque é isso, essa crise do público, ela está...

proporcionalmente muito mais nos filmes comerciais do que nos filmes, sei lá, independentes ou que vão para festivais e tal. E saíram os artigos aí, uns dois ou três, na filme B...

que eu acho meio mal caráter mesmo, assim, meio que, ah, tem muito, estão dando muito dinheiro pra fazer muito filme, e na verdade devia concentrar não sei o que, não, esse, proporcionalmente, esses filmes menores, que fazem, por exemplo, 5 mil, se você for...

fazer uma matemática básica de dividir pelo número de salas e pelo número de sessões que esse filme tem, a média de público desses filmes é maior do que filmes comerciais, inclusive filmes para o público infantil juvenil e tal, que estão fazendo 100 mil de público, às vezes nem isso, 85 mil de público, e são lançados num circuito de 500 salas, 1.000 salas, e com um orçamento...

de P&A gigante, de propaganda na Globo, nas revistas, muito dinheiro para as redes sociais e tal. E vai 80 mil pessoas ver esse filme e várias sessões com uma, duas pessoas ou sessões sem ninguém. Então, é um problema muito maior o cinema comercial estar em crise. A solução para o cinema comercial sair da crise não é ter menos dinheiro para os filmes menores.

E se a gente for... E tem uma distorção também da leitura dos números, que é, nesses filmes maiores, esses filmes comerciais, eles não têm um circuito de festivais. E o circuito de festivais, acho que precisa ser contabilizado.

dentro da ideia de quanto o público tal ou tal filme fez. Então, se o seu filme passa no Festival de Brasília, no Janela, no Festival do Rio, todos esses cinemas, acho que o Cine Brasília tem 600 espectadores, 600 lugares, o Cinema São Luís tem outros 500.

E esses festivais têm ingressos esgotados. Então esses filmes tiveram muito público. E em público pagante, não é um ingresso gratuito. Só que isso não é contabilizado. E aí acaba servindo também de munição para esses empresários do cinema. Ah, não, não tem público. Ah, só fez tanto. E...

Mas é isso, eu sinto que está todo mundo muito sobrecarregado para pensar sobre isso, para elaborar um plano, para pôr em prática, sabe? Isso precisaria ser... As pessoas precisariam ser pagas também, pesquisadores serem pagos para pensar sobre isso, para pesquisar, para trazer números e tal. E aí, outra parte da sua pergunta, que é a coisa dos festivais LGBT e tal, é... Cara, eu acho que...

Existem diversos motivos aí, mas tendo a crer que o motivo maior é a homofobia mesmo, ou a LGBTfobia, enfim. E não só aqui no Brasil, mas generalizado, né? Você vê...

sei lá, filmes que até estreiam em festivais grandes, mas que são LGBTs, e os festivais seguintes são somente LGBTs, ou quase sempre LGBTs. Por exemplo, eu acho bizarro um filme como Cidade de Campo,

ter estreado em Berlim, ter sido premiado em Berlim, numa mostra que era interessantíssima e que, infelizmente, morreu com a saída do diretor artístico da época. Acho que só teve dois anos de encontros. Mas a Gil Rojas foi...

premiada lá. E aí, praticamente todos os festivais seguintes do Cidade e Campo eram festivais LGBT. E é um filme...

que isso nem sequer é um tema, né? Tipo, ninguém discute ali sobre ah, eu sofri homofobia, ou eu sou lésbica, ou nada. As personagens são lésbicas. Obviamente, o sexo que elas fazem é lésbico, mas isso não é o tema do filme. E...

E eu acho que talvez isso seja um sintoma também de como a gente está muito setorizado hoje na vida, né? A gente está muito, muito, muito... Eu sinto que, assim, daqui a pouco a gente vai ter um festival gay, um festival lésbico, um festival trans, porque a gente está com uma dificuldade muito grande de dialogar com as nossas diferenças. Então...

Tudo hoje em dia é nicho. Não existe mais o não nicho. Todo mundo quer somente andar com os seus. E no sentido comercial, eu sinto que isso morre. Que os únicos nichos possíveis são direita e esquerda. Então, dentro desses nichos, o que não for massificado...

morre ou vai para um lugar muito específico, e aí duas, três mil pessoas assistem aquilo e discutem, mas não existe mais um lugar do filme médio, sabe? Isso no mundo todo. Não existe mais um lugar do...

É isso, de um filme que possa, que é LGBT, mas possa discutir questões que são amplas. E tem essa coisa de, ah, não me representa, tal filme não me representa, mas...

Por exemplo, sei lá, uma linda mulher, eu não sou branco americano, calcasiano, aqui no Brasil obviamente sou, mas eu não sou este branco americano, não sou mulher, não sou prostituta, não tenho os lábios perfeitos e o sorriso maravilhoso da Julia Roberts, e eu me identifico com aquilo, sabe? Eu me coloco naquele lugar, aquilo me encanta de alguma forma.

E assim como, voltando ao filme da Gil Rojas, eu não sou lésbica, não tenho olhos azuis da Bruna Linsmaia e tal, mas com a Mirella me identifico, mas é isso, eu não sou mulher. E aquele filme me toca, sabe? Ou um filme de ação desses, eu não sou o Russell Crowe, não sou marinheiro, não é nada disso, é uma realidade completamente diferente da minha, mas aquilo me toca.

Então, hoje em dia eu sinto que tem essa necessidade, ou você tenta representar todo mundo de um recorte. Às vezes eu sinto um pouco isso nos filmes gays, por exemplo, que aí tem que ter um espectro imenso de pessoas e de...

representações de todas as letras e que às vezes é meio impossível para um filme de 90, 120, ou mesmo 150 minutos dar conta de uma representação respeitosa, aprofundada, legal, interessante de todas as letras. Mas se tenta fazer isso porque se não há

Então, ah, não me representa, faltou, não tem. A gente está num momento de crise, assim, acho que vai passar. Eu, de uns tempos para cá, tenho ficado mais poliana.

Mas é isso. Tem muita coisa acontecendo e muito pouco tempo para a gente parar, analisar e refletir sobre essas muitas coisas que acontecem. Então acho que não tem muito como dar certo. Tipo, se você vai lançar um filme no cinema e você não reflete sobre todas as coisas que são de público-alvo, real...

Porque público-alvo, pra você botar no edital, você bota no chat GPT, sabe? Ah, qual é o público-alvo? Ah, vai, tal, tal, e tanta, tanta. Mas isso não vai te ajudar na hora de lançar um filme, sabe? Enfim, sempre acho que eu tô falando demais aqui.

Não, não, podcast é pra isso mesmo. Pode falar, vamos falar. Mas, continuando o assunto e já... Na verdade, mudando de assunto, já indo pra forma e pros seus filmes. Assistindo Deus tem AIDS, eu fiquei pensando como que tem uma cena que fala muito com toda a sua filmografia.

que é a cena do depoimento, né, que tem aquele momento que pede pra falar, vamos conversar sobre HIV e AIDS na praça, né, e aí chega esse cara que conta de um romance que ele teve com um amigo.

e o amigo da Marinha e tal, e muito louco como vocês, né, que é uma co-direção, mas isso conversa com a sua filmografia, como que foi capturado aquele momento, assim, porque são assuntos e são momentos e são cenas...

muito intensa, só que tem uma tranquilidade. É como se fosse uma coisa punk na terapia, sabe? Você tem muita carga, mas muita carga em toda a sua filmografia, mas é tudo filmado com uma certa leveza, sabe? É tudo entendido com uma certa leveza. As próprias cenas de sexo, eu percebo que...

Na cinematografia mundial, assim como um todo, quando eu vou parar pra ver um filme não só gay, mas majoritariamente, quando tem uma cena de sexo gay...

é uma cena muitas vezes agressiva, é uma cena muitas vezes... Ou o filme gira em torno daquela cena, é um momento muito melodramático, é um momento muito... Tem a subida da trilha, tem o hiperclose e o slow, e todas essas funções são massas, mas eu acho que só ver dessa forma é meio desgastante. Então, assim, como é que você... Quando você vai escrever uma cena falando primeiro... Eu dei o exemplo do documentário, mas falando primeiro da ficção.

como é que você faz essas escolhas para a narrativa? Porque a maioria das pessoas, quando vai abordar uma cena tão intensa, emocionalmente falando, vai para esse lado mais melodramático. Mas eu acho que tem um olhar nas relações que o seu cotidiano, ele é muito carregado, ele é muito emotivo.

mas ao mesmo tempo ele tem essa leveza. Como é que você vê esse ponto de vista? Não é bem uma pergunta, sabe? Já vamos começar a ter uma troca. Não sei se você concorda também com o que eu falei. O que você acha sobre esse rolê das relações e da abordagem que você dá nos seus filmes? Dos seus filmes. Dos sexos e relações sexuais, especificamente. Pode ser amoroso, mas assim...

Não são só os momentos amorosos. Não é meio uma pergunta, assim. Porque, falando também do Porteiro do Dia, quando a gente... Quando tem a... Quando engata o lance deles, o que mais importa é o entorno. Não é o... Tem, claro, uma cena linda de sexo deles, mas...

Não é aquilo que é o filme, aquilo não fez o filme. O que faz o filme é o entorno, é a situação que rola ao redor. Então como é que é isso? Quando você vai escrever um roteiro, como é que você trata esse rolê? Você pensa em cenas? Você pensa em momentos? Você pensa já no todo? Você pensa no fim? Como é que você aborda a narrativa? No geral, não vamos fechar só no sexo.

Cara, eu não sei. Eu acho que cada filme é um filme. Eu não tenho um método. Eu acho curioso, para os filmes que partem de mim, que eu vou dirigir dentro desse esquema que eu...

que eu dirijo, eu nunca fui contratado para dirigir nada para fora, como eu sou contratado para escrever roteiros. Então, assim, e são escritas diferentes, assim, e servem a propósitos diferentes. Falando da escrita para os meus filmes autorais...

Cada filme nasce de um jeito O Porteiro do Dia nasceu desse relato de um amigo E aí foi o filme que eu mais demorei para escrever Mesmo sendo um curta Porque Queria entender um pouco Que momentos Do que ele me falou Eu queria que tivesse no filme

quais momentos eu fugiria do relato e criaria em cima. Eu não lembro exatamente se eu já tinha pensado no final ou não, mas sobre... Sobre...

as relações sexuais e pegando um pouco essa coisa do Deus tem AIDS que você trouxe inicialmente, no Deus tem AIDS eu não faço a menor ideia de como aquele cara falou aquilo. Enquanto a gente estava mais recuado, mas a gente começou a ouvir...

E a gente não acreditava que ele estava falando aquilo, porque ele não falou isso previamente para ninguém. Ele foi lá, viu a placa, sentou, falou.

Tanto é que depois o Caco, que é o... Só de cortar, na hora da produção, como é que era? As pessoas só chegavam ou você, tipo assim, tinha alguém que pegava o relato e falava assim, vem você, vem você, vem você? Como é que era essa articulação? Só pra entender um pouco, desculpa de cortar.

tinha alguém que... Acho que tinha uma placa e tinha uma assistência de produção. E tinha assinatura de coisa, de termos de imagem e tal. E essa pessoa era lá pelada antes. E aí ia pro...

para o Caco. Isso, eu estou... Não tenho 100% de certeza, tá? A gente filmou isso em 2019. Eu não sei se... Se tinha também a coisa da... Mas eu acho que sim. Porque talvez eles assinassem depois o termo. Mas eu acho que sim. Acho que foi assim como eu te contei. É... E aí

Mas não tinha uma conversa prévia, sabe? Para entender se a história era boa ou não. O lance era a interação lá com o Caco.

E foi tão impressionante que quando terminou essa conversa desse cara com o Caco, com o Arancibia, que é o artista que estava fazendo lá essa performance, o Caco foi lá atrás dele e falou, mas você entendeu o que é que você falou? Você entendeu que está num documentário? Que você quer realmente isso? E tal. E aí o cara falou assim, não, tudo bem, é isso aí, está tudo certo.

E para a gente foi impressionante ouvir, sabe? Ouvir no fone enquanto estava rolando. E impressionante também não só a questão do relato, mas a naturalidade com que isso era tratado. Eu acho que a gente...

trata essas... Não sei, eu acho que a gente trata... Eu tenho notado um certo moralismo, assim, dentro do nosso recorte da esquerda, classe média e tudo mais, que é meio... Isso me assusta até mais do que o evangelistão que prega, sabe? Eu, sei lá, conheço...

pessoas lésbicas ou bissexuais, evangélicas, dentro de outras classes. E isso é tratado de uma forma muito mais tranquila até, do que essa hiper...

não sei, essa hiperproblematização de absolutamente tudo que a gente tem, e principalmente dentro das redes, porque isso engaja, isso dá dinheiro. Então, você moralizar é rentável, não só para o pastor.

Mas pra você, influencer de esquerda, sabe? Você tem que ter uma pauta que engaje, que gere comentário, que gere rage bait, que as pessoas fiquem revoltadas e tudo mais. E aí...

Eu acho que entra um pouco nessa coisa da minha visão. Semana passada aconteceu uma coisa curiosa, assim, que teve um, acho que era um vereador de São Paulo, do MBL, ou saiu do MBL, não sei direito, não entrei muito a fundo, mas o cara tem uns 800 mil seguidores, 700 mil seguidores, e fez um vídeo contra mim.

Com o meu nome, com a minha foto. E falando, olha o que está sendo feito com o seu dinheiro público. Sexo, homossexual e tal. E aí eu fiquei olhando assim. E achei curioso que os vídeos dele, de uma olhada, tinham 100 mil views cada um. E esse tinha cinco vezes menos.

E claramente ele queria usar como um rage bait, né? Como as pessoas vão aqui ficar putas e comentarem, não sei o que e tal. E não rolou isso, mas o que mais me entristeceu foi ver que a gente na esquerda está usando essa mesma tática. E de uma forma que eu acho mais nociva, porque supostamente a gente deveria ser mais...

livre, né, e olhar pro sexo, por exemplo, com uma liberdade maior, e não é isso que tá acontecendo, assim. E aí, seguindo da cena do Deus tem AIDS, falando um pouco sobre sua composição, você comentou da sua cinefilia, e isso é muito visível, assim, quando a gente vê seus filmes, o caso da composição, né?

por mais que tenha muitas vezes feito, tenham sido feitos em cenários que dificultariam a produção, por exemplo, o seguindo todos os protocolos, o próprio documentário, né?

que tem cenas tanto intensas para ter uma câmera ali, mas você não larga a mão da composição. O seguinte, os protocolos, tem umas cenas de...

você aclimata muito bem naquele início, por exemplo. Como é que você pensa a composição? Porque quando a gente parar para ver um filme tipo Porteiro do Dia, Reforma, você tem uma dinâmica de planos...

que comunica com a intensidade de algumas cenas, né? Você tem uma invenção visual, não é puramente o realismo pelo realismo. Por exemplo, a cena que você citou do Porteiro do Dia, eles na bicicleta, né? Com aquela iluminação estilizada. O próprio Faz Tudo também, que a gente pode conversar um pouco também.

Mas são todos planos que, por mais que tenham essa... A gente visualiza a cena, né? Por mais que você consiga estilizar os seus filmes, a gente vê esse apreço pela composição, né? A gente vê no Faça Tudo, por mais que tenha aquela brincadeira com a música, aquele que é cômico.

você vai entrando ali naquele universo, naquele concerto do estúdio, naquele olhar do cotidiano, mas altamente estilizado. Como é a sua abordagem para o plano? Porque para muita gente, chega lá, tem um diálogo, desfoca o fundo, plano contra plano, plano contra plano, plano contra plano, e acabou. E com você não, né? Como é a sua relação com o plano? Eu acho que...

também varia muito do que é que eu tô querendo em cada filme. Mas eu nunca pirei muito nessa coisa do plano contra plano, assim, porque eu acho que é importante o texto, o que é dito.

Mas, por exemplo, me interessa muito mais como é que o outro ator que não está falando está reagindo àquele texto que o outro ator está dizendo enquanto ele é dito, sabe? Qual é a reação daquela pessoa?

Para mim é quase como se fosse mais importante, mesmo que houvesse um plano contra plano, que esse plano contra plano invertesse a lógica, sabe? Que a gente ouvisse, mas não visse quem está falando, e visse quem está ouvindo, e a gente fosse atrás das reações e não das ações, da escuta e não da fala.

E para mim também, desde sempre, é muito importante a textura das coisas. Então, nos planos, nos times sempre há planos com lente macro, por exemplo. Porque eu quero ver os...

poro, sabe? Eu quero ver... Eu quero um cinema sensorial a partir do corpo do outro, sabe? Ou às vezes até, muitas vezes até a partir do meu próprio corpo. É... Então não faz sentido pra mim, muitas vezes, essa coisa do... Essa coisa do desfoque porque...

também é importante esse corpo em relação àquele espaço, seja a casa daqueles personagens, seja aquele... Sei lá, no meu filme novo tem muita externa. Eu nunca tinha trabalhado com tanta externa antes por questões orçamentárias. Mas para mim é importante essa relação com o espaço também. No...

No Protocolos era importante... A gente estava obviamente confinado, todo mundo, mas não dava para você desfocar o entorno de onde aquele personagem estava, porque era um personagem também aquele apartamento. E era um personagem nas nossas vidas naquele momento.

Nossa, acho que a gente nunca olhou tanto para a nossa casa como naquele momento. E mudar a casa e botar uma coisa aqui, botar uma planta, botar não sei o que, e tentar transformar, tipo, eu acho que na minha casa...

transformei algumas vezes a sala de botar coisa, de tirar a mesa, agora vai pra cá, não sei o que e tal, porque aquilo era a nossa vida, né? Então não faz sentido, pra mim não fazia sentido essa coisa de priorizar só um elemento, a não ser quando a gente tava realmente muito em cima de algo, por exemplo, uma glande. Eu quero que essa glande ocupe a tela inteira e que a gente veja a textura dessa glande.

pra mim é importante essas decisões do que ver, do que ver principalmente, sabe? Mas não esquecer que aqueles personagens, eles estão dentro de um contexto, que aquele ambiente é um contexto e é importante. Não sei se eu respondi muito bem a tua pergunta, se era exatamente isso que você queria saber. E falando um pouco do seu último filme, eu faço tudo, é...

Tem uma ligação aí com o mundo do videoclipe, né? Com esse universo do videoclipe. O que que fora do cinema tradicional, né? No sentido do longa-metragem, lançado em sala, com duração de uma hora e meia, duas horas e meia, tem chamado a atenção, assim? O mundo do videoclipe é uma coisa. Quem sabe alguma coisa, não sei, na vertical. O que que tem chamado, assim, a atenção de experimentação é que você tá vendo espaços dissidentes, assim? Porque...

Foi muito louco assistir o Faço Tudo, porque eu não esperava que ele ia... Quando eu fui ver o filme, eu queria ver...

sem ver nada antes, sabe? Tipo assim, só curta-metragem eu gosto de fazer isso, eu gosto de assistir, sentar e assistir. Não ficar lendo crítica, review, essas coisas antes. E foi muito massa. Foi muito massa. Porque eu não estava esperando aquilo, assim. Então, o que fora desses espaços tradicionais de cinema, você tem se ligado, assim.

Cara, não sei te dizer, assim, não tenho visto muita coisa fora dos espaços tradicionais, no máximo, cinema experimental, mas pensado como tal, dentro do...

dessa coisa vertical, de Instagram, até gostaria que existisse mais, acho que existe um potencial pouco explorado aí, sabe? Até tenho uma certa vontade de fazer uns Reels, mas como...

Sei lá, como minha cabeça vai muito para a exploração do corpo, eu sinto que qualquer coisa que eu fizer vai ser censurada lá pelo algoritmo e tudo mais.

Mas essa... Fora do cinema, eu tinha essa coisa do videoclipe. Fui uma bicha muito MTV, assim. De mandar e-mails pra Sara Oliveira, Marina Persson. Tinha até alguém... Tinha um perfil que eu acho que gravava coisas da MTV. Tem um vídeo rolando aí do e-mail que eu mandei aos 13 anos.

para Sara Oliveira. E aí, manda um beijo para o pessoal do colégio, da escola exponente. E eu via muito o clipe. Hoje em dia eu vejo pouco, não tenho muito essa cultura do...

de ver no YouTube, sabe, clipe. Mas eu via muito MTV, muito, muito mesmo. Era o canal que eu mais via e muita coisa ficou. E eu acho curioso, e também a coisa do filme musical, eu sempre gostei muito, desde criança, minha mãe me apresentou os filmes do Fred Astaire, com Rita Hayward, depois de 10 anos a gente via em casa.

tem dois filmes do Fred Astaire com a Rita Hayward que foi minha mãe que me apresentou quando eu era criança ainda, Vem Dançar Comigo o filme do Baz Luhrmann que pra mim é disparado o melhor filme dele e muito pouco falado quase como se ele tivesse começado com Romeo e Julieta mas tem esse filme de 92 que é um filme muito kitsch e muito maravilhoso e e E...

e que eu vi, tipo, eu lembro que esse filme eu nem sabia ler legenda ainda, minha mãe ia me dizendo... eles falaram isso, falaram sei o quê, como não importava muito, o que importava eram as cenas de dança, mas eu lembro assim, até hoje eu lembro, a sala onde a gente estava, a TV de tubo, o videocassete, a capa do... sabe, porque foi muito impactante para mim.

E aí, até foi, acho que o Luiz Fernando Moura, em algum debate, ele me apontou, assim, que meus filmes têm essa coisa musical. O Porteiro do Dia é quase um videoclipe também, um momento da bicicleta com a música da Marina Lima, que já estava no roteiro. E aí, ao som de pé na tábua de Marina Lima, eles caminham, eles...

andam na bike por ruas do Recife, como Rua da Aurora, etc. Então assim, já estava no roteiro essa necessidade dessa música e eu filmei pensando nessa música. É... E...

E aí no Reforma também tem um momento da música, que é a cor amarela do Caetano. No Seguindo Todos os Protocolos tem as músicas da Letrux. Enfim, pra mim é... Essa linguagem do videoclipe, assim, tá presente de diversas formas. Tantas...

tantas quantas são as formas de fazer um videoclipe. Tinha, sei lá, ficava na madrugada, tinha o programa do Fábio Massari, que passava uns clipes mais índies, assim. E lembro, por exemplo, da Carol Almeida me apresentando...

Aí já no YouTube o clipe daquela música Small Town Boy E falando sobre a história daquela música E tinha um cara correndo e tal

Esse tipo de coisa fica pregado em mim de alguma forma e às vezes eu faço e quando eu tô fazendo eu nem tô lembrando que aquilo é por aquilo outro. E aí depois eu falo que, ah claro, é óbvio que eu fiz isso pensando nessa, ou lembrando em algum lugar da cabeça de tal clipe ou de tal filme, sabe?

Massa, massa demais. E, pra finalizar, você queria falar... Pode falar, né? Nem se quer falar. Pode falar um pouco do próximo filme que você comentou, o Vale. É...

Cara, acho que eu prefiro só falar o título do filme, que é O Vale, Uma Pornô Chanchada Triste. Isso tá dentro do título do filme, e pra mim era importante que isso estivesse dentro do título do filme, mesmo que isso esteja me acarretando algumas...

problemas aqui e ali, por exemplo, eu tava querendo liberar uma música e a pessoa que cantava a música falou que não queria participar de uma pornochanchada, e tá no direito dela total, mas pra mim foi meio impressionante assim, ver do quanto que essa coisa da pornochanchada...

está negativamente no nosso imaginário. E aí fui saber, por exemplo, que na Abracine iam lançar um livro, aquelas publicações, eles têm 100 filmes, não sei o que lá, 100 filmes, não sei o que, 100 documentários, não sei o que. Acho que eles lançaram dois ou três e ia ter uma publicação de 100 pornôs chanchados.

E isso foi barrado dentro de uma votação interna lá deles. Pelo que me contaram, aqui já vai uma fofoca, o sim pela publicação até ganhou, mas o não foi tão vocal que criou um mal-estar e que aquilo não foi lançado. E eu acho isso...

um sintoma gravíssimo disso que a gente estava falando um pouco antes, que era desse moralismo da esquerda. E, gente, se existe um...

gênero brasileiro por excelência é a pornochanchada. A gente não querer olhar pra esse gênero, e não é um movimento, sabe? Não é o cinema novo que a gente tem 15, 20, 30 filmes estourando dentro desse movimento. É um gênero porque, assim, é mais de uma década, e são mais de...

Se existem 100 pornô-chanchadas para sair no livro da Abracino, significa que deve ter pelo menos umas 500 ou mais pornô-chanchadas feitas. Então a gente não olhar para esse gênero do cinema brasileiro e entender...

de como é que isso, inclusive, foi capaz de ser feito dentro da ditadura militar. Mas, assim, grande cinema. Carlos Rachemba, tem uns três pornochanchadas. A gente tem, inclusive, dentro da pornochanchada, dois...

vieses de pornochanchadas muito diferentes que são a pornochanchada da boca do lixo e a pornochanchada carioca. Os dois são pornochanchada, mas os dois são muito diferentes. Eu acho que eu me... que eu prefiro como espectador, e talvez me filiasse mais, a pornochanchada da boca do lixo, que eu acho mais inventiva.

Mas, por exemplo, no Rio tem os times do Antônio Calmon, que são geniais. E esses times, por exemplo, não são restaurados. No máximo, a mulher de todos, não, os homens que eu tive...

por ser uma cineasta mulher, a Teresa Trautmann mas é isso, até mesmo a gente tem pouquíssimas até hoje, hoje está obviamente muito melhor, mas a gente tem pouquíssimas mulheres cineastas, imagine mulheres cineastas nos anos 70 e mulheres cineastas nos anos 70 filmando o sexo sabe?

Isso só foi possível dentro daquele contexto. Por que se filmava tanto sexo naquele momento? Até qual era o papel das mulheres dentro desse...

desse cenário, como é que nasce os homens que eu tive, sabe, como é que a Teresa Trautmann conseguiu fazer isso, isso poderia estar nessa publicação da Bracine, inclusive o machismo, a homofobia da... dentro da pornochanchada, que obviamente era um ambiente 99% masculino, branco, mas não é

como era esse cenário o que de inventivo saiu dali e não fingir que esse momento não existiu e assim, é grave a Associação Brasileira dos Críticos de Cinema não se debruçar sobre esse gênero e ter gente querendo se debruçar sobre e outras pessoas impedindo

Uma publicação que nem existe ainda. Impedindo a ideia da publicação sobre porno chanchada. Sabe? E...

Então, assim, eu quis voltar os meus olhos para esse momento e entender qual seria a pornô-chanchada hoje em dia. Obviamente é uma pornô-chanchada gay, a minha. Não é ipsis literis a pornô-chanchada daquela época. Tem uma cruza com outros gêneros.

Mas eu quero esperar o filme ficar pronto, sabe? Até para eu entender exatamente o que é que ele é. E acho que esse filme teve um processo de pós-produção.

bem mais longo, até por momentos meus da vida também, de eu tentar fazer um desenho de produção que contemplasse também a minha vida, sabe? Não o...

o cinema às vezes pode ser um rolo compressor muito grande, sabe? E esse filme eu fui fazendo aos pouquinhos, filmando em etapas diferentes e tal, então também me fez olhar para esse momento da pós-produção como um momento em que o filme realmente...

Muda, mesmo ele já montado, mas assim, o som, a cor, mudam muito o filme. E ter esse momento...

mas com mais respiro e com mais diálogo. Por exemplo, está faltando agora de terminar de mixar. E quem está fazendo desenho de som em mixagem é o Pablo Lamar, que também é um realizador. Então o diálogo com ele é muito especial. E de muita mudança mesmo no filme, mesmo na ultimíssima etapa dele.

Até mixei aí em BH, boa parte do tempo. Então é isso, o filme é o Vale, é uma pornô de fachada triste. Deve ser lançado em festival ou no segundo semestre ou no primeiro semestre do ano que vem. Vamos ver. Então é isso, querido. Algum último aviso antes da finalização?

Acho que não, muito massa essa conversa, assim, acho que de longe meu podcast sobre cinema brasileiro preferido, sobre cinema no Brasil, acho que abre essas questões, sei lá, abre para que se pense, né, e se pense...

Eu tenho uma certa agonia de ver entrevistas que são muito assessoria de imprensa, com todo o respeito que eu tenho aos assessores e assessoras de imprensa, mas eu vejo muito umas entrevistas ligadas diretamente a um lançamento específico e que a gente tem um pouco... Não sei, me parece que o intuito é muito mais uma divulgação Não sei, não sei, não sei

daquele filme, no caso do cinema, do que de fato uma produção de pensamento, sabe? Acho que aqui nesse blog você tem...

sei lá, nesse blog, nesse podcast, já tem uma... sei lá, uma produção de pensamento das dezenas de episódios que você tem e que são um arquivo mesmo do cinema brasileiro contemporâneo.

e como ele é realmente muito diverso. E eu queria muito que o cinema brasileiro pudesse continuar a ser tão diverso assim, sabe? Me preocupa um pouco as políticas públicas e, por exemplo, a morosidade desse Ministério da Cultura.

do Lula 3, de no último ano, a gente tem um anúncio de fundo setorial robusto e tal, e de pensamento em, por exemplo, desenvolvimento que...

que é muito importante um dinheiro de desenvolvimento. E é muito importante a gente ter essa diversidade do cinemique e você consegue, tem conseguido, nesses últimos anos, mapear e se debruçar sobre. Que isso, fica até sem jeito de acabar o episódio agora. Muito obrigado, Fábio, pela presença. Foi um episódio muito massa. Foi muito bom trocar esse papo com você, bater esse papo com você.

E é isso. Sigam em nossas redes sociais. Sigam o Fábio. E um grande abraço. Fiquem bem. Valeu. Tchau.