"A casa vai abaixo comigo aqui": Bairro com mais de 60 anos vai ser demolido e idosos vão viver em contentores
Tânia Laranjo
- Demolição de bairro social em ValongoHistórias de idosos desalojados · Condições precárias dos contentores · Falta de respostas da autarquia · Pressão e bullying sobre moradores · Obras ilegais e legalizadas
- Saúde e bem-estar dos idososImpacto psicológico do despejo · Agravamento de condições de saúde · Perda de entes queridos devido à pressão
- Desalojamento de moradoresFalta de dignidade e segurança · Dificuldades de acesso para idosos · Ausência de privacidade
- Direito de preferência de compraMoradores tentam comprar casas há 40 anos · Câmara de Valongo nega direito de compra
- Respostas da Câmara Municipal de ValongoSilêncio e evasão do presidente · Comunicação via gabinete de imprensa · Promessas de soluções precárias
- Prazos e legalidade da obraIncerteza sobre o prazo de conclusão da obra · Desrespeito aos prazos legais · Legalidade das construções dos moradores
Eu sou a Tânia Laranjo e este é o Doa a Quem Doer, um podcast que todas as semanas vai analisar crimes e casos que marcam a atualidade.
O Doac em Duerde desta noite revela-lhe o caso de um barro social com mais de 60 anos, que vai agora ser demolido e que vai dar a origem a um outro bairro, com casas mais pequenas para acolher mais pessoas. Os que lá vivem são todos idosos e vão morar em contentores. Ninguém acredita que a obra termine no espaço de um ano, como é prometido pela Autarquia de Valongo.
O bairro tem quatro blocos de habitação, cada um com quatro habitações de tipologia T2 e T3. A última obra foi feita pela Câmara há 35 anos. Pintaram fachadas, colocaram caldeiras, mas nem sequer construíram, por exemplo, casas de banho nas habitações. Em vez de sanitas, havia buracos. E a população pôs mãos à obra e fez tudo pagando do seu próprio bolso.
Pelo menos desde 2002 que muitos moradores foram pedindo licenças para construir anexos e garagens. Queriam poder colocar, por exemplo, uma máquina de lavar. Muitas obras acabaram ilegais, mas houve espaços que a Câmara aceitou legalizar e que agora quer demolir, sem indemnizar. Chegamos então a 2022 e ao dinheiro da Europa.
A União Europeia aceita pagar 4 milhões para reestruturar o bairro. E o que parecia ser uma coisa boa, transforma-se num pesadelo. Nos últimos meses, começaram a chegar cartas. Deram como prazo de saída 15 de maio. Batem à porta para entregar caixotes. Intimidam os idosos que resistem.
Então foi, ele disse, ah, não sei o que é, está aqui um senhor, este senhor quer subir lá acima à sua casa para ver o que é que você tem no mobílio e acho que para poder ver o que é que você pode levar para o contentor. E eu disse, como? E não deixei vir aqui ninguém, não deixei vir aqui ninguém.
E eles, aqui atrasados, vieram a ir novamente e têm andado, quer dizer, enoraram o advogado. Mas voltaram a vir aqui à sua casa? A 29 de maio, ano passado, tivemos uma reunião aqui no Molares, onde eles apresentaram a maquete das casas e não sei o que mais, isto e aquilo. E o advogado que ia connosco intitulou-se nosso defensor.
e a assistente social ficou com um número qualquer dele e ele mandou-lhe um e-mail para a assistente social. A assistente social até hoje nunca lhe respondeu a nada e acabou por dizer que ele não tinha mandado nada. As soluções apresentadas aos moradores são todas precárias. Uma delas passa por alojamento num hotel, onde não teriam cozinha, apenas um pequeno quarto.
Outra hipótese era irem para outros bairros, para casas vazias devolutas noutras freguesias. Mas teriam de deixar tudo para trás, por tempo indeterminado, e abandonando, por exemplo, os animais de estimação. O silêncio do autarca que recusa explicar o bullying dos seus funcionários também é esclarecedor. Aldoáquem Doer recusou responder. E o prometido comunicado também nunca chegou.
Um dos moradores tem 84 anos, renovou toda a casa e agora dizem-lhe que tem de sair. A Câmara nem sequer lhe explica o que vai fazer aos seus bens. Tem 84 anos. Há quase seis décadas que mora nesta casa. A casa que a Câmara quer que agora abandone. E que troque por um contentor, por um prazo que ninguém sabe qual é. E vive aqui desde há bocado, estávamos a fazer as contas, 59. Exatamente. Fez obras na sua casa.
E no interior, porque fora tinha que pedir licenças. Tudo a seu custo? Tudo a meu custo, sim. Naturalmente. Isto é um T3, é pequenino, mas é de facto, vive também com a sua filha, não é? Exatamente. Porque na altura, desculpa, na altura eram quatro filhos.
Criou aqui os seus filhos, também criou os netos. E tenho quatro bisnetas. Quatro bisnetas. A sua esposa viveu sempre aqui? A minha esposa viveu também aqui a 83 anos. Morreu há dois anos.
Sidónio é apenas um dos muitos que recusa aceitar, o que para alguns parece ser uma inevitabilidade. Foi-lhe dado um prazo para tirar tudo, mas ninguém lhe explica o que fazer aos bens que tem na casa. A pressão é uma constante. Sidónio está verdadeiramente desesperado com o bullying que lhe está a ser feito.
Imaginar sair daqui está fora de questão para si? Para mim está. Só há força. Eu disse aqui numa reunião que é da Câmara, desculpe lá, se me quiser matar, bota-lhe a casa abaixo comigo aqui dentro. Porque eles têm vindo incomodá-lo até aqui. Quantas vezes em cartas, em reuniões... E vêm-lhe bater à porta mesmo? Sim, sim, sim. E dizem-lhe o quê?
Uma senhora, uma coisa, um ano para quatro, dois homens, duas mulheres, uma assistente. Uma assistente. Diz ela, onde é que eu vou meter no contentor o que tenho aqui dentro de casa, que eu comprei? Diz ela, você vende ou dá? E assim, mas você pensa que eu andei a roubar? Eu trabalhei 50 e tal anos, descontei 47 anos para a caixa, não andei a roubar. Ela nunca mais abriu a boca.
O idoso não se cala. Desde 2022, que a ameaça de sair está em cima da sua cabeça como uma espada. E no meio deste processo, perdeu a mulher, que não aguentou também ela a pressão. E diga-me uma coisa, a sua mulher acabou por viver também esta... Infelizmente já morreram três pessoas aqui desde que isto começou. Três mulheres.
A Dona Luísa, a minha mulher, foi a primeira. E a de baixo, a Dona Clemência. E foi também, e tudo isto também, de facto, mexia... Mexia com toda a gente.
Também mexe com Sidónio. Tenta fazer-se forte, mas a filha conta que o pai nunca mais foi o mesmo. Agora, face à possibilidade de terem que sair daqui, o seu pai já se recusa a abrir a porta às trenhos, não é? Claro. Já nem abre a porta. Não abre, nem é conhecidos quando mais às trenhos.
Este vizinho vem aqui para ver se ele está bem. Porque às vezes, se eu estou em casa da minha filha, não posso vir aqui a qualquer hora, a todas as horas. Ele não abre a porta porque... E ele já não lhe abre a porta. Eu ponto menos falar isto mesmo. Fica muito... Perturbou, não é? Perturbou muito, muito, muito.
O idoso mostra-nos a casa onde todas as benfeitorias foram feitas por si. Divisões cuidadas, memórias preenchidas. Um espaço onde se respira amor. Ser daquela casa está fora de questão. Ainda mais quando a solução são contentores de obras que Sidónio se recusa até a conhecer.
O idoso recorda também que está à espera que lhe deixem exercer o direito de preferência para comprar a casa, como está na lei e como exerceu há mais de 40 anos. E diga-me uma coisa, senhor Cidónio, vocês tentam em 82, eu tenho aqui os documentos, tentam, perguntam à Câmara se podem comprar a casa e dizem que vão analisar o processo, passaram mais de 40 anos? Exatamente, e não tem resposta nenhuma.
O Lourdes vive com o pai. É a sua grande ajuda. Também ela não sabe bem o que fazer à vida, porque o T2 onde viviam passa agora a um T1, num contentor. Admite ficar temporariamente em casa da sua filha. Mas reconhece que o pai não pode ficar sozinho, que precisa de ajuda. Não está disposta a deixar que se repita o mesmo que aconteceu à mãe, que ele também não aguente.
Mas acha que isto de facto adeitou abaixo? Ah, sim. A antecipou um pouco. O seu pai dizia há pouco que quer morrer aqui. É muito importante para as pessoas exatamente isso. Isso. Porque é que têm as morias, criaram as morias deles, os filhos, os netos, bisnetos. Há outros casos de idosos que arriscam perder tudo, até as construções legais que fizeram ao lado das casas camarárias.
Tânia é cuidadora do avô. Vive com ele numa das casas que vai ser demolida. Vive ali desde que se conhece, mas arriscam-se ambos a perder tudo.
O avô tem 83. 83. E a Tânia, a cuidadora, está aqui com ele. Eu vivo nesta casa desde que nasci, ou melhor, a partir dos 2 anos de idade. Nessa altura vivia aqui com a minha mãe e com os meus avós. A minha avó, entretanto, faleceu, ficamos nós os 3. Minha mãe saiu, entretanto, estamos nós os 2. O avô Tânia tem vivido todo o processo com sofrimento. A pressão constante angustia-o. A presença da polícia à sua porta assusta-o.
Ele está muito abatido. Para além dos problemas todos de saúde, esta situação de stress que lhe têm causado e o bullying que no fundo tem acontecido, tem sido muito complicado de gerir. E que tipo de bullying é que estamos a falar? Estamos a falar da insistência de assistentes sociais para virem aqui pessoalmente falar com ele, que eu tenho evitado ao máximo.
A minha mãe vive aqui perto e eu peço sempre para ela ouvir e buscar-lhe, para ele não estar em casa nessas alturas. Elas ainda há dias ligaram, acho que a semana passada queriam vir aqui entregar a intimação para nós sairmos em maio.
e queria falar com ele pessoalmente. Eu estava a trabalhar e disse à minha mãe, por favor, vá lá, tira-o de casa, para ele não estar sujeito a isso. Porque a dona Conceição, a nossa vizinha, até a convenceram a assinar, como tinha recebido a carta, e isso não se faz, começou a agir a dar.
Tânia não sabe há quantos anos exatamente vive-lhe o avô, mas admite que seja à volta de 60. Ele mora aqui desde que a minha mãe nasceu, já nasceu nesta casa. Minha mãe tem 57 anos, portanto é por aí.
E vocês também não sabem se o novo contrato é um novo contrato? Ou seja, depois quando ele voltar é um novo contrato? Não há essa garantia. Nós não recebemos a notificação, porque elas queriam vir aqui trazer pessoalmente, e então ficaram de enviar a carta. Não a recebemos ainda, nem sequer o aviso para ele levantar aos correios, não recebemos. Há outro problema. Há um espaço feito pela família que também vai ser demolido, embora a Câmara tivesse legalizado aquela construção.
Partiu para construir a garagem, tem alvará, é uma coisa legal. Se vamos ser... Idemizados? Idemizados, por causa disso, eles não dão esclarecimentos, nem certezas, nada. A certeza era que até dia 7 ou 8 teríamos de sair daqui e viver nos contentores por pelo menos um ano. Esta jovem não sabe qual é a tipologia que agora lhes vai ser atribuída nos contentores.
Sabe apenas que tem de ser dois quartos, porque o avô não pode viver sozinho. E o seu avô também não tem condições para viver sozinho? Não, não tem. Ele precisa do apoio, toma medicação diária, tem problemas de locomoção. Portanto, viver num contentor não acho que seja adequado também para ele. Acima de tudo para ele, eu sou nova. E psicologicamente, ele já foi ver os contentores?
Ele recusa sair, mas há tempos houve mais do que um morador aqui que foi lá ver e ele passou por lá. E vinha alteradíssimo, vinha muito nervoso, com as tensões altas. Teve de ir a uma consulta médica para gerir a dose de medicação para baixar as tensões.
Construíram isto e agora também não sabem como é que isto... Sabemos que... Vai abaixo. Exatamente. Mas quem é que paga isto ir abaixo? Ninguém nos disse nada acerca disso. Aliás, houve uma reunião na Câmara em que foi abordado este assunto e a resposta que tivemos na altura foi que era tudo ilegal.
Mas não é? Não é. Temos aqui os alvarás e os projetos que na altura foram todos assinados em 97, quando o meu avô construiu. E depois foi concedida com o projeto que tenho lá dentro também o projeto. E construíram isto e legalizaram isto? Sim.
Faltam respostas, sobra pressão. Quando o Dóquio Endoeiro esteve no bairro, encontramos a polícia. À porta de Tânia, preparados para notificarem o avô, que não estava propositadamente em casa. O advogado de várias famílias garante que fará tudo para proteger os munícipes. Lembra que nem sequer têm condições de saúde para morar em contendores de obras.
Sinto-as, posso lhe dizer que sinto-as pessoas muito preocupadas, angustiadas. Estamos a falar de pessoas que vivem naquele empreendimento há mais de 50 anos e que não compreendem esta atitude por parte da autarquia.
São idosos e estão em pânico. O advogado sabe-o e tenta acalmá-los com os prazos da lei. Linguagem jurídica em tendeis queixosos, que não garante qualquer proteção. Como é que se explica que estando a correr prazos, porque é impossível que a Câmara desconheça os prazos da lei? Ou pelo menos não devia desconhecer. Como é que estando ainda em decurso de prazos, nós temos, por exemplo, pessoas já a entregarem caixas para que saiam daqui a meia dúzia dias?
Pois, Tânia, e isso, com todo o respeito, naturalmente, se ingirmiei às questões legais sobre as outras questões, naturalmente, a Câmara é que terá que justificar, mas depois, naturalmente, todas essas situações serão suscitadas em sede própria.
Paulo Mendes tenta ser cauteloso com as palavras, mas não tem dúvidas de que a pressa é inimiga dos conselhos acertados. Neste caso, há famílias que ainda não foram sequer notificadas. Correto. Isto significa que o prazo que está nas cartas, que é daqui a meia, dois, seis dias, é impossível de ser executado porque ainda está...
ainda estão a correr prazos da vossa contestação? Naturalmente, portanto, da parte na qualidade aqui de mandatário dos meus clientes, os prazos ainda estão a decorrer, portanto, iremos aguardar serenamente a decisão por parte da Câmara Municipal e, naturalmente, fim dos prazos normais, iremos tomar as devidas e necessárias providências, no sentido de salvaguardar os interesses das pessoas.
Falamos também do bullying que está a ser exercido sobre estes idosos. Insistências atrás de insistências. O advogado garante que está atento. Essa questão, essa tal dita pressão que a Catânia está a referir, salve melhor a opinião, essa situação será levada em sede própria naturalmente. Mas eles têm lhe dado conta dessa pressão, os seus clientes? Sim, sim.
Sobre o local onde estas pessoas vão ser despejadas, não há grandes dúvidas. As condições não têm qualquer dignidade. Do que me foi dado conhecimento, naturalmente, e eu já tive a oportunidade de ver os contentores, onde supostamente estas pessoas serão realojadas temporariamente, segundo a autarquia diz.
na minha ótica, com todo o respeito, naturalmente vale o que vale, mas não preenchem as condições mínimas e necessárias para salvaguardar a vivência destas pessoas durante a execução, da pretensa execução aqui deste empreendimento.
Outro problema é o prazo da obra. A Câmara deu uma data para a conclusão. Data é essa que ninguém acredita que se consiga cumprir. Estipula-se um prazo de um ano para que a obra seja concluída, sabendo nós que os prazos dificilmente são cumpridos.
Há alguma cláusula que possa proteger estas pessoas se os seus prazos não foram cumpridos e se derraparem 2, 3, 4, 5 anos? Neste momento da informação que eu tenho, não existe nada que os consiga proteger dessa circunstância. O que foi estabelecido e o que se está comunicado aqui aos arrendatários é que a execução teria um prazo de um ano.
e que as pessoas seriam deslocadas durante este período de um ano. Se a Tânia me pergunta, acha viável a execução desta empreitada num prazo de um ano, eu posso dar a minha opinião, e a minha opinião é clara, é claramente que não. Outra promessa que ainda não existe. Onde colocar os pertences das pessoas durante o período de realojamento.
O que foi transmitido em reuniões prévias aqui com os arrendatários foi que, na minha ótica, de uma forma muito vaga, que seriam alocados os bens ou seriam guardados temporariamente em determinadas instalações, agora o problema é que depois não se conseguiu definir em que termos e como é que as pessoas poderiam ter acesso aos seus bens.
sempre que precisassem de ir buscar alguma coisa dos seus pertences, como é que poderiam fazer se iriam ser alocados ou se colocados temporariamente muito perto, muito longe. Não temos qualquer percepção dessa nesse sentido.
O silêncio do presidente da Câmara de Valongo é perturbador. Paulo Ferreira recusa explicar as condições que são oferecidas aos mais idosos e escolhe a propaganda nas redes sociais para garantir que está tudo bem. Se eles nunca se preocuparam com nós até agora, que não investir aqui um testão nisto, se a gente lhes dissesse assim, olha, preciso de uma...
da casa, eu a tinha pôs, e eu juntamente com a vizinha em frente. E também nunca ninguém vos ofereceu a possibilidade de comprar isto? Nada. Porque se calhar poderiam ter comprado isto ao longo da vida. Exatamente.
Eles é a Câmara. A Câmara de Valongo que nunca fez uma obra na casa destas pessoas ao longo de mais de 50 anos. Deixaram que eles melhorassem o interior. E agora querem demolir. Ao doar quem doer, o gabinete de imprensa dá uma resposta clara. As pessoas fizeram as obras porque quiseram. Não as deviam ter feito. Sabiam que a casa não era delas.
A casa não era deles porque a Câmara também nunca deixou que as comprassem. Mas foram eles quem as estimaram e as transformaram em verdadeiros lares. São pessoas humildes que recusam sair, recusam desistir, mostram o sofrimento que este processo lhes causa. Como é que tem sido isto também para a sua esposa psicóloga? Para ela e para mim é igual a ser ver como é que eu estou a ficar rouco do sistema nervoso. Uma risca com a pessoa.
Diariamente. Estamos sempre naquela no impasse, que às tantas eles chegam aí de soptom e deitam isto abaixo e nos obriga a sair à força. O problema é esse. Chega aqui porque eles falam aqui na polícia, se às vezes houver qualquer coisa, que vem a polícia, não sei o quê e tal. E a pessoa que tem que pagar as despesas, se a polícia tiver que vir aqui, tem que pagar, foi fora.
Todos falam em bullying e em falta de respostas, de um processo que está longe de estar terminado. Não parece haver solução à vista para estas pessoas que prometem resistir até ao fim. Para andar agora a comprar outras mobílias? Tenho. Nem dinheiro para isso. O processo é assim, nós temos a nossa reformazinha, nem é muito, nem é pouco.
mas não temos despesas nenhumas de saúde, infelizmente. Foi buscar há dias à farmácia. Já viu? Por parte da Câmara, também não há explicações. Do gabinete de imprensa dizem-nos que o presidente da autarquia não está disponível para responder em perguntas gravadas. Só o aceita fazer por escrito. Enquanto o gabinete de imprensa prefere, disseram-nos, uma conversa informal.
Há pessoas que aceitaram, portanto não é assim tão mau. E demos outras soluções aos moradores. Por exemplo, podiam ir para um hotel nas proximidades ou serem reintegrados noutro bairro. Mas não podíamos garantir que fosse na mesma freguesia. Com o Presidente da Câmara foi o jogo do gato e do rato.
Fomos para a porta para tentar confrontar com as queixas dos munícipes, mas o autarca preferiu fugir. No dia seguinte, regressámos. E Paulo Ferreira mandou um funcionário retirar o carro e apanhá-lo noutra rua. Nessa tarde, já nem voltou ao serviço.
O do Hacendoeiro foi também aos contentores, onde estes idosos terão de ser reelejados. Não é possível vermos o interior, mas o que encontramos mostra o quanto é impensável para estas pessoas ali morarem.
Serão estas as novas casas dos idosos que moram no bairro do Oteiro, em Valongo. São armazéns, são autênticos contentores. As escadas estão agora a ser feitas, são blocos de cimento colocados em cima.
uns dos outros, não há, por exemplo, nada para que os mais idosos se consigam apoiar, não temos aqui nenhum beiral, as escadas também são relativamente altas, o que é um problema, como sabemos, para pessoas de avançada idade, percebe-se aqui pelas portas que também...
Em termos de segurança, ela é claramente precária, porque estamos a falar de contentores, de meros contentores. Haverá aqui alguns de tipologia T1 e outros de tipologia T2, não se sabe exatamente.
A única coisa que percebemos é que terão ar condicionado, mas morarão estes idosos aqui nestes caixotes. E é uma população que não acredita que vá conseguir sair daqui, ou seja, não acreditam que consigam resistir a um ou dois anos nestas condições absolutamente precárias e que acabem então por nunca conseguir voltar a casa.
Sem respostas e só com a certeza de que não vão baixar os braços. Dia 15 de maio, esperam a chegada da polícia e recusam-se a sair. A ver vamos se a Câmara vai existir e se nessa altura os vai tirar à força. O Duac em Doer visitou os contentores onde vão morar estes idosos. A falta de condições é gritante, nem sequer existem corrimões para os apoiar na entrada das casas.
Estamos em Valongo, são aqui os contentores que vão servir de casa, pelo menos durante um ano, sendo certo que não se sabe exatamente quanto tempo é que estas obras vão demorar. É uma população maioritariamente idosa, que de facto terá que vir aqui para estes quadrados, que são quase contentores de obras, pouco mais do que isto. Vocês é a primeira vez que estão a ver isto? Eu, por exemplo, sim.
É a primeira vez que venho aqui. O seu pai recusa-se a vir aqui. O seu pai passou a longe, mas não veio ver com pormenor. Aliás, eu nem tinha noção destes blocos que eles vão usar para fazer degraus para as pessoas entrarem em casa. Estamos a falar de pessoas que têm imobilidade. Podemos descer? Podemos, sim. O seu avô tem mais de 80 anos, não é? E o seu pai? 84. 84. E ambos recusam-se a sair das casas.
Sim, principalmente isso. O meu pai muito revoltado, já tem discutido com outros vizinhos, outros moradores. Mas vocês nem sequer ainda viram isto por dentro? Não, não, não. Chegámos aqui uma vez, uma irmã minha veio, estava aqui os trabalhadores e pediu para entrar e eles não deixaram.
Portanto, não sabe se temos cozinhas montadas, se há... Não sabemos nada, não. Eles na Câmara dizem que tem fogão exaustor e que só têm de trazer, acho que é frigorífico, ou máquina de lavar roupa, uma das coisas. Supostamente, dizem, não é? Numa reunião que fizeram que só apareceram três moradores que não estão englobados no advogado, não estão connosco no advogado.
E terão, tem ar-condicionado, mas depois isto no inverno? Pois, não sei, tem esta terra toda, deve cair por aí abaixo, não sei. E porta com porta, quase a gente abre a porta da de logo de frente com a porta do vizinho. Não tem privacidade nenhuma. É assim, eles dizem que é um ano. Mas isto está tudo colado uns e outros, estão todos colados. É, é.
Isso é mesmo zero privacidade. É que estes degraus, estava-me a dizer, por exemplo, no caso de Tânia, o seu avô dificilmente acha que vai conseguir fazer este degraus. Porque isto não tem sequer o rimão. Não tem nada, exatamente. Estamos a falar de pessoas que têm problemas de locomoção. O meu avô tem artrite reumatoide.
E ele tem dificuldade a movimentar-se, a subir de escadas, até entrar para o carro é difícil para ele. Quer dizer, colocam aqui estes degraus, o que é que eles esperam? Eles não têm noção do tipo da faixa sanitária, da população que vem para aqui viver? A maioria, estamos a falar de médias de idades acima dos 75 anos. E depois é a revolta, o seu pai, nós estivemos em casa com o seu pai. O seu pai de facto está muito revoltado.
Antes de vocês chegarem, ele tinha discutido com o vizinho Sr. António. Tudo é uma tensão, não é? É isso, tudo. As pessoas estão muito nervosas. Ele revolta-se muito, chora, não me dorme, durante a noite telefona-me, às vezes insulta-me, até a mim mesma, porque eu acho que ele já não tem o que fazer, não consegue dormir, toma ansiolites, toma um calmante só para dormir, mas mesmo assim...
Não, a gente tenta fazer tudo, mas... Tem problemas de saúde, o meu avô é cardíaco, hipertensso e diabético, e está descontrolado, ele faz medicação todos os dias e não tem os valores controlados, desde que esta situação começou a ter piorado.
Pois, e também é estranho ainda nem sequer vos terem mostrado como é que são estes barracões, porque vocês não fazem a mínima ideia. Nós não recebemos a carta, eu e o meu avô ainda não recebemos a carta a dizer que tínhamos de sair. Mas nessa carta que eu via dos outros vizinhos que receberam, dizia que tínhamos de trazer as coisas para aqui dia 7 ao 8.
Não falava do que é que iria acontecer aos nossos outros bens que não caberiam aqui, não dizia nada disso. Não especifica nada. Não dizia o que é que seria da renda, se nós teríamos de continuar a pagar a renda ou não, não falam desses valores, falam da conta da água, da luz e da internet que estaria paga, mas e os nossos contratos.
porque a ME ou a nós, por exemplo, obrigam-nos a pagar os contratos até ao fim se nós quisermos mudar.
Eles não têm nada disso em consideração. Eles só querem colocar-nos aqui a fazer a obra, mas e tudo o resto, toda a logística, eles não têm isso em consideração. Sim, depois há a questão se os contratos de arrendamento se manterão antigos ou se são feitos novos. Teremos acesso às mesmas tipologias. Estamos a falar de contratos com quase 60 anos, que tinham leis em vigor na altura, que se calhar agora não estão.
E eles não mencionam nada disso, é tudo um secretismo. Porque o nosso compromisso é consigo, voltamos a estar juntos. Na próxima semana, do Há Quem Doer.