o amor que você tolera, com Camilla Veles
A minha definição favorita de autoestima não caberia estampada em uma garrafa à venda na boca do caixa. Muito menos serviria como slogan de campanha sobre as mulheres se aceitarem exatamente como são. O jeito que falamos sobre autoestima diminuiu o tamanho do problema. Vem de play?
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Sintomas — e o que mais aprendi quando o amor me decepcionou
- Relacionamentos FamiliaresMulheres criadas para serem escolhidas e não para escolher · Aprendizado de submissão desde a infância · Virtude da paciência e compreensão como armadilha · Negação do desejo como forma de controle · Diferenças de gênero na educação emocional
- Identidade e AutoestimaDefinição real de autoestima além do superficial · Autoestima como termômetro do amor próprio · Diferença entre aceitar-se e tolerar comportamentos prejudiciais · Como baixa autoestima transpõe nos relacionamentos · Ciclo de frustração e aceitação de menos
- Caridade e FilantropiaAtos generosos motivados por medo de abandono · Controle fantasiado de generosidade · Condicionalidade dos desejos e afetos · Expectativa de reciprocidade como moeda de troca · Performance de cuidado em relações familiares e amorosas
- Padrões de comportamento e repetição neurológicaCircuitos neurais e comportamentos automáticos · Como mudança de pensamento reescreve padrões · Repetição como método de instalação de novos hábitos · Diferença entre sentimento e padrão no cérebro · Treinamento mental e visualização de novos cenários
- Medo e Controle PsicológicoRisco emocional de expressar desejo · Vulnerabilidade como requisito para relações autênticas · Previsão ansiosa de futuros cenários · Proteção versus abertura emocional · Aceitação de que amor envolve risco de dor
- Pilares da Saúde EmocionalReconhecimento de padrão em múltiplos contextos · Relacionamentos amorosos, profissionais e familiares como reflexos · Dinâmicas de controle repetidas em esferas diferentes · Conforto no desconforto como obstáculo à mudança · Necessidade de visão panorâmica dos padrões
- Crise InstitucionalCrítica interna e vozes limitantes · Relacionamento consigo mesmo como espelho dos relacionamentos externos · Autocompassão versus autoflagelo · Pensamentos automáticos e reestruturação cognitiva · Transposição de padrões internos para comportamentos externos
- Infância de GisèleRótulos recebidos na infância e suas consequências · Mensagens negativas sobre desejo em crianças · Castigo e rejeição como aprendizado emocional · Repetição de traumas geracionais · Dessensibilização gradual de necessidades infantis
- Desabamento de EstruturasDesconstrução de crenças limitantes · Processo de morte e renascimento pessoal · Torre do Tarô como metáfora de transformação · Construção de novas estruturas pessoais · Desconforto como sinal de mudança
- Motivação e Bem-estar PessoalNegação histórica do desejo feminino · Desejo como compass e legitimidade pessoal · Diferença entre desejo genuíno e condicionado · Consequências de negar desejos internos · Ressignificação do desejo como ato político
- Esquerdomachismo EmpreendedorismoMulher evoluída como aquela que tolera mais · Performance de maturidade e independência emocional · Desmistificação de ideais de perfeição feminina · Rigidez como virtude versus compreensão como armadilha · Ressignificação de traços considerados 'positivos'
- Pessimismo econômico e culturalDesistência do amor como proteção · Dano do heteropessimismo e conteúdo tóxico · Manutenção da criança esperançosa dentro de si · Possibilidades positivas além da narrativa dominante · Desejo como resistência
- Psicologia e Comportamento HumanoMétodo do trabalho com partes do ser (IFS - Internal Family Systems) · Livro 'Não há partes ruins' de Richard Schwartz · Diálogo interno entre diferentes aspectos da psique · Reencenação e brincadeira como ferramentas terapêuticas · Importância de rede de apoio profissional
- Conhecimento interno e curiosidade sobre siExploração do mundo interno versus aceitação passiva · Perguntas inteligentes como geradoras de vida melhor · Investigação curioso de sentimentos e gatilhos · Acesso ao conhecimento já presente dentro de si · Transformação através da autoinvestigação
A minha definição favorita de autoestima não caberia estampada numa garrafa à venda na boca do caixa. Muito menos serviria como slogan de campanha sobre mulheres se aceitarem exatamente como são, dito muitas vezes por mulheres que, para serem quem são hoje, precisaram atravessar longos processos para deixarem de ser quem eram. Eu começo por aqui porque o jeito como a gente fala de autoestima diminuiu o tamanho do problema. A autoestima foi embalada como um assunto individual, simples.
que daria para medir como se fosse febre, alta ou baixa. Mas a autoestima não funciona como uma virose. Não tem prazo e não tem sintoma óbvio. E não passa sozinha só porque a gente se cuidou por sete dias. Ela não aparece só no nosso humor. Ela aparece também no nosso comportamento e transborda para os nossos relacionamentos. Se existisse um termômetro de autoestima, ele não mediria só a nossa autoimagem.
Mediria o nível de presença que a gente se permite desejar. E mediria também o que a gente acha que tem que aguentar para que o outro permaneça. Quando a gente entende isso, as perguntas começam a mudar. Não é exatamente como eu me sinto comigo hoje. É mais como o que eu tenho autorizado nas minhas relações que não tem me feito bem. Bom dia, óbvios. Eu sou Marcela Ceribelli e o episódio de hoje se chama O Amor Que Você Tolera.
E para conversar comigo sobre tudo isso, eu recebo a terapeuta Camila Velhas. E antes da gente começar, um recado rápido. Se você é do time que gosta de aprofundar conversas muito além do óbvio, lendo, estudando e trocando com mulheres que pulsam conhecimento, está aberta a lista para pré-venda da segunda temporada do meu Clube do Livro. Nele, a gente tem encontros semanais com alguns dos maiores especialistas do país
Bom dia, óbvias. Bom dia, Camila. Como que você tá hoje? Bom dia, Marcela. Eu tô muito feliz. Primeiramente, muita gratidão pelo convite. E tô muito animada pra gente falar sobre autoestima.
e amor próprio, porque realmente o buraco é bem mais embaixo, né? Você sabe que quando eu comecei a conhecer seu trabalho e a gente combinou que haveria essa gravação, eu fiquei muito pensando poxa, autoestima e eu mesma, dentro dos meus vícios, me perguntei se a gente ia falar sobre autoestima em tempos de comparação padrão estético e aí me caiu que, peraí eu escrevi um livro que fala muito sobre isso, sobre como
como essa autoestima foi embalada para o que a gente olha no espelho, quando, na verdade, essa autoestima, nosso senso de valor, acaba por transbordar especialmente nos nossos relacionamentos. Então, Camila, para a gente começar aqui bem de levinho, quais que para você são os sinais de que essa baixa autoestima estão aparecendo nos relacionamentos, sejam eles amorosos, familiares, de trabalho, amizades,
Enfim. Pra mim, o maior sintoma é sempre se preocupar muito com o que o outro vai pensar. Sempre colocar a sua vida em função do olhar de alguém de fora. E esquecer que, na verdade, quem é a pessoa que você mais tem que se preocupar com a opinião é você. Só que a gente não foi também treinada a pensar muito dessa forma, né? Então, dentro dos relacionamentos, a gente vai deixando de falar, porque vai que o outro vai ficar chateado.
exigente, vou parecer muito emocionada, vou parecer chata. E aí toda essa preocupação com o julgamento que o outro vai ter sobre uma fala minha ou sobre uma atitude minha vem antes do próprio desejo. O desejo tá ali, o desejo de mais atenção, de mais constância, de mais afeto, às vezes de mais mensagens, tá ali pulsando. A frustração tá ali pulsando. Só que eu não tenho coragem de bancar esse desejo porque dentro de nós tem muito mais em padrão de preocupação
do que de autovalidação. Pra mim é sempre esse lado que pega muito quando eu observo as relações e eu vejo que geralmente a mulher tá nesse papel de ser a mais compreensiva, a mais paciente. A que já pensa três passos na frente, né? E não fala, não pede, porque já acha que o outro vai fazer isso, isso e aquilo. Ah, então eu já nem vou me colocar desde o início. E aí isso vai minando.
ainda mais e vira um ciclo vicioso. Ela não faz, ela fica sem, ela fica ainda mais frustrada, abaixa ainda mais a autoestima e esse ciclo se alimenta até uma hora. Ou ele se quebra ou a pessoa realmente se afunda nisso, né? Que é o mais triste pra mim. É, acaba implodindo. Isso vai desde saber pedir um aumento e também pedir reconhecimento muitas vezes sobre o seu trabalho que aumentou de volume, aumentou a responsabilidade
mas a proporção daquilo que você ganha não acompanhou. E também nas relações que eu acho que foi uma virada de página pra mim, quando eu consegui, e eu considero isso uma vitória, tá? Separar que o que alguém vai achar de mim sobre uma atitude que eu tive, não é aquilo que eu sou. Eu sei o que eu sou. E isso, finalmente,
Eu acho que é estar um pouco com a autoestima em dia. Parece um clichê, mas, bom, os clichês existem por algum motivo. Talvez não seja apenas amar quem se é, mas também saber quem somos antes até de amar. Eu acho que é um ponto bem importante, porque, primeiro de tudo, pra saber quem a gente é, precisamos tirar, né, nos despir de tudo que a gente foi ensinado a ser.
Que só esse amor embalado pela estética, pelo amor ao corpo, por só se achar incrível, colocar uma roupa, uma maquiagem. Ótimo, isso é muito legal. Isso é a ponta do iceberg. Mas para além disso, é muito interessante pensar quem eu quero ser com essa roupa. Quem é a essência aqui que está fazendo esse corpo caminhar? Quem é a essência aqui que faz essa voz se colocar, se posicionar? Eu acho muito legal isso que você traz.
eu já me preocupo menos com a opinião do outro, porque eu começo a colocar um limite, assim, em mim. Quando eu não sei quem eu sou, tudo que o outro fala pode ser eu. Alguém fala que eu sou chata, aí eu questiono, será que eu sou chata mesmo? Alguém fala que eu sou exigente, nossa, mas será que eu não tô sendo exigente mesmo? E aí todo adjetivo que outra pessoa tenta colar em mim, eu aceito, porque eu mesma ainda não defini quem eu sou. Eu não coloquei uma limitação, né, no meu ser. Não uma limitação,
sentido de crenças limitantes e que eu não me permito fazer as coisas, mas quando eu delimito mesmo, porque eu trabalho muito imageticamente, então na minha cabeça eu vejo muito uma ameba quando eu não sei o que eu sou. E aí, de repente, eu vou dando contornos e dando forma pra essa coisa disforme e vou falando, ah, eu sou um pouco disso, eu sou um pouco disso. E vou começando a falar, tá, a partir de agora eu consigo me delimitar mais e caminhar mais com esses limites.
Tudo o que vier de fora não vai colar em mim, porque eu fiz esse trabalho. Quando também eu aprendo o que eu não sou, é muito importante porque no meu trabalho como mentora e como terapeuta, muitas pessoas ficam nessa busca de mas não era para eu ser assim? Eu como mulher não era para eu agir dessa forma? E aí eu vou descobrindo que eu fui ensinada a ser de muitas formas.
a me comportar, de muitas formas a agradar. E aí quando eu também consigo dizer, não, eu não sou mais essa pessoa que agrada, eu não sou mais essa pessoa que abaixa a cabeça, eu não sou mais essa pessoa tímida, eu não sou mais essa pessoa medrosa. Eu acho que ambos definem quem nós somos. Tanto falar o que você é, quanto o que você não é. Não sei se ficou muito confuso, difícil de entender. Ficou super claro, porque eu acho que isso passa até pela educação de crianças. É um perigo você falar pra uma criança que ela é.
alguma coisa. Eu tava numa viagem e tinha esse rio, e tinha essa família, e tinha essa menininha, e eu tava na beira, né? Eu tava entre a água e a areia, e aí tinha essa menininha que ela tava com muito medo de entrar. E aí a mãe dela ficava gritando pra ela, como você é medrosa, entra logo! Para de ser medrosa! Entra logo! E a menina só chorava mais,
porque eu não acho que ela estava conseguindo se entender ali. Porque ela ia ter que... Parecia quase... Peraí, eu sou medrosa, mas eu tenho que entrar? Enfim, eu estou falando talvez de uma criança de dois anos e meio, no máximo. Ela era bem pititica, assim. E aí, ela veio do meu lado e ela perguntou qual é o seu nome, bem como criança faz. E aí, eu falei para ela, ela me falou o nome dela, eu falei, eu te achei tão curioso.
porque eu vi que você não sabia o que era que ia te encontrar no Rio. E você tentou ir mesmo assim, né? E aí ela grudou em mim, a gente cocotando conchinha. E esse é o final dessa história. A mãe dela não me ouviu falando e eu não estou criticando a mãe dela. Só estou dizendo que se isso funciona pra criança, imagina quantas vezes não é o mundo ali dentro do Rio falando pra gente
Pedrosa, parar de ser tal coisa. A gente assume que a gente é o que o outro fala. Então, você é muito insegura. Se você vai repetindo isso muitas vezes, quando é que você vai possivelmente aceitar que a insegurança fez parte de uma temporada da sua vida e não da série inteira? Dá pra gente diferenciar isso? Como que você trata isso com as mulheres que você trabalha? Nossa, eu acho...
Ótimo esse paralelo que você faz dessa comparação. Porque insegurança a gente sempre vai ter. Sempre que existe algo novo que a gente tem que encarar. Vai vir também um medo, uma insegurança. Porque a gente não sabe o que vai vir. Então, com certeza, faz parte de nós sermos tudo. Eu acredito que tudo nos atravessa. A insegurança, a coragem, a certeza, a incerteza, o medo. Tá tudo aqui. Só que cada um tem o seu momento. E às vezes a gente vai lá e coloca aquela grande máscara. E fala, eu sou isso.
O tempo todo. Ou até, tipo, com timidez. As pessoas falam, ah, eu sou tímida. Sempre fui uma criança tímida. E eu falo, duvido que você sempre foi uma criança tímida. Porque até a criança mais tímida saiu correndo, gritando, feliz da vida em algum momento. E naquele momento ela não foi tímida. Mas de tanto repetir isso, vira a personalidade toda da pessoa. E tem um livro que eu gosto muito que chama Não Há Partes Ruins. Que é do psicoterapeuta Richard Schwartz.
ele fala muito sobre que a gente tem muitas partes dentro de nós o tempo todo. A gente tem a parte que se julga o tempo todo, a gente tem a parte medrosa, a gente tem a parte amorosa, porque a gente sabe ser carinhosa quando a gente quer, a gente sabe ser compreensiva. E aí é saber quem que tá aqui no comando agora. Ah, é a parte que tá tímida? É a parte insegura? Então como que eu vou conversar com a minha parte insegura? Quem que tem que conversar com a minha parte insegura pra ajudar ela nesse momento aqui?
para trazer um pouco de confiança. Ah, deixa eu chamar a Camila que é um pouco mais confiante, que já passou por várias situações, já conseguiu superar vários obstáculos e tem as evidências de que é capaz, que a parte insegura está meio se fechando para enxergar isso. Então pega a Camila confiante, pega na mão da Camila insegura, vamos conversar e se falar. E geralmente o diálogo que se dá é, eu entendo a sua insegurança, eu entendo o seu medo, é algo novo.
capaz de fazer tal e tal coisa. E aí, de repente, realmente vira só um momento da insegurança. Que ele é resolvido e as partes se ajudam pra seguir em frente. Seja pra enfrentar aquilo, seja pra dar uma pausa e falar realmente, acho que agora não é hora de fazer isso. A insegurança tá muito grande. Deixa eu dar um colo aqui primeiro pra mim. Deixa eu me reenergizar ou pegar um pouco mais de informação pra eu, então, fazer isso. E é nisso que todas as partes podem existir dentro de nós.
Só que sem o julgamento de eu não devia estar sentindo isso, ou não deveria estar fazendo isso, eu já deveria ter resolvido isso. E aos poucos a gente vai sendo muito mais maleável com o que aparece. E aí não precisa pegar nenhuma dessas características como a minha única forma de existir no mundo é essa. Não, a gente pode ser tudo. E cada uma tem um espaço. Então a gente pode dizer que a vergonha e a ideia de não quero dar trabalho,
acabam por ser grandes inimigos nossos e amigos da nossa autocensura? Com certeza amigos da autocensura, mas não digo que são nossos inimigos. Eu acho que são informações sobre nós. Porque aí se eu tenho um olhar mais curioso, ao invés de já falar, olha só como eu me censuro, olha só como eu tenho vergonha, eu não devia ter vergonha. E se eu troco isso para, nossa, por que eu tenho tanta vergonha? E vai conversar com essa vergonha?
Aí a gente descobre que, ai, é verdade, eu lembro que lá na infância, em algum momento parecido com isso aqui que eu tô vivendo agora, eu também senti um pouco disso, ou alguém reforçou alguma coisa, falou algo pra mim, e eu me senti assim. E aí desde então, toda vez que eu passo por uma situação parecida, eu sinto essa vergonha. Eu me censuro pra evitar que eu passe pela mesma dor ou pelo mesmo sofrimento. A gente tem esses mecanismos muito mais como uma proteção pra evitar dores que a gente já viveu, né?
o nosso cérebro, ele tá sempre assim, procurando situações com as quais a gente já se relaciona antes e falando, tá, se a gente já viveu isso antes, vai acontecer assim, assim, assim, então pra evitar que você vai passar por isso e isso, então já vamos colocar esse mecanismo aqui de defesa e você vai fazer tal coisa. Bem generalizado, né, mas se a gente pegar cada uma das emoções e cada uma das nossas limitações, dá pra colocar nessa estrutura e saber que o seu cérebro tá o tempo todo querendo adivinhar o que vai acontecer e já se preparar
para evitar aquilo. E aí nisso a gente se censura muito. Nossa, sim. Se encaixa com o que você falou no início da conversa sobre a gente estar sempre três, quatro passos na frente. E como que dentro das nossas relações amorosas e o jeito que a gente dá amor, como que a gente sabe diferenciar quando a gente está sendo generosa ou hiperdisponível
Porque a gente tem medo de se a gente não for assim, a pessoa vai embora. Eu adoro me questionar isso também, porque é muito único de cada pessoa. Eu acho que cada um tem uma régua diferente, né? Ou limites diferentes. Mas eu acredito que para diferenciar uma atitude que parte de uma generosidade, de uma atitude que parte de um medo de perder ou de um medo de julgamento, a gente tem que estar muito conectada com as nossas emoções.
Porque como a gente se sente enquanto a gente faz aquilo, diz muito sobre a coisa. E como a gente se sente com a resposta do outro também. Porque se eu faço um ato generoso, se eu me dou, se eu dou carinho, se eu entrego presença, não só porque eu sei que o outro vai gostar daquilo, mas é porque é o que eu quero fazer, é o meu desejo estar ali entregando aquilo, eu me sinto bem. O outro, às vezes, talvez não entregue na mesma intensidade, mas eu, Camila, posso falar só do meu lugar de fala,
eu penso assim, nossa, eu tô feliz, eu tô satisfeita, porque eu fui guiada pelo meu desejo, fiz e me senti satisfeita de ter feito. Agora, quando eu parto de um medo, eu sinto que as atitudes que a gente tem quando elas partem do medo, elas são um pouco manipuladoras também. Vou fazer isso pra conseguir isso da pessoa, pra que ela não me abandone, pra que ela me veja de certa forma, e assim eu vou mascarando toda essa nhaca que tem aqui dentro de mim.
entrego a presença e do outro lado não existe a presença, eu não me sinto satisfeito. Eu fico, ué, eu dei e eu não recebi. Então quer dizer que eu não parti de um desejo genuíno meu, parti de uma manipulação, porque eu precisava gerar uma atitude e uma ação do outro pra eu me sentir segura, ou pra eu sentir que eu sou suficiente, pra eu sentir que eu ainda sou interessante aqui nessa relação. E aí isso gera as frustrações que muitas de nós, eu inclusa, né,
disso, que a gente sente. Eu acho que quando a gente não parte de um desejo genuíno e parte muito mais dessas inseguranças, a gente tá sempre num jogo, sempre buscando receber algo pra validar algo em nós. É a generosidade fantasiada de controle. Na verdade, controle fantasiado de generosidade. Imagina, deixa que eu organize isso aqui. Imagina, deixa que eu faço isso. Mas na verdade você quer que as coisas saiam
exatamente da sua maneira e na verdade você quer que o outro ou os outros dependam de você pra que aquilo aconteça porque se os outros não estiverem dependendo de você você também tem medo de ser descartável é uma grande performance no fim das contas e isso não só em relacionamentos românticos mas até do jeito que você fala muitas mães fazem isso com seus filhos mães ou pais, cuidadores de olha só como eu faço tudo
você. O que eu quero em troca é toda a sua atenção, todo o seu carinho também. E não é só de um desejo de ser essa mãe que provê, que tá ali. Tem muitos exemplos, né, não só generalizados, mas eu vivia isso, não com a minha mãe, mas um pouco com a minha avó, de ter essa consciência, assim, de que ela fazia e ela era legal, porque ela sabia que aquilo ia deixar um peso na balança e que depois ela ia pedir pra que fosse compensado. E eu acredito que a gente tá vivendo
muito isso em relacionamentos. Eu só quero entregar se eu tiver a certeza de que eu vou receber. E não é uma coisa que parte só, meu, eu quero estar com essa pessoa e por isso eu vou estar, independente do que vai acontecer depois. Eu sinto que tá muito num lugar de troca, de comércio e os desejos estão ficando um pouco comercializados mesmo. Eles estão ficando muito condicionais. Eu só vou mostrar o meu desejo se eu tiver certeza que do outro lado eu vou conseguir fazer a pessoa também me entregar alguma coisa.
Então faz muito sentido. Você traz uma imagem mais concreta dessa ideia que eu trouxe. É bem legal. A gente faz isso com a presença. A gente faz isso com carinho. A gente faz isso com a intimidade. Com as trocas sexuais. A gente faz isso com muitas coisas. E é tudo numa falsa sensação de que pode controlar o outro. De que pode controlar a relação a partir do que entrega e do que não entrega. E aí ficam relações muito fakes. Não sei outra palavra.
não alinhadas com o que a gente realmente quer viver. Eu acho que a gente desaprendeu ou nunca aprendeu de uma forma genuína assim a se relacionar pelo nosso desejo. Que é uma coisa que me pega muito hoje em dia. Falar sobre o desejo. Admitir que eu tenho um desejo. Admitir que eu tenho uma carência. Admitir que eu tenho essas vontades pulsando dentro de mim. E que nem sempre eu tenho coragem de falar sobre elas. Porque eu tenho muito medo do que o outro vai responder. De como o outro vai reagir.
meu desejo. E aí a gente volta na infância, porque quantas vezes na infância a gente não manifestou um desejo e a gente foi reprimida. Ou a gente foi castigada, ou falaram que não era possível. Agora não. E a gente recebeu muitas negativas em cima dos nossos desejos. Então é óbvio que a gente tem uma mensagem dentro de nós de que o meu desejo ou não é tão importante assim, ou não cabe aqui, porque não coube lá com os meus pais, com os meus cuidadores, ou
Essa pessoa não é capaz de me dar o que eu quero, então eu nem vou pedir, eu nem vou colocar o meu desejo em pauta, e vou só aceitar o que ela tá me dando. São muitas camadas. É, e é muito interessante isso que você tá trazendo, porque são camadas, muitas vezes, que a gente não tá enxergando. Então, muitas vezes, você tá querendo provar pra si mesma que você merece aquela atenção,
aquele afeto na mesma proporção que você está exausta de cuidar do outro. Então, quando você se coloca no lugar de cuidadora, também você está numa posição de um pouco mais de controle. Só que quando vem o desejo de ser cuidada, você vai ter que assumir o risco da vulnerabilidade. E para quem sempre foi cuidadora e se colocou nesse lugar de que o outro é um elo um pouco mais fraco,
precisa mais de mim, de repente topar ser esse elo mais fraco. E aqui, de novo, eu não estou falando só de relacionamento amoroso, tá? Definitivamente isso pode ser dentro do núcleo familiar, ambiente de trabalho, dentro da amizade. Para ser cuidada, você vai ter que entrar e admitir as suas vulnerabilidades. E admitir vulnerabilidade é sempre um risco, porque exige a confiança no outro. E confiar no outro é sempre aquela aposta no futuro.
Puts, como é difícil pra quem tá prevendo o futuro o tempo todo e 40 mil cenários apostar que se eu for vulnerável, essa relação não tá em risco. Isso me lembra muito uma performance da Mariana Abramovic. Não sei se você já viu ela com o esposo dela. Ela segura o arco e ele aflecha, né? E os dois estão de frente pro outro. E isso é, tipo, resumindo uma relação romântica. Eu estou aqui na frente de alguém que pode me machucar a qualquer momento.
Porque a partir do momento que eu dou voz ao meu desejo. Admito que eu quero algo. Eu também entro nesse campo das possibilidades. E uma delas é não receber o meu desejo. Receber a rejeição. Receber alguém falando não para o meu desejo. E isso dói. E eu não quero lidar com isso. Eu prefiro nem falar que eu tenho desejo. Porque aí eu passo longe da possibilidade. De viver nessa vulnerabilidade da rejeição. Ou de saber que tem alguém que eu gosto muito. Que não é capaz.
me dá o que eu quero, mas com certeza admitir os nossos desejos hoje em dia é a parte mais difícil, porque eu sinto que às vezes nem a gente sabe o que quer direito ou a gente tá tão presa nessa idealização das relações do que tem que acontecer, do que não tem isso tem que significar tal coisa se a pessoa faz isso, significa aquilo que de novo, acho que eu vou bater nessa tecla várias vezes isso afasta muito do que realmente é o que eu quero, porque às vezes
Às vezes, o que todo mundo quer é um afeto, um acolhimento, um colo. E alguém te dizendo, eu te entendo, eu tô aqui, eu não vou te deixar sozinha. E é tão mais simples, mas aí a gente complexifica por causa do medo. Porque essa vulnerabilidade é aterrorizante. Claro que é um risco e dentro de uma embalagem que se colocou que quanto mais você tolera
você precisa, você é uma mulher evoluída. Então, a noção de uma mulher mais madura e que está bem resolvida passou também a ser sobre tudo bem se você me der migalhas, porque eu me garanto, porque eu estou bem comigo. Então, se você precisa do outro, talvez você seja insegura. E não tem nada a ver com isso.
performance, como você disse. E eu queria saber de você, o que você acha que a baixa autoestima nesse sentido, a insegurança, nos faz aceitar e tolerar mesmo sem perceber? A gente aceita tudo. A gente não vê desrespeito, a gente não vê falta, a gente não vê inconsistência, porque a gente vai criando historinhas pra justificar tudo isso.
Existe um desrespeito. Ah, mas ele é tão carinhoso. Ah, ele gritou comigo. Mas depois, à noite, a gente dormiu abraçadinho de conchinha. E aí, existe uma lente. Quando a gente não tá certa do que quer. Não tá defendendo o próprio desejo. Não tá dizendo, eu sou assim. E tá ok eu querer isso aqui que eu quero. E deixa eu observar o mundo ao meu redor. Pra ver se o mundo, não o mundo como um todo. Mas se as pessoas com quem eu estou me relacionando romanticamente.
ou como amigos ou familiares, se eles estão se alinhando com o que eu quero. Quando a gente não tem esse combo, né, que eu digo que é o combo da autoestima e da autovalidação, qualquer coisa vai servir porque eu vou estar buscando uma migalinha aqui, uma migalinha ali. Eu vou estar buscando uma mensagem que veio às 10 da noite com um convite muito esquisito pra ir pra casa da pessoa. E vou olhar aquilo e falar, ah, mas ele está pensando em mim. Tudo bem que é 10 da noite de uma quarta-feira.
10 da noite tá até cedo pra cada horário que eu já me submeti, mas é bom falar publicamente pra todas as mulheres saberem que todas nós já nos humilhamos. Já, sim. E tá tudo bem, porque é isso. Se eu pego cada vez que eu me coloco nessas posições de aceitar menos, você pergunta assim, né, o que a gente aceita quando a gente tá com uma autoestima baixa? E é falar, a gente aceita tudo porque qualquer coisa é melhor do que nada. A gente vê qualquer coisa como
um alvo positivo e a gente inventa uma história em cima daquilo pra justificar o porquê que aquilo é positivo. Sendo que não, é só uma migalha e você tá tentando transformar aquilo num banquete. Tá tudo bem se quando eu passo por esse processo de me pegar no meio de uma migalha e começo a falar nossa, mas isso aqui não tá legal. E não só começar a falar isso aqui não tá legal, mas será mesmo que eu preciso? Por que que eu tô aqui? E é começar a ter esse olhar curioso.
E começar a se questionar. Porque tudo começa com as perguntas que a gente começa a se fazer. Perguntas inteligentes vão criando uma vida melhor pra gente. Então se a gente começa a se perguntar por que isso? Por que eu tô me sujeitando? O que me prende aqui? Por que eu não consigo sair disso? Aos poucos a gente vai buscando respostas. Aos poucos a gente vai chegando nessa conversa que a gente tem e que você gera em todos os seus episódios. A gente vai começando a analisar. Ah, isso aqui não é só meu.
Isso aqui é uma questão da sociedade. Isso aqui é uma questão de uma lavagem cerebral que me fizeram e que já vem acontecendo há tanto tempo. E eu sou só mais um produto dentro dessa esteira gigante que já está sendo manufaturada há séculos. E quando você começa a entender, óbvio que não é da noite para o dia que você vai ter a consciência e você vai mudar. Mas você vai começar a abrir os olhos para falar, caramba, eu estou aceitando pouco. Eu estou aceitando pouco. Aí eu aceito pouco de novo.
Mas pelo menos eu aceito com a consciência. E eu paro de contar a historinha em cima. Depois de um tempo eu paro de contar a historinha. E fico só frustrada. E fico, caramba, por que eu não consigo sair disso? E aí depois vem a vontade de sair. E aí vem a decisão de sair. E eu falo, agora eu vou sair disso. Aí eu ainda não saio. E aí vem uma decisão atrás da outra. Uma decisão atrás da outra. Até que de repente eu busco formas.
Eu busco conhecimento. Eu busco terapia. Eu busco qualquer tipo de ajuda possível. Porque eu acredito que sair sozinha desses processos é...
muito difícil, quando a gente tem ajuda, né, de uma rede de apoio, de uma terapia, de tudo que pode nos ajudar, aí o processo vai, né, caminhando de forma mais acelerada. É porque o padrão, ele é muito perspicaz, porque seja num relacionamento amoroso, mas eu vou dar um exemplo no ambiente de trabalho, que eu acho que pode ser interessante, porque existe uma hierarquia. Então você tem um chefe que tá ali confirmando diariamente todos os seus medos,
seja com as críticas proporcionais, seja com tratamentos de silêncio, que também podem acontecer dentro de uma relação de trabalho. Mas tanto um parceiro ou uma parceira amorosa, quanto uma chefe ou até uma mãe, dificilmente, quando você está nessa dinâmica não saudável, eles te deixam chegar no chão. Você vai caindo, aí eles vêm e dão uma migalhinha que te sobe. Então é um elogio quando eles veem,
Ou até fala, nossa, mas eu preciso tanto de você. Nossa, mas você é tão importante. Esse é também um pouco do jogo da manipulação para a gente entender. Porque se eles só deixassem a gente cair no chão, aí a gente ia entender. Nossa, está muito claro isso aqui. Só que tem uma destreza no que se faz dentro dessa gangorra de tratamentos que dificulta muito para a gente enxergar que o outro está brincando.
e utilizando da nossa insegurança para benefício próprio. E aí é impossível não falar de como mulheres são muito mais afetadas por isso. Como mulheres são sempre as que têm que ser as compreensivas, as pacientes, as que carregam tudo nas costas, as que pegam a responsabilidade para si. E muitas vezes a história que elas contam é o que foi que eu fiz?
o que eu não fiz que eu poderia ter feito para que isso não acontecesse. E aí, para além desse papo, é olhar e falar o que você diz no livro Sintomas. Homens e mulheres são criados de formas diferentes. São ensinados coisas diferentes. E a gente tem que se questionar mais e mais. Qual é a história que está rodando na minha cabeça? Quais as estruturas que eu estou validando na minha cabeça? Eu ainda estou validando o papel da mulher, que é a submissa? Que é a que tem que ficar quieta?
que tem que aceitar, que é compreensiva. Porque isso é uma virtude ser compreensiva. Nossa, como você é tão compreensiva? Eu não quero ser compreensiva. Hoje em dia eu fico muito mais feliz quando alguém me diz, nossa, você é tão rígida. Eu quero ser um pouco rígida. Quero ver o que acontece quando eu sou um pouco mais preto no branco. Quando eu falo, mas não, isso aqui não é legal, não, isso aqui eu não quero. Ah, mas dá uma chance.
Eu não quero dar chance. Eu já dei muitas chances. Eu já fui ensinada a dar chances desde o início da minha vida. E aí, junta com esse processo de falar
Tá, então se não é isso que eu quero, o que é que eu quero? Eu fui ensinada a desejar? Eu não fui ensinada nem a desejar, eu só fui ensinada a ser escolhida. Então tem muita gente que nem passa pela cabeça ainda o processo de desejar, de falar ativamente, eu quero isso. E aí você não tem isso trabalhando na cabeça o tempo todo, como é que ela vai conseguir sair de uma situação que tá difícil? Seja familiar, seja de trabalho, seja romance, se ela nem sabe o que existe pra além disso,
ela nem sabe o que ela quer para virar uma bússola que a tira desse processo. Aí essa conversa expande também, porque a gente fala bastante do que está ruim, do que está difícil, de como a gente foi enfiada nessa situação e como que a gente sai disso. Acho que essa conversa é muito legal de ter também. Você está questionando? Você está desejando? Você está se vendo como uma mulher que é capaz demais de que você pode sim ter um desejo muito grande dentro de você
E tem muita gente que desistiu do amor também, né Marcela? Hoje em dia com essa situação de POVO, um monte de conteúdo que viraliza falando só mal e mostrando o quão ruim está. Tem muita gente que fala, então é melhor eu nem querer nada. Então é melhor eu só desistir de tudo. E eu falo, você não está desistindo de tudo. Você está só guardando, daqui a pouco você vai voltar. Porque a carência existe em todos nós. Mas quando você voltar, você vai voltar do mesmo lugar? Ou você vai voltar de um novo lugar?
o lugar onde você toma um pouco mais as rédeas dessa situação e fala, tá, eu só vou voltar pra buscar X, porque o meu desejo é um relacionamento que me traga paz, onde eu me sinta tranquila, relaxada, confiante, segura. Ou você vai voltar falando, ah, vamos ver o que tem aí. Ah, você tá isso aqui. Ah, esse aqui é meio legal, me deu atenção. Você vai ouvir o seu corpo, porque a tendência são padrões de repetição.
um roteiro muitas vezes e é por isso que eu trouxe exemplos de uma chefe porque o que eu aprendi na minha vida é que quando você enxerga em um âmbito que seja no âmbito amoroso você espera que seja só ali só que de repente é um efeito dominó na sua vida porque é um padrão que você vê que meu Deus
essa pessoa, ela também, essa relação só funciona porque ela sente que tem controle sobre mim. E essa relação aqui também. E essa relação aqui também. Aí é amizade, é uma parceria de trabalho, aí é relação amorosa. Então, é muito mais fácil não enxergar. É muito mais confortável ficar no desconforto de enxergar só um desses braços que estão desproporcionais na sua vida.
Então, por mais que o episódio seja o amor que a gente tolera, eu acho que talvez sejam os afetos como um todo que a gente não vive, mas a gente vai tolerando mesmo. Tá bom, isso aqui tá bom pra mim. Acho que isso aqui é o que vai ter pra mim mesmo. Tá tudo certo. Eu acho muito perigoso, Camila, a questão do heteropessimismo nisso, porque a régua vai ficando muito baixa.
Quando a nossa régua fica baixa. Só eles, né? Eu também. Eu abomino esses tipos de conteúdo. Eu nunca faço conteúdo sobre isso. Eu nunca falo muito mal de homem. Inclusive, querem que eu fale mais mal de homem. Eu falo, gente, não é comigo que vocês vão ver eu falando mal de homens. Até porque eu tenho referências de amigos muito incríveis. Então, eu tenho essa sorte de ver como que tá a situação pra muitas pessoas. Mas ao mesmo tempo também falar
realidade 100%. É igual ver uma notícia de jornal ou assistir um jornal e falar, nossa, o mundo está perdido. Mas existem muitas coisas positivas acontecendo no mundo também que não é exposto, mas está acontecendo. Então eu tenho que sustentar essa crença dentro de mim e não deixar que o heteropessimismo me domine, porque senão eu vou deixar até de desejar esse futuro bom, essas possibilidades boas. E eu gosto muito que você traz o efeito dominó. Porque sim, é sobre o padrão que eu
Tolero o meu próprio padrão. Porque aí a gente fala do relacionamento do lado de fora, mas é importantíssimo trazer o padrão de relacionamento do lado de dentro. As vozes que se passam na minha cabeça, os diálogos que eu tenho comigo, o quanto que eu me julgo, o quanto que eu não me dou suporte, eu me comparo o tempo todo com o outro. E esse é mais uma camada dos relacionamentos. Porque o relacionamento que eu tenho comigo mesma também faz parte de tudo isso.
Transborda pro lado de fora, como você disse no início. Então, eu também tô tolerando um padrão de comportamento aqui dentro. Eu também tô tolerando que o tempo todo eu tô me colocando pra baixo. Que eu não tô fazendo nada pra ser mais positiva. Que eu não tô fazendo nada pra me tratar com mais carinho. Ai, mas é difícil. Ai, mas eu não consigo acreditar que eu mereço amor. Ai, mas eu não... Tá, vamos entender então por quê. Muitas pessoas param nisso.
Ai, é difícil mudar meu pensamento. Tá, mas é impossível. Eu acho que não. Na verdade, eu sei que não.
porque se a gente pega pra estudar o básico da neurociência como você também trouxe no livro e é aquilo ali que a gente precisa a gente não precisa mais do que aquilo a gente entende que o nosso cérebro busca padrões e as crenças que a gente tem hoje o comportamento que a gente tem hoje o tipo de conversa interna que a gente tem hoje só existe porque foi repetido repetiu, repetiu, repetiu virou um circuito neural que ficou automático e por isso que hoje você pensa isso com tanta facilidade
Como que eu faço pra mudar? Começa a repetir outra coisa. Eu não quero mais pensar assim. Agora, a partir de hoje, eu quero pensar assim. Ai, Camila, mas eu não acredito. Ai, mas parece que eu tô mentindo pra mim. Tá, mas é o processo. Porque uma crença, ela se instaura em você com a repetição. Ela não se instaura com você sentindo que acredita. Seu cérebro não tá buscando sentimento. Ele tá buscando padrão. Então, se você começa a falar um novo padrão dentro de você, uma nova forma de se cuidar, uma nova forma de conversar,
de falar, o vocabulário que você usa. E isso vai também mudar esse padrão interno e vai começar a transformar a forma como você se enxerga. E o efeito dominó vai acontecer também do lado de fora. Então a gente tá falando de muitos, muitas tolerâncias. E como a gente também tem uma dificuldade de fazer o trabalho difícil. Porque às vezes é mais fácil só falar e tá tudo ruim mesmo, não tem nada que fazer. E fica passivo. Nossa, é muito interessante isso, né?
Porque você usou uma palavra, por exemplo, que dá até um horror, né? Que é submissão. Imagina, eu tenho minha carreira, imagina. E a submissão, ela pode aparecer de muitas formas na nossa vida. E às vezes essas repetições estão acontecendo muito, de uma maneira como a gente não percebe. Então, eu li outro dia, na verdade é uma entrevista da Miranda July.
que é uma autora maravilhosa, mas também é uma artista multidisciplinar e ela faz performance. E ela fala que pra você colocar o seu trabalho na rua, você tem que fazer com a sua parte louca. Com a parte dentro de você, ela brinca assim, faça com a parte bêbada, faça com a parte descontrolada, porque existe uma partezinha dentro de você. E eu lembrei que uma vez a Ediane Ribeiro, eu estava conversando com ela fora das gravações,
E ela falou, Marcela, talvez você tenha que fazer isso com a parte de você que o trauma não tocou. E, meu Deus, como mudou tudo. Porque se você tira o trauma da mesa, assim como a Miranda de Loi está falando sobre tirar a vergonha da mesa, mas tirar esses entraves que caiam esses muros. Então, o que eu faria se eu não tivesse o trauma?
de tal coisa. O que eu faria nessa situação se eu não tivesse medo do que a outra pessoa vai achar de mim? O que eu faria nessa situação se eu não tivesse vergonha ou se eu não tivesse medo que aconteça de novo o que já aconteceu outra vez? Uau! Então talvez seja isso. Então não é mentir. Eu acho que é quase brincar. Brinca. Brinca de ser uma outra pessoa naquela situação. Ainda é você. Ainda é você. Mas dá pra brincar. Dá pra desenhar
cenários e treinando. Aí eu não sei se é a psique, se é o cérebro. Aí eu não sou uma especialista, eu sou uma entusiasta. Mas eu sei que esteja preparada, porque quando a gente começa a fazer essas mudanças, a vida dá uma mexida. Mas, putz, que alívio que é quando você também percebe que você dá conta das consequências disso.
que você não tá caindo na chantagem emocional naquele momento que você não vai fazer a chantagem que talvez seja o seu padrão e eu não sei eu não vou terminar esse episódio falando e é isso garotas se amem mais se valorizem eu acho que eu não tenho exatamente um conselho prático além de esteja atenta esteja atenta e se perguntar
Se isso que eu tô tomando como virtude, eu não preciso de tanto. Nossa, mas tadinha de tal pessoa. Nossa, mas o quanto que eu tô colocando o que é importante pra mim no segundo plano? O que é importante pra mim? O que é o meu inegociável? E por que que tá sendo tão negociado em vários âmbitos da minha vida? E você, Camila? Você quer deixar um conselho?
Muito! Eu amo uma frase que virou um grande meme, mas que é muito real, que resume um pouco esse fim aqui. Busquem conhecimento. Mas busquem um conhecimento interno, porque dentro de nós tem tanta informação que a gente ainda nem tocou. Tem tantas partes nossas querendo conversar com a gente, que a gente tá ignorando. Tantos sentimentos que vêm à tona, não pra fazer a gente só se sentir mal, mas porque eles são um sintoma de algo muito mais profundo.
que se a gente olhar, se a gente tivesse olhar curioso de falar, por que que eu me sinto assim? Por que que eu tô pensando isso? Da onde que vem isso? Como que eu posso mudar isso? Essas perguntas vão transformar mesmo a vida, ao invés da gente só falar, ai, que saco que eu estou assim, ai, que droga, ai, e só ficar nesse lugar mais de aceitação. A gente não precisa aceitar o nosso estado atual, ele é só uma consequência do que a gente veio padronizando
E se eu começo a questionar e começar a plantar novas sementinhas, é muito possível criar um novo jardim, sabe? Uma nova floresta completamente diferente da antiga. É muito possível ter novos hábitos, novos pensamentos e novas formas de enxergar a vida. E por último, quando você diz, façam esse processo, mas saibam que as coisas vão se bagunçar um pouco no caminho, pra mim vem muito a carta da torre e do tarô. Aquela coisa de desmoronar antigas esportes.
estruturas, pra que novas estruturas tenham espaço pra ser construídas. Estruturas que realmente se alinham com quem você quer ser a partir de hoje, porque nos alimentaram com uma história de como a vida tinha que ser, de quem a gente tinha que ser. E essa é a antiga torre. E a gente hoje tá falando, tá, mas tudo que me ensinaram não tá me ajudando, ou grande parte das coisas que eu fui ensinada não tá me ajudando a ser uma pessoa feliz, a viver uma vida boa. Então eu vou ter que quebrar essas estruturas, eu vou ter que
parar de agir a partir delas e criar as minhas próprias estruturas. Com as minhas próprias mãos. E isso é muito legal. Mas tem que aguentar o baque de ver tudo ruim primeiro. Ver o campo assim, aberto, os destroços e falar, tá, mas agora eu tenho a chance de criar algo meu. E quando a gente cria algo nosso, não tem ninguém capaz de abalar essa estrutura. Não, não tem. Porque é nosso. Bom, falando em padrões,
Então, eu vou fazer algo que também é uma quebra de padrão minha, porque assim como durante muito tempo tive medo de pedir ajuda, eu também tinha questões com autopromoção. E você citou meu livro mais de uma vez. Eu não sabia que você tinha lido. É uma honra. Muito obrigada. Então, se você também quiser ler o meu livro, Sintomas, o que mais aprendi quando o amor me decepcionou, no qual eu trato algumas dessas pautas, o link está na bíblia.
E se você gostou do episódio, veja só, ela vai fazer mais uma vez um pedido de engajamento, que é quase assim, uma completa quebra de padrão, que é segue o Bom de Óbvias no Spotify, ativa as notificações, avalie o podcast, se der, deixe um comentário. É super importante para o nosso trabalho, então eu agradeço muito. E na descrição desse episódio também tem o link para você se inscrever na newsletter da Óbvias, para a gente continuar com essa conversa,
sempre com profundidade. E como eu já falei no início, também está lá o link da lista de pré-venda da segunda temporada do meu Clube do Livro. Pensa que esse papo aqui pode acontecer toda semana com a sua participação junto comigo no Zoom. É muito legal. Você me encontra no Instagram, no arroba marcela cerebelli, no arroba obvias.cc e no arroba chapadinhas de endorfina. Camila, muito obrigada, meu amor. Foi lindo, viu? Muito obrigada, Marcela. Eu adorei. Volte sempre.
Eu adorei, pode me chamar que eu estarei aqui com certeza. Obrigada, querida. E a gente se vê no próximo Bom Dia Óbvias.