Episódios de Os peixes têm memória

#108 Interpretação em vias de extinção

06 de maio de 202629min
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Met Gala, pequena intervenção de Mariana Baião Santos e opinião sobre a interpretação do tema. Por falar em interpretação, o episódio é sobre isso e e sobre a sua extinção.

Coisas boas da semana:

- "The Drama" com Zendaya e Robert Pattinson

- Salame de chocolate

Participantes neste episódio1
C

Catarina S Palma

Host
Assuntos5
  • A extinção da interpretação e a literalidadePerda do 'ler nas entrelinhas' · Comunicação literal e perda de ironia · Apropriação cultural vs. ponte cultural · Richie Campbell e Patois · Ed Sheeran e música 'Azizam' · Culto à ignorância e censura · Interpretação em testes escolares
  • Met Gala: Moda, Arte e PolíticaMet Gala · Interpretação do tema 'Fashion is Art' · Moda como forma de expressão política · Patrocínio de Jeff Bezos e protestos · Sarah Possen e Banksy · Aileen Gu e Iris Van Herpen · Murakami
  • Adaptação às estações e à vidaTeoria da evolução de Darwin · Adaptação ao ambiente · Mudanças climáticas e polinização · Pandemias e guerras · Viver no presente · Expectativas vs. realidade
  • Filme 'The Drama' e empatiaRobert Pattinson e Zendaya · Empatia e esforço em ser uma boa pessoa
  • Mudanças na legislação do chocolatePrazeres simples da vida · Substituição de vícios
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Como é que é? Bem-vindos hoje... Bem-vindos ao episódio número 108 dos Peixes da Embrória. Eu tenho uma pergunta muito simples para vocês. A primavera também nos odeia? Também nos ataca assim de repente? Surpresa! Ataque surpresa, que é o que está a acontecer neste momento. Eu fui atacada de surpresa.

Eu literalmente estava bem, fui passear no Nicanela, quando cheguei a casa não estava. Sofriu um ataque de surpresa da primavera, mas eu quero acreditar que no fim deste episódio o meu corpo já se habituou a esta nova estação. Que eu acho hilariante, não é? O mundo adapta-se, as pessoas adaptam-se.

Os animais evoluem. Existe a teoria da evolução do Darwin. Que bom, que bom, que bom. Ainda bem que nós somos seres que se adaptam ao ambiente. Mas as quatro estações é uma coisa que existe já há algum tempo. Sei lá, há uns milhões de anos, eu diria. Por isso, porquê que o nosso corpo simplesmente renegou essa parte da evolução? Que é mesmo.

O que é que é este pólen? O que é que é este pólen estranho? Vou-me-as expulsá-lo e dar todas as indicações que estou doentíssima. Não estou. Eu fui só passear a minha cadela. Fui passear a minha cadela e estive ali no meio das árvores. E agora cheguei e estou mesmo. Chame-me Antavírus. Estou a brincar. Bati na madeira, não sei se ouviram. Porque eu fiz uma coisa qualquer com este microfone que meio que...

Isola todos os sons e às vezes isola demasiado, também isola os meus risos. Mas é horrível ou não o que está a acontecer ao largo da costa de Cabo Verde. Na última vez que isto aconteceu, eu disse, pá, impensável isto chegar aqui. Estamos a falar do Covid. Impensável. E nem um mês depois estávamos todos fechados em casa. Portanto.

É tratar as coisas com muito cuidadinho, porque duas pandemias numa vida é demasiada pandemia para existir. E nós já estamos à beira de uma guerra, portanto calma. Calma. Houve a gripe espanhola, houve uma guerra mundial. Ai não, houve pessoas que passaram por isto tudo. Ai coitadas. Que horror, que invenção, sim. Que invenção e que intensidade. Ora bem, como é que foi o vosso fim de semana? Prolongado. Foi prolongado? Espero que sim.

Espero que tenha sido bom, espero que tenha sido agradável e espero que o mau tempo não vos tenha estragado a vida, não é? Porque eu acho que o tempo, a temperatura e o tempo, o estado do tempo é o exemplo perfeito que nós não dominamos nem controlamos absolutamente nada. Nós podemos tentar organizar a nossa vida, podemos tentar organizar a nossa vida com tempo, com antecedência e garantir que pensámos em tudo, mas de repente...

chega a maio e houve um fim de semana em março mais quente, aliás, houve fins de semana em março mais quentes que levaram pessoas à praia do que este fim de semana que passou. O primeiro fim de semana de maio, não é? E eu até acho isso poético, porque ensina-nos a libertar-nos e faz-nos olhar para o momento de outra maneira.

E por acaso, eu tenho a dizer, não sei se vocês se andavam a questionar, ai, será que a Catarina anda a conseguir viver um bocadinho mais no presente? Eu confesso que me esqueço constantemente que essa foi uma das minhas resoluções para 2026, conseguir viver e aproveitar um bocadinho mais o momento e o presente.

Mas tenho a dizer que estive muito bem na Suécia. Não só na Suécia, como também este fim de semana. Portanto, deem-vos parabéns. Porque eu acho que consegui viver minimamente no presente. Aproveitar a vida, sabem? Mesmo que a vida não estivesse a correr exatamente da maneira que eu pensei que ia correr.

Eu tenho um longo caminho pela frente, mas eu estou feliz por não ter entrado em loop quando os planos mudaram de um momento para o outro. É interessante, eu acho interessante, porque eu sou uma pessoa relativamente descontraída. Está assim praticamente tudo bem. Mas, a não ser que me forem expectativas. Se expectativas forem furadas, meu Deus, eu fico mesmo louca. O quê? Mas custa fazer exatamente aquilo que eu queria fazer? O universo não me permite fazer exatamente aquilo que eu quero fazer?

Como não? Como assim este café é sábado de manhã ou sexta-feira de manhã e este café está fechado à hora que eu quero tomar um pequeno almoço? E eu adaptei-me. Adaptei-me e tomei um pequeno almoço improvisado enquanto estava a caminho do comboio. E está tudo bem.

Eu pensei mesmo, não há problema nenhum. Vou pedir um café para levar e um croissant e vou comer. Enquanto quando. E foi a melhor coisa que eu fiz, fiquei feliz. É verdade. Por isso, quando o IPMA mostra que afinal faz mais frio em maio do que em março e que este fim de semana prolongado, que podia ter saído apanhar um bocadinho de vitamina D, que precisamos tanto, relembra-nos que às vezes o mais seguro é baixar as velas do barco e deixar-nos guiar pela maré.

Percebem? Aprendam comigo que eu não duro para sempre. Já dizia a minha avó. Ora bem, Met Gala. Viram? Julgaram? Ótimo. Met Gala é mais ou menos aquele evento que toda a gente vê, mas que ninguém percebe bem o que é, não é? Porque é estranho, não é? É um desfile? Não é um desfile.

É um jantar em que ganha quem estiver mais desconfortável? Porque de repente a Sabrina Carpenter foi vestida de rolo cinematográfico. Filme. Porque é que é dos eventos mais esperados do ano?

se o que acontece não é propriamente público. Aliás, supostamente nem se deve saber o que é que se passa dentro do jantar, não é quem é que vai atuar, nós sabemos sempre. Mas quem é que vai atuar? Não há fotografias do jantar, do evento, e sim nós só conseguimos ver a passadeira vermelha. E, portanto, muito rapidamente, para quem ainda não percebeu, e também quem não percebeu porque não quer perceber, porque rapidamente sabe-se e percebe-se o que é.

A Met Gala é um evento solidário que apareceu em 1948 como um evento que procurava engreiações para o Instituto de Moda do Metropolitan Museum of Art. Entretanto, o evento evolui, obviamente, e cada ano existe um tema e aquilo que vemos na passadeira vermelha estará exposto na exposição anual desse mesmo museu. É uma espécie, corrijam-me se estiver errada, de Bienal do Traje.

Assim, fazendo uma comparação um bocadinho pobre. Eu acho divertido e acho interessante porque nós conseguimos ver cabeças criativas a funcionar. Este ano, por exemplo, mais do que moda houve polémica. E está tudo bem. Porque, acima de tudo, a moda não é só uma coisa superficial, não é só uma feira de vaidades. A moda é bastante política. Aquilo que nós vestimos diz muito sobre nós. Por exemplo, trajes académicos.

que diferenciam a educação, tal como, por exemplo, as fardas de colégios privados, temos as batas de médicos e as batas usadas por encarrados de limpeza que diferenciam o estatuto social. Temos mais o lenço palestiniano, sabem, aquele... aos quadradinhos, brancos e vermelhos, ou brancos e pretos, que, sem nós dizermos uma palavra expressa, uma ideia, uma posição política.

O uso do preto quando se está de luto, os dourados, os acessórios, a maquilhagem que é utilizada para evidenciar o poder. Enfim, há muita coisa que é contada através do traje, daquilo que nós vestimos e, portanto, parece-me inteligente. Interpretar aquilo que se passa nas passadeiras vermelhas. Porque há sempre alguma coisa para além daquilo que nós vemos numa primeira instância.

Para já, este ano, a Met Gala foi um bocadinho mais polémica, porque, um bocadinho, bastante até, por causa do patrocínio de Jeff Bezos, porque Bezos decidiu investir milhões de dólares neste bairo de beneficência. E houve imensas celebridades que optaram por não ir como forma de protesto, que é importante porque o Jeff Bezos apoia... ...

Aliás, não apoia direitos laborais, não é? Porque a Amazon tinha bastantes direitos para todos os seus trabalhadores, incluindo aqueles que fabricam as coisas que são vendidas na Amazon. E por aí fora. Para além do seu apoio a Trump e por aí. Portanto, ouvi-me essas celebridades que disseram Ah, o quê? Vocês vão aceitar muito dinheiro vindo deste oligarca? Então, lamento imenso, mas não vou. Ok, problema. Este é um baile ultra-elitista. Estou-lhe a chamar baile e estou a adorar. É ultra-elitista.

Portanto, nem todas as pessoas, não é como os Globos de Ouro, não é como, sei lá, os Oscars. Não, é um baile ultra elitista e, portanto, nem todas as pessoas recebem convite. Por isso, a ausência às vezes pode ser interpretada...

pelo não convite, pelo não estar na guest list, por exemplo. Por isso é interessante ver quem foi e trabalhou em conjunto com designers e com a equipa criativa para passar uma mensagem. Como é o caso da Sarah Possen, que trabalhou com o métier Fecal.

e apareceu na passadeira vermelha, que não era bem vermelha, não interessa, apareceu na passadeira vermelha, com uma nota a tapar-lhe os olhos, muito semelhante à nova escultura, não sei se virou, à nova escultura de Banksy, que é um homem a andar com uma bandeira, o estandarte de uma bandeira, e de repente a bandeira tapa-lhe a cara, e ele está a andar cegamente em frente.

quase a cair da estrutura da própria estátua. Portanto, no fundo, quando o dinheiro e o poder aparecem, a cegueira parece ser inevitável. E somos muitos, muitos cegos, ou estamos a ser dominados pelo dinheiro e pelo poder, que na verdade não é ninguém. É uma coisa que está mal dividida e mal distribuída.

Portanto, sim, é interessante ver quem foi quem utilizou esse palco para passar uma mensagem. Eu acho isto tudo muito interessante porque, no fundo, obriga-nos a ter capacidade de interpretação. Não é só feita de vaidades, este evento, esta passadeira. Não é só um baile para ultra-ricos. Também é, atenção, mas é também uma forma de pessoas com grande influência neste...

E neste momento eu estou a falar mais de celebridades, uma influência social. E é bonito, é fixe, bonito e também é interessante ver que tipo de performances e que tipo de mensagens políticas é que querem deixar. Para além disto, é também um trabalho de interpretação do tema. Portanto, todos os anos há um tema.

E todos os anos, equipas criativas e designers juntam-se para fazer uma interpretação desse mesmo tema, não é? Este ano o tema era Fashion is Art, a moda é arte. E eu vou abusar da Mariana Baial Santos, que ontem me ajudou a falar sobre isto na rádio.

E vou aproveitar o que ela me disse ontem sobre quem, de facto, percebeu o que era suposto fazer. E o que eu senti foi que muitas pessoas simplificaram o tema, porque, obviamente, o que é arte é uma coisa extremamente difícil de definir. E não há uma resposta única, mas eu acho que há várias formas pelas quais se pode pensar a arte, através da técnica, por exemplo, ou do conceito, da narrativa, da forma.

E o que vimos muitas vezes foram looks baseados em referências, por exemplo, com padrões retirados de obras ou pessoas mesmo vestidas como figuras de quadros, dos quais vários absolutamente lindíssimos, mas eu acho que eles funcionam mais a um nível imediato. Acaba por ser uma representação um pouco mais superficial do tema. Sinto que houve uma grande divisão entre Fashion as Art e Art on Fashion.

Quando é art on fashion, é aplicar arte à roupa. Quando é fashion as art, a própria peça tem que funcionar como uma obra. E lá está, quer seja pela técnica, pela forma, pelo material ou pela ideia. E eu acho que quem se destacou foi realmente quem conseguiu usar arte. Um exemplo que achei muito forte e que nem foi dos mais falados foi o da Aileen Gu, que é uma esquiadora olímpica.

E o vestido foi desenvolvido pela Iris Van Herpen, que é uma designer e artista visual, e por um duo de artistas que se chama Murakami, que trabalha em instalação, e que partia da ideia que o corpo humano é maioritariamente espaço vazio. E isso foi traduzido através de uma estrutura que pareciam quase bonhas de sabão e suspensão. E o vestido estava também ele próprio a deitar bonhas de sabão. E isto não era uma referência direta a uma obra, era quase um estudo físico de leveza, do ar, de como algo pode existir ao mesmo tempo que está a desaparecer.

E depois com uma técnica brilhante que segurava milhares de bolas de vidro com luz UV. E esta peça só por si realmente é uma obra de arte. E no fundo acho que é isso, acho que houve uma grande divisão no que se viu ontem à noite entre quem usou arte e quem apenas a referenciou. Muito obrigada Mariana Bayon Santos se quiserem segui-la. Já falei dela algumas vezes aqui no podcast, mas é sempre bom ouvir alguém falar sobre arte de uma forma simples. Ora bem.

Esta coisa da interpretação é uma ótima ponte para falar sobre vários temas perdidos que eu tenho para aqui e que me tenham ocupado a cabeça. Eu no outro dia estava a ler alguém na internet que falava sobre o novo Diabo Veste Prada e como as cores tinham desaparecido. Falava sobre a falta de cor, que em 2026 as coisas ficaram sem identidade e que o filme parecia um anúncio.

E eu amo a caixa de comentários, porque eu abro sempre, sempre que há alguma coisa negativa pela negativa ou pela positiva, eu abro sempre a caixa de comentários, porque dá sempre outra perspectiva daquilo que foi escrito ou daquilo que foi dito. Às vezes, é verdade, a caixa de comentários é horrível, é um catalisador de pessoas que não têm bem noção do que estão a dizer ou a escrever, ou pessoas que de repente parecem que não têm qualquer empatia pelo outro, mas...

Outras vezes, abre-me outra janelinha de ponto de vista, não é? É como, imagina, é como se uma situação fosse o calendário do advento e cada janelinha é um POV, é um ponto de vista, sendo que dificilmente qualquer uma dessas janelinhas...

está 100% correta. Portanto, é bom nós abrirmos várias anelinhas de perspectivas de uma certa situação para conseguirmos ter uma visão um bocadinho mais geral da coisa. Uma pessoa, nesta caixa de comentários, falava sobre a possibilidade de isso ter sido propositado, visto que em 2026 tudo parece ser comprável. Tudo, não sei se esta palavra existe, mas é porque importa, tudo é um produto e que...

Podia ser uma maneira de vender uma ideia ou de passar uma ideia sem falar drasticamente sobre ela. E a verdade é que eu acho que em 2026 as pessoas deixaram de ter poder de interpretação. Perdeu-se o ler nas entrelinhas.

Nós, enquanto sociedade comunicadora, perdemos o encanto da comunicação e estamos todos mesmo muito literais. No outro dia vi um TikTok que ri muito e depois ri muito também com a caixa de comentários. Era um brasileiro ou uma brasileira, não sei, que tinha vindo a Portugal e dizia os portugueses são mesmo muito literais.

eu cheguei a um café e queria um café e o senhor de café disse, queria, já não quer e eu, não gente não vou fazer isto é só um tempo verbal e de repente havia, houve portugueses e brasileiros misturados na caixa de comentários e foi hilariante porque eram os portugueses a dizer assim pá, eu nunca me tinha apercebido o quão irónico nós éramos até alguém evidenciar essa ironia e hoje é muito divertido e aí

E nós estamos a um passinho de perder a ironia como figura de estilo. E é muito interessante isto, porque, de facto, é fácil.

Se tirarmos a ironia porque o discurso fica um bocadinho mais fácil, mas também torna-se pobre, não é? E a partir, obviamente, é a teoria do carro amarelo, a partir do momento em que comecei a pensar sobre isso, comecei a reparar numa série de comportamentos que comprovam isso mesmo. Portanto, se uma pessoa não fala sobre uma certa coisa, é porque está contra ou porque devia falar. Nem todas as pessoas devem falar sobre tudo o que acontece no mundo.

E felizmente, porque às vezes nós temos opiniões arrumadas na nossa cabeça que podem ser mal interpretadas.

Lá está. Se falamos ou se referenciamos uma ou outra cultura, o mais rápido é sermos acusados de apropriação cultural. E sobre isto, eu tenho coisas a dizer. E eu vou aproveitar este episódio para falar. Vou falar sobre isto neste podcast, porque nós já cá estamos há algum tempo e eu acho que ideias podem ser debatidas.

E portanto, a maior parte das vezes que pessoas são acusadas de apropriação cultural, esta acusação vem de pessoas que estão fora da cultura que está a ser supostamente utilizada. E o que me dá sempre uma vibe de white saviors. Sinto sempre que são pessoas privilegiadas que falam sobre este tipo de apropriação cultural.

que é fixe porque nós não precisamos de viver uma experiência para lutarmos pelas pessoas que a estão a viver, mas sinto que estamos todos a correr para salvar uma donzela que às vezes não precisa de ser salva. Percebem onde é que eu quero chegar? Nós muitas vezes saltamos a conversa com pessoas que realmente fazem parte e pertencem a essa cultura e criamos uma opinião rápida sobre aquilo que outra pessoa está a partilhar. Partilhamos essa opinião.

E usamos muitas vezes o mesmo molde para comparar situações completamente diferentes. E eu lembrei-me disto. Porquê? Porque vi um post ontem, não sei, qualquer do Richie Campbell. E o Richie Campbell tinha feito um repost, esse post, a dizer que... Para não me interessa, estava a acusá-lo da apropriação cultural. Que não é mentira. Porque o Richie não é jamaicano.

E Patois não é a sua língua original. Mas esta apropriação cultural pode fazer mais bem do que mal. No sentido em que passa a palavra. Mostra e dá-nos a conhecer um novo estilo musical. Partilha uma língua que muita gente desconhece, não é? O Patois partilha um dialeto. E acima de tudo...

trabalha com pessoas que pertencem a essa cultura. Ele pode trazer da comunidade, mas também leva para a comunidade. E isso é uma coisa importante, não é? É assim que nós ficamos ricos, enquanto cultura e enquanto indivíduos. E eu acho que esse trabalho de interpretação, o trabalho de interpretação de tentar compreender o outro e porque é que poderá ou não fazer sentido alguém que não faz parte da cultura para atuar.

falar, cantar e partilhá-la partilhar não é o quê? perdi-me na minha própria fase porque é que alguém que não faz parte dessa cultura poder partilhar é um trabalho de interpretação que é muito mais trabalhoso por isso as pessoas limitam-se à preguiça

de dizer que está errado atenção, eu estou sempre aberta à discussão ok? eu acho que este tema é um tema mesmo muito sensível porque mais uma vez eu faço parte de uma cultura dominante não é? a cultura ocidental e também estou a partilhar

uma opinião sem ter nenhum contraponto do outro lado. Mas eu sinto que a corrida para a defesa de outras culturas vem de um sítio pouco nobre, sabem? Não se explicar. E às vezes para mais do que aproxima. E cria ilhas culturais em vez de uma rede cultural que dá e leva. E eu estou propositadamente a não dizer a palavra tira, porque tira é quase associada ao roubar e não é isso que eu quero... Obviamente que há.

exemplos de grande apropriação cultural e coisas que não fazem sentido. Mas nós levarmos de uma cultura e darmos também essa cultura faz sentido. Percebem o que eu digo? Enfim, o ponto é o conteúdo rápido, que é uma chatice porque embora toda a gente o consuma toda a gente diz mal dele e por isso toda a gente está farta de falar desse assunto e limita-se só a consumir-lo fez outra vítima.

Para além da nossa concentração, do nosso IDA de GD, no nosso PHDA, que agora infelizmente toda a gente tem, e as pessoas realmente sofrem de PHDA, parece que é uma doença de... sei lá, ou um distúrbio, não sei como é que se chama, um desequilíbrio, não sei, não interessa. Estou a divulgar.

O que eu quero dizer é que as redes sociais, o conteúdo rápido fez outra vítima, que é a interpretação. Interpretar necessita de atenção, necessita tempo, e parecendo que não, com tanto scroll que temos de fazer, nós não temos tempo para pensar nas várias mensagens que uma palavra, que uma frase, que uma atitude pode ter. Eu lembro-me de ver um TikTok de uma rapariga persa que falava

sobre uma música do Ed Sheeran, acho que a música se chama Azizam, que quer dizer Minha Querida, em iraniano, em persa. E à primeira vista parecia que não só tinha roubado uma palavra, como também tinha roubado a sonoridade dessa zona do mundo. Mas esta rapariga...

o TikTok dela era muito interessante, porque ela falava sobre o facto de ter ido pesquisar, porque gostava do Ed Sheeran e gostava-lhe imaginar que ele pudesse estar a apropriar-se loucamente de uma cultura. Mas depois de ter lido, depois de ter estudado, percebeu que os instrumentos, e há ali uma melodia muito específica, algumas melodias irlandesas e persas aproximam-se muito, e por isso é que Ed Sheeran decidiu trabalhar com esse tipo de melodia, trabalhou com...

músicas, trabalhou com músicos.

instrumentistas, iranianos, produtores, por exemplo, criou uma ponte cultural. Mais do que uma apropriação cultural, ele criou uma ponte cultural. E claro, esta opinião, para ser formada, deu trabalho. Porque para estruturar esta opinião, teve que ser... Esta opinião. Tudo isto teve que ser estudado, precisou de tempo, precisou de pesquisa. Mas é muito mais profunda do que aquela opinião que foi...

feita, foi pensada ou foi tida logo numa primeira instância. Por isso sim, tal como num brainstorming a primeira ideia normalmente não é que fica, quando sermos rápido uma opinião, provavelmente nós não pensámos bem nela e não pesquisámos nem aprofundámos. Por isso, sim, interpretação. Interpretação é uma coisa que está em vias de extinção e que é muito importante. E lá está. A importância.

Tipo das perguntas de interpretação. Na escolaridade obrigatória. Porque, mais uma vez, nós precisamos de ir às nossas aprendizagens básicas. Porque nós sempre tivemos aquele teste português de interpreta. É uma questão de interpretação. E muitas vezes nós tínhamos essa questão, se calhar, incompleta. Ou não percebemos a pergunta. Ou falta de interpretação. Ou pobre interpretação. Porque...

nós ainda estávamos a exercitar esse músculo do cérebro, não é? O músculo da interpretação, que com o passar do tempo deixámos de exercitar e juntámos-nos àquelas pessoas que se calhar têm uma opinião. É muito mais fácil nós termos uma opinião igual aos nossos pares, às pessoas que nós...

gostamos, às pessoas que nos inspiram, às pessoas que nós nos identificamos, não é? E a partir do momento em que há mais opiniões igual à nossa, mais difícil fica nós nos forçarmos para ouvir aquelas que não são e tentarmos compreender e tentarmos perceber porque é que outras pessoas têm outra opinião e porque é que essa opinião poderá estar igualmente certa, porque...

Olha, eu não sei, há pouco tempo eu li um substeque que falava do culto da ignorância que nós estamos a passar neste momento. E este culto à ignorância é muito perigoso porque é uma nova maneira de censura e nós não nos apercebemos. Porque se antes se queimavam livros, se calavam uma opinião, agora gera-se tanta opinião que nada é realmente ouvido. E isso dá a pensar, pelo menos a mim deu-me. Portanto, no fundo, o que eu quero dizer é que sejamos rigorosos.

na interpretação. Mas não sejamos ignorantes ao ponto de acharmos que a nossa interpretação é aquela que está correta. Porque não há nenhuma 100% correta. Direi eu. É como a verdade que é completamente relativa de quem olha, de quem vê, de quem ouve, de quem sentiu, de quem... Enfim. É isto que eu tenho para vocês hoje. Uma questão de interpretação. Pensem bem, pensem. Não se mantenham na superfície.

operativa, porque provavelmente não estão a ver tudo.

Não estou a ver a The Big Picture, sabem? A grande figura. Ora bem, coisas boas da semana. Fui ver o The Drama. O Drama com o Robert Pattinson e a Zendaya. Para já, há muito tempo que eu não sentia isto. O Robert Pattinson me dava vontade de voltar a ter um póster no quarto. Eu não sei. A estética, a forma como ele existe. Não sei, dá-me vontade. Dá-me vontade de ter um quadro dele. E eu nunca fui grande fã do Robert Pattinson. Eu era Tim Jacob.

Porque sim. E de repente o Robert Pattinson neste filme e noutro já. Ele é icónico. Portanto sim, dá vontade de ter um póster do Robert Pattinson na parede. Agora. É com o Zendaya, é com o Robert Pattinson.

Tenho de dar os parabéns a quem decidiu fazer um filme de 1h40. É, mais uma vez, super civilizado. Fui à tarde, fui à 1h40. Foi no dia da mãe. O que é que eu fiz no dia da mãe? Celebrei com a minha filha. Não te celebrei sem ela, porque também preciso. E, portanto, fomos ao cinema. E eu não posso muito falar sobre o filme, porque...

se eu falar sobre o filme vou dar spoiler e não é isso que eu quero, mas a única coisa que eu quero dizer e uma das coisas que eu fiquei a pensar depois do filme acabar, que é as pessoas que tendem a ser simpáticas, a serem empáticas e que percebem e dão o benefício da dúvida mesmo àquelas pessoas que fizeram alguma coisa de errado, são as que têm de trabalhar mais. As pessoas empáticas, ser uma pessoa ou ser uma pessoa que compreenda os outros.

é sempre mais trabalhoso do que aquelas que agem mal. E por isso, às vezes, questiono, vale a pena. Vale sempre a pena, não é? Mas às vezes é mais cansativo ser boa pessoa, ser empática e perceber os outros. Porque a malta que erra tem tendência para ser mais exigente até a próxima.

com aqueles que normalmente não o fazem. Se calhar também como forma de compensação. Não sei, digo eu. Eu não sei se vocês, se viram o filme, vão perceber porque é que eu estou a dizer isto. Mas pronto, daqui a uns anos, quando já for legalmente social, socialmente legal ou aceitável, falar sobre o filme, podemos voltar aqui.

Outra coisa boa da semana é que eu já não comia salame de chocolate há muito tempo e foi a um aniversário que tinha salame de chocolate e Sands em Triângulo. E eu comi um salame de chocolate e deixem que vos diga que salame de chocolate é assim um dos melhores bolinhos de aniversário que pode haver em cima de uma mesa. É mesmo muito, muito bom. Eu sei que há muita gente que continua a comer salame de chocolate. Eu não sei porquê deixei de comer. E agora comi.

e estou arrependida porque agora cada vez que vejo um salame de chocolate no bar da RTP ou numa máquina que parece ter os bolos lá há mais do que 50 anos ou sei lá, num café de esquina, não importa eu tenho que repetir três vezes na minha cabeça só é bom porque não comias há imenso tempo que é um problema eu não sei se já disse isto aqui ou não mas deixei de fumar e substituí e até a próxima

Os cigarros pelo açúcar e neste momento todos os bolos são apetecíveis. Uma coisa que nunca tinha acontecido na minha vida, eu nunca fui de ceira e neste momento estou sempre... O que é que vai ser a sobremesa? Que tipo de sobremesa é que venderão ali naquele restaurante? Uau, vou a uma festa, que bom! Tanto açúcar que eu vou poder comer!

Mas pronto, estamos juntos nesta luta contra o açúcar e a favor da interpretação. Voltamos a falar para a semana. Espero que Maio e a Primavera sejam meiguinhos convosco. Obrigada por ouvirem mais o episódio dos Peixes da Hemória. Obrigada por seguirem.

nas plataformas de streaming, por comentarem obrigada também por estarem pelo Instagram Catarina S Palma e pelo TikTok Cat S Palma muito obrigada e voltamos a falar para a semana, tchau!

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