Episódios de Bom dia, Obvious

Coragem para recomeçar, com Luanda Vieira

30 de março de 202651min
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E quando a vida que a gente sonhou deixa de fazer sentido?

Neste episódio do Bom Dia, Obvious, Marcela Ceribelli conversa com a jornalista e escritora Luanda Vieira sobre o que acontece quando tudo que lutamos para construir começa a se afastar da gente. 

A convidada, que acaba de lançar o livro Nada é definitivo: toda mudança requer coragem, revisita a própria trajetória para elaborar experiências e refletir sobre esgotamento, medos e mudanças. 

A conversa passa por temas como burnout, obediência feminina, sucesso, sintomas de adoecimento, tokenismo, racismo, amor-próprio e amizade feminina.

Um episódio sobre a coragem de viver novos sonhos. 

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Participantes neste episódio2
M

Marcela Ceribelli

HostJornalista
L

Luanda Vieira

ConvidadoJornalista e escritora
Assuntos1
  • Reabilitação de GarotinhoBurnout · Obediência feminina · Sucesso e saúde mental · Tokenismo · Racismo · Amor-próprio · Amizade feminina
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Não devia ser mais tarde que nove da manhã, mas a endorfina do pós-treino, com a alegria da surpresa de ver um rosto não só conhecido, mas também muito querido, talvez tenha me feito falar mais alto que o normal. Eu chamei a Luanda e a gente se abraçou numa interação que até podia ser protocolar.

Mas se tratando da gente, claro que não seria. Não demorou muito pra gente falar sobre o que havia de novo nas nossas vidas e se você sabe aonde estou chegando com essa história, provavelmente leu meu livro Aurora. Foi ali que ela me contou, ainda um pouco sem saber se estava contando uma boa ou uma má notícia, que após o burnout havia pedido demissão do cargo do qual havia ocupado nos últimos anos. Foi ali que disse a frase que se tornaria capítulo do meu primeiro livro.

Chegou a hora de sonhar de novo. De lá pra cá, Luanda se tornou apresentadora do podcast Corre Delas, sentou mais de uma vez na honrosa cadeira de jornalistas do programa Roda Viva e agora lança seu livro Nada Definitivo. Toda mudança requer coragem.

Eu não poderia concordar mais. Bom dia, óbvios. Eu sou Marcela Ceribelli e hoje recebo a jornalista Luanda Vieira para falarmos sobre como ser sincera consigo mesma é mais importante do que ser coerente com a versão antiga. Sobre como a felicidade não é um resultado garantido. É uma hipótese que a gente testa. Sobre como mudar exige desapego não só da rota, mas também da identidade que cargos e relações forneceram para nós até ali. E responder a pergunta.

O que acontece quando a vida que você lutou para construir começa a te afastar de si mesma? E antes de tirarmos juntas todas as nossas dúvidas, me adianto para que, caso o seu desejo para o final desse ano seja ler, estudar e estar mais perto de mulheres que pulsam conhecimento, está aberta a lista para a pré-venda da segunda temporada do meu Clube do Livro.

Nele, a gente vai ter encontros semanais com os maiores especialistas do país sobre pautas abordadas em livros que leremos ao longo de 12 meses. O link para ser a primeira a saber quando as inscrições abrirem está na descrição do episódio. Bora para o nosso papo? Bom dia, Luanda!

Marcela, eu já tô chorando. Eu sabia que eu ia chorar, mas eu não sabia que era logo de cara, assim. Bom dia, obrigada pelo convite. Eu tô muito feliz de estar aqui. Acho que a gente vai falar sobre isso, mas…

Esse livro tem muito a ver com o nosso encontro, nesse dia que você descreve, sabe? Eu acho que ali mudou tudo na minha vida. Ali me deu muito mais coragem, que é o tema desse livro. E enfim, não tinha como eu não chorar. Obrigada. Obrigada eu! Obrigada eu, porque…

Foi uma questão de minutos. E também faz muito parte da minha história. Porque num outro ambiente, também de academia. Você foi uma das primeiras pessoas que eu falei que eu tava me separando. Eu lembro. E eu lembro que eu senti assim, eu preciso contar pra Luanda.

Porque você sempre foi um lugar de confiança. Bom, então vamos começar com uma pergunta que veio diretamente da minha leitura atual. Que é um livro que eu tô brincando com as pessoas que eu não sei se eu indico, porque ele é tão pesado. Você leu o Triste Tigre?

Não, ainda não. É um livro sobre um evento traumático na vida dessa autora. Mas que quando ela se refere ao passado dela, ela diz que ela não sabe se ela se chama de eu ou de ela. Se ela consegue retornar pra esse corpo.

E eu pensei, será que a Luanda, quando pensa no início dessa caminhada, ela pensa a Luanda, ela, ou ainda é o eu? Você consegue voltar praquele corpo? Ou isso já é um outro capítulo da sua história? Mas, nossa, começa forte. É ela, a Luanda desse livro é ela.

Mas quanto mais eu olho pra esse livro, quanto mais eu preciso elaborar ele. Porque eu tô há três anos com ele, escrevendo e finalizando e tal. Mas agora ele vai pro mundo, né? Então, quanto mais eu elaboro, mais eu vejo que ainda existe um pouco daquela Luanda que eu chamo de ela. Sabe? Eu só consegui escrever esse livro falando dela porque sou eu hoje. Eu precisei passar por tudo que eu passei. Então...

de vida mesmo, porque eu acho que enquanto a gente tá passando pelas coisas e o meu livro diz muito sobre isso que é um livro de memórias você só tá vivendo, você não sabe exatamente o que tá acontecendo ali ou pelo menos a Luanda daquela época não sabia hoje acho que a gente tem um pouco mais de noção assim, você consegue entender, tô numa situação ah, isso é racismo, tô numa situação ah, isso é machismo, na época eu não tinha essa noção ah, isso é machismo

Então, tem muito dela em mim hoje, que talvez seja a insegurança e o medo do que esse livro pode causar, porque você está escrevendo e ele está aqui com você, né? Quando ele vai para o mundo...

Você fala, ferrou. E agora? O que as pessoas vão pensar? Então, acho que nesse lugar, assim, eu não sou a mesma. Mas tem um pouco. É difícil, ainda tá muito confuso na minha cabeça. Mas você faz uma pergunta que é uma coisa que eu tenho me questionado em análise o tempo inteiro.

Sou eu, é ela, o que é isso? Mas acho que no fim das contas tem uma junção de todas nós, né, assim. É, o livro é um congelamento que a gente tá muito pouco habituada em tempos digitais. Porque quando eu cito Aurora, por exemplo, aqui se eu for ler Aurora agora, me dá vontade de editar inteiro.

Eu falo, nossa, não me representa mais algumas coisas, não sou mais eu. Mas ela, aquela Marcela, escreveu aquele livro. E quando você diz, é o que eu posso te dizer que muito pouco importa como ele vai ser recebido, contanto que você tem escrito o que você queria escrever. Porque é tão imprevisível a reação dos outros. Você escreveu o livro que você queria escrever?

Escrevi, não tenho dúvidas, assim. E é isso que me deixa muito feliz e, ao mesmo tempo, muito insegura, sabe? E acho que é o que a minha analista fala o tempo inteiro. É um livro que me deixa extremamente vulnerável. É um livro que fala de coisas que…

Eu nunca falei pra ninguém, assim, sem ser minha família. Detalhes da minha família que eu nunca expus, porque eu não tinha necessidade em outras plataformas de expor. Mas eu acho que esse livro era um livro que eu precisava me curar também de traumas. E eu entendi, mano, no meio do meu processo, assim, de autoconhecimento, que de alguma forma...

Eu sou esse veículo pra que outras pessoas se curem ou que não adoeçam, não cheguem a adoecer. E eu gosto de estar nesse lugar, sabe? Eu peguei isso pra mim, desde o meu burnout lá atrás, eu entendi que eu seria essa pessoa que ia falar Então, vamos lá. Gente, tá acontecendo isso comigo e tá tudo certo, sabe? Porque... E aí E aí

Foi tão ruim, é tão ruim passar por determinadas situações que você não deseja nem pro seu pior inimigo. Se é que eu tenho inimigo, mas você não deseja, sabe? Pra ninguém. Então, eu quero muito ser essa comunicadora que pega na mão com as palavras e fala, ó, aconteceu isso comigo. Cada história é diferente, obviamente.

Mas tem ali, e eu escrevo de um jeito que eu tento amarrar dores universais com experiências pessoais, sabe? Então, acho que todo mundo vai se identificar de alguma forma e eu quero que se identifique justamente nesse lugar de olhar e refletir o que eu posso fazer com a minha vida agora, sabe? De sair do lugar, da zona de conforto, assim. Então…

É muito doido, mas eu acho que você estava falando uma coisa também, vou voltar para o Ela e Eu, mas é muito importante também que a gente olhe para essa Ela com respeito e carinho, né? Que a gente consiga entender isso, que quando eu escrevi esse livro, eu era uma pessoa. Hoje eu sou outra, de fato. Mas conseguir se acolher em todas as fases, acho que é essencial.

Mas se colocando de novo no corpo dela, até pra gente conseguir fazer essa travessia dessa história. Qual era o seu sonho naquele momento? O que a Luanda estava sonhando e o que ela entendia que ela ia conquistar com aquilo que ela estava almejando?

Mas naquele momento, eu era extremamente focada na minha profissão. Eu acho que eu passei uma vida inteira com as pessoas, ainda que indiretamente, falando que sonhar não era pra mim. E eu não entendia o porquê, sabe? Eu não entendia que era porque eu era mulher e porque eu era mulher negra. Eu não entendia isso, porque isso nunca foi exposto tão…

abertamente, sabe? Tanto em casa, com os meus pais quanto na vida, assim, mesmo. Então, eu queria provar que eu ia conseguir ser uma editora de moda antes dos 30 anos. Você tinha essa meta? Eu tinha essa meta com datas, assim. Eu tinha datas. Bom pra ansiedade, né?

Então, menina, não à toa é isso. Desencadeou tudo que desencadeou em mim, sabe? Mas você vê o quanto… Eu fico muito feliz por amigos que entram nessas listas e tal. De conquistar coisas antes dos 30. Mas acaba com a gente, de uma forma. Porque quem não tá nessas listas, fica… E ué!

Será que não tá certo o meu caminho? Será que a minha conquista não é tão legal quanto essa? Entra num lugar de comparação que eu odeio, assim. Mas que foi o que me movimentou na adolescência. Eu quero ser editora de moda de uma revista legal antes dos 30.

Mas você não se arrepende de ter tido esse desejo? De jeito nenhum, de jeito nenhum. O que eu me arrependo, mas eu também nem tenho como me arrepender foi de percorrer o caminho que eu percorri como eu percorri. Sem descansar, sem voz até. Achando que eu não poderia me impor achando que eu não poderia falar o que eu achava verdadeiramente que eu tinha que ser muito obediente ali pra eu conquistar o meu desejo que dependia de terceiros. Porque se fosse por mim…

O que criaria a minha revista seria essa editora de moda, sabe? Mas eu precisava do outro. Eu acho que é muito complicado quando o nosso sonho esbarra com o outro. O outro tem a possibilidade de te fornecer esse sonho. E eu acho que é nesse caminho que a gente adoece. É nesse caminho que a gente se perde. A gente se perde da nossa essência. E eu me perdi da minha essência.

Mas na época, eu não sabia, eu simplesmente não tava vendo isso. Eu só tava vendo os 30 chegando e eu precisava chegar no meu sonho também. Então, é muito interessante, assim, porque hoje em dia, tudo que acontece na minha vida, como esse livro, por exemplo.

ele é uma surpresa pra mim, eu não desejei esse livro desde a minha adolescência ele é resultado do trabalho que eu fiz a vida inteira e é uma surpresa boa, porque até os 30, hoje eu tô com 37 até os 30, era tudo muito planejado o que eu queria, sabe? só que esse planejar também vem com a ansiedade, vem com a depressão vem com tudo que adoece a gente e...

eu me perdi, mas eu não me arrependo do caminho que eu percorri, eu só fico triste de não ter tido ninguém olhando pra isso, ou eu mesma olhando pro quanto eu tava conquistando sim mas e a minha saúde?

Sabe, então hoje a minha régua de sucesso tá muito mais relacionada a como eu tô emocionalmente e fisicamente à minha saúde e às coisas que eu conquisto dentro da minha casa que aí sim, óbvio, vem a partir do trabalho do que exatamente ter um status de ai, um cargo tal, ou ai, vender tantos livros óbvio que eu quero vender livros, mas…

Mudou a régua, sabe? Mas com certeza foi aquela Luanda que me trouxe até aqui. Não tem como negar isso. Tem uma palavra que você trouxe na sua resposta que tem sido minha palavra de estudo nos últimos tempos. E quando isso acontece, pra mim é uau, que é obediência.

Sim. Porque eu tenho feito muitos paralelos dentro dos meus estudos sobre obediência, medo, loucura. No sentido do que é esse conceito de loucura feminina. Mas não é nisso que eu vou adentrar agora. Mas é interessante você trazer a obediência. E eu queria te pedir pra fazer um exercício de…

Quais que eram as cenas ou o que o seu corpo vivenciava quando ele estava sendo obediente nesses ambientes? Eu vivia desconfortável. Quando eu comecei a tratar a ansiedade, fazer atividade física e tal, que o meu corpo não estava mais naquele estado de alerta, falei, gente, é assim que vocês vivem?

Quem não tem ansiedade, quem não precisa ser obediente, quem não precisa colocar uma máscara, talvez, todo dia pra sobreviver, porque eu precisava, sabe? E aí eu vi o quão bom era viver, de fato, porque eu vivia no desconforto. Então eu acho que nesses momentos eu tava sempre… Era uma repulsa, assim, eu não queria fazer aquilo, mas eu precisava fazer, ou achava que precisava. Então eu tava sempre muito desconfortável. E qual foi o seu primeiro ato de desobediência?

Eu acho que pedir demissão, quando eu olho e falo, eu vou embora, eu não preciso passar por isso, eu não quero passar por isso e esse nem é mais o meu sonho. Porque também tem essa questão, né, às vezes a gente chega no sonho e entende que o sonho mudou. Não que não fez sentido, mas ele muda, porque a gente muda. Então…

Eu acredito que foi quando eu pedi demissão, porque envolve muita coisa, assim. A surpresa na época, porque eu era tão devota àquele trabalho, eu vestia a camisa mesmo quando tudo estava desmoronando.

E coisas que não tinham a ver comigo. E não precisava de fato, mas eu queria defender com unhas e dentes e tal. Então tinha a questão da surpresa da equipe quando eu vou embora. Tipo, como assim? Esse não era seu sonho? Que era o melhor lugar do mundo pra você estar.

Tem a surpresa familiar também, que eu venho de uma família de funcionários públicos que tem a estabilidade do trabalho e tal. Então, não, imagina. Como assim você vai sair, vai ser autônoma, vai fazer a sua própria vida? Não, isso não dá certo. A gente precisa de estabilidade. Que aí eu acho que tem também uma questão de raça, que é uma preocupação de uma mulher negra sendo empreendedora.

E tinha também a questão das pessoas que me acompanhavam. Então, eu fiquei muito atrelada. Pra eu tomar a decisão, eu tava muito atrelada a essas pessoas. A opinião dessas pessoas. Que dividia entre pessoas que eu sabia que estavam se inspirando em mim. E que era muito importante que eu permanecesse naquela cadeira. Pra que essas pessoas pudessem ter força pra prosperar. Não necessariamente pessoas que você sabe nomear.

Não, não, não, não, não. Pessoas que você sabe que… Pessoas que eu sei que acompanhavam o meu trabalho na época e tal. E ao mesmo tempo, dentro desse nicho de pessoas também tinham pessoas que não entendiam… Não levavam a sério a questão da saúde mental. Achava que o que eu tava fazendo ali… Ai, que mimada, nossa, ela pode… De fato, eu tinha condições financeiras mesmo, porque…

Nesse livro, eu falo muito sobre a coragem de desistir, a coragem de se escolher, na verdade. Mas eu sei também que a gente só pode ter essa coragem quando a gente tem uma independência em vários aspectos. E acho que isso você fala muito bem no seu segundo livro, que é essa independência financeira, ou uma família, ou alguém que possa te proporcionar esse…

conforto pra você tomar essa decisão de mudar a vida completamente, mas eram muitas opiniões de vários lugares lugares que tinham sentimento pra mim, que era minha família pessoas que eu não conhecia, mas a gente se deixa levar

por essas opiniões o tempo inteiro. Por mais que a gente saiba exatamente o que vai fazer bem pra gente, o que a gente quer, o que o nosso corpo se sente mais confortável fazendo, a gente se pega em muitos momentos pensando, ai, mas e fulano de tal? O que ele vai achar?

E fulano? E minha mãe? E não sei o quê. E aí, é esse momento que acho que também dá o primeiro de desobediência, assim. Que é, eu vou fazer o que eu quero, o que eu tô precisando. E acho que depois daquilo, eu posso ter feito isso tem cinco anos.

No máximo, 10 coisas que eu não quis fazer, mas eu fiz. De resto, eu aprendi a falar não. E fazer exatamente o que eu quero, na hora que eu quero. E não tem coisa melhor. Eu acho que hoje, pra mim, sucesso é isso, sabe? Eu poder falar, putz, não vou, não quero, não faz sentido pra mim. Ou se tá todo mundo falando, não, não vai. Ah, quero ir sim. Me interessa, sabe que me interessa.

Sabe, ter uma opinião baseada na minha opinião, de fato. Nada mais libertador pra mim do que… É engraçado isso que você fala de o que fulano vai pensar. Porque todo mundo tem essa plateia invisível. E o que eu tenho treinado dentro da minha cabeça é estou aqui sozinha. Em que sentido? Sabe quando você tá… Sei lá.

lendo um livro, assistindo alguma coisa. E aí, de repente, você lembra de uma situação que você viveu. Você fica com vergonha de si mesma, você se arrepende. Agora, tenho treinado na minha cabeça a pensar eu estou aqui sozinha, eu estou visitando essa memória sozinha. Porque as pessoas que estavam vivendo aquilo ali comigo devem estar pensando em outra situação. Exato.

Então esse lugar é… Eu vim sozinha visitar o escombro de algo que já aconteceu, entende? Sim, entendo perfeitamente. Tem uma parte do livro que eu conto justamente uma história que me dá uma agonia. Toda vez que eu penso nela, agora como eu escrevi, revisitei muito, tô melhorando em relação a isso. Mas eu sempre falo… No momento, as pessoas talvez até falem. Ai, nossa, olha, olha ela.

Mas a pessoa vai virar, vai pra casa dela. Tem os problemas dela também, tem as questões dela. E tipo, ah, alguém também tá falando de mim. Então, pode até existir o comentário, a crítica e tal. Mas ele dura no máximo, assim, um minuto, sei lá. Que é o tempo que a pessoa tá fazendo e depois ela esqueceu. Já na Rosa me ensinou, né? Geralmente, essas crises duram três dias.

Ela fala, amiga, conta, bota no cronômetro. Vai passar, porque assim, outra pessoa vai pedir demissão outro casal vai se separar, outra pessoa vai falar besteira. Exato. E a vida segue.

Agora, a gente fala muito e já há alguns anos, né? Burnout, burnout, burnout. Mas eu queria saber, o que apareceu de sintoma pra você? O meu sintoma principal foi que… Sempre eu faço essa analogia. Parecia que estavam me ligando na tomada e desligando. Eu sentia que em algum momento eu tava…

E em outros momentos, desligada, pifada mesmo, sabe? Era como se tirasse, colocasse e tirasse. Foi muito estranho. Pifada nível, você precisava ficar deitada? É, eu não tinha reação, eu não conseguia.

Não, simplesmente não conseguia. Assim como eu não tô nem conseguindo explicar direito. Porque era um negócio muito arrebatador, assim. Eu sentia, de fato, que eu ia morrer, que eu tava morrendo. Talvez um desmaio, sei lá. Mas na hora, eu achava que eu tava morrendo. Um desmaio, e aí, de repente, eu voltava. Só que, sei lá, em um minuto, isso aconteceu…

30 vezes. Meu Deus. E aí, num primeiro momento, você entende que pode ser ansiedade e tal. Até você começar a ver os sinais, assim. Então, quando eu recebia, depois desse episódio quando eu passei a receber mensagens, a gente tava na pandemia

De trabalho, era alguém do trabalho. Que às vezes nem tava cobrando ou querendo falar nada. Mas às vezes fazer uma fofoca. Quando eu vi o nome que era de uma pessoa do trabalho essa sensação voltava. Esse liga e desliga. Aí eu comecei a relacionar. Eu falei, ué…

Aí eu abria a mensagem e não importava se era uma fofoca ou se era uma demanda de trabalho. Eu passava mal. Aí eu comecei a entender que estava relacionado com o trabalho, enfim. Aí psicóloga, psiquiatra, pra bater o martelo. Mas era muito físico, mas era muito vou morrer, vou desmaiar. Tá acontecendo alguma coisa comigo, tô mal, não consigo ficar em pé. Teve um dia que eu cheguei automaticamente, assim, tava numa reunião.

Meu corpo caiu, quando eu vi, eu tava no chão. Não teve aviso, não teve nada, era muito automático, assim. O corpo não estava aguentando mais, o que eu sentia era isso. Eu não aguento mais, Luanda, dá um jeito. Não sei qual o jeito, mas não estou aguentando mais.

Eu gosto quando você fala do dar um jeito. Porque pela sua história, você foi bailarina. Tenho certeza que muitas vezes você foi elogiada pela sua disciplina. Exatamente. Então não é o dar um jeito no que tá acontecendo aqui. Dar um jeito pra dar conta, mesmo estando assim.

Sabe? E a disciplina, com certeza, é uma coisa que vem comigo pelo balé, pelo meu histórico familiar, dessa coisa de não poder falhar, dessa coisa de ser impecável em tudo, desde a forma que eu me apresento até como eu vou me sentar. Enfim, coisas que hoje tô desconstruindo, sabe? Porque, de certa forma, são traumas, Má, que eu carrego.

Eles foram… é engraçado, né? Porque foi muito bom até, talvez, o fim desse livro, que é quando eu peço demissão. E depois eu começo a entender que não, que tudo aquilo me adoeceu. Minha analista um dia falou pra mim, porque…

No livro, eu trago muitas questões, exemplos de coisas que eu passei. E aí, tem a empresa que eu trabalhei, enfim. E eu tinha muita preocupação em como as pessoas que trabalham lá iam receber esse livro, tudo que eu falei. Porque na época, eu não falava, entendeu? Na época, eu só aceitava. Mas você elaborava?

Elaborava. Sabia que tava acontecendo alguma coisa. Não tinha o discernimento que eu tenho hoje. Mas eu sabia que tinha alguma coisa errada. Talvez eu não chegaria nas conclusões que eu chego hoje. Mas eu chegaria em algum lugar se eu tivesse falado dos meus desconfortos e tal. Mas você acha que algo que você viveu passou pela linha do abuso? Completamente. Completamente. Completamente.

E aí é muito doido, porque eu ia… Vou, na verdade, falar, eu me coloquei nesse lugar. Mas olha como a gente entendeu, eu não me coloquei. Eu fui colocada nesse lugar e fui levada a acreditar que eu me coloquei nesse lugar. Porque o que acontecia profissionalmente comigo era que a linha invisível era sempre… Mas não era seu sonho, sabe?

pra você conquistar o seu sonho, você precisa. Então, eu tava sempre nessa linha tênue entre entender que era um abuso e lidar com o meu sonho. Tipo, putz, talvez pra chegar no meu sonho, eu vou precisar passar por isso, sabe? Então, quando eu conto pra minha analista do medo que eu…

Tava dessa recepção, porque eu tenho um carinho muito grande por esse trabalho e tudo mais. Minha analista vira e fala, mas foi o trabalho que te adoeceu, né? Aí eu…

É, porque infelizmente, talvez as duas coisas possam acontecer ao mesmo tempo. Exatamente. E é isso que deixa a cabeça mais confusa ainda. Sim. Você consegue enxergar hoje o quanto que você tinha apego ao trabalho em si, mas também…

Um certo medo de perder a identidade que aquele trabalho te dava. Porque a gente tá numa sociedade que pede-se pra você se apresentar. Você provavelmente fala onde você trabalha. Você não fala quem você é. Exatamente.

Dá medo de perder a credencial? Completamente. Embora, olha, quando eu comecei a minha trajetória eu tive uma chefe que é assim acho que talvez a que mais me deu discernimento ao longo do caminho que é a Vânia ela sempre me falou assim Lu, você não é esse trabalho você está nesse trabalho

Numa época que a gente não falava sobre isso. Isso há mais de 10 anos, assim. Sábia. Então, ela sempre falou, não coloque esse trabalho como seu sobrenome. Eu sempre tive aquilo na cabeça, mas estando dentro desse meio. Eu que venho da moda e da beleza, trabalhando com mercado de luxo. É muito fácil você se perder nesse lugar, porque você…

É da noite pro dia, tá? Quando eu virei editora, você passa… Pessoas que nunca olharam pra sua cara passam a olhar e te trazer presentes e tudo mais. E é muito triste hoje, pra mim, olhando o quanto na época…

Eu só achava aquilo legal. Eu não conseguia olhar e falar gente, que escroto. Sério que a gente tá passando por isso? Essa pessoa nem olhava na minha cara. Não olhava na minha cara ontem, hoje ela me ama e tal. Então é muito fácil você se perder nesse lugar porque era um cargo ali que eu era bajulada de fato e tal. Então tinha também esse medo.

Porque quando eu peço demissão, na verdade, eu já tava nesse processo de entender que eu poderia…

Fazer a minha própria revista, sabe? Ser o meu próprio veículo de comunicação, que é o que eu sou hoje, assim. Mas eu não tinha coragem. O corpo precisou me parar pra eu ter coragem de tomar uma decisão que eu já queria. Mas eu não queria assumir. Então eu saio dizendo que eu tive um burnout, eu precisei sair, sabe? Eu nunca tive coragem de assumir que eu não queria mais também. E faz parte, sabe? Mas eu não tinha essa coragem.

Só que sair também estava atrelado com perder essas credenciais. Mas eu já estava num momento da minha trajetória que eu colocava isso em xeque. Eu falava, não, eu acho que as pessoas gostam de mim porque eu sou a Luanda Vieira que faz esse trabalho pra determinada empresa. Tanto é que o nosso encontro e depois o convite pro Corre Delas…

Me dá essa força, assim, de falar realmente, tá vendo? Ó, a Marcela gosta do meu trabalho. E ela quer unir essa força. Então, foram acontecendo coisas que me deixaram confortáveis entendendo que eu não precisava daquela credencial. Mas é muito difícil você se desvincular desse lugar e tomar decisões a partir disso que não envolva mais uma grande empresa e tudo mais. Foi muito difícil.

Hoje você consegue enxergar alguma situação que você tem agido de uma maneira que você não agiria se você estivesse sendo o seu melhor eu?

Ah, mas várias, várias. Inclusive, entrar em polêmicas que não tinham a ver comigo. Mas que eu era usada basicamente como um Tolkien, assim. E eu me deixava usar também, é muito doido. Perdão, você pode explicar o que é Tolkien, caso quem esteja ouvindo não?

No caso do que eu tô falando, que é em relação à raça, é quando, vou olhar aqui pra câmera, mas o Tolkien é quando tem uma pessoa negra que sou eu, num ambiente de trabalho, por exemplo. E eu sou a única nesse lugar, mas a empresa não quer dizer que ela não faz nada em prol, a diversidade e tal. E acaba aquela frase clássica.

Mas até temos a Luanda aqui. Então, tem várias situações. Tipo, ai, eu não sou racista, mas eu tenho um amigo negro. Então, você tokeniza essa pessoa. Você coloca responsabilidade em cima dessa pessoa de coisas que você não olha enquanto pessoa, enquanto empresa, enfim. Então, tokenizar é colocar responsabilidade no outro. E geralmente, esse outro é a minoria. Obrigada por explicar, é muito importante. Porque muitas vezes esses termos vão sendo utilizados e as pessoas ficam com vergonha de perguntar.

que parece que, nossa, eu não estou letrada. Todo mundo sabe, eu não sei. Não, mas aqui nesse programa a gente vai do início. Mas por favor, qual que é a sensação e o sentimento de estar sendo usada como Tolkien? E como aquilo fazia com que você agisse, talvez, como você não gostaria?

Então, na época, eu achava que eu tava mais próxima do meu sonho. Então, na época, eu nem olhava pra isso como um Tolkien, sabe? Na época, eu só pensava… Nossa, olha como eu tô me aproximando, olha como a empresa…

valoriza de fato o meu trabalho, eu tô sempre à frente, tô sempre em destaque e tal. Até que chega um momento que eu passo a ter destaque, de tanto destaque que me fizeram ter. E claro, as minhas qualidades e tal, porque hoje eu também não…

Não desmereço mais o meu trabalho, sabe, Má? Porque durante muito tempo eu tive muito medo. Toda a questão da impostora, de achar que vão me descobrir em algum momento. Nossa, e vão ver que eu não sou capaz e tal. Hoje, não que eu esteja 100% confiante em tudo. Mas eu sei no que eu sou boa, eu sei onde eu brilho.

Então, na época, misturava toda essa ingenuidade, a questão de talvez não achar que eu era boa o suficiente naquele momento pra assumir determinados cargos. Então, quando eu era tokenizada, eu achava que fazia parte do processo. Eu não conseguia enxergar aquilo como problema, sabe? Hoje, escrevendo...

Eu vejo, eu vejo muito nitidamente tudo o que aconteceu. E o que você gostaria que pessoas brancas entendessem sobre isso, acima de tudo?

Eu gostaria que elas tivessem mais atenção. E eu acho que esse livro, eu tive esse cuidado, porque eu quero que seja pra todo mundo. Eu acredito que mulheres negras vão se identificar muito, porque, enfim, eu uso a minha história pra falar sobre coragem. Mas eu quero que outras pessoas, pessoas não negras, olhem e se perguntem…

Onde eu estou dentro disso? O que eu estou fazendo para que talvez a Luanda esteja desconfortável, se sentindo mal, tendo que se retirar dos lugares? Eu gostaria muito que pessoas não negras refletissem qual é o lugar delas, sempre que tem uma pessoa negra ou…

Qualquer outra minoria, uma mulher, gays, trans, enfim, no ambiente, sabe? Porque tá tão introjetado as piadas, a exclusão. É tudo muito automático, assim. E eu não me tiro desse lugar também, tá? Porque eu também fui ensinada dessa forma, socialmente. Então, acho que é o tempo inteiro ver onde eu posso estar machucando outra pessoa. Porque… E aí

Em geral, tá muito evidente. Tá muito evidente, mas a gente nem sempre acha que pode falar. Então, acho que é prestar atenção, de fato. Quando eu fiz a abertura do programa, eu contei que quando a gente se encontrou você quase que falou um pouco mais baixo, assim. Você não sabia direito, assim. Eu tô dando uma boa notícia, uma má notícia. E aí me vem a palavra vergonha.

Teve vergonha no processo também? Teve vergonha e teve vergonha durante muitos anos, assim. Eu acho que tem cinco que eu pedi demissão. Tem uns dois anos que eu não tenho mais vergonha. Porque, de novo, vem a opinião do outro, né, o tempo inteiro.

E muita gente me falava que eu não aguentei. Ah, você não aguentou o trabalho, então você teve que ir embora. E eu tinha vergonha daquilo. Como assim? Essa mulher que a cada dez palavras fala que é capricorniana, que batalha, que faz e acontece, não aguentou o trabalho. Até que…

Na análise, eu entendi, não aguentei mesmo, Má. E não tinha como aguentar, não tem como aguentar se você é o tempo inteiro diminuída, se você é o tempo inteiro forçada a fazer mais que as outras pessoas, se você é o tempo inteiro descredibilizada, se você tá o tempo inteiro precisando se provar, não tem.

corpo que aguente. Aí eu cheguei nesse lugar de, é verdade, eu não aguentei mesmo. E aí, acho que quando eu assumi que eu não aguentei, a vergonha passou. Mas tinha muita vergonha de contar, porque é justamente o que você descreveu. Eu não sabia como que as pessoas iam receber aquilo, porque...

Nem eu estava tão ciente de quão bom estava sendo, seria aquele meu novo passo, sabe? Então, era quase como esperar a aprovação do outro para a decisão que eu tomei. Então, eu não sei, acho que...

Eu tô vivendo um momento de muita confusão, na verdade, com esse livro. Porque tudo que eu sabia ali, hoje eu sei o oposto. E tudo isso se mistura o tempo inteiro, sabe?

Então, por mais que eu já tenha falado aqui que o meu maior ato de desobediência foi pedir demissão, eu também estava esperando a aprovação do outro pra minha demissão, sabe? Então, é uma montanha russa. Você tá falando sobre as pessoas que julgaram, possivelmente pessoas que você queria aprovação. Todas, todas.

Mas e quem te deu apoio e amor nesse momento? A gente não falou só de dor. Não, exatamente. Você teve essa rede? Tive, com certeza. Stephanie, minha mulher, minha mãe, meus pais, minha avó. Minha família foi bem… Avó. Acolhedora. Não, minha avó perfeita, assim. Ela não entende nada até hoje, pra onde eu tô indo. Mas ela… Quando eu falei pra ela, avó, vou escrever um livro. Aí ela virou pra mim e falou, é?

Você vai ser feliz escrevendo esse livro? Eu falei, vó, muito. Ela falou, então, também tô feliz. Então, são nessas… Nesse lugar, são nessas palavras que você entende que não importa o que você faça. Você tem essas pessoas que torcem por você. Ainda que elas talvez pensem… Ai, será que isso vai dar certo? Mas me deixam livre. Você sabe que uma vez eu fiz uma terapia que… Humm…

O exercício era fazer, perguntar para pessoas que gostam de mim os meus piores defeitos, as melhores qualidades e tal. E a terapeuta era um curso.

Na época, ela falou assim, mas é pra você perguntar pra pessoas que você sabe que assim, não vão te abandonar nunca. Não é pra perguntar pra aquele amigo que tá ali, vez ou outra, você conta uma coisa, não torce. É pra perguntar pra pessoas que você sabe que vão estar com você até o fim. E geralmente, essas pessoas são a nossa família e alguns amigos que muito próximos, íntimos, assim.

Mas aquilo mudou que são família também. E a família que a gente escolhe também, né. Mas eu sou uma pessoa… Eu tenho muito medo da opinião do outro, má. Eu tenho muito… Que vem desse lugar da obediência. Eu…

Acho que eu me comporto muito bem pra não ser falada, sabe? Não quero ser falada, não quero ter destaque. Destaque pra coisa ruim, obviamente. Na minha profissão, eu quero me destacar cada vez mais. Mas eu faço de tudo pra passar… Ai, nem vimos que a Luanda passou.

E aí, entra a analista falando Lu, começa que uma mulher desse tamanho, não tem como a gente não ver. Aí você escolhe colocar um tênis desse. Então, existe uma contradição o tempo inteiro. Mas eu tenho muito medo da opinião, da crítica.

Então, por isso que essa terapeuta na época frisou. Pessoas que você sabe que não vão te abandonar. Porque acho que é até mais interessante você olhar pra opinião dessas pessoas. Acho não, tenho certeza. Porque de fato, são pessoas que querem o meu melhor, sabe? Então, eu vou ouvir e eu vou acreditar. Eu não vou desconfiar e vou ver formas de entender. Se faz sentido pra mim melhorar nisso ou não.

Enfim, mas que só tendo pessoas que acolhem a gente de verdade que a gente consegue ter essas respostas e o conforto, o carinho e a força pra tomar decisões. É, e saber que elas vão ser honestas. Mas você consegue enxergar o quanto é corajoso você admitir o quanto você tem medo? Sim. Hoje, sim. E é isso, esses últimos anos, três anos que eu mergulhei nessa escrita .

E eu já sabia que era um livro sobre coragem. Mas eu achava que era uma coragem, essa coragem, de pedir demissão, sabe? Ah, e de voltar de Nova York, que eu não quero mais dançar. Eu achava que era essa coragem. E com o tempo, eu fui entendendo quão corajoso era, inclusive, falar sobre coragem, sabe?

E eu acho que hoje eu chego nesse lugar de assumir que eu me importo com a opinião do outro, porque eu tô nesse processo de não me importar mais, entendeu? Então, acho que é importante. E eu acho que, trabalhando com as redes sociais, eu mostro ali uma vida tão legal, que eu levo mesmo uma vida muito legal.

Mas que não é só isso, a gente sabe. Então eu comecei a entender cada vez mais a importância de eu ser sincera comigo em relação aos meus medos. E quando eles estão mais ou menos minimamente resolvidos, que ainda não estão, começar a passar isso pro outro. Que aí vem de novo essa Luanda que entendeu que ela pode ser um meio de comunicação ali pra evitar um adoecimento de uma terceira pessoa que tá me ouvindo. Mas...

É muito doido pensar que eu consigo hoje chegar aqui e te falar. E falar pra todo mundo que tá ouvindo a gente que eu tenho medo da opinião das pessoas. Tão mais fácil. Eu falo, imagina, não me importo. Mas eu tô muito feliz com toda a sua coragem. E conseguir colocar nas páginas. E essa coragem imensa que é se expor. E eu concordo com você.

Já não é mais seu. O livro que nos pertence mora aqui. E é engraçado, às vezes eu revisito o arquivo. Dificilmente eu abro o meu livro. Porque pra mim ele já é de outras pessoas, né. Porque cada lente vai dar uma leitura e não mais me pertence. Mas o que tá aqui é meu. E é tão gostoso, assim.

E aí, pelo que eu te conheço, pelo que você já diz, tenho certeza que você já imaginou todos os cenários que poderia dar errado.

Mas eu queria te perguntar, e se der certo? E se der certo? Menina, não sei, tá vendo? Não sei, eu tenho, de fato, todos os cenários, todos. Você não tem ideia, você tem, porque você sabe como eu sou. Antes mesmo de entrar, me perguntaram, ah, você tá bem e tal? Eu falei, ah, sensação de desmaio. Eu sempre tô nessa sensação de desmaio. Mas eu fico feliz de sobreviver, apesar de…

Sabe, apesar dessa sensação de desmaio, eu não deixo de fazer as coisas. E a primeira frase que abre o meu livro é justamente essa. Se eu não tivesse tido coragem toda vez em que a vida me paralisou eu não teria história pra contar. Então, eu tô paralisada, mas eu tô indo, sabe? Mas eu não sei o que vai ser, se der certo. Mas não consigo nem te responder. É que talvez já tenha dado.

É, colocar ele no mundo é muita coisa, assim. Vira o clichê, mas o clichê tá aí. O clichê não tá aí por acaso, mas falar sobre coragem tá em tudo na minha vida, assim. Até nesse momento que eu quero sair correndo, não quero ir na noite de autógrafo, mas estarei lá. Mas eu não consigo pensar como é dar tudo certo. É muito doido isso, né? Eu não consigo pensar.

Eu acho que tá dando certo já há algum tempo. Você tem a data de lançamento? Já está à venda? Já tem noite de autógrafo? Conte pra gente. A gente tá na pré-venda nesse momento. Ele lança dia 23 de abril. Não tenho data pra noite de autógrafo. Mas o que eu queria dizer é que é muito importante nesse momento da pré-venda que as pessoas comprem. Que as pessoas mostrem…

Mostrem para a editora o potencial que esse livro tem, né? Porque é justamente nesse momento da pré-venda que eles fazem todo o planejamento para esse livro a partir de agora. Então, meu desejo é que vocês comprem. E dia 23 de abril, ele está aí. Eu vou reforçar. É muito importante a compra na pré-venda dos livros.

Comprem. Comprem. Comprem, geralmente, inclusive, tem um preço bom, né? Exato. Então assim, comprem na pré-venda. Apoiem mulheres que estão falando, que estão escrevendo. A última vez que você veio no programa, não tínhamos dois quadros finais. Então vai ser… Ai, pronto.

São duas perguntinhas. Na verdade, uma pergunta quase que retórica. Mas eu vou começar te perguntando. Porque agora temos um quadro dentro do Bom Dia Óbvias, que é o Fissuras. Que tudo aquilo que eu estou fissurada. Mas eu quero saber, pelo que você está fissurada agora, Luanda?

Marcela, você acredita que eu tô fissurada em leitura? Porque durante a escrita, eu não consegui ler. Porque eu não queria interferência, assim. E como era uma história baseada na minha história, nas minhas memórias eu não precisava, de fato, desse apoio, assim. Então, virou o ano, entrou a pré-venda parece que eu tô querendo ler tudo que eu não li nos últimos três anos. Então, eu tô fissurada em leitura.

Qual foi a última leitura que você mais amou? O último foi Meridiana. Nossa Senhora! Nossa Senhora! Esse livro é arrebatador. E depois dele, eu li o Solitária, que é dela também. Cobri ontem. Maravilhoso, maravilhoso.

Perfeito. E aí, eu vou entrando nisso, sabe? Se eu nunca li nada da autora, eu começo a ler todos. Li O Ano do Pensamento Mágico, da John de John. Que assim, mudou a minha vida também. Enfim, tô… e comecei a ler todos dela, obviamente. Agora eu tô lendo Sintomas e Em Busca de Mim. Tô lendo dois ao mesmo tempo, da Viola. Tô amando. Bom, não tinha como não amar.

E tô nessa, eu tô fissurada em leitura. Deixa eu só retomar, porque eu me empolgo quando falar de livro. Eu te interrompi duas vezes. Então a gente tá falando sobre a Meridiana e Solitária da Eliane Ávios Cruz. Sim, exatamente. Só pra as ouvidas terem. E aí, pra gente finalizar, você quer me perguntar alguma coisa? Gente!

Nossa, jornalista, sempre quero, mas vamos lá, peraí. Não, no seu tempo. Acho que eu vou perguntar sobre o livro, de fato, assim. Em que momento a gente relaxa depois que ele vai pro mundo? A gente relaxa? Você relaxou? Como foi o seu processo?

É que você tem dois, né? Acho que deve ter sido… Eu tenho dois, foram processos diferentes. Mas eu acho que pode… Os dois são muito complementares, assim. Eu decidi em Aurora, que é o meu primeiro livro que eu só conseguiria escrever se eu relaxasse. Então, a parte final de Aurora, inclusive tem ali uma coisa, um pouco uma metalinguagem, né? Que sou eu escrevendo sobre a dificuldade de escrever.

que eu parei de prever como aquilo seria lido. Senão, eu jamais conseguiria seguir escrevendo. Eu não tinha nenhum, e não temos nenhum controle sobre como alguém vai ler as nossas palavras, como alguém vai receber a nossa mensagem. O que a gente pode fazer é o nosso melhor pra que aquilo esteja de forma esclarecida e que represente aquilo que a gente é, o que a gente quer.

Mas eu acho que… Pra ser prática também, porque eu gosto, né? Vamos ser prática? Eu acho que a primeira noite de autógrafos é um momento assim… Você vai receber tanto carinho. Você vai entender que essas leitoras existem. E o que você tá tratando. E você vai se olhar…

pelo olhar delas, e você vai entender que a gente pode até ter medo mas o que a gente tá fazendo é maior, vai além da gente e pelo que eu te conheço, eu talvez não diria isso pra outras pessoas que não tem essa capacidade, com todo respeito às outras pessoas mas você tem essa capacidade

A fila vai estar grande, porque eu sei que vai ser um sucesso. Mas aproveite cada segundo com cada uma daquelas pessoas. Porque em momentos em que a insegurança bater, em momentos em que parecer que…

Vier uma crítica, vier outra coisa. Eu lembro das minhas… Olha, o Bolsonaro falou das minhas leitoras, assim. Mas é verdade. Eu lembro delas, assim. Quando, sabe, quando o negócio aperta, assim. Eu lembro delas vindo até mim. E eu lembro, não, é por elas que eu tô fazendo. Não é por fulaninho que pensou tal coisa. Não, é por elas que eu vou continuar fazendo esse programa. É por elas que eu vou continuar escrevendo. Então, eu digo pra você, porque nem todo mundo teria capacidade. Mas é, lembra de olhar no olho.

Boa. Porque são esses olhares que vão tirar seu medo e vão te carregar. Então esse é meu conselho. Não, demais. Acho que é muito parar de olhar pro que pode dar errado e olhar pro que já tá dando certo, né. Total, hoje eu vou sair daqui muito com isso.

Em mim, assim, já deu certo. E olhar pra isso. Obrigada. Obrigada, eu que agradeço. Uma muito especial. Como eu falei, eu tô nesse processo de elaborar o que é esse livro pra mim. E elaborar isso aqui junto com você. Não tem como ser mais especial pra esse momento que tá só começando pra mim. Então, muito obrigada. Eu quero saber tudo depois.

Volte sempre Bom, vocês já sabem Mas não custa reforçar Comprar livros na pré-venda É muito importante pra gente Sabe o que também é importante pra gente? Comentem, sigam o podcast Estou de olho nos números Tem muita gente que escuta e não segue o podcast Eu sei, acontece, eu também faço isso Mas é muito importante pro nosso trabalho O que mais que eu posso dizer?

a pré-venda para o meu clube do livro, logo mais, tá no ar então tem o link aqui pra você se inscrever, ser a primeira ou o primeiro a saber não acho que eu estou de bobeira, eu sei que meu público de meninos, homens maravilhosos estão presentes também

E esse podcast é uma produção junto com a Zamunda. O roteiro é meu, a apresentação também é minha, como se pode ver. E essa aqui é a segunda casa de Luanda Vieira. Volte sempre! Obrigada, muito obrigada. Mas voltarei, voltarei. Obrigada, meu amor.