Você tem se permitido descansar?, com Ana Paula Xongani
Quando foi a última vez que você deixou de ter pressa?
Neste episódio de Bom Dia, Obvious, Marcela Ceribelli recebe Ana Paula Xongani para uma conversa sobre trabalho, ambição, saúde mental e as dificuldades de construir uma vida que não esteja sustentada apenas pela performance. Ao longo do episódio, Ana Paula reflete sobre o momento em que percebeu que estava deixando de ter pressa, questiona a ideia de sucesso baseada no acúmulo e compartilha como sua ambição sempre esteve ligada ao desejo de alcançar o mínimo necessário para viver com dignidade. A conversa passa por assuntos como depressão, bem-viver, relações familiares, dinheiro, envelhecimento e as diferentes formas de construir uma vida para além do trabalho.
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Sintomas — e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou: AQUI
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- Gestão de Sono e PerformanceA permissão do descanso · Ambição do mínimo vs. acúmulo · Pressão por performance nas redes sociais
- RelacionamentosPerformance feminina vs. naturalidade · Divisão de tarefas domésticas · A importância do diálogo · Sombra e conflito em relacionamentos
- Carreira Fabio PorchatPressa e ansiedade profissional · Ambição do mínimo como base · Diversificação de afazeres e medo do fim · Perda de saúde e ego pelo trabalho
- Diásporas africanas e conexõesPrimeira viagem internacional à África · Diferença entre mulher brasileira e africana · Visão estática da África no Brasil · Experiência de ver todos negros
- Idade e juízoPlanejamento da aposentadoria · Fascínio pela velhice · Terceiro ato da vida
- Entretenimento e Diversão InfantilProgramas infantis da TV Cultura · Impacto da TV Cultura na formação · Falta de representatividade na TV aberta
- Origem do sotaque e identidadeReconhecimento pela voz · Voz grave e feminilidade · Voz como parte do corpo
Ana Paula Xongani:A permissão do descanso é algo que ainda preciso cuidar. Porque eu percebo que a minha ambição não era uma ambição do acúmulo, do extraordinário. Era uma ambição do mínimo. Ninguém me apontou essa depressão por conta do quê? Da performance. Porque na performance, eu tava entregando, né, amor? Porque afinal, nosso trabalho.
Marcela Ceribelli:Quando você percebeu que você tava deixando de ter pressa?
Ana Paula Xongani:Dentro dos movimentos negros, principalmente do movimento da Marcha das Mulheres Negras, tem esse bordão, né, do "bem viver". Eu acho tão bonito. Eu gosto de coisas que eu sou incompetente. Eu gosto da evolução. Porque o dinheiro determina as relações. Aqui, ó, viúva. Divorciada. E aí o resto... "Ué, e agora? O que eu vou fazer com a minha família heteronormativa?" "Onde eu vou colocar isso?" Fala bom dia, óbvio, pra mim. Bom dia, óbvios.
Marcela Ceribelli:Eu tenho muito, muito... Eu ia falar tesão, mas a gente acabou de se conhecer. Mas eu tenho um singelo crush na sua voz.
Ana Paula Xongani:Mas então, até engaguejei porque eu também na sua. Nós somos mulheres de vozes não óbvias.
Marcela Ceribelli:Eu amei, vamos falar mais sobre isso.
Ana Paula Xongani:Eu acho que nós somos mulheres... Fala um pouco.
Marcela Ceribelli:Ó, porque o que eu penso?
Ana Paula Xongani:Olha, você viu esse penso? O que eu penso?
Marcela Ceribelli:Eu tô muito chateada, porque eu tinha um gancho e você me deixou meio vaidosa com o elogio. Porque eu adoraria ouvir um podcast seu.
Ana Paula Xongani:Uau! As pessoas te reconhecem pela voz?
Marcela Ceribelli:Reconhecem, reconhecem. E eu acho um pouco engraçado, porque geralmente elas comentam: "Nossa, sua voz é igualzinha a pessoa, mente." É, a voz geralmente é parecida. Mas acho que elas esperam que talvez tenha uma entonação diferente?
Ana Paula Xongani:Não, eu acho que é uma coisa uma característica muito vibrante na sua composição enquanto ser, que quando a voz vem é o que dá o check. Eu acho que acontece a mesma coisa comigo.
Marcela Ceribelli:Eu também acho.
Ana Paula Xongani:Uma vez, na pandemia, assim, todo mundo de máscara, touca, aquela coisa toda que a gente tava desfigurado, uma pessoa falou: "Você é Ana Paula Xungani?" Eu falei: "Sou." Ela falou: "Reconheci pela voz, a sua voz é muito diferente de tudo." É mesmo. E a nossa voz Ela tem um grave. E eu acho chique mulheres com voz mais grave.
Marcela Ceribelli:Eu acho muito chique, mas se você pegar os primeiros episódios— Não faça isso, não sei por que eu tô dando essa sugestão.
Ana Paula Xongani:Você vai se arrepender já já.
Marcela Ceribelli:Você vai se arrepender já já. E com certeza alguma ouvinte já falou: "Eu vou lá pra baixo". Eu tinha uma voz um pouco mais doce.
Ana Paula Xongani:Eu também.
Marcela Ceribelli:Mais fina.
Ana Paula Xongani:Eu também. Mas você não acha que isso pode ser fruto da insegurança?
Marcela Ceribelli:Eu tenho certeza absoluta.
Ana Paula Xongani:Isso, eu também. Meus primeiros vídeos, eu falava em outro tom. Eu falava num tom assim.
Marcela Ceribelli:É, que é quando você quer naturalmente agradar.
Ana Paula Xongani:Transformar uma feminilidade e talvez uma doçura. E não que não tenha doce, não é doce nossa voz. Ela é agridoce.
Marcela Ceribelli:Ela é agridoce.
Ana Paula Xongani:É, amor! Que é muito mais legal, né? Muito melhor.
Marcela Ceribelli:Ai, que medo, achei que você fosse falar agro. Não é agro, mas é pop.
Ana Paula Xongani:Não, é agridoce. E aí, uma vez me perguntaram... Sempre que me perguntam qual é a parte preferida do meu corpo Eu digo que é a voz.
Marcela Ceribelli:Ai, eu amei! Nossa, que bom. Então eu te trouxe algo que você se sente segura.
Ana Paula Xongani:Bastante segura, eu gosto muito da minha voz. Eu gosto de me ouvir. Tem muita gente que tem incômodo de se ouvir, né. Eu gosto de me ouvir, metade das minhas visualizações sou eu. Eu mesma. Mas é isso, eu não tenho nenhuma questão com a minha voz. E aí, estudando, quando eu comecei isso da comunicação, eu descobri que é isso, a voz é corpo. Faz parte do seu formato de corpo, a sua caixa torácica. Enfim, o formato do teu rosto. Compõe a sua voz. Então tá tudo bem ser a parte do seu corpo preferida, porque voz é corpo. Só o seu corpo pode produzir a sua voz.
Marcela Ceribelli:Posso roubar quando perguntarem qual é a minha parte favorita do meu corpo?
Ana Paula Xongani:Você pode, pode.
Marcela Ceribelli:Porque é uma pergunta tão difícil de responder.
Ana Paula Xongani:Também é uma fuga, né? Vamos lá, a minha resposta. Tem uma...
Marcela Ceribelli:Mas posso fugir com você?
Ana Paula Xongani:Pode.
Marcela Ceribelli:Obrigada.
Ana Paula Xongani:E surpreender a todos. Porque as pessoas ficam: "Oi?" Eu falo: "Sim, minha voz.
Marcela Ceribelli:Eu gosto muito." Ué, você não tá aqui me ouvindo?
Ana Paula Xongani:É.
Marcela Ceribelli:E assim, Xonga, você está há muito tempo na internet, você é muito famosa.
Ana Paula Xongani:Mas eu não fiz 351 episódios de nenhum podcast.
Marcela Ceribelli:Mas sempre há tempo de começar, e eu quero que você comece.
Ana Paula Xongani:É, você falou sobre isso. Vamos começar esse projeto?
Marcela Ceribelli:Vamos, aqui é Zamunda.
Ana Paula Xongani:Não, é óbvio, assim, não existe outro lugar, né, família? Eu já gravei aqui, inclusive, um podcast. Muito legal, primeira, segunda, terceira temporada. E eu gostei muito, mas eu acho que tá na hora de ter alguma coisa assim onde a gente use a voz como ferramenta principal, sabe?
Marcela Ceribelli:Absolutamente, eu realmente escutaria um monólogo seu inteiro. Mas você tá com um podcast com a Luana?
Ana Paula Xongani:Eu tô, mas ele é um projeto de temporadas. É um projeto curtinho com a Luana Genor, né. Tava no Roda Viva ontem, inclusive. Mas ele é um podcast de episódios curtinhos, assim. Entendi. E não sei, acho que... Precisa de alguma outra coisa. Eu penso em outras coisas também, assim, como podcast. Porque na verdade, eu apresento muitos podcasts. Mas eu ainda não tenho nenhum projeto 100% autoral e meu, assim. Então acho que o desejo é esse. Mas sabe, tem uma coisa que eu não tenho tanta pressa mais. Eu já fui uma pessoa com muita pressa. Eu tinha uma ansiedade muito grande de achar que não ia dar tempo de fazer as coisas que eu queria, de achar que meu tempo tinha uma data de validade muito curta, que as pessoas iam cansar de mim. Pensar que talvez nem eu cansei de mim. Porque a gente muda o tempo todo, sabe? Então dá pra gente ir pensando em novas versões e tal. Então eu tinha muita pressa, eu tinha muito medo de não ser suficiente. Então eu queria fazer tudo imediatamente, assim, tudo agora. Eu tinha até uma hashtag que era #EutenhoPressa, literalmente. E também, enfim, as outras coisas que me atravessavam como mulher, como mulher negra. Como mãe. Então a pressa era algo muito constante na minha vida. E hoje, cada vez mais, quanto mais eu vou envelhecendo, eu tenho menos pressa, eu tenho mais noção que vai dar tempo.
Marcela Ceribelli:Quando você percebeu que você tava deixando de ter pressa?
Ana Paula Xongani:Eu acho que quando eu realizei o básico, quando eu tive a oportunidade de ter o mínimo. Porque eu acho que é isso o lance da pressa. Quando você não tem o mínimo, é natural você ter pressa. Quando eu tive o mínimo— e pra mim, o que que era o mínimo? "Minha casa, enfim, o mínimo de projeto profissional, o mínimo de autoconhecimento, de autoestima". Quando eu falei: "Ah, tá bom, então assim, eu já tenho o mínimo", sabe? Assim, coisas que você precisa desenvolver em si, coisas que não, que é pra além de você. Eu acho que a gente tá sempre se relacionando com o mundo. Aí eu comecei a ter menos pressa. Porque eu percebo que a minha ambição não era uma ambição do acúmulo. Do extraordinário. Era uma ambição do mínimo. A minha primeira ambição foi uma ambição do mínimo. O que diz muito, né, sobre quem a gente é, sobre o mundo que a gente vive, sobre as diferenças, sobre as desigualdades. Então, minha ambição era o mínimo que todo mundo deveria ter. Então, enquanto eu não tinha esse mínimo, isso me dava muita pressa. Depois que eu tive o mínimo, eu me dei a oportunidade de falar: "Calma, agora a gente pode sonhar." "Agora a gente pode projetar a partir de um lugar não da necessidade, mas das oportunidades. Agora a gente pode pensar o que eu gosto, não o que eu preciso fazer". Então, acho que foi depois de atingir o que ali naquele momento eu considerava o mínimo.
Marcela Ceribelli:O que você precisou fazer pra fazer o que você gosta de fazer?
Ana Paula Xongani:Ai, eu precisei fazer muitas coisas. Eu precisei primeiro fazer, literalmente, muitas coisas. No sentido de diversificar muito os meus afazeres enquanto profissional, enquanto pessoa. Então assim, eu fazia muita coisa. Então eu era empresária, eu tinha um canal no YouTube, era no Instagram. E aí, eu tinha uma Teleshongani, eu tenho até hoje a Teleshongani. E aí, eu também ficava com medo disso tudo acabar. Eu sou formada em Design de Interiores, né, sou bacharel em Design de Interiores. Então eu também mantinha um projeto na gaveta pra desenvolver. Ou se alguém falasse: "Napala, faz alguma coisa", eu faria. "Ah, você pinta a minha casa?", eu pintava, sabe? Então eu tinha que fazer muita coisa. E aí, eu sentia que eu não podia me aprofundar em nada. Porque eu tinha medo de cada um desses pilares, todos acabarem. Então eu ficava construindo novos pilares pra me sustentar. Até o momento que eu falei: "Calma, agora dá". Então acho que essa foi uma coisa, né, que eu tive que fazer. Outra coisa é entregar saúde mesmo. Perder saúde, sabe? Saúde mesmo. É trabalhar 12 horas por dia, é trabalhar todos os dias. Isso não é legal. Sabe? Isso não é saúde. Depois, eu tive que perder também um pouco de ego. Porque de onde eu vim, a gente tinha que se construir a partir do trabalho. O trabalho é a grande ascensão das pessoas que vêm da pobreza, das periferias. É o trabalho que te projeta, né. Você tem que ser trabalhador, né. Tem aquela música: "O negro sem trabalho fica sem sossego". Enfim, não citei a música direito, mas alguém pode, sei lá, ajudar. Vocês sabem qual que é? Vocês sabem. Então, o trabalho era uma coisa que ia me projetar enquanto pessoa, assim, sabe? Só que isso custa saúde, não é legal trabalhar. E também, que eu tava falando de ego, né. Isso também custa o ego, porque quando você se projeta só no trabalho e de repente você se torna a profissional que um dia você sonhou, você tem que tomar cuidado pra não ser só profissional. Não dá pra eu ser só profissional, eu preciso ser legal em outras... Facetas da minha vida. Vou te contar uma coisa. Recentemente, eu tava com um grupo de amigas. E eu tenho uma delas que ela é uma profissional impecável. E aí, ela é aquela pessoa que ela não aceita errar, que ela entrega duas vezes mais. E eu falei pra ela: "Você é um fracasso nas outras áreas da sua vida". E ela levou um susto. Falei: "Eu sei que ninguém te disse isso". Porque você se apoia no pilar do trabalho pra ser excepcional. Mas se a gente tira esse pilar da tua vida, você é um fracasso. Como nas suas relações, no seu cuidado consigo mesmo, na sua relação afetiva, com seus amigos, com o mar, a terra, com a sociedade, com a natureza, você é um fracasso. E ela levou um super susto. Mas eu tava falando dela pensando em mim.
Marcela Ceribelli:Eu tava... Como geralmente a gente faz.
Ana Paula Xongani:Como geralmente a gente faz. Eu tive que abrir mão um pouco do ego. Tá, tá bom, você é uma ótima profissional, mas você não vai ficar se apoiando nisso, vamos zerar. Vai ser boa mãe, vai ser boa esposa, vai ser boa amiga. Vai ser boa com o mundo, com a natureza, com você mesma. Vai ser boa com você mesma, principalmente, sabe? Então acho que abrir mão do ego também foi importante.
Marcela Ceribelli:Eu acho que é um sentimento muito comum hoje, a sensação de: "Nossa, já já eu não vou ter nada mais pra falar, já já eu vou perder a relevância." Porque também tem todo um mercado dizendo que tudo é descartável. Então isso aqui é seu momento, passou. A vida profissional tem diferentes momentos. Você não quer estar no auge o tempo todo, porque o auge também é muito difícil. Então, ir acompanhando também esses momentos também foi muito importante pra mim. Eu me enxerguei em algumas coisas do que você disse. Mas agora eu quero saber do que você gosta de fazer.
Ana Paula Xongani:Que ninguém sabe, por exemplo? Por exemplo. Eu adoro fazer miniatura, amo fazer miniatura. O que é miniatura? Miniatura, coisas minis. Miniatura. Tipo um mini livrinho? Um mini livrinho. Livrinho, por sinal, é ótimo de fazer, mini. Você jura? Adoro fazer miniatura, menina. Adoro. Adoro fazer crochê, miniatura. Gosto muito de trabalho manual. Eu estudo pra ser porta-bandeira. Que é uma coisa também muito curiosa. A aula de aula. A gente quer?
Marcela Ceribelli:A gente quer. A gente disse sim, é. A gente disse sim.
Ana Paula Xongani:Então sim, próximo carnaval talvez seja minha estreia. Mas é uma coisa que eu faço. Uma coisa que é legal, assim, a dança, essa coisa do corpo, né, da flexibilidade do corpo, é algo que me mexe, me mostra. É isso, eu gosto de coisas que eu sou incompetente. Eu gosto da evolução, eu gosto do processo de evolução. Então eu fui ali num negócio que eu tava muito incompetente, que é dançar. Então eu gosto, eu estudo pra ser porta-bandeira. Eu odeio limpar a casa, mas eu amo organizar a casa. Então é uma coisa que eu faço com bastante frequência, assim. Organizar, abro um armário. E aí jogo tudo pra fora, arrumo tudo de novo. Penso numa dinâmica que funciona.
Marcela Ceribelli:Então eu gosto muito disso. Nossa, posso fazer só um parênteses? Porque assim, ontem o Chico Feliz— beijo, Chico— abriu uma daquelas caixinhas dele. E uma pessoa mandou uma mensagem falando que a mãe falava pra ele e pros irmãos que a qualquer momento o Gugu ia chegar. Você lembra desse quadro do Gugu? Que o Gugu tinha que chegar na sua casa, ele ia encontrar um objeto. Lembro. E a mãe falou: "Gente, eu mandei carta pro Gugu. E a qualquer momento, o Gugu pode chegar aqui". E eles se tornaram homens muito organizados. Porque o Gugu podia chegar.
Ana Paula Xongani:Puts, nem dá mais pra aplicar isso, mas é ótimo.
Marcela Ceribelli:Você já sonhou com o Gugu ir na sua casa? Não.
Ana Paula Xongani:Nem Gugu, nem a Xuxa. Nada disso, eu só assistia TV Cultura. Eu sou aquela criança da TV Cultura. Minha mãe e meu pai só deixavam a gente assistir TV Cultura. Pode perguntar, Glub Glub, Castelo Rá-Tim-Bum, Rá-Tim-Bum, Mundo da Lua, Cocóricó, sei tudo.
Marcela Ceribelli:Nossa, eu também. Mas é que, bom, nessa época minha mãe trabalhava na TV Cultura. Ai, que tudo!
Ana Paula Xongani:Você ia lá? Eu era bem pititica.
Marcela Ceribelli:Mas sim, porque minha mãe não tinha ajuda, né. Então, na verdade, ela levava eu e meu irmão. Porque eu tenho um irmão gêmeo, né. Ela levava a gente, mas por quê? Não tinha muita opção, na verdade. Mas sim.
Ana Paula Xongani:Nossa, e era um sonho? Como era? Ou era só um trabalho? Pra ela? Não, pra você.
Marcela Ceribelli:Não, pra mim tudo sempre foi meio mágico, né. Pra mim, tem um momento inesquecível, de verdade, na minha vida. Que foi o dia que o Castelo Rá-Tim-Bum deu seu pro Glub Glub. Você lembra desse episódio?
Ana Paula Xongani:Eu lembro. Foi demais.
Marcela Ceribelli:Cara, foi um dos melhores dias da minha vida.
Ana Paula Xongani:Foi! É, vocês entendem? Quando isso aconteceu de novo na TV brasileira? Nunca mais. Nunca mais, nunca mais.
Marcela Ceribelli:E tinha também qualquer aquele que já eram atores mesmo, que era meio Maravilhoso Mundo de Bob, mas com a série da Lua.
Ana Paula Xongani:Isso era TV Cultura, era Planeta Terra Chamando. Isso, muito bom, muito bom. Ali era puro suco da cultura, teve literalmente na TV Cultura, mas não só era, era Cara, quando você estuda sobre as músicas, eram grandes maestros, grandes orquestras, grandes desenhistas. Tudo era grande, assim, era cultura muito pulsante, assim. Ai, era tudo. Mas aí, minha mãe, meus pais, eles não deixavam a gente assistir. Por exemplo, Carrossel, nunca assisti, pelas questões raciais. Xuxa era limitado, assistia pouco, por várias questões. Porque não tinha Paquita negra. Então minha mãe falava: "Ah, não. Vai pra TV Cultura, tem a Biba. Vai ver a Biba". Então muita coisa, é engraçado, eu não assisti. A Biba! Ai, que saudade. Saudades, cara. Saudades. Eu coloquei minha filha pra assistir Castelo Latino.
Marcela Ceribelli:Então, eu ia perguntar, sua filha já assistiu?
Ana Paula Xongani:Assistiu. Ela gostou. É, não tem como, não tem como.
Marcela Ceribelli:E passarinho, que som é esse?
Ana Paula Xongani:Não, tudo, vai. Não, fala. Tudo, pelo amor de Deus! Eu fui muito feliz. Olha, assim, eu acho que a década de 80 foi um caos. Porque o Brasil tava um caos, né, assim. Enfim, uma loucura e tal. Mas a gente tinha algo muito especial. E eu acho que a TV Cultura e os programas culturais infantis, de modo geral, não só na TV, mas fora também, a cena cultural infantil era absurda. Hoje é isso, a gente não tem nem TV Globinho. Porque assim, tem pouca gente olhando pras infâncias. A TV não olha mais pras infâncias.
Marcela Ceribelli:Você sabe que não é só isso, né? A gente pode se complementar aqui. O que aconteceu também É que a publicidade, felizmente, nesse caso, ficou muito mais rígida com o que você pode colocar na televisão pra criança. Porque a criança vê, a criança quer comprar. Então a gente passou a ter mais responsabilidade e respeito com a criança, com publicidade. Fato. E se o programa não vende, vai pra TV?
Ana Paula Xongani:Não vai pra TV. Pois é. Nem numa TV estadual, federal.
Marcela Ceribelli:Exato. É triste. Exato. Então, já que não vai vender, vamos colocar outra coisa que vende. Mas uma pergunta do roteiro até agora, o que você acha?
Ana Paula Xongani:Eu acho maravilhoso, porque na vida você tem um roteiro? Não. Mas se você quiser olhar o roteiro, que deve estar ótimo também.
Marcela Ceribelli:Mas eu tô até olhando, mas você é muito mais interessante do que o meu roteiro, de verdade.
Ana Paula Xongani:Mesmo? De verdade. Será que não tem algo de bom aí?
Marcela Ceribelli:Ah, eu tenho coisas que seguem algum nível de protocolo também. Porque eu quero que isso aqui seja um espaço pra você, por exemplo, falar da viagem de Moçambique.
Ana Paula Xongani:De Moçambique ou de Luanda?
Marcela Ceribelli:Ou as duas? Acho que Moçambique, porque pelo que eu estudei, mas eu posso estar errada, foi uma virada pro entendimento de Shongani.
Ana Paula Xongani:Nossa, sim! Sim, super. Estudei certo? Estudou certíssimo, amor.
Marcela Ceribelli:Certíssimo. Mas quero falar de Luanda também, vamos falar das duas.
Ana Paula Xongani:Vamos falar de tudo, vamos falar do mundo inteiro. Eu tô aqui pra falar do mundo inteiro. Mas eu tava te respondendo, eu acho que você tem toda razão. Não tenho absolutamente nada pra discordar e nem complementar. É isso, infelizmente o dinheiro manda. E as infâncias vão ficando Ai, abandonadas, né. Talvez seria um esforço das TVs federais, né. Ou de outras TVs que, sei lá, sei lá, tem várias formas, né. Também tem como SESI, SENAC, SESC, que o recurso vem de outros lugares pra gente ver se a gente cuida melhor dessas infâncias. Eu adoraria. Quantos anos sua filha tem? Não tem mais infância, isso que eu acabei de lembrar, acabou. Tem 12. Nossa! Tá boa, amiga.
Marcela Ceribelli:É a mesma coisa que antes, a Thaís Basile tava aqui, ela falou: "Não, a minha já tem 3, já é adolescente." Adolescente.
Ana Paula Xongani:Então, você sabe que adolescência agora começa antes? Não sabia. E termina depois.
Marcela Ceribelli:Quanto que termina? 25. E pros homens?
Ana Paula Xongani:Aí é uma pergunta que a gente deixa aí pra você, pessoal. Coloca aqui onde tem que colocar as coisas. E pros homens? Moçambique. Moçambique, na verdade assim, nesses últimos 18 anos, é, 18 anos, eu fui pra África praticamente todos os anos. Conheci muitos países. Moçambique foi meu primeiro país, eu tenho muito orgulhinho de dizer que eu conheci primeiro a África do que a Europa ou mesmo a América do Norte, né. O que é muito incomum. Pra todas as pessoas aqui do Brasil, enfim, de modo geral, é muito incomum. Até entre pessoas negras é muito incomum. E isso é muito legal, sabe, você fazer sua primeira viagem internacional de um país do continente africano, é muito legal. Porque isso já muda completamente a sua visão sobre o mundo, né. Porque é tua saída, sabe. Então isso foi demais. Você foi sozinha? Eu fui, não. Eu fui acompanhada, eu fui acompanhada. E aí foi uma viagem incrível, porque foi uma viagem que eu levei vários chacoalhões, assim. Primeiro porque eu entendi que muitas das coisas que eu achava que sabia não existiam. Um campo bizarro de coisas que eu nem imaginava que existia naquele lugar. A gente aqui no Brasil, a gente consome uma África muito estática, como se a globalização não tivesse lá também, como se não existisse uma África contemporânea, como se não existissem várias Áfricas, né, vários países africanos dentro do mesmo continente, como se as pessoas não tivessem negociando o tempo todo com que a gente faz aqui, ou mesmo com que se faz lá. Então você chega... Talvez o brasileiro, assim, vou generalizar um pouquinho. A gente chega muito arrogante, achando que sabe, sabe? Achando que conhece. "Ah, afinal, África é isso". A gente tem uma coisa assim, a gente sabe, né. Inclusive, esse saber faz com que a gente não vá. Porque a gente acha que sabe o que tem lá. E eu fui também, talvez com 20 anos, eu fui também nessa arrogância, assim, de alguma forma. E levei vários chacoalhões. Sabe? Você lembra do primeiro? Ou do mais forte? Talvez, acho que o primeiro foi de entender que eu não sou uma mulher africana. Sou uma mulher brasileiríssima. Que a experiência, mesmo sendo uma mulher negra, que existia uma diferença muito grande entre eu e uma mulher africana. E que isso era maravilhoso. O processo da chegada de uma pessoa negra no Brasil faz toda a diferença na minha composição de ser humano, sabe? A experiência do brasileiro nesse... Mundo, do jeito que a gente vive, como tá constituído o país, faz uma completa diferença de quem eu sou, das coisas que eu penso, das coisas que me atravessam, de como eu sou recebida nos lugares. Então isso já foi um choque, tipo, ok, temos diferenças aqui, então tem muito mais que conhecer. Também tem algo visual curioso, que é assim, é você ver todo mundo negro. É muito curioso, é muito diferente, todo mundo. "Quem que é todo mundo?" "Todo mundo! O piloto do avião, a aeromoça, o moço da padaria, a costureira, o presidente, todo mundo é negro." Aí você fica, tipo: "Que experiência louca!" É uma experiência que meus olhos não conheciam.
Marcela Ceribelli:Eu lembro disso quando eu fui pra Jamaica. Pronto.
Ana Paula Xongani:Você gostou da Jamaica? Eu fiquei 3 dias.
Marcela Ceribelli:Um cara abordou meu irmão e falou: "Nossa, você parece muito o filho branco do Bob Marley." "Marley". E aí eu falei: "Bom, vamos ver até onde a gente vai". Mas o cara foi muito gente boa. E aí a gente saiu com ele à noite, a gente foi pra um reggae muito foda. Foi muito divertido. Que bom, que bom, que bom. Foi muito divertido.
Ana Paula Xongani:É, tem muito mundo pra conhecer.
Marcela Ceribelli:Tem muito mundo pra conhecer. Tem muito mundo pra conhecer. Quando o trabalho passa a ser, então, um chão mais firme para você, menos medo do colapso total. Como que o prazer como um todo entra na sua vida?
Ana Paula Xongani:Nossa, eu acho que a permissão do prazer abre uma permissão assim do descanso. Menina do céu, assim, a permissão do descanso é algo que ainda preciso cuidar assim, Ana Paula. Às vezes eu me vejo ainda dando uma justificada assim: gente, hoje eu vou descansar porque amanhã "Por que eu tô falando? Só deixa eu descansar", sabe? Então, eu acho que a permissão do prazer, a permissão do descanso, a permissão do bem viver, né. Dentro dos movimentos negros, principalmente no movimento da Marcha das Mulheres Negras, tem esse bordão, né, do bem viver. Eu acho tão bonito, né, o bem viver. Então, acho que essa permissão de, tipo, "ê eu". "Posso viver bem". E isso é estranho pra caramba. É muito louco, né, como que as coisas são. Porque como que você fala: "É óbvio que todo mundo pode viver bem". Não, não é óbvio. Não é óbvio que a gente pode descansar. E aí, você tava falando, né, do nosso trabalho. Que é um trabalho que estimula o excesso. O excesso de publicação, o excesso de conteúdo. Você sempre tem que ter um corte viral. Você sempre tem que falar alguma coisa extraordinária. Isso faz com que te impeça de alcançar esse lugar do descanso.
Marcela Ceribelli:Nossa, qualquer acontecimento você tem que fazer a análise mais genial que foi feita sobre aquilo.
Ana Paula Xongani:Impossível, sabe? Impossível. Então acho que é isso, o prazer vem a partir de permissão dele, do descanso e do ordinário. Ai, é tão bom o ordinário, o ordinário é tão bom. O ordinário, ordinário, ordinário é aquele kikizinho gostoso. O ordinário. Mas você só pode acessar o ordinário quando tá tudo bem.
Marcela Ceribelli:E se eu puder adicionar, eu acho que também o ordinário, que também me remete muito a isso, que tem a ver também com as nossas profissões e um mercado que pra mim também tem a ver com— gente, eu não quero ir no restaurante hype, eu quero comer comida gostosa, eu quero estar confortável. Assim, a questão do conforto foi invadindo bastante minha vida de um tempo pra cá e não é o conforto De fazer uma banheira, gente, eu não tô falando disso. Tô falando do conforto de saber que eu não sou tão importante. Delicioso. Nossa, de tirar o corpo assim e falar: "Não, deixa outras pessoas falarem, deixa acontecer." Porque eu preciso ter o descanso da performance, eu não tenho o menor— Eu não tenho muito instinto mais de ficar fazendo da minha vida. Na verdade, acho que eu nunca tive muito. Tá? Porque eu gosto de fazer isso aqui. Só que isso aqui é meu trabalho. O problema é que a gente tá dentro de um trabalho que diz que a nossa vida tem que ser interessante o suficiente pra virar um produto. Só que se sua vida vira um produto, você não tem vida, você tem um produto. Isso! Só o produto. Só o produto. E a gente conhece pessoas que adoeceram por completo. Porque você não sabe mais quem você é. Porque, claro, o seu público vai também crescendo, as pessoas... As pessoas enjoam da sua vida. Só que é a sua vida. Aí você vai ter o quê? Repaginar sua vida? Você vai ter um filho pra ser agora a minha era mãe? Não, não, não, não. Agora a gente falou demais. Mas você falou um pouco de saúde. Você sentiu a sua saúde?
Ana Paula Xongani:Nossa, senti drasticamente. E se expressou de muitas formas. Depressão, total falta de saúde. Exame, exame clínico. Você lê o exame e você fala: "É isso, vitamina D no chão, B12 no chão." "Tirei a vesícula, amor." Tirar a vesícula... É vesícula, né? Talvez. É vesícula. É vesícula, tirei a vesícula. Isso assim, alimentação maluca, sono não existe. Assim, nenhuma saúde. E é óbvio que isso é pra sustentar performance. Porque é óbvio que você não vai mostrar isso nas redes sociais, né. A falta de saúde. Então isso é pra sustentar a performance. Então tem que inverter a lógica, é o que você falou. Precisa ter vida antes do produto. E eu acho que pra que isso aconteça, eu estabeleci algumas coisas. Primeiro, um limite, um final. Eu estabeleci um final de tempo pra eu trabalhar. Daqui 7 anos, eu vou me aposentar. Não sei se é um final pra eu trabalhar, mas talvez um final "Um marco profissional, eu quero não precisar trabalhar. Trabalho não pode ser mais uma necessidade de subsistência." Ótimo. Entendeu? Porque isso muda o jogo. E estabelecer o final me deu uma caminhada mais de boa. Porque quando você sabe que o final tá ali— Imagina você tá numa corrida, que você não sabe onde é o final, você tem mais chance de parar. Agora, se você sabe que o final é ali, que você tá se aproximando desse final, você ganha um fôlego. Então eu estabeleci esse final.
Marcela Ceribelli:Eu fiz isso exatamente esse ano, não o final da aposentadoria, eu ainda não consigo vislumbrar isso, mas eu coloquei algumas metas porque eu acho que eu vim de uma ideia de que eu consigo, eu dou conta. Isso talvez fosse a coisa que eu mais ouvi das pessoas ao meu redor e eu demorei muito para entender Que não era nem saudável a quantidade de gente que me falava: "Não sei como você dá conta de fazer tanta coisa". "Não sei como você dá conta de fazer tanta coisa". E eu falava: "Ué, mas então eu sou uma mulher que dá conta". E essa vaidade... O ego. E aí, agora eu tenho um mantra pra mim mesma, que é: "Não é porque eu consigo que eu devo". Então, tomar muito cuidado também com essas frases. Então assim... Chega alguma coisa mais, sei lá, algum... "Ah, essa semana você vai ter que estar em 4 cidades, Marcela." Talvez eu consiga. Mas a quantidade de vezes que eu fiquei doente depois de ficar pulando de... Eu olho e falo: "Tá, o que é mais importante?" "O que eu consigo remanejar, talvez?" Porque não é porque você consegue que você deveria. Porque no longo prazo Não sei, é tanta— São tantos sintomas que a gente vai ignorando. E você falou da depressão, não sei se você se importa de falar sobre isso. Não, não me importo. Porque eu acho muito importante a gente conversar com alguém como você e falar assim: quando que você teve esse diagnóstico e por quê? Porque eu acho que na pandemia tivemos algumas palavras banalizadas com muitas aspas. Mas a depressão, eu não suporto quando falam: "Ah, mas todo mundo tem ansiedade". Calma. Não, existe um transtorno, é muito sério. E a depressão é a mesma coisa. Não foi uma semana que você ficou meio chateada, né?
Ana Paula Xongani:Não, não foi uma semana, imagina. Foi um tratamento longuíssimo. Um tratamento medicamentoso longuíssimo. Um tratamento psiquiátrico e psicológico longuíssimo. E um desmame longuíssimo. E é isso, o tratamento da depressão é lento, sabe? É constante, é difícil, muito difícil. E é isso, assim, é você... Porque eu lembro, eu tenho uma sensação física do momento da depressão, que andar do meu quarto até a cozinha era muito difícil. Assim, era muito difícil. O meu corpo não conseguia andar do meu quarto até a cozinha. Era assim, difícil. É como se tivesse um... É como se eu tivesse com vários querubéis assim. Presos no meu corpo. E não dá, assim, não dá, não dá. Sempre quando me explicavam o que era depressão, era você enxergar tudo meio preto e branco, sabe? É meio isso, mas assim, é muito estranho, muito estranho. Você dormia? Eu dormia. A minha depressão tem dois tipos, né? Eu dormia muito, eu dormia muito mais. Porque eu sou uma mulher muito ativa e tal, então eu dormia muito mais. Eu queria ir em qualquer lugar. Me recolher, ficar no escuro e dormir. Pra mim, uma fuga, né? É total uma fuga. E aí assim, tá estranho isso, tá, mas é muito louco, né? Porque eu que fui buscar ajuda, ninguém me apontou essa depressão por conta do quê? Da performance. Porque na performance eu tava entregando, né, amor? Porque afinal, nosso trabalho. Então ninguém ia perceber. Quem que ia perceber? Sabe? É difícil de perceber se a pessoa continua entregando na performance. Só que é difícil, é ruim.
Marcela Ceribelli:E foi andando até a cozinha que você percebeu?
Ana Paula Xongani:Foi andando até a cozinha, eu falava: "Não, tá tudo muito difícil, tá errado, tá ruim. Eu preciso de ajuda, eu gosto de viver, eu gosto de fazer as coisas, mas tá moroso, ai..." Sabe? E aí, ajuda. Aí é isso, ajuda medicamentosa. Aí eu não tinha, eu tinha medo dessa, né, desse estereótipo do vício da medicação, tinha medo. Mas bom, eu falei, assim não tem como ficar. E aí, primeiro assim, oportunidade, né, de você ter acesso a um psiquiatra de qualidade, com medicação de qualidade. Porque eu descobri no processo de tratamento da depressão que eu não podia trocar de laboratório de remédio. Remédio que fazia diferença para mim. Então, além de eu tomar, tem que tomar um remédio específico, eu não podia trocar de laboratório, que se eu trocasse de laboratório, se eu tinha um, por exemplo, independente se é genérico ou original, mas se eu começasse, se eu me adaptasse, se eu trocasse, começava uma nova adaptação. É uma hipersensibilidade com os ativos do remédio.
Marcela Ceribelli:E a adaptação é um período muito difícil. Difícil para caramba.
Ana Paula Xongani:Enjoo, tontura, é, ai, gosto ruim na boca, assim, um monte de sintomas horríveis. E o desmame também, Só que o desmame, você tá mais forte. Mas o desmame também dá uma tonturinha, dá um... Eu tive, pelo menos, uma tonturinha, dá um... Porque você tá, né, tirando a medicação do seu corpo. Mas é isso. Aí eu fui em busca e tal. Acesso a medicação de qualidade, acesso a uma psiquiatra que pode te atender a qualquer momento. Sabe o que aconteceu comigo? Que aí tem um pouco mais a ver com ansiedade do que com depressão. Mas elas estão sempre caminhando lado a lado. Eu travei a minha língua. A língua é uma musculatura. E eu simplesmente, minha língua travou. Não conseguia falar. Meu Deus! Agora imagina, gente, comunicação, amor, a língua travar.
Marcela Ceribelli:Uma amiga minha, ela teve um burnout. Porque agora fala a palavra e parece que é piada. Parece piada, exato. Não é nada justo pro que ela teve, mas ela literalmente tava olhando pro computador. E ela não conseguia ler. As letras começaram a se mexer. E ela literalmente não conseguia ler. É o seu corpo falando: "Já passou do limite". Deu! Deu tudo! Deu tudo.
Ana Paula Xongani:Não, é isso, a minha língua travou. E a minha psiquiatra falou: "Do mesmo jeito que a gente pode travar a musculatura do ombro, a gente pode travar a musculatura da língua". Tem noção? Como é que você destravou? Não, medicação. Mesmas medicações, inclusive, das outras musculaturas. Medicação. É, porque é um músculo. Loucura! É loucura. Não, eu acho que é muito importante a gente saber que o corpo humano tem limites. Tem limites? Não, não tem limites. A gente pode ser surpreendido com o nosso corpo em muitos níveis. Por que eu tô falando isso? Pra gente ter respeito a ele. Sabe o mar? Quando você vai entrar no mar, que a tua mãe, tua tia fala assim: "Cuidado com o mar". Respeita. Respeita o mar. O mar é bravo, o mar pode, o mar pode, o poder do mar. O nosso corpo é mar. A gente não sabe até onde, qual que é a profundeza, qual que é a superfície, onde as ondas vão te levar, sabe? A gente não sabe. Então cuida, cuidado, toma cuidado, tenha respeito pelo teu corpo, porque ele pode te levar a lugares que você nem imagina. Principalmente quando a gente fala do neurológico e do psiquiátrico. Teu cérebro pode te levar para lugares que você não imagina, desde os mais incríveis aos mais tenebrosos. Por isso, toma cuidado, cuida do teu corpo, sabe? Tenha cuidado.
Marcela Ceribelli:E tem tudo a ver com relações, porque a gente tá cada vez mais preso na nossa própria cabeça, com a falsa sensação de socialização. E a cabeça pode ser um excelente lugar. Eu sou grata pela minha, né? Porque também tem a ver com honrar nossa, o corpo. Sou muito grata pelas coisas que meu cérebro me deu, mas eu também sei que já me levou para uns buracos que assim, nada como encontrar o outro, seja para falar sobre um assunto ou simplesmente sair um pouco de si. Sim, porque é ali, né, que a gente vai alimentando. E eu sei que eu tô emburacando, o que é meio dicotômico, porque eu amo ficar sozinha. Também Gosto, mas eu sei que quando eu tô querendo demais ficar sozinha, eu não tô bem. É quando eu sei que eu não vou dar conta de encontrar os outros. É uma coisa que é diferente de quando você tá bem, que você fala: "Ai, meio preguiça, tá, mas vamos lá." Isso é bem diferente. Vamos lá. E aí é igual fazer exercício, que você nunca se arrepende de ter ido. Exatamente, exatamente. Falta: "Nossa, me alimentou, que bom." Mas aí é quando fisicamente você não conseguia sair da cama. Aí você assim: "Poxa, Marcela, vamos dar uma... Vamos ver o quê? Vamos dar uma olhadinha pra isso?" E aí tem aquela entrevista da Maria Gabriela, né, que mudou minha vida. Porque ela fala...
Ana Paula Xongani:Aquela pra Astrid? Qual? É pra Astrid? Sim, é...
Marcela Ceribelli:Que ela não tem amigos. É pra Astrid.
Ana Paula Xongani:Ela só tinha amigos de trabalho.
Marcela Ceribelli:Porque ela socializava tanto no trabalho Que chegava em casa, na vida pessoal dela, ela falava: "Nossa, não quero ver gente". Eu falei: "Meu Deus, esse é o meu futuro". Sim. Você também se identificou?
Ana Paula Xongani:Foi um impacto essa entrevista. Foi realmente um impacto. Porque Marília, ela é muito consciente, ela é muito autoconsciente. Mas não deixa de ser doloroso, né. Eu super me identifiquei, e eu venho fazendo esse mantra. Eu falo pras pessoas. Eu tô chata até, eu tô ficando chata. Porque eu falo assim: "Sabe que a gente não se conhece, né". Amigos de trabalho, que a gente passa horas. Aí eu falo: "Você sabe que a gente não se conhece, né?" Porque todo mundo se encontra numa grande performance. Você conhece a minha performance, eu conheço a sua performance. Mas a gente não se conhece, você sabe, né? E eu fico falando isso, né? Eu falo: "Gente, eu não sou amigo de ninguém que eu nunca fui na casa ou que nunca foi na minha casa". Isso não existe. Porque precisa ultrapassar algum limite. Algum limite. Ou vamos viajar juntos. Alguns limites precisam ser ultrapassados. Se a gente só se encontra no trabalho E outra coisa que eu falo também, que é: se a gente só se encontra em um lugar onde tem alguém, outro alguém pagando a conta, né. Por exemplo, eventos de trabalho. Sempre tem alguém pagando a conta. A marca, o outro influenciador. Então a gente não se encontrou, certo? A gente foi encontrar a marca.
Marcela Ceribelli:Certo, porque nos exige... É, se você tá recebendo pra estar ali, seja via dinheiro ou via... Qualquer coisa. O BR que a gente recebe.
Ana Paula Xongani:Joinha indireta. A gente não se encontrou, não foi um encontro nosso. Eu posso ligar pra minha amiga e falar: "Ai, vamos ali no evento X". Não é sobre a gente ainda, ainda é sobre o evento. Então, eu venho pensando muito sobre isso, que a gente vem cada vez menos se relacionando mesmo. Se relacionando. Eu tenho medo também.
Marcela Ceribelli:Eu fico... Mas também é muito exaustivo. Então, ao mesmo tempo, passo um pouquinho de pano pra mim, às vezes. Vamos lá, né? Exige da gente, às vezes, uma energia que já não tá tão aqui.
Ana Paula Xongani:Não, mas calma, calma aí. Exige da gente uma energia, até aí tá tudo bem. Mas a pergunta é: por que que a gente não tem essa energia? Por onde a gente dedicou essa energia?
Marcela Ceribelli:Onde nos ensinaram que era onde tinha que estar tudo e o resto é um extra. Exatamente. Imaginem amizades depois de adulto, assim, a própria lógica família tradicional, não existem amigos. Não, não existem.
Ana Paula Xongani:É um núcleo. É um núcleo fechado.
Marcela Ceribelli:No máximo, tô falando bem a família tradicional, o marido vai jogar bola na quinta-feira.
Ana Paula Xongani:Quinta-feira, fechadinho. Isso. Isso. A esposa encontra as amigas no dia da natação dos filhos.
Marcela Ceribelli:Isso, e é sempre uma coisa rapidinha ali, e ou saem casais, aí tem a mesa das mulheres, a mesa coisa dos homens, que enfim, mas isso tudo tem a ver com o dinheiro e com o trabalho, com preservação desse dinheiro nesse núcleo, né?
Ana Paula Xongani:É, esse é o plano de aposentadoria, é o dinheiro não ser mais o que determina as relações, porque o dinheiro determina as relações, o dinheiro determina tanto a amiga que a gente vai encontrar no job quanto o marido. O dinheiro, um dinheiro é só do futebol, porque senão se ele for encontrar o futebol e mais o outro amigo, são dois dinheiros, esse dinheiro do núcleo da família. Entendeu? Ou então porque a gente precisa trabalhar, então não tem tempo de ir encontrar amiga, porque esse tempo é dedicado ao trabalho. O plano de aposentadoria é exatamente esse, é o dinheiro, o trabalho descentralizado da vida. Muito bom.
Marcela Ceribelli:Você acha que você já teve uma relação ruim com dinheiro?
Ana Paula Xongani:Não, nem tive tantas relações com dinheiro para ter uma relação ruim. Não, não acho, de verdade eu não acho, porque Porque me parece que você tem uma relação muito boa de colocar ele no lugar dele. Eu tenho. Eu tenho, e eu não sei nem se eu tô certa, se é certo, se é errado, se é digno de julgamento. Mas eu acho que as minhas ambições, elas têm um tamanho bem OK, assim. Eu gosto das minhas ambições, elas têm um tamanho que eu acho bom. É engraçado, eu não tenho grandes ambições financeiras, assim. Eu não tenho aquela coisa: "Ai, porque eu quero um dia ter uma grande casa e uma grande mansão." "Eu quero um carro que não sei o quê, eu quero..." Não, eu só quero ter tempo.
Marcela Ceribelli:Eu aprendi recentemente, não, não tão recente. Mas eu aprendi a fazer esse exercício, especialmente com as coisas que o dinheiro compra, que é: pra quê? Então, "Ah, eu quero ganhar tanto." Pra quê? "Porque, ah, eu quero ter uma casa gigante." Pra quê? "Porque eu adoraria reunir a minha família e ter um espaço pra que todos estivessem juntos." Legal. Mas é importante casar com esse "pra quê?" É muito. Porque senão a gente não para.
Ana Paula Xongani:Não, a gente não para. E aí, às vezes você fala assim, que nem esse exemplo que você deu. "Ah, é porque eu quero reunir a minha família." Aham, quantas vezes no ano? 4? Uhum, talvez um Airbnb vai resolver. Talvez resolva. Talvez o problema não é a casa.
Marcela Ceribelli:Cara, é exatamente isso. Mas assim... Tipo assim, é claro, a gente não tem como. Muitas coisas que a gente idealiza. Mas eu penso muito na Rihanna, quando ela fala que ela não tem babá. Porque ela demorou, ela levou 35 anos pra engravidar. Então assim, ela vai... Assim, ela trabalhou muito. Quer dizer, a gente adoraria um novo álbum, né?
Ana Paula Xongani:Sim, mas ela trabalhou muito.
Marcela Ceribelli:Ela falou: "Trabalhei muito. Não, agora eu quero viver disso".
Ana Paula Xongani:Isso não é lindo? Ai, gente, pra mim a meta é essa, perdão. "Não, pra mim a meta é essa". E isso também tem a ver com ego, com abandono de alguns egos. E inclusive com abandono de algumas performances.
Marcela Ceribelli:Mas muito, porque ela não é mais o momento. Não. E é saber passar a coroa.
Ana Paula Xongani:Sim, saber estar fora. Uhum. Forte, né? Forte. Claro que ela pode financeiramente fazer isso.
Marcela Ceribelli:Mas o estereótipo e o histórico que a gente tem de mulheres que abriram mão de fama poder, que tá entrelaçado, dinheiro, é um estereótipo de enlouqueceu. Enlouqueceu?
Ana Paula Xongani:Você não pensa nessas pessoas, por exemplo, que estão há anos no jornal, na TV, na mídia? Você fala assim: por quê?
Marcela Ceribelli:Eu direto me pergunto. E me pergunto se eu... Que não é mais sobre dinheiro, né? Não, não, não. Já não é mais sobre dinheiro há muito tempo. Então por quê?
Ana Paula Xongani:Ah, por quê? Será que é pra não ficar igual a Marília Gabriela?
Marcela Ceribelli:Sozinha? Pode ser. E poder, né? E poder. E o poder no significado inicial, né? O que eu posso e se... Vai, vai, irmã, vai. É, e essa coisa assim de eu tenho muito mais capital social do que você, porque não é só o capital financeiro. Então é o capital social, capital sexual, porque eu tô aqui, eu sou uma das mulheres mais gostosas Desejo que não chegue a nova gostosa. Então assim, são muitos capitais que a gente vai— que é possível de se acumular.
Ana Paula Xongani:E desses capitais, a gente também tem que querer se aposentar, né? D'oh! Nossa! Vou ter que refazer meu plano de aposentado.
Marcela Ceribelli:Você entendeu, irmã? É, é muita coisa. Mas assim, estamos todos um pouco no mesmo barco.
Ana Paula Xongani:Estamos! E eu acho que assim, uma vez eu li que Pensar, falar é ação. A gente não tá só no barco, mas a gente tá agindo para já. Porque a gente tá conversando sobre.
Marcela Ceribelli:Por isso que eu falei do dinheiro. Porque eu acho que se 20 pessoas falaram a palavra dinheiro quando sentaram nesse sofá, foi muito. Mentira! Eu juro pra você. Dinheiro é um... Eu tenho certeza por essa minha trajetória que é o Tabu, é mais fácil as pessoas falarem de política do que de dinheiro. Nossa! Porque... Não sei, é uma coisa também da nossa sociedade brasileira. De também um arquétipo horroroso de que a vilã da novela é a rica. A mocinha vai ser pobre. Então dinheiro é feio, dinheiro corrompe as pessoas. Que é também a ideia de que ser pobre é ser mais feliz. O conceito mais confortável para os ricos é que ninguém queira mais fazer dinheiro, né? Claro. Fique com pouco, você será mais feliz.
Ana Paula Xongani:Você é feliz assim, churrasquinho na laje.
Marcela Ceribelli:Até a reciclagem da estética. Então, de repente, olha como é bonito. E ficou assim, tá, vocês estão subindo vídeo legal pra fazer campanha de moda, mas vocês voltam lá pra cobertura do Leblon. Tranquilo. Tranquilos.
Ana Paula Xongani:Há muito tempo. Há muito tempo.
Marcela Ceribelli:Então eu acho que tem também uma manutenção de classe que tem tudo a ver com aquilo que é confortável pra quem tá te falando: "Não precisa crescer." "Não precisa tanto." É isso.
Ana Paula Xongani:É isso.
Marcela Ceribelli:"Fica aqui tranquilo, você é feliz." "Ah, então você vai viver em comunidade, você tá cheio de gente." Não, gente.
Ana Paula Xongani:Isso vale mais a pena. Aí sempre chega alguém e fala assim: "Isso vale tão mais a pena. Isso sim que é riqueza." Pode. É isso. Tá. Então, mas é engraçado, porque dinheiro é um assunto que é bem difícil mesmo. É quase uma invasão de privacidade você falar com as pessoas, né, sobre dinheiro. E eu venho tentando. E aí, aconteceu uma coisa muito curiosa, porque eu tenho uma amiga que é muito amiga, há muitos anos. E aí, eu fiz uma pergunta assim pra ela, do tipo... "Ah, quanto falta pra você chegar em 1 milhão?" Aí ela falou: "Haha, não vou te falar". E eu fiquei, tipo... Achei que a gente tava conversando. Eu levei um "boom", assim: "Não, não vou te falar". Aí ela falou assim: "É, eu tô esperta".
Marcela Ceribelli:E aí eu falei: "Então eu é que não tô nada esperta".
Ana Paula Xongani:Porque eu achei que a gente tava conversando, assim. E aí eu levei esse chacoalhão, fiquei... E ok. E o que acontece? Por que não? Assim, o que a gente tá preservando? É inveja? É entre amigas? É o lance da energia? Ah, se eu falar de dinheiro? Eu não sei, eu não entendi ainda. Eu queria que mais gente conversasse sobre isso. Por que a gente não fala sobre? Tudo bem, não falamos. Porque assim, o que a gente tá preservando? Talvez eu, você, talvez a gente tá enxergando alguma coisa importantíssima a ser preservada. Ok? Então tá bom. Mas o que a gente tá preservando mesmo? Só pra gente entender aqui.
Marcela Ceribelli:Eu não sei. Eu já parto do princípio de que são as classes dominantes. E aí não é bom que a gente saiba o quanto cada um ganha.
Ana Paula Xongani:Porque assim, eles dominam, pagar o quanto quiser pra cada um. Isso. A gente tem mais a perder.
Marcela Ceribelli:Mas também alguns ideais de que aquela ideia, né, sobre política, religião e dinheiro não se fala. Poxa, nos levou longe, né, essa ideia? Muito longe. Nossa, como foi bom não falar sobre nada disso. Olha onde a gente veio parar. Exatamente. Não se fala e se fala muito.
Ana Paula Xongani:Exatamente. Não, vamos falar, gente, vamos falar. E família, hein? Cara, família, sei lá. Assim, eu venho de um núcleo familiar muito forte. Muito forte, assim. Tudo que eu pude ser é porque esta família se organizou. E aí, eu digo principalmente dos meus pais. Eles se organizaram pra esse projeto de ter filhos. Pra criar eu e o meu irmão de uma forma melhor que eles podiam fazer. E deu certo, assim, no sentido de... De poder dedicar. Minha mãe é uma mulher negra da periferia que pôde escolher ou não trabalhar por 10 anos da vida dela. E isso mudou a minha trajetória, mudou. E aí, isso é muito importante, sabe? Porque às vezes a gente fica querendo entender o porquê que o fulano chega. Às vezes são estruturas que a gente não tá enxergando. E essa é uma estrutura invisível da minha existência que fez toda a diferença. Porque esses 10 anos que minha pôde não trabalhar, o que é muito raro e caro pra mulheres negras, né. Esse discurso do feminismo branco de "Ah, eu quero trabalhar" é das classes de mulheres brancas. As mulheres negras sempre trabalharam e trabalharam muito. Mas esses 10 anos, acho que mudaram muito a minha trajetória. Então a minha mãe tinha tempo. Talvez é por isso que eu sou tão fascinada por ter tempo. Teve tempo de me levar pras casas de cultura. Eu fiz escoteiro, artes plásticas, teatro, artesanato. Eu fiz natação, vôlei. Fiz tudo nesses 10 primeiros anos da minha vida. Que me deram uma base muito legal, que até hoje eu conto essas histórias. Essas histórias fazem parte da minha vida até hoje. Recentemente, eu fiz uma publicidade sobre eu ser escoteira. Que eu fui escoteira dos 0 aos 10. Que eu sei que quem me deu isso foi a oportunidade do meu pai. De estar junto com a gente, da minha mãe ter esse tempo e tal. Então, meu núcleo familiar foi muito forte. E entre outras fragilidades que esse núcleo sustentou, como as questões do racismo no país. Era uma família ativista, consciente. Eu tinha pra onde voltar, eu sabia que eu tinha pra onde voltar, que eu podia chorar, que eu seria acolhida. Que se eu não tivesse a resposta na hora, alguém ia me dizer o que eu tinha que falar no dia seguinte, eu ia falar. Tudo isso fez muita, muita diferença. Quando eu me descobri disléxica, que foi super cedo, eu fui diagnosticada com dislexia com 8 anos de idade. Super cedo! Extremamente cedo, anos 90, sabe? Você tinha família prestando atenção em você? Eu tinha muita família. Minha mãe viu um programa do Jô Soares falando sobre dislexia, ela se reconheceu. Geralmente, dislexia é hereditário. E aí, assim, um dinheiro "Vamos fazer o teste primeiro na Ana Paula, porque a Ana Paula tá em processo escolar, tava na segunda série". Então assim, hoje eu comecei a falar da minha dislexia por medo de perder oportunidade de trabalho tem um ano. Mas por que eu pude não falar sobre isso durante 30 anos? Porque eu fui... Eu tive a oportunidade de me aprender a ser disléxica durante a vida. Porque eu fui diagnosticada com 8 anos de idade, sabe? Eu tive tempo pra aprender a ler, o tempo que eu quis pra aprender a escrever. O tempo que eu quis pra aprender a me locomover. Se localizar nos lugares, sempre com uma família muito... Uma base familiar muito forte. E isso fez com que eu tivesse o desejo de construir minha família. Não acho que foi compulsório, eu sinto que o desejo de construir minha família foi pensado, apesar de ser muito jovem, foi pensado porque eu tinha uma referência muito gostosa. Então eu queria continuar esse projeto de família, sabe? Esse projeto de casamento das minhas filhas. Sempre quis ser mãe de menina, então sempre sonhei em ser mãe de menina. Eu queria muito continuar esse projeto, construir a minha família. Em algum momento, achei que não seria possível. Porque muitas pessoas na minha adolescência, na minha infância falavam que eu ia ser uma mulher solteirona e rica. Muito por conta de ser uma mulher preta, muito forte e tal. "Nenhum homem vai te querer", e não sei o quê. Nem falava da oportunidade de eu ser amada por uma mulher, por exemplo. Mas "nenhum homem vai te querer". "Você vai ser solteirona e rica, você vai ser solteirona e rica". Então, em algum momento eu falei: "Não, talvez é isso".
Marcela Ceribelli:Acho que já escreveram minha história, né?
Ana Paula Xongani:É, então vamos lá. Mas enfim, aí, enfim, quando eu comecei a pensar em construir minha família, eu fui, eu sinto que eu fui com uma malinha bem legal, assim, do passado, sabe? Planejei minha filha, apesar de ter engravidado com 26 anos, foi extremamente planejada. Tudo nerd que eu sou, né, super nerd, organizada e tal. Você engravidou fácil? Não, quando eu fui engravidar, eu descobri que eu era infértil. Aí eu fiz um tratamento pra engravidar. Então não foi nada fácil, e também foi uma alegria extrema, assim, quando eu soube que tava grávida. E mais feliz ainda quando eu soube que era uma menina.
Marcela Ceribelli:Sinto muito que você não tenha tido esse primeiro momento, mas como uma mulher que tá entrando agora, a partir de agora, se eu engravidar, é uma gravidez geriátrica. É muito— eu adoro ouvir essas histórias.
Ana Paula Xongani:Cara, é muito louco. Otimistas, vamos dizer assim. Ah, sim, existem. A medicina tá trabalhando duro nesse sentido e eu acho que a gente tem bons avanços. Mas eu acho que o mais louco antes disso é o tanto de tempo que eu fui exposta a tomar anticoncepcional sem nem poder engravidar. Que pariu! Não. Porque ninguém já fez um teste de ovulação, amores? Você já fez um teste de ovulação? Pois é, ninguém faz. Um 10 de ovulação, a gente não sabe se nós somos mulheres aptas a parir. Você não ovulava? Não, não ovulava. Ou seja, não precisava tomar anticoncepcional.
Marcela Ceribelli:Enfim. Mas também, a gente tem praticamente a mesma idade. Primeiro ginecologista que eu fui, sei lá, com 12 anos, eu falei: "Ah, eu tenho muita cólica." "Toma pílula." Assim, eu não era nem sexualmente ativa ainda.
Ana Paula Xongani:Entendi. Eu também comecei a tomar anticoncepcional antes de começar a transar. Como pode? Como pode? "Um corpinho?" Não, e assim, é uma bomba, enfim. Mas aí, o baque, né, de você descobrir que você é infértil. Que aí você fala: "Oh, ninguém me disse que existia essa opção, essa possibilidade de você não poder, de você querer e não poder". E aí, um baque, sim, é difícil e tal. Fiz o tratamento, como era muito nova, enfim, tudo mais. O tratamento fez efeito muito rápido, engravidei muito rápido. Rápido. E aí, enfim, tive minha família. E hoje somos 4, né. Eu, meu companheiro, o nosso cachorrinho, minha sobrinha e minha filha. Somos 5. São 5, né. É que eu ainda digo de colocar o cachorrinho como... Não como parte da família, mas como filho. Eu sou tutora dele. Mas ele faz parte da família. Um beijo, Beninho.
Marcela Ceribelli:O nome dele é Beninho? Beninho, é. Amor.
Ana Paula Xongani:Eu amo, eu adoro, eu adoro, eu adoro aquela confusão, eu adoro gerir aquela família. É exaustivo, cansativo, muita conversa, reunião, planilha, lousa. Separa comida na geladeira, irmã, porque elas estão numa fase que elas acham que comida não é dinheiro, dinheiro não é comida, e que se a gente faz uma compra do mês e elas acabarem com com tudo em 3 dias, logo terá uma reposição. Então tem pots na geladeira, eu adoro, assim.
Marcela Ceribelli:E aí eu adoro, porque eu também gosto muito da organização da casa. Às vezes fico: gente, será que eu tô virando uma mulher? Será que eu não tinha que ser mais?
Ana Paula Xongani:Isso eu entendo, você tá falando, entendi.
Marcela Ceribelli:Eu não consigo nem colocar em palavras direito.
Ana Paula Xongani:Eu também não vou conseguir, mas a gente vai tentar junto.
Marcela Ceribelli:Mas assim, uma sensação de Mais disruptiva. Ai, mais neoliberal. Isso, mais neoliberal, sabe? A gente tinha que ser mais neoliberal. Às vezes eu penso nisso.
Ana Paula Xongani:E aí eu fico tipo: e agora? O que que eu vou fazer com a minha família heteronormativa? Onde eu vou colocar isso? Mas é a realidade. Eu amo, amo, eu amo. Vocês estão entendendo que eu amo? Quanto tempo você tá casada?
Marcela Ceribelli:18 Tá, eu vou trazer então uma pauta. Assim, teoricamente você pode tirar a boca.
Ana Paula Xongani:Ela já largou o roteiro, agora já pegou pra...
Marcela Ceribelli:Não, peguei como apoio emocional. Vai! Se as ouvintes separarem bem, às vezes pra raciocinar eu pego o roteiro. Pode fazer um corte agora, né? Cheia de manias. Continuando. Nossa, agora é uma coisa muito dúbia. Foi um debate em um grupo de todas casadas. Casadas. Você é casada? Eu moro junto, mas já fui casada 8 anos, acho que queremos ser divorciadas. Chique!
Ana Paula Xongani:Viúva e divorciada, acho que são coisas chiques.
Marcela Ceribelli:Não, viúva é muito mais. Muito mais? Muito mais. Aqui, ó, viúva, divorciada, e aí o resto? Não, eu sou divorciada, tô no meu segundo morar junto. Tá. Mas primeiro fui casada, me explicando, né, de uma maneira, mas O debate era: onde mora— você vai entender muito o que eu vou falar, eu tô sentindo. Vai. Onde mora o equilíbrio entre eu não vou ficar performando a mulher que tá sempre gostosa e gata em casa pro homem, ao mesmo tempo, cara, a gente parece uns skatistas largados em casa. Eu não vou ficar aqui bancando, mas ao mesmo tempo Poxa, onde... Qual que é o equilíbrio, entendeu? Porque a gente ainda gosta de transar também, entendeu? Também! Não que nenhum... Não, calma aí. Ninguém aqui é casado com homem que não transa quando a gente tá igual um boy skatista. Não. Todo mundo transa também quando tá igual um boy skatista.
Ana Paula Xongani:Igualzinho, igualzinho. E transita sem roupa, né?
Marcela Ceribelli:É, não, e acho que o meu boy, acho que ele me elogia até mais quando eu tô meio boy skatista mesmo. Mas pra um casamento de 18 anos, como que a gente... Eu acho que equilibra a nossa liberdade como mulheres, em que a gente não vai ficar performando feminilidade o tempo todo. E ao mesmo tempo, poxa, difícil. Não é uma questão difícil?
Ana Paula Xongani:Dificílima. E eu nesses 18 anos, eu tive muitos sobes e desces. Por exemplo, eu demorei muito para cozinhar na minha família, na minha casa, porque eu falava: "Eu não vou cozinhar, eu não vou cozinhar." Eu comecei a cozinhar desses 18 Tem uns 4 anos, 3 anos. "Eu não vou cozinhar, eu não vou, eu não vou, eu não vou". Só que aí começou, gente... Pra onde foi esse episódio? Porque aí começou a ficar desequilibrado pro outro lado, entendeu?
Marcela Ceribelli:Não fala isso, que isso é uma questão do meu relacionamento.
Ana Paula Xongani:Porque eu comecei: "Eu não vou, ela faz". Cara, uma hora eu vou, entendeu? Porque assim, também não tá justo, entendeu? E aí, minha mãe entrou nessa pira junto comigo. Então, minha mãe, ela tinha um modus operandi, que ela não pedia nada. Nada para mim, era só para o meu marido. Então ela falava: "Rogério, precisa não sei o quê, pegar não sei o quê." Daí eu: "Rogério, não sei o quê, não sei o quê." Ela não falava comigo, porque eu não vou falar da minha filha. E aí eu entrei nessa loucurinha aí, que eu não ia, que eu não fazia, que eu não acontecia, porque afinal eu, eu era uma mulher neoliberal e feminista, ativista e tal, tal, tal. E aí eu falei: "Não tá certo", que de novo entra numa performance. Que tá tudo bem, porque eu acho que pra organizar precisa do conflito.
Marcela Ceribelli:Isso! Mas pode ser também porque a gente tem isso em comum. Porque nós somos filhas de mães feministas. O que na nossa geração é bem mais raro. Sim, bem mais raro. Bem mais raro. Então, outro dia eu tava com meu parceiro na casa da minha mãe. E aí, o meu cachorro fez xixi. E aí eu não me mexi.
Ana Paula Xongani:Óbvio que não!
Marcela Ceribelli:E quando eu vi, tava eu e minha mãe. "Papapá, é aquele homem de 1,80m pegando um pano de chão e lavando." Aí minha mãe: "Marcela, será que..." "Não, não, mãe. Shh, compensação histórica." Isso! Pense na vovó e siga em frente. Você entendeu? Eu entendi, mas você entendeu também?
Ana Paula Xongani:Eu super entendi. É complicado.
Marcela Ceribelli:Só que ao mesmo tempo, assim, chega uma hora que é uma gentileza você ir lá e colaborar.
Ana Paula Xongani:Não, não é uma gentileza, amiga. É o que se propõe em uma relação. Não é uma gentileza. É o que deveria ser.
Marcela Ceribelli:Eu tô mandando um call me, né, Xandão? Esse garoto é onda, né?
Ana Paula Xongani:Vai ser. Porque sabe o que é? Agora você que vai me entender. Eu tenho medo da foto. O que eu quero dizer com isso? Digamos que fizemos ali uma divisão. Cara, não vou nem falar 50%, porque 50% é pouco numa sociedade machista. Oh! 30/70. 70% do trampo é dele, 30% é meu. Digamos, tá? Hipotético. Aí, bem no dia do meu 30, chegou uma amiga em casa. E viu eu lá no meu 30%. Sei lá, lavando uma louça, cozinhando, dobrando uma roupa. Eu fico com medo dessa foto.
Marcela Ceribelli:Eu sei perfeitamente do que você está falando. Porque eu me peguei fazendo coisas que no meu primeiro relacionamento jamais faria.
Ana Paula Xongani:Porque deu vontade. Deu vontade.
Marcela Ceribelli:Deu vontade. E aí eu penso: "Mas o que isso diz sobre mim?" E aí fica nesse conflito que eu acho que várias ouvintes vão se identificar, tá? Porque a gente tá junto há muito tempo, eu e elas. Então a gente aprendeu juntas e agora a gente tá A gente se pega nesses dilemas. Tá, então o que acontece agora que eu tenho consciência disso tudo, não tô mais com o boy terrível. Você teve algum boy terrível na sua vida?
Ana Paula Xongani:Ah, tive, né? Até não sei, vai que você passou imune. Não, um pouco, porque eu casei nova, né?
Marcela Ceribelli:Tava emocionada. Mas a emoção durou, né? Tá durando. Tá durando. Tá durando. Me perdi.
Ana Paula Xongani:Você tava falando do Vai.
Marcela Ceribelli:Não, que eu entendo perfeitamente.
Ana Paula Xongani:Você tava falando que tem coisas do seu primeiro relacionamento que você nunca imaginou fazer no segundo. Mas deu vontade. Deu vontade. E agora? E agora? Como que a gente organiza essa vontade?
Marcela Ceribelli:Como que a gente organiza essa vontade sem que isso se torne também algo que eu me sinto obrigado? Isso não.
Ana Paula Xongani:Isso, sem deixar o parceiro também achando que agora... Porque é muito fácil eles irem pra esse lugar "Ah, fica lá sendo um chato, um escroto e tal, tal, tal". Então você tem que falar: "Olha, eu tô fazendo porque eu tô com vontade".
Marcela Ceribelli:Isso. Mas pra quem tá de fora...
Ana Paula Xongani:Eu tenho muita vergonha da foto. Eu tenho vergonha da foto.
Marcela Ceribelli:Eu tô certa? Não tô. Eu também, eu tô admitindo coisas muito pouco nobres. Pouquíssimo nobres. Seria muito melhor eu chegar e falar: "Eu quero que homem se foda". Só que eu acho que a gente amadureceu um pouco também, né? Para além disso. Super, a gente amadureceu.
Ana Paula Xongani:E assim, não pode ser chato. Uma outra conversa que eu tive outro dia com uma outra amiga, ela falou assim: "Ai, porque o meu marido é ótimo, ele faz tudo que eu quero". Eu falei: "Temos um problema". Antigamente eu ia falar: "Oh-ah!" E agora eu falei: "Temos um problema". Mas ele não quer nada? O que é? O que ele quer, ele precisa querer também.
Marcela Ceribelli:Você assistiu a nova temporada de Treta na Netflix? Não, ainda não. Vou te recomendar então. Tá. Porque é um paralelo entre esses dois casais. Um casal mais millennial, que dá assim... Eu me senti muito velha, porque é o casal mais velho. Só que claramente é millennial, eles vão no show do Hot Chip. Ixi, jovens. E um casal realmente jovem, assim, quase geração alfa, vai. Quantos anos tem o casal jovem? Acho que a menina tem 20.
Ana Paula Xongani:Não é muito louco quando as gerações seguintes começam a fazer—
Marcela Ceribelli:eles estão retratando a gente como velha, tá?
Ana Paula Xongani:Mas é muito velha, porque a velha é a geração Z.
Marcela Ceribelli:Ah, você acha que eles já acham geração Z velha? Claro! Nossa, a gente tá muito velha.
Ana Paula Xongani:Capital Social Juventude, esse eu tô Eu tô bem tranquila. Tô tipo, irmã, 6, 7. Nossa, eu tô tranquila. E outra, eu tenho duas jovens na minha casa, então assim, o meu limite é o que eu tenho que me relacionar com elas. Aqui, ó, deu. Não, assim, sabe, deu. Ah não, eu tô bem tranquila, eu tô bem tranquila.
Marcela Ceribelli:O casal mais jovem tem muito orgulho de que eles não brigam "Não, nunca. A gente nunca briga." E aí a mulher mais velha vai até eles e fala: "Ah é? Vocês nunca brigam?" E ela tá num relacionamento de 20 anos e eles estão juntos há 2 anos, mas são noivos. Ela falou: "Você tem que entender que as nossas sombras precisam aparecer de alguma maneira. E se elas não aparecerem dentro da relação, elas estão aparecendo fora. A gente tem que descarregar em algum lugar." Eu não tô falando sobre ser escroto. Não, gente, quando eu falo de sombra é... Mas na boa relação, a gente também conhece um lado nosso que a gente não se orgulha. E das relações que talvez sejam muito lindas na foto— Eu não acredito. Mas é só uma questão de tempo ou de falta de intimidade.
Ana Paula Xongani:Ou até de falta de capacidade de aprofundar. É. Porque viver na superfície—
Marcela Ceribelli:Só que tem uma cena genial. Tem várias cenas geniais, tá? Tá bem bom, assim, se você assistir meio pra analisar. Sim, eles fizeram muito bem o roteiro. Inteiro, porque eles acabam de— o casalzinho jovem acaba de transar. A menina tinha passado por um trauma, não precisa entrar no spoiler agora. Ela vai para o banho e aí o menino vai para o Reddit, sabe aqueles fóruns de internet, e pergunta assim: minha namorada está agindo estranha depois de transar, o que pode ser? E é muito engraçado porque assim, ela tá ali, era só perguntar para ela, pergunta para ela, Mas estamos perdendo essa habilidade porque a resposta tão perto, mais fácil. Ela vai lá, pergunta para o chatGPT.
Ana Paula Xongani:É menos exposição publicar uma coisa nas redes do que conversar olho no olho com as pessoas, né?
Marcela Ceribelli:Exatamente. E aí a gente deixa de assumir o risco, o risco, porque tem que ter risco, tem que ter risco de você perguntar algo que talvez engatilhar, mas assim, que inclusive o problema seja "Não gostei de você, e você tem que lidar com isso".
Ana Paula Xongani:A pessoa vai falar: "Por que tá acontecendo?" A pessoa vai responder: "Porque você... Não gostei de transar com você". E você tem que lidar com isso. É muito arriscado, né?
Marcela Ceribelli:É muito arriscado. É... E aí, não vai criando quase que imunidade mesmo à frustração, à tristeza. Porque tudo vai desviando tanto que a gente perde o diálogo. E uma relação de 18 anos só acontece no diálogo.
Ana Paula Xongani:Sem dúvida. Muito diálogo, assim. É uma decisão mesmo, né? Decisão de parceria. E aí, assim, dando uma resposta pra nossa própria questão da foto, eu acho que— tô falando na teoria, não que eu consiga na prática. Mas a gente tem que bancar. Porque no final do dia, a gente vai ter que bancar essa escolha. Eu fico tentando me convencer que é isso, as pessoas precisam acreditar na minha inteligência, na minha integridade, na minha autopercepção. Então, assim, uma vez alguém perguntou: "Mas vale a pena?" Vale a pena se relacionar com o teu marido? Ser casada? Eu falei: até aqui, vale. Ah, mas tem certeza? Sim, tenho, tô elaborando essa pergunta. Pode perguntar, porque é bom a gente abrir essas perguntas, esses questionamentos. Mas vale a pena? Por que que vale a pena? A pessoa vai estar: mas por que que vale a pena? Falei: ah, por vários motivos. Pô, eu gosto de abrir a porta de casa e ter uma pessoa adulta gusta para que eu compartilhe das coisas. Eu gosto de ter alguém para dividir esse projeto financeiro. Eu gosto muito de ter alguém que eu acredito nas ideologias e no caráter para criar uma criança, que hoje é adolescente, vai ser uma adulta juntos. Eu gosto de ensinar, eu gosto de aprender. Cara, para mim vem valendo a pena. É óbvio que se eu falar dos problemas dessa relação discussão dos problemas da masculinidade, dos problemas do machismo, eu vou ter mais engajamento e mais acolhimento. Porque faz parte do que a gente quer de mudança, é importante ser assim. Só que assim, vale a pena. A gente não vai ficar abrindo câmera pra ficar falando o quanto vale a pena estar com os nossos boys. Não cabe nesse momento, quase.
Marcela Ceribelli:Não cabe.
Ana Paula Xongani:Mas vale a pena, se a gente tá, porque vale a pena. Aqui, no íntimo, Tá valendo a pena, sabe? Até a gente elaborar e descobrir que não vale mais a pena. Então, no final do dia, é isso que eu tento falar na Paula.
Marcela Ceribelli:Banca aí tua história, cara. É exatamente isso. É você lembrar que você tá bancando uma história que você escolheu. E isso é muito diferente de: "Ai, a Thaía, sua família heteronormativa..." Não, não, não. Você escolheu construir um projeto junto com outra pessoa. Eu acho isso muito bonito. Eu vou continuar achando bonito. É muito bonito. Então, eu preciso finalizar o programa. Como a gente vai fazer isso? Eu vou fazer assim, ó. Tem dois quadros finais que já me ajudam a acabar o programa. Porque aí eu já entro aqui, ó. A gente tá entrando no finalzinho, vou começar a fazer a baliza. Tá bom. E a primeira delas é saber se você está fissurada por algo atualmente. Hmm, deixa eu pensar. Ó, aqui se responde de um filme até "estou triste que meu filho saiu de casa", assim. Varia bastante.
Ana Paula Xongani:Eu acho que a gente falou um pouco sobre a minha fissura. Eu tô fissurada por essa ideia de planejar uma aposentadoria, assim. É uma coisa que eu pesquiso, eu leio sobre, eu fico me perguntando. Eu converso muito com a Juju, né, a Júlia, que é uma pessoa que fez um modo de vida completamente diferente. E ela me puxa assim, do tipo: "Dá para parar?" Uma vez ela me falou: "Você sabe que se você quiser parar de trabalhar hoje, você pode, né?" Eu falei: "Não." Aí ela falou: "Você pode, você pode." É que se a Juju te fala isso pra 90% das pessoas, as pessoas vão lá morar com ela, assim, porque...
Marcela Ceribelli:Talvez ela abra a porta, viu? Não fala isso pra Lela, porque a Lela é minha amiga muito funda. Ela vai acabar de aparecer lá.
Ana Paula Xongani:"Alô, Lela Brandão, a Juju vai topar." Mas enfim, eu acho que eu tô muito fissurada por isso, por pensar aposentadoria no sentido de... Saber limites de trabalho, recurso, quanto tempo eu preciso, o que que eu vou fazer quando eu parar. É algo que vem me chamando muita atenção, observando pessoas que pararam, observando pessoas que não pararam, observando trajetória. Talvez eu vou traduzir isso melhor: eu venho sendo um pouco fissurada em velhice. Muito bom. Velhice me encanta, me atrai. Não sei se encanta, nem sempre encanta, às vezes é triste, tenebroso. Mas não o processo de envelhecer, mas o que as pessoas fazem com as velhices, né. Mas velhice é um tema que eu venho olhando, eu falo: "Cara..." Porque se a velhice, que é a nossa última etapa de vida, não for bom, pra quê? Pra quê? Assim, pra quê que a gente fez tudo isso?
Marcela Ceribelli:Isso. E sair dessa eterna corrida de: "Quando eu chegar lá?" Não tem quando. Não tem quando.
Ana Paula Xongani:Precisa ter, precisa, sabe? Sim, velhice e as estruturas para que essa velhice aconteça da melhor forma possível é algo que eu sou fissurada, me chama atenção. Por isso que eu lembrei do programa da Astrid, que é sobre velhices, né? Nobres Conselheiras, algo parecido com Conselheiras. E eu acho isso sensacional. Velhice é algo que me fissura bastante.
Marcela Ceribelli:Eu gosto muito do conceito de terceiro ato, né? Que é como se fosse...
Ana Paula Xongani:Maravilhoso, porque é o melhor, né?
Marcela Ceribelli:Qual vai ser o terceiro ato? A Jane Fonda fala sobre isso, né? Nossa, falam que a velhice é muito difícil, eu achava muito mais difícil ser jovem. Total, cara! A dúvida, tanta coisa, as coisas estão melhorando. É. Pra gente finalizar...
Ana Paula Xongani:Se a gente descobrir, desculpa, mas se a gente descobrir que a velhice é a melhor fase da vida e contaram pra gente que a juventude...
Marcela Ceribelli:Porque a foto fica melhor. A gente pode não tirar foto. Não, é porque a foto não entrega a qualidade. Gente, assim, eu não voltaria para 10 anos atrás por nada.
Ana Paula Xongani:Também não.
Marcela Ceribelli:Nada, nada, nada, nada, nada, nada. Você quer me perguntar alguma coisa? Eu fiz algumas perguntas. Você me fez muitas perguntas. Você tá disposta a tudo pelo seu sonho? Não. Nem eu. Não, não, não, porque quando você fala o meu tudo, me vem tudo que eu verdadeiramente mais amo. Que é meu irmão, minha mãe, minha avó. Eu não, não, nesse tudo ninguém mexe. Meus amigos, meu parceiro também, esse meu tudo. Não, não, não, não, nisso ninguém mexe, ninguém mexe, ninguém. Então eu acho que o sonho é que eu direcionei diretamente, pode ir para análise, Direcionei muito pro trabalho, mas é outro sonho, é outro sonho.
Ana Paula Xongani:Eu também não tô disposta a tudo. Foi, acho que uma das melhores, mais recentes descobertas.
Marcela Ceribelli:Ué, senão era fácil, né? Na verdade, onde a gente tá hoje, se a gente tivesse disposta a tudo, inclusive...
Ana Paula Xongani:A gente estaria em outro lugar.
Marcela Ceribelli:A gente estaria se relacionando com algum homem ou mulher que desse uma boa manchete, que fosse deixar a gente mais famosa. Entende? Assim, se a gente estivesse disposto a jogar o jogo que a gente sabe que existe, Casal Famoso e um curso digital em que a gente diria: "5 passos pra você se tornar uma grande comunicadora". A gente não tá disposta a tudo. A gente não tá disposta a enganar ninguém. E isso dá muito menos dinheiro.
Ana Paula Xongani:Muito menos. E muito mais trabalho. Nossa! Tô muito feliz que você veio aqui. Eu tô muito, assim, eu poderia ficar aqui uns dias.
Marcela Ceribelli:Não, eu já tô pensando como é que a gente vai fazer, porque enfim. "Sim, bom, eu moro no Rio, mas tá convidada quando você quiser." Eu tô sempre no Rio. Você tá sempre no Rio? Tô, eu vou pro Rio hoje. Porque você falou: "Ah, eu..." Vocês, mas assim, você falou: "Ah, tem que ir na casa." Eu concordo, mas eu acho que também tem que ir à praia. Tem que pegar uma praia junto, a família.
Ana Paula Xongani:Não, eu acho que pode ser. Casa, eu acho que é um critério balizador que pode ser ressignificado com outros movimentos que a gente sabe que é íntimo, que é próprio, que é, sabe? Que vai aprofundar as relações. E as relações.
Marcela Ceribelli:Eu amei, eu amei. Eu sabia que eu ia te amar, mas eu amei muito. Eu adorei estar aqui, gente.
Ana Paula Xongani:Eu adorei estar aqui, eu adorei estar aqui, foi muito gostoso. Obrigada. E eu sinceramente acho que as conversas são o que a gente tem de mais precioso pra deixar no mundo. De verdade. Porque a gente falou sobre troca e relações, né. A gente não conseguiria falar absolutamente nada do que a gente falou hoje sem ser uma conversa entre nós duas e entre vocês que estão assistindo. Então isso é muito precioso, isso é muito valioso. E desde que o mundo é mundo, são as trocas, as conversas que constroem o próximo passo. Então é só mais um dia que a gente pode fazer isso juntas.
Marcela Ceribelli:E vem aí o podcast Xungani.
Ana Paula Xongani:Êêêê! Rolou umas orações.
Marcela Ceribelli:Rolou. Se você ouviu esse episódio esse episódio pensando: "Quero ser amiga da Xongani", se inscreva aqui. Mentira. Mas deixe também o seu comentário e quem sabe a gente continua essa conversa que foi tão legal. Acho que foi bom de Óbvios no seu melhor momento. Pra gente continuar essa história, na descrição do episódio tem um link pra você se inscrever na newsletter da Óbvios e receber conteúdos que aprofundam essa conversa. A gente segue por lá. Você pode também, quem sabe, avaliar podcast no seu tocador e compartilhar com alguém que precisa ouvir um pouco mais daquilo que a gente falou aqui hoje. No Instagram a gente se vê no @obvious.cc e no @chapadinhasdeendorfina. Você também me encontra no meu perfil @marcialaceribelli. Até o próximo Bom Dia Óbvio! Bom Dia Óbvio é um podcast roteirizado e apresentado por mim, Marcial Aceribelli, e produzido e editado pela Osmunda Studio.
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Marcela Ceribelli
Sintomas — e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou