Trilogia do Sprwal Livro 1 Neuromancer
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- NeuromancerIntrodução ao livro e ao universo cyberpunk · Personagens: Case, Molly, Riviera, Armitage, Corto · Cenários: Chiba City, Night City, Freeside, Straylight · Tecnologia: Ciberespaço, implantes, IA (Wintermute) · Conflitos e trama: A missão de roubar o construto de Dixie Flatline · A história de William Gibson e a Trilogia do Sprawl
- Inteligência ArtificialWintermute e a natureza da consciência artificial · Interação entre humanos e IA · IA como ferramenta e antagonista
- Aventura em CyberpunkEstética e temas do gênero · Tecnologia avançada e decadência social · Corporações e crime organizado
- Personagens e suas motivaçõesCasey: O cowboy do ciberespaço em busca de redenção · Molly Millions: A Razor Girl e sua busca por justiça · Riviera: O artista do vício e da manipulação · Armitage/Corto: O soldado quebrado e a IA Wintermute
- A Vila StraylightArquitetura e ambiente da estação espacial · O clã Tessier-Ashpool e sua história · A cabeça falante e o busto de Armitage
- Justificativas da GuerraO incidente do Scream Fist e a traição militar · O papel de Corto como bode expiatório · O impacto da guerra na tecnologia e na sociedade
- A natureza da realidade e da consciênciaCiberespaço como alucinação consensual · A linha tênue entre o real e o virtual · A busca por identidade em um mundo tecnológico
- A busca pela palavra mágicaO papel do Intermute e do construto · A importância da palavra para a libertação · A natureza da consciência e da existência
E aí pessoal, dia 29 de dezembro de 2023, vamos começar o primeiro livro da trilogia de Sproul, o livro Neuromancer. Obrigado a todos que têm acompanhado o canal. Estamos tentando nos reerguer depois do revés e da perda do canal principal. Então, esse vai ser o primeiro livro Só
agora nessa nova empreitada de novo né então muito obrigado por que a gente vai acompanhando aí valeu pela força e se puder dar uma força para gente aí via pics ou contribuir no apoio do apoia.se lá eu agradeço que vamos precisar e como eu tenho ali alguns livros ainda
já comprados que eu não tinha feito a leitura né vou tocar o barco até onde der ali com eles e a hora que der a gente retoma de novo ali para comprar novos livros bom sem mais delongas vamos lá Neuromancer autor William Gibson quinta edição tradução de Fábio Fernandes editora Aleph
aqui eu vou soltar a introdução e anota ao leitor se quiserem confiram lá o livro tem a versão Kindle e a versão física pelo site da Amazon vale a pena a compra então corram lá parte 1 o shiba city blues um
O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar. Não é que eu esteja usando. Casey ouviu alguém dizer ao abrir o caminho na multidão aglomerada na porta do chat. Meu corpo aqui desenvolveu uma deficiência maciça de drogas. Era uma voz do Sproul e uma piada do Sproul.
O Shatsubo era um bar de expatriados profissionais. Você podia viver ali todos os dias durante uma semana e nunca ouvir duas palavras em japonês. Quem estava cuidando do bar era o Hatsi, que encheu uma bandeja de copos com cerveja Kirin Draft, com uma prótese de braço que se movia aos trancos. Ele viu o case e deu um sorriso. Seus dentes eram uma teia composta de aço do leste europeu e decomposição marrom.
Casey achou um lugar no bar entre o bronzeado improvável de uma das putas do lunizone e o uniforme naval perfeitamente engomado de um africano alto com as faces vincadas com fileiras precisas de cicatrizes tribais. O Eiji esteve aqui mais cedo com dois ajudantes, disse Hatsi, servindo-lhe uma cerveja com uma mão boa. Será que há algum negócio com você, Casey? Casey deu de ombros.
A garota à sua direita deu uma risadinha e um cutucão. O sorriso do bartender ficou ainda maior. Sua feiura era legendária. Numa era em que ser bonito saía barato, havia alguma coisa de heráldica na ausência de beleza que exibia. O braço antigo gemeu quando ele o estendeu para pegar outra caneca.
Era uma prótese militar russa, um manipulador com force feedback de sete funções, revestido com um plástico rosa encardido. Você é um artista e tanto, Herr Kaze. Hatz grunhou. O som era o equivalente de uma gargalhada para ele. Coçou a barriga flácida que caía da camiseta branca com a garra rosada. Você é o artista do negócio ligeiramente engraçado.
Claro, disse Casey e tomou um gole da cerveja. Alguém aqui tem que ser engraçado. E não é você, caralho. A risadinha da puta subiu uma oitava. Também não é você, minha filha. Então, vê se te mando, ok? Ozone amigo pessoal, íntimo meu. Ela olhou Casey no olho e fez o som mais suave possível de cuspe, mal movendo os lábios. Mas foi embora.
Meu Deus, disse Casey. Mas que motivo você tem aqui? Assim não dá para beber em paz. Ha! disse Hatz, passando um trapo na madeira cheia de marcas. Zona me dá uma porcentagem. Deixo você trabalhar aqui pelo valor de entretenimento.
Enquanto Casey tomava sua cerveja, um daqueles estranhos instantes de silêncio desceu, como se uma centena de conversas não relacionadas tivessem simultaneamente chegado à mesma pausa. Então um risinho da puta soou, revestido de uma certa histeria. Hatsi grunhou. Um anjo passou por aqui. Os chineses, berrou um australiano bêbado, foram os chineses que inventaram a reconfiguração neural, porra.
O continente é o melhor lugar para um trabalho neural. Eu te conserto direitinho, parceiro. Agora é isso, Casey disse para sua caneca. E todo o seu amargor subitamente lhe subiu como o Billy. Isso é uma mentira muito, filha da puta. Os japoneses já haviam esquecido mais neurocirurgia que os chineses jamais haviam aprendido.
As clínicas negras de Chiba eram de ponta. Escolas inteiras de conhecimento técnico suplantado mês a mês. E mesmo assim não conseguiram reparar o estrago que ele havia sofrido naquele hotel em Memphis. Um ano ali e ele ainda sonhava com o ciberespaço. A esperança morrendo um pouco a cada noite.
Todo o speed que tomou, todas as voltas que deu e as esquinas de Night City por onde passou. E ainda assim ele via a matriz em seu sono. Grades brilhantes de lógica se desdobrando sobre aquele vácuo sem cor. O Sproul ficava agora a um longo e estranho caminho de distância sobre o Pacífico. E ele não era mais nenhum cara do console. Nenhum cowboy do cyberspaço. Apenas mais um marginal na viração.
Mas os sonhos apareciam na noite japonesa como figuras de voodoo, eletroluminescentes. E ele gritava, chorava dormindo e acordava sozinho no escuro, curvado em posição fetal em sua cápsula, em algum hotel caixão. As mãos trincadas no colchonete, a espuma sintética enroscada entre os dedos, tentando alcançar o console que não estava lá.
Vi sua namorada ontem à noite, disse Hatsi, passando a Keise, sua segunda Kirin. Não tenho namorada, ele disse e bebeu. Senhorita Linda Lee. Keise balançou a cabeça. Não tem garota? Nada? Só negócios, amigo artista? Dedicação ao comércio? Os olhinhos castanhos do bartender estavam incrustados em rugas de carne.
Acho que eu gostava mais de você quando estava com ela. Você ria mais. Agora, manda-te dessas. Você pode acabar ficando artístico demais. Aí vai acabar em tanques de clínica, em peças avulsas. Estou ficando tão emocionado, Hatz. Ele terminou a cerveja, apagou e foi embora. Os ombros altos e estreitos encolhidos sobre o nylon khaki molhado de chuva da jaqueta.
Abrindo caminho zigue-zague pelas multidões de Ninsay, sentia o cheiro azedo do próprio suor. Casey tinha 24 anos. Aos 22, era um cowboy. Cowboy fora da lei. Um dos melhores no Sproul. Ele havia sido treinado pelos melhores. McCall, Paulie e Bob Kine. Landas do negócio.
Na época, operava num barato quase permanente de adrenalina, subproduto da juventude e da proficiência, conectado num deck de ciberespaço customizado que projetava sua consciência desincorporada na alucinação consensual que era a matriz.
Ladrão que trabalhava para outros ladrões mais ricos. Empregadores que forneciam o software exótico necessário para penetrar as muralhas brilhantes de sistemas corporativos, abrindo janelas para fartos campos de dados. Ele havia cometido o erro clássico, aquele que jurou jamais cometer. Roubou de seus empregadores. Guardou uma coisa para si e tentou repassá-la por um receptor em Amsterdã.
Até hoje ele não sabia ao certo como havia sido descoberto. Não que isso importasse agora. Na época, achou que fosse morrer, mas eles apenas sorriram. Claro que estava tudo bem, disseram a ele. Estava tudo bem ele ficar com a grana. Ele ia precisar. Por que, ainda sorrindo, iam se certificar de que o cowboy nunca mais trabalhasse?
Danificaram seu sistema nervoso com uma micotoxina russa dos tempos da guerra. Amarrado a uma cama de um hotel em Memphis, seu talento queimando micron a micron alucinou por 30 horas. O estrago foi minucioso, sutil e profundamente eficiente. Para Casey, que vivia até então na exultação sem corpo do ciberespaço, foi a queda.
Nos bares que frequentaram no seu tempo de cowboy fodão, a postura da elite envolvia um certo desprezo suave pela carne. O corpo era carne. Casey caiu na prisão da própria carne. O seu saldo total foi rapidamente convertido para...
Neuienes, uma pilha gorda do velho dinheiro de papel que circulava sem fim pelo circuito fechado dos mercados negros do mundo, como as conjas manias dos ilhéus trobriandenses. Era difícil fazer transações comerciais legítimas com o dinheiro vivo no Sproul. No Japão, já era ilegal. No Japão, ele sabia como uma certeza inabalável absoluta encontraria sua cura. Em Chiba
ou numa clínica registrada, ou na terra de sombras da medicina negra. Sinônimo de implantes, junções neurais e microbiônica, Shiba era um imã para as subculturas tecnocriminosas dos PROL. Em Shiba, viu o seu Neo e Enes desaparecer numa rodada de dois meses de exames e consultas.
Os homens das clínicas clandestinas, sua última esperança, haviam admirado a expertise com que ele fora mutilado e lentamente balançaram suas cabeças em negativa. Hoje ele dormia em caixões mais baratos, os que ficavam perto do porto, embaixo das lâmpadas halógenas de quartzo que iluminavam as docas a noite inteira como vastos palcos. Onde você não conseguia ver as luzes de toque por causa do brilho do céu da televisão?
nem mesmo a logo holograma gigantesco da Fuji Electric Company. E a Baía de Tóquia era uma extensão negra onde as gaivotas voavam em círculos sob ilhotas flutuantes de isopor branco. Atrás do porto havia a cidade, cúpulas de fábricas dominadas pelos cubos imensos da arqueologias corporativas.
Porto e cidade eram divididos por uma fronteira estreita de ruas mais antigas, uma área sem nome oficial. Night City e Nincei, seu coração. De dia, os bares da Nincei estavam fechados e não tinham traços distintivos. Os neons mortos, os hologramas inertes, esperando, sob o céu de prata envenenado.
Há dois quarteirões a oeste do Chet, numa casa chamada Jarre de Té, que exengoliu a primeira pílula da noite com um expresso duplo. Era um octógono rosa achatado, uma espécie potente de Dex brasileira, que uma das garotas do Ozone lhe venderam. As paredes do Jarre eram inteiras cobertas por espelhos, cada painel emoldurado em neão vermelho.
No começo, ao se ver sozinho em Shiba com pouco dinheiro e menos esperança ainda de encontrar uma cura, ele entrara numa espécie de overdrive terminal, conseguindo mais grana, assaltando com uma intensidade fria que parecia pertencer a outra pessoa. No primeiro mês, ele matou dois homens e uma mulher por quantias que, um ano antes, teriam parecido ridículas.
Ninzeu desgastou até que a própria rua ficou parecendo a externalização de um desejo de morte, um veneno secreto que ele não sabia que levava consigo. Night City era como uma experiência mal sucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de Fast Forward.
Pare de assaltar e você afunda sem deixar rastro. Mas mova-se um pouco rápido demais e você quebra a frágil tensão de superfície do mercado negro. De qualquer uma das duas maneiras, você já era. E não sobra nada seu a não ser uma vaga lembrança na mente de uma figura tipo Hatz. Embora o coração, os pulmões ou os rins possam sobreviver a serviço de algum estranho que tenha neo-ienes para apagar os tanques das clínicas.
Está parecendo Rio de Janeiro. O negócio ali era um constante zumbido subliminar. E a morte, o castigo aceito por preguiça, descuido, falta de sutileza. A incapacidade de atender as exigências de um intrincado protocolo. Sozinho numa mesa do jarre de té, com o octógono começando a bater. Alfinetadas de suor brotando nas palmas das suas mãos. Subitamente consciente de cada pelo arrepiado nos braços e no peito.
Casey sabia que, em algum momento, havia começado a jogar um jogo consigo mesmo. Um jogo muito antigo que não tinha nome. Uma espécie de paciência final. Ele não usava mais armas. Não tomava mais as precauções básicas. Fazia os negócios mais rápidos e arriscados da rua. E tinha a reputação de ser capaz de conseguir o que você quisesse.
Uma parte dele sabia que o arco de sua autodestruição estava ululantemente óbvio para seus clientes, que iam rariando, mas essa mesma parte se comprasia no conhecimento de que era apenas uma questão de tempo. E essa era a sua parte, que encarava a expectativa da morte com desprezo, que mais odiava pensar em Lindali. Ele a conhecia numa noite de chuva num fliperama.
Sob fantasmas brilhantes queimando através de uma névoa azul de fumaça de cigarros, hologramas do Wizard Castle, do Tank War Europa, a linha do horizonte de Nova York. E agora ele se lembrava dela assim, seu rosto banhado na incansável luz dos lasers, as feições reduzidas a um código. Suas bochechas banhadas em fogo escarlate ao mesmo tempo que o castelo do mago queimava,
a testa encharcada de azul quando Munique caiu na guerra dos tanques. Boca tocada com ouro quente enquanto um cursor deslizante tirava fagulhas da parede do desfiladeiro de um arranha-céu. Ele estava com uma tremenda parada naquela noite, levando um tijolo de cetamina de Weige para Yokohama e o dinheiro já no bolso.
Saíra na chuva quente que batia no asfalto de Nissei e soltava vapor. E de algum modo ela se destacara para ele. Seu rosto entre as dezenas que estavam de cara para os consoles, perdidos no game que jogavam. A expressão no rosto dela, naquele momento, era a mesma que ele vira, horas mais tarde, em seu rosto adormecido num caixão na região do porto. O lábio superior igual àquela linha que as crianças desenhavam para representar um pássaro em movimento.
Atravessando o fliperama para ficar do lado dela, viajando no barato do acordo que havia feito, ele a viu levantar a cabeça. Olhos cinzentos secundados por borrões de tinta preta. Olhos de um animal hipnotizado pelos faróis de um veículo se aproximando. A noite que passaram juntos prosseguiu pela manhã com passagem no rover porto e a primeira viagem que Casey fez pela Bahia.
A chuva continuava caindo ao longo de Harajuku, criando pérolas na jaqueta de plástico dela. As crianças de Tóquio marchando pelas famosas boutiques, usando chinelinhos brancos e capas de enrolar, até ela ficar com ele no barulho de um salão de pachinco à meia-noite e pegar na mão dele como se fosse uma criança.
Levou um mês para que a gestalt de drogas e tensão pela qual ele se movia transformasse aqueles olhos perpetuamente assustados em poços de necessidade reflexiva. Ele vira a personalidade dela se fragmentar, desfazendo-se como um iceberg, placas deslizando para longe, e finalmente testemunhou a necessidade crua, a armadura faminta do vício.
Ele a vira pular para a próxima trilha com uma concentração que o fez lembrar dos louvadeuses que vendiam em barracas ao longo de Xiga, ao lado de tanques de carpas azuis mutantes e grilos em gaiolas de bambu. Ele ficou olhando o anel preto de borra em sua xícara vazia. Ela vibrava com o speed que ele havia tomado.
O laminado marrom do tampo da mesa tinha uma patina fosca de pequenos arranhões. Com a Dex subindo pela sua espinha, ele viu os incontáveis impactos randômicos necessários para criar uma superfície daquelas. A decoração do jarre era de um estilo datado e sem nome do século anterior. Uma mistura difícil de tradição japonesa e plásticos brancos de milão.
Mas tudo parecia estar coberto por uma película sutil, como se as crises nervosas de um milhão de clientes de algum modo tivessem atacado os espelhos e os plásticos outrora brilhosos, deixando cada superfície nevoada com alguma coisa que nunca poderia ser apagada. Aí, Casey, meu camarada. Ele levantou a cabeça e seus olhos encontraram olhos cinzentos e moldurados com tinta preta.
Ela vestia um macacão orbital francês e novos tênis brancos. Estava te procurando, cara. Ela se sentou à sua frente e colocou os cotovelos na mesa. As mangas do Zip Suites azul haviam sido arrancadas nos ombros. Ele automaticamente verificou os braços delas em busca de sinais de dermas ou de agulhas. Quer cigarro?
Ela tirou um maço amassado de Ye-Hey-Yuan com o filtro de um bolso no tornozelo e lhe ofereceu um. Ele aceitou e deixou que ela o acendesse com um tubo de plástico vermelho. Você está dormindo bem, Casey? Está com a cara de cansado. O sotaque dela indicava que vinha do sul do Sproul, perto de Atlanta. A pele, abaixo dos olhos, era pálida e de aspecto doentio, mas a carne ainda era firme e macia.
Ela tinha 20 anos. Novas linhas de dor estavam começando a ficar permanentemente marcadas nos cantos de sua boca. Seus cabelos pretos estavam puxados para trás, presos por uma faixa de seda impressa. A padronagem podia representar micro-circuitos ou mapa da cidade. Não se eu lembrar de tomar minhas pílulas.
Ele disse quando uma onda tangível de saudade o atingiu. Desejo e solidão cavalgando na frequência de onda da anfetamina. Ele se lembrou do cheiro da pele dela na escuridão superaquecida de um caixão perto do porto. Os dedos entrelaçados na nuca. Toda a carne, ele pensou. E tudo o que ela quer. Wage, disse ela estritando os olhos. Ele quer te ver com um buraco na cara.
Ela acendeu seu próprio cigarro. Quem disse isso? Hats? Você falou com Hats? Não, Mona. O novo gato dela é um dos garotos do Weish. Eu não devo o suficiente a ele para isso. E se ele me apagar, vai ficar sem a grana. Deu de ombros. Tem gente demais vivendo para ele agora, Casey. Talvez ele faça de você o exemplo. Sério, melhor se cuidar. Claro.
E você, linda, tem onde dormir? Dormir? Ela balançou a cabeça. Claro, Casey. Ela estremeceu, se curvando sobre o tampo da mesa. O seu rosto tinha uma película de suor. Aqui, ele disse, e meteu a mão no bolso da jaqueta, retirando uma nota amassada de 50. Ela alisou automaticamente debaixo da mesa, dobrou em quatro e passou para ela.
Você precisa disso, meu amor. É melhor dar para o Wage. Agora vi uma coisa nos olhos e dentro dela que ele não conseguia ler. Uma coisa que nunca vira ali antes. Estou levando muito mais do que isso para o Wage. Pega. Eu tenho mais para chegar, mentiu, enquanto via seu Neo Iene desaparecer num bolso com zíper. Arruma teu dinheiro, Casey. E acha o Wage rapidinho.
A gente se vê por aí, linda, ele disse, levantando-se. Claro. Um milímetro branco aparecia embaixo de cada uma de suas pupilas. Sampaco. Te cuida, cara. Ele concordou, doido para sair dali. Olhou para trás quando a porta de plástico se fechou atrás dele e viu os olhos dela refletidos numa gaiola de neão vermelho. Noite de sexta, Paranin, sei.
Ele passou por barracas de yaktori e salões de massagem, uma franquia de cafeteria chamada Beautiful Girl, o trovejado eletrônico de um fliperama. Saiu do caminho para deixar um sarariman de terno escuro passar, exibindo a logo da Mitbich Genente Tech, tatuado nas costas da mão direita.
Seria autêntico? Se for real, pensou. O cara está com problemas. Se não for, bem feito para ele. Os empregados da MG, acima de um certo nível, recebiam implantes com microprocessadores avançados que monitoravam os níveis de mutagenos na corrente sanguínea. Um equipamento desses faria com que você fosse despachado na Night City. Despachado direto para dentro de uma clínica negra.
O Sarariman era japonês, mas a galera de Ninsei era uma gajin. Grupos de marinheiros vindos do porto, turistas tensos e solitários caçando prazeres que nenhum guia de viagem listava. Pessoal pesado do Sproul, exibindo enxertos e implantes em uma dezena de espécies diferentes de marginais, todos ocupando a rua numa intrincada dança de desejo e comércio.
Havia incontáveis teoria explicando por que Shiba City tolerava o enclave de Nisei. Mas Key tendia a crer na ideia de que Yakuza poderia estar preservando o local como uma espécie de parque histórico. Uma lembrança de origens humildes. Que Night City não estava ali para seus habitantes, mas como um playground deliberadamente supervisionado de tecnologia. Será que Linda tinha razão? Ele se perguntou olhando para as luzes.
Será que o Eiji mandaria matá-lo para fazer dele um exemplo? Não fazia muito sentido, mas o Eiji lidava basicamente com itens biológicos proscritos e diziam que era preciso ser louco para fazer isso. Mas ainda disse que o Eiji o queria morto. O primeiro insight de Casey na dinâmica da viração de rua era que nem o comprador nem o vendedor precisavam dele de verdade. O negócio intermediário se tornou um mal necessário.
O nicho dúbio de que Casey havia escavado para si mesmo na ecologia criminosa de Natsiri havia sido construído à base de mentiras e escorado aos poucos com traições todas as noites. Agora, sentindo que as suas paredes estavam começando a desmoronar, ele sentia a chegada de uma estranha euforia. Na semana anterior, havia atrasado a transferência de um extrato glandular sintético, vendendo-o no varejo com uma margem de lucro maior do que o normal.
Ele sabia que o Eiji não havia gostado disso. O Eiji era o seu principal fornecedor, nove anos em Shiba, e um dos poucos negociantes gaijin que conseguia forjar laços com um establishment criminoso, rigidamente estratificado além das fronteiras de Night City. Materiais genéticos e hormônios entravam em contagotas na ninzeia ao longo de uma intrincada escada composta de cortinas e fachadas.
De algum modo, o eixo havia conseguido traçar alguma coisa em dia e hoje gozava de conexões sólidas em uma dezena de cidades. Quando deu por si, que eles estavam olhando fixamente a vitrine de uma loja,
O lugar vendia objetos pequenos e brilhantes para marinheiros. Relógios, canivetes de mola, isqueiros, videocassetes de bolso, decks de sistim, correntes manquiri com pesos e shurikens. Os shurikens sempre fascinaram o case. Estrelas de aço com pontas afiadas como facas.
Algumas eram cromadas, outras pretas, outras ainda tratadas como uma superfície de arco-íris como óleo sobre água. Mas as estrelas de croma, que chamavam sua atenção, elas estavam dispostas sobre um fundo de ultracamurso escarlate com fios quase invisíveis de linha de pesca de nylon em seus centros, como estampas de dragões ou símbolos de Yin Yang. Eles capturavam o neon da rua e o distorciam.
E ocorreu a Casey que essas eram as estrelas sobre as quais ele viajava, seu destino traçado numa constelação de cromo barato. Júlio, ele disse para suas estrelas. Hora de ver o velho, Júlio. Ele sabe. Júlio, os de Anny, tinha 135 anos de idade. Seu metabolismo era constantemente alterado por uma fortuna semanal em soros de hormônios.
Sua primeira linha de defesa contra o envelhecimento era uma peregrinação anual a Tóquio, onde cirurgiões genéticos resetavam o código de seu DNA, um procedimento que não era disponível em Shiba. Então voava para Hong Kong e comprava os ternos e camisas da moda naquele ano. Asexuado e tinha uma paciência inumana.
parecia extrair sua satisfação básica numa dedicação a formas esotéricas de adoração a alfaiates. Cage nunca o vira vestir o mesmo terno duas vezes, embora seu vestuário parecesse consistir inteiramente de reconstruções meticulosas de roupas do século anterior.
ele afetava o uso de óculos com armação de ouro delicada como teia de aranha e lentes feitas a partir de placas finas de quartzo sintético cor-de-rosa e bisotadas com os espelhos de uma casa de bonecas vitoriana
Seus escritórios ficavam num armazém atrás da Nincei, parte dos quais pareciam ter sido decorados de modo esparso, anos antes, com uma coleção aleatória de imobiliário europeu, como se Diane um dia tivesse pensado em usar o lugar como sua casa. Estantes de livros neo-astecas juntavam pó, encostadas numa parede do aposento onde Casey ficou esperando.
Um par de lâmpadas de mesa bulbosa tipo distens se equilibravam desajeitadas sobre uma mesinha de café estilo Kandinsky em aço laqueado de escarlate. Um relógio dali pendia na parede entre as estantes, seu rosto distorcido escorrendo até o chão de concreto nu. Seus ponteiros eram hologramas que se alteravam para culminar com as convoluções da face à medida que giravam.
Mas nunca diziam a hora certa. O aposento estava repleto de módulos de carga de fibra de vidro branca empilhados que desprendiam o cheiro forte de gengibre em conserva. Você parece estar limpo, meu filho, disse a voz desencorporada de Diane. Entre, por favor. Travas magnéticas se abriram ao redor da porta maciça de imitação de pau rosa à esquerda das estantes.
As palavras Július Diani em Import Export estão escritas em caixa alta no plástico com autoadesivos descartáveis. Se a mobília espalhada no folheiro improvisado de Diani sugeria o fim do século passado, o escritório propriamente dito parecia pertencer ao seu começo.
O rosto totalmente liso e rosado de Gianni Caravacate de dentro de uma poça de luz lançada por uma antiga luminária de bronze com quebra-luz retangular de vidro verde escuro. O importador estava protegido atrás de uma imensa mesa de aço pintado, flanqueada a cada lado por arquivos altos feitos de algum tipo de madeira clara.
O tipo de coisa, supôs Casey, que um dia devia ter sido utilizado para armarzenar registros escritos de alguma espécie. O tampo da mesa estava atulhado de fitas, cassete, rolos de formulários contínuo amarelado e várias partes de alguma espécie de máquina de escrever mecânica. Uma máquina que Diane aparentemente nunca se deu ao trabalho de remontar. O que traz você aqui, garotão? Perguntou Diane, oferecendo a Casey um bom...
um bombom fino embrulhado em papel xadrez azul e branco. Experimente um. Ting ting de jarre, o melhor que existe. Keise recusou o gengibre, sentou-se numa poltrona giratória de madeira que gemeu e passou o polegar pelo vinco esmaecido de uma das pernas do seu jeans preto. Júlio, ouvi dizer que o Ege quer me matar. Ah, nossa!
E aonde você ouviu isso? Posso saber? Pessoas. Pessoas, disse Diane, entre uma mastigada e outra de bombom de gengibre. Que tipo de pessoas? Amigos? Casey fez que sim com a cabeça. Nem sempre é fácil saber quem é seu amigo, não é? Acontece que estou mesmo devendo uma graninha para ele, Diane. Ele disse alguma coisa para você?
Não tenho tido contato com ele ultimamente, suspirou. Se eu soubesse alguma coisa, claro, poderia não estar em condições de lhe dizer. As coisas são o que são, você entende? Coisas? Ele é uma conexão importante, Casey. Sei. Ele quer me matar, Júlio? Não que eu saiba, Janitor de ombros. Eles podiam estar discutindo o preço do gengibre.
Se for um boato infundado, meu filho, volte em uma semana e lhe darei participação numa coisinha de Singapura. Uma coisinha que veio do Nan High Hotel? Na Binko Oni Street? Você fala demais, meu filho. Jane deu um sorriso feroz. A mesa de aço estava repleta com uma fortuna de equipamento de escuta. Até mais, Júlio. Vou dar um oi pro beijo.
Os dedos de Diane ajeitaram o nó perfeito da gravata de Cida Clara. Ele estava a menos de um quarteirão do escritório de Diane quando a coisa bateu. A súbita consciência celular de que alguém estava na sua cola e muito perto. O cultivo de uma certa paranoia domada era uma coisa que Casey já encarava como natural.
O truque estava em não deixar que ela fugisse ao controle. Mas podia ser um truque tanto para quem estava bancando por uma pilha de octógonos. Ele lutou contra o surto de adrenalina e recompôs suas feições magras numa máscara de vazio entediado, fingindo deixar a multidão levá-lo. Quando viu uma vitrine escurecida, conseguiu fazer uma pausa em frente a ela. O lugar era uma boutique cirúrgica fechada para a reforma.
Com as mãos nos bolsos de sua jaqueta, olhou pelo vidro, um losango achatado de carne cultivada em tanques, sobre um pedestal esculpido imitando Jade. A cor da pele o lembrou das putas do Zony. Estava tatuada com um display digital luminoso conectado a um chip subcutâneo. Pra que cirurgia? Se pegou pensando. O soro escorrendo pelas costas. Se você podia simplesmente levar a coisa no bolso.
Sem mover a cabeça, olhou para cima e estudou o reflexo da multidão que passava. Ali. Atrás de manieiros com uniforme khaki de mangas curtas. Cabelos pretos, olhos espelhados. Roupas pretas, corpo esguio. E sumiu. Keise começou a correr, meio curvado, driblando os corpos. Me alugou um armachine. O garoto sorriu. Duas horas.
Eles estavam atrás de uma barraca de sushi de Shiga, envoltos pelo cheiro do fruto do Mar Cruz. Você volta daqui duas horas. Eu preciso de uma arma já, cara. Não tem nada agora, não? Shin procurou atrás de duas latas de dois litros vazias que um dia tiveram cheias de raiz forte em pó. Eu erguei um pacote fino embrulhado em plástico cinza. Taser. Uma hora. Vinte N. E. N. Trinta depósito.
Eu não preciso disso. Preciso de uma arma. Tipo assim para atirar em alguém, entende? O garoto deu de ombros e tornou a colocar o taser atrás das latas de raiz forte. Duas horas. Ele entrou na loja sem se dar ao trabalho de dar uma olhada na vitrine de shurikens. Nunca atiraram na vida.
Comprou dois maços de Yehuang com um chip do Mitsubishi Bank que dava seu nome como Charles Derek May. Pelo menos era mais interessante do que Truman Star, o melhor que havia conseguido para seu passaporte. A japonesa atrás do terminal parecia ter alguns anos a mais que o velho Diane. Nenhum deles com o benefício da ciência.
Ele tirou seu rolo magro de Neuíanes do bolso e mostrou para ela. Quero comprar uma arma. Ela fez um gesto na direção de uma vitrine cheia de facas. Não, disse ele. Não gosto de facas. Ela pegou uma caixa oblonga debaixo do balcão. A tampa era de papelão amarelo, com o carimbo que trazia a imagem tosca de uma nagem roscada com o capuz inchado.
Ele ficou olhando, enquanto dedos com manchas marrons retiravam o embrulho de papel de um deles. Ela segurou o objeto para que ele pudesse examiná-lo. Um tubo de aço fosco com uma tira de couro numa das extremidades e uma pequena pirâmide de bronze na outra. Ela agarrou o tubo com uma das mãos, pegou a pirâmide com o polegar, indicou o indicador e puxou.
Três segmentos lubrificados e telescópicos de mola bem rolada deslizaram para fora e travaram. Naja, disse ela. Além do tremor de neon de Nincei, o céu tinha aquele tom de cinza sinistro. O ar havia ficado pior. Parecia ter dentes essa noite e metade da multidão usava máscaras com filtro.
Casey havia passado dez minutos no banheiro tentando descobrir um jeito conveniente de esconder sua naja. Acabou se contentando em enfiar o cabo na cintura dos jeans com o tubo encostando na barriga. A ponta piramidal de ataque ficava entre suas costelas e o vinco de sua jaqueta. Casey tinha a sensação de que a coisa podia deslizar e cair no chão a cada passo que dava, mas ela sim se sentia melhor.
O chat não era um bar para negócios, na verdade, mas nas noites durante a semana atraiu uma clientela regular. Nas sextas e nos sábados era diferente. Os regulares ainda estavam ali, a maioria deles, mas desapareciam atrás de um afluxo de marinheiros e especialistas que atuavam como seus predadores. Quando o case entrou, seus olhos procuraram por Hatz, mas o bartender não estava visto.
Lone Zone, o cafetão residente do bar, observava com interesse paterno doentio enquanto uma de suas garotas ia trabalhar com um jovem marinheiro. Zone era viciada em uma marca de hipnótico que os japoneses chamavam Cloud Dancers. Olha só, parece no jogo isso aí. Assim que chamou a atenção do cafetão, Casey fez um gesto para que ele fosse até o bar.
Zony deslizou em câmera lenta por entre a multidão. Seu rosto comprido, flácido e pálido. Você viu o Eji hoje, Luni? Zony olhou para ele com sua calma acostumeira, balançou a cabeça. Tem certeza, cara? Quem sabe no Namban, talvez duas horas atrás. Ele está com algum ajudante? Um deles, magro, de cabelos pretos. Talvez uma jaquita preta?
Não, Zony disse finalmente, até a Stalisa vincando-se para indicar o esforço que lhe custava lembrar de tantos detalhes sem sentido. Caras grandes, enxertados. Os olhos de Zony mostravam muito pouco branco e íris menos ainda. Sobre as pálpebras caídas, as pupilas estavam dilatadas e enormes. Ele encarou o rosto de Casey por um longo tempo. E então abaixou a cabeça.
viu o volume do chicote de aço. Naja, ele disse, e levantou uma sobrancelha. Tá a fim de foder com alguém? Tchau, Luin. Casey foi embora. Seu perseguidor havia voltado, ele tinha certeza. Sentiu uma pontada de animação, octógonos e adrenalina se misturando com alguma outra coisa.
Você está gostando, pensou. Você é maluco. Porque, de algum modo bizarro e muito aproximado, era como uma incursão na matriz. Bastava ficar doidão o suficiente e se meter em problemas desesperadores, mas extremamente arbitrários. E era possível ver a NINSEI como um campo de dados. A forma como a matriz um dia o fizera se lembrar de proteínas ligadas para distinguir especialidades de células.
Você podia se jogar numa deriva em alta velocidade e deslizar, totalmente focado, mas separado de tudo e todos ao seu redor, dançando a dança dos negócios, interagindo informações dados encarnados nos labirintos do mercado negro. Vamos nessa, que ele disse para si mesmo. Atrai esses otários. A última coisa que eles iriam esperar. Estava meio quarteirão do fliperama onde havia conhecido o Lindalee.
Saiu correndo pela Nincei, espalhando um bando de marinheiros que passeavam por ali. Um deles gritou para ele em espanhol. Então ele passou pela entrada, o som atingindo como uma onda batendo no quebra-mar, subsônicos pulsando na boca do estômago.
Alguém conseguiu uma explosão de 10 megatons no tanque Warrior Op. Uma rajada de ar simulada afogando o fliperama em um som branco, quando uma lúgubibola de fogo holográfica formava um cogumelo bem alto. Ele cortou para a direita e subiu um lance de escadas de madeira barata sem pintura. Havia subido ali uma vez com o Eiji para discutir o negócio de gatilhos hormonais proscritos com um sujeito chamado Matsuga.
Ele se lembrava do corredor, do carpete manchado, da fileira de portas idênticas que davam para minúsculos escritórios cubículos. Uma das portas estava aberta agora. Uma garota japonesa, vestindo uma camiseta preta sem mangas, de frente para um terminal branco, levantou a cabeça. Atrás dela, um cartaz de viagem da Grécia, azul e gel misturado com ideogramas estilizados.
Chame a segurança aqui, agora, Casey disse para ela. Então ele disparou o corredor abaixo e saiu da vista dela. As últimas duas portas estavam fechadas e, ele supôs, trancadas. Virou e deu um coice com a sola de seu tênis de nylon na porta do aglomerado laqueada de azul na outra ponta. Ela instalou material de construção barato caindo da moldura em lascas.
Tudo escuro, a curva branca da caixa de um terminal. Então seguiu para a porta à sua direita, com as duas mãos na maçaneta de plástico transparente, inclinando-se com toda a força. Alguma coisa estalou e ele entrou. Foi ali que ele e o Ei já haviam se reunido com Matsuga, mas a empresa de fachada que Matsuga havia operado já havia saído dali há muito tempo. Não havia terminal, não havia nada.
Luz do beco atrás do flipper, filtrada por plástico sujo de foligem. Ele reconheceu um rolo de fibras óticas, enroladas como uma cobra, saindo de uma tomada na parede. Uma pilha de embalagens de comidas descartáveis e nas celas sem lâminas de um ventilador elétrico. A janela era uma placa única de plástico barato. Ele tirou a jaqueta, enrolou-a na mão direita e deu um soco.
A janela rachou, mas foram necessários mais dois socos para soltá-la da moldura. Sobre o caos em baixo volume dos games, um alarme começou a soar, acionado pela janela quebrada ou pela garota do começo do corredor. Cage se virou, tornou a vestida jaqueta e abriu a nage em toda sua extensão. Com a porta fechada, ele contava que seu perseguidor supusesse que havia pulado pela janela aberta a pontapés.
A pirâmide de bronze da Naja começou a se mover suavemente, o eixo de aço da mola amplificando sua pulsação. Não aconteceu nada. Só ouviu o alarme tocando, o barulho dos games, seu coração batendo alucinado. Quando o medo bateu, foi como um amigo que andava meio esquecido.
Não um mecanismo frio e rápido da paranoia antex, mas simples medo animal. Ele vivia há tanto tempo no limite consciente da ansiedade que quase se esquecera de como era ter medo de verdade. O cubículo era o tipo de lugar onde pessoas morriam. Ele poderia morrer ali. Eles poderiam estar armados. Um barulho de algo caindo no outro lado do corredor. Uma voz de homem gritando algo em japonês.
Um grito agudo de terror. Outro barulho. E passos, sem pressa, chegando cada vez mais perto. Passando direto por sua porta fechada. Passando, parando no espaço de três batidas rápidas de seu coração. E voltando. Um, dois, três. O solado de uma bota arranhando o carpete. O resto da coragem induzida pelo octógono desabou.
Ele meteu a naja no saque e correu para a janela, tropeçando em tudo, cego de medo, os nervos gritando. Subiu, saiu e caiu antes mesmo de ver o que estava fazendo. Quando bateu os pés no chão, sentiu uma grande dor, como se tivesse enfiado barras de metal em suas panturrilhas. Uma fatia estreita de luz de uma porta de serviço meio aberta enquadrava uma pilha de fibras óticas descartadas e o chassi de um console sucateado.
Ele caiu de cara numa placa de circuito encharcada. Rolou de lado para dentro da sombra do console. A janela do cubículo era um quadrado de luz fraca. O alarme ainda oscilava mais alto ali, a parede dos fundos amortecendo o rugido dos games. Uma cabeça surgiu emoldurada pela janela, iluminada pelas luzes fluorescentes no corredor, e então sumiu.
Ela voltou, mas ele continuou não conseguindo distinguir as flexões. Um flash prateado na altura dos olhos. Merda, disse alguém. Uma mulher, no sotaque da região norte de Sproul. A cabeça desapareceu. Case ficou deitado embaixo do console. Contou bem devagar até 20 e depois se levantou. A naja de aço ainda estava em sua mão e levou alguns segundos para lembrar o que era.
Saio do beco mancando, tentando não forçar o tornozelo esquerdo.
A pistola de Shin era uma velha imitação vietnamita de uma cópia sul-americana de uma Walter PPK, dupla ação no primeiro disparo, com um coice muito forte. Estava modificada para disparar munição de rifle de cano longo calibre .22. E Keiris teria preferido balas explosivas de nitreto de chumbo às dum-dum chinesas simples que Shin havia lhe vendido.
Mesmo assim, era uma arma e nove pentes de munição. Quando saiu da barraca de sushi e começou a descer Shiga, enfiou-a no bolso da jaqueta. A coranha de plástico vermelho vivo moldurado em forma de dragão em alto relevo. Uma coisa para sentir com os dedos no escuro. Depositou a naja num latão de lixo em Ninsei e engoliu outro octógono a seco.
A pílula acendeu seus circuitos e ele desceu no fluxo da Shiga até a Nisei e depois para a Baitzu. Deduziu que seu perseguidor tinha sumido e isso era ótimo. Tinha ligações a fazer, transações para realizar e isso não podia mais esperar. Descendo a Baitzu, uma quadra na direção do porto, ficava um prédio de escritório de dez andares em tijolos amarelos horríveis.
Suas janelas estavam apagadas agora, mas um brilho suave no telhado era visível se você levantasse o pescoço. Um sinal de neão apagado perto da entrada principal formava as palavras SHIP HOTEL, sob um aglomerado de hologramas. Esse lugar tinha outro nome que se desconhecia. Ele era sempre chamado de SHIP HOTEL, HOTEL BARATO.
A entrada ficava no beco transversal a Baito, onde o elevador aguardava os pés de um poço transparente. O elevador, assim como o Chip Hotel, era um pensamento a posteriori, amarrado ao prédio com bambu e epóxi. Casey subiu numa gaiola de plástico e usou como sua chave um pedaço de fita magnética rígida sem marcas.
Quem se havia alugado um caixão ali, um aluguel por semana, desde que chegaram a Shiba, mas nunca dormiram no Chip Hotel. Ele dormia em lugares mais baratos. O elevador tinha cheiro de perfume e cigarros. Os lados da gaiola estavam arranhados e com manchas de sangue. Quando passou pelo quinto andar, viu as luzes da Ninsei. Batucou os dedos na coronha quando a gaiola reduziu a velocidade com um cimilar gradual.
Como sempre, o elevador parou com um tranco violento, mas ele já estava preparado. Saiu no pátio, que era uma mistura de saguão e gramado. No centro do carpete quadrado de grama plástica verde, um adolescente japonês estava sentado atrás de um console em forma de C, lendo um manual técnico.
Os caixões brancos de fibra de vidro estavam empilhados em uma estrutura tipo andames industriais. Seis andares de caixões. Dez caixões de cada lado. Queixar cenou com a cabeça na direção do garoto e foi mancando pela grama plástica até a escada mais próxima. O conjunto tinha um teto de laminado preto vagabundo que sacolejava com vento forte e vazava quando chovia. Mas os caixões eram razoavelmente difíceis de abrir sem uma chave.
A passarela de expansão vibrava com seu peso enquanto ele seguia ao longo do terceiro andar, até o número 92. Os caixões tinham 3 metros de comprimento, as escotilhas ovais 1 metro de largura e pouco menos de 1 metro e meio de altura. Enfiou a chave num slot e aguardou a verificação do computador da casa. Travas magnéticas se abriram com um som reconfortante e a escotilha subiu verticalmente com um ranger de molas.
Luzes fluorescentes acenderam piscando quando ele se arrastou para dentro, fechando a escotilha e acionando o painel que ativava a trava manual. Não havia nada no número 92, a não ser um computador de bolso Hitachi padrão e um pequeno isopor branco. O isopor continha os restos de três placas de 10 kg de gelo seco, cuidadosamente envoltas em papel para retardar a evaporação, e um frasco de laboratório de alumínio.
Agachado sobre o colchonete de espuma sintética marrom que servia tanto de chão quanto de cama, Casey tirou a 22 de chin do bolso e colocou em cima do isopor. O terminal do caixão era moldado dentro de uma parede côncava, em frente a um painel que listava as regras da casa em sete idiomas.
O case retirou o handset cor-de-rosa de seu caro e digitou de memória o número de Hong Kong. Deixou tocar cinco vezes, depois desligou. Seu comprador dos três megabytes de RAM quente de Hitachi não estava aceitando ligações. Teclou o número de Tóquio em Shinzuko. Uma mulher respondeu japonês. Homem cobra tá aí?
É ótimo te ouvir, disse o Homem Cobra falando de uma extensão. Estava esperando você ligar. Estou com a música que você queria. Olhando de relance para o isopor. Fico muito feliz em saber. Estamos com um probleminha de fluxo de caixa. Você segura a onda? Ih cara, eu preciso muito dessa grana.
O homem cobra desligou. Seu merda, Casey disse para o fone que zumbia. Ficou olhando para a pistolinha vagabunda. Embaçado. Tudo embaçado hoje. Casey entrou no chat uma hora antes do amanhecer. As mãos no bolso da jaqueta. Segurava a pistola alugada, a outra com um frasco de alumínio.
Hatz estava numa mesa dos fundos, bebendo água Apolonares e uma caneca de cerveja, seus 120 quilos de carne flácida inclinados contra a parede, numa cadeira que rangia. Um garoto brasileiro de nome Kurt estava no bar, servindo uma pequena multidão de bêbados, em sua maioria silenciosos. O braço plástico de Hatz zumbia quando ele levantava a caneca e bebia. Sua cabeça raspada tinha uma película de suor.
Você parece mal, meu amigo artista, ele disse, mostrando a ruína molhada de seus dentes. Eu estou bem, disse Casey, e sorriu como uma caveira. Super bem. Afundou na cadeira em frente a Hatz, as mãos ainda nos bolsos. E você fica andando de um lado para o outro nesse abrigo antibombas portátil, construído com bebidas estimulantes. Você é a prova de emoções mais fortes, não é?
Por que você não larga do meu pé, Ratz? Você viu o Eiji? A prova de medo e de solidão, continuou o bartender. Ouça o medo. Talvez ele seja seu amigo. Você ouviu alguma coisa sobre uma briga no flipper essa noite, Ratz? Alguém se machucou? Uma pessoa maluca cortou um segurança, ele deu de ombros. Dizem que foi uma garota. Preciso falar com o Eiji, Ratz.
Ah, a boca de rato se estreitou, comprimindo até formar uma linha reta. Ele olhou para a entrada atrás de Casey. Acho que você vai falar com ele agora. Casey teve um vislumbre rápido do shuriken na vitrine. O speed cantava na sua cabeça. A pistola em sua mão estava lisa de suor.
— Herr Weij, disse Hatz, estendendo lentamente seu manipulador cor-de-rosa, como se esperasse um aperto de mão. — Que grande prazer! É tão raro o senhor nos honrar com sua presença. Kers virou a cabeça e olhou direto no rosto de Weij. Era uma máscara bronzeada e esquecível. Os olhos eram transplantes Nikon verde-água cultivados em tanques.
O eixo vestia um terno de sida metálica e um único bracelete de platina em cada pulso. Estava acompanhado por seus ajudantes, um de cada lado. Jovens quase idênticos, os braços e ombros estourando com músculos enxertados. Como vai, Casey? Cavalheiros, disse Hatz, levantando o cinzeiro cheio de cinza da mesa com agarra de plástico. Não quero saber de confusão aqui.
O cinzeiro era feito de plástico duro e inquebrável e tinha um anúncio de cerveja Tsingital. Hatsu esmagou sem esforço, derramando uma cascata de bitucas e lascas de plástico verde no tampo da mesa. Entenderam? É, coração? Perguntou um dos ajudantes. Quer testar esse negócio aí em mim?
Kurt, nem se deu ao trabalho de mirar nas pernas, disse Hatz em tom de bate-papo. Case olhou discretamente para o outro lado e viu o brasileiro em pé no bar, apontando uma escopeta Smith e Whiston para o trio.
O cano daquele negócio, feito de ligas da espessura de uma folha de papel, com um quilômetro de filamento de vidro, tinha o diâmetro de um punho. O pente transparente revelava cinco cartuchões de laranja, balas gelatinosas tipo saco de aria subsônicas. Tecnicamente não letais, disse Hatz. Hop Hatz, disse Kayser. Te devo uma, hein? O bartender deu de ombros.
Mas você não me deve nada. Mas estes aqui... Ele olhou fuzilando para o Eiji e seus ajudantes. Já deviam saber. Ninguém apaga ninguém aqui no chato zubo. O Eiji torceu. Mas quem é que está falando de apagar alguém? Só queremos falar de negócios. Case e eu. A gente trabalha juntos. Case puxou o 22 do bolso e apontou para o saco de o Eiji.
Ouvi dizer que você queria me matar. A garra rosada de ratos se fechou ao redor da pistola e Casey abriu os dedos. Escuta, Casey. Você quer me dizer logo que merda é essa? Tá maluco? Que merda de papo é esse que estou querendo te matar? O ele se voltou para o rapaz da sua esquerda. Vocês dois, voltem para o Nambam. Esperem por mim.
Casey ficou olhando os ajudantes atravessarem o bar que agora estava inteiramente deserto, a não ser o poor Curtin e o marinheiro bêbado de uniforme cac, todo enroscado no pé de uma banqueta. O cano da Smith e o Whiston rastreou os dois até a porta e depois voltou a cobrir o beijo. O pente da pistola de Casey caiu sobre a mesa. Rato segurava a arma na sua garra e tirou a bala da câmara.
Quem foi que te disse que eu ia te pegar, Casey? Perguntou o Eish. Linda. Quem foi que te disse, cara? Alguém que está tentando armar pra cima de você? O marinheiro soltou um gemido e vomitou explosivamente. Tira ele daqui! Hats gritou para a corte, que agora estava sentado na borda do balcão do bar. Há Smith & Whiston no colo, acendendo o cigarro.
Cage sentiu o peso da noite descer sobre ele como um saco de lia molhada atrás dos olhos. Tirou o frasco do bolso e entregou para o eixo. Foi tudo o que consegui. Pituitárias. Se você repassar rápido, dá para arrumar quentinhos. Gastei o resto em RAM, mas agora já foi. Você está legal, Cage? O frasco já havia sumido atrás dela pela metálica.
Quer dizer, tudo bem, isso aqui acerta a nossa parada, mas você parece mal. Parece um saco de bosta. É melhor você ir para algum lugar dormir. É? Ele se levantou e sentiu o chat girar. Bom, eu tinha uma nota de 50, mas dei para uma pessoa. Ele deu um risinho. Apanhou o pente da 22 e o cartucho soltou.
e jogou tudo nos bolsos. Depois colocou a pistola no outro. Tenho que ver o xim. Pegar meu depósito de volta. Vá pra casa, disse Hatz, se mexendo na cadeira que rangia com uma expressão que parecia de embaraço. Artista, vá pra casa. Sentiu os olhos deles ao atravessar o salão e abrir caminho pelas portas de plástico com sombras.
Piranha, ele disse para a pintura rosada que cobria a chiga. Descendo a Ninsei, os hologramas começavam a desaparecer como fantasmas e a maioria dos neons já estava fria e morta. Ele tomou um café preto bem forte num copão de isopor de um vendedor de rua e ficou vendo o sol nascer. É melhor fugir, meu amor. Cidades como esta aqui são para gente que gosta de descer ladeira abaixo.
Mas não era isso, na verdade. E ela estava achando cada vez mais difícil manter a sensação de traição. Ela só queria uma passagem de volta para casa. E a Rano, seu Hitachi, compraria isso para ela, se ela conseguisse encontrar o receptador certo. E aquele negócio com os 50. Ela quase recusou o dinheiro, porque sabia que estava prestes a limpar o resto de grana que ele tinha.
Quando saiu do elevador, o mesmo garoto estava na mesa. Manual técnico diferente. Bom garoto, Casey gritou do outro lado do gramado de plástico. Não precisa me dizer, já sei. Moça bonita veio visitar, disse que tinha minha chave. Boa gorjeta para você, vamos dizer, 50 aneus. O garoto baixou o livro.
Mulher, disse Casey, e traçou uma linha na testa com o polegar. Seda, ele deu um grande sorriso. O garoto retribuiu o sorriso e fez que sim. Valeu, seu bosta, disse Casey. Na passarela, teve dificuldades com a fechadura. Ela fodeu com a coisa de algum jeito quando tentou abrir a porta, pensou. Iniciante. Ele sabia onde alugar uma caixa preta que abria qualquer coisa no chip hotel.
Florescentes se acenderam quando ele entrou. Fecha a escotilha bem devagar, meu camarada. Ainda está com aquela especial de sábado à noite que alugou do garçom? Ela estava sentada de costas para a parede do outro lado do caixão. Joelhos para cima, pulso descansando sobre eles. O cano furadinho tipo o saleiro de uma pistola de dardos emergiu de suas mãos. Era você lá no flipper?
Ele fechou a escotilha. Cadê a linda? Aperte o botão da trava. Ele apertou. É sua namorada? Linda? Ele fez que sim. Ela se mandou. Levou o seu Hitachi. Garotinha nervosa. E essa arma aí, cara?
Ela usava óculos espelhados. Suas roupas eram pretas. Os saltos das botas pretas afundavam na espuma sintética. Levei pro chin. Peguei meu depósito de volta. Vendi as balas pela metade do que paguei. Quero dinheiro? Não. Quer gelo seco? É só o que eu tenho agora. O que é que te mordou esta noite? Por que é que fez aquele escândalo todo no flipper?
Eu tive que sentar o cacete num segurança que veio atrás de mim com um nunchaku. Linda disse que você ia me matar. Linda disse? Eu nunca vi essa garota antes de vir aqui. Você não está com o Eiji? Ela balançou a cabeça em negativa. Ele percebeu que as lentes eram implantadas cirurgicamente, fechando as cavidades de seus olhos.
As lentes de prata pareciam brotar da pele branquinha e macia sobre as maçãs do rosto e molduradas por cabelos pretos cortados de modo selvagem. Os dedos fechados ao redor da pistola de dardos eram compridos, brancos e com unhas pintadas de bordô. As unhas pareciam artificiais. Acho que você fez merda, Casey. Eu apareci e você simplesmente me encaixou na sua imagem de realidade.
Então o que é que você quer, minha senhora? Ele relaxou contra a escotilha. Você, um corpo vivo, cérebro ainda intacto e de alguma forma. Molly, Casey. Meu nome é Molly. Estou coletando você para o homem para quem trabalho. Ele só quer falar com você, só isso. Ninguém quer te machucar. Que bom. Só que às vezes eu machuco as pessoas, Casey. Acho que é o meu hardware.
Ela vestia jeans de couro preto justíssimos e uma jaqueta preta grande, feita de algum material fosco que parecia absorver a luz. Se abaixar esta arma de darts, você vai se comportar, Casey? Você parece do tipo que gosta de se arriscar estupidamente. Epa, sou gente boa. Sou o maior mané, sem problema. Isso é ótimo, cara. A pistola de darts desapareceu dentro da jaqueta.
Porque se você tentar foder comigo, vai fazer uma das maiores merdas de toda sua vida. Ela acendeu as mãos com as palmas viradas para cima, os dedos brancos ligeiramente abertos e com um clique ligeiramente audível. Dez lâminas de bisturi dupla face de 4 centímetros deslizaram de dentro de suas bainhas embaixo das unhas bordô. Tá porra!
Ela sorriu. As lâminas se recolheram lentamente. Uau! Que intenso, hein? 2. Após um ano de caixões, o quarto no vigésimo quinto andar do Shiba Hilton parecia uma enormidade. Tinha dez metros por oito, metade de uma suíte.
Uma cafeteira brown branca soltava vapor em uma mesinha perto dos painéis deslizantes de vidro que davam para uma varanda estreita. Tome um café. Parece que você está precisando. Ela tirou a jaqueta preta. A pistola de dardo estava pendurada embaixo de seu braço num coldre de ombro de nylon preto. Ela vestia um pullover cinza, sem mangas, com zíperes de aço sobre cada ombro.
A prova de balas, Casey deduziu, derramando café numa caneca vermelha brilhante. Seus braços e pernas pareciam feitos de madeira. Casey, ele levantou a cabeça e viu o homem pela primeira vez. Meu nome é Armitage. O roubo escuro estava aberto até a cintura, mostrando o peito largo, musculoso e sem pelos e a barriga rígida. Olhos azuis tão claros que Casey pensou em descoloração.
O sol raiou, Casey. Este é seu dia de sorte, rapaz. Casey girou o braço e o homem se desviou fácil do café escaldante. Uma mancha marrom escorrendo pelo papel de parede imitando papel de arroz. Ele viu o anel de ouro angular no lóbulo da orelha esquerda. Forças especiais. O homem sorriu. Tome seu café, Casey, disse Molly.
Você é um cara legal, mas não sai daqui enquanto a Armitage não terminar o que tem a dizer. Ela sentou de pernas cruzadas num futão de seda e começou a desmontar a arma de dardos, sem se dar ao trabalho de olhar para ela. Espelhos gêmeos o rastrearam enquanto ele ia até a mesa e a enchia de novo sua xícara. Novo demais para lembrar da guerra, não é, Casey? A Armitage passou a mão grande por seus cabelos castanhos cortados, gente.
Um bracelete de ouro maciço reluziu no seu pulso. Leningrado, Kiev, Sibéria. Nós inventamos você na Sibéria, Casey. Isso deveria significar alguma coisa para mim? Scream fist, Casey. O punho penetrante. Você já ouviu falar? Foi o tipo de operação, não foi? Tentaram queimar um nexus russo com vírus. É, ouvi falar. E ninguém escapou.
Subitamente ele sentiu a tensão no ar. A metade caminhou até a janela e olhou para a baía de Tóquio. Não é verdade. Uma unidade conseguiu voltar a Real Sync, Casey. Casey deu de ombros e tomou um gole de café. Você é um cowboy de console. Os protótipos dos programas que você usa para craquear bancos industriais foram desenvolvidos para o Scream Fist.
para o ataque ao nexo de computação de Kyrnski. O módulo básico era um micro leve Nightwing, um piloto, um deck de matriz, um jockey. Estávamos rodando um vírus chamado toupeira. A série toupeira foi a primeira geração de programas de intrusão de verdade. Ice Breakers, quebra-gelos, disse Cage sobre a borda da caneca vermelha.
O nome vem de ICE, Intrusion Contra Medidas Eletrônicas de Intrusão. O problema, meu camarada, é que eu não sou mais jockey, então acho que vou nessa. Eu estava lá, Casey. Eu estava lá quando inventaram a sua espécie.
Você tem zero a ver comigo e minha espécie, amigão. Você tem grana suficiente para contratar Hazel Girls a peso de ouro para me arrastar até aqui. E só. Eu nunca mais vou acessar nenhum deck. Nem para você, nem para mais ninguém. Ele foi até a janela e olhou para baixo. É lá que vivo agora. Nosso perfil diz que você está tentando induzir a cidade a matá-lo quando você não estiver olhando.
Perfil? Nós construímos um modelo detalhado. Fizemos uma extrapolação para cada um dos seus nicks e rodamos um perfil superficial em alguns software militares. Você é suicida, Casey. O modelo dá a você um mês no máximo. E nossa projeção médica diz que vai precisar de um pâncreas novo daqui a um ano. Nós. Ele encarou os olhos azuis esmaecidos. Nós quem?
O que você diria se ele dissesse que poderíamos corrigir seu dano neural, Casey? De repente, a Armitage parecia ser feito de um bloco de metal, inerte e enormemente pesado, uma estátua. Agora Casey sabia que aquilo era um sonho e que dali a pouco ele acordaria. A Armitage não falaria mais nada. Os sonhos de Casey sempre acabavam nesses frames congelados e este sonho também estava para acabar agora.
Que barulho da porra! O que você diz, Casey? Casey olhou para a baía lá fora e estremeceu. Eu diria que você está falando merda. A Armitage fez que sim. E depois perguntaria quais seriam seus termos. Não muito diferentes daqueles com os quais você está acostumado, Casey.
Deixa o cara dormir um pouco, Armitage. Molly disse do futão onde estava sentada, os componentes da pistola de dardos espalhados sobre a seda, como um quebra-cabeça sofisticado. Ele está caindo aos pedaços. Termos, disse Casey. E agora? Agora. Ele ainda estava tremendo. Não conseguia parar de tremer.
A clínica não tinha nome. Era visivelmente cara, um aglomerado de pavilhões sofisticados separados por pequenos jardins formais. Ele se lembrou do lugar da rodada que fizeram em seu primeiro mês em Chiba. Apavorado, Casey? Você está apavorado mesmo. Era domingo à tarde e ele estava com mole em uma espécie de pátio.
Pedregulhos brancos, um canteiro de bambus verdes, cascalho preto formando ondas feitas como um lancinho, um jardineiro, uma coisa que parecia um grande caranguejo de metal, estava cuidando dos bambus. Vai dar certo, Casey. Você não faz ideia do tipo de material que a Ormitage tem. Tipo, ele vai pagar para esses neurocaras para consertarem você com o programa que está dando a eles para dizer como fazerem isso.
Ele vai colocá-los três anos à frente da concorrência. Você faz alguma ideia do quanto isso vale? Ela enfiou os polegares nos passadores de cinto de seu jeans de couro e ficou balançando para frente e para trás nos saltos laqueados das botas de cowboy cor de cereja. Os bicos finos das botas tinham chapas de prata mexicana reluzente. As lentes eram mercúrio vazio que olhavam para ele com uma calma incetóide.
Você é samurai de rua, disse. Há quanto tempo está trabalhando para ele? Uns dois meses. E antes? Para outra pessoa. Sou uma profissional, sabia? Ele assentiu. Gozado que é isso. Gozado que? É como se eu te conhecesse. Aquele perfil que ele conseguiu. Eu sei como você é programado. Você não me conhece, minha irmã?
Você é legal, Casey. Você só teve azar. E ele? Ele é legal, Molly? O caranguejo roubou se movendo na direção deles, selecionando seu caminho sobre as ondas de cascalho. Sua carapaça de bronze poderia ter mil anos de idade. Quando chegou a um metro das botas dela, disparou um feixe de luz e, então, parou por um instante, analisando os dados obtidos.
O que sempre penso primeiro, Casey, é no meu próprio rabo. O caranguejo havia alterado seu curso para evitá-la, mas ela o chutou com uma precisão perfeita, a pontinha de prata da bota fazendo clangue na carapaça. A coisa caiu de costas, mas as patinhas de bronze logo a endireitaram novamente. Casey sentou-se nos pedregulhos, bagunçando a simetria das ondas de cascalho com as pontas dos sapatos.
Ele começou a procurar cigarros nos bolsos. Na sua camisa, disse ela. Quer responder a minha pergunta? Ele pescou um Yeruan amassado do maço e ela o acendeu com uma placa fininha de aço alemão que parecia pertencer a uma mesa cirúrgica. Bom, vou te dizer uma coisa. E antes não era assim. E estava recebendo mais toda hora. Keise notou uma certa tensão em volta da boca de mole.
Ou talvez alguma parada esteja por dentro dele. Ela deu de ombros. Como assim? Não sei direito. O que eu sei é que não sei para quem a gente está realmente trabalhando. Ele ficou encarando os espelhos gêmeos. Ao deixar o Hilton, no sábado de manhã, voltaram ao Chip Hotel e dormiram por 10 horas direto.
Depois deu uma longa caminhada sem o menor sentido ao longo do perímetro de segurança do porto, vendo as gaivotas voarem em círculos além das grades de metal. Se elas o seguirem, havia feito um ótimo trabalho. Ele evitou a Night City. Ficou no caixão esperando a Orbitragem ligar. Agora é esse pátio silencioso, tarde de domingo. Essa garota com corpo de ginasta e mãos de feiticeira.
Pode entrar agora, senhor. O anestesista está esperando para conhecê-lo. O técnico se curvou, virou e tornou a entrar na clínica sem esperar para ver se queijo seguiria. Cheiro de aço frio. Uma carícia de gelo na espinha.
Perdido, tão pequeno no meio daquela escuridão, mãos ficando frias, imagem corporal desaparecendo por corredores de céu de televisão. Vozes. Então, o fogo negro encontrou os tributários ramificados dos nervos. Dor além de qualquer coisa que já tenha recebido o nome de dor.
Fique quieto, não se mexa. E Hats estava ali, e linda ali. Wage e Lunizone também. Mil rostos da floresta de neon, marinheiros e marginais e putas. Onde o céu é de prata envenenada, além de grades de metal e da prisão do crânio. Não se mexa, cacete.
onde o céu desaparecia, passando de estática sibilante para a não cor da matriz. E ele vislumbrou num relance o shuriken, suas estrelas. Para, Case. Eu preciso achar sua veia. Ela estava sentada no peito dele, uma seringa flexível de plástico azul numa das mãos. Se você não ficar parado, vou cortar sua garganta, caralho. Você ainda está cheio de inibidores de endorfina.
Ele acordou e viu que ela estava deitada ao seu lado no escuro. O pescoço dele estava quebradiço, como se estivesse cheio de gravetos. Um pulso constante de dor descendo pelo meio de sua coluna vertebral. Imagens se formavam e se reformavam.
Uma montagem tremeluzente das torres e de cúpulas de Fuller rasgadas nos prau. Figuras enevoadas andando em sua direção na sombra, debaixo de uma ponte ou passagem de carros. Casey. É quarta Casey. Ela se mexeu, rolando para o lado, estendendo a mão para ele. Um seio roçou seu antebraço.
Ele ouviu quando ela rasgou o silo de alumínio de uma garrafa de água e tomou um gole. Aqui, ela colocou a garrafa na mão dele. Eu posso ver no escuro, Case? Micro canais amplificadores de imagem nos meus óculos. Que dor nas costas. Foi porque eles substituíram seus fluidos por aí. Trocaram seu sangue também.
O sangue foi porque você recebeu um pâncreas novo na jogada e um remendo de tecido novo no seu fígado. A coisa dos nervos eu não sei. Injeções pra cacete. Não precisaram abrir nada para o show principal. Ela voltou a seitar ao lado dele. São duas e quarenta e três da manhã. Eu tenho um display embutido no meu nervo óptico.
Ele se sentou e tentou tomar um gole da garrafa. Engasgou, tossiu e espirrou água morna no peito e nas coxas. Preciso acessar um deck, ele se ouviu dizer. Estava tateando a procura das roupas. Eu preciso saber. Ela riu. Mãos pequenas e fortes seguraram seus antebraços.
Desculpa, Picão. Tem de esperar oito dias. Seu sistema nervoso despencaria no chão se você se plugasse agora. Ordem do médico. Além do mais, eles acham que deu certo. Vamos checar você daqui a um ou dois dias. Onde é que a gente está? Em casa, Chip Hotel. E o Hermitage? No Hilton, vendendo colares para os nativos ou coisa do gênero. Vamos sair daqui em pouco tempo, no Meritage? Ya no Meritage? Ya no Meritage?
Amsterdã, Paris. Depois voltamos para o Sproul. Ela tocou o seu ombro. Vê de lado, eu faço uma massagem das boas. Ele deitou de bruxos, braços esticados para a frente, as pontas dos dedos tocando as paredes do caixão. Ela se encaixou em cima da nuca, ajoelhada na espuma sintética, o jeans de couro frio contra sua pele. Os dedos dela arroçaram seu pescoço.
Por que é que você não está no Hilton? Ela respondeu esticando a mão para trás no meio das coxas dele e envolvendo suavemente seu saco entre o polegar indicador. Ficou assim por um minuto no escuro, ereta em cima dele, a outra mão no seu pescoço. O couro dos seus jeans rangia devagar com o movimento. Casey se mexeu, sentindo a ereção na espuma sintética.
Sua cabeça latejava, mas a sensação de pescoço quebradiço diminuiu. Ele se levantou apoiado em um dos cotovelos, rolou de costas, tornou-a a afundar contra a espuma, puxando-a para baixo, lambendo seus seios, mamilos pequenos e durinhos, deslizando molhados contra o seu rosto. Encontrou o zíper dos jeans de couro e puxou a calça para baixo. Tudo bem, ela disse. Eu enxergo.
Só um de Dini sendo tirado. Ela lutou ao lado dele até conseguir chutá-los para longe. Passou uma perna por cima dele e ele tocou seu rosto. A dureza inesperada das dentes implantadas. Não, disse ela. Digitais. Agora ela estava em cima dele novamente. Pegou a mão dele e a fechou em cima dela. O polegar ao longo da fenda de suas nádegas.
os dedos abrindo os lábios da vagina. Quando ela começou a se abaixar, as imagens voltaram pulsantes, os rostos, fragmentos de não chegando e recuando. Ela desceu toda e as costas dele arquearam convulsivamente. Ela o cavalgou assim, sendo empalada, apertando-o mais e mais, até que os dois gozaram, o orgasmo dele explodindo azul em um espaço sem tempo.
Uma vastidão igual a uma atriz, onde os rostos eram tiras de papel que desciam voando por corredores de furacões. E a parte interna das coxas dela era forte e úmida contra seus quadris. Tá porra. Naninsei, uma versão mais tênue da multidão, a versão dia de semana, repetiu os movimentos da dança. Ondas de som rolavam dos flippers e dos salões de pachinco.
Casey deu uma olhadela no chat e viu o Zony tomando conta de suas garotas no crepúsculo quente e com um cheiro de cerveja. Hatz estava no bar. Viu, hoje, Hatz. Esta noite não. Hatz ergueu a sobrancelha ao ver mole. Se você ouvir, diga a ele que conseguiu dinheiro. A sorte está mudando, meu artista. Cedo demais para dizer.
Bom, preciso ver esse cara, disse Casey, vendo o reflexo nos olhos dela. Tenho que cancelar o negócio. A Armitage não vai gostar se eu deixar você longe das minhas vistas. Ela ficou em pé logo embaixo do relógio derretido de Diane, as mãos nos quadris.
O cara não vai falar comigo se você estiver lá. Caguei pro Diane. Ele sabe se cuidar. Mas cuja é sujento por aí que vai dançar se eu sair assim de Shiba sem mais aquela. É gente minha, entende? A boca dela endureceu. Ela balançou a cabeça. Tem um pessoal em Singapura. Conexões com Tóquio, em Shinzuku e Yasakuza. E eles vão dançar, entendeu?
Mentiu. A mão no ombro da jaqueta preta dela. Cinco. Cinco minutos. Pelo seu relógio, ok? Não estou sendo paga pra isso. Você se paga uma coisa. Eu deixar amigos reais morrerem porque você leva suas instruções demais a pé da letra é outra inteiramente diferente. Mentira. Amigos reais do caralho. Você vai lá dentro pra checar a gente com seu mambeiro.
Ela colocou um pé sobre a mesinha de café Kandinsky coberta de poeira. Ah, Casey, meu rapaz. Parece que sua companheira aí definitivamente é armada, além de ter uma boa quantidade de silício na cabeça. Do que se trata, exatamente? A tosse fantasma de Diane parecia pender no ar entre os dois. Espera um instante, Júlio. De qualquer maneira, vou entrar ali sozinho.
Pode ter certeza disso, meu filho. Eu não aceitaria de outra maneira. Ok, disse ela. Vai. Mais cinco minutos. Mais do que isso, eu vou entrar e esfriar esse seu amigo engumadinho permanentemente. E, já que você vai entrar lá, tente descobrir mais uma coisa. O quê? Por que estou lhe fazendo esse favor? Ela se virou e saiu, passando pelos módulos brancos de gengibre em conserva empilhados.
Estão andando com companhias mais estranhas do que de costume, Casey? Júlio perguntou. Júlio, ela já foi. Quer me deixar entrar? Por favor, Júlio. As travas se abriram. Devagar, Casey, disse a voz. Liga as coisas aí, Júlio. Todo equipamento da mesa, disse Casey, sentando-se na cadeira giratória. Ele está sempre ligado.
Diane disse calmo, tirando uma arma de trás do mecanismo aparente de sua velha máquina de escrever mecânica e apontando-a cuidadosamente para Casey. Era uma belly gun, um revólver magnum com um cano cerrado quase até o final. Parte da frente da proteção do gatilho havia sido cortada e o cabo amarrado com que parecia fita crepe velha. Casey achou que aquilo parecia muito estranho nas mãos rosadas e vintratadas de Diane.
Só estou me cuidando, você compreende? Nada pessoal. Agora me diga o que você quer. Preciso de uma aula de história, Júlio. E um perfil de uma pessoa. O que está rolando, meu filho? A camisa de Diane era de algodão listrado, o colarinho branco e rígido como porcelana. Eu, Júlio. Eu estou rolando para fora daqui. Fui. Mas me faça esse favor, pode ser? Perfil de quem, meu filho?
O nome gaijin de Armitage. Suíte no Hilton. Diane colocou a pistola em cima da mesa. Fique parado, Casey. Ele digitou alguma coisa no mini terminal. Parece que você sabe tanto quanto minha rede, Casey. Esse cavaleiro parece ter um esquema temporário com o Yakuza. E os filhos do crisântemo de Neon tem maneiras de bloquear seus aliados de gente como eu. Eu não aceitaria de outra maneira.
Agora, a aula de história. Você disse história. Ele tornou a pegar a arma, mas não apontou diretamente para a case. Que tipo de história? A guerra. Você esteve na guerra, Júlia? A guerra. O que há para se saber? Ela durou três semanas. Scream Fist. Famoso. Eles não ensinam história hoje em dia?
Um grande jogo de futebol político pós-guerra. É isso que foi. Um Watergate completo, de caba-rabo. Seus militares, Casey. Seus militares dos Pro em... onde foi? McLean? Nos bunkers, aquela coisa toda. Um grande escândalo. Desperdiçaram uma boa quantidade de carne fresca patriota para testar uma nova tecnologia. Eles conheciam as defesas russas. Descobriram depois.
Sabiam sobre os pênis, as armas de pulso eletromagnéticos? Mandaram esses sujeitos a si mesmo, só para ver. Diane deu de ombros. Alvos fáceis para os Ivans, os russos. Alguns desse sujeito conseguiam escapar? Jesus, disse Diane. Faz tanto tempo. Mas acho que alguns conseguiram. Uma das equipes. Pegaram uma aeronave e sove.
Helicóptero, você sabe? Voaram com ele até a Finlândia. Não tinham os códigos de entrada, claro, e destruíram as forças de defesa finlandesa no processo. Forças especiais, Jane fungou. Uma confusão dos diabos. Casey fez que sim com a cabeça. O cheiro de gengibre em conserva era devastador. Passei a guerra em Lisboa, sabia? Disse Jane, colocando a arma sobre a mesa. Um lugar lindo, Lisboa.
Você estava nas forças armadas, Júlia? Não, mas vi alguma ação. Júlia sorriu seu sorriso rosa. É maravilhoso o que uma guerra pode fazer pelos mercados. Valeu, Júlia. Te devo uma. Não, Case. E adeus.
E mais tarde ele diria a si mesmo que a noite no Samy havia lhe parecido errada desde o começo, que mesmo enquanto seguia mole ao longo daquele corredor, arrastando os pés por uma camada pegajosa de ingressos rasgados e copinhos de isopor, ele já havia sentido isso. A morte de Linda esperando.
Eles haviam ido até o Namban depois de Diane e pagou a dívida dele para o Eiji com o rolo dos neo-ienes de Armitage. O Eiji gostou. Seus ajudantes não gostaram tanto. E Molly ficou sorrindo ao lado de Casey com uma espécie de intensidade feroz cheia de tesão. Obviamente desejando que um deles fizesse o menor movimento. Depois, ele a levou de volta ao chat para uma bebida.
Está perdendo seu tempo, cowboy, disse Molly, quando o Casey tirou um octógono do bolso de sua jaqueta. Como assim? Quero um? Estendeu a pílula para ela. Seu pâncreas novo, Casey, e esses plugs no seu fígado. A mitagem mandou projetá-los para desviar essa merda. Ela bateu com a unha bordona o octógono. Você é bioquimicamente incapaz de ficar doidão com anfetaminas ou cocaína.
Merda, ele disse. Olhou para o octógono e depois para ela. Pode comer. Pode comer uma dúzia. Não vai acontecer nada. Ele comeu. Nada aconteceu. Trai as cervejas mais tardes. Ela estava perguntando a Hats sobre as lutas. Samis, disse Hats. Dispenso, disse Casey. Ouvi dizer que eles se matam lá.
Uma hora mais tarde, ela estava comprando ingressos de um tailandês magricelo de camiseta branca e shorts bag de rugby. Os samis eram uma cúpula inflável atrás do armazém no porto, um material cinza bem esticado e reforçado com uma rede de cabos finos de aço. O corredor, com uma porta de ar improvisada que conservava o diferencial de pressão que mantinha a cúpula de pé.
Anéis fluorescentes estavam atachados ao teto de compensado em intervalos regulares, mas a maioria estava quebrada. O ar era úmido e denso, com um cheiro de suor e concreto. Nada disso preparou para a arena. A massa. O silêncio tenso. As marionetes gigantes de luz sob a cúpula.
O concreto se inclinava em negraus até uma espécie de palco central, um círculo elevado com um ringue reluzente de equipamento de projeção. Nenhuma luz, a não ser os hologramas que se deslocavam e piscavam sobre o ringue, reproduzindo os movimentos dos dois homens abaixo. Extratos de fumaça de cigarro subiam das arquibancadas, vagando até baterem correntes criadas pelos ventiladores, que davam suporte à cúpula.
Nenhum som, a não ser o murmúrio baixinho dos ventiladores e a respiração amplificada dos lutadores. Cores refletidas fluíam pelas lentes de mole, enquanto os homens andavam em círculos pelo ringue. Os hologramas eram magnificações da potência de 10. Nessa escala, as facas que seguravam tinham pouco menos de um metro de comprimento.
A pegada do lutador de faca e a pegada do zingrimista, que ele lembrou. Os dedos curvados, o polegar alinhado com a lâmina. As facas pareciam se mover por vontade própria. Deslizando com uma falta ritual de urgência pelos arcos e passos de sua dança. Ponta passando por ponta, enquanto os homens esperavam por uma abertura. O rosto virado para cima de mole estava tranquilo e parado, observando.
Vou pegar uma comida para a gente, disse Casey. Ela concordou com a cabeça absurda na contemplação da dança. Ele não gostava daquele lugar. Deu meia volta e voltou para as sombras. Escuro demais. Quieto demais. A massa, ele viu, era em sua maior parte japonesa.
Não era a multidão típica da Night City. Era uma multidão urbana. Tecs das arqueologias. Ele supos que isso queria dizer que a arena tinha a aprovação de alguma comissão recreativa corporativa. Por um instante, ficou-se perguntando como seria isso. Trabalhar por toda sua vida para uma zaibatsu. Moradia da empresa. Hino da empresa. Funeral da empresa.
Ele fez o círculo quase completo da cúpula antes de encontrar as barracas de comida. Comprou Yak e Tori em pratinhos e dois copões encerados de cerveja. Olhando para os hologramas no alto, viu que o peito de uma das figuras estava manchado de sangue. Um molho marrom espesso transbordou dos pratinhos e sujou seus dedos.
Sete dias e ele iria se conectar. Se fechasse os olhos agora, veria a matriz. Sombras se retorceram quando os hologramas giraram em sua dança. Então, o medo começou a se tornar um nó entre suas homoplatas. Um fio fino de suor desceu por suas costelas. A operação não deu certo. Ele ainda estava ali. Ainda era carne.
Não havia mole nenhuma esperando com seus olhos travados nas facas que giravam. Não havia armitagem nenhuma esperando no Hilton com passagens e um passaporte novo e dinheiro. Tudo isso era um sonho, uma fantasia patética. Lágrimas quentes borraram sua visão.
Um esguicho de sangue de uma jugular num jato vermelho de luz. E agora a massa gritava e se levantava, gritava, enquanto uma das figuras desabava e o holograma desvanecia, tremeluzindo. Uma ameaça crua de vômito na sua garganta. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Abriu-os e viu o lindo Ali passar por eles. Seus olhos cinzentos, cegos de medo.
Ela usava o mesmo macacão francês e sumiu nas sombras. Puro reflexo desse celebrado. Jogou a cerveja galinha no chão e saiu correndo atrás dela. Poderia ter gritado seu nome, mas não tinha certeza. Após imagem de uma linha fina com um fio de cabelo de luz vermelha. Concreto queimado debaixo das solas finas de seus sapatos.
os tênis brancos dela faiscando em flechas, perto da parede curva agora, e novamente a linha fantasma do laser marcada a fogo em seu olho, balançando em sua visão enquanto ele corria. Alguém o fez tropeçar. Ele ralou as palmas das mãos do concreto. Ele rolou e chutou, mas não atingiu nada.
Um garoto magro, cabelos louros espetados, iluminado por trás numa nuvem em arco-íris, estava se curvando sobre ele. Sobre o palco, uma figura se virou. A faca é erguida bem no alto para a multidão que ia ao delírio. O garoto sorriu e sacou uma coisa da manga. Uma navalha esculpida em vermelho quando um terceiro raio piscou atrás deles na escuridão. Kaze viu a navalha mergulhando para sua garganta.
como a varinha de um rabdomante. O rosto foi apagado numa nuvem que zombia de explosões microscópicas. Os dardos de mole a 20 rajadas por segundo. O garoto torceu uma vez, combustívelmente, e caiu atravessado em cima das pernas de Casey. Ele estava andando na direção das barracas, na direção das sombras. Olhou para baixo, esperava ver aquela agulha rubi emergindo em seu peito. Nada.
Ele a encontrou. Ela estava jogada aos pés de uma pilastra de concreto, os olhos fechados. Cheiro de carne cozida. A multidão cantava o nome do vencedor. Um vendedor de enxope limpava as torneiras com um trapo preto. De algum jeito, um dos tênis brancos havia saído do pé dela e estava ao lado de sua cabeça. Siga a parede, curva de concreto, mãos nos bolsos. Continue andando.
Passe por rostos que não olham, cada olho levantando para a imagem do vencedor sobre o ringue. Uma vez um rosto europeu vincado dançou no brilho de um fósforo, lábios chupando a ponta curva de um cachimbo de metal. Cheiro o Acre de Rachiche. Case continuou andando, sem sentir nada. Case, os espelhos dela emergiram das sombras mais profundas. Você está legal?
Alguma coisa gemeu e gorgulhejou na escuridão atrás dela. Ele balançou a cabeça negativa. A luta acabou, Case. Está na hora de ir para casa. Ele tentou passar por ela de volta à escuridão, onde havia alguma coisa morrendo. Ela o deteve com a mão no peito. Amigos de seu amigo íntimo.
Mataram sua garota para você. Você não tem saído muito bem com amigos nessa cidade, tem? Conseguimos um perfil parcial daquele velho filho da puta quando pegamos você, cara. Ele frita qualquer um por um punhado de neons. Aquele lá de trás disse que chegaram até ela quando ele estava tentando repassar sua rã. Saia mais em conta para eles mataram e pegaram o negócio. Poupava um pouco de dinheiro.
Peguei o que tinha o laser e fiz com que me contasse tudo. Coincidência de estar aqui, mas precisava me certificar. A boca dela era dura, lábios pressionados formando uma linha fina. Casey sentia como se o cérebro tivesse sofrido um descarrilamento. Quem? Ele disse. Quem os enviou? Ela entregou a ele um saquinho de gengibre em conserva com respingos de sangue.
Ele viu que as mãos dela estavam pegajosas de sangue. Lá nas sombras, alguém fez sons molhados e morreu. Depois da checagem pós-operatória na clínica, Mário o levou até o porto. A Armitage estava esperando. Ele havia alugado um hovercraft.
A última coisa que Casey viu de Shiva foram os ângulos negros das arqueologias. Depois, uma neblina se fechou sobre a água escura e os cardumes flutuantes de dejetos. Parte 2. Missão. Compras. 3. Em casa. A casa era Obama.
o SPROW, o Boston Atlanta Metropolitan Axis, eixo metropolitano Boston Atlanta. Programe um mapa para exibir frequência de troca de dados, sendo cada gigabyte um único pixel em uma tela muito grande. Manhattan e Atlanta brilham com branco incandescente. Então, começam a pulsar. A taxa de tráfego ameaça sobrecarregar sua simulação.
Seu mapa vai virar uma supernova. Esfria o mapa. Aumente a escala. Cada pixel vale agora 1 milhão de megabytes. A 100 milhões de megabytes por segundo, você começa a distinguir certos quarteirões no centro de Manhattan. Os contornos de parques industriais de 100 anos de idade ao redor do núcleo antigo de Atlanta.
Casey despertou de um sonho de aeroportos, do couro preto de mole andando à sua frente, nos corredores de Narita, Chipol, Orly. Ele se viu comprando uma garrafa plástica de vodka dinamarquesa em um quiosque qualquer, uma hora antes do amanhecer. Em algum lugar lá embaixo, nas raízes de ferro concreto do Sproul, um trem empurrava uma coluna de ar parada através de um túnel.
O trem em si era silencioso. Deslizava sobre seu colchão de indução. Mas o deslocamento de ar fazia o túnel cantar, num tom grave que se aproximava do subsônico. A vibração atingia o quarto onde estava e levantava poeira de dentro das rachaduras do chão de tacos ressecados. Ao abrir os olhos, viu o mole, nua e pouco além de seu alcance na imensa espuma sintética, rosa estalando de nova.
No alto, a luz do sol entrava infiltrada pela grade manchada de fuligem ou de uma clarabóia. Um pedaço de vidro de meio metro quadrado havia sido substituído por placas de compensado. Um cabo cinzento gordo despontava dali de cima, pendurado a poucos centímetros do chão.
Ele estava deitado de lado e havia a respirar seus seios, a curva de um flanco traçado com a elegância funcional da fuselagem de um avião de guerra. O corpo dela era enxuto, definido. Músculos de bailarina. Olha só. O quarto era grande. Ele se sentou.
Tirando o colchonete rosa enorme e duas sacolas de nylon, novas e idênticas, ao lado, o quarto estava vazio. Paredes nuas, sem janelas. Uma única porta de incêndio de aço pintada de branco. As paredes haviam recebido incontáveis mãos de tinta latex branca. Espaço de fábrica. Ele conhecia aquele tipo de aposento, aquele tipo de prédio.
Seus inquilinos operavam na interzona, onde a arte não chegava a ser um crime e o crime não chegava a ser arte. Ele estava em casa. Girou o corpo e colocou os pés no chão. O chão era feito de blocos pequenos de madeira. Uns faltavam, outros estavam soltos. Sua cabeça doía.
Ele se lembrou de Amsterdã, na seção do centro, na cidade velha, prédios com centenas de anos de idade. Molly voltando da beira do canal com suco de laranja e ovos. A mirtagem tinha saído em alguma missão clíptica e os dois caminhavam sozinhos pela Praça Dan, na direção de um bar que ela conhecia, numa transversal da Damrak. Paris era um sonho nevoado. Compras.
Ela o havia levado para fazer compras. Ele se levantou e vestiu um par amaltado de jeans pretos novos que estavam aos seus pés e se ajoelhou para mexer nas sacolas. A primeira que abriu era de mole, roupas muito bem dobradas e pequenos gadgets que pareciam ter custado caro. A segunda estava lotada de coisas que ele não se lembrava de ter comprado.
Livros, fitas, um deck de cistim, roupas com etiquetas francesas e italianas. Embaixo de uma camiseta verde descobriu um pacote fino dobrado como um origami de papel japonês reciclado. O papel rasgou quando ele o tocou. Uma estrela brilhante de nove pontas caiu e ficou em pé, uma das pontas cravadas numa rachadura do piso. Uma lembrancinha, disse Molly.
Reparei que você estava sempre olhando para isso. Ele se virou e viu que ela estava sentada na cama, pernas cruzadas, coçando sonolenta a barriga com unhas bordô. Vem alguém mais tarde para garantir a segurança do lugar, disse a Armitage. Ele estava em pé na soleira da porta aberta com uma antiga chave magnética na mão. Molle estava fazendo café num pequeno fogão alemão que tirou de sua sacola.
Um fogão portátil? Eu sei fazer isso, ela disse. Já consegui equipamento suficiente. Infra-scan de perímetro. Alarmes sonoros. Não, disse ele, fechando a porta. Eu quero segurança completa. Fique à vontade. Ela vestiu uma camiseta de malha preta enfiada em calças bag de algodão preto.
O senhor já foi policial, senhor Armitage? Perguntou Casey de onde estava, encostado numa parede. Armitage não era mais alta do que Casey, mas com seus ombros largos e postura militar, parecia ocupar todo o espaço da porta. Estava vestindo um terno italiano sóbrio na mão direita. Segurava uma maleta de pelica macia. O brinco de argola das forças especiais havia sumido.
As feições bonitas e inexpressivas ofereciam a beleza rotineira das boutiques cosméticas, uma mistura conservadora dos principais rostos midiáticos da década anterior. O bilhão caro de seus olhos ampliava o efeito da máscara. Casey começou a se arrepender de ter feito a pergunta. O que quero dizer é que um bocado de pessoal das forças especiais acaba virando policial.
Ou segurança corporativos. Casey acrescentou pouca vontade. Mole lhe deu uma xícara fumegante de café. Essa coisa que o senhor mandou fazer no meu pâncreas é típica da polícia. A mitagem fechou a porta e atravessou o aposento. Até ficar bem em frente a Casey. Você é um garoto de sorte, Casey. Você deveria me agradecer? Deveria mesmo? Casey soprou o café com muito barulho.
Você precisava de um pâncreas novo. O que compramos para você o liberta de uma dependência perigosa. Valeu, mas eu gostava da dependência. Isso é ótimo, porque você tem uma dependência nova. Como assim? Casey levantou a cabeça. A Armitage estava sorrindo. Você tem 15 saquinhos de toxinas presos ao investimento de suas principais artérias, Casey.
Elas estão se dissolvendo. Muito lentamente, mas estão se dissolvendo. Cada um contém uma micotoxina. Você já conhece bem o efeito dessa micotoxina. Foi a mesma que seus ex-empregadores lhes deram em Memphis. Casey ficou encarando a máscara sorridente. Você tem tempo para fazer aquilo para o que estou te contratando, Casey. Mas é só.
Faça o trabalho e poderei injetar em você uma enzima que dissolverá os vínculos com as artérias sem abrir os saquinhos. Em seguida, você vai precisar de uma transfusão de sangue. Caso contrário, os saquinhos derreterão e você volta ao ponto onde estava quando o encontramos. Então, Casey, como pode ver, você precisa de nós. Você precisa tanto de nós quanto precisava quando o tiramos da sarjeta.
Casey olhou para a mole. Ela deu de ombros. Agora desça até o elevador de carga e traga as caixas que encontrar lá. Armitagem, entregue-lhe a chave magnética. Vá. Você vai gostar, Casey. É como uma manhã de Natal. Verão no Sproul. As multidões no shopping indo para um lado e para o outro como se fossem talos de gramas soprados ao vento.
um campo de carne com marés súbitas de necessidade e gratificação. Sentou-se ao lado de mole, sob a luz filtrada do sol, na beira de uma fonte de concreto seca, deixando a corrente infindável de rostos recapitularem os estágios de sua vida. Primeiro, uma criança de olhos desconfiados, o menino de rua, mãos relaxadas e prontas ao lado do corpo.
Depois, um adolescente, o rosto macio e insondável sob óculos vermelhos. Casey lembrou de uma luta num telhado aos 17, um combate silencioso, no brilho rosado das cúpulas geodésicas na aurora. Ele se mexeu desconfortável no concreto, sentindo sua dureza e frieza atravessar o denim preto fino. Nada como a dança elétrica da Nincei.
Aquilo era um comércio diferente, um ritmo diferente, no cheiro de fast food e perfume e suor fresco de verão. Com seu deck esperando no loft, um Cyberspace 7 ONU Sendai. Eles deixaram o local atulhado com as formas brancas abstratas das unidades de empacotamento de espuma, com filme plástico amassado e centenas de minúsculas bolinhas de espuma.
O Ono Sendai, o mais caro computador de Osaka do ano que vem. Um monitor Sony. Uma dezena de disquetes de... I... I... I... I... I... I... C... Nível corporativo. Uma cafeteria, Brown. A metade apenas havia esperado a aprovação de cada peça por Casey. Pra onde ele foi? Que eles perguntaram a Molly.
Ele gosta de hotéis, hotéis grandes, próximos ao aeroporto se puder. Vamos voltar para a rua. Ela vestia um velho colete do exército com uma dezena de bolsos de formatos estranhos e colocou um par enorme de óculos de sol de plástico preto que cobriam completamente suas lentes espelhadas e embutidas. Você já sabia dessa merda de negócio e das toxinas? Perguntou a ela ao lado da fonte. Ela balançou a cabeça negando.
Você acha que é verdade? Pode ser que sim, pode ser que não. Funciona do mesmo jeito. Sabe onde consigo descobrir? Não, respondeu ela, levantando a mão direito para formar o gesto de gira que significava silêncio. Esse tipo de trabalho é sutil demais para aparecer num scan. Então os dedos dela se moveram novamente. Espere.
E francamente, você não está ligando muito para isso. Eu vi você acariciando aquele Sendai. Era pornográfico. E riu. E como é que ele te pegou? Como foi que armou para cima da profissional aí? Orgulho profissional, baby. Só isso. E mais uma vez um sinal de silêncio. Vamos tomar um café, ok? Ovos, bacon de verdade.
Provavelmente vai te matar de tanto crio reconstituído de shiba que você já comeu. Vamos, a gente pega o metrô até Manhattan e come um café da manhã de verdade. Um neon sem vida exibia as palavras metrô holográficos em maiúsculas de tubos de vidro empoeiradas. Casey tentou tirar uma lasca de bacon que ficou alojada entre seus dentes da frente. Já tinha desistido de perguntar para onde estavam indo e por quê.
Cotoveladas nas costelas e o sinal de silêncio foram tudo que recebeu em resposta. Ela falava das modas da estação de esporte, de um escândalo político na Califórnia do qual ele nunca ouvira falar. Olhou ao redor da rua deserta e sem saída. Uma folha de impresso de notícias passou voando pelo cruzamento. Ventos bizarros no Eastside. Alguma coisa a ver com convecção e um overlapping nas cúpulas.
pela janela, Casey deu uma espiada no neon morto. O Sproul dela não era o Sproul dele, decidiu. Ela o levara por uma dezena de bares e clubes que nunca vira antes, cuidando dos seus negócios, normalmente sem nada além de uma cena afirmativa de cabeça, mantendo os contatos. Alguma coisa se movia nas sombras, atrás do metô holográficos.
A porta era uma folha de amianto corrugado usado para telhados. Na frente dela, as mãos de Molly se moveram num fluxo intrincado, uma sequência gestual que não conseguiu acompanhar. Ele pegou o sinal de dinheiro vivo, um polegar raspando a ponta do indicador. A porta abriu para dentro e Molly o levou até o cheiro de pó.
Eles estavam numa clareira, emaranhados densos de lixo subindo de cada lado das paredes, repletas de estantes com livros caindo aos pedaços. O lixo parecia algo que havia crescido ali mesmo, um fungo de plástico e metal retorcido. Ele conseguia identificar objetos individuais, mas pareciam se camuflar no meio da massa. As entranhas de uma televisão tão velha que estava abarrotada com os tocos de vidro de tubos de imagem.
O prato de uma antena parabólica todo amassado. Um cano de fibra marrom recheado de tubinhos de alguma liga metálica corroída. Uma pilha imensa de revistas velhas havia desabado na área aberta. A carne de verões passados olhando com olhos cegos, enquanto ele a seguia por um desfiladeiro estreito de ferro velho prensado. Ele viu a porta se fechar atrás deles. Não olhou para trás.
O túnel terminava em um antigo cobertor do exército, que tapava o buraco de uma porta. Uma luz branca inundou o espaço quando o mole abriu uma ponta para passar por baixo. Quatro paredes quadradas de plástico branco com o teto combinando e no chão. Azulejos brancos hospitalares moldados num padrão antiderrapante de minúsculos discos em relevo.
No centro, uma mesa quadrada branca e quatro cadeiras dobráveis brancas. O homem que agora estava em pé na porta atrás deles, piscando forte os olhos, o cobertor caindo sobre um dos ombros como se fosse uma capa, parecia ter sido projetado num túnel de vento.
As orelhas eram muito pequenas e coladas em seu crânio estreito, e seus grandes dentes da frente revelados em alguma coisa que não era exatamente um sorriso, tinha uma forte inclinação para trás. Ele vestia um paletó de tweed antiquíssimo e tinha na mão esquerda um tipo de arma. Espiou os dois, piscou os olhos, e colocou a arma num bolso do paletó.
Fez um gesto para Casey. Apontou para um conchonete de plástico branco encostado perto da porta. Casey foi até lá e viu que era um sanduíche sólido de circuitos com quase um centímetro de espessura. Ele ajudou o homem a levantar o objeto e posicioná-lo na porta. Dedos rápidos e manchados de nicotina o fixaram com uma borda de velcro branca. Um exaustor oculto começou a emitir um zumbido.
Tempo, disse o homem, se endireitando. Está contando. Você sabe de quanto é a taxa, Molly? Precisamos de um scan finlandês. Para implantes. Então vá até ali entre as colunas. Fique em pé em cima da fita. Fique reta. Isso. Agora dê uma volta. 360. Casey viu agirar entre dois pilares de aspecto frágil cheio de sensores.
O homem retirou um pequeno monitor do bolso e ficou olhando para ele, apertando os olhos. É. Tem uma coisa nova na sua cabeça, sim. Silício. Revestimento de carbono pirolítico. Um relógio, certo? Seus óculos estão me dando a leitura que sempre deram. Carbono isotrópico de baixa temperatura. A biocompatibilidade seria melhor com pirolíticos. Mas isso é problema seu, certo?
A mesma coisa com as suas garras. Chega mais, Casey. Ele viu um X marcado em preto no piso branco. Deu uma virada, devagar. O cara é virgenzinho, o homem deu de ombros. Um trabalho dentário vagabundo e só. Está procurando biológicos? Molha abriu o zíper do colete verde e tirou os óculos escuros.
Você está pensando que estou aqui a clínica de alto nível? Sobe na mesa, garoto. Vamos executar uma pequena biópsia. Deu uma risada, mostrando mais dentes amarelos. Nah. Palavra do finlandês, docinho. Você não tem nenhum bug, nenhuma bomba de cortex. Quer que desative o escudo? Só pelo tempo necessário para você sair, finlandês. Depois a gente quer escudo total pelo tempo que a gente quiser.
Opa, tudo bem pro finlandês aqui, mal? Você está pagando por segundo mesmo. Selaram a porta atrás dele e mole pegou uma das cadeiras e sentou nela, cruzando os braços e descansando o queixo nas mãos. Agora a gente pode conversar. Isto aqui é o máximo de privacidade que posso pagar. A gente pode conversar sobre o que? Sobre o que estamos fazendo. E o que estamos fazendo?
trabalhando por Armitage. E você está dizendo que isso não tem nada a ver com ele? Estou. Eu vi o seu perfil, Casey. E já vi o resto da nossa lista de compra uma vez. Já trabalhou com os mortos? Não. Ele viu o seu reflexo nos olhos dela. Mas acho que poderia. Sou bom no que faço. O verbo no presente o arrepiou.
Você sabia que o Dixie Flatline, ou linha mortal, morreu? Ele fez que sim com a cabeça. Ouvi dizer que foi do coração. Você vai trabalhar com o construto dele. Ela sorriu. Foi ele quem te ensinou os macetes, não foi? Ele, o Kaine. Aliás, conheço o Kaine. Grande babaca. Alguém possui uma gravação do McCoy Pauli? Quem?
Agora Keyes estava sentado descansando os cotovelos de cima da mesa. Não consigo ver isso. Ele nunca teria topado essa parada. Sense Net. Pagaram megas para ele. Pode apostar seu rabo. Kaine morreu também? Não teve essa sorte. Ele está na Europa. Não vai entrar nesta parada. Bom, se a gente conseguir o Flatline está tudo dominado. Ele era o melhor.
Sabia que teve morte cerebral três vezes? Ela fez que sim. O eletro dele deu traço à linha mortal. Ele me mostrou fitas. Boy, I was dead. Ele disse imitando o sotaque escocês do outro. Escuta, Cage. Venho tentando sondar quem é que está bancando o Armitage desde que entrei na parada.
Mas não me parece uma Zaibatsu, um governo, nem alguma subsidiária da Yakuza. A Armitage recebe ordens, tipo, alguma coisa diz para ele ir a Shiba pegar um viciado que está dando a última volta no parafuso da autodestruição e negociar um programa em torca de cirurgia que irá consertá-lo. Nós podíamos ter comprado 20 cowboys do primeiro time pelo preço que o mercado estava pronto para pagar por aquele programa cirúrgico. Você era bom.
Mas não tão bom assim. Ela coçou o nariz. Obviamente isso faz sentido para alguém, ele disse. Alguém grande. Não esquenta, ela sorriu. Vamos fazer uma operação hardcore, Casey. Apenas para pegar o construto do Fatline. A SenseNet o trancou num cofre da biblioteca na parte alta da cidade. Mais apertado que cu de cobra, Casey.
Agora, a Sense.net tem todo o seu material novo para a temporada de outono trancada ali também. Se a gente roubasse isso, ia ficar rico pra caralho. Mas não. A gente tem que entrar e roubar o Flatline. E mais nada. Bizarro. Será que era a saca? É, é tudo bizarro. Você é bizarro. Este muquife é bizarro. E quem é o figuraça bizarro ali fora?
O finlandês é um velho contato meu. Na maior parte das vezes para receptação, software. Este negócio aqui de privacidade é uma atividade paralela. Mas consegui que a Armitage o deixasse que ele seja nosso técnico. Então quando ele aparecer depois você finge que nunca o viu, ok? O que é que o Armitage mandou dissolver dentro de você? Eu sou facinha, ele sorriu. Quem é muito bom no que faz é o que faz, certo?
Você se pluga, eu luto. Ele ficou olhando fixo para ela. Então me diga o que sabe sobre o Armitage. Para começar, ninguém chamado Armitage tomou parte de nenhum Scream Fist. Eu chequei. Mas isso não quer dizer grande coisa. Ele não parece com nenhuma das fotos dos caras que escaparam. Ela deu de ombros. Grande coisa. E isso foi tudo que consegui.
Ela batucou as unhas no encosto da cadeira. Mas você é um cowboy, não é? Quer dizer, talvez você possa dar uma olhadinha por aí. Sorriu. Ele me mata. Talvez sim, talvez não. Mas você é um camarada esperto, não é? Você pode driblar esse cara direitinho. O que mais tem na lista que você mencionou?
brinquedos a maioria para você e um psicopata de carteirinha que se chama Peter Riviera coisinha feia onde é que ele está sei lá mas ele é um cara doente isso é eu vi o perfil dele fez uma careta horrível e levantando-se se espreguiçou como uma gata
Então, a bola está rolando? Estamos nessa juntos? Sócios? Case olhou para ela. Até parece que tem opção, né? Ela riu. Agora você sacou, cowboy. A Matrix tem suas raízes em games de firperama primitivos, disse uma voz em off, nos primeiros programas gráficos e experiências militares com plugues cranianos.
No Sony, uma guerra espacial bidimensional desvanecia atrás de uma floresta de samambaias geradas matematicamente, demonstrando as possibilidades espaciais de espirais logarítmicas. Resquícios de filmes militares azulados e queimados, animais de laboratórios conectados por fios a um sistema de teste, capacetes alimentando circuitos de controle de tanques e aviões de guerra. Ciberespaço Ciberespaço
Uma alucinação consensual vivenciada diariamente por bilhões de operadores autorizados em todas as nações. Por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos. Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de dados de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no chão do espaço da mente. Aglomerados e constelações de dados.
como luzes da cidade se afastando. O que é isso? Perguntou Molly quando ele girou o seletor de canais. Um showzinho para crianças. Um fluxo descontínuo de imagens enquanto o seletor girava. Off, disse para o Osaka. Quer tentar agora, Casey? Quarta. Oito dias desde que saíra do chip hotel com Molly ao seu lado.
Quer que eu saia, Casey? Talvez seja mais fácil de você ficar sozinho. Ele balançou a cabeça em negativa. Não, pode ficar. Não faz diferença. Ele colocou a bandana de tecido atualhado preto na testa, tomando cuidado para não perturbar os dematrodos Sendai. Ficou olhando para o deck no seu colo, mas não o estava vendo de verdade. O que ele via era a vitrine daquela loja na Ninsei, o shuriken de cromo queimando com o neon refletido.
Olhou para cima. Na parede, logo acima do Sony, ele havia pendurado o seu presente, colando-o ali com um alfinete de cabeça amarela no buraco do seu centro. Ele fechou seus olhos. Encontrou a face em relevo do botão de Power.
E, na escuridão iluminada de sangue atrás de seus olhos, fosfenos prateados queimando na borda do espaço. Imagens hipnagógicas se alternando rapidamente como filmes compilados a partir de frames aleatórios. Símbolos, figuras, rostos, uma mandala fragmentada de informação visual. Por favor, ele rezou. Agora.
Um disco cinza da cor do céu de Shiba. Agora. O disco começou a girar, tornando-se uma esfera de um cinza mais claro. Expandindo. E fluiu. Floresceu para ele um truque de origami de neon fluído. O desdobrar de sua casa sem distância. Seu país, um tabuleiro de xadrez 3D, transparente se estendendo até o infinito.
O olho interior se abrindo para a pirâmide azteca escarlate da Eastern Sea Board, Fission Authority, queimando para além dos cubos verdes do Mistubish Bank of America. E, alto e bem ao longe, ele viu os braços em espiral de sistemas militares para sempre além do seu alcance. E, em algum lugar, ele estava rindo, em um loft pintado de branco, dedos distantes acariciando o deck, lágrimas de libertação correndo pelo rosto.
Quando ele tirou os trozos, Molly não estava lá e o loft estava escuro. Olhou as horas. Tinha ficado cinco horas no ciberespaço. Levou o Ano Sendai até uma das novas mesas de trabalho e desabou em cima do colchonete, puxando o saco de dormir de seda preta de Molly até cobrir sua cabeça. O pacote de segurança, colado com fita à porta de incêndio, soou dois bips.
Entrada solicitada, ele disse. Indivíduo liberado pelo meu programa. Então abre. Casey tirou o saco de dormir da cara e se sentou quando a porta abriu, esperando ver mole ou armitagem. Jesus, disse uma voz rouca. Eu sei que aquela piranha enxerga no escuro. Uma figura atarracada entrou e fechou a porta. Acenda as luzes, ok?
Casey se levantou e encontrou um interruptor de estilo antigo. Eu sou o finlandês, disse o finlandês, e fez uma cara de alerta para Casey. Casey, prazer em conhecer. Estou fazendo um trabalho de hardware para o seu chefe, ao que parece. O finlandês tirou um maço de partagas do bolso e acendeu um. O cheiro de tabaco cubano encheu o aposento. Ele foi até a mesa de trabalho e olhou para o Wano Sentai.
Parece saído da fábrica. Eu conserto isso. Mas o seu problema está aqui, garoto. Ele tirou o envelope de papel pardo sujo dentro do paletó, jogou as cinzas dos cigarros no chão e tirou o retângulo preto liso do envelope. Malditos protótipos de fábrica, disse, jogando a coisa em cima da mesa. Eles revestem o negócio num bloco de policarbono e não dá pra entrar com um laser sem fritar o conteúdo.
É uma armadilha contra raios X, Ultrascan e sabe Deus o que mais. Vamos conseguir, mas não há descansos para os maus, ah? Dobrou o envelope com grande cuidado e o enfiou no bolso interno. O que é isso? Basicamente, uma chave Fiple Flop. É só plugá-la ao seu Sendai e você poderá acessar ao vivo o cisteing gravado sem precisar se desconectar da matriz. Pra quê?
Não faço ideia. Apenas seis, o que estou preparando a mal para um gato de transmissão. Então provavelmente você vai acessar o sensório dela. O finlandês coçou o queixo. Agora você vai descobrir como aquelas calças dela são apertadas, hein? Quatro.
Case estava sentado no loft com os dermatrodos grudados na testa, vendo a poeira dançar na luz do sol diluída que se filtrava pela grade lá no alto. Uma contagem regressiva estava em andamento num dos cantos da tela do monitor. Cowboys não entravam em cistim, ele pensou, porque isso era basicamente um brinquedo de carne.
Ele sabia que os tronos que usava e a pequena tiara de plástico que pendia de um deck de Sistine eram basicamente a mesma coisa. E que a matriz do ciberespaço era, na verdade, uma simplificação drástica do sensório humano, pelo menos em termos de apresentação. Mas o Sistine, propriamente dito, lhe parecia uma multiplicação gratuita do input de carne.
O material comercial era de editado, claro, de modo que se Tari e Shan tivesse dor de cabeça no meio de um segmento, você não a sentiria. A tela emitiu um bip de aviso de dois segundos. A nova chave foi grudada no seu Sendai com uma tira fina de fibra óptica. E um, e dois, e... O ciberespaço entrou deslizando pelos pontos cardeais.
Suave, pensou, mas não suave bastante. Preciso trabalhar nisso. Então ele acionou a chave nova. O salto abrupto para dentro de outra carne. A matriz sumiu, uma onda de som e de cor.
Ela estava passando por uma rua lotada, passando por barracas vendendo software de desconto, preços escritos a caneta hidrográfica em folhas de plástico, fragmentos de músicas vindo de infinitos alto-falantes, cheiros de urina, monômeros, livres, perfume, crioflito. Por alguns segundos assustadores, ele lutou sem conseguir evitar o impulso de controlar o corpo dela.
Depois se forçou para assumir o estado de passividade e tornou-se o passageiro através dos olhos dela. Os óculos não pareciam cortar a luz do sol. Ele se perguntou se os amplificadores embutidos faziam a compensação automática. Alfanuméricos azuis piscavam dando as horas na parte inferior esquerda de seu campo periférico. Exibida, pensou.
A linguagem corporal dela era desorientadora, o estilo estrangeiro. Ela parecia constantemente à beira de colidir com alguém, mas as pessoas se espremiam para sair de seu caminho. Saiam de banda, abriam caminho. E aí, Casey, tudo bem? Ele ouviu as palavras e sentiu a formá-las. Ela enfiou uma das mãos dentro da raqueta e a ponta de um dos dedos circulando uma milo sob cera quente.
A sensação o fez prender a respiração. Ela riu. Mas o link era de mão única. Ele não tinha como responder. Duas quadras depois, ela abria caminho pela periferia da memória Lane. Casey ficava tentando desviar os olhos dela na direção de Marcos, que teria usado para encontrar o caminho. Ele começou a achar a passividade da situação irritante.
A transição para o ciberespaço, quando acionou a chave, foi instantânea. Ele digitou o código para uma parede de ICE primitivo que pertencia à Biblioteca Pública de New York, contando automaticamente janelas potenciais. Voltando ao sensório dela, ao fluxo sinuoso de músculos, os sentidos aguçados e brilhantes. Ele se pegou imaginando a mente com a qual compartilhava essas sensações.
O que sabia a respeito dela? Que ela era outra profissional. Que ela dizia que seu ser, assim como ele, era a coisa que ela fazia para ganhar a vida. Ele conhecia o jeito como ela se movia contra ele também, mais cedo, quando acordou. O gemido mútuo de unidade quando ele a penetrou. E o fato de que ela gostava de café puro depois.
O destino dela era um dos complexos de aluguel de software de procedência duvidosa alinhados ao longo da memória da N. Havia uma sensação de imobilidade ali, de ruídos abafados. Cabines ao longo de um hall central. Aqui a clientela era jovem, poucos mais velhos que adolescentes. Todos poderiam ter soquetes de carbono plantados atrás da orelha esquerda, mas ela não se concentrou neles.
Os balcões, na frente das cabines, exibiam centenas de cacos de Microsoft, fragmentos angulosos de silício colorido montados sob bolhos oblongas transparentes sobre quadrados de cartolina branca. O mole foi até a sétima cabine ao longo da parede sul. Atrás do balcão, um garoto de cabeça raspada olhava para o nada. Uma dezena de antenas de Microsoft se projetando do soquete atrás da orelha.
Larry, você está aí, cara? Ela se posicionou na frente dele. Os olhos do garoto entraram em foco. Ele se sentou reto na cadeira e tirou uma lasca magenta berrante de seu soquete com uma unha suja. Oi, Larry. Molly, ele assinou com a cabeça para ela. Tenho um trabalho para alguns dos seus amigos, Larry.
Larry tirou uma caixa plástica fina do bolso de sua camisa esportiva vermelha e abriu-a, enfiando Microsoft ao lado de uma dezena de outros. Sua mão ficou pairando. Selecionou um chip preto brilhoso, ligeiramente mais comprido que o resto. E o inseriu suavemente em sua cabeça. Seus olhos quase se fecharam. Molito é um cavaleiro, ele disse. E Larry não gosta disso.
Epa, ela disse. Eu não sabia que você era tão sensível. Estou impressionada. Custa muito caro ficar tão sensível assim. Eu conheço você, moça. O olhar vazio retornou. Está querendo comprar um softs? Estou procurando os modernos. Você tem um cavaleiro mole. Isto aqui diz. Ele deu um tapinha na lasca preta. Tem outra pessoa usando seus olhos.
Meu sócio. Manda o seu sócio sair. Eu tenho uma coisa para os panteras modernos, Larry. Do que a senhora está falando? Case, pula fora, ela disse. E ele acionou a chave, voltando instantaneamente para a matriz. Impressões fantasmas do complexo de software pendendo por alguns segundos no zumbido tranquilo do cyberspaço.
Panteras modernos, ele diz para o Osaka, removendo os trodos. Resumo de cinco minutos. Pronto, disse o computador. Ele não conhecia aquele nome. Era uma coisa nova, uma coisa que havia aparecido quando estava em Shiba. Modismos variavam o sprawl à velocidade da luz. Subculturas inteiras podiam surgir da noite para o dia, proliferar por algumas semanas e depois desaparecer inteiramente.
Manda, disse. O Osaka havia acessado uma série de bibliotecas, jornais e serviços de notícias. O resumo começou com um longo take sobre um estilo colorido que Kiz no começo supôs que fosse uma colagem de algum tipo. O rosto de um garoto recortado de alguma imagem e colado a uma fotografia de uma paleta rabiscada de tinta. Olhos escuros, dobras e picânticas, que eram obviamente resultado de cirurgia.
Uma camada irritada de acne espalhada por bochechas branquinhas e magras. O Osaka descongelou a imagem. O garoto se moveu, fluindo com a graça sinistra de um mímico fingindo ser um predador da selva. Seu corpo era quase invisível. Um padrão abstrato se aproximando dos tijolos abiscados, deslizando suavemente ao longo de sua roupa apertada de uma peça só. Policarbono mimético.
Corta para a doutora Virginia Rambali, Sociologia, Universidade de Nova York. O nome, o curso e a universidade pulsando na tela em alfanuméricos cor-de-rosa. Dado ao pendor deles para esses atos aleatórios de violência surreal, disse alguém, pode ser difícil para nossos espectadores compreender porque a senhora continua a insistir que esse fenômeno não é uma forma de terrorismo. A doutora Rambali sorriu.
Sempre há um ponto no qual o terrorista deixa de manipular a gestalt da mídia. Um ponto no qual a violência pode aumentar, mas além do qual o terrorista se tornou sintomático da própria gestalt de mídia. O terrorismo, como conhecemos, normalmente é ligado de modo inato à mídia.
Os panteras modernos diferem de outros terroristas precisamente em seu grau de autoconsciência, em sua percepção do ponto ao qual a mídia divorcia o ato de terrorismo da intenção sociopolítica original. Por essa parte, disse Casey. Casey conheceu o seu primeiro moderno dois dias depois de ler por alto o resumo do Osaka.
Deduziu que os modernos eram uma versão contemporânea dos grandes cientistas da sua época de adolescente. Havia uma espécie de DNA adolescente fantasmagórico rolando no Sproul, uma coisa que transportava os preceitos codificados de vários subcultos de vida curta e os replicava a intervalos irregulares. Os panteras modernos eram uma variante cibernetizada dos cientistas.
Se a tecnologia já existisse na época, todos os grandes cientistas teriam soquetes recheados de Microsofts. Era o estilo que importava e o estilo era o mesmo. Os modernos eram mercenários, piadistas de mau gosto, tecnofeticistas niilistas. O que apareceu na porta do loft com uma caixa de disquetes do finlandês era um garoto de voz suave chamado Ângelo.
Seu rosto era um enxerto simples de colágeno e polissacarídeo de cartilagem de tubarão, liso e horrível. Era um dos tipos mais feitos de cirurgia letiva que Casey já tinha visto na vida. Quando Angelo sorriu, revelando os caninos afiados como navalhas de algum animal enorme, Casey chegou a ficar aliviado. Transplantes dentários. Isso ele já tinha visto antes.
Você não pode deixar essa babaquice de conflitos de gerações te incomodar, disse Molly. Casey concordou com a cabeça absurdo nos padrões do ICE da Sensinete. E foi isso. Isso era quem ele era. O que ele era, seu ser. Ele se esquecia de comer.
Mole deixava caixinhas de arroz e bandejas de isopor com sushi no canto da mesa comprida. Às vezes, ele lamentava até que saia do deck para usar o banheiro químico que havia montado num canto do loft. Padrões de ICE se formavam e reformavam na tela quando ele sondava em busca de aberturas. Se desviava das armadilhas mais óbvias e mapeava a rota que tomara pelo ICE da Centinete. Era ICE bom. Um ICE maravilhoso.
Seus padrões queimavam ali enquanto ele se deitava com o braço embaixo dos ombros de mole, vendo a aurora vermelha pela grade de aço da clarabóia. Seu labirinto de pixel arco-íris era a primeira coisa que via quando acordava. Ia direto para o deck, sem nem pensar em se vestir, e se conectava. Ele estava cortando o ICE. Ele estava trabalhando. Perdi a noção dos dias.
E às vezes, adormecendo particularmente quando o mole estava fora, em uma de suas viagens de reconhecimento com sua gangue alugada dos modernos, imagens de Shiba lhe voltavam à mente como num dilúvio. Rostos e neum da Nincei. Um dia acordou de um sonho confuso com o lindo ali, incapaz de lembrar quem ela era ou o que havia significado algum dia para ele. Quando se lembrou, conectou-se e trabalhou por nove horas seguidas. Tá porra!
O processo de quebrar o ICE da Cincinnati levou um total de nove dias. Eu disse uma semana, disse a Armitage, incapaz de esconder sua satisfação, quando Casey lhe mostrou o seu plano para a operação. Você levou o tempo que quis. O caralho, disse Casey, sorrindo para a tela. Isto aqui é um bom trabalho, Armitage. Sim, admitiu a Armitage. Mas não deixe isso subir à sua cabeça.
Comparado ao que ainda vai fazer, isso é só um joguinho de fliperama. Te amo, gata mãe, sussurrou o homem Link dos Panteras Modernos. Sua voz era estática, modulada no headset de Casey. Atlanta, ninhada. Parece verde. Sinal verde, entendeu? A voz de mole era um pouco mais clara. Ouça, obedeço.
Os modernos estavam usando uma espécie de antena parabólica vagabunda em Nova Jersey para desviar o sinal embaralhado do homem Link por um satélite dos filhos de Cristo Rei em órbita geossincrônica sobre Manhattan. Eles optaram por encarar toda a operação como uma piada interna elaborada e a escolha de satélite de comunicação parecia ter sido proposital.
Os sinais de Molle estavam sendo irradiados de uma parabólica de um metro de diâmetro colada com epóxi ao telhado de uma torre de banco de vidro preto quase tão alta quanto o prédio da Cincinnati. Atlanta. O código de reconhecimento era simples.
Atlanta para Boston, para Chicago, para Denver. Cinco minutos para cada cidade. Se alguém conseguisse interceptar o sinal de Molly, decodificá-lo, sintetizar a sua voz, o código entregaria aos modernos. Se ela permanecesse no prédio por mais de vinte minutos, era altamente improvável que conseguisse sair de lá. Casey engoliu o restante de seu café, ajustou os tronos do lugar e coçou o peito embaixo de sua camiseta preta.
Tinha apenas uma vaga ideia do que os Panteras modernos planejaram como distração para o pessoal da segurança da SenseNet. Seu trabalho era garantir que os programas de intrusão que ele havia escrito estabelecessem um link com os sistemas da SenseNet quando o mole precisasse. Ele viu a contagem regressiva no canto da tela. 2, 1. Conectou-se e acionou seu programa.
Linha principal, respirou o homem Link. Sua voz era o único som enquanto o case mergulhava nos extratos reluzentes do ICE da Cincinnati. Ótimo. Checar mole. Acionou o cistinho e flipou para dentro do sensor dela. O embaralhador borrava ligeiramente o input visual. Ela estava em pé em frente a uma parede de espelhos salpicados de ouro no imenso lobby do prédio, mastigando o chiclete, aparentemente fascinada por seu próprio reflexo.
Além do enorme par de óculos de sol que escondiam seus implantes espelhados, ela conseguia ficar incrivelmente parecida com alguém que pertencia ao local. Outra garota turista esperando ver Tali e Chan, mesmo que de passagem. Ela vestia uma capa de chuva plástico cor-de-rosa, um top de malha branco, calças brancas folgadas cortadas no estilo que tinha sido moda em Tóquio um ano antes. Sorria, distraía e fazia bolas de chiclete.
Casey tinha vontade de rir. Conseguia sentir a fita micropore colada nas costelas dela. Sentir as minúsculas unidades de espessura fina embaixo dela. O rádio, a unidade de cistinho e o embaralhador. O microfone de garganta colado no seu pescoço parecia tanto quanto possível com um dermadisco analgésico.
Suas mãos, nos bolsos da capa rosa, estavam se flexionando sistematicamente por meio de uma série de exercícios para a liberação de tensão. Ele levou alguns segundos para perceber que a sensação peculiar nas pontas dos dedos dela eram provocadas pelas lâminas quando se projetavam parcialmente e depois se recolhiam. Ele flipou de volta. Seu programa havia chegado ao quinto portal.
Ele viu seu ICE breaker pulsar estroboscópico e se modificar na sua frente, apenas levemente consciente de suas mãos brincando sobre o deck, fazendo pequenos ajustes. Planos translúcios dos coloridos se embaralhavam como um baralho mágico. Embora uma carta, ele pensou. Escolha uma carta, ele pensou. Qualquer uma. O portal ficou para trás de um borrão. Ele riu.
O IC da Cincinnati havia aceito sua entrada como uma transferência de rotina do complexo de Los Angeles do consórcio. Ele estava dentro. Atrás dele, subrotinas virais caíam, fundindo-se com o material do código do portal, prontos para defletir os verdadeiros dados de Los Angeles quando eles chegassem. Tornou a flipar. Molly estava passando pela enorme mesa de recepção circular na parte de trás do lobby.
O display disparou em 12 horas, 1 minuto e 20 segundos em seu nervo óptico. À meia-noite, em sincronia com o chip atrás do olho de mole, o homem Link em jersey deu a ordem. Linha principal. Nove modernos, espalhados ao longo de 300 km do Sproul, haviam simultaneamente teclado Emerge Max em telefones públicos.
Cada moderno lê um script pronto curto. Deus ligou e saiu para a noite, descartando luvas cirúrgicas. Nove diferentes departamentos de polícias e órgãos de segurança pública estavam absorvendo as informações de que uma obscura subseita de fundamentalistas cristão-militantes havia acabado de assumir o crédito por ter introduzido níveis clínicos de um agente psicoativo proibido conhecido como Azum-9 no sistema de ventilação da pirâmide Sensinete.
Já fora demonstrado que o Azul 9, conhecido na Califórnia como Anjo Exterminador, produzia paranoia aguda e psicose homicídia em 85% das cobaias em testes. Case acionou a chave quando seu programa surgiu através dos portais do subsistema que controlava a segurança da biblioteca de pesquisa da SenseNet. Ele se viu entrando em um elevador. Desculpe, mas você é funcionária?
o guarda e as sobrancelhas. Molly fez uma bola de chiclete. Não, ela disse, socando o plexo solar do homem com os dois primeiros dedos da mão direita. Quando ele se dobrou, tentando alcançar o bip no seu cinto, ela bateu sua cabeça contra a parede do elevador. Mastigando um pouco mais rápido agora, ela tocou fechar porta e parar no painel iluminado.
Ela tirou uma caixa preta do bolso do casaco e inseriu uma ponte no buraco da fechadura da trava que segurava o circuito do painel. Os panteras modernos deram quatro minutos de vantagem para que seu primeiro movimento surte ser feito e então injetaram uma segunda dose cuidadosamente preparada de desinformação. Desta vez, eles a dispararam direto no sistema de vídeo interno do prédio da Sensinete.
Às 12 horas, 4 minutos e 3 segundos, todas as telas do prédio piscaram estroboscopicamente por 18 segundos, numa frequência que produziu convulsões em um segmento suscetível dos empregados da SenseNet. Então alguma coisa vagamente parecida com o rosto humano encheu as telas, suas feições esticadas por extensões assimétricas de ossos, como se fosse uma projeção de mercator obscena. Doutor Paradoxo?
Lábios azuis se abriram, molhados, quando o maxilar alongado e distorcido se moveu. Alguma coisa, talvez uma mão, uma coisa tipo um feixe avermelhado de raízes retorcidas, foi em direção à câmera. Se movimentou rapidamente no borrão e desapareceu.
Imagens subliminamente rápidas de contaminação. Imagens gráficas do sistema de fornecimento de água do edifício. Mãos enluvadas manipulando frascos de laboratório. Alguma coisa caindo na escuridão. Um splash fraquinho.
A trilha de áudio, o volume ajustado para rodar a pouco menos que o dobro da velocidade de execução normal, era parte de um noticiário de um mês atrás, detalhando usos mitilitares potenciais de uma substância conhecida como HSG, um produto bioquímico que controlava o fator de crescimento do esqueleto humano.
Overdoses de HSG jogavam determinadas células ósseas em hiperaceleração, acelerando o crescimento por fatores de até mil por cento. Às doze horas e cinco minutos, o nexus espelhado do consórcio SenseNet tinha mais de três mil empregados. Cinco minutos após a meia-noite, quando a mensagem dos modernos terminou em uma explosão que deixou a tela inteira branca, a pirâmide SenseNet gritou.
Meia dúzia de hovercrafts estáticos da polícia de NY, respondendo a possibilidade de Azul 9, convergiram para a pirâmide SenseNet. Com holofotes anti-tumulto em intensidade máxima, um helicóptero de ação rápida do Bama estava saindo de seu heliponto na ilha Hicker. Quem adicionou seu segundo programa?
Um vírus projetado cuidadosamente atacou as linhas de código que exibiam os comandos primários de custódia do subsolo que abrigava o material de pesquisa da SenseNet. Boston. A voz de mole através do link. Estou embaixo. Casey flipou e viu a parede nua do elevador. Ela estava tirando as calças brancas.
Um pacote volumoso, exatamente do tom de seu tornozelo branquinho, estava preso ali com fita micropore. Ela se ajoelhou e tirou-a. Rastros bordou piscaram ao longo do policarbono mimético quando ela desdobrou o traje moderno. Ela tirou a capa de chuva rosa, jogou-a ao lado das calças brancas e começou a vestir o traje sob o top branco de malha.
12 horas, 6 minutos e 26 segundos. O vírus de Keis havia perfurado uma janela no ICE de comando da biblioteca. Ele entrou e encontrou um espaço azul infinito, cheio de esferas com códigos de cores incrustadas, numa grade apertada de neon azul claro. No não espaço da matriz, o interior de um determinado construto de dados possui uma dimensão subjetiva ilimitada.
Uma calculadora de brinquedo de criança, acessada pelo Sandaide Casey, teria apresentado abismos ilimitados de nada com alguns comandos básicos vinculados. Casey começou a teclar a sequência que o finlandês havia comprado de um Sarariman de escalão médio com sérios problemas de drogas. Ele começou a deslizar por entre as esferas como se estivesse andando sobre trilhos invisíveis. Aqui, este aqui.
Digitando para abrir caminho dentro da esfera, um firmamento de neão azul frio acima dele, sem estrelas e liso como vidro gelado, ele acionou um subprograma que efetuava certas alterações nos comandos custodiais centrais. Fora agora. Revertando suavemente o vírus e reconstruindo o tecido da janela. Pronto.
No lobby da SenseNet, dois Panteras Modernos estavam sentados em alerta atrás de um balcão retangular baixo, gravando o tumulto com uma câmera de vídeo. Ambos vestiam trajes camaleão. Os táticos estão jogando barricadas de espuma agora, um desobservou, falando para o microfone de garganta. Os rápidos ainda estão tentando pousar o helicóptero. Cage acionou a chave do cistim e flipou direto para a agonia de ossos quebrados.
Molly estava encostada na parede cinza nua de um corredor comprido, a respiração ofegante e irregular. Casey voltou instantaneamente à matriz, uma linha incandescente de dor desaparecendo aos poucos na sua coxa esquerda. O que é que está pegando, Niada? Ele perguntou ao homem Link. Não sei, cortador. Mamãe não está falando. Espera. O programa de Casey estava entrando em um loop.
Um único fio finíssimo de neon se estendia do centro da janela restaurada até o contorno e mutação constante de seu ICE breaker. Ele não tinha tempo para esperar. Respirando fundo, voltou a flipar. Molly deu um único passo, tentando apoiar seu peso na parede do corredor. No loft, Casey soltou um grunhido. O segundo passo a levou na direção de um braço estendido.
Manga de uniforme reluzente de sangue fresco. Me eslumbre de um tubo de fibra de vidro estressado. Com o terceiro passo, Casey deu um grito e se viu de volta à matriz. Ninhada. Boston. Baby. A voz dela tensa de dor. Ela tossiu. Um probleminha com os nativos. Acho que um deles quebrou minha perna.
Do que você precisa agora, gata mãe? A voz do homenim, que era indistinta, quase perdida atrás da estática. Que existe se for sua voltar. Ela estava encostada na parede, apoiando todo o seu peso na perna direita. Mexeu no conteúdo do bolso canguru do traje. Tirou uma folha de plástico coberta com arco-íris de dermadiscos.
Selecionou três e os colou com força no pulso esquerdo em cima das veias. Seis mil microgramas de análogo de endorfina desceram em cima da dor com um martelo, estilhaçando-a. Ondas cor-de-rosa de calor subiram por sua coxa. Ela suspirou e foi relaxando lentamente. Ok, ninhada. Agora tudo ok. Mas vou precisar de uma equipe médica quando sair. Fale para o meu pessoal.
Cortador, estou a dois minutos do alvo. Você segura? Diz para ela que estou dentro e segurando, disse Casey. Molly começou a descer o corredor mancando. Quando olhou para trás, uma vez, Casey viu os corpos amontoados de três seguranças da SenseNet. Um deles parecia não ter olhos. Tático e rápido selaram o térreo, gata mãe. Barricadas de espuma. O lobby está ficando quente.
Aqui é que está ficando quente, disse ela, empurrando um par de portas de aço cinza e entrando. Quase lá, cortador. Casey flipou para a matriz e arrancou os trutos da testa. Estava encharcado de suor. Limpou a testa com uma toalha, tomou um gole rápido de água da garrafa Squeeze ao lado do Osaka e checou o mapa da biblioteca exibido na tela.
Um cursor vermelho pulsante se arrastou pelo contorno de uma porta. Há milímetros apenas do ponto verde que indicava a localização do construto de Dixie Flatline. Ele se perguntou o que toda aquela caminhada não estaria fazendo com a perna dela. Com uma quantidade suficiente de genérico de endorfina, ela poderia andar até mesmo com os tocos das pernas disipadas. Ele apertou o cinto de segurança que o mantinha preso na poltrona e substituiu os trozos.
Agora era a rotina. Trodus, plug, flip. A biblioteca de pesquisa da Cicnet era uma área morta de armazenagem. Os materiais ali arquivados tinham de ser removidos fisicamente antes de se poder interfaciá-los. Molly passou, mancando, porém, entre as fileiras de idênticos armários cinza. Diga pra ela mais cinco à frente e dez à esquerda, linhada, disse Casey. Mais cinco à frente e dez à esquerda, gata mãe, disse o homem Link.
Ela pegou a esquerda. Uma bibliotecária de rosto branco como se ele estava agachado entre dois armários, a face molhada, os olhos no nada. Molly a ignorou. Case ficou se perguntando o que os modernos haviam feito para provocar aquele nível de terror. Ele sabia que tinha alguma coisa a ver com um roax de ameaça, uma farsa, mas estava envolvido demais com seu ICE para seguir as explicações de Molly.
É esse, disse Casey, mas ela já havia parado na frente do gabinete que continha o construto. Suas linhas lembravam a Casey as estantes neo-aztecas da antessala de Julius de Ani, em Chiba. Vai fundo, cortador, disse mole. Casey flipou para o ciberespaço e enviou um comando pulsando pelo fio vermelho que arrebentou o ICER da biblioteca. Cinco sistemas de alarme separados se convenceram de que ainda estavam operativas.
As três travas elaboradas se desativaram, mas se consideraram ainda fechadas. O banco central da biblioteca sofreu um deslocamento ínfimo em sua memória permanente. O construto havia sido removido, por ordem executiva, um mês antes. Ao verificar a autorização para a remoção do construto, um bibliotecário descobria que os registros foram apagados. A porta se abriu sob a dobradiça silenciosas.
0467839, disse Casey. E Molly retirou uma unidade de armazenamento preta da estante. Ela parecia o pente de um rifle grande. Sua superfície estava toda coberta com decalques de aviso e avaliações de segurança. Molly fechou a porta do armário. Casey flipou. Ele retirou a linha através do ICA da biblioteca. Ele voltou para o seu programa, deflagrando automaticamente uma reversão completa do sistema.
Os portões da SenseNet se fecharam quando ele passou recuando, subprogramas retornando alucinados ao núcleo do ICE Breaker, enquanto ele passava pelos portais onde haviam ficado estacionados. Fui, Niada, ele disse, e desabou na sua cadeira. Depois da concentração de uma operação de verdade, conseguia permanecer conectado e ainda assim conservar a percepção do próprio corpo.
A Cincinnati poderia levar dias para descobrir o roubo do construto. A chave seria o desvio da transferência de Los Angeles, que coincidia bem demais com a operação terrorista dos modernos. Ele duvidava que os três seguranças que Molly havia encontrado no corredor vivessem para falar a respeito. Flipou. O elevador, com a caixa preta de Molly colada com fita ao lado do painel de controle, continuava onde ela havia deixado.
O guarda ainda estava deitado e enrolado em posição vetal no chão. Casey reparou no derma no pescoço dele pela primeira vez. Alguma coisa de mole para manter o cara derrubado. Ela passou por cima do sujeito e retirou a caixa preta antes de apertar o botão lobby. Quando a porta do elevador se abriu como assobio, uma mulher entrou correndo do meio da multidão e bateu com a cabeça na parede de trás do elevador.
Molha ignorou, curvou-se para tirar o derma do pescoço do guarda. Então chutou as calças brancas e a capa rosa porta fora, jogando os óculos escuros na sequência e puxou o capuz de seu traje até a testa. O constructo no bolso canguru do traje pressionava o externo quando andava. Ela saiu do elevador. Casey já havia presenciado o pânico antes, mas nunca numa área fechada.
Os empregados da Cincinnati, ao se derramarem para fora dos elevadores, correram para as portas da rua apenas para encontrar as barricadas de espuma dos táticos e as armas saco de areia dos rápidos do BAMA. Os dois órgãos, convencidos de que estavam contendo uma horda de assassinos em potencial, estavam cooperando um com o outro com um nível de eficiência fora do seu normal.
Além dos destroços estilhaçados das portas principais da rua, havia corpos empilhados nas barricadas, três camadas de corpos. O som oco dos rifles de assalto fornecia um ruído de fundo constante para o som que a multidão fazia ao ir e vir pelo piso de mármore do lobby. Casey nunca havia ouvido nada parecido com aquele som.
E aparentemente nem mole. Jesus, ela disse e hesitou. Era uma espécie de ruído agudo que subia até formar uma parede borbulhante de medo puro e total. O piso do lobby estava coalhado de corpos, roupas, sangue e rolos compridos e amassados de formulário contínuo amarelo. Vambora, irmã. Vamos dar fora.
Os olhos dos dois modernos a encaravam de dentro dos dois lemos loucos de tons de policarbono. Os trajes eram incapazes de preservar a confusão de formas e cores enfurecidas atrás deles. Está machucada. Vamos embora. Tommy te ajuda a andar. Tommy entregou uma coisa ao que estava falando. Uma câmera e vídeo em volta em policarbono. Chicago, disse ela. Estou a caminho.
E então caiu, não no chão de mármore, escorregadio de sangue e vômito, mas dentro de um poço quentinho, no silêncio e na escuridão. O líder dos Panteras Modernos, que se apresentou como o Lupus de Wonderboy, vestia um traje de policarbono com um recurso de gravação que lhe permitia reexibir fundos à vontade. Emboleirado na beirada da mesa de trabalho de Casey como uma espécie de gárgula de topo de linha,
Ele ficou olhando para Casey e Armitage com olhos desconfiados. Sorriu. Seus cabelos eram cor de rosa. Uma floresta arco-íris de Microsoft brotava atrás de sua orelha esquerda. A orelha era pontuda, com tufos de mais pelos rosa. Suas pupilas haviam sido modificadas para capturar a luz como as de um gato. Casey ficou olhando o traje mudar de cores e texturas.
Você deixou as coisas saírem do controle, disse a Hermitage. Ele estava em pé no centro do loft como uma estátua, envolto nas dobras escuras e brilhantes de uma capa de chuva sofisticada. Caos, Sr. Cren, disse Lupus e Underboy. Este é o nosso modo e nossos modos. Este é o nosso barato principal. Sua mulher sabe. Nosso negócio é com ela, não com o senhor.
Seu traje havia assumido um padrão anguloso bizarro de bege e verde abacate. Ela precisava da nossa equipe médica. Ela está com eles. Vamos cuidar dela. Está tudo bem. Ele voltou a sorrir. Pague a ele, disse Casey. A metade olhou fuzilando para ele. Não temos os bens. Sua mulher tem, disse Yonder Boy. Pague a ele.
A Armitage caminhou pisando duro até a mesa e retirou três maços grossos de neo-ienes dos bolsos da capa. Quer contar? Perguntou a Yonder Boy. Não, respondeu o Pantera Moderno. Você vai pagar. Você é um senhor quem? Você paga para ser assim. Não é um senhor nome. Espero que isso não seja uma ameaça, disse a Armitage.
Isso são negócios, disse John Derboy, enfiando o dinheiro no único bolso da frente de seu traje. O telefone tocou. Cage atendeu. Mole, disse para a armitagem e passou o fone para ele. As cúpulas diorésicas dos Prol estavam começando a se acender num cinza pré-amanhecer, quando Cage saiu do prédio. Sentia os braços e as pernas frios e desconectados. Não conseguia dormir.
estava enjoado do loft. Lupus tinha ido embora depois da mitagem e Molly estava sendo operado em algum lugar. Uma vibração debaixo dos seus pés quando um trem passou. Sirenes passaram ao longe, indo e vindo com seu efeito Doppler. Ele virava esquinas aleatoriamente, o colarinho da jaqueta nova de couro levantando, andando e curvado, jogando na sarjeta.
jogando na trajeta o primeiro do que seria uma fileira de Ye-Yuans e acendendo o outro. Tentou imaginar os saquinhos de toxina do Armitage se dissolvendo em sua corrente sanguínea, membranas microscópicas ficando cada vez mais finas à medida que ele caminhava. Não parecia real. Assim como o medo e a agonia que vira pelos olhos de mole no lobby da Cincinnati, ele percebeu que estava tentando se lembrar os rostos das três pessoas que havia matado em Shiba.
Os homens eram rostos em branco. A mulher o fez se lembrar de Lindali. Um caminhão triciclo todo ferrado, com janelas espelhadas, passou aos alavancos do seu lado, cilindros de plásticos vazios sacolejando no seu leito. Case. Ele pulou de lado, colocando instintivamente as costas contra a parede. Tem mensagem para você, Case?
O traje de lupus de Underboy rodou um ciclo de cores primárias puras. Perdão, não quis te assustar. Casey se endireitou as mãos nos bolsos da jaqueta. Era uns 15 centímetros mais alto que o moderno. Você devia tomar cuidado, Underboy. A mensagem é esta, Wintermute. Ele soletrou a palavra.
É sua? Casey deu um passo à frente. Não, disse Wonderboy. É para você. De quem? Um termote repetiu Wonderboy, fazendo o que sim com a cabeça, balançando a crista de cabelo cor de rosa. Seu traje ficou preto fosco, uma sombra de carbono contra o concreto velho. Executou uma dancinha esquisita, girando os braços pretos magros, e então desapareceu.
Não. Ali. O capuz vestido para esconder o rosa, o traje exatamente do mesmo tom de cinza, com pintas e manjas iguais às da calçada sobre a qual ele estava. Os olhos piscaram de volta com o vermelho do sinal de parede de um semáforo. E aí ele desapareceu definitivamente. Cage fechou os olhos, massageou com os dedos entorpecidos, recostando-se na parede de tijolos com tinta descascada.
A NINSEI era muito mais simples. Nossa, esses termos em, sei lá, em japonês, eu acho que tá um saco pra ler. 5. A equipe médica que Molly empregou ocupava dois andares de um Condohack anônimo perto do antigo centro de Baltimore. O prédio era modular, como uma versão gigantesca do Chip Hotel, cada caixão com 40 metros de comprimento.
Case encontrou um mole quando ela emergeu de dentro de um deles, que trazia o logo elaboradamente trabalhado de um certo Gerald Sheen dentista. Ela estava mancando. Ele disse que se eu chutar qualquer coisa, a perna cai. Encontrei um colega seu, ele disse. Um moderno. É? Qual deles? Lupus de Wonderboy. Ele tinha um recado.
Entregou a ela um guardanapo de papel com a palavra Wintermute escrita em caneta, com a ponta de feltro vermelha em suas maiúsculas bem feitas e trabalhadas. Ele disse, mas ela levantou a mão e fez o gesto de silêncio. Vai pegar um caranguejo pra gente, ela disse.
Depois do almoço em Baltimore, mole dissecando seu caranguejo com uma facilidade espantosa, pegaram o metrô para Nova York. Case havia aprendido a não fazer perguntas. Elas atrasiam o gesto de silêncio. A perna parecia estar incomodando e ela quase não falava.
Uma criança negra magrinha com contas de madeira e resistores antigos trançados nos cabelos abriu a porta do finlandês e os conduziu pelo túnel de refugios. Cage sentiu que o material havia crescido de algum modo durante sua ausência. Ou então, parecia que estava mudando sutilmente, cozinhando sob a pressão do tempo, flocos invisíveis e silenciosos acomodando-se para formar uma massa, uma essência cristalina de tecnologia descartada.
florescendo secretamente nos depósitos de Richard Sproul. Do outro lado do cobertor do exército, o finlandês esperava na mesa branca. Molly começou a fazer gestos acelerados, pegou um pedaço de papel, escreveu uma coisa nele e passou para o finlandês. Ele o pegou entre o polegar e o indicador, segurando-o longe do corpo como se pudesse explodir.
Ele fez um gesto que Casey não entendia e que traduziu uma mistura de impaciência e resignação mal-humorada. Levantou-se, espanando migalhas da frente de seu paletó de tweed surrado. Sobre a mesa, um jarro de vidro de arem que conserva ao lado de um pacote de bolachas, pão de forma com um plástico rasgado e um cinzeiro de alumínio com pilhas de bitucas de partagas. Espere, disse o finlandês e saiu do aposento.
Molly se sentou no lugar dele, projetou a lâmina de seu dedo indicador e espetou uma posta cinzenta de arenque. Casey ficou perambulando pelo aposento, passando os dedos pelos equipamentos de varredura nas colunas. Dez minutos e o finlandês voltou apressado, mostrando os dentes no sorriso amarelo largo. Ele fez que sim com a cabeça, levantou o polegar para Molly como sinal de tudo bem e fez um gesto para Casey ajudá-lo com o painel da porta.
Enquanto o case ajustava a borda de velcro, o finlandês retirou um pequeno console do bolso e começou a digitar uma sequência complexa. Meu amor, ele disse para Molly, guardando de novo o console. Você conseguiu. Na boa, eu sinto isso. Quer me dizer onde conseguiu isso? Yonder Boy, disse Molly, colocando de lado o arenque e as bolachas. Fiz um acordo com Larry por baixo dos panos.
Esperta, disse o finlandês. É uma IA. Diminua um pouco a marcha, disse Casey. Berna, disse o finlandês, ignorando-a. Berna. Ela conseguiu cidadania suíça limitada, sob o equivalente deles do Ato de 53, construída para a Tessier Ashpal S.A. Eles possuem um mainframe software original.
E o que é que tem em Berna? Casey se meteu deliberadamente no meio dos dois. O intermulti é o código de reconhecimento de uma IA. Eu tenho os números de registro de Turing, Inteligência Artificial. Está tudo muito bom, disse Molly. Mas aonde isso nos leva? Se o Yonder Boy estiver certo, disse o finlandês. Esta IA é quem está bancando o Armitage.
Eu paguei ao Larry para que os modernos investiguem um pouco a Armitage. Molly virou-se para a Case e explicou. Eles têm umas linhas de comunicação bem bizarras. O trato era de que eles ganhariam minha grana se conseguissem responder uma pergunta. Quem está mandando em Armitage? E você acha que é essa IA? Essas coisas não têm permissão para ter autonomia. Quem manda é essa corporação mãe. Essa é a Tesla.
Tessier Aschpol, S.A., disse o finlandês. E tem uma historinha sobre eles para vocês. Querem ouvir? Ele se sentou e se curvou para a frente. Finlandês, disse mole. Ele adora uma história. Esta aqui eu não contei a ninguém, começou o finlandês. O finlandês era um receptador, um traficante de artigos roubados, basicamente software.
No decorrer de seu trabalho, ele às vezes entrava em contato com outros receptadores, alguns dos quais lidavam com os artigos mais tradicionais do ramo. O torneio tinha que ser executado mesmo, hein? Metais preciosos, selos, moedas, aras, joias, peles, quadros e outras obras de arte. A história que contou a Casey e Molly começou com a história de outro homem, um homem que ele chamou de Smith. Smith também era receptador.
Mas, em temporadas mais mornas, trabalhava como Marchand. Ele foi a primeira pessoa que o finlandês conheceu que havia virado silício. A expressão tinha um ar de coisa antiga para Casey. E os mais crossofts que ele adquiria eram programas de história da arte e tabela de venda de galerias. Com meia dúzia de chips em seu novo soquete, o conhecimento que Smith tinha do comércio de arte era formidável.
Pelo menos pelos padrões de seus colegas. Mas Smith procurou o finlandês com pedido de ajuda. Um pedido fraterno de um homem de negócios para outro. Ele queria uma investigação completa do clã Tessier Aschpol, disse. E isso tinha de ser executado de um modo que garantisse a impossibilidade de que a fonte algum dia fosse descoberta. Podia ser possível, o finlandês opinara. Mas ele exigia uma explicação.
Aquilo tinha cheiro, o finlandês disse para Casey. Cheiro de grana. E Smith estava tomando muito cuidado. Quase cuidado demais. Smith, pelo que ficou sabendo depois, tiveram um fornecedor conhecido como Jimmy. Jimmy era um arrombador e outras coisas também. E tinha acabado de voltar de um ano em órbita, trazendo consigo certos artefatos.
A coisa mais incomum que Jimmy havia conseguido pegar na sua viagem pelo arquipélago foi uma cabeça. Um busto intrincadamente trabalhado, cloazado sobre platina, recoberto de pérolas e lazurita. Suspirando, Smith colocou de lado seu microscópio de bolso e aconselhou Jimmy a derreter o objeto. Era contemporâneo e não uma antiguidade, e não tinha valor para o colecionador.
Jimmy riu. A coisa era um terminal de computador, disse ele. Podia falar. E não era a voz sintetizada, mas um belo arranjo de engrenagens e tubos miniaturizados de órgão. Era uma coisa barroca demais para alguém construir. Uma coisa perversa, pois chips de voz sintetizada saiam quase de graça.
Smith plugou a cabeça em seu computador e ficou ouvindo a voz inumana melodiosa cantar as cifras da devolução de impostos do ano passado. A clientela de Smith incluía um bilionário de Tóquio, cuja paixão por autômetros mecânicos resvalava no fetichismo. Smith deu de ombros e mostrou a Jimmy as palmas de suas mãos viradas para cima num gesto tão antigo quanto as lojas de penhores.
Ele podia tentar, disse ele, mas duvidava que fosse conseguir muito dinheiro por isso. Quando Jimmy foi embora, deixando a cabeça, Smith começou a examiná-la cuidadosamente, descobrindo determinadas marcas registradas. Ele acabou conseguindo rastreá-las até uma improvável colaboração entre dois artesãos de Zurique, um especialista em esmaltagem de Paris, um joalheiro holandês e um designer de chips da Califórnia.
Ela fora comissionada, ele descobriu, pela Tessier Ashpaw S.A. Smith começou a fazer ofertas preliminares ao colecionador de Tóquio, dando a entender que estava no rastro de alguma coisa digna de nota. E então, ele recebeu uma visita, uma visita inesperada, que passou pelo labirinto de sua segurança como se ela não existisse.
Um homem baixo, japonês, muitíssimo educado, que tinha todos os sinais de um assassino ninja cultivado em laboratório. Smith ficou sentado, muito quieto, olhando para os olhos castanhos tranquilos da morte, do outro lado de uma mesa de pau vietnamita polido. De modo gentil, quase como se pedisse desculpas, o assassino clonado explicou que era seu dever encontrar e devolver uma determinada obra de arte.
um mecanismo de grande beleza que havia sido levado da casa de seu mestre. O ninja disse que havia chegado ao seu conhecimento o fato de que Smith poderia saber a localização desse objeto. Smith disse ao homem que não tinha vontade de morrer e entregou a cabeça. E quando seu visitante perguntou, ele esperava obter pela venda do objeto.
Smith disse uma cifra bem menor do que o preço que pretendia fixar. O ninja sacou um chip de crédito e digitou para Smith essa quantidade, retirada de uma conta suíça numerada. E quem? Perguntou o homem. Ele havia trazido aquela peça. Smith contou. Em poucos dias, Smith ficou sabendo da morte de Jimmy. Então foi aí que eu entrei, continuou o finlandês.
Smith sabia que eu lidava com um bocado com a turma da Memory Lane. E é aí que você vai para uma busca na encolha que jamais será rastreada. Contratei um cowboy. Como era o intermediário, fiquei com uma porcentagem. O Smith era cuidadoso. A gente tinha acabado de ter uma experiência comercial muito bizarra. E ele saiu por cima nessa, mas não acrescentou nada para ele.
Quem havia pago com aquele dinheiro suíço? A Yakuza? De jeito nenhum. Eles têm um código muito rígido para situações como essa. E matam o receptor, sempre. Era alguma coisa freak? Smith achava que não. Negócios freak tem uma vibração. Dá até para sentir o cheiro. Bom, eu mandei o meu cowboy pesquisar arquivos de notícias antigas até encontrarmos a TCR Ashpaw em litígio.
O caso não era nada, mas descobrimos qual era a firma jurídica. Então ele quebrou o ICE do advogado e pegamos o endereço da família. Grande ajuda isso nos deu. Que exergueu as sobrancelhas. O Fusin, Freeside, disse o finlandês. Acabou que eles praticamente são donos daquilo tudo. O interessante foi a foto que conseguimos quando o cowboy fez uma busca de rotina nos arquivos de notícias e compilou um resumo.
Empresa familiar. Estrutura corporativa. Supostamente, você pode comprar ações de uma SA. Mas não se comercializa uma única ação da TCR Ashpal no mercado aberto há mais de 100 anos. Olha só. Tá parecendo umas empresas no Paraná. Em nenhum mercado, até onde sei. Você está vendo uma família orbital de primeira geração, muito discreta.
muito excêntrica, dirigida como uma corporação. Nossa, igualzinho mesmo, hein? Muito dinheiro, muito avessa à mídia, muita clonagem. A lei orbital é muito mais leniente com relação à engenharia genética, certo? É difícil rastrear qual geração ou que combinação de gerações está mandando no pedaço em determinado momento. Como assim? Perguntou Molly. Eles têm seu próprio sistema criogênico.
Mesmo sob a lei orbital, você está legalmente morto enquanto durar no congelamento. Parece que eles se revezam, embora ninguém tenha visto o pai fundador em mais de 30 anos. A mãe fundadora morreu num acidente de laboratório. Então... o que aconteceu com o seu receptador? Nada, o finlandês franziu a testa. Abriu mão disso. Demos uma olhada no emaranhado fantástico de poderes jurídicos que os...
que o Tessier Ashpal tem e foi isso. Jimmy deve ter entrado na Stray Light, roubado a cabeça e até Tessier Ashpal mandou seu ninja atrás dela. Smith decidiu esquecer. Talvez tenha sido inteligente. Ele olhou para Molly. A Vila Stray Light, no alto do fuso, estritamente particular.
Você acha que eles são donos desse ninja finlandês? Perguntou Molly. Smith achava. Claro, disse ela. O que será que aconteceu com esse ninja finlandês? Provavelmente foi congelado. Descongelam quando precisam. Ok, disse Casey. Descobrimos que a Armitage está recebendo seu dinheiro de uma IA chamada Wintermute. Onde isso nos leva? Até agora, há lugar nenhum, disse Molly. Mas você tem um trabalhinho extra agora.
Ela tirou um papel dobrado do bolso e entregou para ele. Ele abriu. Coordenadas de grade e códigos de login. Quem é este? Armitage. É algum banco de dados dele, com prédios modernos. Negócio separado. Onde ele está? Londres, disse Casey. Pode craquear, ela riu. Faça valer o seu pagamento, para variar.
Case esperou por um trem trans BAMA na plataforma lotada. Molly tinha voltado para o loft horas antes, o construto do Flatline em sua sacola verde, e Case não parou de beber desde então. Era perturbador pensar no Flatline como um construto, uma fita ROM não customizável, replicando as habilidades de um morto, suas obsessões, suas reações automáticas.
O trem chegou com um estrondo pela faixa de indução preta, fazendo com que uma chuva de brita caísse de rachaduras no teto do túnel. Casey foi arrastando os pés até a porta mais próxima e ficou olhando os outros passageiros durante a viagem.
Uma dupla de cientistas cristãos, com cara de predadores, abria caminho devagar na direção de um trio de jovens técnicas de escritório que usavam vaginas holográficas destilizadas nos pulsos. Um rosa úmido brilhando sob a luz fria. As técnicas lambiam seus lábios perfeitos, nervosas, e olhavam os cientistas cristãos de esgueira por baixo de pálpebras metálicas quase fechadas.
As garotas pareciam animais numa savana, altas e exóticas, balançando-a graciosa inconscientemente com o movimento do trem, seus saltos altos como cascos polidos contra o metal cinza do piso do vagão. Antes que pudessem debandar, fugir dos missionários, o trem chegou à estação de Casey.
Ele saiu e avistou um charuto holográfico branco, suspenso contra a parede da estação. A palavra Freeside pulsando abaixo dele, em maiúsculas contorcidas que imitavam o japonês impresso. Ele atravessou a multidão e ficou embaixo do sinal, estudando a coisa. Para que esperar? Pulsava o sinal. Um fuso branco rombudo, ladeado e cravejado de grades e radiadores, docas, cúpulas.
Ele já havia visto um anúncio ou outros parecidos milhares de vezes. Nunca lhe dissera nada. Com seu deck, pôde alcançar os bancos de dados de Freeside com a mesma facilidade com que podia ir à Atlanta. Viagens eram coisas da carne. Mas, agora, notava um pequeno símbolo do tamanho de uma moedinha, entremeado no canto inferior esquerdo no tecido de luz do anúncio. T.A.
Voltou ao loft, perdido nas memórias do flatline. Ele havia passado a maior parte do verão de seus dezenove anos no gentleman loser, tomando cervejas caras e vendo os cowboys. Nessa época, ainda não havia sequer tocado num deck, mas sabia o que queria. Havia pelo menos mais outros vinte esperançados assombrando o loser naquele verão, cada qual na expectativa de se tornar ajudante de algum cowboy. Não havia outro jeito de aprender.
Todos haviam ouvido falar de Paulie, o jockey caipira da periferia de Atlanta que sobrevivera à morte cerebral atrás de Black Ice, o gelo negro. Black Ice? O rádio peão, curta e grossa das ruas, a única que funcionava. Não tinha muito a dizer a respeito de Paulie, além do fato de que ele havia feito o impossível.
Foi grande, o outro, o Anabio, contou a Casey pelo preço de uma cerveja. Mas quem sabe mesmo da história? Eu ouvi dizer que talvez tenha sido uma rede de folha de pagamento brasileira. De qualquer maneira, o cara estava morto, morte cerebral. A linha do eletro ficou plana. Casey olhava pelo bar lotado para um homem atarracado com a camiseta de mangas curtas. O tom de sua pele meio acinzentado. Garoto, o Flatline lhe diria, meses depois de Miami.
Eu sou parecido com aqueles lagartos enormes, sabe? Eles tinham dois cérebros grandes pra cacete, um na cabeça e o outro no osso da cauda, para manter as patas traseiras se movendo. É bater naquela coisa preta e o velho cérebro da cauda simplesmente faz você continuar seguindo em frente. A elite de cowboys do loser encarava a Pauli com uma estranha ansiedade grupal. Quase uma superstição.
McCoy Pauli, o Lázaro do ciberespaço. E no fim, o que matou foi seu coração. Seu coração russo usado, implantado num campo de prisioneiros durante a guerra. Ele se recusara a substituir a coisa, dizendo que precisava daquela batida particular para manter seu senso de timing. Casey ficou rodando nos dedos o papel que Molly lhe dera e subiu as escadas.
Molly roncava na espuma sintética, uma tala transparente a do joelho dela, até alguns milímetros abaixo de sua virilha. A pele sobre o micropore rígido salpicada de hematomas, preto alternando com tons de um amarelo feio. Oito dermas, cada um de um tamanho e cor diferente, seguiam numa linha reta descendo pelo seu pulso esquerdo.
Uma unidade transdermal Akai estava ao lado dela. As pontas vermelhas finas conectadas a trozos de input debaixo da tala. Ele se virou para o tensor ao lado do Osaka. O círculo de luz se apara caía diretamente sob o construto do flatline. Enfiou um ICE, conectou o construto e se plugou. Era exatamente a sensação de ter alguém lendo pelas suas costas. Ele torceu.
Dix, McCoy, é você cara? Sua garganta estava apertada. Ei bro, disse uma voz em direção. É o Casey cara, lembra de mim? Miami, ajudante, aprende rápido. Qual foi a última coisa de que você se lembra antes de eu falar com você Dix? Nada. Espera um pouco, ele desconectou o construto. A presença desapareceu.
Ele tornou a conectá-lo. Dix. Quem sou eu? Você me pegou, Jack. Quem é você, porra? K. Seu camarada, seu parceiro. O que é que tá pegando, cara? Boa pergunta. Lembra de ter estado aqui há um segundo? Não. Sabe como funciona uma matriz de personalidade R.O.M.?
Claro, é um construto de firmware imutável. Que conecto no banco que estou usando e consigo obter memória sequencial em tempo real? Acho que sim, respondeu o construto. Ok, Dix. Você é um construto de ROM. Entendeu? Se você está dizendo, disse o construto. Você, quem é? Case.
— Miami — disse a voz. — Ajudante, aprende rápido. — Isso. E para começar, Dix, você e eu, nós vamos pular para a grade de Londres e acessar alguns dados. Topa? — Você está me dizendo que tem que escolha, garoto? Seis. — Você precisa de um paraíso — aconselhou o Flatline, depois que Casey explicou sua situação.
Cheque Copenhague, na periferia da cidade universitária. A voz recitava coordenadas enquanto ele digitava. Eles encontraram seu paraíso, um paraíso de pirata, na periferia bagunçada de uma grade acadêmica de nível baixo de segurança.
A primeira vista parecia o tipo de grafite que operadores universitários às vezes deixam nas junções de linhas de grade. Glifos tênues de luz colorida que tremeluziam contra os contornos confusos de uma dezena de faculdades de artes. Ali, disse o Flatline, aquele azul, está vendo? É um código de entrada para a Bel Europa. É fresquinho também.
Abel vai entrar aqui rapidinho e ler toda essa porra de quadro, trocar todos os códigos que encontrar postados. Os garotos vão roubar os novos códigos amanhã. Keyes digitou o código da Abel Europa e passou para um código telefônico padrão. Com a ajuda de Flatline, se conectou à base de dados de Londres que mole afirmava ser de Armitage. Aqui, disse a voz. Eu faço para você.
O Flatline começou a entoar uma série de dígitos. Casey teclando tudo em Shell Deck, tentando captar as pausas que o Constructo usava para indicar tempo. Precisou de três tentativas. Grande coisa, disse Flatline. Nenhum ICE. Escanee essa porra, Casey disse para o Osaka. Procure o histórico pessoal do do ano.
Os rabiscos neuroeletrônicos do paraíso desapareceram, substituídos por um losango simples de luz branca. O conteúdo é basicamente de gravações de vídeos e julgamentos militares do pós-guerra, disse a voz distante do Osaka. A figura central é o coronel Willis Corto. Vai mostrando, disse Casey. O rosto de um homem preencheu a tela. Os olhos eram os de Armitage.
Duas horas depois, Casey caiu ao lado de mole no colchonete e deixou a espuma se amoldar contra seu corpo. Achou alguma coisa? Ela perguntou. A voz pastosa de sono e drogas. Te conto depois, ele disse. Tô quebrado. Ele estava de ressaca e confuso. Ficou ali deitado, olhos fechados, e tentou montar várias peças de uma história sobre um homem chamado Corto.
O Osaka havia selecionado um pequeno conjunto de informações e montou um resumo, mas estava cheio de furos. Uma parte do material era de registros impressos que rolavam macios pela tela, rápidos demais, e Casey precisou pedir ao computador que lisse tudo para ele. Outros segmentos eram gravações em áudio do processo do Screaming Fist.
Willis Corto, coronel, havia mergulhado por um ponto cego nas defesas russas sobre Kirensk. Os shuttles haviam criado buraco com bombas de pulso e a equipe de Corto entrara usando microleves Nightwing. As asas se abrindo e enrijecendo na luz do luar, refletindo em fragmentos de prata ao longo dos rios Angara e Podamania. A última luz que Corto veria por 15 meses.
Casey tentou imaginar os microleves se abrindo como flores em suas cápsulas de lançamento, bem acima de uma estepe gelada. Eles comeram o teu rabo bonitinho, hein, chefe? comentou Casey. E Molly se mexeu ao seu lado. Os microleves não levavam armas. O equipamento era retirado para compensar o peso de um operador de console, um deck protótipo e um programa de vírus chamado Toupera Nono.
o primeiro vírus de verdade na história da cibernética. Corto e sua equipe estavam treinando para essa operação havia três anos. Eles atravessaram o ICE, prontos para injetar o toupeira nono, quando os pulsos eletromagnéticos foram emitidos. As armas russas de pulso jogaram os joques na escuridão eletrônica. Os nightwings sofreram crash de sistemas. Os circuitos de voo foram completamente apagados.
Então os lasers se abriram, mirando com o infravermelho, derrubando as aeronaves de assalto frágeis e transparentes ao radar. E Corto e seu cara de console morto caíram de um céu siberiano. Caíram e continuaram caindo. Ali havia buracos na história, onde Keyes escaneou documentos ligados ao voo de uma aeronave russa requisitada pelos militares que conseguiu chegar à Finlândia.
para ser destruída quando pousou num bosque de coníferas por um antiquíssimo canhão de 20mm, manejado por um grupo de reservistas de alerta. O Escreme fez-se e terminou o paracorto nos arredores de Helsinki, com paramédicos finlandeses retirando seu corpo com os serras dos destroços retorcidos do helicóptero. A guerra terminou nove dias depois e corto foi enviado para uma instalação militar em Utah, cego, sem as pernas e sem maior parte do maxilar.
O adido do congresso levou 11 meses para encontrá-lo ali. Ele ficou escutando o som de tubos de drenagem. Em Washington e McLean, os julgamentos shows já estavam sendo realizados. O pentágono e a CIA estavam sendo balcanizados, parcialmente desmantelados, e uma investigação do congresso estava se concentrando no Screaming Fist prontinho para um Watergate. O adido contou a curto.
Ele iria precisar de olhos, pernas e um extenso trabalho cosmético, disse o Adido. Mas isso podia ser providenciado. Um novo encanamento, acrescentou o homem, apertando o ombro de Corto por sobre o lençol úmido de suor. Corto ouvia o pinga-pinga suave e impiedoso. Ele disse que preferia testemunhar como estava. Não, explicou o Adido. Os julgamentos estavam sendo televisionados.
Os julgamentos precisavam atingir o eleitor. O adido peigarreou educadamente. Reparado, remodelado e extensivamente ensaiado, o testemunho subsequente de corto foi detalhado, comovente, lúcido e, em grande parte, invenção de uma cabala do Congresso com certos interesses exclusos em preservar porções específicas da infraestrutura do Pentágono.
Corto começou a entender, aos poucos, que seu depoimento era instrumental para salvar as carreiras de três oficiais diretamente responsáveis pela supressão de relatórios sobre a construção de instalações de pulso eletromagnético em Kirensk. Quando seu papel nos julgamentos acabou, ele não era mais desejado em Washington.
Em um restaurante da Rua M, comendo crepes de aspargos, o áudio explicou os perigos terminais envolvidos em falar com as pessoas erradas. Corto esmagou a laringe do homem com os dedos rígidos da mão direita. Com o áudio do Congresso estrangulado, o rosto caído no crepe de aspargos, Corto saiu para o frio setembro de Washington.
O Osaka repassa os relatórios policiais, registros de espionais corporativa e arquivos de noticiários. Casey viu o corto trabalhar com desertores corporativos em Lisboa e Marrakech, onde pareceu ter ficado obcecado com a ideia de traição, odiando os cientistas e técnicos que comprava para seus empregadores. Bêbado, em Singapura, espancou um engenheiro russo até a morte no hotel e ateu fogo ao seu quarto.
Em seguida, apareceu na Tailândia como supervisor de uma fábrica de heroína. Depois, como segurança de um cartel do jogo na Califórnia. E em seguida, como assassino de aluguel nas ruínas de Bonn. Roubou um banco em Wichita. O registro ia ficando cada vez mais vago, cheio de sombras, os buracos maiores.
Certo dia, ele disse, num segmento de fita que sugeria interrogatório químico, que tudo havia ficado cinza. Registros médicos franceses traduzidos explicavam que um homem sem identificação havia sido levado para uma instituição mental de Paris e diagnosticado como esquizofrênico. Ele ficou catatônico e foi enviado para uma instituição do governo nos arredores de Toulon.
Tornou-se Combaia um programa experimental que procurava reverter a esquizofrenia por intermédio da aplicação de modelos cibernéticos. Uma seleção aleatória de pacientes recebera microcomputadores e fora incentivada, com a ajuda de estudantes, a programá-los. Ele ficou curado. Foi o único caso de sucesso em toda a experiência. O registro acabava aí.
O case se revirou no colchonete e Molly o xingou por perturbá-la. O telefone tocou e ele o puxou para a cama. Alô? Estamos indo para Istambul, Mr. Mitaj, esta noite. O que é que o filho da puta quer? Perguntou Molly. Está dizendo que a gente vai para Istambul hoje à noite. Mas que maravilha!
A armistagem está valendo os números dos voos e horários de partida. Molly se sentou e acendeu a luz. E o meu equipamento? Perguntou Casey. Meu deck? O finlandês vai cuidar disso. Iniciou a armistagem e desligou. Casey ficou olhando Molly fazer as malas. Ela tinha círculos pretos sobre os olhos, mas mesmo com a tala era comum assistir a uma dança. Nenhum movimento desperdiçado.
As roupas dele eram uma pilha amarrotada ao lado de sua sacola. Está sentindo dor? Ele perguntou. Bem que eu podia ter ficado mais uma noite no chin. Seu dentista? Pode apostar. Muito discreto. Metade daquele espaço é dele, numa clínica completa. Faz concertos para samurais. Ela fechou o zíper de sua sacola. Já esteve em Istambul? Passei dois dias lá uma vez.
Nunca muda, ela disse. Cidadezinha ruim. Foi assim quando estávamos indo para Chiba, disse Moli, olhando pelo vidro do trem, para a paisagem industrial abandonada e iluminada pelo luar. Faróis vermelhos no horizonte alertando aeronaves para longe de uma usina de fusão nuclear. Estávamos em Los Angeles. Ele entrou e disse. Faça as malas. Estávamos de viagem marcada para Macau.
Quando chegamos, joguei fantã no Lisboa e ele foi até Zhongzhan. No dia seguinte eu estava brincando de fantasma com você na Night City. Ela tirou um lenço de seda da manga de sua jaqueta preta e poliu as lentes embutidas. A paisagem da região norte do Sproul despertava memórias confusas da infância de Casey. Tufos de grama morta despontando pelas rachaduras da placa de concreto de uma rodovia.
O trem começou a desacelerar, faltando 10 km para o aeroporto. Case ficou vendo o sol se levantar na paisagem da infância, sobre pedaços de metal fundidos e carcaças enferrujadas de refinarias. 7. Chovia em Beoglu e o Mercedes alugado deslizou pelas unidades gradeadas e apagadas de joalheiros gregos e armêndios cautelosos. A rua estava quase vazia.
Apenas algumas figuras de casacos escuros nas calçadas se virando para olhar o carro passar. Aqui, antigamente, ficava próspera a sessão europeia da Istambul Otomana, o Mercedes murmurou sensual. Que desceu ladeira abaixo, disse Casey. O Hilton fica na Cumhurieti Cadese, disse Molly. Ela se recostou contra a camurça sintética do carro.
Por que a Armitage voa sozinho? Perguntou Casey. Estava com dor de cabeça. Por que você se mete com a sua vida? Eu me meto com a minha. Ele queria contar a história de curto para ela, mas decidiu que era melhor não. Ele havia usado um derma para dormir no avião. A estrada que partia do aeroporto era reta, como uma incisão perfeita, abrindo a cidade ao meio.
Ficou olhando as paredes loucas de barracos de madeira em patchwork passarem, condomínios, arqueologias, conjuntos habitacionais sujos, mais paredes de compensado e ferro corrugado. O finlandês, vestindo um novo terno, Shinzuko, preto sarariman, estava esperando, mal-morado, no lobby do Hilton, perdido numa poltrona de veludo no mar de tapetes azul claros.
Jesus, disse o mole, um rato de terno. Atravessaram o lobby. Quanto é que você está ganhando para vir até aqui, finlandês? Ela baixou a sacola e a colocou de lado da poltrona. Aposto que é menos do que está recebendo para vestir esse terno, hein? O finlandês repuxou o lobby superior. Não bastante, docinho. Entregou a ela uma chave magnética com etiqueta amarela redonda.
Vocês já estão registrados. O chefão está lá em cima. Ele olhou ao redor. Esta cidade é uma merda. Quando te tiram de uma cúpula, você fica agorofóbico. Eu só fingi o que é o Brooklyn. Ela girou a chave num dedo. Você está aqui de criado ou o quê? Preciso checar os implantes de um cara, disse o finlandês. E que tal, meu deck? Perguntou Gaze.
O finlandês fez uma careta. Observe o protocolo, pergunta ao chefe. Os dedos de mole se moveram na sombra de sua jaqueta, um relance de gíria. O finlandês olhou e depois fez que sim com a cabeça. É, ela disse. Eu sei quem é. Ela acionou com a cabeça na direção dos elevadores. Vamos nessa, cowboy. Casey foi atrás dela com as duas sacolas.
O quarto deles poderia ter sido o mesmo de Shiba, onde ele vira a Armitage pela primeira vez. Ele foi até a janela pela manhã, quase esperando ver a Baía de Tóquio. Havia outro hotel do outro lado da rua. Ainda estava chovendo. Alguns escritores de cartas haviam se refugiado debaixo das marquises de portas. Só as velhas impressoras de voz enroladas em plásticos transparentes. Evidências de que ali a palavra escrita ainda desfrutava de um certo prestígio.
Era um país lento. Ele ficou olhando um sedã citroën preto fosco, um convertido de células de hidrogênio primitivo, que vomitou cinco oficiais turcos com cara de poucos amigos e uniformes verdes amarrotados. Eles entraram no hotel em frente. Ele olhou novamente para a cama, para a mole, e sua palidez o incomodou.
Ela havia deixado a tala micropore no colchonete do loft deles, ao lado do indutor transdermal. Os óculos dela refletiam parte das luminárias do quarto. Estava com o telefone na mão antes que tocasse duas vezes. Que bom que você acordou, disse a mitagem. Acabei de... A moça ainda está apagada. Escuta, chefe. Acho que está na hora de batermos o papinho.
Acho que trabalho melhor se souber um pouco mais sobre o que estou fazendo. Silêncio, Narinha. Casey mordeu o lábio. Você sabe tanto quanto precisa. Talvez mais. Você acha? Vista-se, Casey. Acorde ela. Vocês vão receber uma visita em cerca de 15 minutos. Seu nome é Terzibajian. O telefone emitiu um ruído baixo. A armitagem tinha desligado.
Acorda, baby, disse Casey. Negócios. Eu já estou acordado há uma hora. Os espelhos se viraram. Temos um Jersey Bastion chegando. Você tem um ouvido excelente para idiomas, Casey. Aposto que você tem sangue armênio. Esse é o cara que a mitagem mandou vigiar o Riviera. Me ajuda aqui. Jersey Bastion era um rapaz vestindo um terno cinza e óculos espelhados com armação dourada.
Sua camisa branca estava aberta no colarinho, revelando um tapete de pelos escuros tão cerrado que, à primeira vista, Casey achou que fosse algum tipo de camiseta. Ele chegou com uma bandeja preta do Hilton com três minúsculas e cheirosas xícaras de café preto forte e três doces orientais amarelos e grudentos. Vamos precisar, como vocês dizem em Injilis, levar esse cara na maciota.
Ele parecia estar olhando especificamente para a mole, mas finalmente tirou seus óculos prateados. Seus olhos eram de um castanho escuro que combinava com o tom de seus cabelos cortado muito rente em estilo militar. Ele sorriu. É melhor assim, sim. Senão nós fazemos o infinito do túnel, espelho dentro de espelho. Você, particularmente, disse a ela.
Deve tomar cuidado. Aqui na Turquia não se vê com bons olhos mulheres que exibem esse tipo de modificação. O olho mordeu um dos docinhos pela metade. O show é meu, Jack, disse com a boca cheia. Mastigou, engoliu e lambeu os lábios. Eu conheço você. Pau mandado de milico, certo? As mãos dela deslizaram preguiçosas pela frente da jaqueta e retiraram a pistola de dardos.
Casey não sabia que ela estava com a arma. Muita calma, por favor, disse Terzibajan. A xícara de porcelana branca congelada a centímetros de seus lábios. Ela estendeu a arma. Talvez você receba os explosivos, muito deles. Ou talvez você ganhe um câncer. Um dar do seu merda. Você não vai sentir por meses.
Por favor, como vocês dizem em Ingelias, isso está me deixando bolado. Eu chamo isso de uma manhã ruim. Agora diga tudo sobre seu homem e saia logo daqui. Ela desviou a arma. Ele está morando em Fener, na Koshuk-Guhani de Jadeze, 14. Eu tenho a rota do túnel dele todas as noites até o bar, até o bazar.
Ele tem se apresentado mais recentemente no Yenichir Palazotelli, um lugar moderno no estilo turístico, mas tem sido arranjado para que a polícia demonstre um certo interesse nesses show. A gerência do Yenichir tem ficado nervosa. Ele sorriu. Tinha um cheiro de pós-barba metálico. Eu quero saber a dos implantes, ela disse, massageando a própria coxa.
Quero saber exatamente o que ele pode fazer. Terzi Bajan fez que sim. O pior é, como vocês dizem em Ingelis, os subliminares. Ele pronunciou a palavra em cinco cuidadosas sílabas. A nossa esquerda, disse o Mercedes enquanto percorria um labirinto de ruas debaixo de chuva, está o Capalicarzi, o Grande Bazar.
Ao lado de Casey, o finlandês fazia um ruído de satisfação, mas estava olhando na direção errada. O lado direito da rua estava repleto de ferros velhos e miniatura, um ao lado do outro. Casey viu uma locomotiva estripada no alto de blocos quebrados de mármore, manchados de ferrugem. Estátuas de mármore sem cabeça estavam empilhadas como lenha. Será que é o ferro velho do Hefesto?
Saudades de casa? Perguntou Casey. Este lugar é uma merda, disse o finlandês. Sua gravata de seda preta estava começando a lembrar uma fita de carbono usada. Havia medalhões de molho de kebab e ovo frito nas lapelas de seu terno novo. Ei, Jersey, Casey disse para o Armênio sentado atrás dele. Onde foi que esse cara instalou seu equipamento? Em Chiba City.
Ele não tem pulmão esquerdo. O outro teve um upgrade. É assim que vocês falam? Qualquer um podia comprar esses implantes, mas esse sujeito é muito talentoso. O Mercedes fez uma curva, evitando um carreto com pneus balão cheio de peles. Eu segui na rua e vi umas dez bicicletas caírem perto dele apenas num dia. Descobri o ciclista num hospital. A história é sempre a mesma. Um escorpião parado em cima do freio.
What you see is what you get. Ha! Disse o finlandês. O que você vê é o que você tem. Eu vi os esquemas do silicone do cara. Muito estiloso. O que ele imagina você vê? Acho que ele conseguiria estreitar isso num pulso e fritar uma retina fácil. Você já disse isso para sua amiga? Terzi Bajan inclinou-se entre os encostos de ultracamurça. Na Turquia, mulher ainda é mulher.
Essa daí... O finlandês fez um som de desprezo. Ela pega suas bolas e faz uma gravata com ela se você olhar atravessado para ela. Não compreendo essa expressão. Tudo bem? Disse Casey. Significa calha a boca. O Armini voltou a se recostar no banco do carro deixando um rastro metálico de pós-barba.
começou a sussurrar num transeptor sânio em uma estranha salada de grego, francês, turco, fragmentos isolados de inglês. O transeptor respondeu em francês. O Mercedes fez uma curva suave. O Bazar de Especiarias, às vezes chamado Bazar Egípcio de Tchucal, foi erguido no local de um bazar anterior criado pelo sultão Ratice em 1660.
Este é o mercado central da cidade para temperos, software, perfumes, drogas. Drogas, disse queis e vendos, limpadores de para-brisa do carro varrerem o Lexan à prova de balas. O que é que você tinha dito antes sobre Riviera estar programado, Rodgers? Uma mistura de cocaína e meperidina, sim. O Armênio voltou à conversa que estava tendo com o Sânio.
Antigamente chamavam isso de Demerol, disse o finlandês. Ele é um artista do speedball. Pessoal interessante esse com quem você está se metendo, Casey. Deixe pra lá, disse Casey, virando para cima o colarinho da jaqueta. Vamos arrumar um pâncreas novo ou coisa do gênero pro filho da puta. Coitadinho.
Assim que entraram no bazar, o humor do finlandês melhorou consideravelmente, como se ele se sentisse reconfortado pela densidade da multidão e a sensação de claustrofobia. Caminharam com o armênio ao longo de uma calçada larga, sob todos de plásticos manchados de fuligem e ferro forjado, pintado de verde, saído da idade da máquina a vapor. Uma centena de anúncios suspensos de contorcio me piscavam.
— Cristo santíssimo! — disse o finlandês, pegando Casey pelo braço. — Olha só para aquilo! — ele apontou. — É um cavalo, cara! Você já viu um cavalo? Casey olhou de relance para o animal embalsamado e balançou a cabeça. Ele estava sendo exibido sobre uma espécie de pedestal.
perto da entrada de um lugar que vendia pássaros e macacos. As pernas da coisa haviam ficado pretas e lustrosas de décadas de pessoas passando as mãos nelas. Eu vi um, uma vez, em Marilândia, disse o finlandês. E isso foi uns bons três anos antes da pandemia. Os árabes ainda estão tentando recriá-lo a partir de DNA codificado, mas sempre da Xabu.
Os olhos vítreos castanhos do animal pareciam acompanhá-los quando passaram. Terzi Bagian os levou até um café próximo do centro do mercado, um aposento de teto baixo que parecia estar em atividade ininterrupta há séculos. Garotos magricelos, vestindo paletós brancos sujos, passavam por entre as mesas lotadas, equilibrando bandejas de aço inox com garrafas de turctuborgue e copinhos com chá. Casey comprou um aço de E.Yuan de um vendedor na porta.
O Armani estava murmurando para seu sânio. Vamos, ele disse. Ele está andando. Toda noite ele toma o túnel para o bazar para comprar sua mistura com o Ali. Sua mulher está perto. Vamos. O Beak era um lugar velho demais, com paredes de blocos cortados de pedra escura. O calçamento era irregular e tinha cheiro de um século de gasolina derramada e absorvida por calcário antigo.
Não consigo ver merda nenhuma, sussurrou para o finlandês. Fica frio, docinho, disse o finlandês. Quieto, disse Terzibajian, alto demais. Madeira raspando em pedra o concreto. Dez metros descendo o beco, um facho de luz amarela se abriu sobre paralelipípedos molhados e aumentou de tamanho.
Uma figura saiu e a porta se fechou com ruído novamente, deixando o lugar estreito na escuridão. Keis sentiu um arrepio. Agora, disse Terzibajan, e um facho brilhante de luz branca, direcionado do telhado do prédio oposto ao mercado, pregou a figura magra ao lado da antiga porta de madeira em um círculo perfeito. Olhos brilhantes dispararam para a esquerda, para a direita, e o homem desabou.
Casey achou que alguém havia atirado nele. Ele ficou deitado de bruxos, os cabelos louros contrastando com a pedra velha. As mãos moles, brancas e patéticas. O holofote nem piscou. As costas da jaqueta do homem caído, incharam e explodiram. O sangue espirrou na parede e na porta.
Um par de braços impossivelmente compridos, de cor rosa cinzentado, com tendões parecidos com cordas, se flexionou no clarão. A coisa parecia ter se levantado sozinha do calçamento, atravessando a ruína inerte e ensanguentada que fora a Riviera. Ela tinha dois metros de altura, duas pernas, e parecia não ter cabeça.
Então se virou lentamente para encará-los. E Casey viu que ela tinha cabeça assim. Não tinha era pescoço. Não tinha olhos e a pele reluzia com um tom rosado intestinal. A boca, se é que aquilo era uma boca, era circular, cônica, rasa e repleta de cabelos ou pelos eriçados que brilhavam como cromo preto. Ela chutou os restos de roupas e carne para o lado e deu um passo. A boca parecia procurar por eles enquanto se movia.
Terzi Bajand, se alguma coisa em grego ou turco, correu na direção da coisa, os braços abertos como um homem tentando mergulhar por uma janela. Ele passou através da coisa e caiu dentro do lugarão de uma pistola disparada no escuro, além dos trícolos de luz. Fragmentos de rocha passaram-se unindo pela cabeça de Casey. O finlandês o puxou para que se abaixasse.
A luz do alto do telhado desapareceu, deixando-o com pós imagens distorcidas do clarão do cano da arma, do monstro e do facho de luz branca. Suas orelhas zumbiam. Depois a luz retornou, balançando agora, vasculhando as sombras. Terzi Bajan estava encostado numa porta de aço, o rosto muito branco. Segurava o pulso esquerdo e via o sangue pingar de um ferimento na mão esquerda.
O louro, inteira novamente, sem sangue, estava deitado aos seus pés. Mole saiu das sombras, toda de preto, com uma pistola de dardos na mão. Use o rádio, disse o armênio entre dentes. Chame Mamute. Precisamos tirar ele daqui. Isso aqui não é um bom lugar.
O viadinho quase conseguiu, disse o finlandês, estalando alto os joelhos ao se levantar, tentando limpar, sem sucesso, as pernas das calças. Você estava olhando o show dos horrores, não estava? Não um hambúrguer que foi jogado para fora da cena. Bonitinho mesmo. Bom, ajude-o a tirar o sujeito daqui. Precisa escanear todo esse equipamento antes que ele acorde. Garantir que a Armitage está levando o que pagou.
Molly se abaixou e pegou uma coisa, uma pistola, uma nambu, ela disse. Arma boa. Três de bajão gemeu. Casey viu que estava faltando a maior parte de seu dedo do meio. Com a cidade encharcada em azul pré-aurora, ela mandou o Mercedes levá-los ao Palácio Top Cap.
O finlandês e um turco enorme chamado Mamute haviam levado Riviera, ainda inconsciente do beco. Minutos depois, um cintroen, sujo de poeira, havia chegado para pegar o armênio, que parecia prestes a desmaiar. Você é uma besta, disse ao homem, abrindo a porta do carro para ele. Devia ter ficado recuado. Eu estava com ele na mira assim que saiu. Terzi Bajian olhou fuzilando para ela.
Mas você não é mais necessário mesmo. Ela o empurrou para dentro e bateu a porta. Se eu te encontrar de novo, te mato. Disse ao rosto branco atrás da janela escura. O Citroën desceu o beco e fez uma curva desajeitada para entrar na rua. Agora o Mercedes passava silencioso por Istambul, enquanto a cidade acordava.
Eles passaram pelo terminal do túnel Bayoglu e exuniram por lamberintos de ruas e desertas prédios de apartamentos que fizeram o queijo se lembrar vagamente de Paris. Que coisa é aquela? Ele perguntou a Molly, enquanto o mercedo se destra e estacionava na margem dos jardins que cercavam o ceráglio. Ele ficou olhando bestificado para o conglomerado barroco de estilos que era o Top Cap.
Era uma espécie de puteiro particular do rei, disse ela, descendo e se espreguiçando. Ele mantinha um bocado de mulheres aqui. Agora é um museu. Meio tipo a loja do finlandês. Todas essas coisas misturadas ali. Diamantes enormes, espadas. A mão esquerda de João Batista. Tipo assim, num tanque de suporte vital? Não, morta.
Colocaram ela dentro de uma coisa de mão de latão com uma portinhola lateral para que os cristãos pudessem beijá-la para dar sorte. Tiraram ela dos cristãos há milhão de anos, mas nunca tiram o pó dessa maldita coisa porque é uma relíquia dos infiéis. Servos de ferro preto enferrujavam nos jardins do Serrágil.
Casey caminhou ao lado dela, vendo as pontas de suas botas esmagarem uma grama mal cuidada, endurecida por uma geada matutina. Eles caminharam ao lado de um caminho de pedras de ardósia octagonais frias. O inverno estava esperando em algum lugar dos Balcãs. O inverno está chegando. Aquele terde é um escroto de primeira, ela disse.
Ele é da polícia secreta, torturador. É muito fácil de comprar também, com o tipo de dinheiro que a mitagem estava oferecendo. Nas árvores molhadas ao redor deles, pássaros começaram a cantar. Eu fiz esse trabalho para você, disse Case. Aquele é de Londres. Eu consegui alguma coisa, mas não sei o que quer dizer. Ele contou a ela a história de corto.
Bom, sabia que não havia ninguém com o nome de Armitage no Scream Fist. Procurei. Ela acariciou o flanco enferrujado de uma gazela de ferro. Você acha que o computadorzinho tirou ele de lá, daquele hospital francês? Acho que foi o Wintermute, disse Casey. Ela concordou com a cabeça. O negócio é o seguinte, disse ele.
Você acha que ele sabe que era corto antes? Quero dizer, ele não era ninguém particular quando chegou àquela ala. Então, quem sabe o Intermult apenas... É, construiu ele do zero. É. Ela se virou e continuou a caminhada. Faz sentido. Sabe, o cara não tem vida particular. Não até onde sei. Um cara assim, você acha que tem alguma coisa que ele faz quando está sozinho? Mas o Ormitage não.
Ele fica sentado olhando para a parede, cara. Então, alguma coisa dá um clique e ele acelera e funciona para o intermute. Então, por que é que ele tem aquele banco de dados armazenado em Londres? Nostalgia? Talvez nem saiba disso, ela disse. Talvez esteja apenas o nome dele, certo? Não entendo, disse Casey. Estou pensando em voz alta. Qual o nível de inteligência de uma IA, Casey?
Depende. Algumas não são muito mais espertas do que cachorros. Bicho de estimação. Mas custa uma fortuna mesmo assim. As que são inteligentes são tão inteligentes quanto a polícia de Turing. Deixa que elas sejam. Escuta, você é um cowboy. Como é que você não fica de quatro babando por essas coisas? Bom, disse ele. Para começo de conversa, elas são raras.
A maioria delas é militar, as brilhantes, e não conseguimos quebrar o ICE. É de onde o ICE vem, sabia? E também tem os policiais de Turing, e eles são maus. Olhou para ela. Sei lá, não faz parte da minha viagem. Jockey é tudo igual, ela disse. Não tem imaginação. Eles chegaram a um laguinho retangular amplo, onde carpas mordiscavam os talos e algumas flores aquáticas.
Ela chutou uma pedrinha solta e viu as ondulações se espalharem. Isso é o Intermute, ela disse. Este negócio é muito grande, pelo que me parece. Nós estamos onde as ondinhas são largas demais. Não dá pra gente ver a pedra que atingiu o centro. Sabemos que tem alguma coisa ali, mas não por quê. Eu quero saber o porquê. Eu quero que você vá falar com o Intermute. Você está delirando, ele disse.
Não vou conseguir chegar nem perto dele. Experimente. Não dá pra ser feito. Pergunte ao Flatline. O que é que a gente quer com esse Riviera? Ele perguntou, torcendo para mudar de assunto. Ela cuspiu no lago. Sabe Deus. Eu preferia matá-lo até que olhar pra ele. Eu li o seu perfil. É uma espécie de Judas compulsivo.
Não consegue ficar com tesão a não ser que saiba que está atraindo o objeto de desejo. É o que diz o arquivo. E eles têm que amá-la primeiro. Talvez eles até usam isso também. É por isso que foi fácil para Terzi armar para ele. Porque ele tem vivido aqui há três anos, vendendo políticos para a polícia secreta. Provavelmente Terzi deixou o olhar na hora da tortura. Ele pegou 18 em três anos.
Todas mulheres com idades entre 20 e 25 anos. Manteve teres apenas condicidentes. Ela meteu as mãos nos bolsos da jaqueta. Porque se encontrasse alguém que realmente queria. Garantia que ela entrasse para a política. Ele tem uma personalidade parecida com um traje moderno.
O Perryfield dizia que era um tipo muito raro. Estimava um em dois milhões. Ok, de qualquer maneira. Diz algo de bom sobre a natureza humana, acho. Ela ficou olhando para as flores brancas e os peixes lentos, o rosto amargo. Acho que vou ter que comprar um seguro especial para esse Peter. Ela se virou e sorriu. Era muito frio. O que isso quer dizer? Deixa pra lá.
Vamos voltar para a Beoglu e encontrar alguma coisa que lembre um café da manhã. Esta noite vou estar ocupada de novo. Tenho que pegar as coisas dele naquele apartamento na Fenner, voltar ao bazar e comprar algumas drogas para ele. Comprar algumas drogas para ele? O quanto ele consome? Ela riu. Ele não está morrendo, coração. Mas parece que não consegue trabalhar sem aquele gostinho especial.
Mas gosto mais de você agora. Você não está tão magrinho. Ela sorriu. Então, vou no Ali, o traficante, em Jerostock. Pode apostar. A Armitage estava esperando no quarto deles no Hilton. Hora de fazer as malas, ele disse, e Casey tentou encontrar o homem chamado Corto, atrás dos olhos azul claros e da máscara bronzeada. Ele pensou em um wage lá em Shiba.
Operadores, acima de um determinado nível, tendem a submergir suas personalidades, ele sabia disso. Mas o Heide tinha tido vícios amantes. Até, diziam os boatos, filhos. O vazio que ele encontrava em Armitage era outra coisa. Para onde agora? Ele perguntou, passando pelo homem para olhar a rua lá embaixo. Que tipo de clima?
Eles não têm clima, apenas temperatura, disse a Armitage. Aqui, leio o panfleto. Ele colocou alguma coisa sobre a mesa do café e se levantou. Riviar está ok? Cadê o finlandês? Riviar está bem. O finlandês está a caminho de casa. A Armitage sorriu, um sorriso que significava tanto quanto o movimento involuntário da antena de um inseto.
Seu bracelete de ouro fez barulho quando estendeu a mão para meter o dedo no peito de Casey. Não fique muito esperto. Esses saquinhos estão começando a ficar fracos. Mas você não sabe o quanto. Casey manteve o rosto muito quieto e se forçou para fazer que sim com a cabeça. Quando a Armitage foi embora, pegou um dos planfetos. O impresso era caro e sofisticado em francês, inglês e turco.
para que esperar? Os quatro estavam com uma reserva num voo da THY saindo do aeroporto de Yeuzikoy. Conexão em Paris com o ônibus espacial JAL. Case estava sentado no lobby do Istambul Hilton e ficou olhando Riviera vendo alguns fragmentos bizantinos falsos na loja de presentes de paredes de vidro.
A mitagem, a capa de chuva sobre os ombros, parecendo uma capa de super-herói, estava em pé na entrada da loja. Riviera esguio, louro, de voz suave, um inglês fluido e sem sotaque. Molly disse que ele tinha 30 anos, mas teria sido difícil saber qual a sua idade. Ela também disse que ele era legalmente um expatriato e viajava com o passaporte holandês forjado.
Ele era um produto dos anéis de escombros que cercavam o núcleo radioativo da velha bomba. Três turistas japoneses sorridentes estavam correndo na loja, assinando educadamente com a cabeça para a Hermitage. A Hermitage atravessou a loja rápido demais, óbvio demais, para ficar ao lado de Riviera. Riviera se virou e sorriu. Era um homem muito bonito. Queijo supôs que as feições eram obra de um cirurgião de Shiba.
Um trabalho sutil e nada parecido com a mistura bonitinha, mas neutra de rostos pop de armitagem. A testa do homem era alta e lisa, os olhos acinzentados, calmos e distantes. Seu nariz, que poderia ter sido bem esculpido demais, parecia ter sido quebrado e recolocado de forma desajeitada. A sugestão de brutalidade desequilibrava a delicadeza de seu maxilar e a rapidez de seu sorriso.
Seus dentes eram pequenos, regulares e muito brancos. Casey ficou vendo as mãos brancas brincando com os fragmentos de esculturas de imitação. Riviera não agia como um homem que havia sido atacado na noite anterior, drogado com dardos e toxina, sequestrado, sujeito à análise do finlandês e pressionado por armitage para entrar na equipe. Casey olhou para o relógio. Molly já devia ter voltado de sua compra de drogas.
Aposto que está chapadaço agora, seu babaca, ele disse ao lobby de Hilton. Uma matrônia italiana grisalha vestindo uma jaqueta de smoking de couro branco abaixou seus óculos Porsche para olhar para ele. Ele deu um sorriso largo, levantou-se e colocou a sacola no ombro. Precisava de cigarros para a viagem. Ficou na dúvida se haveria uma sessão para fumantes no ônibus espacial da JAL.
Até mais, minha senhora, disse para a mulher, que prontamente colocou os óculos de volta e lhe deu as costas. A loja de presentes tinha cigarros, mas ele não estava a fim de falar com a Armitage ou Riviera. Saiu do lobby e localizou um console de vendas numa alcova estreita, no final de uma fileira de telefones públicos. Ficou separando nas mãos um punhado de lirais e enfiou as pequenas moedas de metal fosco, uma atrás da outra, achando graça no anacronismo do processo.
O telefone mais próximo tocou. Ele atendeu automaticamente. Alô? Harmônicas, vozes minúsculas inaudíveis e quando por algum link orbital. E então um som parecido com o vento. Alô, Casey? Uma moeda de 50 lirais caiu de sua mão, Kiko, e rolou até sumir no meio dos carpetes do Hilton.
— O intermúte, Casey. Está na hora de conversarmos. Era uma voz de chip. — Não quer conversar, Casey? Ele desligou. No caminho de volta para o lobby, os cigarros abandonados, ele precisou descer por um corredor cheio de telefones públicos. Tocaram um atrás do outro, apenas um de cada vez, enquanto ele passava. Fim da parte 2
Parte 3. Meia-noite na rua Jules Verne. 8. Arquipélago. As ilhas. Toróide, fuso, aglomerado. O DNA humano transbordando e se espalhando para fora do íngreme poço gravitacional, como uma mancha de óleo no oceano.
Ative uma representação gráfica que simplifique grosseiramente a troca de dados no arquipélago L5. Um segmento aparece em vermelho vivo, um retângulo maciço dominando sua tela. Freeside Freeside representa muitas coisas. Nem todas é turistas que sobem e descem o poço gravitacional em ônibus espaciais.
Freeside é bordel e nexus bancário. Cúpula de prazer e porto livre. Cidade de fronteira e spa. Freeside é Las Vegas e os jardins suspensos da Papilônia. Uma genebra orbital e lar de uma família acostumada a cruzamento interno e refinada a um cuidado extremo. O clã industrial de Tessier Yashpool.
No cruzador da THY para Paris, eles sentaram todos juntos na primeira classe. Mole na poltrona da janela, Casey ao lado dela, Riviere e Armitage no corredor. Uma vez, quando o avião fazia uma manobra sobre o mar, Casey viu uma cidade e uma ilha grega reluzir como uma joia. E uma vez, quando ia pegar sua bebida, vislumbrou rapidamente uma coisa parecida com um enorme espermatozoide humano.
nas profundezas do seu bourbon com água. Bolli se inclinou por cima dele e deu um tabefe na cara de Riviera. Não, baby. Sem brincadeira. Brinque com essa merda subliminar perto de mim e vou machucar muito você. Posso fazer isso sem danificar você nem um pouco. E gosto disso. Cage se virou automaticamente para esticar a reação de Armitage.
O rosto macio estava calmo, os olhos azuis atentos, mas sem raiva. É isso mesmo, Peter. Não faça. Cassie se virou novamente, a tempo de ver o lampejo brevíssimo de uma rosa negra, suas pétalas enrugadas como couro, o caule preto com espinhos de cromo reluzente. Peter Riviera deu um sorriso tranquilo, fechou os olhos e adormeceu instantaneamente.
Molly virou de costas as lentes refletidas na janela escura. Você já esteve lá em cima, não esteve? Molly perguntou quando ele voltou a se esprever na funda poltrona de espuma sintética do ônibus espacial na JAL. Ah, nunca viajo muito. Só para trabalho. O comissário de bordo estava colando trodos de leitura ao seu pulso e orelha esquerda.
— Espero que você não tenha SAE — disse ela. — Enjoo de avião? — De jeito nenhum. — Não é a mesma coisa. Seus batimentos cardíacos vão acelerar em zero G. E seu ouvido interno vai ficar maluco durante um tempo. Vai disparar seu reflexo de fuga, como se estivesse recebendo sinais para correr como o diabo e muita adrenalina. O comissário passou para Riviera, tirando um novo conjunto de trozos de seu avental de plástico vermelho.
Casey virou a cabeça e tentou ver os contornos dos velhos terminais de Orly, mas a visão da pista do ônibus espacial estava bloqueada por graciosos efetores de disparo de concreto molhado. O que estava mais perto da janela tinha um slogan árabe pintado com spray vermelho. Fechou os olhos e disse para si mesmo que o ônibus espacial era apenas um avião grande, um avião que voava muito alto.
Tinha cheiro de avião, tinha roupa nova, chiclete e exaustão. Ficou ouvindo o som das cordas da música de Cotô pelos alto-falantes na expectativa. 20 minutos. Então, a gravidade desceu em cima dele como uma imensa mão macia como um ossos de pedra ancestral.
A síndrome de adaptação espacial era pior do que a descrição de Molly, mas passou com rapidez suficiente e ele conseguiu dormir. O comissário acordou quando estavam se preparando para atracar no aglomerado do terminal da JAL.
É a transferência para a Freeside agora? Ele perguntou para a Molly, olhando de banda um pedacinho de tabaco e erroã que havia flutuado graciosamente para fora do bolso de sua camisa, para ficar dançando a 10 centímetros de seu nariz. Era proibido fumar nos voos dos ônibus espaciais. Não. Vamos seguir a acostumar a mudança de planos do chefe, sabia? Vamos pegar um táxi para Zion, o aglomerado de Zion.
Ela tocou a placa de liberação dos assuntos de segurança e começou a se libertar do abraço da espuma. É uma escolha de local engraçada, se você quer saber minha opinião. Como assim? Dreads, rastas. Essa colônia já tem uns 30 anos. E o que isso quer dizer? Você vai ver. Para mim é um lugar legal. E, além disso, lá vão deixar você fumar os seus cigarros.
Zion havia sido fundada por cinco operários que se recusaram a voltar, que deram suas costas ao poço gravitacional e começaram a construir. Sofreram perda de cálcio e encolhimento cardíaco antes que a gravidade rotacional fosse instalada no toroide central da colônia.
Visto da bolha do táxi, o casco improvisado de John lembrou o case do patchwork de barracos de Istambul. As placas irregulares e descoloridas abiscadas a laser com os símbolos Astafari e as iniciais dos soldadores. Molly e um zionita magricelo de nome Aerol ajudaram o case a passar por um corredor em queda livre até o núcleo de um toroide menor.
Ele perder o rastro de Armitage e vieram no meio de uma segunda onda de vertigem de SAE. Aqui, disse Molly, enfiando as pernas dele por uma escondilha estreita que ficava no alto. Agarra os degraus. Faça de conta que está descendo ao contrário, certo? Você está indo na direção do casco. É assim que você vai descendo para a gravidade. Entendeu? O estômago de Casey dava cambalhotas.
Você fica bem, Mon, disse a Herol, o suízo é moldurado por incisivos de ouro. De algum modo, o fim do túnel havia se tornado sua parte de baixo. Keise abastou a gravidade fraca como um afogado que encontra um bolsão de ar. Para cima, disse Molly. Vai beijar o chão agora? Keise estava todo esparramado de um converse, deitado de barriga com os braços abertos. Alguma coisa bateu no ombro dele.
Ele se virou e viu um feixe gordo de cabos elásticos. Vamos brincar de casinha, disse ela. Me ajuda a amarrar isso aqui. Ele olhou ao redor do espaço amplo e vazio e reparou nos anéis de aço soldados em todas as superfícies, aparentemente de modo aleatório. Quando terminaram de amarrar os cabos, seguindo algum esquema complexo de mole, começaram a pendurar neles placas gastas de plástico amarelo.
Enquanto trabalhavam, Casey foi aos poucos dando conta de uma música que pulsava constantemente por todo o aglomerado. Era a chamada Dub, um mosaico sensual misturado a partir de imensas bibliotecas de pop digitalizado. Era fé, disse Molly, e um senso de comunidade. Casey levantou uma das placas amarelas. A coisa era leve, mas difícil de segurar.
Zion tinha cheiro de vegetais cozidos, humanidade e ganja. Ótimo, disse a Mitage, planando pela escotilha com as pernas soltas e fazendo um gesto positivo para o labirinto de placas. Atrás dele, Riviera, menos seguro na gravidade parcial. Onde você estava quando a gente precisou de ajuda? Kese perguntou a Riviera. O homem abriu a boca para falar.
Uma minúscula truta saiu nadando de dentro dela, arrastando atrás de si bolhas impossíveis. Ela deslizou, rastejando, raspando pelo rosto de Casey. Na cabeça, Riviera disse e sorriu. Casey deu uma gargalhada. Ótimo, disse Riviera. Pode rir. Eu até teria tentado ajudar você, mas não sou bom com as mãos.
Escendeu as palmas das mãos, que subitamente duplicaram. Quatro braços, quatro mãos. Apenas um palhaço inofensivo, certo, Riviera. Mollis se meteu entre os dois. Yo, a heraldice da escotilha. Vem comigo, cowboy mon. É o seu deck, disse a metade. E outro equipamento. Ajude-o a retirar tudo do convés de carga.
Muito branco você, Mon, a herói disse enquanto levavam o terminal Osaka envolto e espuma ao longo do corredor central. Quer comer alguma coisa? A boca de Casey se encheu de saliva. Ele balançou a cabeça. A ermitage anunciou uma estada de 80 horas em Zion. Mon, ali Casey iriam praticar em gravidade zero, ele disse, e se aclimatar a trabalhar nessas condições.
Ele iria colocá-los à par de Freeside e da Vila Straylight. O que Riviera iria fazer ainda não estava claro, mas Casey não sentiu vontade de perguntar. Algumas horas depois de sua chegada, a Armitagem o mandou entrar no labirinto amarelo e chamar Riviera para comer.
Ele encontrou o sujeito enroscado como um gato num canchonete fino de espuma, nu, aparentemente dormindo, um halo de minúsculas formas geométricas brancas, cubos, esferas e pirâmides orbitando a sua cabeça. — Oh, Riviera! — o anel continuava a girar. Ele voltou e contou a Armitage. — Ele está chapado — disse Molly, levantando a cabeça e desviando o olhar das partes desmontadas de sua pistola de dardos. — Deixe-lhe em paz.
A mitagem parecia pensar que a Zero-G afetaria a habilidade de Casey em operar na matriz. Não esquenta, argumentou Casey. Eu me plugo e não estou nem aqui. É tudo a mesma coisa. Seus níveis de adrenalina estão mais altos, disse a mitagem. Você ainda está com SAE. Não vai ter tempo de esperar passar. Vai ter de aprender a trabalhar com isso. Então vou executar a operação
Não. Prática, Casey. Agora, subindo o corredor. O ciberespaço, conforme o deck apresentava, não tinha nenhuma relação especial com a localização física do deck. Quando Casey se conectou, abriu os olhos e viu a configuração familiar da pirâmide azteca de dados da Eastern Sea Board Vision Authority. Como é que você está, Dixie?
Estou morto, Casey. Tive bastante tempo aqui, neste Osaka, para deduzir isso. Como é que você se sente? Não sinto. Te incomoda? O que me incomoda é que nada me incomoda. Como assim? Tive um colega no campo russo, Sibéria, que teve uma queimadura de frio no polegar. Os médicos chegaram e cortaram o dedo fora. Um mês depois, ele estava se mexendo toda hora no meio da noite.
Eurói, eu disse. O que é que tá pegando? Essa merda desse polegar tá coçando, ele falou. Então eu disse pra ele. Coço, ué? McCoy, ele disse pra mim. É o outro polegar, porra. Quando o Constructo riu, foi como se alguma outra coisa, não uma risada, mas uma pontada de frio, descesse pela espinha de case. Me faz um favor, garoto.
Ok, Dix. Quando esse seu esquema acabar, deleta isto aqui, porra. Casey não entendia os ionitas. A Herol, sem nenhuma provocação especial, relatou a história do bebê que havia nascido de sua testa e saído correndo para dentro de uma floresta de ganja hidropônica. Um bebezinho de nada, Mon. Menor que teu polegar.
Ele esfregou a palma da mão num trecho da testa sem nenhuma cicatriz e sorriu. É a ganja, disse Molly quando o case lhe contou a história. Eles não fazem muita diferença entre estados, sabe? A Eralt disse que aconteceu. Bom, aconteceu com ele. Não é mentira. É mais um tipo de poesia, entendeu?
Casey fez que sim, mas tinha suas dúvidas. Os ionitas sempre tocavam você quando estavam conversando, colocando a mão no seu ombro. Ele não gostava disso. Também não gosto. Ei, Aerold! Casey gritou uma hora depois, quando estava se preparando para uma sessão de prática no corredor em queda livre. Vem cá, cara. Quero te mostrar uma coisa. E estendeu os trudos.
A heró executou uma cambalhota em câmera lenta. Seus pés descalços bateram na parede de aço e ele se enganchou num vergalhão com a mão livre. A outra segurava uma bolsa d'água transparente, toda estufada com algas azuis verdeadas. Olhou para Casey com um ar calmo e sorriu. Experimenta, disse Casey. Ele pegou a faixa, colocou-a e Casey ajustou os trozos. Ele fechou os olhos.
Case apertou o botão de power. Airol estremeceu. Case desplugou na hora. O que foi que você viu, cara? Babilônia, Airol disse triste. Devolveu-lhe os trozos e foi embora, flutuando pelo corredor. Riviera estava sentado imóvel em seu colchonete de espuma, o braço direito estendido para a frente, na altura do ombro.
Uma serpente com escamas de joias, os olhos como rubis de neon, estava firmemente enroscada a poucos milímetros do seu cotovelo. Casey ficou olhando a cobra, que tinha a espessura de um dedo, anéis pretos e vermelhos, contrair-se lentamente e se apertar ao redor do braço de Riviera. Uma cobra coral?
Vem cá, o homem disse, acarinhoso para o escorpião branco como cera parado no centro de sua palma da mão virada para cima. Vem. O escorpião balançou as garras marrons e começou a subir pelo seu braço, suas patas pegando as trilhas levemente escurecidas, às vezes estufadas. Quando chegou a dobra interna do cotovelo, parou e parecia vibrar.
O ferrão despontou, estremeceu e afundou na pele em cima de uma veia inchada. A cobra coral relaxou e Riviera deu um suspiro lento enquanto a injeção fazia efeito. Então, a cobra e o escorpião desapareceram. Ele segurava uma seringa de plástico leitoso na mão esquerda. Se Deus fez alguma coisa melhor, guardou para ele. Conhece esse ditado, Casey?
Conheço, disse Casey. Já ouvi isso sobre um bocado de coisas diferentes. Você sempre transforma isso em um showzinho? Rivera relaxou e removeu a borracha cirúrgica do braço. Sim, é mais divertido. Ele sorriu, seus olhos distantes agora, o rosto corado. Tem uma membrana aplicada logo em cima da veia. Por isso nunca preciso me preocupar com o estado da agulha. Não dói?
Os olhos brilhantes encontraram os dele. É claro que dói. Faz parte, não faz? Eu usaria dermas, disse Casey. Ramador. Riviera debochou e deu uma gargalhada, vestindo uma camiseta branca de mangas curtas. Deve ser bacana, Casey disse, se levantando. Você também fica doidão, Casey? Tive que largar.
Freyside, disse a Hermitage, tocando o painel do minúsculo projetor holográfico Brown. A imagem estremeceu e entrou em foco. Quase três metros de ponta a ponta. Cassinos aqui, ele descendeu a mão até o esqueleto da representação e apontou. Hotéis, propriedades estratificadas, lojas grandes ao longo daqui. Sua mão se moveu. Áreas azuis são largos. Ele caminhou até uma extremidade do modelo.
Charuto grande, estreito nas pontas. Dá pra ver bem isso, disse Molly. Efeito de montanha à medida que se estreita. O chão parece ficar mais alto, mais íngreme. Mas é uma subida fácil. Quanto mais alto você sobe, menor a gravidade. Lá em cima praticam esportes. Há um circuito de velódromo aqui, ele apontou.
Um muque? Keisen se inclinou para a frente. Eles fazem corrida de bicicletas, disse Molly. Baixa grave, pneus de tração alta. Atingem 100 km por hora. Essa ponte não é do nosso interesse, a mitagem disse com seu costumeiro tom de profunda seriedade. Merda, disse Molly. Eu sou uma ciclista juramentada. Riviera deu um sorrisinho. A mitagem caminhou até a extremidade oposta da projeção.
Esta extremidade aqui é do nosso interesse. Os detalhes do interior do holograma acabavam ali e o segmento final do fuso estava vazio. Esta é a Vila Straylight. Uma inclinação íngreme para fora da gravidade e todas as abordagens são impossibilitadas. Existe uma única entrada aqui, no centro exato. Gravidade zero. O que é que tem lá dentro, chefia? Riviera se inclinou para a frente, esticando o pescoço.
Quatro figuras minúsculas reluziram perto da ponta do dedo de Amitag. Amitag tentou matá-las com a mão, como se fossem mosquitinhos. Peter, disse Amitag, você será o primeiro a descobrir. Você vai arranjar um jeito de se convidar. Assim que entrar, providencie a entrada de Molly. Casey ficou encarando o branco que representava Straylight, lembrando-se da história que o finlandês contara no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no lugar no
Smith, Jimmy, a cabeça falante e o ninja. Detalhes disponíveis? Perguntou Riviera. Preciso planejar um vestuário, entende? Conheço as ruas, disse a Armitage retornando ao centro do modelo. Aqui fica a rua Desiderata. Esta é a rua Jules Verne. Riviera revirou os olhos.
Enquanto a Armitage recitava os nomes das avenidas de Freestyle, uma dezena de púlsulas brilhantes despontaram no seu nariz, no rosto e no queixo. Até a mole riu. A Armitage parou e ficou olhando para todos com seus olhos frios e vazios. Desculpe, disse Riviera, e as feridas desapareceram num piscar de olhos. Keis acordou no final do período de sono e se deu conta de mole agachada ao seu lado no colchonete de espuma.
Ele podia sentir a tensão dela. Ele ficou ali deitado, confuso. Quando ela se moveu, a pura velocidade do movimento o surpreendeu. Ela levantou e passou pela folha de plástico amarelo antes que ele tivesse tempo de se dar conta de que rasgaram as folhas com suas lâminas. Não se mexa, meu camarada. Keis rolou para o lado e enfiou a cabeça pelo rasgão do plástico.
Que é que... Calha a boca. É você, irmão. Disse uma voz de Sion. Olho de gato, eles te chamam. Te chamam eles de... Na valha que anda. Eu, Maio Kun, sister. Os brothers querem conversar com você e com o cowboy. Que brothers? Os fundadores, irmão. Anciões de Sion, saca.
Se a gente abrir aquela escotilha, a luz vai acordar nosso chefe, que ele sussurrou. Tenho que ser no escurinho especial agora, disse o homem. Vamos, vamos visitar os fundadores. Você sabe a rapidez com que eu posso te cortar, meu camarada? Não fica parada falando, sister. Vem.
Os dois fundadores de Zion sobreviventes eram homens velhos, velhos com o envelhecimento acelerado que atinge os homens que passam anos demais fora do abraço da gravidade. As suas pernas marrons, frágeis com a perda de cálcio, pareciam quebradiças ao brilho duro da luz do sol refletida. Eles flutuaram no centro de uma selva pintada de folhagem arco-íris, um mural comunitário lúgubre que cobria completamente o casco da câmara esférica.
O ar estava espesso de tanta fumaça resinosa. Na varha que anda, disse um deles, quando o mole entrou na câmara. Como um chicote. É a história que a gente conta, sister, disse outro. Uma história religiosa. Estamos felizes por você ter vindo com o Maio Koon. Por que é que vocês não falam, o patuá? Perguntou o mole.
Eu vim de Los Angeles, disse o velho. Seus dreadlocks eram uma árvore velha com galhos cor de palha de aço. Há muito tempo subimos o poço gravitacional e fugimos da Babilônia. Para trazer as tribos para casa. Agora meu irmão compara você a navalha que anda. Mollisten deu a mão direita e as linhas reluziram no ar enfumaçado. O outro fundador deu uma gargalhada, jogando a cabeça para trás de tanto rir.
Os últimos dias estão chegando. Vozes. Vozes gritando no deserto. Profecias de Babilônia em ruínas. Vozes. O fundador de Los Angeles estava olhando direto para Casey. Nós monitoramos muitas frequências. Nós sempre escutamos. No meio da babel de línguas apareceu uma voz que falou conosco. Ela tocou para nós um dupe poderoso.
Chamam ele de Winter Mut, disse o outro pronunciando duas palavras. Casey sentiu a pele dos braços se arrepiar toda. O Mut falou conosco, disse o primeiro fundador. O Mut disse que temos que ajudar vocês. Quando foi isso? Casey perguntou. Trinta horas antes de vocês atracarem, Zion.
Vocês já tinham ouvido essa voz antes? Não, disse o homem de Los Angeles. E não temos certeza do que ela quer. Se estes são os últimos dias, devemos esperar falsos profetas. Escute, disse Casey. É uma IA. Você está entendendo? Inteligência artificial. A música que ela tocou para vocês provavelmente foi o resultado de uma invasão dos seus bancos de memória. Ela mixou o que quer que achava que vocês gostariam de... ...ende e...
A Babilônia, interrompeu o outro fundador, é a mãe de muitos demônios, a gente toda sabemos. Horda, legião. O que foi que me chamou mesmo, velho? Perguntou Molly. Navalha que anda. E você traz um flagelo para a Babilônia, sister, no fundo do seu coração negro. Que tipo de mensagem a voz disse? Perguntou Casey.
Ela nos disse para ajudar vocês, disse o outro, que vocês poderiam servir como ferramenta dos últimos dias. Seu rosto enrugado demonstrava preocupação. Ela nos disse para enviar Maiocun com vocês no seu rebocador Garvey para o porto de Freeside, na Babilônia. E isso nós faremos. Maiocun é um garoto rude, disse o outro, e um bom piloto de rebocador.
Mas nós decidimos mandar a Herol também, na Babylon Rocker, para vigiar o Garvey. O silêncio estranho encheu a cúpula. É isso? Perguntou Casey. Vocês trabalham para o Armitage ou o quê? Nós alugamos o espaço a vocês, disse o fundador de Los Angeles. Nós temos um certo envolvimento aqui com vários tráficos e nenhum respeito pelas leis da Babilônia. Nossa, aleia a palavra de já.
Mas desta vez, pode ser que estejamos enganados. Mestra duas vezes, corte uma. O outro disse baixinho. Vamos nessa, Casey, disse mole. Vamos voltar antes que o homem perceba que a gente saiu. Maiocum vai levar vocês. Jalove, sister. Nove.
O rebocador Marcus Garvey, um tambor de aço de 9 metros de comprimento e 2 de diâmetro, rangeu e estremeceu quando Maio Kuhn acionou os propulsores de navegação. Todo escarapachado em sua rede G elástica, Casey ficou olhando as costas musculosas do zionita por entre uma névoa de escopolamina. Ele havia tomado a droga para rebater a náusea da SAE.
Mas os estimulantes que o fabricante incluíra para contra-atacar o enjoo não tinham efeito em seu sistema turbinado. — Quanto tempo até Freeside? — Molly perguntou de sua teia, ao lado do módulo de pilotagem de Maocum. — Não demora nada. Isso eu digo. — Você sabe pensar em termos de hora? — Sister, tempo é tempo. Entende o que eu digo? — Dread. E ele balança os locks.
Estão no controle, irmão. E vamos chegar a Freeside quando a gente chegar. Que isso, ela disse. Você, quem sabe, fez algum esforço mínimo no sentido de entrar em contato com nosso colega de Berna? Tipo assim, todo o tempo que você passou em Zion, plugado, mexendo os lábios? Colega, disse Queisa. Claro, não entrei em contato com ele. Mas aconteceu uma história engraçada lá em Istambul que tem a ver com isso.
Ele falou com ela sobre os telefones do Hilton. Cristo, ela disse. Lá se foi uma oportunidade. Por que é que você desligou? Podia ser qualquer um, ele mentiu. Só um chip, sei lá. Ele deu de ombros. Não foi só porque você ficou apavorado, foi? Ele voltou a dar de ombros. Faça isso agora. O quê? Agora, de qualquer maneira, fale com o Flatline sobre isso.
Eu tô todo dopado, ele protestou. Mas pegou os trozos. Seu Dek e o Ozaka haviam sido montados atrás do módulo de Maio Kun, juntamente com o monitor Krai de altíssima resolução. Ele ajustou os trozos.
O Marcus Garvey havia sido montado ao redor de um imenso filtro de ar russo velho. Um negócio retangular cheio de símbolos Rastafari, leões de Zion e Black Star Liners. As cores vermelha, verde e amarela se sobrepondo aos decalques cheios de palavras em cirílico. Alguém havia pintado o equipamento de pilotagem de Mayocun como spray rosa tropical, raspando a maior parte do excesso das telas e controles com uma navalha.
As travas ao redor da comporta de ar na proa estavam cheias de globos semis rígidos e correntes de pó translúcido como fios desajeitados de algas marinhas fake. Ele olhou para a tela central por cima do ombro de Mael Koon e viu um display de atracação. O caminho do rebocador era uma linha de pontos vermelhos. Free Side, um círculo verde segmentado. Ele viu a linha se estender, gerando um novo ponto.
Ele se conectou. Dixie? Hã? Já tentou craquear uma IA? Claro. Morri tentando. Foi a primeira flatline. Eu estava passeando plugadaço doidão pelo setor de comércio pesado do Rio. Negócios grandes, multinacionais. O governo do Brasil todo aceso que nem uma árvore de Natal. Só estava passeando, entende?
Aí comecei a me tocar de um cubo. Acho que tinha uns três níveis a mais de altura. Me pluguei lá e pedi passagem. Como é que ele era, o visual? Cubo branco. Como é que você sabia que era uma IA? Como é que eu sabia? Jesus! Era o ICE mais denso que já tinha visto. Então o que mais poderia ser? Os militares lá embaixo não tem nada parecido.
De qualquer maneira, desconectei e mandei meu computador fazer uma busca. É? Estava no registro de Turing, IA. Uma empresa laranja era a dona do mainframe do Rio. Casey mastigou o labo inferior e ficou olhando a plataforma da Eastern Sea Board Fission Authority para o infinito vácuo neuroeletrônico da matriz. Tessier Aspuldix? Tessier, isso. E você voltou?
Claro! Eu era louco! Achei que podia tentar cortar o ICE. Atingi a primeira camada e foi só. Meu semblante sentiu o cheiro da pele queimando e arrancou os meus trotos. De foder aquele ICE. E seu eletro deu flatline. Bom, é assim que nascem as lendas, não é? Casey desplugou. Merda, ele disse.
Como é que você acha que o Dix deu o Flatline, hein? Tentando invadir uma Iá. Grande. Continua, ela disse. Vocês dois não são poderosos? Dix, disse Casey. Estou a fim de dar uma olhada numa Iá em Berna. Sabe de algum motivo para não fazer isso? Não. A menos que você tenha um medo mórbido da morte.
Casey digitou o código do setor bancário suíço, sentindo uma onda de empolgação quando o ciberespaço tremeu. Ficou burrado, congelou. A Eastern Sea Board Fissum Authority havia desaparecido, substituída pela fria complexidade geométrica do sistema bancário comercial de Zurique. Ele digitou o código de Berna.
Subindo, disse o Constructo. Vai ser alto. Eles subiram por grades de luz níveis pulsando estroboscópicos piscando os azuis. Deve ser isso, pensou Casey. O Intermult era um cubo simples de luz branca, cuja própria simplicidade sugeria extrema complexidade. Não parece grande coisa, não é? Disse o Flatline. Mas tenta chegar perto e tocar. Vou arriscar uma entrada, Dixie.
Fique à vontade. Case digitou as coordenadas para dentro de quatro pontos de grade do cubo. Sua face vazia, que se destacava imensa diante dele agora, começou a estremecer com tênues sombras interiores, como se mil bailarinos rodopiassem atrás de uma imensa placa de vidro translúcido. Ele sabe que a gente está aqui, observou o Flatline. Case voltou a digitar mais uma vez.
Eles pularam para a frente na extensão de um único ponto de grade. Um círculo cinza rugoso se formou na face do cubo. Dixie. Recua. Rápido. A área cinzenta começou a inchar suavemente, tornou-se uma esfera e se destacou do cubo. Casey sentiu a borda do deck machucar a palma de sua mão quando ele bateu com força em Reverse Max.
A matriz se transformou em um borrão, recuando para trás. Eles mergulharam num poço crepuscular de bancos suíços. Ele olhou para cima. A esfera era maior agora e ele estava se aproximando dele, caindo. Despluga, disse o Flatline. A escuridão caiu em cima dele como se fosse um martelo. Cheiro de aço, frio e gelo acariciando sua espinha.
E rostos olhando por entre uma floresta de neão. Marinheiros, marginais e putas sob um céu de prata envenenada. Escuta, Case. Quer me dizer que porra do caralho está rolando com você? Você está doidão ou o quê? Um pulso constante de dor no meio de sua espinha e descendo. A chuva acordou. Uma garoa preguiçosa, seus pés embaraçados em rolos de fibra óptica usada.
O mar de som do flipelerama cobria seu corpo por inteiro. Recuava, retornava. Rolando para o lado, ele se sentou e segurou a cabeça. A luz de uma porta de serviço nos fundos do flipelerama lhe mostrou pedaços quebrados de clipboard molhado e o chá se pingando de um console de games sucateado. Dizeres escritos em japonês pintados com um extensio na lateral do console em tons esmaecidos de rosa e amarelo.
Ele olhou para cima e viu uma janela de plástico suja de fuligem, um brilho suave de luzes fluorescentes. Suas costas doíam, sua coluna. Ele se levantou e afastou os cabelos molhados dos olhos. Alguma coisa havia acontecido. Ele vasculhou os bolsos em busca de dinheiro, não encontrou nada e estremeceu. Onde estava sua jaqueta?
Tentou encontrá-la. Procurou atrás do console, mas desistiu. Naninzei avaliou a multidão que passava. Sexta. Tinha de ser sexta. Linda estava provavelmente no flipper. Podia ter um dinheiro, ou pelo menos cigarros. Tossindo, torcendo à frente da camiseta para tirar um pouco da água da chuva. Ele começou a abrir caminho pela multidão até a entrada do fliperama.
Hologramas se contorciam e se estremeciam ao rugido dos games, fantasmas se sobrepondo na neblina lotada do lugar. Um cheiro de suor e tensão com tédio. Um marinheiro de camiseta branca bombardeava bom nuclearmente num console de Tank War. Um flecha azul escuro. Ela estava jogando Wizard Castle, perdida nele. Seus olhos cinzentos circundados com rímel preto borrado.
Ela levantou a cabeça quando ele abraçou e sorriu. Ei, como é que você tá? Parece molhado. Ele a beijou. Você me fez perder o jogo, ela disse. Escuta aqui, babaca. O calabouço do sétimo nível e os vampiros filhos da puta me pegaram. Ela lhe passou um cigarro. Você parece super tenso, cara. Onde é que você tava? Não sei. Tá doidão, Casey? Andou bebendo de novo?
Comendo a Dex do Zony? Talvez. Há quanto tempo você me viu pela última vez? Ei, isso é uma pegadinha, não é não? Ela olhou para ele desconfiada. Não é? Não. Uma espécie de blackout. Eu... Eu acordei no beco. Talvez alguém tenha te batido, baby. Ainda está com seu dinheiro? Ele balançou a cabeça. Pronto.
Precisa de um lugar para dormir, Casey? Acho que sim. Então vem. Ela pegou a mão dele. Vamos te arrumar um café e uma coisa para comer. Levar você para casa. É bom te ver, cara. Ela apertou a mão dele. Ele sorriu. Alguma coisa se quebrou. Alguma coisa se deslocou do núcleo das coisas. O flipper congelou. Começou a vibrar. Ela desapareceu.
O peso da memória desabou. Todo um corpo de conhecimento atochado na sua cabeça como um Microsoft num soquete. Desapareceu. Ele sentiu o cheiro de carne queimada. O marinheiro de camiseta branca havia desaparecido. O flipper estava vazio, silencioso.
Casey se virou devagar, ombros curvados, dentes a amostra, as mãos fechadas involuntariamente formando punhos. Vazio. Um papel de bala amarelo amassado, equilibrado na borda de um console, caiu no chão e ficou ali, esticado no meio de bitucas de cigarros e copinhos de isopor. Eu tinha um cigarro, disse Casey, olhando para o seu punho fechado. Eu tinha um cigarro. Uma namorada e um lugar para dormir.
Está me ouvindo, seu filho da puta? Está me ouvindo? Ecos reverberaram pelo espaço vazio do flipper, desvanecendo-se pelos corredores de consoles. Ele saiu para a rua. A chuva havia parado. A ninzê estava deserta. Hologramas piscavam. Neons dançavam. Ele sentia o cheiro de vegetais cozidos do carrinho de um vendedor do outro lado da rua.
Um maço de E1s estava caído aos seus pés, ao lado de uma cartela de fósforos. Julius Dane Import Export. Casey ficou olhando para o logo impresso e sua tradução para o japonês. O vento do caramba. Ok, ele disse, apanhando os fósforos e abrindo o maço de cigarros. Eu entendi.
Ele subiu as escadas do escritório de Diane sem pressa. Sem correr, disse a si mesmo, sem pressa. O rosto derretido do relógio de Dali ainda mostrava a hora errada. Havia poeira na mesa Canguinsky e nas estantes neoaztecas. Uma parede de módulos de carga de fibra de vidro branca enchia a sala com um cheiro de gengibre. A porta está aberta? Keise esperou uma resposta. Mas não houve nenhuma.
Ele foi até a porta do escritório e tentou abri-la. Júlia? A luminária de bronze com quebra-luz verde lançava um círculo de luz sobre a mesa de Diene. Casey ficou olhando para as entranhas de uma antiga máquina de escrever. Fitas cassete, formulários contínuos amassados, sacos plásticos grudentos, cheios de amostras de gengibre. Não havia ninguém ali. Casey deu a volta pela mesa grande de aço e empurrou a cadeira de Diene para longe.
Encontrou a arma num coldre de couro quebradiço preso embaixo da mesa com fita prata. Era uma antiguidade, uma Magnum 357 com o canto e a guarda do gatilho serradas. O cabo havia sido construído com camadas e camadas de fita crepe. A fita era velha, marrom e tinha uma pátina de sujeira que luzia.
Ele tirou o cilindro e examinou cada um dos seis cartuchos. Eram feitos à mão. O chumbo leve ainda estava brilhante, sem manchas. Com o revólver na mão direita, Casey passou, se espremendo pelo gabinete à esquerda da mesa. E foi até o centro do escritório, atolhado, diante do círculo de luz. Acho que não estou com pressa. Acho que o show é seu. Mas esta merda torta, você sabe, está ficando meio velha.
Ele levantou a arma com ambas as mãos, apontando para o centro da mesa e apertou o gatilho. O coice quase quebrou seu pulso. O flash do cano iluminou o escritório como uma lâmpada que estoura quando acende. Com os ouvidos unindo, ficou olhando para o buraco perfurado na frente da mesa. Bala explosiva. Nitreto. Tornou a levantar a arma. Não precisa fazer isso, meu filho, disse Júlio, saindo das sombras.
Ele vestia um terno de três peças em tecido, espinha de peixe com seda, uma camisa listrada e gravata borboleta. Seus óculos piscavam na luz. Casey levantou a arma e olhou pela mira para o rosto rosado de idade definida de Jane. Não faça isso, disse Jane. Você tem razão. Sobre o que é isto tudo aqui? Sobre o que sou? Mas existem determinadas lógicas internas a serem honradas.
Se usar isso, verá muito sangue e miolos e eu levaria várias horas de seu tempo subjetivo para habilitar outro porta-voz. Este cenário não é fácil para eu manter. Ah, e desculpe quanto a Linda no fliperama. Eu estava esperando falar através dela, mas estou gerando isto tudo a partir de suas memórias e a carga emocional. Bem, é muito delicado. Me atrapalhei. Desculpe.
Case baixa o arma. Esta é a matriz. Você é o Intermute. Sim. Isto tudo está chegando até você por cortesia da unidade de Sistim plugada ao seu deck, é claro. Fico feliz por ter conseguido cortar você antes que você conseguisse se desplugar. Jane deu a volta na mesa, endireitou a cadeira e se sentou nela. Sente-se, meu filho. Temos muito o que conversar. Temos?
Claro que temos. Já faz algum tempo que temos que conversar. Eu estava pronto quando consegui contactar você por telefone em Istambul. O tempo é muito curto agora. Você estará executando sua operação em questão de dias, Casey. Diane pegou um bombom, retirou seu papel xadrez e o colocou na boca. Sente-se, ele disse com o bombom na boca. Casey sentou-se na poltrona giratória na frente da mesa, sem tirar os olhos de Diane.
Sentou-se com a arma na mão, repousando na coxa. Agora, Jane disse ríspido, a ordem do dia. O que, você está se perguntando, é um intermute? Estou certo? Mais ou menos. Uma inteligência artificial, mas você sabe disso.
Seu erro, e há um erro bastante lógico, está em confundir o mainframe Wintermute, perna, com a entidade Wintermute. Johnny chupou seu bobão fazendo muito barulho. Você já está ciente da outra IA no link-up da Tessier Ashpaw, não está? Rio. Eu, se podemos dizer que tenho um eu. Isso começa a ficar um tanto metafísico, entenda?
Sou eu quem arranja as coisas para a Armitage. Ou, curto, que, a propósito, é bastante instável. Estável o bastante, disse Jane, e retirou um relógio de urnado do bolso de um colete e o abriu. Pelas próximas 24 horas, aproximadamente. O que você está dizendo faz tanto sentido quanto qualquer coisa nesse trabalho, disse Casey, massageando as têmporas com a mão livre. Se você é tão esperto, porra.
porque não sou tão rico? Diane soltou uma gargalhada e quase engasgou com um bombom. Bem, Casey, tudo que posso dizer em relação a isso, e realmente não tenho nem de longe tantas respostas quanto você imagina que tenho, é que o que você acha que é o Intermute é apenas parte de outra, digamos, entidade potencial. Eu, vamos dizer assim, sou meramente um aspecto do cérebro dessa entidade.
É um tanto como lidar, de seu ponto de vista, com um homem cujos lobos cerebrais foram separados. Vamos dizer que você esteja lidando com uma pequena parte do cérebro esquerdo do homem. É difícil dizer se você está lidando com um homem mesmo. Num caso assim, Janice sorriu. A história do corto é verdade? Você entrou em contato com ele por um micro naquele hospital francês? Sim. E montei o arquivo que você acessou em Londres.
Eu tento planejar, no sentido da palavra, mas esse não é o meu modo básico, na verdade. Eu improviso. É o meu maior talento. Sabe, prefiro situações a planos. Na verdade, tive de lidar com situações já dadas. Posso selecionar uma grande quantidade de informações e selecioná-las muito rápido. Levei muito tempo para montar a equipe da qual você faz parte.
Corto foi o primeiro e ele quase não conseguiu. Em Toulon, ele já estava muito distante. Comer, excretar e se masturbar era o melhor que ele conseguia fazer. Mas a estrutura subjacente de obsessões estava ali. O Screamfist, sua traição, as audiências do congresso. Ele ainda é louco? Ele não é exatamente uma personalidade, Dianne sorriu. Mas tenho certeza de que disso você já sabia.
Mas Corta ainda está lá, em algum lugar, e não posso mais manter esse equilíbrio delicado. Ele vai desabar em cima de você, Casey. Então, conto com você. Que ótimo, seu filho da puta, disse Casey. E deu um tiro na boca dele com a 357. Ele estava certo quanto aos miolos e ao sangue.
Bom, Maioco estava falando. Não estou gostando disso. Tudo bem, disse Molly. Está tudo bem. É uma coisa que esses caras costumam fazer, só isso. Tipo, ele não estava morto. E só passaram alguns segundos. Eu vi a tela. Leitura do EEG. Estava dando ele morto. Nada se movendo. 40 segundos. Ok, mas agora ele está bem.
EG como uma linha, achatadinha como uma fita, protestou Maelcon. 10. Ele estava anestesiado enquanto passaram pela alfândega e Molly falou a maior parte do que era preciso falar. Maelcon permaneceu a bordo do Garvey. A alfândega para Freeside consistia principalmente em provar seu crédito.
A primeira coisa que viu quando entraram na superfície interna do fuso foi o rumo da franquia da cafeteria Beautiful Girl. Bem-vindo à rua Jules Verne, disse Molly. Se tiver problemas para andar, basta olhar para seus pés. A perspectiva aqui é uma merda, se você não estiver acostumado. Eles estavam em pé sobre uma rua larga que parecia ser o chão de uma fenda ou desfiladeiro profundo.
Cada uma das extremidades estava oculta por ângulos sutis nas lojas e prédios que formavam suas paredes. A luz ali era filtrada por massas verdes frescas de vegetação que pendiam de degraus e varandas suspensas que se elevavam acima deles. O sol. Havia um rasgão brilhante acima deles, brilhante demais, e o azul pré-gravado de um céu de Keynes.
Ele sabia que a luz do sol era bombeada por um sistema lá do Ashazon, cuja estrutura de 2 milímetros de espessura percorria toda a extensão do fuso. Que ele gerava uma biblioteca rotativa de efeito celeste ao seu redor. Que se o céu fosse desligado, ficaria olhando através da armadura de luz para as curvas de lagos, telhados de cassinos, outras ruas. Mas isso não fazia sentido para seu corpo.
Jesus, ele disse, estou detestando isso mais do que a SAE. Vai se acostumando. Eu trabalhei aqui como guarda-costas de um jogador durante um mês. Quero ir para algum lugar, me deitar. Ok, estou com as nossas chaves. Ela tocou o seu ombro. O que aconteceu com você lá atrás, cara? Você deu um flatline. Ele balançou a cabeça.
Ainda não sei. Espere. Ok. Vamos pegar um táxi ou algo do gênero. Ela o pegou pela mão e o levou pela rua Jules Verne, passando por uma vitrine que exibia os casacos de pele daquela temporada em Paris. Irreal, ele disse, voltando o olhar para cima. Ah, ela respondeu, supondo que ele estava falando dos casacos.
São cultivados numa base de colágeno, mas é DNA de mink. Qual a diferença? É só um tubo grande e eles jogam coisas por meio dele, disse Molly. Turistas, marginais, qualquer coisa. E existem malhas finas de dinheiro trabalhando a todo instante, garantindo que o dinheiro continue aqui quando as pessoas voltarem poço abaixo.
A metade os havia colocado num lugar chamado intercontinental, uma face de encosta inclinada com frente em vidra assada que caía na direção de uma neblina fria e do som de cachoeiras. Cage saiu para a varanda e viu um trio de adolescentes franceses bronzeados pilotando paragliders simples a poucos metros acima da água. Triângulos de nylon em cores primárias vivas.
Um deles girou, fez uma curva e Kese viu um relance de cabelos pretos cortado, rente, seios morenos, dentes brancos e um sorriso amplo. O ar ali tinha cheiro de água corrente e flores. É, ele disse. Dinheiro pra cacete. Ela se inclinou ao lado dele na bala austrada, as mãos soltas e relaxadas. É, a gente tinha planejado vir aqui um dia, aqui ou em algum lugar na Europa.
A gente quem? Ninguém, disse ela, dando de ombros involuntariamente. Você disse que queria cair na cama, dormir. É bem que podia dormir um pouco. É, disse Casey, esfregando o rosto com as mãos. É, este aqui é um lugar e tanto.
A faixa estreita do sistema lá do Aschison se fundiu numa imitação abstrata de um pôr do sol nas bermudas, rajado com faixas de nuvens pré-gravadas. É, ele disse, dormir. O sono custou a chegar. Quando chegou, trouxe sonhos que eram como fragmentos bem editados de memória.
Acordou repetidas vezes, mole e enroscada ao seu lado, e ouviu a água, vozes indo e vindo pelos painéis de vidro abertos da varanda, a raizada de uma mulher vinda dos condos em degraus na encosta oposta. A morte de Jane continuava aparecendo como uma carta ruim num jogo. Não importava se ele dizia a si mesmo que não era Jane. Que na verdade não havia acontecido.
Alguém um dia lhe dissera que a quantidade média de sangue no corpo humano era mais ou menos equivalente a uma caixa de cerveja. A cada vez que a imagem da cabeça em pedaços de higiene batia na parede de trás do escritório, Casey se dava conta de outro pensamento. Alguma coisa, mas escura, oculta, que rolava para longe, mergulhando como um peixe logo além de seu alcance. Linda.
Jane, sangue na parede do escritório do importador. Linda. Cheiro de carne queimada nas sombras da cúpula de Shiba. Mole segurando um saquinho de gengibre, o plástico coberto com uma película de sangue. Jane mandara matá-la. Wintermute. Ele imaginou um pequeno micro sussurrando para a ruína de um homem chamado Corto. As palavras fluindo como um rio.
A personalidade substituta a inodora chamada Armitage, ganhando corpo lentamente nas sombras de alguma ala hospitalar. O análogo de Jane havia dito que trabalhava com coisas dadas, tirando vantagem de situações existentes. Mas se Jane, o verdadeiro Jane, tivesse mandado matar Linda por ordens de Wintermute? Casey procurou no escuro um cigarro e o isqueiro de mole.
Não havia motivo para suspeitar de Diane, disse-se mesmo, acendendo o cigarro. Não havia motivo. O intermute podia construir uma espécie de personalidade dentro de uma casca vazia. Qual o nível de sutileza de forma que uma manipulação pôde atingir? Enfiou a bituca do Yeruan num cinzeiro de cabeceira depois da terceira tragada. Rolou para longe de mole e tentou dormir.
O sonho, a memória, se desenrolaram com a monotonia de uma fita de cistim não editada. Ele havia passado um mês, o verão de seus 15 anos, num hotel barato que cobrava por semana, no quinto andar, com uma garota chamada Marlene. O elevador não funcionava havia uma década. Baratas fervilhavam pela louça cinza da pinta upida de kitnet quando você ligava uma lanterna. Ele dormiu com Marlene num colchão listrado sem lençóis.
Ele não vira a primeira vespa quando ela construiu sua colmeia cinza, fina como papel, na tinta estufada do caixilho da janela. Mas em pouco tempo o ninho virou um bolo de fibra do tamanho de um punho, e os insetos saíam indisparado da janela fora para caçar no beco, abaixo como helicópteros em uma miniatura, zumbindo pelo conteúdo podre das lixeiras. Cada um havia tomado uma dúzia de cervejas na tarde em que uma vespa picou Marlene.
Mata esses filhos da puta, ela disse, os olhos embaçados de raiva e do calor parado do quarto. Queima eles. Bêbado, Casey vasculhou o closet sujo à procura do dragão de rolo. Rolo era o namorado anterior e Casey suspeitava na época, ainda ocasional de Marlene, um gigantesco motoqueiro de San Francisco com um relâmpago louro descolorido em seu cabelo escuro cortado rente.
O dragão era um lançar-chimas de San Francisco, uma coisa parecida com uma lanterna gorda de cabeça angulosa. Case enxerguou as pilhas, sacudiu o negócio para se certificar de que tinha combustível suficiente e foi até a janela aberta. A colmeia começou a zumbir. O ar no Sproul estava parado, imóvel. Uma vespa disparou do ninho e começou a voar ao redor da cabeça de Case.
Keis apertou a chave de ignição, contou até três, e puxou o gatilho. O combustível, bombeado até 100 PSI, espalhou-se em spray pela bobina incandescente. Uma língua de cinco metros de fogo branco, o ninho esturricado, caindo. Do outro lado do beco, alguém deu um grito de empolgação.
Merda! Marlene atrás dele, cambaleando. Idiota! Você não queimou eles. Você só derrubou a colmeia. Eles vão voltar aqui pra cima e matar a gente. A voz dela dava nos nervos. Ele a imaginou engolida pelas chamas. Os cabelos descoloridos fritando num verde especial. No beco. Dragão na mão. Ele se aproximou do ninho enegrecido. Ele havia se quebrado e aberto.
Vespas chamuscadas se contorciam e davam cambalhotas no asfalto. Ele viu a coisa que a casca de papel cinza havia escondido. Horror. A fábrica de nascimentos em espiral. Terraços com degraus nas células de nascimento. As mandíbulas cegas dos não-nascidos se movendo incessantemente. O progresso articulado de ovo para larva, quase vespa. Vespa.
No olho de sua mente, uma espécie de fotografia com um lapso de tempo começou a rolar, revelando a coisa como o equivalente biológico de uma metralhadora horrível em sua perfeição. Alienígena. Ele puxou o gatilho, esquecendo-se de apertar ignição, e o combustível caiu sibilando em cima da vida inchada e contorcida aos seus pés.
Quando apertou a ignição, ela explodiu com um ruído abafado, levando uma sobrancelha junto. Cinco andares acima, pela janela aberta, ouviu Marlene rindo. Ele acordou com a impressão de que a luz estava ficando mais fraca, mas o quarto estava escuro. Pós-imagens, flechas de retina. O celular fora indicava o começo de uma aurora pré-gravada.
Agora não havia mais vozes, apenas o murmúrio da água corrente, bem embaixo da face do intercontinental. No sonho, logo antes de encharcar o ninho de combustível, havia visto o logo TA da Tessieras Paul num bonito alto relevo na sua lateral, como se as próprias vespas o tivessem colocado ali.
Molly insistiu em cobri-lo de bronzeador, dizendo que sua palidez de Sproul iria atrair atenção demais. Jesus, ele disse, em pé, nu, na frente do espelho. Você acha que isso parece real? Ela estava usando o restinho do tubo no seu tornozeiro esquerdo, ajoelhado ao seu lado. Ah, mas você parece incomodado o bastante para fingir. Prontinho. Não restou o suficiente para fazer seu pé.
Ela se levantou, jogou o tubo vazio num cesto grande de vime. Nada no quarto parecia ter sido feito por máquinas ou produzido com material sintético. Coisa cara, que ele sabia, mas era um estilo que sempre o irritou. A espuma sintética da cama imensa era tingida de modo a lembrar areia. Havia muita madeira clara e tecidos feitos à mão.
E você, ele disse, você vai se tingir de marrom? Não parece exatamente que passou todo o seu tempo tomando banho de sol. Ela vestia calças largas de sida preta e sapatilha de lonas pretas. Eu sou exótica. Tem um chapelão de palha para isso também. Olha o match aí. Você, você só quer parecer um sujeito muquirano que veio para cá para conseguir o que puder. Então o bronze instantâneo está legal.
Casey ficou olhando moroso para o pé pálido. Depois olhou para si mesmo no espelho. Jesus, você se importa se eu me vestir agora? Foi até a cama e começou a vestir a calça jeans. Você dormiu bem? Notou alguma luz? Você estava sonhando, ela disse.
Tomaram um café da manhã no telhado do hotel, numa espécie de campina, cheia de guarda-sóis listrados, o que parecia para Casey um número antinatural de árvores. Ele contou a ela sobre sua tentativa de matar a Iade Berna. Toda a questão de grampos parecia ter se tornado acadêmica. Se a Armitage estava vigiando os dois, ele estaria fazendo isso sem o Intermute.
E foi, tipo assim, real? Ela perguntou. A boca cheia de croissant de queijo. Tipo cistim? Ele disse que sim. Real como está aqui, acrescentou, olhando ao redor. Talvez mais. As árvores eram pequenas, retorcidas, impossivelmente velhas. Resultado de engenharia genética e manipulação química.
Casey teria tido muita dificuldade para diferenciar um pinheiro de um carvalho, mas o senso de estilo de um garoto de rua lhe dizia que aquelas árvores ali eram bonitinhas demais, total e definitivamente árvores demais. Entre as árvores, sobre encostas suaves e inteligentemente irregulares demais, de grama verde macia, os guarda-sóis brilhantes protegiam os hóspedes do hotel do brilho incansável do sol da lado Aschison.
Uma rajada de francês vinda de uma mesa ao lado chamou sua atenção. As crianças douradas que tinha visto planando sobre o rio na noite anterior. Agora via que os bronzeados delas eram irregulares. Um efeito de extensio produzido por um bucho insolentivo de melanina. Tonalidades múltiplas sobrepondo-se em padrões etilíneos, realçando e contornando musculaturas.
os seios pequenos e durinhos da garota, o pulso de um dos garotos descansando no esmalte branco na mesa. Para Casey, eles pareciam máquinas construídas para correr. Mereciam decalques para seus cabeleireiros, os designs de suas calças de algodão branco, para os artesãos que fizeram suas sandálias de couro e joias simples. Além deles, em outra mesa, três esposas japonesas com roupas tipo kimono aguardavam maridos, e no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no no
Sararimã, seus rostos ovais cobertos com hematomas artificiais. Era, sabia, um estilo extremamente conservador, coisa que raramente via em Shiba. Que cheiro é esse? Perguntou a mole, franzindo o nariz. É a grama. Fica com esse jeito quando é cortada.
Armitagem e Riviera chegaram quando eles estavam terminando o café. Armitagem, roupas caque feitas sob medida que pareciam militares, com a exceção das insígnias de regimento que faltavam. E Riviera num macacão cinza que sugeria perversamente um uniforme de presidiário. Mole, coração, disse Riviera quase antes de se sentar em sua cadeira. Você vai ter que me repassar um pouco mais do remédio. O meu acabou.
Peter, ela disse, e se eu não fizer isso? Ela sorriu sem mostrar os dentes. Você vai fazer, disse Riviera, os olhos cortando para a Armitage e voltando para ela. Dê o remédio a ele, disse a Armitage. Você adora isso, não é? Ela tirou um pacote fino envolto em papel alumínio de um bolso interno e o jogou do outro lado da mesa. Riviera o apoiou no ar.
Ele podia morrer de overdose, ela disse para a ermitagem. Tenho uma audição esta tarde, disse Rivera. Vou precisar estar da minha melhor forma. Ele pegou o pacote de papel alumínio, colocou na mão fechada em cúpula e sorriu. Pequenos insetos coruscantes começaram a ser voando de dentro dele e desapareceram. Ele enfiou o pacote no bolso de sua blusa de macacão.
Você mesmo, Casey, tenha uma audiência esta tarde, disse a Mitage, naquele rebocador. Quero que vá até a loja de equipamentos e compre um traje de vácuo do seu tamanho. Faça uma verificação nele e vá para a nave. Você tem aproximadamente três horas. Por que é que a gente é enviado dentro de uma lata de sardim e vocês dois pegam um táxi da JAL? Casey perguntou, evitando deliberadamente os olhos do homem. Zion sugeriu que nós o utilizemos.
Boa cobertura quando nos movermos. Eu tenho de fato uma nave maior de prontidão, mas o rebocador é um belo toque. E eu? Perguntou um mole. Tem alguma tarefa para hoje? Quero que você suba até a outra ponta do eixo e exercite-se em 0G. Amanhã, talvez, você possa fazer isso na direção oposta. Stray Light, pensou o Casey.
Daqui a quanto tempo? Perguntou o Case, encarando o olhar pálido. Logo, disse a mitagem. Vá se adiantando, Case. Bom, você está indo muito bem, disse Mael Kuhn, ajudando o Case a sair do traje de vácuo sun e vermelho. A herói disse que você está indo muito bem mesmo.
A herói havia ficado esperando numa das docas esportivas na ponta do fuso, perto do eixo sem peso. Para chegar lá, Casey pegou um elevador que desceu até o casco e de lá pegou um trem de indução em miniatura. À medida em que o diâmetro do fuso se estreitava, a gravidade diminuía. Em algum ponto acima, ele deduziu, estariam as montanhas que mole estava escalando.
o loop das bicicletas, o equipamento de lançamento para os paragliders de mão e os microleves em miniatura. A Herói o levaram até o Marcus Garvey, um quadro de scooter esquelético com motor químico. Duas horas atrás, disse Mayocun. Eu faço entrega de artigos da Babilônia para você. Garoto japa bacana dentro do iate. Iate muito bonito.
Livre do traje, Casey se impulsionou desajeitado até o Osaka e lutou para prender as faixas da teia. Bom, ele disse, vamos ver esse negócio. Maelcon trouxe um caroço branco de espuma ligeiramente menor que a cabeça de Casey. Tirou uma navalha com um cabo de pérola de um saquinho de nylon verde do bolso lateral de seus shorts esfarrapados e cortou cuidadosamente o plástico.
E atirou um objeto retangular e passou para Casey. Isso aqui é parte de alguma arma, Mon? Não, disse Casey, virando-os de ponta cabeça. Mas é uma arma, é um vírus. Aqui neste rebocador não, Mon, Maocum disse com firmeza, estendendo a mão para pegar a fita cassete de aço. Um programa, programa de vírus, não pode infectar você. Não pode sequer entrar no seu software.
Eu preciso interfaciá-lo pelo deck antes que ele possa trabalhar em qualquer coisa. Bom, o Japamon disse que o Osaka aqui vai dizer a você tudo e onde que você quiser saber. Ok, bom, então me deixa aqui com isso, ok? Maocon saiu que Kandy passou flutuando pelo console do piloto, pegando uma pistola de calafetagem para trabalhar.
Cage desviou, olhava rapidamente dos fragmentos de massa de calafete transparente que respingavam. Não sabia direito por que, mas alguma coisa nisso lhe trouxe de volta a náusea da SAE. Que coisa é essa? Ele perguntou a Osaka. Resume para mim. Transferências de dados da Brock Systems GMBH
Frankfurt aconselha, sob transmissão codificada, que o conteúdo do carregamento seja programa de penetração nível Kwong.11. A Brox também aconselha que a interface com o Nodo Sendai Cyber Space 7 seja inteiramente compatível e apresenta recursos ideais de penetração, particularmente com relação a sistemas militares existentes. Que tal uma IA?
Sistemas militares e inteligências artificiais existentes. Meu Jesus. Qual é o nome disso mesmo? Nível Kwang.11. É chinês? É. Off. Casey prendeu o vírus K7 na lateral do Osaka com um pedaço de fita prata, lembrando-se da história de Molly de seu dia em Macau. A mitagem havia atravessado a fronteira de Zhongshan.
On, ele disse, mudando de ideia. Pergunta. Quem é dono da Brox, o pessoal de Frankfurt? De lei de transmissão interorbital, disse o Osaka. Codifique. Código comercial padrão. Pronto. Ele ficou batucando as mãos no Ono Sendai. Reynolds Scientific AG Berna. Faça uma nova busca. Quem é o dono da Reynolds?
Foram necessários mais três altas escadas acima antes dele chegar até Sierra Chippo. Dixie, ele disse, se conectando. O que é que você sabe de programas de vírus chineses? Não sei tanto assim, não. Já ouviu falar de um sistema de níveis tipo Kuang.11? Não. Casey suspirou.
Bom, estou aqui com um ICE breaker chinês fácil de usar, uma fita K7 de uso único. Tem um pessoal em Frankfurt que diz que isso pode cortar uma IA. É possível. Claro, se for militar. Parece que é sim. Escuta, Dix, e me deu benefício de seu background, ok?
A mitagem parece estar montando uma encursão em uma IA que pertence a Tessierash Pool. O mainframe fica em Berna, mas está linkado a outro no rio. O no rio foi o que te deixou com linha morta daquela primeira vez. Então, parece que eles se linkam via Straylight, a base da Tessierash Pool, lá no final do fuso. E a nossa missão deveria ser abrir caminho cortando com o ICE Breaker chinês.
Então, se o Intermuto está bancando esse show todo, está nos pagando para queimá-lo. Ele está queimando a si mesmo. E alguma coisa aqui chama a si mesmo de um Intermuto está tentando cair nas minhas graças, tentando fazer talvez com que eu pegue o Armitage. Qual é a parada? Motivação, disse o Constructo. Problema verdadeiro de motivação com o Maia. Não é humana, entende? Sim, claro. Ora.
Não, quero dizer, ela não é humana. E você não tem controle sobre ela. Eu também não sou humano, mas eu reajo como um, entendeu? Espera um segundo, disse Casey. Você é senciente ou não? Bom, eu sinto como se fosse esse garoto, mas na verdade eu sou apenas uma R.O.M. É uma questão filosófica, acho.
A sensação da gargalhada feia gelou a espinha de Casey. Mas eu também não sou capaz de escrever nenhum poema, se é que você me entende. A sua ia até pode, mas não é humana de jeito nenhum. Então você acha que não vamos conseguir entender a motivação dela? Ela é dona de si mesma? Cidadã suíça, mas até Cher Ashpul é dona do software básico e do mainframe.
Essa é boa, disse o Constructo. Tipo assim, eu sou o dono do seu cérebro e de uma porrada de coisas mais. Mas seus pensamentos têm cidadania suíça. Claro, muita sorte essa IA tem. Então... Ela está se preparando para se queimar? Casey começou a digitar nervoso no deck aleatoriamente. A matriz apareceu borrada.
começou a ganhar definição e ele viu o complexo de esferas cor-de-rosa representando um combinado siderúrgico de sequim. A autonomia. Esse é o Buzilis com relação a sua IA. Minha aposta, Casey, é que você está indo lá para cortar as algemas de hardware que impedem essa coisinha fofa de ficar mais inteligente.
E não estou vendo como é que você poderia diferenciar, digamos, entre um movimento em que a empresa mãe faz e um movimento que uma IA faz por conta própria. Portanto, talvez seja aí que a confusão toda começa. Mais uma vez a não gargalhada. Mas... Veja, essas coisas podem trabalhar duro, comprar tempo para si mesmo para escrever tutoriais, ou seja lá o que for. Mais um minuto, quero dizer...
No nanosegundo em que ela começar a descobrir maneiras de se tornar mais inteligente, o especial de Turing vai apagá-la. Ninguém confia nesses filhos da puta, você sabe disso. Toda a Yaya já construída possui um rifle eletromagnético apontado e amarrado à sua testa. Casey olhou fuzilando para as esferas rosas de Sikin. Ok, ele disse por fim.
Vou colocar este vírus no slot. Quero que você escanie a face de instrução dele e me diga o que acha. A minha sensação de alguém lendo por cima de seu ombro desapareceu por alguns segundos e depois retornou. Coisa quente, Casey. É um vírus lento. Leva seis horas, tempo estimado para craquear um alvo militar. Ou uma e a. Ele suspirou. A gente consegue rodar isso? Claro, disse o construto.
A menos que você tenha um medo mórbido de morrer. Às vezes você se repete, meu camarada. É da minha natureza. Mal ele estava dormindo quando ele retornou ao Intercontinental. Sentou-se na varanda e ficou olhando um microleve com asas de polímero das cores do arco-íris ascendendo pela curva do Freeside. Sua sombra triangular passando por cima de campinas e telhados.
até desaparecer atrás da faixa do sistema lado Acheson. Eu quero ficar doidão, disse ao artifício azul do céu. Eu quero muito mesmo ficar doidão, sabia? Pâncreas bombado, plugs no fígado, saquinhos de merdinha derretendo, que se foda tudo isso. Eu quero ficar doidão.
Saiu sem acordar mole, ou pelo menos ele achou. Com aqueles óculos, nunca tinha certeza. Mexeu os ombros para aliviar a tensão e entrou no elevador. Subiu com uma garota italiana que vestia uma roupa branca impecável, nariz e maçãs do rosto recobertas com uma substância preta não reflexiva. Seus sapatos de nylon branco tinham pontas de aço.
O objeto de aspecto caro em sua mão lembrava um cruzamento entre um remo em miniatura e uma muleta ortopédica. Ela ia jogar algum tipo de jogo, mas Casey não fazia ideia de qual seria. Na campina do telhado, atravessou o bosque de árvores e guarda-sóis até encontrar uma piscina. Corpos nus reluzentes contra azulejos azul turquesa.
Ele foi até a sombra de um todo e pressionou seu chip contra a placa de vidro preto. Sushi, ele disse. O que vocês tiverem aí? Dez minutos depois, um garçom chinês, todo empolgadinho, chegou com sua comida. Ele mastigou o atum cru e arroz e ficou olhando as pessoas se bronzeando. Jesus, disse para o seu atum. Eu ficaria maluco. Não me diga, alguém disse. Eu já sei.
Você é um gangster, certo? Ele olhou para ela desconfiada, apertando os olhos contra a faixa de sol. Um corpo jovem esguio e um bronzeado com bucho de melanina, mas não era um daqueles trabalhos feitos em Paris. Ela se agachou ao lado da cadeira dele, pingando água nos azulejos. Cat, disse. Lupus, depois de uma pausa. Que tipo de nome é isso?
Grego, ele respondeu. Você é um gangster mesmo? O boost de melanina não havia impedido a formação de sardas. Eu sou um viciado em drogas, Cat. De que tipo? Estimulantes. Estimulantes do sistema nervoso central. Estimulantes do sistema nervoso central extremamente potentes. Bom, e você tem algum aí? Ela se inclinou mais perto.
Gotas de água com cloro caíram da perna da calça dele. Não, esse é meu problema, Cat. Você sabe onde a gente pode arrumar algum? Cat ficou se balançando nos calcanhares bronzeados e lambeu um cacho de cabelos castanhos que haviam ficado colados ao lado da boca. Do que você gosta? Não quero coca, não quero anfetamina, mas pra cima, tem que ser uma coisa pra cima.
E pronto, pensou triste, segurando o sorriso na cara só para ela. Beta-fenetilamina, ela disse. Não tem problema, mas é por conta do seu chip. Você está brincando, disse o parceiro e colega de quarto de Kate, quando o case explicou as propriedades particulares de seu prâncreas de shiba. Sei lá, tipo, você não pode processar esse pessoal, não? Por erro médico?
Seu nome era Bruce. Ele parecia uma versão masculina da Cat até as sardas. Bom, disse Casey. É que é uma daquelas coisas, você sabe, não sabe? Tipo compatibilidade de tecidos, essa coisa toda. Mas os olhos de Bruce já tinham ficado anestesiados de tédio. Ele tinha o limite de atenção de uma pulga, pensou Casey, vendo os olhos castanhos do rapaz.
O quarto era menor que o de Casey, mole, e ficava em outro andar, mais próximo à superfície. Cinco enormes cibacromos de Thali e Chan estavam colados no vidro da varanda, sugerindo que eles estavam ali há um bom tempo. São super-trifes, não são? Cat perguntou quando o viu olhando as transparências. São minhas. Tirei na pirâmide SN, pirâmide sem número, na última vez em que descemos o poço.
Ela estava pertinho assim e simplesmente sorriu tão natural. E lá foi muito ruim, Lopes. Foi um dia depois que aqueles terroristas de Cristo Rei puseram um anjo na água, lembra? É, que eles disseram. Subitamente pouco à vontade. Foi terrível. Bom, Bruce interrompeu. Sobre esse beta que você quer comprar. O negócio é o seguinte. Vou conseguir metabolizar.
Casey levantou as sobrancelhas. Vou te dizer uma coisa, disse o garoto. Você prova. Se seu pâncreas aprovar, é por conta da casa, da primeira vez é grátis. Essa eu já ouvi antes, disse Casey, pegando o derma azul brilhante que Bruce lhe passou por sobre o edredom. Casey, Molly sentou-se na cama e os dedos caídos sobre as dentes. O que mais seria, gata? O que é que te deu?
Os espelhos o acompanhavam pelo quarto. Esqueci como pronunciar o nome disso, ele disse, tirando uma faixa bem enrolada de dermas azuis enrolados em plástico bolha do bolso da camisa. Cristo, ela disse. Era justo do que a gente precisava. Falou tudo. Eu deixo você sair da minha vista por duas horas e você vai comprar droga. Ela balançou a cabeça. Espero que esteja pronto para o nosso grande jantar com a Armitage esta noite.
Esse lugar lá do século 20 temos que ajudar o Riviera a armar o seu negócio também. É, disse Casey, espreguiçando-se. O sorriso travado é um ricto de prazer. Lindo. Cara, ela disse. Se o que quer que isso aí seja conseguir passar pelo que aqueles seis de ontem fizeram em Chiba, você vai ficar num estado lastimável quando o efeito passar.
Tá, tá, tá, ele disse desafiando o cinto. Porra, caralho, é tudo que eu sempre ouço. Ele tirou as calças, a camisa e a cueca. Eu acho que você devia ter senso bastante para se aproveitar do meu estado antinatural. Ele olhou para baixo. Quero dizer, olha só para este estado antinatural aqui. Ela deu uma gargalhada. Não vai durar muito.
Ah, mas vai, ele disse, subindo na espuma sintética cor de areia. É por isso que é tão antinatural. Onze. Algo de errado com você, Casey? Perguntou a Hermitage, enquanto o garçom os ajudava a sentar-se à sua mesa no Vingtime Ciclé. Era o menor e o mais caro de diversos restaurantes lutantes no pequeno lago perto do Intercontinental.
Case estremeceu. Bruce não havia dito nada sobre efeitos colaterais. Ele tentou pegar um copo com água, mas as mãos tremiam. Acho que foi algo que comi. Quero que você seja examinado por um médico, disse a Mitagem. É só uma reação histamínica, mentiu Case. Fico assim sempre que viajo, como coisas diferentes, às vezes. A Mitagem vestia um terno escuro formal demais para aquele lugar e uma camisa de seda branca.
Seu bracelete de ouro chacoalhou quando ele levantou sua taça de vinho e tomou um gole. Já fiz o pedido de vocês, ele disse. Mole e a Armitage comeram em silêncio, enquanto Casey cortava trêmulo seu filé, reduzindo-o a pedacinhos que ele acabou não comendo, e mergulhou no molho rico e finalmente abandonou por inteiro. Meu Deus, disse Mole, com seu prato já vazio.
Me dá isso aí. Sabe o quanto isso custa? Pegou o prato dele. Eles têm que criar um animal inteiro por anos e aí eles o matam. Isto aqui não é coisa criada em tanques. Estou sem fome, Casey conseguiu dizer. Seu cérebro estava frito.
Não, ele pensou melhor. Seu cérebro havia sido jogado e manha quente deixado ali, e a gordura havia esfriado, uma graxa grossa congelando nos lobos enrugados, parados por fleches verdes púrpura de dor. Porra, você parece fodidaço, uma delícia achando graça. Case experimentou o vinho.
Os resquícios da beta-fenetilamina davam a bebida um gosto de iodo. As luzes diminuíram. Le restaurante Vingtime Ciclé, disse uma voz desencarnada com o sotaque carregado do Sproul. Orgulhosamente apresento o cabaré holográfico do Sr. Peter Riviera.
Aplausos esparços das outras mesas. Um garçom acendeu uma única vela e a colocou no centro da mesa. E depois começou a retirar os pratos. Em pouco tempo havia uma vela brilhando em cada uma das doze mesas do restaurante. E começaram a servir bebidas. O que é que está acontecendo? Casey perguntou à Armitage, que não disse nada. Mole futucava os dentes com uma unha bordô.
Boa noite, disse Riviera, dando um passo à frente em um pequeno palco no fundo do balcão. Ele não tinha visto de onde Riviera tinha aparecido. Seu incômodo aumentou. No começo, supôs que o homem estava sendo iluminado por um revolutor. Riviera brilhava. A luz ficava ao seu redor como uma pele, iluminando as cortinas pretas atrás do palco. Ele estava projetando. Riviera sorriu.
Vestia um paletó de antar branco. Na lapela, carvões azuis queimavam nas profundezas de um cravo negro. Suas unhas reluziam quando ele levantou as mãos num gesto de saudação. Um abraço para sua plateia. Queis ouvia a água rasa bater na parede lateral do restaurante. Esta noite, disse Riviera, os longos olhos brilhando. Gostaria de executar um número extra para vocês. Uma nova obra.
Um rubir de luzes frias se formou na palma de sua mão direita levantada. Ele o deixou cair. Um pombo cinza saiu voando no ponto de impacto e desapareceu nas sombras. Alguém assobiou. Mais aplausos. O título da obra é A Boneca. Riviera baixou as mãos. Gostaria de dedicar a sua premiera aqui esta noite. A Lady...
Jane Marie France Tessier-Achepot. Uma onda de aplausos educados. Quando acabou, os olhos de Riviera deram a impressão de ter encontrado a mesa deles. E a outra dama? As luzes do restaurante se apagaram inteiramente por alguns segundos, deixando somente o brilho das velas.
A aura holográfica de Riviera havia se desvanecido com as luzes, mas Keyes ainda conseguia vê-lo em pé com a cabeça abaixada. Linhas tênues de luzes começaram a se formar, linhas horizontais e verticais, traçando um cubo aberto ao redor do palco. As luzes do restaurante haviam voltado, mais fracas, mas a estrutura que cercava o palco parecia ter sido construída com raios de luar congelados.
Cabeça abaixada, olhos fechados, braços rígidos ao lado do corpo. Riviera parecia tremer de tanta concentração. Subitamente, o cubo fantasmagórico ficou cheio. Havia se tornado um quarto. Um quarto, sim, a quarta parede, permitindo que a plateia pudesse ver seu interior. Riviera aparentemente relaxou um pouco. Levantou a cabeça, mas continuou de olhos fechados.
Eu sempre vivi dentro do quarto, ele disse. Não consigo me lembrar de ter vivido em nenhum outro quarto. As paredes do quarto eram caiadas de branco. Ele continha duas peças de mobiliário. Uma delas era uma cadeira simples de madeira. A outra, uma armação de cama de ferro pintada de branco. A tinta havia descascado.
revelando o ferro preto. Pelo menos não é feito de caibro e coisa velha, podre. O colchão sobre a cama já não tinha lençóis. Listras marrons manchadas. Uma única lâmpada pendurada sobre a cama, com um fio preto torcido. Casey podia ver a camada espessa de pó na curva superior da lâmpada. Riviera abriu os olhos.
Eu sempre estive sozinho no quarto. Sempre. Ele se sentou na cadeira de frente para a cama. Os carvões azuis ainda queimavam na flor preta em sua lapela. Não sei quando sonhei com ela pela primeira vez, ele disse. Mas lembro que, no começo, ela era apenas algo enevoado, uma sombra. Havia alguma coisa na cama. Casey piscou os olhos. Sumiu.
Eu não conseguia segurá-la bem, mantê-la em minha mente, mas queria abraçá-la, segurá-la e mais. Sua voz se propagava perfeitamente no silêncio do restaurante, um som de gelo batendo dentro de um copo. Alguém deu uma risadinha. Alguém sussurrou uma pergunta em japonês.
Deduzi que, se pudesse visualizar alguma parte dela, apenas uma pequena parte, se pudesse ver essa parte perfeitamente, nos mais perfeitos detalhes. Uma mão de mulher jazia no colchão agora, a palma voltada para cima, os dedos brancos bem pálidos. Riviera se inclinou para a frente, apanhou a mão e começou a acariciá-la suavemente. Os dedos se moveram.
Riviera levou a mão à sua boca e começou a lamber as pontas dos dedos. As unhas tinham esmalte bordô. Casey viu que a mão não era um membro decepado. A pele seguia lisa, sem corte e sem cicatrizes. Ele se lembrou de um losango tatuado de carne cultivada em um tanque na vitrine de uma boutique cirúrgica da Nissei. Riviera estava segurando a mão encostada.
em seus lábios, lambendo sua palma. Os dedos acariciavam seu rosto, exploratórios, mas agora havia uma segunda mão em cima da cama. Quando Riviera tentou pegá-la, os dedos da primeira se fecharam ao redor de seu pulso, um bracelete de carne e osso. O ato continuou com uma lógica interna surreal própria.
A seguir vieram os braços, os pés, pernas. As pernas eram muito bonitas. A cabeça de Casey começou a latejar. Sentia a garganta seca. Tomou o resto do vinho. Agora Riviera estava na cama, nu. Suas roupas eram parte da projeção, mas Casey não conseguia se lembrar de tê-las visto desaparecer. A flor negra jazia caída no pé da cama, ainda com sua chamazô interior.
Então o tronco se formou enquanto Riviera o acariciava e fazia com que ele aparecesse, branco, sem cabeça e perfeito, coberto por uma camada finíssima de suor. O corpo de mole. Casey ficou olhando de queixo caído. Mas não era mole. Era mole do jeito que Riviera imaginava. Os seios estavam errados. Os mamilos maiores, escuros demais.
Riviera e o tronco sem membros se contorciam na cama, com as mãos de unhas brilhantes se arrastando sobre eles. A cama estava, agora, coberta com dobras de rendas amareladas e apodrecidas que se desfaziam a um toque. Partículas de pó fervilhavam em volta de Riviera e dos membros que se contorciam, as mãos que corriam de um lado para o outro, meliscando, acariciando. Keis olhou para a mole discretamente.
O rosto dela era uma página em branco. As cores da projeção de Riviera se contorciam e se reviravam em seus espelhos. A armitagem estava curvada para a frente, as mãos fechadas no pé de um cálice de vinho, os olhos claros fixos no palco, no quarto que brilhava. Agora braços, pernas e tronco haviam se fundido e Riviera estremeceu. A cabeça estava ali, a imagem completa.
o rosto de Molly com a fluidez do mercúrio aflogando seus olhos. Riviera e a imagem Molly começaram a copular com intensidade renovada. Então, a imagem estendeu lentamente uma mão em forma de garra e disparou suas cinco lâminas. Com uma deliberação lânguida e onírica, ela rasgou as costas nuas de Riviera.
Casey captou um vislumbre da espinha dorsal exposta, mas ele já tinha se levantado e estava saindo cambaleando para a porta. Vomitou sobre a balaustrada de pau rosa nas águas tranquilas do lago. Uma coisa que parecia perto demais ao redor de sua cabeça como uma garra o havia soltado agora. Ajoelhando-se, o rosto colado na madeira fria, ficou olhando a aura da rua Júlia Svern do outro lado do lago raso.
Casey já havia visto essa mídia antes. Em sua adolescência no Sproul, eles chamavam isso de sonho real. Ele se lembrava de porto riquenhos magricelos embaixo de postes de luz, sonhando real a batida rápida da salsa, Dreamgirls estremecendo e girando, o pessoal na rua batendo palmas para marcar o ritmo. Mas para aquilo fora necessário uma van cheia de equipamentos e um capacete de trodos todo desajeitado.
O que Viera sonhava, você via. Kei sacudiu a cabeça dolorida e cuspiu no lago. Ele podia adivinhar o fim, o gran finale. Havia uma simetria invertida naquilo. Riviera monta a garota do sonho. A garota do sonho desmonta com aquelas mãos. Sangue de sonho encharcando a renda podre. Gritos do restaurante. Aplausos.
Casey se levantou e passou as mãos pelas roupas. Virou-se e voltou para o Vingtime Sinclair. A cadeira de Molly estava vazia. O palco estava deserto. A mitagem estava sentada sozinha. Ainda olhando para o palco. O pé do cálice entre os dedos. Cadê ela? Casey perguntou. Foi embora, disse a mitagem. Foi atrás dele? Não.
Um clink suave. A mitagem olhou para o vidro. Sua mão esquerda estava segurando o bulbo de vidro com vinho tinto. O pé quebrado destacando-se para o alto como uma lasca de gelo. Casey tirou a taça da mão dele e a colocou num copo d'água. Me diz para onde ela foi, a mitagem. As luzes se acenderam. Casey olhou para os olhos paredes. Não havia nada lá.
Ela foi se preparar. Você não a verá novamente. Vocês estarão juntos durante a incursão. Por que Riviera fez aquilo com ela? A mitagem se levantou, ajustando as lapelas do paletó. Vá dormir um pouco, Casey. A incursão é amanhã? A mitagem deu aquele sorriso sem sentido e se afastou na direção da saída. Casey esfregou a testa e olhou em volta.
As pessoas estavam se levantando de suas mesas. Mulheres sorriam enquanto os homens faziam piadas. Ele reparou na varanda pela primeira vez, velas ainda tremeluzindo ali na escuridão particular. Ele ouviu o som de prataria e sussurros. As velas jogavam sombras das sarinas no teto. O rosto da menina apareceu tão subitamente quanto uma das projeções de Riviera, as mãozinhas segurando a madeira polida da bala austrada.
Ela se inclinou para a frente. O rosto enlevado, pareceu a ele. Os olhos escuros atentos a alguma coisa mais além. O palco. Era um rosto fascinante, ainda que não fosse bonito. Triangular, as maçãs do rosto altas, mas de um aspecto extremamente frágil. A boca ampla e firme, equilibrada de modo bizarro por um nariz estreito semelhante a um bico de pássaro e narinas abertas.
E então ela desapareceu, voltando às risadas e às danças das velas. Quando ele deixou o restaurante, notou os dois jovens franceses e a namorada deles esperando o barco para outra margem e o cassino mais próximo. O quarto deles estava em silêncio. A espuma sintética parecia macia como areia de uma praia depois que a maré recua. A sacola dela havia sumido.
Ele procurou algum bilhete. Não havia. Vários segundos se passaram antes que a cena, além da janela, fosse registrada por sua tensão e infelicidade. Ele levantou a cabeça e viu uma vista da desiderata lojas caras. Gucci Tsuyako Hermes Liberty. Ele ficou olhando, depois balançou a cabeça e foi até um painel que não havia se importado examinar.
Desligou o holograma e foi recompensado com os contos que subiam em terraços na encosta do outro lado. Pegou o telefone e o levou até a varanda fria. Me ligue com o Marcos Garvey, pediu a recepção. É um rebocador registrado no aglomerado de Zion. A voz de Chip recitou um número de dez dígitos. Senhor, acrescentou, o registro em questão é do Panamá. Maio Kuhn atendeu no quinto toque.
Yo! Case, você tem um modem, Malcolm? Yo, no comp de navegação, sabe como é? Dá para você tirar ele para mim, cara? Colocá-lo no meu Osaka? Depois ligar meu deck, é o botão listrado. Como é que você está indo aí, mon? Bom, estou precisando de uma ajuda. Movendo, mon, peguei o modem.
Casey ficou ouvindo uma estática leve enquanto Malcom conectava o link telefônico simples. Corte este ICE aqui, ele disse ao Osaka quando ouviu emitir um bip. Você está falando de um local fortemente monitorado. O computador aconselhou um jeito pedante. Foda-se, ele disse. Esquece o ICE. Sem ICE. Acesse o construto. Dixie.
Ei, Case, disse o Flatline pelo chip de voz do Osaka, o sotaque cuidadosamente projetado totalmente perdido. Dix, você vai entrar aqui e pegar uma coisa pra mim? Pode entrar arrombando tudo. Mole está em algum lugar aqui e quero saber aonde. Estou no... 335W, no Intercontinental.
Ela também está registrada aqui, mas não sei que nome está usando. Use este telefone e pegue os registros para mim. Já fui, disse Flatline. Casey ouviu o ruído branco da invasão. Sorriu. Pronto. Rose Colodyne. Já fez o check-out. Me dá uns minutos para penetrar a rede de segurança deles e conseguir me fixar. Vai.
O telefone começou a gemer e emitir cliques com os esforços do construto. Case o levou de volta ao quarto e colocou o fone virado para cima e em cima da espuma sintética. Foi ao banheiro e escovou os dentes. Quando estava saindo, o monitor do complexo audiovisual Brown do quarto ligou sozinho. Um popstar japonês reclinado em almofadões metálicos. Um entrevistador fora do alcance da câmera fez uma pergunta em alemão. Case ficou olhando.
Até ela pulava com um flash de interferência azul. Case, baby, tu ficou louco, é? A voz era lenta e familiar. A parede de vidro da varanda clicou e ativou sua vista da desiderata, mas a cena da rua ficou borrada, distorcida. Tornou-se o interior do jarre de té. Chiba, vazio, neon vermelho replicado ao infinito, arranhado nas paredes espelhadas.
Lonisoni apareceu, alto e cadavérico, andando com a lenta graça submarina de seu vício. Ele ficou ali em pé, sozinho, entre as mesas quadradas, as mãos nos bolsos de suas calças de couro de tubarão cinza. — Na boa, cara. Você está com a maior cara de acabadaço. A voz vinha dos altos falantes do Brown. — Wintermute, disse Casey. O cafetão deu de ombros languidamente e sorriu.
Cadê a Molly? Não se preocupe com isso. Você está botando tudo para foder esta noite, Casey. O Flatline está tocando campainhas em toda a Freesight. Eu não esperava que você fosse fazer isso, cara. Não bate com seu perfil. Então me diz onde ela está e manda ele pular fora. Zony balançou a cabeça negativa. Você não consegue manter suas mulheres sob controle, não é, Casey? Você sempre as perde, de um jeito ou de outro.
Eu vou botar pra foder é contigo, disse Casey. Não, isso não faz o seu gênero, cara. Eu sei disso. Sabe de uma coisa, Casey? Eu acho que você já descobriu que fui eu que mandou o Diany apagar aquela sua pirainha lá em Shiba. Não faça isso, disse Casey, dando um passo involuntário na direção da janela. Mas não fiz. E qual é o problema, afinal? O quanto isso realmente importa para o Sr. Casey?
Pare de se enganar. Eu conheço a sua linda, cara. Eu conheço todas as lindas. Lindas são um produto genérico na minha linha de trabalho. Sabe por que ela decidiu te roubar? Amor. Para que você prestasse atenção nela. Amor? Quer falar de amor? Ela te amava. Eu sei disso. Ela podia não prestar muito, mas te amava. Você não conseguiu segurar a onda. Ela morreu.
O punho de Cage olhou na direção da vidraça. Não vai foder com suas mãos, cara. Você vai ter que usar o deck daqui a pouco. Zone sumiu, substituído pela noite de Freestyle e pelas luzes dos condos. O Brown desligou. Na cama, o telefone tocava sem parar. Cage, o Flatline estava esperando. Onde é que você estava? Consegui, mas não era grande coisa.
O construto emitiu um endereço. Esse lugar tem um ICA bizarro em volta para ser uma casa noturna. Foi tudo o que consegui sem deixar um cartão de visita. Ok, disse Casey. Manda o Osaka dizer ao Maio Kun para desconectar o Moulding. Valeu. Foi um prazer. Ele ficou sentado na cama por muito tempo, saboreando essa coisa nova. Esse tesouro. Ódio.
Opa lupus! Ei Cat, é o amigo lupus. Bruce estava nu na porta pingando água, as pupilas enormes. A gente estava tomando um banho. Quer tomar banho? Não, valeu, quero uma ajuda. Ele empurrou o braço do garoto e entrou no quarto. Pô cara, mas a gente vai me ajudar. Vocês estão felizes pra cacete de me ver.
Porque nós somos amigos, certo? Não somos? Bruce piscou. Claro. Casey recitou o endereço que Flatline havia alitado. Eu sabia que ele era um gangster, que atirisse toda animada de dentro do chuveiro. Eu tenho um triciclo onda, disse Bruce sorrindo meio desligado. Vamos já, disse Casey.
Naquele nível ficam os cubículos, disse Bruce depois de pedir para Casey para repetir o interesse pela oitava vez. Ele voltou a montar na onda. Condensação pingava do exaustor de células de hidrogênio enquanto o chacir de fibra de vidro vermelha balançava sobre molas de cromo. Vai demorar? Não faço ideia, mas você vai esperar. A gente espera, claro. Ele coçou o peito nu.
Essa última parte do endereço, acho que é um cubículo, número 43. Estão te esperando, lupus? Cat esticou o pescoço por cima do ombro de Bruce e deu uma espiada. O passeio havia secado seu cabelo. Provavelmente não, disse Casey. Isso é algum problema? É só descer até o nível mais baixo e encontrar o cubículo do seu amigo. Se eles deixarem você passar, tudo bem. Se não quiserem te ver, ela deu de ombros.
Casey deu meia volta e desceu uma escada em espiral de ferro floral. Seis voltas e chegou a uma casa noturna. Ele fez uma pausa e acendeu um Yeruan olhando para as mesas. Freysal de repente começou a fazer sentido para ele. Podia sentir aquilo tudo vibrando no ar. Aquilo ali é que era a ação local. Não a fachada super brilhante da Julius Verne, mas a coisa real. O comércio, a dança.
A multidão era mista, talvez metade fosse de turistas, a outra metade de residentes das ilhas. Lá embaixo, disse para um garçom que passava, quero ir lá para baixo. Ele mostrou o seu chip de freeside. O homem fez um gesto para a parte de trás da casa. Ele passou rapidamente pelas mesas lotadas, ouvindo fragmentos de meia dúzia de idiomas europeus.
Quero um cubículo, disse para a garota que estava sentada na mesa baixa, um terminal no colo. Nível inferior, entregou seu chip a ela. Preferência de gênero? Ela passou o chip por uma placa de vidro na face do terminal. Feminino, disse automaticamente. Número 35. Telefone se não for satisfatório. Você pode acessar o display de nossos serviços especiais antes, se quiser.
Ela sorriu e devolveu o chip. Atrás dela, um elevador abriu suas portas. As luzes do corredor eram azuis. Casey saiu do elevador e escolheu uma direção aleatoriamente. Portas enumeradas. Um barulho abafado como nos corredores de uma clínica cara. Ele encontrou seu cubículo.
Estava procurando mole. Agora, confuso, levantou seu chip e o colocou contra um sensor preto montado logo abaixo da placa do número. Travas magnéticas. O som o fez lembrar do chip hotel. A garota estava sentada na cama e disse alguma coisa em alemão. Seus olhos eram doces e ela não piscava. Piloto automático. Um disjuntor neural. Ele saiu do cubículo e fechou a porta.
A porta do 43 era igual a todas as outras. Ele hesitou. O silêncio do corredor dizia que os cubículos eram a prova de som. Não fazia sentido usar o chip. Ele bateu na porta de metal esmaltado. Nada. A porta parecia absorver o som. Ele colocou o seu chip contra a placa preta. As travas se abriram.
De algum modo, teve a impressão de que ela o atingiu antes que ele realmente conseguisse abrir a porta. Ele caiu de joelhos, a porta de aço às costas, as lâminas dos polegares rígidos dela estremecendo a centímetros de seus olhos. Meu Jesus, ela disse, levantando-se e dando-lhe um tabefe na têmpora. Você é um idiota, porra, de tentar isso, porra. Porra, como é que você abre essas travas, Casey? Você está bem?
Ela se curvou sobre ele. Chip, ele disse, lutando para respirar. A dor estava se espalhando a partir do seu peito. Ela o ajudou a se levantar e o empurrou para dentro do cubículo. Você subornou o pessoal lá em cima? Ele balançou a cabeça em negativo e caiu sobre a mesa. Respire. Conte. Um, dois, três, quatro.
segure o ar agora expire conte ele agarrou o estômago e você me chutou ele conseguiu dizer devia ter chutado mais embaixo eu quero ficar sozinha estou meditando tá sentou-se ao lado dele e recebendo um briefing ela apontou para um pequeno monitor montado na parede no lado oposto à cama e o intermundo está me contando sobre esse trelight
Cadê a boneca de carne? Não tem? Este aqui é o serviço mais caro de todos. Ela se levantou. Usava seus jeans de couro e uma camiseta escuro-afogada. O intermúteo disse que a incursão vai ser amanhã. O que foi aquele negócio lá no restaurante? Por que você saiu correndo? Por que? Se eu ficasse, poderia ter matado a Riviera. Por que? O que ele fez comigo? O show.
Não entendi. Isto aqui custa muito caro, ela disse estendendo a mão direita como se segurasse uma fruta invisível. As cinco lâminas deslizaram para fora e depois se retraíram lentamente. Custa caro ir para a Shiba. Custa caro fazer a cirurgia. Custa caro plugar seu sistema nervoso para que o equipamento acompanhe seus reflexos.
Sabe como consegui o dinheiro quando estava começando? Aqui. Não exatamente aqui, mas num lugar igualzinho, no Sproul. É uma piada pra começo de conversa, porque assim que eles plantam o chip desjuntor, parece um dinheiro mole de ganhar. Às vezes você acorda ralada, mas é só. Você está só alugando sua carne. Quando o negócio está rolando, você não está em casa.
A casa tem software para o que o cliente quiser pagar. Ela estalou os dedos das mãos. Tudo bem, eu estava arrumando minha grana. O problema era o seguinte. O atalho e os circuitos que as clínicas de chip instalaram não eram compatíveis. Então o tempo de trabalho começou a vazar para minha memória e comecei a me lembrar. Mas eram apenas pesadelos e não eram todos ruins. Ela sorriu.
Aí começou a ficar estranho. Tirou os cigarros do bolso e acendeu um. A casa descobriu o que eu estava fazendo com o dinheiro. Eu já tinha instalado as lâminas, mas o trabalho neuromotor fino ainda levaria mais três viagens. De jeito nenhum eu estava pronta para abrir mão do meu tempo de boneca. Ela inalou a fumaça, soprou um jato de fumaça fechando o conjunto com três anéis perfeitos.
Então, o filho da puta que dirigia o local tinha um software customizado preparado. Berlim é um lugar de snuff, saca? Berlim é um grande mercado para coisas do mal. Eu nunca soube quem escreveu o programa no qual eles me colocaram, mas era baseado em todos os clássicos. Eles sabiam que você estava captando esse negócio todo? Estava consciente enquanto estava trabalhando? Eu não estava consciente.
É tipo o cyberspaço, mas em branco. Prata, tem cheiro de chuva. Você pode ver a si mesmo gozando. É como uma pequena supernova bem no limite do espaço. Mas eu estava começando a me lembrar. Como se fossem sonhos, sabe? E eles não me contaram. Eles trocaram o software e começaram a alugar para mercados especializados. Era como se ela estivesse falando de muito longe.
E eu sabia, mas ficava quieto. Eu precisava do dinheiro. Os sonhos foram ficando cada vez piores. E dizia a mim mesma que pelo menos alguns deles eram mesmo apenas sonhos. Mas a essa altura já havia começado a perceber que o chefe tinha toda uma pequena clientela me pegando. Nada é bom demais para a mole, diz o chefe. E me dá um momentozinho de merda. Ela balançou a cabeça.
Aquele babaca estava cobrando oito vezes o que estava me pagando e achava que eu não sabia. Então, pelo que ele estava cobrando? Pesadelos reais. Uma noite, uma noite eu havia acabado de voltar de Chiba. Ela deixou o cigarro cair, apagou com o calcanhar da bota e se sentou. Recostando-se na parede.
Os cirurgiões foram fundo naquela viagem. Negócio embaçado. Eles devem ter perturbado o chip disjuntor. Eu acordei. Eu estava numa rotina com o cliente. Ela enterrou os dedos na espuma. Era um senador. Eu reconheci aquela cara goida de saída. Estávamos os dois cobertos de sangue. E não estávamos sozinhos. Ela estava toda...
Ela puxou a espuma sintética. Morta. E aquele gordo filho da puta, ele estava dizendo. O que aconteceu? O que aconteceu? A gente ainda nem tinha terminado. Ela começou a tremer. Então, acho que dê ao senador o que ele realmente queria, sabia? A tremedeira parou. Ela soltou a espuma e correu os dedos por seus cabelos pretos.
A casa colocou um contrato pela minha cabeça. Precisei me esconder por um tempo. Casey ficou olhando para ela. Então Riviera pisou num calo ontem à noite, ele disse. Acho que ele quer que eu odeie muito para minha mente ficar psico o suficiente para ir atrás dele. Atrás dele? Ele já está lá, Stray Light.
A convite da Lady Third Jane, toda aquela merda de dedicatória que ele fez. Ela estava numa cabine privada lá, mais ou menos. Cassie se lembrou do rosto que havia visto. Você vai matá-lo? Ela sorriu, fria. É, ele vai morrer, em breve.
Eu também recebi uma visita, ele disse, e contou a ela sobre a janela, pulando a parte do que a figura Zonya havia dito sobre Linda. Ela fez que sim com a cabeça. Talvez ele deseje que você odeie alguém também. Talvez eu odeie. Talvez você odeie a si mesmo, Casey. Como foi? Perguntou Bruce quando Casey subiu no onda. Você precisa experimentar um dia, ele disse esfregando os olhos.
Não consigo te ver como um cara que gosta de bonecos. Cat disse triste, colocando um derma novo com o polegar no pulso. Dá pra gente ir pra casa agora? Perguntou Bruce. Claro, me deixem lá na Julius Verne, onde ficam os bares. Valeu pela força pessoal que tá acompanhando aí, muito obrigado. Não esqueça de deixar o like pra dar uma força pra gente no canal aí. Pra gente voltar de novo.
Muito obrigado. Peço desculpas pela lentidão que tem sido ultimamente. Obrigado por estar acompanhando. Valeu. 12.
A rua Júlias Verne era uma avenida circunferencial que dava uma volta inteira na seção média do fuso, ao passo que a desiderata percorria seu comprimento, terminando em ambas as extremidades das bombas de luz lado Aschison. Se você virasse à direita, saindo da desiderata e seguisse pela Júlias Verne direto, acabaria se aproximando da desiderata pela esquerda. Casey ficou observando o triciclo de Bruce até ele sumir de vista.
Depois deu meia volta e passou andando por uma enorme banca de jornais, muito iluminada. As capas de dezenas de revistas japonesas em papel coché, exibindo os rostos dos novos astros no tistim do mês. Acima da sua cabeça, ao longo do eixo onetecido, o céu de holograma brilhava com constelações inventadas que sugeriam cartas de baralho. Faces de dados, uma cartola, uma taça de martini.
O cruzamento da desiderata com Julius Werner formava uma espécie de ravina. As varandas terraços dos habitantes das colinas de Freeside subindo gradualmente até as mesas gramadas de outro complexo de cassinos. Case ficou olhando um micro leve remoto fazer uma curva graciosa numa corrente ascendente de ar na beira de um verde de um platô artificial, iluminada por segundos pelo brilho suave do cassino invisível.
O negócio era uma espécie de biplano de polímero finíssimo, sem piloto. As asas impressas com um silkscreen para lembrar uma borboleta gigante. Depois sumiu, além da beirada da mesa. Ele viu um piscar de neon refletido em vidro, ou lentes, ou torretas de lasers. Robôs faziam parte do sistema de segurança do fuso, controlado por algum computador central. Em Straylight?
Ele continuou a caminhar, passando por bares de nomes como Hilo, Paradise, Lemon, Krikker, Shuzuku Smiths, Emergency. Ele escolheu o Emergency porque era o menor e o mais lotado, mas só levou segundos para perceber que era um lugar de turistas. Ali não existia o zumbido dos negócios, apenas uma tensão sexual amortecida.
Pensou por um instante na casa noturna sem nome sobre o cubículo alugado de Molly, mas a imagem dos olhos espelhados dela fixos na telinha o dissuadiram. O que o Intermude estava revelando ali agora? As plantas da Vila Straylight? A história dos Tessier Ashpool? Comprou uma caneca de Kalsberg e achou um lugar encostado na parede.
Fechando os olhos, procurou o centro nervoso do ódio, o puro e minúsculo carvão em brasa de sua fúria. Ela ainda estava lá. De onde havia vindo isso?
Ele se lembrava de ter sentido apenas uma espécie de surpresa quando se machucou em Memphis, e absolutamente nada quando matou para defender seus interesses comerciais em Night City, e um enjoo e nojo fracos após a morte de Linda dentro da cúpula inflada. Mas ódio não.
Pequeno e distante na tela da mente, um assemelhado de Diene atingia um assemelhado de uma parede de escritório e uma explosão de sangue e cérebro. Então soube. O ódio viera no filiperama quando o intermute reescendiu o fantasma de Cistinde Lindali, arrancando a simples promessa animal de comida, calor, um lugar para dormir.
Mas ele não havia se dado conta disso até sua conversa com o holoconstructo de Lunizone. Era uma coisa estranha. Ele não conseguia medir isso. Anestesiado, ele disse. Há muito tempo andava anestesiado. Anos. Todas as suas noites na Ninzei, suas noites com Linda. Anestesiado na cama e anestesiado no centro de suor frio de cada compra de droga.
Mas agora havia encontrado essa coisa quente, esse chip de assassinato. Carne, uma parte dele disse. É a carne falando. Ignore. Gangster. Ele abriu os olhos. Cat estava ao seu lado vestindo um camisão preto, os cabelos ainda despenteados pela volta na onda. Achei que você tinha ido para casa.
Ele disse e escondeu sua confusão com o gole de Kalsberg. Falei para ele me deixar numa loja. Comprei isto aqui. Acho que era ronda, hein? Ele passou a mão pelo tecido, pela curva da pélvia. Ele viu o dermo azul no pulso dela. Gostou? Claro. Ele automaticamente escaneou os ao redor deles e olhou de volta para ela. O que você acha que está fazendo, gato?
Você gostou do Beta que pegou com a gente, lupus? Agora ela estava muito perto, irradiando calor e tensão. Os olhos quase fechados sobre pupilas enormes e um tendão no seu pescoço, tenso como uma corda de arco. Ela estava vibrando, vibrando invisivelmente com um zumbido novo. Você ficou doidão? Fiquei. Mas o bode depois é uma merda. Então você precisa de outro.
E onde é que isso me leva? Eu tenho uma chave. Subindo o morro atrás do paradise. É o grande barato. As pessoas lá embaixo no poço estão negociando hoje, se é o que você me entende. Se eu te entendo. Ela pegou a mão dele e entre as dela, as palmas das mãos quentes e suadas. Você é Yaki, não é, lupus? Soldado gajim da Yakuza? Você tem um olho, hein?
Ele retirou a mão e procurou um cigarro. Como é que você tem todos os dedos no lugar ainda, então? Eu achava que você tinha que cortar um fora cada vez que fizesse uma cagada. Eu nunca faço cagada. Ele acendeu o cigarro. Eu vi aquela garota com quem você estava. No dia em que te conheci. Ainda que nem o Rideo me arrepia. Ela sorriu com a boca aberta demais.
Gosto disso. Ela gosta de garotas? Nunca me disse. Quem é, Rideu? Ele é o serviçal de Terjane. É como ela chama. Serviçal da família. Casey forçou uma cara de desentendido, olhando a multidão do Emergence ao falar. De Jane? Lady Terjane. Ela é trife. Rica.
O pai dela é dono disso tudo aqui. Deste bar? De Freeside. Não, fode. Você tem uns amiguinhos claçudos, hein? Ele levantou uma sobrancelha, colocou o braço ao redor dela e a mão no quadril. Como é que você fez para conhecer esses aristas, Cat? Você é algum tipo de riquinha enrostida? Você e Bruce são herdeiros secretos de um crédito antigo dos bons? Hein?
Ele abriu os dedos, massageando a carne por cima do tecido preto fino. Ela se contorceu toda contra ele. Riu. Ah, você sabe, ela disse. As pálpebras serão encerradas no que talvez fosse para transmitir um ar de modéstia. Ela gosta de balada. Bruce e eu fazemos o circuito das baladas. Lá dentro a coisa fica muito chata para ela. O vale dela às vezes deixa ela sair, desde que ela leve Rideo junto para tomar conta.
versão do urinobu arasaka onde fica chato eles chamam de Straylight ela me contou ah é bonito todo cheio de laguinhos e lilases é um castelo um castelo de verdade todo de pedras e poentes ela assinou mais perto dele o polo cara você precisa de um derma para gente ficar junto
Ela usava uma minúscula bolsa de couro pendurada no pescoço por um fio finíssimo. Suas unhas brilhavam cor de rosa contra o seu bronzeado bombado, mordido até o sabugo. Ela abriu a bolsinha e retirou uma bolha embrulhada em papel com um derma azul dentro. Alguma coisa branca caiu no chão. Keise se abaixou e apanhou um objeto. Um grow de origami.
Foi Rideo quem me deu, ela disse. Ele tentou me mostrar como fazer, mas nunca consigo fazer direito. Os pescoços acabam virando para trás. Ela enfiou o papel dobrado de volta na bolsinha. Casey ficou olhando ela rasgar a bolha, tirar o papel autocolante do derma e colá-lo suavemente na parte interna de seu pulso. Ter Jane tem um rosto pontudo, nariz igual ao bico de um pássaro?
Ele viu as mãos dela tentarem formar um contorno. Cabelos pretos? Jovem? Acho que sim. Mas ela é traif, saca. Tipo, com todo aquele dinheiro. A droga o atingiu como um trem expresso, uma coluna branca incandescente subindo por sua espinha na região de sua próstata, iluminando as suturas de seu crânio com raios-x de energia sexual curto-circuitada.
Seus dentes cantavam cada um em sua raiz com diapasões, cada qual perfeito em seu tom e com a transferência do oetanol. Seus ossos, por baixo do envelope fumaçado de carne, eram cromados e polidos. As juntas lubrificadas com uma película de silicone.
Tempestades de areia castigavam o piso lixado de seu crânio, gerando ondas de estática alta e fina que quebravam atrás de seus olhos. Esferas do mais puro cristal expandindo-se. Vem, ela disse, pegando-o pela mão. Agora você está legal. Nós estamos legal. Vamos subir o borro. Lá em cima a gente vai poder ficar no barato a noite toda.
O ódio estava se expandindo, impiedoso, exponencial, cavalgando atrás do surto de beta-afinitilamina, como uma onda portadora, um fluido sísmico, rico e corrosivo. Sua ereção era uma barra de chumbo. Os rostos ao redor deles não emergem se eram coisas de bonecas pintadas, o rosa e o branco de boca se movendo, palavras emergindo como balões de som discretos.
Ele olhou para a Cat e viu cada poro na pele bronzeada, olhos mortos como vidro embaçado, um tom de metal torto, um leve inchaço. As mais minúsculas assimetrias de peito e pescoço, o... Alguma coisa disparou um branco atrás de seus olhos. Ele largou a mão dela e saiu cambaleando para a porta, empurrando todo mundo. Vai se fuder, ela gritou atrás dele. Seu brocha de merda.
Ele não sentia as pernas. Usou como pernas de pau, balançando o louco pelo calçamento de paralepípedos da Jules Verne. Um rugido distante nos ouvidos, seu próprio sangue. Folhas afiadas de luz seccionando seu crânio ao meio em uma dezena de ângulos. E então ficou congelado, ereto. Os punhos fechados contra as coxas, cabeça para trás, os lábios repuxados. Tremendo.
Enquanto ele ficava vendo o zodíaco dos perdedores de Freeside, as constelações de cada noturna no céu nolográfico se deslocar, deslizar o fluido pelo eixo da escuridão, para enxamear como coisas vivas no centro morto da realidade.
até que elas tivessem se arrumado individualmente e em suas centenas para formar um retrato vasto e simples, o monocromo definitivo Estrelas contra o Céu Noturno. O rosto da senhora linda ali. Quando conseguiu desviar os olhos e abaixar a cabeça, descobriu que todos os outros rostos da rua estavam olhando para o alto.
Os turistas que passeavam estavam calmos e maravilhados. E quando as luzes do céu se apagaram, o rugido de uma multidão animada subiu entrecortado pela Júlia Svern para ecoar pelos terraços e varandas de concreto lunar. Em algum lugar um carrilhão começou a soar. Algum sino antigo saído da Europa. Meia-noite. Ele caminhou até o amanhecer.
O barato foi passando. O esqueleto cromado foi se corroendo hora a hora. A carne voltou a ficar sólida. A carne de droga substituída com a carne da sua vida. Ele não conseguia pensar. Ele gostava muito disso, de estar consciente e incapaz de pensar. Ele parecia se tornar cada coisa que via.
um banco de parque, uma nuvem de mariposas brancas ao redor de um olimpião antigo, um jardineiro robô com faixas pretas e amarelas diagonais. Uma aurora pregavada foi subindo ao longo do sistema lá do Ashison, rosa e lúgubre. Ele se forçou a comer um omelete num café da desiderata, tomar água, fumar o último de seus cigarros. A campina do telhado do intercontinental se moveu quando a atravessou.
um bando de madrugadores concentradíssimos no café e nos croissants embaixo dos guarda-sóis listrados. Ele ainda tinha seu ódio. Isso era como ser assaltado em algum beco e acordar descobrindo que sua carteira ainda estava no bolso, intocada. Ele se aqueceu com ódio, incapaz de lhe dar um nome ou um objeto. Pegou o elevador e desceu até seu nível, procurando nos bolsos o chip de crédito de Freeside que lhe servia de chave.
O sono estava ficando real. Era uma coisa que ele podia fazer. Deitar-se na espuma cor de aria e voltar a encontrar o branco. Eles estavam esperando lá dentro, os três. Suas roupas esportivas, brancas, perfeitas. E os bronzeados a extensão marcando o chip orgânico da mobília tecido à mão. A garota estava sentada numa cadeira de vime.
Uma pistola automática ao seu lado sobre a padronagem de folhas do almofadão. Turing, ela disse. Você está preso. Parte 4. Missão Straylight. 13. Seu nome é Henry Dorset Case.
Ela recitou o ano e o local de seu nascimento, seu número único de identificação do BAMA e uma fileira de nomes que ele foi aos poucos reconhecendo como identidades falsas usadas no passado. Vocês estão aqui há muito tempo? Ele viu o conteúdo de sua sacola toda espalhada em cima da cama, roupa suja separada por tipo. O shuriken estava separado entre jeans e cuecas em cima da espuma sintética cor de areia.
Onde está a Colodine? Os dois homens estavam sentados lado a lado no sofá, os braços cruzados sobre peitos bronzeados, correntes de ouros idênticas penduradas nos pescoços. Case olhou para eles e viu que a juventude ali era falsificada, marcada por um certo toque de pele enrugada nos nós dos dedos das mãos, algo que os cirurgiões foram incapazes de apagar. Quem é a Colodine? Era o nome no registro.
Onde está ela? Sei lá, ele disse, indo até o bar e se servindo de um copo de água mineral. Ela se mandou. Onde você esteve esta noite, Casey? A garota pegou a pistola e a colocou em cima da coxa, sem chegar a apontá-la para ele. Július Vernes, uns dois bares, enche a cara. E você? Ele sentiu os joelhos frágeis como vidro, quebradiços.
A água mineral estava quente e sem gás. Eu acho que você não entendeu bem sua situação, disse o homem da esquerda, tirando um maço de gitanes do bolso e de sua blusa de malha branca. O senhor está sendo preso em fragante, senhor Casey. As acusações têm a ver com conspiração para ampliar uma inteligência artificial. Tirou um dano e o ouro do mesmo bolso e o acomodou na palma da mão.
O homem que o senhor chama de Armitage já está em custódia. Cortou? Os olhos do homem se arregalaram. Sim. Como o senhor sabia que o nome dele é esse? Um milímetro de chama brotou do isqueiro. Esqueci, disse Casey. Você vai lembrar, disse a garota.
Os nomes deles, ou nomes de trabalho, eram Michele, Roland e Pierre. Pierre, deduziu Casey, ia fazer o papel do tiramau. Roland ficaria do lado de Casey, faria pequenas gentilezas. Achou o março fechado de Yerouans quando Casey recusou Unguitani. E, de modo geral, faria o contraponto à hostilidade fria de Pierre.
Michele seria o anjo registrador, fazendo ajustes ocasionais na direção do interrogatório. Um deles, ou todos, ele tinha certeza, estaria grampeado para áudio, muito provavelmente para Sistim, e tudo o que ele dissesse e fizesse agora seria considerado como prova válida em tribunal. Prova? Perguntou a si mesmo, ainda sentindo o efeito devastador de ressaca. De quê?
Sabendo que não conseguiria acompanhar o francês deles, falavam à vontade entre si. Ou assim pareciam. Ele conseguiu entender razoavelmente nomes como Pauli, Armitage, Sense, Net, Panteras, Modernos. Saltavam a superfície como icebergs de um mar animado de francês parisiense. Ele sempre se referiu a mole como Colodine.
Você disse que foi contratado para executar uma incursão, Casey, disse Holland. Sua fala lenta planejada para transmitir um ar razoável. E que não estava ciente da natureza do alvo. Isso não costuma ser incomum no seu ofício? Depois de penetrar as defesas, você não seria capaz de executar a operação necessária, nesse caso? E certamente uma operação de alguma espécie é necessária, sim?
Ele se inclinou para a frente, cotovelos fincados nos joelhos bronzeados artificialmente, palmas para cima para receber a explicação de Casey. Michelle era grampo, deduziu Casey. Os olhos dela nunca o deixavam. Posso vestir uma roupa? Perguntou. P.A. insistiu em tirar a roupa dele e estava revistando os vincos de seus jeans. Agora estava sentado nu em uma banqueta de vime, com um pé obscenamente branco.
Roland perguntou alguma coisa a Pierre em francês. Pierre, novamente na janela, estava olhando por um par minúsculo e fino de binóculos. Não, ele disse distraído. E Roland deu de ombros, levantando as sobrancelhas para Casey. Casey percebeu que era uma boa hora para sorrir. Roland retribuiu o sorriso. É o golpezinho de merda mais antigo dos tiras, pensou Casey. Escuta, ele disse.
Eu não estou passando bem. Tomei uma droga vagabunda num bar, entende? Quero deitar. Vocês já me pegaram? Estão dizendo que pegaram o Armitage? Pegaram ele? Pergunte para ele. Eu sou só um assistente contratado. Roland concordou com a cena de cabeça. E Colodny? Ela estava com o Armitage quando ele me contratou. É só para dar porrada. É uma Razor Girl. Até onde eu sei. E o que eu sei não é grande coisa.
Você sabe que o nome verdadeiro de Armitage é corto, disse Pierre. Os olhos ainda ocultos pelas bordas de plástico macio de binóculos. Como é que você sabe disso, meu amigo? Acho que ele mencionou isso um dia, disse Cage, lamentando o ato falho. Todo mundo tem pelo menos dois nomes. O senhor é Pierre? Nós sabemos que você foi consertado em Chiba, disse Michelle. E esse pode ter sido o primeiro erro de Wintermute.
Case olhou para ela com a cara mais de outra do mundo. Aquele nome não havia sido mencionado antes ali. O processo empregado em você resultou em um pedido de sete patentes básicas pelo dono da clínica. Você sabe o que isso quer dizer? Não. Isso quer dizer que o dono de uma clínica negra em Chiba, Ciri, hoje possui o controlecionário de três grandes consórcios de pesquisa médica.
Isso inverte a ordem normal dos fatores, sabia? Isso atrai a atenção. Ela cruzou os braços morenos contra os peitinhos altos e recostou no almofadão estampado. Casey ficou imaginando quantos anos ela teria. Diziam que os olhos sempre revelavam a idade de uma pessoa. Mas ele nunca foi capaz de perceber isso. Július de Anne tinha os olhos de um garoto desinteressado de 10 anos de idade por trás do quarto sorroso de seus óculos.
É Michele, nada de velha a não ser os nós dos dedos. Rastreamos vocês até o Sproul. Perdemos novamente e depois tornamos a encontrá-los quando estavam partindo para Istambul. Nós rastreamos vocês retroativamente. Rastreamos vocês pela grade, determinando-nos que vocês foram os instigadores do tumulto da Sensinete. A Sensinete estava louca para colaborar. Rodaram o inventário para nós.
Descobriram que o construto de personalidade de ROM de McCoy Pauli estava faltando. Em Istambul, disse Roland, quase como que pedindo desculpas, foi muito fácil. A mulher havia alienado o contato de armidade com a polícia secreta. E então vocês vieram para cá, disse Pierre, enfiando os binóculos no bolso dos shorts. Ficamos muito felizes. Porque era uma chance de melhorar o bronzeado?
Você entendeu o que queremos dizer, disse Michele. Se quiser fingir que não, estará apenas tornando as coisas mais difíceis para si mesmo. Ainda falta a questão da extradição. Você vai voltar conosco, Case, e a Arbitrage também. Mas para onde exatamente vamos voltar?
Para a Suíça, onde você será veramente um peão no julgamento de uma inteligência artificial? Ou para a LBAMA, onde podemos provar que você participou não só de invasão de dados e furtos, mas também de um ato de distúrbio público que custou 14 vidas inocentes? A escolha é sua. Que existirão Yeruan de seu maço? Pierre o acendeu com o Dan Hill. Será que a Hermitage protegeria você?
A pergunta foi pontuada pelo barulho do maxilar brilhante do isqueiro se fechando. Queijo olhou para ele através da dor e do amargo da beta-fenitilamina. Quantos anos você tem, chefia? O bastante para saber que você está fodido, mal pago. Que pra você acabou e que vai ser preso agora.
Uma coisa, disse Casey e deu uma tragada no cigarro. Soprou a fumar se chama do agente do registro de Turing. Vocês têm alguma jurisdição de verdade aqui? Quero dizer, vocês não deveriam estar com o pessoal da segurança de Freeside aqui? O território é deles, não é? Ele viu os óculos escuros endurecerem no rosto esbelto da garota e se tensionou para levar a porrada. Mas Pierre apenas deu de ombros.
Não faz diferença, disse Roland. Você vem conosco. Situações de ambiguidade jurídica são nossa especialidade. Os tratados sobre os quais nosso braço do registro opera nos garante muita flexibilidade. E nós criamos a flexibilidade em situações onde ela é necessária. A máscara de camaradagem havia caído e, subitamente, os olhos de Roland ficaram tão duros quanto os de Pierre.
Você é pior que uma besta, disse Michele, levantando-se a pistola na mão. Você se importa com sua própria espécie. Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer? Havia um cansaço experiente naquela voz jovem que nenhuma garota de 19 anos poderia ter imitado.
Você vai se vestir agora. Junto com o homem que você chama de Hermitage, vocês retornarão conosco para Genebra e testemunharão no julgamento dessa inteligência. Caso contrário, vamos matar você. Agora. Ela levantou a pistola. Uma Walter preta lisa com um silenciador integral. Já estão me vestindo, ele disse, tambaleando na direção da cama. Suas pernas ainda estavam dormentes, desajeitadas.
Ele lutou para vestir uma camiseta limpa. Estamos com uma nave esperando. Vamos apagar o construto de Pauli com uma arma de pulso. A Cincinnati vai ficar puta, disse Casey, pensando, junto com todas as provas no Osaka. Eles já estão bem encrencados por terem tido a posse de uma coisa dessas. Casey enfiou a cabeça na camiseta.
Viu o shuriken na cama, o metal sem vida, sua estrela. Procurou o ódio. Não estava mais lá. Estava na hora de ir embora, de deixar a coisa rolar. Pensou nos saquinhos de toxina. Lá vem a carne, ele resmungou. No elevador que levava para a campina, pensou em Molly. Ela já deveria estar em estrelight, caçando riviera.
e provavelmente sendo caçada por Rideu, que era quase certamente o clone ninja da história do finlandês, aquele que apareceu para recuperar a cabeça falante. Descansou a testa no plástico preto fosco de um painel de parede e fechou os olhos. Os braços e as pernas pareciam feitos de madeira, madeira velha, cheia de farpas e pesada, como se estivesse encharcada de chuva. O almoço estava sendo servido embaixo das árvores sob guardações brilhantes.
Roland e Michel entraram em seus personagens, começando a conversar sem parar em francês. Pierre vinha atrás. Michel mantinha o cano da pistola perto de suas costelas, ocultando a arma como a jaqueta branca que levava no braço. Atravessando a campina, costurando por entre mesas e as árvores, ele ficou pensando se ela o mataria se desmaiasse agora. O campo periférico de sua visão fervilhava com borrões pretos.
Levantou a cabeça e viu a faixa branca incandescente da estrutura lá do Aschison e uma borboleta gigante flutuando graciosa contra o céu pregavarado. Nas margens da campina, chegaram uma balaustrada que os protegia da encosta, flores silvestres dançando na corrente ascendente do desfiladeiro que era desiderata. Michelle jogou os cabelos curtos para o lado e apontou, dizendo alguma coisa em francês para Roland. Ela parecia realmente contente.
Casey seguiu a direção do gesto dela e viu a curva de lagos planos, o reluzir branco dos cassinos, retângulos turquesa de mil piscinas, o corpos de banhistas, minúsculos hieróglifos bronzeados, todos parados na serena aproximação da gravidade contra a curva infinita do casco de Freestyle. Eles seguiram até uma ponte de ferro ornamentada que fazia um arco sobre a desiderata.
Michel o empurrou com o cano da Walter. Mas com calma, não estou nem conseguindo andar direito hoje. Já tinham atravessado pouco mais de um quarto do caminho da ponte, quando o microleve atacou. O motor elétrico silenciou até a hélice de fibra de carbono cortar fora o topo do crânio de Pierre. Por um instante, eles ficaram na sombra do objeto. Que ele sentiu o borrifo de sangue quente na nuca e, em seguida, alguém caiu cambaleando em cima dele.
Ele rolou para o lado e viu Michele ditada de costas, os joelhos para o alto, apontando a Walter com as duas mãos. Que desperdício de esforço, pensou com estranha lucidez do estado de choque. Ela estava tentando derrubar o micro leve. E em seguida, ele já estava correndo. Olhou para trás ao passar pela primeira árvore. Roland estava correndo atrás dele.
Ele viu o biplano frágil bater no corrimão de ferro da ponte, ficar todo amassado, cair por cima da ponte, colher a garota em cheio e levá-la consigo lá para baixo, para a desiderata. Roland não havia olhado para trás. Seu rosto estava fixo, branco, os dentes arreganhados. Ele estava com alguma coisa na mão. O robô de jardinagem pegou Roland quando ele passou pela mesma árvore.
Caiu bem do alto dos galhos podados, uma coisa parecida com um caranguejo com listras diagonais pretas e amarelas. Você matou eles, Casey disse sem fôlego, correndo. Seu maluco, filho da puta, você matou todos eles. 14. O trenzinho disparava por seu túnel a 80 km por hora. Casey manteve os olhos fechados.
O banho havia ajudado, mas ele botou o café da manhã para fora, o olhar para baixo e ver o sangue de Pierre descer cor de rosa pelos azulejos brancos. A gravidade caía à medida que o fúzia ficando mais estreito. O estômago de Casey dava voltas. A herói estava esperando com sua scooter ao lado da loca. Case, bom, big problem. A voz suave leve nos seus fones de ouvido.
Ele aumentou o controle de volume e olhou dentro da placa facial de Lexan do capacete da Aerole. A gente tem que ir para o Garvey, Aerole. Yo, se amarra aí, irmão. Mas o Garvey está cativo. O iate veio antes, voltou. Agora está travado firme no Marcos Garvey. Turing? Vieram antes? Casey subiu no quadro da scooter e começou a amarrar os cintos.
Iade japonês, te trouxe um pacote. Armitage. Imagens confusas de vespas e aranhas surgiram na mente de Casey quando eles avistaram o Marcos Garvey.
O pequeno revocador estava encaixadinho contra o tórax cinzento de uma nave esguia em setóide cinco vezes maior. Os braços com ganchos se destacavam contra o casco do garve com a estranha claridade do vácuo e da luz do sol crua. Um corredor corrugado pálido se destacava para fora do iate fazendo uma curva. Serpenteava para o lado para evitar os motores do revocador e cobria a escotilha de popa.
Havia algo de obsceno nessa disposição, mas tinha mais a ver com ideias de alimentação do que de sexo. O que é que está rolando com o Maio-kun? Maio-kun está legal. Ninguém desce pelo tubo. Piloto do iate fala com ele. Diz, relaxa. Quando passaram pela nave cinza, Casey viu o nome Hanewa em letras brancas maiúsculas, novas em folhas sob um aglomerado oblongo de caracteres japoneses.
Não tô gostando disso, cara. Eu estava achando que talvez já estivesse na hora de a gente puxar o carro daqui. Maocon tá pensando exatamente a mesma coisa, irmão. Mas assim desse jeito, o Garvin não vai longe, não. Maocon estava murmurando um patoá acelerado no seu rádio quando Casey apareceu pela escotilha dianteira e retirou o capacete. A herói voltou pro Rocker, disse Casey.
Maio Kun concordou com a cabeça, ainda murmurando a microfone. Casey tomou um impulso, passando por cima do emaranhado flutuante de dreadlocks do piloto e começou a retirar seu traje. Os olhos de Maio Kun estavam fechados agora. Ele balançava a cabeça para frente e para trás, ouvindo alguma resposta num par de fones de ouvido com espumas laranjas brilhantes, até esta vincada de concentração.
Ele vestia jeans esfarrapados e uma jaqueta velha de nylon verde com as mangas arrancadas. Kaze enfiou o traje sânio vermelho numa rede de armazenagem e tomou o impulso até chegar à rede G. Olha o que o fantasma diz. Bom, disse Malcom. O computador não para de perguntar onde é que tu tá. Então quem está lá em cima naquele negócio?
Um japa boy que veio antes. E agora, seu mister Armitage se juntou a ele, vindo lá de Freeside. Casey colocou os trodos e se conectou. Dixie. A matriz lhe mostrou as esferas cor-de-rosa do combinado de aço em sequim. O que é que tu tá armando, rapaz? Tô ouvindo umas histórias de arrepiar.
Agora o Ozaki está colado no banco de dados gêmeos na nave do teu chefe. O negócio está fervendo. O tira de Turing caíram em cima? Foi, mas o Intermult matou todos. Bom, isso não vai segurar eles por muito tempo. De onde eles saíram tem muito mais. Vão subir para cá em bloco. Aposto que os decks deles estão caindo, matando-os neste setor da grade que nem moscas na merda. E o seu chefe, que está dando sinal verde.
Está dizendo para executar a incursão e executar agora. Case digitou as coordenadas de Freeside. Deixa eu pegar isso um segundinho, Case. A matriz ficou borrada e saiu de fase, enquanto o Flatline executava uma intricada série de saltos com uma velocidade de precisão que fazia um Case estremecer de inveja. Porra, Dix. Ô, garoto, eu era bom pra cacete quando era vivo.
Você ainda não viu nada. Sem as mãos, olha. Então é isso? Aquele retângulo verde grande à esquerda? Isso mesmo. Dado de núcleo corporativo da TSER Ashpul S.A. E esse ICE é gerado por suas duas IAs amigáveis. E me parece que estão pau a pau com qualquer coisa no setor militar.
É um ICF odástico, Casey. Preto como um túmulo e liso feito vidro. Frita seu cérebro só de olhar pra você. Se a gente chegar um pouco mais perto agora, ele vai colocar rastreadores pelo nosso cu até sair pelas orelhas. Vai contar aos caras do tamanho do quadro de avisos do TA. O tamanho do teu sapato e quanto mede seu pau. Isso não tá tão ruim assim, tá?
Quero dizer, os Turing estão nessa. Eu estava pensando que talvez a gente pudesse tentar dar o fora. Eu posso te levar. É mesmo? Tá de sacanagem. Não quer ver o que aquele programa chinês pode fazer? Bom, eu... Kezi ficou olhando as paredes verdes do ICE da TA. Ah, que se foda. Tá, vamos entrar. Enfia no slot.
Oh, Maocum, disse Casey se desconectando, eu provavelmente vou ficar no Troutes por umas oito horas direto. Maocum estava fumando novamente, a cabine mergulhada em fumaça. Então, não vou poder ir, Alvo. Sem problema, Alvo.
O Zionitten executou uma cambalhota para o alto e para a frente e foi mexer no conteúdo de uma sacola de malha com zíper, puxando do lado de dentro um fio enrolado de tubo transparente e outra coisa junto. Uma coisa selada em plástico, bolha esterilizada. Ele chamou aquilo de catéter texano e Casey não gostou nem um pouco. Enfiou o vírus chinês no slot, fez uma pausa e enfiou tudo até o final.
Ok, ele disse. Estamos dentro. Escuta, Mayokun. Se a coisa ficar esquisita, pode agarrar meu pulso esquerdo. Eu vou sentir. Se não, acho que você deve fazer o que o Osaka te disser para fazer, tudo bem? Claro, irmão. Mayokun acendeu uma bagana novinha. E ligue o filtro de reciclagem de ar. Não quero essa merda mexendo com meus neurotransmissores. Já estou com uma ressaca legal e não quero ficar pior.
Maokun deu um sorriso irônico. Casey voltou a se conectar. Caceta, disse Flatline. Dá só uma olhada nisto aqui. O vírus chinês estava se desdobrando na frente deles. Uma sombra de policromo encontravam escamadas translúcidas se deslocando e recombinando. Mutante, gigante. Ela se erguia à frente deles, bloqueando o vácuo. Mamãe do céu, disse Flatline.
Vou checar a mole, disse Casey, ativando a chave do cistim. Queda livre. A sensação era igual a de mergulhar numa água perfeitamente transparente. Ela estava caindo, subindo por um tubo largo de concreto lunar estreito, iluminado a intervalos de dois metros por anéis de neon branco. O Link era de mão única. Ele não podia falar com ela. Flipou.
Cara, esse software é muito filho da puta. A coisa mais sensacional desde que inventaram o pão de forma fatiado. Esse negócio é invisível, porra. Acabei de alugar 20 segundos naquela caixinha rosa, faltando 4 saltos para chegar no ICE da Tessera Shpul. Dê uma olhada em como é que eles veem a gente. Não veem? A gente não está lá.
Casey vasculhou a matriz ao redor da ICA da Tessera Shpul até encontrar a estrutura cor-de-rosa, uma unidade comercial padrão, e digitou as linhas de código para chegar mais perto. Pode estar com defeito. Talvez, mas duvido. Mas o nosso bebê é militar e novinho. Ele simplesmente não registra. Se registrasse, nós seríamos lidos como uma espécie de ataque furtivo chinês.
Mas ninguém mexeu com a gente até agora. Acho que nem sequer o pessoal da Straylight. Casey ficou olhando a parede em branco que bloqueava Straylight. Bom, ele disse, isso é uma vantagem, não é? Talvez. O Constructo se aproximou de uma gargalhada. Casey estremeceu com a sensação. Dê uma checada no Kuang 11, velho de guerra, mais uma vez para você, garoto.
Até que ele é amigável mesmo, desde que você esteja do lado de quem puxa o gatilho. Ele é educadinho e dá a maior ajuda. E também fala inglês direitinho. Você já tinha ouvido falar em vírus dentos? Não. Eu já, uma vez. Naquela época era só uma ideia. Mas isso é o que o velho Kuang é. Não é só perfurar e injetar.
É mais parecido com o que a gente faz quando interfaceia um ICE. Só que é tão lento que o ICE nem sente. A face lógica dos Kuang meio que vai se arrastando devagar até o alvo. E sofre uma mutação para ficar exatamente igual ao material do ICE. Então a gente trava nele e os programas principais cortam. Começo a falar em círculos ao redor da lógica do ICE.
A gente dá uma de gêmeos chameses para cima deles antes mesmo que eles comecem a ficar bolados. O Flatline riu. Você podia estar menos animadinho hoje, cara. Essa tua risada me dá arrepios na espinha. Que pena, disse Flatline. Um morto também precisa dar suas risadas. Casey deu um tapa na chave do cichinho. E se esse tabacou em cima de um emaranhado de metal e cheiro de pó.
As palmas das mãos escorregavam em cima de papel cocher. Alguma coisa atrás dele desabou com um estrondo. Qual é? Disse o finlandês. Relaxa um pouco. Kéer estava caído, esparramado em cima de uma pilha de revistas amareladas. As garotas brilhando para ele na luz fraca do metrô holográfico. Uma galáxia sedutora de dentes brancos doces.
Ele ficou deitado ali até o coração bater mais devagar, respirando o cheiro de revistas velhas. O intermute, ele disse. Isso, disse o finlandês em algum lugar atrás dele. Você descobriu? Vá se foder, disse Cage esfregando os pulsos. Qual é? disse o finlandês, saindo de uma espécie de alcova na parede de ferro velho. Desse jeito é melhor pra você, cara.
Ele tirou seu par tagas de um bolso de paletóia sem ter um cigarro. O cheiro de tabaco cubano invadiu a oficina. Quer que eu apareça para você na Matrix como uma sarça ardente? Você não está perdendo nada, não, está lá. Uma hora aqui só vai durar uns 2 segundos para você. Você acha que me deixa nervoso você aparecer igual a pessoas que eu conheço?
Ele se levantou, espanhando a poeira branca da frente do seu dinhos preto. Ele se virou, olhando de volta para as vitrines e empoiradas das lojas. A porta da rua fechada. O que há lá fora? Nova York? Ou a coisa simplesmente para? Bom, disse o finlandês. É como aquela história da árvore, sabe? Cai na floresta, mas talvez não haja ninguém para ouvi-la.
Ele mostrou para que seus dentões amarelos soltou uma baforada desse carro. Você pode sair para dar uma volta se quiser. Está tudo lá. Ou pelo menos todas as partes que você já viu. Isso é memória, certo? Eu acesso você, digamos assim, e te dou um feedback. Eu não tenho memória tão boa assim, disse Casey olhando em volta.
Ele olhou para baixo, para suas mãos virando-as. Tentou se lembrar de como eram as linhas das palmas de suas mãos, mas não conseguiu. Todo mundo tem, disse o finlandês, deixando o cigarro cair e esmagando com o sapato. Mas poucos de vocês conseguem acessá-la. Artistas, de modo geral, conseguem, se forem bons de verdade.
Se pudesse sobrepor este construto como uma camada sobre a realidade, o cafofo do finlandês na Baixa Manhattan, você veria uma diferença, mas talvez não tão grande quanto imagina. A memória holográfica para vocês. O finlandês deu um puxão numa de suas orelhas pequenas. Eu sou diferente. Como assim holográfica? A palavra o fez pensar em Riviera.
O paradigma holográfico é a coisa mais próxima que já se conseguiu formar de uma representação da memória humana. Só isso. Mas vocês nunca fizeram nada parecido com isto. Pessoas, eu quero dizer. O finlandês deu um passo à frente e inclinou seu crânio estilizado para olhar melhor para Casey. Talvez, se vocês tivessem feito isso, eu não estaria acontecendo. O que é que isso quer dizer? O finlandês deu de ombros.
Seu paletão esfrapado de tweed era muito largo para os ombros e não lhe caía muito bem. Estou tentando ajudar você, Casey. Por quê? Porque preciso de você. Os dentões amarelados voltaram a aparecer. E por que você precisa de mim? Mentira. Você consegue ler a minha mente finlandesa? Ele deu um risinho irônico, ou melhor dizendo, o intermute.
Mentes não se leem. Sabe, você ainda tem os paradigmas que a mídia impressa lhe deu. E olha que isso é praticamente analfabeto. Eu posso acessar sua memória, mas não é a mesma coisa que sua mente. Olha o Snape aí. E ele acendeu a mão para tocar o chassi de uma televisão antiga e tirou de dentro um tubo de imagem preto e prata. Está vendo isso aqui? É parte de meu DNA, de certa forma.
Jogou a coisa nas sombras e queijo e viu o tubo estalar e quebrar. Vocês estão sempre construindo modelos. Círculos de pedra, catedrais, órgãos de tubos, máquinas de somar. Eu não tenho ideia do porquê estou aqui agora. Você sabia disso? Mas se a incursão for executada esta noite, você finalmente terá conseguido a coisa de verdade. Não faço ideia do que você está falando.
Quando eu digo você, quero dizer vocês, o coletivo, sua espécie. Você matou aqueles Turing. O finlandês é de ombros. Precisei, precisei. Você devia agradecer. Eles teriam apagado você sem pensar duas vezes. De qualquer maneira, por que eu trouxe você até aqui? Precisamos conversar mais.
Lembra disto? E sua mão direita segurava o ninho de vespas esturricado do sonho de Casey. O fedor de combustível no espaço apertado da oficina escura. Casey cambalhou para trás e bateu numa parede de ferro velho. É, era eu. Fiz aquilo com a gambiarra holográfica da janela. Outra memória que coletei de você quando te dei um flatline da primeira vez. Sabe por que isso é importante? Casey balançou a cabeça negativa.
Por que? E o ninho, de algum modo, havia desaparecido. É a coisa mais próxima que você tem do que a Tessier Ashpoo gostaria de ser. O equivalente humano. A estrelidade é parecida com esse ninho, ou pelo menos devia funcionar daquele jeito. Acho que isso vai fazer você se sentir melhor. Me sentir melhor? Saber como eles são. Você estava começando a me odiar por um momento ali.
Isso é bom. Mas odeio eles em vez de mim. A diferença é a mesma. Escute, disse Casey, dando um passo adiante. Eles nunca me fizeram merda nenhuma. Como você é diferente? Mas ele não conseguia sentir o ódio. Então a TA me criou. A garota francesa disse que você estava vendendo a espécie.
Ela disse que eu era um demônio. O finlandês sorriu. Não faz muita diferença. Você precisa odiar alguém antes que isso acabe. Ele se virou e se dirigiu para os fundos da oficina. Bom, vamos lá. Vou te mostrar um pouco da Stray Light já que está aqui. Levantou o canto do cobertor. Uma luz branca passou pela abertura. Que merda, cara. Não fique parado aí.
Casey o seguiu, esfregando o rosto. Ok, disse o finlandês, pegando pelo braço. Eles passaram pela lama molhada em uma nuvem de pó, entrando em queda livre em um corredor cilíndrico de concreto lunar estreito, iluminado a intervalos de dois metros por anéis de neão branco. Jesus, disse Casey caindo. Esta é a entrada da frente, disse o finlandês, as lapelas do paletó voando ao vento.
Se isto aqui não fosse um construto meu, o local da oficina seria o portão principal, subindo o eixo de Freeside. Mas os detalhes não estão muito bem definidos, porque você não tem as memórias. A não ser por esteja aqui, onde você saiu da mole. Que eles conseguissem direitar, mas começou a descer uma longa espiral, um movimento de sacarrolhas. Espera um pouco, disse o finlandês. Vou dar um fast forward.
As paredes ficaram borradas, uma sensação estonteante de movimento de cabeça para baixo, cores, dobrando esquinas muito rápido e passando por corredores estreitos. Em um ponto determinado, ele sentiu como se estivesse passando por vários metros de parede sólida, um flash de escuridão profunda. Pronto, disse o finlandês. Chegamos.
Eles estavam flutuando no centro de um aposento perfeitamente quadrado, as paredes e o teto revestidos por seções retangulares de madeira escura. O peso era recoberto por um único quadrado de carpete brilhante com padrões que lembravam um microchip, circuitos traçados em lã azul e escarlate. No centro exato do quarto, alinhados precisamente com o padrão do carpete, estava um pedestal quadrado de vidro branco translúcido.
A Vila Straylight, disse uma coisa cheia de joias sobre o pedestal numa voz musical, é um corpo que cresceu sobre si mesmo, uma loucura gótica. Cada espaço na Vila Straylight é, de algum modo secreto, essa série infinita de câmaras ligadas por passagem, por escadarias abauladas como intestinos, onde o olho é capturado em curvas estreitas, aprisionado por telas ornamentadas, alcovas vazias.
É um ensaio de Tergen, disse o finlandês, tirando um par tagas do bolso. Escreveu aos 12 anos, curso de semiótica. Os arquitetos de Freestide tiveram um excruciante trabalho para ocultar o fato que o interior do fuso é disposto com a precisão banal da mobília num quarto de hotel.
Na Straylight, a superfície interna do casco é uma proliferação desesperada de estruturas supercrescidas. Formas fluidas entrecuzando-se. Erguendo-se na direção de um núcleo sólido de microcircuitos. O coração corporativo de nosso clã. Um cilindro de silício todo perfurado por estreitos túneis de manutenção, como buracos de minhoca. Alguns menores que a mão de um homem.
Os caranguejos brilhantes se enterram neles. Os rolopôs em alerta para decomposição micromecânica ou sabotagem. Foi ela que você viu no restaurante, disse o finlandês. Pelos padrões do arquipélago, continuou a cabeça. Nossa família é antiga e as convoluções de nosso lar refletem essa idade. Mas refletem mais alguma coisa também.
A semiótica da vila trai um voltar para dentro, uma negação do vácuo brilhante além do casco. Tessiar e Ashpoo subiram o poço gravitacional para descobrir que detestavam o espaço. Construíram Freeside para sugar a riqueza das novas ilhas. Ficaram ricos e excêntricos e começaram a construção de um corpo estendido em Straylight.
Nós nos isolamos por trás de nosso dinheiro, crescendo para dentro, gerando um universo impecável do self. A Vila Estrelete não conhece o céu, pré-gravado ou não. No núcleo de cirício da vila há um pequeno aposento, a única câmera retilínea do complexo. Ali, sobre um pedestal simples de vidro, repousa um busto ornamentado de platina e cloazonado.
cravejado de lazurita e pérolas. As bolinhas de guia brilhante em seus olhos foram cortadas da janela panorâmica de rubi da nave que trouxe o primeiro TSEAR posto acima e voltou para apanhar o primeiro ashpoo. A cabeça se calou. — E aí? — perguntou Casey finalmente. Quase esperando que a coisa lhe respondesse. — Isso foi tudo o que ela escreveu — disse o finlandês.
Não terminou. Era só uma menina na época. Esta coisa é meio que um terminal de esterimonial. Preciso de mole aqui dentro, com a palavra certa na hora certa. Esta é a questão. Não quer dizer merda em nenhum nível de profundidade que você e o Fratiline chegarem com esse vírus chinês se esse negócio não ouvir a palavra mágica. E qual é a palavra?
Não sei. Pode-se dizer que o que eu sou é basicamente definido pelo fato de que não sei, porque não posso saber. Eu sou aquele que não pode saber a palavra. Se você soubesse, cara, e me contasse, eu não conseguiria entender. Isso está implantado dentro de mim. Alguém precisa aprender essa palavra e trazê-la para cá no momento em que você e o Flatline penetrarem naquele ICE e embaralharem os núcleos.
E o que é que vai acontecer então? Depois disso eu não existo. Eu deixo de existir. Por mim tudo bem, disse Casey. Claro. Mas vê se te cuida, Casey. Meu... ahn... Outro lobo está acima de nós, ao que parece. Uma sarça ardente é igual a qualquer outra. E a Armitage está começando a ir. Como assim?
Mas o quarto revestido se dobrou para dentro de si por uma dezena de ângulos impossíveis, caindo para dentro do ciberespaço como um grow de origami. 15. Está tentando bater meu recorde, filho? Perguntou o Flatline. Você voltou a ficar com morte cerebral cinco segundos. Se segura, disse Casey, e acionou a chave do sinsteam.
Ela estava agachada na escuridão, as palmas das mãos coladas no concreto áspero. Case, case, case, case. O display digital pulsava seu nome em alfanumérico. Era um intermulte informando a do Link. Que bonitinho, ela disse. Continuou agachada, balançando nos calcanhares e esfregou as mãos, estalando os dedos.
Por que é que você demorou? Tempo, Molly. Tempo agora. Ela passou a língua com força pelos dentes inferiores da frente. Um deles se mesceu ligeiramente, ativando seus amplificadores de micro canal. A movimentação randômica de fotos na escuridão foi convertida em um pulso de elétrons. O concreto ao seu redor surgindo com uma palidez fantasma e granulada.
Ok, meu amor. Agora a gente vai começar a brincadeira. Casey percebeu que sua esconderijo era uma espécie de túnel de manutenção. Ela se arrastou para fora e saiu por uma grade ornamentada de bronze envelhecido com dobradiças. Ele viu o suficiente dos braços e pernas dela para saber que estava usando novamente o traje de policarbono. Sob o plástico, ele sentiu a tensão familiar do couro fino e justo.
Havia alguma coisa presa embaixo do braço dela numa faixa ou coldre. Ela se levantou, abriu o zíper e tocou o plástico achadrezado do cabo de uma pistola. Ei, Casey, ela disse, mal pronunciando as palavras. Está escutando? Vou te contar uma história. Ela se virou e inspecionou o corredor. O nome dele era Johnny.
O corredor de teto baixo e abaulado estava cheio de fileiras de dezenas de caixas de museu, caixas de aspecto arcaico com vitrines de vidro e madeira castanha. Ali, eles pareciam deslocados, como se tivessem sido trazidos e enfileirados para algum propósito esquecido. Suportes de bronze fosco seguravam globos de luz branca em intervalos de 10 metros.
O piso era irregular e, quando ela atravessou o corredor, Casey percebeu que centenas de tapetinhos e carpetes haviam sido colocados ali de modo aleatório. Em alguns lugares, eles tinham 10 centímetros de espessura e o chão era um patchwork suave de lã tecido à mão.
Molly não prestou muita atenção aos gabinetes e seus conteúdos, o que o irritou. Ele teve de satisfazer-se com os olhares desinteressados que ela dava de relance, que lhe davam fragmentos de cerâmica, armas antigas, uma coisa cravejada com tantos pregos que era irreconhecível, trechos esfiapados de tapeçaria. Sabe, meu Johnny era um garoto muito inteligente, super sacado.
Começou como armazenador em Memory Lane. Tinha chips na cabeça e as pessoas pagavam para esconder dados ali. A Yaki estava atrás dele na noite em que a gente se conheceu e eu matei o assassino deles. Foi mais sorte do que qualquer coisa, mas fiz aquilo por ele. E depois disso, as coisas foram muito bonitas, Casey. Os lábios dela quase não se moviam.
Ele a sentia formar as palavras. Não a ouvia formá-las em voz alta. Nós tínhamos um esquema com um squid para podermos ler os vestígios de tudo que ele já havia armazenado na vida. Salvamos tudo aquilo em fita e começamos a espremer clientes selecionados, ex-clientes. Eu cuidava da bagagem, da vigilância e da porrada. Eu era feliz de verdade. Você já foi feliz, Casey?
Ele era o meu cara. A gente trabalhava junto, parceiros. Acho que eu estava oito semanas fora da casa de bonecas quando o conheci. Ela fez uma pausa, fez uma curva fechada e continuou. Mais caixas de madeira brilhosa, suas laterais de uma cor que o fazia se lembrar de asas de barata. Era doce, lindo.
Com a gente tudo corria macio, como se ninguém pudesse colocar as mãos em nós. Eu não ia deixar ninguém fazer isso. A Yakuza, acho, eles ainda queriam comer o rabo do Johnny. Porque o Johnny havia queimado eles. E a Yakuza pode se dar ao luxo de se movimentar muito devagar. Eles esperam anos e anos.
Te dão uma vida inteira, só para você ter mais a perder quando eles vierem e tirarem essa vida. Pacientes como aranhas. Aranha Zen. Naquela época não sabia disso, ou se sabia, achava que não se aplicava a nós. Como quando você é jovem acha que é especial. Eu era jovem.
Então eles apareceram quando estávamos pensando que talvez tivéssemos o suficiente para pular fora, fazer as malas, ir para a Europa talvez. Não que nenhum de nós soubesse o que ia fazer lá sem nada para fazer. Mas a gente estava vivendo muito bem, com contas orbitais suíças e um baú cheio de brinquedos e móveis. Isso faz você ficar mais lento no jogo.
Então, o primeiro que eles mandaram era um cara foda. Tinha reflexo comum, você nunca viu. Implantes. Tinha mais estilo que dez caras comuns juntos. Mas o segundo era, sei lá, tipo assim um monge. Clonado. Matador de pedra em cada célula do corpo. Ele tinha isso nele. A morte. Esse silêncio. Ele exalava isso como uma nuvem.
A voz dela desapareceu quando o corredor se dividiu, escadarias idênticas descendo. Ela pegou a da esquerda. Uma vez, quando eu era menina, a gente morava numa ocupação, num squat. Era lá no Rio Hudson e aqueles ratos, cara, eles eram grandes. São os produtos químicos despejados por lá.
Eram do meu tamanho e a noite toda um deles tinha ficado andando para lá e para cá debaixo do piso do squat. Por volta do amanhecer alguém trouxe um velho com o rosto todo marcado e os olhos bem vermelhos. Ele levava um rolo de couro todo engraxado para guardar ferramentas dentro para evitar que elas enferrujassem. Abriu o rolo e tinha um revólver velho e três cápsulas. O velho colocou uma bala na arma.
Aí começou a subir e descer pelo squat e a gente colado na parede. Andando por um lado e por outro. Cruzou os braços, abaixou a cabeça. Parecia que tinha esquecido da arma. Estava procurando ouvir o rato. A gente ficou muito quieto. O velho dá um passo. O rato se move. O rato se move e ele dá outro prazo.
Uma hora fazendo isso e de repente parece que ele lembrou da arma. Aponta ela para o chão, dá um sorriso e puxa o gatilho. Guardou tudo e foi embora. Mais tarde eu me esguerei lá para baixo. O rato tinha um buracão no meio dos olhos. Ela estava vigiando os corredores selados que abriam intervalos ao longo do corredor. O segundo, ou o que veio para pregar o Johnny, era tipo esse velho.
Não era velho, mas era desse jeito. Era desse jeito que ele matava. O corredor se ampliou. O mar de tapetes ricos ondulava suavemente sobre um candelabro enorme, cujo pingente de cristal mais baixo quase tocava o piso. Cristais te lintaram quando o mole entrou no hall. Terceira porta à esquerda, piscou o display. Ela virou à esquerda, evitando a árvore invertida de cristal.
Eu o vi apenas uma vez, quando estava a caminho do nosso cafofo. Ele estava saindo. Nós vivíamos num espaço de fábrica convertido, com muito pessoalzinho novo saído da SenseNet, tipo assim. A segurança era muito boa para começo de conversa. E eu havia instalado umas coisas bem fodaças para terminar de solar tudo. Eu sabia que Johnny estava lá em cima. Mas aquele cara baixinho chamou minha atenção quando saiu. Não disse uma palavra.
A gente apenas olhou um para o outro e eu soube. Um cara baixinho comum, roupas comuns, nenhum orgulho, humilde. Ele olhou para mim e entrou num bicitaxi. Eu soube. Subi e Johnny estava sentado numa cadeira ao lado da janela, com a boca ligeiramente aberta. Como se tivesse acabado de pensar em dizer alguma coisa.
A porta à frente dela era velha, uma placa esculpida de teca tailandesa que parecia ter sido cerrada ao meio para caber na abertura na baixa da porta. Uma fechadura mecânica primitiva com um rosto de aço inocucidável havia sido instalada sob um dragão cheio de curvas. Ela se ajoelhou, retirou um rolinho de chamóis preto de um bolso interno e selecionou um palito da espessura de uma agulha.
Depois disso, não encontrei mais ninguém que valesse a pena. Ela enfiou o palito e trabalhou em silêncio, mordiscando o lábio inferior. Parecia confiar somente no toque. Seus olhos perderam o foco e a porta era um borrão de madeira clara. Casey ficou ouvindo o silêncio do hall, pontuado pelo tintar suave do candelabro. Velas? Straylight era toda errada.
Ele se lembrou da história que Cat havia contado sobre um castelo com lagos e lilases e as palavras educadas de Tergen recitadas musicalmente pela cabeça. Um lugar que cresceu por dentro. Straylight tinha um cheiro suave de bolor ligeiramente perfumado como uma igreja. Onde estavam os Tessierash Pools? Ele havia esperado uma colmeia clean de atividade disciplinada, mas Molly não vira nada disso.
O monólogo dela o deixou pouco à vontade. Além da história que contaram no cubículo, quase nunca dizia algo que sequer indicasse que tinham passado. Ela fechou os olhos e algo fez clique que Casey mais sentiu do que ouviu. Isso fez com que ele se lembrasse das travas magnéticas da porta do cubículo dela no lugar das bonecas. A porta havia se aberto para ele, embora tivesse usado o chip errado.
Aquilo tinha sido obra de um intermult, manipular a trava da mesma maneira que a havia manipulado o microleve automático e o jardineiro robô. O sistema de travas na casa de bonecas era uma subunidade do sistema de segurança de Freeside. A trava mecânica simples ali seria um verdadeiro desafio para a IA, o que exigiria um robô ou alguma espécie de agente humano.
Ela abriu os olhos, colocou o palito de volta ao chamois, voltou a enrolá-lo com cuidado e enfiou-o de novo no bolso. Acho que é tipo assim que você é, ela disse. Acho que você nasceu para fazer incursões. Acho que aquilo que você estava fazendo em Shiba era uma versão resumida do que costuma fazer em qualquer lugar. A azar, eu mesmo faço isso de vez em quando. Faz você voltar ao básico.
Ela se levantou e se espreguiçou, se sacudiu. Sabe, acho que o cara que até se era a Spoo mandou atrás aquele Jimmy, o garoto que roubou a cabeça, deve ter sido praticamente o mesmo que a Yaki mandou para matar o Johnny. Ela sacou a pistola de darts do coldre e discou o cano para o full alto.
A feira da porta atingiu o case quando ela estendeu a mão para abri-la. Não a porta propriamente dita, que era linda, ou que um dia havia sido parte de um todo mais bonito, mas a maneira como havia sido cortada para caber numa entrada em particular. Até mesmo o formato estava errado. Um retângulo no meio de curvas suaves de concreto polido.
Eles haviam importado aquelas coisas, pensou ele, e depois forçaram tudo a caber ali.
Mas nada daquilo cabia. A porta parecia aquele gabinete bizarro, a imensa árvore de cristal. Então ele se lembrou do ensaio de Tergen e imaginou que os encaixes haviam sido levados poço acima para dar vida a algum plano mestre, um sonho muito perdido, no esforço compulsivo para preencher o espaço, para replicar alguma imagem familiar do seu eu. Lembrou-se do ninho destruído, das coisas sem olhos se contorcendo.
Molly pegou uma das patas dianteiras do dragão e a porta abriu fácil. A sala atrás da porta era pequena, aturada de coisas, pouco mais que um closet. Cabinete de ferramentas de aço cinza encostados numa parede curva. Uma luminária havia se acendido automaticamente. Ela fechou a porta atrás de si e foi até os armários com gavetas.
Terceira esquerda pulsava o chip óptico, o intermult assumindo o controle de seu display de relógio. Cinco para baixo. Mas ela abriu a gaveta de cima primeiro. Não era mais que uma bandeja rasa, vazia. A segunda também estava vazia. A terceira, que era mais funda, continha bolinhas foscas de solda e uma coisinha marrom que parecia um osso de dedo humano.
A quarta gaveta continha um exemplar todo inchado de umidade de um manual técnico obsoleto em francês e japonês. Na quinta, atrás da manopla armada de um traje de vácuo pesado, ela encontrou a chave. Era parecida como uma moeda de bronze fosca com um tubinho oco colado numa parte da circunferência. Ela a girou lentamente na mão e Casey viu que o interior do tubo era cheio de depressões e triângulos.
As letras CHUBB estavam moldadas em uma das faces da moeda. A outra não tinha nada. Ele me disse, ela sussurrou, um intermútil, sobre como ele brincou de esperar por anos. Ele não tinha nenhum poder de verdade na época, mas podia usar a segurança da vila e seus sistemas de custódia para rastrar onde todo mundo estava, como as coisas se moviam para onde iam.
Ele viu alguém perder esta chave há 20 anos e conseguiu fazer com que outra pessoa deixasse aqui. Então ele o matou. Matou o garoto que trouxe a chave para cá. Ele tinha 8 anos. Ela fechou os dedos brancos sobre a chave para que ninguém a encontrasse. Ela tirou um fio de nylon preto do bolso do canguru e o amarrou no furinho redondo acima da palavra CHUBB.
Deu um nó e pendurou a chave no pescoço. Eles estavam sempre enchendo o saco dele com essas histórias de como era uma moda antiga, ele disse. Toda essa tralha do século XIX. Ele parecia igualzinho ao finlandês na tela daquele moquifo de bonecas de carne. Quando eu achei que fosse mesmo o finlandês, se não tivesse tomado cuidado. Seu display mostrava a hora ao fanumérico sobrepostos sobre os armários de aço cinza.
Ele disse que se eles tivessem se tornado o que desejavam ter sido no começo, poderia ter escapado há muito tempo. Mas não aconteceu. Eles foderam tudo. Freaks, como Third Jane. Foi ele quem a chamou disso, mas disse como se gostasse dela. Ela se virou, abriu a porta e saiu, a mão roçando o cabo marcado da pistola de dardos. Casey flipou.
O Kong 11 estava crescendo. Dique-se, você acha que esse negócio vai funcionar? Macaco gosta de banana? O Flatline o fez passar por camadas de arco-íris de deslocamento. Eu lembro dessa cena do jogo. Alguma coisa escura estava se formando no núcleo do programa chinês. A densidade de informações sobrepunha... Caramba, desgosta.
sobrepujava o tecido da matriz, disparando imagens hipnagógicas. Tênues ângulos caleidoscópicos centravam-se num ponto vocal preto e prata. Casey viu símbolos infantis de mal e de azar caírem rolando ao longo de planos translúcidos, suásticas, caveiras de ossos cruzados, dados com olhos de serpente piscando. Se olhasse diretamente para aquele ponto nulo, nenhum contorno se formaria.
Ele precisou de uma dezena de olhadas periféricas rápidas antes de descobrir o que era. Uma espécie de tubarão reluzindo como obsidiana os espelhos negros de seus flancos refletindo luzes distantes, fracas, que não tinham nenhuma relação com a matriz ao seu redor. Este é o ponto exato, disse o construto. Quando o Kuang estiver cravado e apertadinho dentro do núcleo de se arachipu, no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd specialized no Merd
Vamos cavalgar essa até o final. Você tinha razão, Dix. Existe um tipo de controle manual do hardwiring que mantém o intermude controlado. Seja lá o quanto ele estiver controlado, ele acrescentou. Ele, disse o construto. Ele. Cuidado com isso. É uma coisa. Eu tenho que ficar repetindo? É um código, uma palavra, ele disse.
Alguém precisa pronunciá-lo em um terminal elaborado num quarto determinado, enquanto cuidamos do que Kierke esteja esperando por nós atrás desse ICE. Bom, você tem tempo para matar, garoto, disse Flatline. O Kwan-g véio de guerra é lento, mas confiável. Kierke se desconectou. Direto nos olhos de Mael-kun. Tu tava morto aí, irmão.
Acontece, ele disse. Já estou ficando acostumado. Tu tá brincando com as trevas, irmão. É o único jogo da cidade, ao que parece. Já love, Casey, disse o maior cunh. E voltou ao seu módulo de rádio. Casey ficou olhando os dreadlocks embaraçados, os músculos encordoados nos braços negros do homem. Voltou a se conectar e flipou.
Molly estava correndo por um corredor que poderia ter sido aquele que percorrera antes. As caixas com vitrines de vidro haviam desaparecido e Cassie deduziu que eles estavam seguindo em frente, na direção da ponta do fuso. A gravidade estava ficando mais fraca. Num instante, ela estava pulando suavemente sobre colinas de tapetes. A perna dava umas fisgadas de leve.
O corredor ficava cada vez mais estreito, curvado e se dividiu. Ela tomou o caminho da direita e começou a subir um lance de escadas incrivelmente íngreme, a perna já começando a doer. No alto, cabos amarrados em maços abraçavam o teto da escadaria como glândios com códigos de cores. As paredes tinham manchas de bolor. Ela chegou a um patamar triangular e parou para massagiar a perna.
Mais corredores estreitos, as paredes com tapetes pendurados. Eles se dividiam em três direções. Esquerda, ela deu de ombros. Deixa eu dar uma olhada ao redor, ok? Esquerda. Relaxa, tem tempo. Ela começou a descer o corredor que levava para sua direita. Pare. Volte. Perigo. Ela hesitou.
Da porta de carvalho entreaberta, no final da passagem, veio uma voz alta e arrastada, como a voz de um bêbado. Keyes achou que o idioma podia ser francês, mas estava indistinto demais. Molly deu um passo, outro passo, enfiando devagar a mão dentro do traje para tocar o cabo da pistola de dardos.
Quando ela entrou no campo do disruptor neural, suas orelhas zumbiram, um tom pequeno que começava a subir e que fez Casey pensar no som da pistola dela. Ela avançou cambaleante, os músculos estriados agora sem rigidez alguma, e bateu com a testa na porta. Sofreu um espasmo e caio de costas, os olhos sem foco, sem expirar.
O que é isso? Perguntou a voz arrastada. Vestido de baile? Uma mão trêmula entrou na frente do traje dela e encontrou a pistola de dardos, puxando-a para fora. Venha me fazer uma visita, criança. Agora. Ela se levantou devagar, os olhos fixos no cano de uma pistola automática preta. Mas agora a mão do homem estava suficientemente firme.
O cano da arma parecia estar ligado à sua garganta por um rígido fio invisível. Ele era velho, muito alto, e seus trajes lembraram a case da garota que ele havia visto de relance no Wing Team Ciclé. Ele vestia um robe pesado de seda marrom com punhos compridos achadrezados e um colarinho de tecido atualhado.
Um dos pés estava descalço e o outro calçava um chinelo de veludo preto com uma cabeça de raposa dourada bordada na palmilha. Ele fez um gesto para que ela entrasse no aposento. Devagar, querida.
O quarto era muito grande, atulhado com um sortimento de coisas que não fazem sentido para Casey. Ele envia um grande rack de aço cinza com monitores Sony antigos, uma cama imensa de bronze com pedras de carneiros empilhadas em cima e travesseiros que pareciam ter sido feitos do mesmo tipo de tapete usado para cobrir o piso dos corredores.
Os olhos de mole foram rápidos de um enorme console de entretenimento Telefunken até prateleiras de antigos discos de gravação, suas capas arruinadas cobertas por plástico transparente, para uma mesa ampla repleta de placas de silício. Casey registrou o deck de ciberespaço e os trozos, mas o olhar dela passou deslizando por ele sem se deter. O costume seria, disse o velho, que eu a matasse agora.
Cage sentiu a tensa, pronta para o movimento. Mas esta noite quero me divertir. Qual é o seu nome? Mole. Mole. O meu é Ashpool. Ele voltou a afundar na suavidade cheia de vincos de uma enorme poltrona de couro com pernas de coromo quadradas. Mas a arma não vacilou nem por um segundo.
Ele colocou a pistola de dardos em cima de uma mesa de bronze ao lado da cadeira, derrubando um frasco plástico cheio de pílulas vermelhas. A mesa estava repleta de frascos, garrafas e bebidas alcoólicas, envelopes de plástico mole que derramavam pozinhos brancos. Cage notou uma antiga seringa hipodêmica de vidro e uma colher de aço simples. Como é que você faz para chorar, Molly? Estou vendo que seus olhos são bloqueados.
Estou curioso. Os olhos dele eram avermelhados, a testa reluzia de suor. Ele era muito branco. Doença, deduziu o case. Ou drogas. Não costumo chorar muito. Mas você choraria se alguém fizesse você chorar? Eu cuspo, ela disse. Os dutos lacrimais são desviados para minha boca.
Então você já aprendeu uma lição importante para uma pessoa tão jovem? Ele repousou a mão que segurava a pistola sobre o joelho e apanhou uma garrafa na mesa ao seu lado, sem nem se preocupar em escolher entre meia dúzia de bebidas alcoólicas diferentes. Ele bebeu conhaque. Um fio do líquido escorreu pelo canto de sua boca. É assim que se lida com as lágrimas. Ele tomou mais um gole. Esta noite estou ocupado, Mori.
Eu construí isto tudo e agora estou ocupado, morrendo. Eu posso sair por onde vim, ela disse. Ele riu, um som alto e rascante. Você se intrometeu em meu suicídio e depois pede simplesmente para sair? Ora, você me surpreende, uma ladra. O cu é meu, chefia, e é tudo o que eu tenho. Só quero sair daqui inteira.
Você é uma moça muito grosseira. Aqui, suicídios são realizados com um certo nível de decoro. É isso que estou fazendo, entende? Mas talvez a leve comigo esta noite, direto para o inferno. Seria bem egípcio da minha parte. Ele tomou mais um gole. Venha cá. Ele estendeu a garrafa, a mão trêmula. Beba. Ela balançou a cabeça.
Não está envenenada, ele disse, mas tornou a colocar o conhaque em cima da mesa. Sente. Sente-se no chão. Vamos conversar. Sobre o que? Ela se sentou. Que ele sentiu as lâmina se moverem muito devagar abaixo das unhas. O que vier à cabeça? A minha cabeça. A festa é minha. Os núcleos me acordaram há vinte horas.
Alguma coisa estava acontecendo, eles disseram, e eu era necessário. Era você essa alguma coisa, Molly? Certamente eles não precisam de mim para cuidar de você. Alguma outra coisa, mas eu estive sonhando, sabe? Por 30 anos. Você ainda não era nascida quando me deitei para dormir pela última vez. Eles nos disseram que não sonharíamos com esse frio. Eles nos disseram que também não sentiríamos frio.
Loucura, amor. Tudo mentira. É claro que sonhei. O frio deixa o lado de fora entrar. Foi isso. O lado de fora. Toda uma noite lá fora. Construí isso para nos escondermos dela. Só uma gota, no começo. Um grão de noite vazando para dentro, atraído pelo frio. Outros vieram, enchendo minha cabeça do jeito que a chuva enche uma piscina vazia.
Lírios calas, eu me lembro. As piscinas eram de terracota, as enfermeiras todas de cromo. O jeito como as pernas delas refletiam o pôr do sol nos jardins. Eu sou velho, mole. Mais de duzentos anos, se você contar o frio. O frio. O cano da pistola subiu rapidamente, vacilante. Agora os tendões das coxas dela estavam duros como cabos esticados.
Você pode ter queimadura de frio, ela disse com cautela. Ali nada queima, ele disse impaciente abaixando a arma. Seus poucos movimentos eram cada vez mais esclerosados. Sua cabeça balançava para frente e para trás. Ele precisava fazer um esforço para impedir esse movimento. Nada queima. Agora eu me lembro. Os núcleos me disseram que nossas inteligências estão loucas.
e todos os bilhões que pagamos há tanto tempo. Quando as inteligências artificiais ainda eram um conceito arrojado, eu disse aos núcleos que daria conta disso. Que hora ruim com 8 Jane lá embaixo em Melbourne e apenas nossa querida Ter Jane tomando conta da loja. Ou talvez seja uma hora muito boa. O que você acha, Molly? Ele tornou a levantar a arma.
Algumas coisas estranhas estão acontecendo agora na Vila Straylight. Chefia, ela perguntou a ele. Você conhece o Intermute? Um nome? Sim. Para Conjura, talvez. Um Lorde do Inferno, com certeza. Na minha época, cara mole, eu conheci muitos Lordes. E não poucas leites. Ora, uma rainha da Espanha, certa vez, naquela cama ali.
Mas estou divagando. Tossi uma tosse molhada. O cano da pistola sacudiu com suas convulsões. Cuspiu no tapete perto de seu pé descalço. Como tenho divagado, através do frio. Mas, em breve, não mais. Mandei descongelar uma Jane quando acordei. Estranho se deitar a intervalos de algumas décadas como que legalmente equivale a sua própria filha.
Seu olhar passou direto por ela e foi até o rack de monitores apagados. Deu a impressão de ter estremecido. Os olhos de Marie France, ele disse bem baixinho e sorriu. Nós fazemos com que o cérebro se torne alérgico a determinados neurotransmissores, o que resulta em uma imitação peculiarmente convincente de autismo. A cabeça dele balançou para o lado, já recuperada.
Pelo que sei, hoje o efeito é obtido mais facilmente com um microchip embutido. A pistola deslizou de seus dedos e quicou no carpete. Os sonhos crescem como um gelo lento, ele disse. Seu rosto tinha uma tonalidade azulada. A cabeça afundou de novo no couro da poltrona e ele começou a roncar. Ela se levantou e agarrou a arma.
Com a automática de Ashpoo na mão, vasculhou o aposento inteiro. Ao lado da cama, formando uma pilha, achou uma grande coxa de retalhos sobre uma enorme poça de sangue coagulado, espesso e brilhante, sob as paradoranagens do tapete. Levantando um canto da coxa, achou o corpo de uma garota, os ombros e o colo encharcados de sangue. Sua garganta havia sido cortada.
A lâmina triangular de alguma espécie de raspador brilhava na poça escura ao lado dela. Molly se ajoelhou, tomando cuidado para evitar o sangue, e virou o rosto da garota morta para a luz. O rosto que Casey tinha visto no restaurante. Um clique, bem no fundo da própria essência das coisas, e o mundo ficou congelado. A transmissão de cistinho de Molly havia se tornado um frame parado.
E então o rosto morto foi alterado e se tornou o rosto de Linda Lee. Outro clique e o quarto ficou borrado. Molly estava em pé, olhando para um laser disque dourado ao lado de um pequeno console no tampo de mármore de uma mesinha de cabeceira. Um fio de fibra óptica serpenteava como um pavio do console até um soquete na base do pescocinho magro.
Eu tenho o seu número, seu filho da puta, disse Casey, sentindo seus próprios lábios se movendo em algum lugar muito longe dali. Ele sabia que o intermute havia alterado a transmissão. Molly não tinha visto o rosto da menina morta sumir como fumaça e assumir os contornos da máscara mortuária de linda. Molly deu meia volta, atravessou o aposento e foi até a poltrona de Ashpool.
A respiração do homem era lenta e irregular. Olhou para a lixeira com drogas e álcool. Abaixou a pistola. Pegou sua pistola de dardos, ajustou o cano para um disparo único e muito cuidadosamente disparou um dardo de toxina no centro da pálpebra esquerda fechada. Ele estremeceu uma vez, cortando a respiração no meio. Seu outro olho, castanho e sem foco, se abriu lentamente.
Ainda estava aberto quando ela deu meia volta e saiu do quarto. 16. Coloque seu chefe em espera, disse o Flatline. Ele está chegando no Osaka gêmeo daquele navio lá em cima, o que está rodando o apoio para nós. Chamou o Hanua. Eu sei, que ele disse distraído. Eu vi.
Um losango de luz branca se encaixou no lugar na sua frente, tapando o ICE de Tissier Ashpoo. Ele lhe mostrou o rosto calmo, perfeitamente concentrado e profundamente louco de Armitage, seus olhos vazios como botões. A Armitage piscou e ficou encarando. Acho que o Intermute cuidou dos seus Turings, hein? Assim como cuidou dos meus, disse Casey.
A Armitage continuou encarando. Casey resistiu à necessidade súbita de desviar o olhar e abaixar a cabeça. Tudo bem aí, Armitage? Casey. E por um instante ele teve a impressão de que alguma coisa havia se mexido atrás daquele olhar azul fixo. Você viu o Intermute, não viu? Na matriz. Casey fez que sim com a cabeça.
Uma câmera na face do seu Osaka no Marcos Garvey transmitiria o gesto para o monitor do Hanua. Ele imaginou o Malcom ouvindo delírios em transe, incapaz de ouvir as vozes do Constructo ou de Armitage. Casey, e os seus olhos ficaram maiores, Armitage se inclinou na direção de seu computador. Quando você o vê, como ele é?
Um Constructo se instint de alta resolução. Mas quem? Da última vez foi o finlandês. Antes disso, um caftão que eu... Mas o General Gehrling, não? General quem? O losango voltou a ficar branco. Rodiz outra vez e mando o Osaka procurar. Ele disse ao Constructo. Flipou.
A perspectiva o assustou. Mole estava agachado entre vigas de aço, 20 metros acima de um chão amplo e manchado de concreto polido. O aposento era um hangar ou doca de serviço. Ele podia ver três espaçonaves, nenhuma delas maior do que o Garvey e todas em diversos estágios de reparo. Vozes em japonês.
Uma figura no macacão laranja saiu de dentro de um buraco no casco de um navio de construção em forma de bulbo e parou do lado de um dos bizarros braços antropomórficos movidos a pistão daquela coisa. O homem digitou alguma coisa no console portátil e coçou as costelas. Um robô vermelho em forma de carrinho apareceu rolando sobre pneus cinzentos de desenho animado. Casey piscou o chip dela.
Ei, ela disse, estou esperando um guia aqui. Ela voltou a se agachar, os braços e joelhos de seu traje moderno da cor da tinta azul acinzentada das vigas. Sua perna doía, uma dor aguda agora. Eu deveria ter voltado ao Shin, murmurou. Alguma coisa veio surgindo das sombras, no nível do ombro esquerdo dela, fazendo um barulho bem baixinho de metal contra metal.
Fez uma pausa, balançou seu corpo esférico de um lado para outro sobre patas de aranha num arco alto, disparou sobre uma rajada de microsegundos numa luz de laser difusa e congelou. Era um micro-robô Brown e Case já teve um do mesmo modelo, um acessório sem o menor sentido que havia obtido como parte de um acordo de pacote como um receptador de hardware de Cleveland.
Ele parecia um pernilongo, preto, fosco e estilizado. Um LED vermelho começou a pulsar no equador da esfera. Estou ouvindo. Ela se levantou, jogando o peso do corpo sobre a perna esquerda e viu o pequeno robô reverter o passo. Ele foi seguindo metodicamente de volta por seu vergalhão e penetrou na escuridão. Ela se virou e olhou para a área de serviço atrás.
O homem de macacão laranja estava selando a frente de um traje de vácuo branco. Ela ouviu alinhar e fechar o capacete. Pegar seu console e recuar de volta ao buraco no casco do navio em construção. Um som agudo de motores e a coisa começou a desaparecer, deslizando suavemente num círculo de dez metros de chão, que afundou em um brilho forte de lâmpadas de arcos voltaicos.
O robô vermelho aguardava pacientemente a beira do buraco deixado pelo painel do elevador. Então, ela foi atrás do Brown, abrindo caminho por entre uma floresta de vigas de aço soldado. O Brown piscava seu LED constantemente, chamando-a. E aí, Casey, você está no Garvey com o Malcolm? Claro. E se plugou nisso daqui?
Eu gosto, sabia. Como sempre falei comigo mesma, na minha cabeça, quando estou em alguma situação que parece roubada. Finge que encontrei um amigo, alguém quem posso confiar, e aí digo a ele que realmente penso, como me sinto, e fingo que eles estão me dizendo o que acham disso, e eu vou seguindo nessa linha. Ter você aqui dentro é mais ou menos isso. Aquela cena com o Ashpoo.
Ela mordiscou o lábio inferior, balançando ao redor de uma viga, sem tirar o robô de vista. Eu estava esperando alguma coisa, talvez um pouco menos maluca, sabia? Quero dizer, esses caras são todos loucos de pedra aqui, como se tivesse mensagens luminosas rabiscadas no interior das testas ou coisas do gênero. Não gosto da cara disso. Não gosto do cheiro disso.
O robô estava subindo numa escada quase invisível de anéis de aço em forma de U, na direção de uma abertura escura e estreita. E aproveitando que estou no modo confessional, baby, tenho que admitir que talvez eu nunca tivesse esperado sair dessa de qualquer maneira. Já estou nessa malé de azar, faz uma cara, e você é a única chance legal que surgiu desde que aceitei trabalhar por uma mitagem. Ela olhou para o círculo preto.
O LED do robô piscava, subindo. Mas não que você seja assim, o gostosão do pedaço. Ela sorriu, mas o sorriso sumiu rápido demais. E ela trincou os dentes com uma dor lancinante na perna quando começou a subir. A escada continuou atravessando um tubo de metal tão estreito que seus ombros quase não passaram. Ela estava subindo para fora da gravidade, na direção do eixo sem peso.
Seu chip pulsava a hora. 4 horas 23 minutos e 4 segundos. Tinha sido um longo dia. A claridade do sensório dela cortou o efeito da beta-fenetilamina. Mas Case ainda conseguia sentir. Ele preferia a dor na perna.
Casey, 0000000000000000000000 Acho que é pra você, ela disse subindo mecanicamente. Os eros piscaram em um estrobo novamente e uma mensagem apareceu de repente ali. No canto da visão dela, cortada pelo circuito do display. General Ehrling, treinou...
corto para Screaming Fisthevin deu seu rabo para o pentágono controle básico de Mutz, nossa! Mutz sob a Armitage e um construto de Gehrling
Caralho, que troço ruim de ler. Muth diz que está surtando. Se cuida, Dixie. Bom, ela disse fazendo uma pausa, colocando todo o peso na perna direita. Acho que você também está com problemas.
Ela olhou para baixo. Havia um círculo fraco de luz, menor que o círculo de bronze da chave chubre que pendia entre seus seios. Ela olhou para cima. Nada. Relacionou os amps com a língua e o tubo subiu desaparecendo na perspectiva e Brown seguindo seu caminho escada acima. Ninguém me falou dessa parte, ela disse. Casey se desconectou.
Maelkun. Bom, seu chefe ficou estranho. Os juristas estavam vestindo um traje de vácuo sânio, 20 anos mais velho do que o que Casey tinha alugado em Freeside. O capacete debaixo do braço e os dreadlocks ensacados numa redinha de crochê roxa de algodão. Seus olhos estavam quase fechados. Efeito da ganja e da tensão. Ele fica ligando pra cá com o Ornismon.
Mas essa guerra é da Babilônia. Maocumba alessou a cabeça. Aerole e eu falamos. E Aerole falou com Zion. Fundadores de escortar e correr. Passou as costas de uma grande mão negra pela boca. Armitage? Que se estremeceu quando a ressaca de beta-fenetilamina bateu com toda a sua identidade. Sem o escudo da matriz ou da cestim.
O cérebro não tem terminações nervosas, ele disse a si mesmo. Não pode se sentir tão mal. Como assim, meu camarada? Ele está te dando ordens? Como é que é? Bom, Armitage, ele me diz para traçar curso para a Finlândia, tá sabendo? Ele me diz que lá haverá esperança, tá sabendo? Apareceu na minha tela com a camisa toda cheia de sangue, irmão.
E com cara de cachorro louco, falando de punhos, gritando em russo, e o sangue dos traidores ficará em nossas mãos. Ele voltou a balançar a cabeça, o bonezinho dos dreads balançando em 0G, apertando os lábios. Os fundadores dizem que a voz do Muti é profeta falso, com certeza. E a Herói e eu temos que abandonar o Marcos Garvey e voltar.
A mitagem estava ferida? Sangue? Não deu para ver, está sabendo? Mas sangue e doidão de pedra, Casey. Ok, disse Casey. E eu? Você vai voltar para casa? E eu, Malcom? Mol, disse Malcom. Você vem comigo? A gente volta para Zion com o Aerold no Babylon Rocker. Deixe o senhor a mitagem falando com fita cassete fantasma.
Um fantasma falando com o outro. Queijo olhou para trás. Seu traje alugado pendurado contra a rede onde lhe o prendera. Balançando na corrente de ar do velho filtro de ar russo. Fechou os olhos. Viu os saquinhos de toxinas se dissolvendo em suas artérias. Viu o mole subindo os infinitos anéis degraus de aço. Abriu os olhos.
Sei lá, cara, ele disse com um gosto estranho na boca. Olhou para baixo, para sua mesa, para suas mãos. Sei lá. Ele voltou a olhar para trás. O rosto marrom estava calmo agora, concentrado. O queixo de Maia Ocum estava escondido pelo colarinho alto do capacete de seu velho traje azul. Ela está lá dentro, ele disse.
mole tá dentro mas trelight como eles chamam se existe Babilônia cara a Babilônia ali se a gente deixar ela lá ela não vai sair seja na Vale que anda ou não o Malcom concordou com a cabeça e a redinha de dreads balançando atrás dele como um balão cativo de algodão com crochê e ela é tua mulher
Não sei. Acho que não é mulher de ninguém. Deu de ombros. E voltou a encontrar seu ódio, concreto como uma lasca de rocha quente, embaixo de suas costelas. Que se foda, ele disse. Foda-se, Armitage. Foda-se, Wintermute. E vai se foder você também. Daqui eu não saio. O sorriso de Maelcon se espraiu por seu rosto como se fosse um farol.
Maio Kun é um garoto rude, Casey. O Garvey é a nave de Maio Kun. Sua mão iluvada deu um tapa no painel e o Dub Bashev começou a pulsar nos altos falantes do rebocador. Maio Kun não vai fugir não. Falo com o Aerold, com certeza o ponto de vista dele é igual. Casey ficou olhando. Não entendo vocês, ele disse.
E eu é que não te entendo, Mon, disse o Zionita, mexendo a cabeça com a batida do dub. Mas a gente tem que seguir, pelo amor de já, cada um de nós. Key se conectou e flipou para a matriz. Recebeu minha mensagem? Recebi. Ele viu que o programa chinês havia crescido. Delicados arcos de policromo mutante estavam se aproximando do ICE da TA.
Bom, o negócio está ficando cabuloso, disse o Flatline. Seu chefe apagou o banco de dados daquele outro Osaka e quase levou o nosso junto. Mas seu amigão Intermúlti me deu uma força lá, antes de tudo ficar escuro. A razão pela qual a Straylight não está exatamente cheia de TCRs e Ashpoo saltantes é que a maioria está congelada. Existe uma firma de avocacia em Londres que tem procuração para cuidar das questões judiciais deles.
Eles têm de saber quem está acordado e exatamente quando. A metade estava roteando as transmissões de Londres para Straylight pelo Osaka no iate. Por acaso, eles sabem que o velho está morto. Quem sabe? Afirma de advocacia e a ETA. Ele tinha um remoto médico plantado no externo. Não que o dar da sua garota tivesse deixado muita coisa para uma equipe de ressuscitação trabalhar.
Toxina Selfish. Mas o único TA acordado na Straylight nesse exato momento é Lady Third Jane Marie France. Existe um homem, dois anos mais velho na Austrália Negócios. Se você me perguntar, aposto que o Intermult encontrou um jeito de fazer com que esse negócio precise da atenção pessoal de 8G.
Mas ele está a caminho de casa, ou quase. Os advogados de Londres estimam sua chegada a Straylight para as 9 horas desta noite. Nós colocamos o vírus Kuang no slot às 2 horas 32 minutos e 3 segundos. Agora são 4 horas 45 minutos e 20 segundos. A melhor estimativa para a penetração no núcleo da TA pelo Kuang é 8 horas e 30 minutos. Um pentelésimo a mais ou menos.
Acho que o Intermude tem alguma coisa rolando com essa Ter Jane. Ou ela é tão louca quanto o velho dela era. Mas o garoto lá de Melbourne já vai vir, sabendo o que está pegando. O sistema de segurança de Straylight está tentando entrar em alerta máxima. Mas o Intermude está bloqueando. Não me pergunte como. Mas não conseguiu suplantar o programa básico de portão para colocar a Molly dentro. A Armitage tinha um registro de tudo isso no seu Osaka.
Riviera deve ter passado um papo na Transgene para ela fazer isso. Ela tem sido capaz de arrumar entradas e saídas há anos. Me parece que um dos principais problemas da TA é que todo chefão da família encheu os bancos de dados com todos os tipos de scans privados e exceções. É meio como se seu sistema imunológico desabasse em cima de você. Fresquinho para um vírus entrar. Parece bom para nós, assim que a gente passar por esse ICR.
Ok, mas o intermute disse que o exército... Um losango branco se encaixou em posição preenchido por um close de olhos enlouquecidos. O que é isso? Só conseguiu olhar. O coronel, o helicorto, forças especiais, força de ataque Screaming Fist, havia encontrado o caminho de volta. A imagem era fraca, tremia, estava fora de foco.
Cortes estava utilizando o deck de navegação do Hanua para se linkar com o Osaka do Marcos Garvey. Case, eu preciso dos relatórios de danos do Omaha Thunder. Espera, eu... Coronel? Mantenha o controle, garoto. Lembre-se do seu treinamento. Mas onde é que você estava, cara? Ele perguntou silenciosamente para os olhos angustiados.
O Intermult havia construído uma coisa chamada Amitage diante de uma fortaleza catatônica chamada Corto. Convencer a Corto de que o verdadeiro era Amitage. E Amitage havia saído andando, falando, tramando planos, negociando dados em troca de capital. Atuado como testa de ferro para o Intermult naquele quarto no Shiba Hilton.
E agora a ermitage havia desaparecido, soprado pelos ventos da loucura de Corto. Mas onde é que Corto estivera por todos aqueles anos? Caindo, queimado e cego de um céu siberiano. Casey, isto vai ser difícil para você aceitar, eu sei. Você é um oficial. O treinamento, eu entendo. Mas, Casey, Deus é testemunha do que estou dizendo.
Nós fomos traídos. Lágrimas começaram a correr dos olhos azuis. Coronel, quem? Quem nos traiu? O general Girling, Case. Você deve conhecê-lo por um corte nome. Você conhece o homem de quem estou falando? Sim, disse Case enquanto as lágrimas continuavam a correr.
Acho que sei sim, senhor. Ele acrescentou por impulso. Mas, senhor, coronel, o que exatamente devo fazer? Agora, quero dizer. Nosso dever nesse ponto, que está em retirar, escapar, evasão. Podemos chegar à fronteira com a Finlândia amanhã, no fim da tarde. Voo baixo no piloto manual. Improviso, garoto. Mas isso é apenas o começo.
Os olhos azuis quase se fecharam inteiramente sobre as bochichas bronzeadas. Só o começo. A traição vem do alto. Do alto. Ele recuou da câmara, revelando manchas escuras na camisa de sarja rasgada.
O rosto de Hermitage era uma máscara impassível, mas o de corte era uma verdadeira máscara de um esquizóide. Há uma doença marcada a fundo em músculos involuntários, distorcendo a cirurgia, cara. Coronel, estou ouvindo, cara. Escuta, coronel, ok? Eu quero que o senhor abra... Ah, merda. Como é o nome, Dix? Escotilha Central, disse a Flatline.
Abra a escotilha central. É só mandar seu console central ali abri-lo, certo? Vamos chegar até onde o senhor está rapidinho, coronel. E aí a gente pode conversar sobre tirar o senhor daí. O losango desapareceu. Garoto, acho que agora eu não entendi nada do que rolou. Diz o flatline. As toxinas, disse Casey.
As malditas toxinas do caralho. E se desconectou. Veneno? Maocum olhava para trás pelo ombro azul arranhado de seu velho sânio enquanto Casey pelejava para sair da rede G. E tirar essa coisa maldita de dentro de mim. Puxando o catéter texano. É como um veneno lento e aquele babaca lá em cima sabe como anular isso. E agora ele está mais maluco que um rato na merda.
Atrapalhou-se na frente do sânio vermelho, esquecendo-se de como destravar os fechos. O chefão te envenenou? Maiocun conçoe o rosto. Eu tenho um kit médico aqui. Pelo amor de Deus, Maiocun! Me ajuda com essa porra de trás? O zionita se impulsionou para fora do módulo de piloto cor-de-rosa. Calma, mon. Messa duas, corte uma. Foi o que o santo homem disse.
A gente vai até lá. Havia a arma passagem corrugada que levava da escotilha de popa do Marcos Garvey até a escotilha central do iate chamado Hanua. Mas eles conservaram seus tradicelados. Maelcon executou a passagem com uma graça de bailarino, parando apenas para ajudar Casey, que havia começado a dar cambalhotas desajeitadas ao sair do Garvey.
As laterais de plástico branco do tubo filtravam a luz do sol pura. Não havia sombras. A trava de escotilha do ar do garve era toda cheia de remendos, decorada com um leão design escavado a laser. A escotilha central do Hanewa era cinza creme, sóbria e muito limpa. Cremosa, nua e sóbria. Maelcon inseriu a luva enluvada em uma reentrância estreita.
Casey viu seus dedos se moverem. LEDs vermelhos se acenderam na reentrância, começando uma contagem regressiva de 50. Mayalkun retirou a mão. Casey, que apoiava uma das luvas na escotilha, sentiu a vibração do mecanismo da trava atravessar seu traje e os ossos. O segmento circular do casco cinzento começou a recuar para a lateral do Hanua.
Malcolm agarrou a reentrância com uma das mãos e Casey com a outra. A trava os levou com ela. O Hanewa era um produto dos estaleiros Dornier Fujitsu e seu interior espelhava uma filosofia de design semelhante àquela que havia produzido o Mercedes que os conduzira em Istambul.
A estreita seção central tinha um revestimento imitando o ébano invernizado e o chão era de cerâmica italiana cinza. Key sentiu como se estivesse invadindo o spa particular de um ricaço pelo banheiro. O iate, que havia sido montado em órbita, nunca fora projetado para a reentrada na atmosfera.
Suas linhas suaves em forma de vespa eram assim para fins de estilo, e tudo em seu interior havia sido calculado para reforçar a impressão geral de velocidade. Quando Maelcon tirou seu capacete amassado, Casey foi atrás. Ficaram ali parados na trava por alguns instantes, respirando um ar que tinha um cheiro sutil de pinho. Mas, por baixo desse aroma, um vestígio perturbador de cheiro de material de isolamento queimado.
Maiocun falejou o ar. O problema aqui, irmão. O barco que tem esse cheiro. Uma porta almofadada de ultracamurça cinza escura voltou deslizando com suavidade para seu encaixe. Maiocun ganhou um impulso usando a parede de ébano e passou com habilidade pela abertura estreita, girando os ombros largos no último instante possível para conseguir passar.
Casey foi atrás, desajeitado, uma mão atrás da outra num corrimão almofadado na altura da cintura. Tombadilho, disse Mayocun apontando para um corredor abaixo de paredes lisas de cor de creme. Lá. Ele avançou com facilidade, dando outro impulso com os pés sem fazer esforço. De algum lugar mais adiante, Casey reconheceu o ruído familiar de impressora funcionando.
O som foi ficando mais alto à medida que ele seguia maior como por outra porta, até que chegaram uma massa de formulário contínuo emaranhado. Keise arrancou um pedaço retorcido e deu uma olhada. Zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero, zero.
Crash de sistema? O Zenita apontou para a coluna de zeros. Não, respondeu Casey, agarrando o capacete antes que ele saísse flutuando. O fretline disse que a Armitage limpou a memória do Osaka que tinha aqui. O cheiro é de limpeza com laser, sabe? O Zenita apoiou o pé na gaiola branca de um aparelho suíço de ginástica e disparou pelo labirinto flutuante de papel, afastando as folhas do rosto com as mãos.
Que é isso, irmão? O homem era baixo, japonês, e tinha a garganta amarrada nas costas de uma estreita cadeira articulada, o que parecia ser um fio fino de aço. O fio era invisível, onde cruzava a espuma preta do encosto de cabeça, e havia cortado até a laringe.
Uma única esfera de sangue via coagulado ali como uma estranha pedra preciosa, uma pérola vermelha escura. Casey reparou nos cabos improvisados de madeira que flutuavam de cada lado do garrote. Pareciam pedaços quebrados de um cabo de vassoura. — Por quanto tempo ele ficou com isso guardado dentro dele? Casey perguntou para si mesmo em voz alta, lembrando da peregrinação pós-guerra de corto.
O chefe sabe pilotar nave, Casey? Talvez. Ele foi das forças especiais. Bom, este Japaboy não pilota mais. Duvido que eu mesmo pilotasse fácil esta aqui. Nave muito nova. Vamos procurar o tombadilho. Mayokun franziu a testa, girou no ar e voltou a usar os pés como uma alavanca.
Queijo seguiu até um espaço mais amplo, uma espécie de longe, rasgando e amassando montes de formulários contínuos que ficavam se enroscando nele quando passavam. Ali também havia cadeiras articuladas, um móvel que lembrava um bar e o Osaka. A impressora que continuava a cuspir sua fina língua de papel era uma unidade embutida na parede, um slot perfeito num painel polido à mão.
Ele passou por cima de um círculo de cadeiras e alcançou a impressora, apertando um pino branco à esquerda do slot. O barulho parou. Virou e se olhou para o Osaka. Seu painel frontal tinha sido perfurado pelo menos uma dezena de vezes. Os buracos eram pequenos círculos de bordas escuras. Esferas minúsculas de metal orbitavam o computador morto. Belo senso de orientação, ele disse para Malcolm.
Tom Badilho trancado, Mon, disse Maelcon do outro lado do lounge. As luzes diminuíram de intensidade, aumentaram no surto e voltaram a diminuir. Cage arrancou o papel do slot. Mais zeros. Wintermute olhou ao redor do lounge bege e marrom, o espaço repleto de arabescos formados pelas cubas de papel flutuante. É você aí com as luzes, Wintermute.
Um painel siltuado ao lado da cabeça de Maio Kun deslizou para cima, revelando um pequeno monitor. Maio Kun estremeceu de susto, limpou o suor da testa com uma espuma exposta num rasgão nas costas da luva e o virou para estudar o display. — Tu lê japonês, irmão? Casey podia ver os caracteres piscando rapidamente na tela. — Não, disse Casey.
Tombadilha é cápsula de fuga. Bot salva-vidas. Isso aqui parece contagem regressiva. Fecha o traje agora. Ele encaixou o anel do capacete e apertou os fechos. Como é que é? Ele está se mandando? Merda. Usando a parede para dar impulso, Casey disparou pelo papel emaranhado. A gente tem que abrir essa porta, cara.
Mas Maio Kuma apenas ficava ali, batendo na lateral do capacete. Kaze podia apenas ver os lábios dele se movendo através do lexão. Viu uma cota de suor sair num arco da faixa trançada na redinha de algodão roxo que o Zionita usava para prender os dreadlocks. Maio Kuma arrancou o capacete das mãos de Kaze e encaixou com suavidade e fechou as travas com as palmas da mão.
À esquerda do visor, LEDs vermelhos se acenderam, confirmando que o anel do capacete tinha ficado bem fechado. Não sei, japonês. Maiocum disse pelo transmissor do traje. Mas a contagem regressiva está errada. Apontou para uma linha específica da tela. Vedação não está intacta. Módulo, tombadilho. Lançamento com porta aberta. Armitage.
Casey tentou socar a porta. A física de zero geu jogou para trás em cima da massa de formulário contínuo. Curto! Não faça isso! Vamos conversar! Vamos! Casey! Não escuta, Casey! A voz quase não lembrava mais a de Armitage. Tinha uma calma bizarra. Casey parou de se debater. Seu capacete bateu na parede do fundo.
Lamento, Case, mas tem que ser assim. Um de nós tem que sair daqui. Um de nós tem que testemunhar. Se todos cairmos, a história acaba aqui. Eu vou contar para todo mundo, Case. Eu vou contar toda a verdade. Sobre Girling e os outros. E eu vou conseguir, Case.
Eu sei que vou conseguir. Chegará a Helsinki. Então, um silêncio súbito. Case sentiu esse silêncio invadindo seu capacete como se fosse uma espécie rara de gás. Mas é tão difícil, Case. Tão difícil, diabo. Eu estou cego. Corto, pare. Espere. Você está cego, cara. Você não pode voar.
Você vai bater na merda das árvores. E estão tentando te pegar, corto. Juro por Deus, foram eles que deixaram a escotilha aberta. Você vai morrer, não vai conseguir viver para contar o que quer que seja. E eu preciso da enzima, do nome da enzima. A enzima, cara. Casey estava gritando, a voz histérica. O feedback da microfone gritava nos fones do capacete. Lembre-se do treinamento, Casey. É tudo o que podemos fazer.
E então o capacete foi tomado por são dos babuciantes confusos, uma estática ensurdecedora, harmônicos que vivavam desde os tempos do Scream Fist. Alguns fragmentos de Rússia e uma voz estranha do meio oeste, muito jovem. Estamos caindo, repito. O Mahatandri está caindo, nós. O Intermute, gritou o Casey. Não faça isso comigo.
Lágrimas caíram de seus cílios e bateram no visor, formando pequenas gotas tremeluzentes de cristal. Então o Hanewa oscilou uma única vez com um grande estrondo, estremecendo, como se algo gigantesco e maciço tivesse atingido seu casco. Kaze imaginou o salvo sendo ejetado, impedido por travas explosivas, e um segundo furacão despedaçador de ar escapando.
arrancando o louco coronel corto do assento, de acordo com a reconstituição feita por Wintermute do minuto final do Scream Fist. Ele foi, Mon. Maio Kuhn olhou para o monitor. Escotilha aberta. Mute deve ter dado o override na trava anti-injeção. Kaze tentou limpar as águas, mas de raiva dos olhos. Seus dedos batiam contra o Lexan.
O IAT. Ele estava fechado hermeticamente, mas o chefão pegou o controle de ganchos com o tombadilho. O Marcos Garvey ainda está preso. Mas quem estava vendo a queda infinita de Hermitage em volta de Freeside, através de um vácuo mais frio que as estepes? Por alguma razão, ele imaginou em seu Burberry escuro as ricas lapelas da capa de chuva espalhadas à sua volta como as asas de um imenso morcego.
17. Conseguiu o que veio buscar? Perguntou o construto. O nível Kwang.11 estava preenchendo a grade entre si mesmo e o ICE da TA, com traços hipnoticamente intrincados de arco-íris, grades finas como cristais de gelo em uma vidraça no inverno. O intermulti matou a armitagem.
Atirou ele para fora num bote salva-vidas com a escotilha aberta. Puta que merda, disse o Flatline. Mas vocês não eram exatamente amigos do peito, eram? Ele sabia como anular os saquinhos das toxinas. Então o Intermute também sabe. Pode contar com isso. Não confio exatamente que o Intermute vai me dar isso de mão beijada.
A apavorante aproximação de gargalhada do construto raspou os nervos de Casey como uma lâmina de sem fio. Talvez isso signifique que você está ficando esperto. Ele acionou a chave de Simsteen. Seis horas, vinte e sete minutos e cinquenta e dois segundos pelo chip em seu nervo óptico.
Casey seguiu o avanço dela pela vilha Straylight por mais de uma hora, deixando que o análogo de endorfina que ela havia tomado aliviasse sua ressaca. A dor na perna havia desaparecido. Ela parecia estar andando dentro de uma baninha quente. O robô Brown estava empoleirado no seu ombro, seus minúsculos manipuladores, como clipes cirúrgicos almofadados, presos no policarbono do traje moderno.
Aliás, paredes eram de aço puro, com listras marrons de epóxi onde algum tipo de cobertura havia sido arrancada. Ela estava escondida da equipe de trabalho, agachada. A pistola de dardos nas mãos, seu traje cinza metálico, enquanto os dois africanos magos e seu carrinho de pneus de desenho animado passavam. Os homens tinham cabeças raspadas e vestiam macacões laranja.
Um deles estava cantando baixinho para si mesmo, em um idioma que Casey nunca havia ouvido. Os tons e a melodia alienígena se assustadores. O discurso da cabeça, o ensaio de Tergen sobre Straylight, voltou à sua memória enquanto ela avançava mais no labirinto que era aquele lugar. Straylight era louca.
Era a loucura crescida a partir do concreto resinoso misturado, a partir de rochas ou nares pulverizadas, crescidas a partir do aço soldado e de toneladas de badulakes, todos materiais bizarros que eles haviam enviado poço acima para forrar seu ninho bizarro. Mas era um tipo de loucura que ele não conseguia entender. Não era igual a loucura de Armitage, que agora imaginava que podia compreender.
Distorça a cabeça de um homem o máximo que puder. Depois retorça de volta na direção oposta. Reverta e torça novamente. O homem quebrava. Do mesmo jeito que se quebra um pedaço de fio. E a história havia feito isso para o coronel Corto. A história já havia feito o trabalho sujo.
Quando o Intermúltiplo encontrou, ao peneirar todos os detritos fresquinhos da guerra, penetrando o sorrateiro na área cinzenta de consciência como uma aranha d'água atravessando o espelho de um lago estagnado, as primeiras mensagens piscando na tela de um micro de criança num quarto escuro de um sanatório francês. O Intermúltiplo havia construído a mitagem praticamente do nada, com as memórias de corto no screaming fist com uma base.
Mas as memórias de Armitage não teriam sido as de Corto depois de um ponto determinado. Cage duvidava de que Armitage lembrasse da traição dos Nightwings caindo em chamas. Armitage havia sido uma espécie de versão editada de Corto. E quando o estresse da missão chegou a um determinado ponto, o mecanismo de Armitage desmoronou. Corto havia subido à tona, com sua culpa e sua fúria doentia.
E agora, corto a Armitage, estava morto, numa pequena lua congelada para a Freeside. Pensam nos saquinhos de toxinas. O velho Ashpoo também estava morto. O olho perfurado pelo dardo microscópico de Mori, privado da overdose que havia preparado para si. Aquela morte era ainda mais perturbadora. A de Ashpoo. A morte de um rei louco.
E ele havia matado a boneca que chamava de filha, aquela que tinha o rosto de Tergen. Casey tinha a sensação, enquanto cavalgava o input sensorial transmitido de mole pelos corredores da Straylight, que ele nunca havia realmente pensado em alguém como Ashpool. Qualquer um, tão poderoso quanto ele, imaginava que Ashpool havia sido como um sendo humano.
Poder, no mundo de Casey, significava poder corporativo. As aibatosos, as multinacionais que davam forma ao curso da história humana, haviam transcendido antigas barreiras. Vistas como organismos, haviam adquirido uma espécie de imortalidade.
Não se podia matar um Mazaibatsu, assassinando uma dezena de executivos principais. Havia outros esperando para subir de nível, assumir os cargos vagos, acessar os vastos bancos de memória corporativa. Mas até Sierra Spoo não era assim, e ele sentia uma diferença na morte de seu fundador. A T.A. era um atavismo, um clã. Ele se lembrava do lixo na câmara do velho.
A humanidade suja, as lombadas rasgadas e velhos discos de áudio em suas capas de papel. Um pé descalço, outro num chinelo de veludo. O Brown puxou o capuz do traje moderno e mole virou à esquerda, passando por baixo de outro arco. O intermute e o ninho. Uma visão fóbica das vespas nascendo, a metralhadora de lapso de tempo da biologia.
Mas as rebatos não eram mais ou menos assim. Ou a Yakuza, coméias, com memórias cibernéticas, DNA codificado em silício. Se a estrelidade era uma expressão da identidade corporativa da Tessiera Shpul, então a TA era louca como o velho fora. O mesmo emaranhado apoderecido de medos. O mesmo estranho senso de falta de objetivo.
Se ele estivesse se tornado o que desejavam ter sido, lembrou de mole ter dito. Mas Wintermult respondera que isso não havia acontecido. Cades sempre achara que os chefes de verdade, os reis de uma determinada indústria, seriam ao mesmo tempo mais e menos que pessoas. Ele havia visto isso nos homens que o aleijaram em Memphis.
vira o eixo afetar a aparência dessa atitude em Night City e isso lhe permitir aceitar a neutralidade e a falta de emoções de amitagem. Ele sempre imaginou isso como uma acomodação gradual e voluntária da máquina, do sistema, do organismo-mai. Era a raiz do cu das ruas, aquela postura conhecida que implicava conexões, linhas invisíveis que levavam até níveis ocultos de influência.
Mas o que estava acontecendo agora? Nos corredores da Vila Straylight. Trechos inteiros estavam sendo despidos de volta à estrutura nua do aço e concreto. Onde será que Peter está agora, hein? Talvez a gente veja aquele garoto daqui a pouco, ela murmurou. E a Armitage? Cadê ele, Casey? Morto, ele disse, sabendo que ela não podia ouvi-lo. Ele está morto.
Flipou. O programa chinês estava cara a cara com o ICE alvo. Tons de arco-íris sendo gradualmente dominados pelo verde do retângulo que representava os núcleos da TA. Arcos de esmeralda atravessando o vácuo incolor. Como é que tá aí, Dixi? Legal. Cabuloso demais. Esse negócio é fantástico.
Devia ter tido um desses lá em Singapura. Fiz o New Bank of Asia, véio de guerra, por um bom quinto do que eles valiam. Mas já foi. Essa coisinha aqui compensa tudo. Aí você fica pensando como seria uma guerra de verdade. Se esse tipo de merda estivesse nas ruas, nós estaríamos desempregados, disse Casey. Só porque você quer.
Espera você pilotar essa coisa lá para cima através do Black ICE. Falou. Alguma coisa pequena e decididamente não geométrica havia acabado de aparecer na extremidade oposta de um dos arcos esmeralda. Dixie. Tá, tô vendo. Só não sei se eu acredito. Um ponto marrom. Uma pulga contra a parede verde dos núcleos da TA.
Ela começou a avançar, atravessando a ponte construída pelo nível Kwang.11 e Casey viu que aquilo estava andando. À medida que avançava, a ascensão verde do arco se estendia, o policromo do vírus voltando, alguns passos adiante dos sapatos pretos velhos.
Uma coisa tem que admitir, chefia, disse Flatline, quando a figura baixinha amarrotada do finlandês parecia estar a poucos metros de distância. Nunca vi nada tão engraçado quando eu era vivo. Mas a risada e a sustentura não veio. Eu nunca havia tentado isso antes, disse o finlandês mostrando os dentes, as mãos enfiadas nos bolsos do paletó esfiapado. Você matou a Armitage, disse Cage.
Corto. É. A Armitage já tinha morrido. Eu tive que fazer aquilo. Eu sei, eu sei. Você quer a enzima. Ok, sem crise. Fui eu quem a deu para a Armitage em primeiro lugar. Quer dizer, fui eu quem disse a ele o que usar. Mas acho que talvez seja melhor deixar o acordo continuar valendo. Você tem tempo suficiente. Eu vou dá-la para você.
Só mais umas duas horas agora, certo? Casey ficou vendo a fumaça azul do partagas que o finlandês acendeu e se espalhar no ciberespaço. Vocês, meus camaradas, disse o finlandês. Você, então, é um pé no saco. O flatline aqui, se vocês fossem todos iguais a ele, seria muito simples. Ele é um construto.
Uma R.O.M. Ele sempre faz o que espero que ele faça. Minhas projeções diziam que não havia muita chance de mole aparecer no grande show de despedida de Ashpool. Só para lhe dar um exemplo. Ele suspirou. Por que ele se matou? Casey perguntou. Por que é que alguém se mata? A figura deu de ombro. Acho que sei. Se é que alguém sabe.
Mas levaria 12 horas para explicar os diversos fatores em seu histórico e como eles se interrelacionam. Ele já estava preparado para fazer isso há muito tempo, mas vivia voltando para o freezer. Meu Jesus, ele era um velho chato de merda. O rosto do finlandês ficou crispado de nojo. Está tudo ligado ao motivo pelo qual ele matou sua esposa. Principalmente, se você quiser a razão resumida.
Mas o que o fez passar do limite definitivamente? A pequena Tergen descobriu um jeito de mexer com o problema que controlava o sistema criogênico dele. Sutil também. Então, basicamente, ela o matou. Só que ele achou que havia se matado e sua amiguinha, o anjo vingador, acha que o pegou com um olho cheio de suco de molusco. O finlandês deu um pitaco na bituca do cigarro e o jogou na matriz lá embaixo.
Bom, na verdade, acho que dei a ter Jane uma dica ou outra. Um pouco do velho jeito de, entende? Wintermute disse Case escolhendo as palavras com cuidado. Você me disse que era apenas parte de alguma coisa a mais. Depois, você disse que não existiria se a incursão funcionar. E mole colocar a palavra no slot certo.
O crânio estilizado do finlandês fez um gesto afirmativo com a cabeça. Ok, então. Ok, então com quem a gente vai estar lidando depois? Se a Hermitage morreu e você também vai desaparecer, quem exatamente vai me dizer como tirar esse saquinho de toxina de merda do meu organismo? Quem é que vai tirar mole lá de dentro? Quero dizer onde, exatamente, onde os nossos rabos vão estar se a gente cortar você do circuito?
O finlandês tirou um palito de madeira do bolso e ficou olhando atentamente para ele, como um cirurgião examinando misture. Boa pergunta, ele disse por fim. Sabe salmão, um tipo de peixe? Esses peixes têm uma compulsão para nadar contra a corrente. Entendeu? Não, respondeu Casey. Bom, eu também tenho uma compulsão. E não sei por que.
Se for submeter você aos meus próprios pensamentos, vamos chamá-los de especulações sobre o assunto. Isso ele varia o equivalente a duas vidas suas. Porque eu já pensei muito no assunto e simplesmente não sei. Mas quando isso tudo acabar, se fizermos direito a coisa, serei parte de algo muito maior. O finlandês levantou a cabeça e olhou em volta da matriz.
Mas as partes de mim que são eu agora ainda estarão aqui. E você vai receber seu pagamento. Casey lutou contra uma vontade insana, mas coordenadas e pegaram o sujeito pelo pescoço. Logo acima do nó esfarrapado do cachecal velho. Enviaram os poligares bem fundo na laringe do finlandês. Bom, boa sorte, disse o finlandês.
Ele deu a meia volta, as mãos nos bolsos, e começou a subir de volta pelo arco verde. Ei, ô babaca, disse Flatline quando o finlandês já tinha dado uns pudés passos. A figura parou e se virou de leve. E eu? E o meu pagamento? O que é seu está guardado, ele disse. O que isso quer dizer?
Casey perguntou ao ver o tweed estreito desaparecer na distância. Eu quero ser apagado, disse o Constructor. Eu te disse isso, não lembra?
Straylotte lembrava que eles os shopping centers desertos de manhã cedo que ele conhecia na adolescência. Lugares de baixa densidade demográfica, onde as horas do amanhecer traziam uma imobilidade adequada, uma espécie de expectativa anestesiada. Uma tensão que fazia você ficar observando insetos se juntarem em chamas ao redor de lâmpadas em gaiolas sobre a entrada de lojas escurecidas.
Lugares de fronteira, logo depois dos limites de Sproul. Longe demais da movimentação noturna nervosa do núcleo quente. Havia aquela sensação de estar cercado pelos habitantes sonolentos de um mundo, despertando que ele não tinha interesse em visitar ou conhecer. De negócios tediosos, temporariamente suspensos. De futilidade e repetição prestes a despertar novamente.
Mal ele havia diminuído a velocidade agora, ou sabendo que estava se aproximando do seu objetivo, ou por preocupação com a perna. A dor estava começando a abrir caminho pelas endorfinas, e ele não tinha certeza do que isso significava. Ela não falava, mantinha os dentes trincados e regulava sua respiração com cuidado. Ela havia passado por muitas coisas que Casey não entendia, mas a curiosidade dele havia acabado.
Havia um quarto repleto de estantes e com livros. Um milhão de folhas achatadas de papel amarelado, pressionado contra capas de tecido ou couro. As estantes marcadas a intervalos regulares por etiquetas que seguiam um código de letras e números. Uma galeria tulhada onde Casey ficou olhando fixo, através dos olhos nada curiosos de mole. Uma placa de vidro estilhaçada e com traçados de pó.
Uma coisa com uma etiqueta. O olhar dela rastreou automaticamente a placa de bronze. La marie mise à nu par ses célibataires meme. Ela estendeu a mão e tocou no objeto. Suas unhas artificiais fazendo clac clac no sanduíche de Lexan que protegeu o vidro quebrado.
Havia também o que, obviamente, era a entrada para o complexo criogênico da testiera Shpul, portas circulares e vidros negros com contorno de crômago. Ela não vira ninguém, desde os dois africanos e o carrinho. E para que eles haviam assumido uma espécie de vida imaginária?
Ele os imaginou deslizando suavemente pelos halls do Straylight, seus crânios escuros e lisos reluzindo, movendo-se para frente e para trás enquanto um deles ainda cantava sua cançãozinha cansada. E nada disso tinha a ver com a vila Straylight que ele tinha esperado. Um cruzamento entre o castelo de contos de fala de Cat e uma fantasia semia esquecida de infância do santuário interno da Yakuza.
7 horas, 2 minutos e 18 segundos. Case, ela disse. Quero te pedir um favor. Ela baixou com dificuldade para sentar numa pilha de placas de aço polidas. A finalização de cada placa era protegida por um revestimento irregular de plástico claro. Ela abriu um rasgão do plástico da placa de cima, deslizando as lâminas sobre o polegar o indicador. A perna está mal, está sabendo?
Não pensei que ia ter que fazer uma subita dessas. E as endorfinas não vão segurar a onda por muito mais tempo. Então, talvez, estou falando apenas talvez, eu esteja com problema aqui. Então, se eu capotar aqui antes do Riviera... E ela esticou a perna, massageando a carne da coxa através do policarbono moderno e de couro parisiense. Quero que você diga a ele.
Diz pra ele que fui eu, entendeu? É só dizer que foi a mole. Ele vai entender, ok? Ela olhou ao redor do corredor vazio. As paredes nuas. Ali o piso era de concreto lunar. Era de concreto lunar cru. E o ar tinha cheiro de resina. Merda, cara. Nem sei se você tá ouvindo. Que é isso?
Ela fez uma caneta de dor, levantou-se, fez que sim com a cabeça. O que ele te disse, cara? Wintermute. Ele te falou da Marie France. Ela era a metade testier, a mãe genética de Tergen. E daquela boneca morta do Ashpoo, acho. Não consigo entender porque ele me contou isso. Ali naquele cubículo, um monte de coisa.
Por que ele apareceu como finlandês ou alguém que me contou isso? Não é só uma máscara. É que ele usa perfis de gente de verdade como válvulas. Ele se prepara para se comunicar conosco. Chamou isso de gabarito. Modelo de personalidade. Ela sacou a pistola de Dardis, amancando o corredor afora.
O aço nu e o epóxi escabroso acabaram abruptamente, substituídos pelo que Casey no começo pensou ser um túnel tosco, aberto na rocha sólida a explosivos. Maul examinou sua borda e viu que, na verdade, o aço era recoberto por uma camada de painéis de alguma coisa que parecia pedra fria. Ela se ajoelhou e tocou a areia escura espalhada pelo piso de imitação do túnel.
Parecia areia, fresca. Mas quando passou o dedo, o material se fechou como um fluido devido à superfície intocada. A cerca de 10 metros adiante, o túnel fazia uma curva. Uma luz amarela forte lançava sombras bem recortadas sobre as seções de pseudopedra das paredes.
Com um tranco, Casey percebeu que a gravidade ali era quase igual a da Terra, o que significava que ele teria de descer novamente depois da escalada. Agora, ele estava completamente perdido. A desorientação espacial era algo especialmente terrível para Cowboys. Mas ela não estava perdida, ele disse para si mesmo.
Alguma coisa ocorreu entre as pernas dela e saiu fazendo clic clic pela não areia do piso. Um LED vermelho piscou, o brown. O primeiro dos holofotes, ao. O primeiro das holos esperava logo depois da curva, uma espécie de tríptico. Ela baixou a pistola de dados antes que Casey tivesse tempo de perceber que o negócio era uma gravação.
As figuras eram caracturas de luz, cartoons em tamanho normal. Molly, Armitage e Casey. Os cês de Molly eram grandes demais, visíveis através de uma blusa de malha preta por baixo de uma jaqueta pesada de couro. Sua cintura era impossivelmente estreita.
Lentes prateadas cobriam metade do seu rosto. Ela segurava uma arma absurdamente elaborada, um formato de pistola quase perdida por baixo de uma infinidade de miras, silenciadores, luzes piscando. As suas pernas estavam abertas, a pelve projetada para a frente, sua boca fixa num sorriso de crueldade idiota. Ao seu lado, a armitagem estava rígida em posição de sentido, vestindo um uniforme caque esfarrapado.
Seus olhos, Casey viu, quando o mole deu um passo cuidadoso para a frente, eram minúsculas telas de monitor, cada uma exibindo a imagem azul acinzentada de uma vastidão de neve uivando, os troncos negros e nus de sempre verdes, curvando-se a ventos silenciosos. Ele passou as pontas dos dedos pelos olhos da televisão de Amitage, e então se virou-se para a figura Casey.
Ali, como se Riviera e Casey, sob o mesmo instante que o responsável por aquilo era Riviera. Não tivesse sido capaz de encontrar nada de parodiar. A figura que estava ali era uma boa aproximação daquela que ele via todo dia no espelho. Magro, ombros altos e um rosto esquecível por baixo do cabelo curto.
Ele precisava fazer a barba, mas no mundo real também. Molly deu um passo para trás. Olhou de uma figura para outra. Era um display estático. O único movimento era o vento silencioso das árvores negras nos olhos siberianos congelados de amitagem. Tentando nos dizer alguma coisa, Peter? Ela perguntou baixinho. Então avançou e chutou alguma coisa entre os pés da Ulo Molly.
Um barulho de metal batendo contra a parede e as figuras desapareceram. Ela se abaixou e pegou uma pequena unidade de display. Acho que ele consegue se plugar nessas coisas e programá-las diretamente, ele disse. Jogando o aparelho de lado. Ela passou pela fonte de luz amarela. Um globo incandescente arcaico embutido na parede. Protegido por uma esfera enverrujada de grandes e grandes expansão.
O estilo do suporte improvisado sugeria de algum modo, feito por uma criança. Ele se lembrou das fortalezas que havia construído com outras crianças em telhados e subsolo de prédios inundados. O esconderijo de uma criança rica, ele pensou. Aquele tipo de tosqueira custava caro. O que eles chamavam atmosfera.
Ele passou por mais uma dezena de hologramas antes de chegar à entrada dos apartamentos de Tergen. Um deles descrevia a coisa sem olhos no beco atrás do bazar das especiarias, ao se rasgar e se libertar do corpo deslaçado de Riviera. Diversos outros eram cenas de tortura. Os inquisidores sempre oficiais militares e as vítimas invariavelmente mulheres jovens.
Esses tinham a terrível intensidade do show de Riviera no Wing Team Ciclé. Como se tivesse sido congelado no flash azul do orgasmo. Mory desviou o olhar ao passar por eles. O último era pequeno e meio escuro. Como se fosse uma imagem que Riviera tivesse tido. Apesar... Opa.
o último era pequeno e meio escuro como se fosse uma imagem que riviera tivesse tido que arrastar por uma distância particular de memórias e tempo ela precisou se ajoelhar para examiná-lo ele havia sido projetado do ponto de vista de uma criança nenhum dos outros tinha planos fundos as figuras uniformes e instrumentos de tortura
haviam sido despleis de soltos mas aquele era uma vista completa uma onda escura de destroços se erguia contra um céu sem cor além de sua escrita os esqueletos blancos seme derretidos das torres da cidade a onda de destroços tinha a textura de uma grande
A onda de destroços tinha a textura de uma rede, vergalhões finos de aço retorcidos graciosamente como fios, placas de nome de concreto ainda pendurada neles. A parte da frente poderia ter sido, um dia, a praça de uma cidade. Havia uma espécie de toco, algo que sugeria uma fonte. Em sua base, as crianças e os soldados estavam congelados.
Tablo era confuso no começo. Moli deve tê-lo lido corretamente, porque ele a sentiu ficar tensa. Ela cuspiu e se levantou. Crianças, feras cobertas com trapos, dentes brilhando como facas, pústulas nos rostos retorcidos. O soldado caído de costas, boca e garganta expostas ao céu. Elas estavam se alimentando.
Bom, ela disse com algo que parecia gentileza em sua voz. Você é bem um produto de lado, não é, Peter? Mas tinha que ser. Nossa Tergen está chapada demais agora para abrir a porta dos fundos para qualquer ladrãozinho barato. Então, Wintermute. Opa. Então, Wintermute desencavou você. Para quem gosta, é um prato cheio.
Os amantes de demônios, Peter, ela estremeceu. Mas você a começou a me deixar entrar. Valeu, agora a festa vai começar. E ela começou a andar. O apasso rápido da verdade, apesar da dor para longe da infância de Riviera. Ela sacou a pistola de dados do coldre, retirou o pente de plástico.
Enfiou um no bolso e o substituiu por outro. E ela começou... Meteu o polegar no pescoço do tarde moderno. Rasgou até a virilha com um único gesto. A luna de polegar ímbrida. E o policarbonato duro como se estivesse camuflado. Ela se libertou dos...
braços e pernas, os estes farrapados escamuflando ao caírem na falsa areia. Então, que ele notou a música? Uma música que ele não conhecia. Tudo, metais e piano.
A estrada para o mundo de Tergen não tinha porta. Era um rasgão de cinco metros na parede do túnel. Escadas irregulares que desciam até uma curva larga e rasa. Uma pálida luz azul. Sombras que se moviam. Música. Case, disse ela e fez uma pausa. A pistola de dardos na mão direita. Ela levantou a mão esquerda, sorriu.
Tocou a palma da mão aberta com a ponta molhada da língua, beijando pelo link do cintinho. Tenho que ir. Ele sentiu uma coisa pequena e pesada na mão esquerda dela. O seu polegar tocando uma alavanca minúscula e ela começou a descer. Cara, que canseiro meu, Deus do céu. 18. Ela perdeu por uma fração.
Ela quase conseguiu, mas não chegou lá. Ela entrou certinho, pensou Casey. A atitude certa era uma coisa que ele podia sentir. Uma coisa que ele podia ter visto na postura de outro cowboy curvado sobre um deck, os dedos voando sobre o teclado. Ela tinha tudo. A coisa, os movimentos. E tinha juntado tudo isso para sua entrada.
Juntou tudo em volta da dor na perna e desceu marchando os degraus da escada de Tergen como se fosse dona do lugar. O cotovelo do braço que segurava a pistola colada no quadril, antebraço levantado, pulso relaxado, balançando o cano da pistola de dardos com a fleuma estudada de um duelista do século XVIII.
Era uma performance. Era como o auge de uma vida inteira de observação de fitas de artes marciais, daquelas vagabundas, do tipo que quis crescer assistindo. Por alguns segundos, ele soube. Ela era cada herói casca grossa. Son animal nos velhos vídeos da Shaw Productions. Mickey e Shiba, toda uma linhagem que recuava até Lee e Eastwood. Ela andava do jeito que falava.
Lady Tergene Marie-Francise Tessier-Aspoul havia escavado para si mesma um pequeno nicho com a superfície interna do casco da Vila Straylight, derrubando as paredes que eram sua herança. Ela vivia num único quarto tão amplo e fundo que o outro lado estava perdido num horizonte invertido, o piso oculto pela curvatura do fuso. O tetrabaixo irregular, feito com a mesma imitação de pedra que emparedava o corredor.
Aqui e ali, pelo chão, estavam pedaços recortados de parede, lembretes de labirinto que iam até a cintura. Havia uma piscina retangular azul turquisa centrada a dez metros do pé da escada. Os holofotes subaquáticos eram a única fonte de luz do apartamento. Ou assim parecia para Casey, quando o mole deu o seu último passo. A piscina lançava bolhas instáveis de luz sobre o teto acima.
Eles estavam esperando a beira da piscina. Ele sabia que os reflexos dela estavam turbinados, acelerados para combate pelos neurocirurgiões, mas não os havia experimentado no link do Sistim. O efeito era como rodar uma fita pela metade da velocidade, uma dança lenta e deliberada, coreografada com o instinto assassino e anos de treinamento.
Aparentemente, elas perceberam os três de uma só vez. O garoto preparado no tamponho da piscina. A garota sorrindo sobre a borda da taça de vinho. E o cadáver de Ashpoo, o buraco do olho esquerdo, escancaradamente preto e descomposto sobre seu sorriso de boas-vindas. Seus dentes eram muito brancos. O garoto mergulhou. Esguio, moreno. Suas formas eram perfeitas.
A granada deixou a mão dela antes que as mãos dele tocassem a água. Casey viu o que era exatamente a coisa no instante em que ela rompeu a superfície. Um núcleo de explosivos de alta potência envolto em 10 metros de fio de aço fino e frágil. A pistola zuniu quando ela disparou uma tempestade de dados explosivos no rosto e no peito de Ashpoo. E ele desapareceu.
Nuvens de fumaça subindo do encosto todo furado da cadeira de piscina branca e vazia. O cano girou na direção de Ter Jane quando a granada detonou. Um bolo de casamento simétrico de águas subindo, quebrando, caindo de volta. Mas o erro já havia sido cometido. Rireu, nem chegou a tocá-la. A perna dela cedeu. No garve, Casey soltou um grito.
Você demorou, disse Riviera enquanto vasculhava os bolsos dela. As mãos dela desapareceram na altura dos pulsos numa esfera preta fosca do tamanho de uma bola de boliche. Eu vi uma chacina em Ankara, ele disse, arrancando coisas da jaqueta dela com os dedos. Uma explosão de granada, numa piscina. Parecia uma explosão muito fraca, mas todos morreram imediatamente de choque hidrostático.
Cage assentiu tentando mover os dedos. O material da bola parecia não oferecer mais resistência do que espuma sintética. A dor na sua perna era excruciante, impossível. Um padrão moiré vermelho se deslocava em sua visão. Eu não mexeria os dedos se fosse você. O interior da bola pareceu se contrair ligeiramente. É um brinquedo sexual que Jane comprou em Berlim.
Mexa mais os dedos e eles vão ser totalmente esmagados. É uma variação do material que usam para fazer este piso. Alguma coisa a ver com moléculas, acho. Está sentindo dor? Ela grunhou. Parece que você feriu sua perna. Os dedos dele encontraram um pacote fino de drogas no bolso traseiro esquerdo da calça jeans dela. Ora. A última dose que o Ali me mandou, e bem na hora.
A rede cambiante de sangue começou a girar em espiral. Rideu, disse outra voz, uma voz de mulher. Ela está perdendo a consciência. Dê alguma coisa para ela. Para esse parador. Ela é muito bonita, não acha, Peter? E esse tipo de óculos é moda de onde ela vem? Mãos frias, sem pressa, com certeza de um cirurgião. A picada de uma agulha.
Não sei dizer, Riviera estava falando. Nunca vi o habitat nativo dela. Eles vieram me pegar na Turquia. Os prau, sim. Nós temos interesses ali. E uma vez mandamos Rideo para lá. Foi culpa minha, na verdade. Eu havia deixado alguém entrar, um ladrão. Ele levou o terminal da família. Ela riu. Eu facilitei para ele. Só para irritar os outros.
Era um menino bonito, meu ladrão. Ela está acordando, Hideo? Será que ela não devia tomar mais? Mas e ela morre, disse uma terceira voz. A rede de sangue deslizou para vermelho. A música retornou, metais de piano. Música para dançar. Casey despluga.
Pós-imagens, as palavras piscadas dançaram sobre os olhos e a testa franzida de Maia com um enquanto o case removeu os trozos. Tu gritou, Mon, agora é mesmo. Mole, ele disse, a garganta seca. Ela está ferida. Pegou uma garrafa de squeeze plástico branco bordado na rede G e exprimiu um gole de água morna na boca. Não estou gostando do jeito que esta merda está indo.
O pequeno monitor Cray se acendeu. O finlandês contra um fundo de retorcido e compactado. Nem eu. Temos um problema. Mayocon se levantou rápido sobre a cabeça de Casey. Girou e olhou por sobre o ombro dele. Quem é esse, Monk? É só uma imagem, Mayocon. Casey descansado. Foi um jeito que conheci no Sproul. É o intermúdio que está falando.
A imagem para fazer a gente se sentir à vontade. Merda nenhuma, disse o finlandês. Como eu disse para a Molly, isto não são máscaras. Eu preciso delas para falar com vocês. Porque não tenho muito do que vocês consideram como personalidade. Mas isso são bobagens, Casey. Bobagens. Porque eu acabei de falar e temos um problema.
Então, expressai-vos, Moot, disse Mylcon. A perna da Molly está caindo para a conversa. Ela não pode mais andar. O combinado foi que ela desceria até lá, entraria, tiraria Peter do caminho, arrancaria a palavra mágica de Tergeni, iria até a cabeça e diria a palavra. Agora estragou tudo. Então eu quero que vocês dois vão lá atrás dela. Cage olhou para a tela. Nós?
E que mais? Aerold, disse Case. O cara da Babylon Rocker, amigo do Maocun. Não, tem que ser vocês. Tem que ser alguém que entenda a mole, que entenda a Riviera. Maocun pelos músculos. Você deve estar se esquecendo de que estou no meio de uma pequena encursão aqui. Esqueceu? Foi pra esse que você me trouxe aqui.
O tempo está acabando. Para valer. O verdadeiro link entre seu deck de Straylight é uma transmissão de banda alternativa no sistema de navegação do Garvey. Vocês vão levar o Garvey para um cais muito particular que vou lhes mostrar. O vírus chinês já penetrou completamente o tecido do Osaka. Não há no Osaka agora.
Não há nada no Osaka agora a não ser o vírus. Quando vocês atracarem, o vírus será interfaceado com o sistema de detecção da Straylight. E vamos coortar a banda alternativa. Você vai levar seu deck, o Flatline, Maio Koon. Você vai encontrar Tergen, arrancar a palavra dela, matar Riviera e pegar a chave com mole. Você pode manter o raço do programa plugando seu deck ao sistema de Straylight. Eu vou cuidar disso para você.
Há um plug padrão na parte de trás da cabeça, atrás de um painel com cinco zicones. Matar Riviera? Matar Riviera. Keiji ficou parado ali, piscando, encarando a representação do finlandês. Sentiu Mael Koon colocar a mão em seu ombro. Ei, você está esquecendo uma coisa. Ele sentiu o ódio subindo e uma espécie de prazer.
Você fodeu com tudo. Você explodiu os controles dos ganchos quando explodiu o Armitage. O Han-Niwa nos deixou presos. A Armitage flitou o outro Osaka e os mainframes caíram com um tombadilho, certo? O finlandês fez que sim com a cabeça. Então a gente está preso aqui. Isso quer dizer que você está fodido, cara. Ele queria rir, mas o riso ficou preso na sua garganta.
Case, Mon, o garve é um rebocador. É isso aí, disse o finlandês. E sorriu. Está se divertido no mundão velho de guerra lá fora? O construtor perguntou quando Case tornou-se conectar. Achei que era o intermute solicitando o prazer. É, pode apostar. Tudo ok com o Kwang?
Pai bola, vírus matador. Ok, estou com os problemas, mas estamos trabalhando a respeito. Quer me dizer o que é? Não tenho tempo. Bom, garoto, não ligue para mim. Eu estou morto mesmo. Vai se foder, disse Casey e flipou, cortando o ruído de unhas arranhando que era a gargalhada do Flatline. Ele sonhava com um estado envolvendo muito pouco de consciência individual.
Tia Dern estava dizendo. Ela segurava um camafel grande nas mãos e o estendeu para a mole ver. O perfil esculpido ali era muito parecido com o seu. Extase animal. Acho que ela encarava a evolução do cérebro anterior como uma espécie de ramificação. Retirou o broche e o estudou, inclinando-se para captar a luz em diferentes ângulos.
As penas em alguns aspectos elevados de um indivíduo, um membro do clã, sofria as consequências mais dolorosas da autoconsciência. Mori concordou com a cabeça. Keiji tembrou na injeção. O que será que eles haviam dado a ela? A dor ainda estava lá, mas vinha através de um foco estreito de impressões embaralhadas. Vermes de neão retorcendo-se na coxa dela.
o roçar de aninhagem, o cheiro de crio fitando. Sua mente recuou. Se ele evitasse se concentrar nisso, as impressões de sobrepunham tornavam-se um equivalente sensorial do ruído branco. Se aquilo podia fazer isso com o sistema nervoso dela, como estaria sua mente? Sua visão estava anormalmente clara e brilhante, mais aguçada até do que de costume.
As coisas pareciam vibrar, cada pessoa ou objeto sintonizado a uma frequência minimamente diferente. As suas mãos, ainda travadas na bola preta, repousavam no seu colo. Ela estava sentada em uma das cadeiras da piscina, a perna quebrada esticada à sua frente sobre uma rede forrada com peles de camelo.
Tergen estava sentada logo em frente em uma outra rede, encolhida num roubo de gelaba enorme de lã escura. Ela era muito jovem. Para onde ele foi? Perguntou Molly. Tomar sua dose? Tergen deu de ombros por baixo das dobras do roubo pesado e branco e afastou um cacho de cabelo preto dos olhos.
Ele me disse quando deixar você entrar. Disse ela. Não, disse por quê. Tudo tem que ser um mistério. Você teria nos machucado? Cage sentiu mole e pise estar. Eu o teria matado. Eu teria tentado matar o ninja. Em seguida, deveria conversar com você.
Por quê? Perguntou Terjane, enfiando o camafel de volta para dentro de um dos bolsos internos do Digelaba. E por quê? E o quê? Molly parecia estar estudando os alços altos e delicados, a boca larga, o nariz aquiline estreito. Os olhos de Terjane eram escuros, curiosamente opacos. Por que eu odeio? Ela disse finalmente.
E o porquê disso é o jeito como sou programada. O que ele é e o que eu sou. E o show, disse Tergeni. Eu vi o show. Molligan acordou com a cabeça. Mas se deu. Por que eles são os melhores? Porque um deles matou um parceiro meu uma vez. Tergeni ficou muito sério. Pegueu as sobrancelhas.
Porque eu precisava ver, disse Molly. E depois nós teríamos conversado, você e eu? Tipo assim? Os seus cabelos escuros eram muito retos, partidos ao meio e puxados para trás num nó de prata de lei opaca. Vamos conversar agora? Tire esta coisa daqui, disse Molly levantando as mãos presas. Você matou meu pai, disse Tergeni, sem mudar absolutamente nada em seu tom de voz.
Eu estava vendo pelos monitores. Os olhos de minha mãe, ele os chamava assim. Ele matou a boneca. Era a sua cara. Ele gostava de grandes gestos, ela disse. E então Rivera estava ao seu lado, radiante de drogas, vestindo o modelito macacão presidiário que usara no jardim do telhado do hotel. Estão se conhecendo?
Ela é uma garota interessante, não é? Eu achei isso quando a vi pela primeira vez. Passou por Tergen. Isso não vai funcionar, você sabe. Não vai, Peter. Molly conseguiu dar um sorrisinho cínico. O Intermute não será o primeiro a cometer o mesmo erro. Me subestimar. Ele atravessou a beirada de azulejos da piscina até uma mesa de esmalte branco e serviu água mineral em um copo raibol de cristal.
Ele falou comigo, Molly. Suponho que tenha falado com todos nós. Você e Casey, seja lá o que exista do Hermitage para se conversar. Ele não consegue realmente nos entender? Você compreende? Ele tem seus perfis, mas são apenas estatísticas. Você pode ser seu animal estatístico, querida. E Casey não é nada. Mas eu possuo uma qualidade inquantificável pela própria natureza. Toma um gole.
E o que é exatamente isso, Peter? Perguntou Molly, a voz sem emoção. Riviera deu um sorriso de orelha a orelha. Perversidade. Ele voltou até onde as duas mulheres estavam, sacudindo a água que parecia no denso cilindro escavado de cristal de rocha, como se gostasse do peso da coisa. O desfrutar de um ato gratuito. E tomei uma decisão, Molly.
Uma decisão totalmente gratuita. Ela ficou esperando, olhando para ele. Ah, Peter. Tergen disse com um tipo leve de exasperação, normalmente reservado para crianças. Nenhuma palavra para você, mole. Ele me contou isso, sabia? Tergen conhece o código, claro. Mas você não o terá. Nenhum intermute.
Minha Jane é uma garota ambiciosa, a sua maneira perversa. Voltou a sorrir. Ela tem projetos sobre o império familiar e uma dupla de inteligências artificiais insanas. Por mais contraditório que possa ser esse conceito, só seria um obstáculo. Então aí vem o Riviera dela para ajudá-la, sabe? E o Peter diz, fique na sua. Toque os disquinhos de swing preferidos do papai e deixe que o Peter chame para...