Episódios de Bom dia, Obvious

fissuras #2: mudei de ideia, com Marcela Ceribelli

16 de março de 202620min
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Eu ia fazer este episódio sobre mudança de rota. Sobre aquele momento em que a vida pede uma curva e a gente insiste em seguir em linha reta só porque já informou aos outros que era por ali. Mas no meio do caminho eu mudei de ideia. E essa mudança de ideia acabou me parecendo o próprio centro do episódio. Porque mudar de ideia, para uma mulher, raramente é tratado como um gesto simples. Às vezes é lido como falha de caráter. Às vezes como ingratidão. Às vezes como instabilidade. Às vezes como manipulação. E, em certos contextos, mudar de ideia ainda pode ser entendido como provocação, afronta ou fraude. A mulher que muda de ideia no trabalho é vista como difícil. A mulher que muda de ideia numa relação é vista como cruel. A mulher que muda de ideia no sexo ainda corre o risco de ser tratada como mentirosa. Como se o problema não fosse a incapacidade do outro de lidar com um limite, mas a audácia dela de estabelecê-lo. Essa é uma das ficções mais persistentes da cultura patriarcal: a ideia de que o desejo masculino tem uma espécie de precedência natural, e que o desejo feminino existe mais como resposta do que como soberania. 

Eu sou a Marcela Ceribelli. Esse é o segundo episódio de Fissuras, um novo quadro do Bom Dia, Obvious em que eu pego aquilo que me persegue — um livro, uma música, uma cena, uma notícia — e tento transformar em linguagem antes que vire sintoma. A fissura de hoje é esta: se meninas continuam aprendendo desde cedo a se proteger dos homens, o que exatamente os meninos estão aprendendo sobre as mulheres? 

Espero que as minhas fissuras se deem bem com as suas.

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Assista  “Juntas & Separadas”, a nova série original do Globoplay: https://globoplay.globo.com/juntas-separadas/t/bcp9DcpNfq/

A nova série original do Globoplay fala sobre recomeços. De autoria de Thalita Rebouças, a história acompanha quatro mulheres que se tornam grandes amigas enquanto se apoiam para encarar a vida depois do divórcio, vivendo as dores e as delícias da separação.

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⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Aurora: O despertar da mulher exausta⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

Referências:

Livros da Virginie Despentes: AQUI

Livros de Miranda July: AQUI

Veja também a pesquisa feita para o Dia Internacional da Mulher: AQUI

Assuntos15
  • Mulheres e EmpreendedorismoMeninas aprendem a se proteger de homens · Medo como pedagodia para meninas · O que meninos aprendem sobre mulheres · Identidade masculina construída por negação · Masculinidade frágil e medo da desvalorização
  • Consentimento e revogaçãoConsentimento não é contrato permanente · Consentimento como presença com vontade · Mudança de vontade durante relações sexuais · Interpretação masculina da recusa como humilhação · Limite feminino como direito
  • Mudanças de VidaEstigma social da mudança de opinião · Interpretação como falha de caráter · Leitura como instabilidade ou manipulação · Diferença de tratamento por gênero · Direito à mudança de vontade
  • PatriarcadoPrecedência natural do desejo masculino · Desejo feminino como resposta vs soberania · Tutela masculina como proteção contra violência · Mulher como propriedade ou território · Patriarcado se adaptando ao tempo
  • Medo e Controle PsicológicoMedo de estupro como gestão de risco · Impacto nas escolhas de horários e trajetos · Restrições invisíveis na liberdade de movimento · Vigilância e antecipação de perigo · Medo como proteção patriarcal
  • Violência contra a mulherViolência no intervalo entre consentimento e recusa · Recusa como mudança de roteiro inaceitável · Frustração masculina como justificativa · Casos recentes como padrão sistêmico · Clareza revelada por casos de violência
  • Trabalho emocional femininoAdministração do ego masculino · Sorrir para reduzir risco · Ceder para não escalar · Paz como pressão silenciosa · Condescendência contínua
  • Caso de compartilhamento não consentidoVídeo gravado sem consentimento · Vergonha pública e reputação feminina · Julgamento moral da vítima · Responsabilização da mulher pelo abuso · Memória da adolescência e impacto
  • Comunidades Online MisóginasRed Pill e atualização da misoginia · Narrativa de vitimização masculina · Culpabilização de mulheres por frustração · Apelo para adolescentes ressentidos · Impacto na percepção e comportamento
  • Estatisticas e DadosPesquisa IPSOS sobre igualdade de gênero · 31% dos homens gerações alpha concordam que esposa deve obedecer · Comparação com Baby Boomers (13%) · Regressão vs progresso geracional · Patriarcado se reinventando
  • Histórico monogamia e sistemas sociaisMonogamia como proteção social informal · Mulher como propriedade de um homem · Carteirinha de autorização para circular · Exclusividade como troca de tutela · Mulheres solteiras impedidas de frequentar lugares
  • Mulher em circunstâncias vulneráveisMulher sexual como ameaça · Viagem solo e experimentação · Capacidade de terminar relacionamentos · Autonomia sexual · Desafio ao patriarcado
  • Construção da CoragemSolidão da percepção clara · Abandono de versões otimistas · Relacionamentos que não suportam integridade · Preço da recusa de papéis · Culpa, difamação, isolamento, medo
  • Direitos da FamíliaDeclínio dos matrimônios · Mulheres como principais decisoras · Separações antes de 10 anos · Novos arranjos familiares · Desafios pós-separação
  • Séries de TV e StreamingRecomeços após divórcio · Quatro mulheres em transformação · Amizade feminina como apoio · Dores e delícias da separação · Autoironia e leveza
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Já faz um tempo que o casamento deixou de ser um compromisso pra vida toda e ainda bem. Os números de matrimônios vêm caindo enquanto os divórcios só aumentam. Pra você ter uma ideia, 47,7% dos casais se separam antes de completar 10 anos de união. E sabe quem, na maioria das vezes, toma essa decisão? As mulheres, claro. Muitas de nós estão encerrando relações que já não fazem mais sentido. Mas o que acontece depois da separação? Como fica a vida quando você precisa procurar um novo lugar pra morar?

de grana, a guarda compartilhada dos filhos e ainda administrar os novos contatos. É isso que mostra Juntas e Separadas, nova série original do Globoplay. De autoria da minha querida Thalita Rebouças, a história acompanha quatro mulheres que se tornaram grandes amigas enquanto se apoiam para encarar a vida depois do divórcio, vivendo as dores e as delícias da separação. Com humor e leveza, a série fala sobre mudanças, medos e amizade feminina. Um deleite para quem está se redescobrindo como mulher. Juntas e Separadas,

disponível no Globoplay. Minha primeira memória de minha intimidade feminina transformada em entretenimento coletivo vem da minha adolescência. Era uma menina de uma escola que era perto da minha. Eu acho que eu tinha uns 16 anos ou até um pouco menos. Ela também. O vídeo tinha sido gravado sem consentimento pela webcam do cara que ela tava transando. Eu já tô com raiva e já gaguejei. Eu vou deixar esse gagueje pra você entender o que acontece quando as mulheres ficam com raiva. A gente improvisa.

Entendo que, inclusive, era pornografia infantil. Naquela época, aquilo circulava com a velocidade obscena de tudo que envolve sexo, vergonha e uma menina. O caso atravessou escolas, grupos, corredores, mesas de jantar. Eram diversas discussões. No dia seguinte que a história chegou até mim, eu cheguei no colégio com aquela convicção fervorosa que só a adolescência produz. Imagine eu versão adolescência.

Conta pra defender o que me parecia muito óbvio. Foi então que uma menina com aquele tipo particular de superioridade que apenas a adolescência também traz pra gente disse Você acha que ela é vítima? Você não sabe que ela já ia ficar com outro menino quando o primeiro terminasse. Eu não tenho pena dela não, Marcela. Ela mereceu. O que me marcou naquela frase não foi apenas a crueldade, foi um pouco da lógica. A ideia de que o verdadeiro crime não tinha sido filmar uma menina

sem consentimento, nem espalhar a sua intimidade com uma punição pública. O verdadeiro crime, naquela moral meio torta, tinha sido ela desejar demais. Ela desejar errado. Ou não organizar a própria sexualidade segundo um código de pureza que ninguém nunca exigiu daqueles meninos que estavam envolvidos. Havia naquela frase uma pedagogia inteira. A lição era brutal e simples. Uma mulher pode até ser vítima.

desde que antes tenha se comportado de maneira impecável. Basta um desvio real ou imaginado para que a violência contra ela deixe de ser lida como violência e passe a ser tratada como consequência. Não mais um abuso, mas uma correção moral. Como um castigo, uma conta que chega. Talvez tenha sido uma das primeiras vezes que eu entendi, ainda sem ter linguagem para isso, que o mundo não pune apenas o que as mulheres sofrem. Ele pune, sobretudo, o que imagina que elas desejaram.

Eu sou Marcela Ceribelli e esse é o segundo episódio de Fissuras. Esse novo quadro do Bom Dia Óbvio em que eu pego aquilo que me persegue, seja um livro, uma música, uma cena ou até uma notícia, e tento transformar em linguagem antes que vire sintoma. A fissura de hoje é essa. Se meninas continuam aprendendo desde cedo a se proteger dos homens, o que exatamente os meninos estão aprendendo sobre as mulheres? Na pesquisa feita para o Dia Internacional da Mulher deste ano, feita pela Ipsos em parceria com o Global Institute for Women's Leadership

de London em 29 países, incluindo o Brasil, 31% dos homens da geração Z disseram concordar que a esposa deve obedecer ao marido. Para você ter uma ideia do quanto esse número é alto, entre os homens baby boomers, esse número cai para 13%. É um dado incômodo por mil motivos. A mais óbvia é o conteúdo. A menos óbvia, talvez, e mais perturbadora é o que ele desmonta. Durante muito tempo, a gente se consolou com a ideia de que o tempo ia resolver.

Cada geração seria naturalmente mais livre, mais sofisticada, mais igualitária que a anterior. Nos iludimos pensando que estávamos rumo à evolução. Como se a história tivesse um instinto automático de progresso. Como se bastasse a gente esperar e, claro, lutar. Mas a história não é uma escada rolante moral. Às vezes ela empaca e às vezes ela até anda de lado. Às vezes, e não raras vezes, o patriarcado apenas troca de roupa.

nova linguagem, se adapta ao gosto do tempo e retorna com ideias antigas embaladas como se fossem novas. Tem uma frase que eu gosto muito, que fala que não necessariamente a história se repete, mas ela rima. Eu ia fazer esse episódio sobre mudança de rota, sobre aquele momento em que a vida pede uma curva e a gente insiste em seguir a linha reta, só por quem já informou aos outros que esse é meu caminho. Eu queria falar sobre pensamentos intrusivos, sobre tudo aquilo que a gente deveria ouvir para ter mais coragem.

O risco da gente deixar pensamentos mais violentos, mais sombrios, mais ressentidos assumirem o volante, transformarem a gente em passageiro da própria vida. Estava obcecada em como existem pessoas que dirigem, pessoas que apenas são manobristas, totalmente inspirada pelo livro de quatro da Miranda Dillay. São aquelas que conduzem a própria trajetória e outras só aprendem a estacionar dentro do espaço que lhes foi concedido. Mas no meio do caminho, eu tive que mudar de ideia.

sendo o próprio centro do episódio. Porque mudar de ideia para uma mulher raramente é tratado como um gesto simples. Às vezes é lido como falha de caráter, como ingratidão, como instabilidade. Muitas vezes como manipulação. A mulher que muda de ideia no trabalho pode ser vista como difícil. A mulher que muda de ideia numa relação é vista como cruel. A mulher que muda de ideia no sexo ainda corre o risco de ser tratada como mentirosa. Como se o problema não fosse a incapacidade do outro de lidar com o limite.

Essa é uma das ficções mais persistentes da cultura patriarcal. A ideia de que o desejo masculino tem uma espécie de precedência natural e que o desejo feminino existe mais como uma resposta do que como soberania. Por isso, quando uma mulher diz não depois de já ter dito sim para alguma etapa de alguma experiência, esse não costuma ser escutado como uma atualização de vontade. Ele é vivido por muitos homens como uma desautorização pessoal ou quase uma humilhação.

um, consentimento não é um contrato. Não é uma senha que é fornecida no início da noite que garante acesso irrestrito até segunda ordem. Consentimento é presença contínua de vontade. E vontade humana é móvel. Vontade humana hesita, vontade humana recua e a gente pode mudar. Isso deveria ser o óbvio, mas ainda não é. Talvez porque reconhecer isso exigiria desmontar uma pedagogia muito mais funda. Uma pedagogia que ensina meninas a verem estado constantes

antecipação de risco, ensinam meninos, em maior ou menor grau, a interpretarem a frustração deles como um dano. Virginia Despentes escreveu de forma especialmente brutal como o medo de estupro molda a vida das mulheres antes mesmo que qualquer estupro aconteça ou se vai acontecer. O medo aparece fantasiado de prudência. Não volta sozinha. Não aceita carona. Não bebe demais. Não usa isso. Não vai lá. Não confie. Não facilite. Não fique até tarde. Não dê brecha.

Cada frase pode até aparecer isoladamente como um conselho. Mas juntas, elas começam a formar a arquitetura que vai definir os nossos horários, nossos trajetos, nossas roupas. Ele define o modo como a gente entra num carro, como a gente olha pra trás na rua, como a gente compartilha nossa localização e fica estudando a saída mais próxima. Como sair pra um date não mede mais apenas o nosso desejo, mas o quanto será que a gente vai se colocar em risco ou não. O medo pra gente se torna como uma logística de vida

talvez seja um dos mecanismos mais perversos do patriarcado. Ele faz parecer que está protegendo aquilo que ele mesmo produz. Oferece uma tutela masculina como solução para a violência masculina. O pacto implícito sempre foi esse. Vincule-se a um homem e estará ao menos relativamente protegida de outros homens. Não é exatamente segurança. Historicamente, a mulher respeitável era mulher ligada a um homem específico. Seja o pai, o marido, o noivo.

selo de legibilidade. Sempre houve algum guardião, alguém em termos sociais respondia por aquele corpo. E eu te faço um convite. Quantas vezes você foi paquerada, azarada, sei lá como é que fala hoje em dia, num ambiente, e o homem só aceitou parar de encher o seu saco quando você falou que tinha namorado? Será que os homens são capazes de respeitar o nosso desejo, o nosso limite, ou eles apenas respeitam outros homens? E se a gente pensar bem, as únicas mulheres historicamente autorizadas a viver entre mulheres e sem homens,

eram as freiras. E mesmo assim, sob uma condição muito precisa, a renúncia total à sexualidade. A alternativa a respeitar a monogamia parecia ser apenas a abstinência. E esse arranjo não era apenas romântico, era político. A monogamia heterossexual apareceu por muito tempo não apenas como um ideal amoroso, mas como um sistema informal de proteção social às mulheres e também como acesso. Não sei se você sabe, mas durante muito tempo,

Não podiam nem frequentar certos lugares. Os homens eram como a nossa carteirinha de autorização para circular. E eu estou falando de clubes, restaurantes, lugares. Teoricamente, deveriam ser públicos. Então, a gente precisou de um homem para nos proteger de homens? Precisou de homens para estar na sociedade? A gente precisou de homens para não ser violentada por homens? Em troca da proteção masculina, esperava-se exclusividade.

ela renúncia. Em troca dessa relativa segurança, um certo pertencimento. Por isso, a mulher sozinha, a mulher sexual, a mulher que circula sem chancela masculina, que pode viajar sozinha, que experimenta, que transa com quem quer, que termina, que reconsidera, que decide que vai sim transar, talvez, com dois caras, mas não quer ser filmada. Que decide, no Réveillon, que ela vai sim encontrar com um cara que ela está afim de transar. Que talvez ele possa, sim, talvez, chamar uns amigos.

Mas a hora que ela fala que quer que pare, é pra parar. É nesse ponto que alguns casos recentes deixam de parecer apenas casos. Afinal de contas, eu abri esse episódio falando de um caso que aconteceu em 2006. Estamos em 2026. A história não se refete. Mas rima, né? O que incomoda em certos casos de violência não é apenas a violência em si. E acredite em mim, me incomoda muito a violência. É a clareza com que eles revelam a reação social ao limite feminino.

ainda existe no imaginário coletivo uma zona cinzenta entre consentir uma coisa e ser supostamente obrigada a seguir consentindo com o resto. A violência sexual muitas vezes acontece exatamente nesse intervalo. O momento em que a mulher percebe que não quer mais continuar e o homem entende isso não como um limite, mas como uma mudança de roteiro que ele não aceita. Porque mudar de ideia é o contrário de ter uma disponibilidade total. É a prova de que existe um sujeito ali.

justamente isso que o patriarcado mais tem a dificuldade de suportar. Mulheres como sujeitos. Com interioridade, com vontade própria, capazes de interromper, reconsiderar, revogar, recusar, sair de cena, fechar a porta e não voltar. Mulheres que não existem para completar a narrativa emocional de um homem. Me permito então mudar um pouco a pergunta do início desse episódio para como os meninos estão sendo ensinados a lidar com o fato de que as mulheres têm vontade

E aqui a internet entra como um amplificador quase obsceno. A chamada red pill, ou a pílula vermelha, não inventou a misoginia. Seria até elegante demais da parte dela. O que ela fez foi atualizar a distribuição. Pegou ressentimentos antigos, deu a eles vocabulário e os transformou num produto escalável. Hoje existe um ecossistema inteiro voltado a ensinar homens jovens a converter dor em uma explicação super simplificada.

Você não foi rejeitado por questões complexas, você não sofre porque viver é difícil, porque intimidade exige maturidade, desejo é assimétrico, porque ninguém deve ser garantido a ninguém. Você sofre por culpa delas, porque elas são manipuladoras, porque elas escolhem errado, porque mulheres humilham, mentem, usem, descartam. É uma narrativa particularmente atraente para adolescentes porque elimina a parte mais difícil do crescimento.

sofrer sem transformar sofrimento em direito sobre alguém. A cultura digital de masculinidade ressentida oferece um livro temporário para a vergonha. Ela retira do indivíduo a tarefa de elaborar e substitui por uma teoria. Você não foi frustrado. É uma injustiça. E quando a gente narra desse modo, tende a pedir um pouco de reparação. E não se trata de afirmar que todo menino exposto a esse conteúdo vai se tornar violento. Também seria perigoso eu afirmar isso. Mas também seria ingênuo fingir que essas ideias, num modo

uma percepção. Elas moldam. E a percepção molda comportamento. A cultura sempre foi uma escola, mesmo quando se disfarça de uma distração nas telas. Talvez uma das frases mais precisas sobre masculinidade seja de que muitos meninos não aprendem crescendo a ser homens, mas a não serem meninas. Porque uma identidade construída por negação costuma ser emocionalmente frágil. Não chora, não seja molengo, não seja vulnerável, não se humilhe, não seja fraco,

seja feminino, não seja uma menininha. Se a masculinidade é organizada em torno do pânico da desvalorização, então o limite feminino pode facilmente ser percebido como um rebaixamento. Não para no não. É um pouco de uma cena narcísica. E pra quem foi treinado a confundir dignidade com controle, perder controle parece perder valor. E aí que a recusa de uma mulher deixa de ser entendida como direito e passa a ser sentida como ofensa. Só que nenhuma frustração

masculina cria direito sobre o corpo alheio. Nenhuma. Pode até ser óbvio. E é justamente por isso que impressiona e me impressiona que ainda seja necessário eu afirmá-la. Porque parece que eu voltei pro recreio de 20 anos atrás. Porque eu achei que eu não ia precisar repetir isso. Mas segue sendo necessário porque em muitos ambientes a gente parou no tempo ou talvez nunca tenha saído dele. Porque essa tendência

de tratar a frustração masculina como um drama antológico e o limite feminino como um detalhe que pode ser muito inconveniente. E olha só, isso extrapola o campo do sexo. Porque muitas mulheres foram treinadas a chamar de pais aquilo que era apenas a ausência temporária de conflito. A sorrir pra reduzir o risco e a ceder pra não escalar. A seguir essas conversas que a gente já quer encerrar há tanto tempo. Mas a gente sabe que as relações precisam dessa nossa administração.

traçando o ego dos homens, como se fosse uma parte natural do trabalho emocional feminino. E o ego, inclusive, que pode também chegar na hora do sexo, afinal de contas, esse não vai ser um episódio sobre isso. Mas é como dizem, se a paz depende do seu silêncio, não é paz, é opressão. E isso me parece mais central do que nunca, porque devolve o problema ao seu devido lugar. O que muitas vezes se chama de harmonia, não é harmonia. Somos nós fazendo a contenção,

Uma gestão preventiva do desconforto masculino. Somos nós diminuindo a nossa própria presença para que o ambiente continue leve. Talvez por isso mudar de ideia seja um gesto tão importante. Porque mudar de ideia rompe a lógica dessa docilidade contínua. Acaba interrompendo a expectativa de disponibilidade eterna feminina. E afirma que a vontade feminina não existe apenas para confirmar um roteiro alheio. Eu sei, tem uma solidão nisso.

encarar uma outra pessoa ou uma cultura ou uma relação como ela é e não como gostaríamos que fosse. Existe uma solidão gigante em abandonar a versão otimista de alguém e também em admitir que certos vínculos não queriam exatamente a nossa presença, mas a nossa complacência. Existe uma solidão gigantesca em perceber que algumas relações não suportam a nossa interioridade, apenas a nossa função. Talvez seja por isso que a lucidez cobre tão caro. Porque separa a mulher que está mudando de ideia,

aquela que está desorganizando alguma coisa, aquela fantasia romântica que continua sendo sustentada por autoridade masculina, que é o que a geração Z parece estar acreditando. Por isso, a minha fissura agora é desorganizar essa ideia tão antiga que a gente deveria seguir cooperando com o papel que nos foi dado. Porque isso tem um preço, seja ele culpa, difamação, isolamento, medo ou até violência.

casos recentes estejam mostrando com essa clareza tão desconfortável. Muita gente aceita a emancipação feminina até o momento em que ela produz efeito concreto. Todo mundo gosta da ideia ou gosta de dizer que gosta da ideia de mulheres livres em tese. O problema é quando a nossa liberdade dá limite ao outro. Agora, a gente foi longe demais. Comecei esse episódio querendo falar sobre mudança de rota. E eu acho que eu continuo falando sobre isso.

Porque eu entendi no meio do caminho que existe uma pergunta anterior a qualquer curva. Quem, nessa cultura,

tem o direito reconhecido de segurar o volante. Porque há séculos, meninas aprendem a se proteger dos homens, a ler esse ambiente e a antecipar esse tal humor alheio, a calcular o risco antes mesmo da gente poder desejar, até saber qual é o nosso desejo. Mas a pergunta que fica é outra metade dessa equação. Porque se meninas continuam aprendendo desde cedo a se proteger dos homens, o que exatamente os meninos estão aprendendo sobre mulheres?

Que vontade feminina não é provocação. Que limite não é afronta. É limite. Que recuar não é se tornar uma fraude. Que consentimento pode acabar no meio. E que nenhuma frustração masculina pode autorizar violência. E que mudar de ideia pra uma mulher não deveria ser nenhum ato de coragem extraordinária. É apenas um direito. O nome mais básico de liberdade. Essa conversa tá muito longe de terminar.

pergunta que resposta. Mas eu quero que a gente faça as perguntas certas. Juntas. Me conta como essa fissura chegou até aí? Eu te espero nos comentários. E pra mais conversas e proximidade com mulheres que pulsam o questionamento e estão dispostas a fazer novas perguntas, está aberta a lista da pré-venda da segunda temporada do meu Clube do Livro. O link pra ser uma das primeiras a saber quando as inscrições abrirem está na descrição desse episódio. Eu te espero.

Por mim, Marcela Cribelli e produzido e editado por Osamunda Estúdio.

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