Episódios de Bom dia, Obvious

Como voltar a confiar no próprio corpo, com Raquel Castanharo

10 de maio de 202655min
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Existe uma diferença entre cuidar do corpo e fazer dele uma máquina de performance. 

Neste episódio de Bom Dia, Obvious, Marcela Ceribelli recebe a fisioterapeuta, corredora e escritora Raquel Castanharo para uma conversa sobre corrida, saúde e as belezas que nosso corpo é capaz de fazer. 

Elas falam sobre pressão estética, autoestima, câncer de mama e a necessidade de respeitar os próprios limites em uma cultura obcecada por resultados. 

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⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠Aurora: O despertar da mulher exausta⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠: AQUIInstagram de Raquel Castanharo: AQUI 

Livro de Raquel Castanharo: AQUI 

Referências e citações:

Taylor Swift : All Too Well: AQUI 

Taylor Swift: Shake It Off : AQUI 
Taylor Swift: Evermore: AQUI 

Documentário: The Eras Tour: AQUI 

Dra Carolina Ambrogini no Instagram AQUI

Participantes neste episódio2
M

Marcela Ceribelli

HostJornalista
R

Raquel Castanharo

ConvidadoFisioterapeuta, corredora e escritora
Assuntos7
  • Tratamentos contra o câncerDiagnóstico e tratamento · Menopausa induzida pelo tratamento · Impacto do tratamento no corpo · Importância do diagnóstico precoce · Reconstrução mamária
  • Relação com o CorpoPressão estética na corrida · Autoestima e corpo · Respeito aos limites · Corpo como problema a resolver
  • Corrida e disciplinaProcesso de escrita e publicação · Mensagem do livro · Ciência comportamental e hábitos
  • Suplementação na corridaPopularização da corrida · Lucro com corredores inseguros · Corrida como esporte acessível · Impacto da internet na corrida
  • Viver o hoje intensamenteSaúde como prazer e diversão · Saúde como capacidade de viver bem o dia a dia · Educação dos filhos sobre saúde
  • Testosterona em mulheresRiscos do uso de hormônios para estética · Pressão estética e magreza extrema · Controle social através do corpo feminino
  • Corridas e lesõesCorrida acaba com a pele e o corpo · Necessidade de sofrimento para evoluir · Corrida como forma de homenagem ou saudade
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De uns anos pra cá, correr deixou de ser só correr. Vira o pace, relógio, planilha, grupo de WhatsApp, foto no story, prova no fim de semana, medalha no pescoço e um novo jeito de medir quem está fazendo a corrida direito.

virou também mercado. E como quase tudo que encosta no corpo feminino, junto com a liberdade veio a cobrança. Corre, mas corre direito. Corre, mas corre rápido. Corre, mas registra. Corre, mas não relaxa.

Oi, eu sou Marcela Ceribelli e esse é o Bom Dia Óbvios, a casa das mulheres que pensam em voz alta. Antes da gente mergulhar juntas no assunto dessa semana, eu vou te pedir com carinho para seguir o podcast e ativar as notificações. Assim você não perde nenhuma conversa. A minha convidada de hoje é Raquel Castanhari, fisioterapeuta, mestre em biomecânica e uma das vozes mais interessantes do Brasil quando o assunto é corrida, lesão, ciência e confiança no corpo.

Ela também é autora do recém-lançado Este Livro Não É Só Sobre Corrida. Quando a Raquel me convidou para escrever o comentário para a contracapa do livro, eu escrevi que ela correu para que todos nós pudéssemos pisar em chão firme, sabendo que corrida nunca é só mecânica. É mente. É uma negociação com aquilo que nos fizeram acreditar sobre nós e aquilo que somos dispostos a reaprender. Eu sigo achando isso.

O que a Raquel faz não é só ensinar a gente a correr, é também desmontar o medo que colocaram entre nós e nosso próprio corpo. Então, no episódio de hoje, eu quero conversar com a Raquel sobre o que a corrida ganhou e o que perdeu quando virou esse surto do hype, sobre quem lucra com o corredor inseguro, sobre por que tantas mulheres chegam até o movimento já sentindo que o corpo é um problema para resolver e sobre o que significa, de fato, construir confiança no próprio corpo. Bora para o nosso papo?

Bom dia, óbvias. E muito bom dia, Raquel. Seja bem-vinda ao programa. Terceira vez? Não, terceira, é verdade. A primeira ao viver é meu sonho. Obrigada, Marcela. Tô muito feliz de estar aqui. Quer pedir música? Quero. Taylor Swift, All to L, 10 Minutes Version.

Que eu virei uma Swifter, ou não era. Eu ouvia você falando. Ah, legal, né, que ela gosta de Taylor Swift. Aí, um dia depois da… Eu fiz uma mastectomia, pessoal. Lançou o documentário dela. Sim. Eu tava lá, precisava assistir TV. Qual documentário? Agora, o The Air Astor. É. Ah! Aí eu… Gente, essa mulher é o máximo. Meu Deus, olha essas letras!

Agora pronto, sou completamente viciada, obcecada, só o Stellar Swift. Você viu que ela fez uma coisa que nunca foi feita na indústria, que foi escrever… Ela fez um cheque de 150 mil dólares pra todo mundo que trabalhou na turnê? Ela tá no meu mood board de chefe. Que tipo de chefe eu quero ser pra minha equipe?

Por várias questões. É demais! Como eu vivi? Como assim, Marcela? Você nunca tinha me levado pra seita? Então, porque eu falo pras pessoas odeia música, eu não tenho nada, não vou obrigar a ouvir. Mas entenda o que ela fez na indústria como uma mulher jovem. E eu acho que é bem admirável. Ou muito admirável.

Você corre ouvindo o Taylor Swift? Sim, óbvio. Mas tinha só as super conhecidas na minha playlist. Porque quando eu fiz a maratona, eu ainda não era uma Swifter. Então, tinha lá Shake It Off, Shake It Out. Shake It Off, Shake It Out. Shake It Off. Tinha super conhecidas que todo mundo conhece. Agora, meu amor, agora eu sei as, assim, as cabulosas. As mais sombrias delas. As cabulosas.

Chegou no Evermore, né? Cheguei. Quando as músicas não tocam no rádio. É, o Triângulo Amoroso, de Folclore. Gente, que mulher genial! E esse lado criativo. Ai, eu quero ser tão criativa quanto. E aí, ela está no meu mood board como uma empresária. Mas também de, deixa eu deixar a minha criatividade aflorar. E ela falou isso na última aparição. A gente tá falando de quê, amiga?

O seu livro não é sobre corrida e esse episódio não é sobre Taylor Swift. Mas eu te trago de volta. Eu te trago de volta. É meu trabalho, amiga. É meu trabalho, vou te trazer de volta. Qual é a sensação de colocar um livro no mundo?

É muito louco. É muito louco. Não tem outra palavra. A sensação de ver que você tá fazendo algo pra ajudar as pessoas. Porque esse livro, no fim, ele é bem divertido de ler. Mas ele ajuda as pessoas a entenderem as maravilhas que o corpo humano é capaz de fazer. E aí, vê as pessoas marcando o livro, riscando o livro, mandando foto.

Ficou, cara, que doiteira, eu acho que eu fiz alguma coisa no mundo. Embora eu já fizesse antes nas redes sociais, mas o livro traz uma materialidade que eu acho que as redes sociais não me traziam. E não no sentido de o quanto a mensagem está sendo espalhada. Materialidade de pegar na mão mesmo, uma coisa que o cérebro entende como mais palpável. Não sei se eu estou me fazendo clara.

Eu acho que tem a materialização e tem também um registro que vai além da tela. Que é isso. Você vai ver esse objeto por muito tempo. E meus filhos entrando na livraria e vendo o livro da mamãe.

Ai, que emoção. Então, isso me bate. Meus filhos amam livraria. Amam. Eles, toda vez que a gente vai no shopping, eles querem um doce e livraria. E aí, eles entram agora e tem um livro meu, cara. Então, isso me deu um… Caraca! Olha, é muito grande. Assim, na minha visão. E é um filho, é o terceiro filho. É o terceiro filho. Pra mim, foi mais difícil que correr a marotona, mas escrever o livro.

Vamos falar sobre corrida? Vamos, vamos, né? Gente, no caso, acho que foi isso que eu tô aqui. Você é conhecida como mãe dos corredores. Então não dá pra dizer que você só tem três filhos. Você tem muitos filhos na corrida. 16 milhões de brasileiros. 16 milhões de brasileiros.

Quando você se reconheceu como sou uma corredora? Desde que eu comecei a correr. Eu não tenho essa não, de tem que correr meia, tem que correr maratona. Começou a correr, botou um tênis. E quis, quando eu quis ser chamada de corredora, sou corredora. Pronto, eu hein. Então você já se chama de escritora? Não! Olha aí, menina. Você é? Ai, eu vou chorar. Caramba, é verdade, né? Você botou um tênis, virou corredora.

Corredora e escritória. Olha! Quando que você começou a correr? Eu comecei a correr há oito anos. De forma regular. Antes eu corria de feliz. Então, ah, meio um pouco como você começou. Ah, corre de vez em quando, para, nananá. Aí eu já tratava corredores. Eu já estava conhecida nesse meio. E a internet é um lugar tão gostoso. As pessoas falavam, mas você não corre.

que você trata corredores se você não corre. Aí eu comecei a correr com regularidade, com planilha de treino, fazendo provas de corridas de rua. Mas você se sentiu pressionada? Me senti pressionada. Desde o começo, me senti pressionada para correr muito e correr rápido. Eu falei, não, não, não, não. Eu vou só correr. E por muitos anos, eu corri provas curtas. 5 quilômetros, 10 quilômetros. Eu só fui correr meia e maratona quando eu quis. Eu demorei 8 anos pra correr minha primeira maratona.

Hoje as pessoas normalmente começam das seis meses e já estão correndo a primeira maratona e depois já indo pro triátilo. E depois pra fisioterapia porque elas se machucaram. Exatamente. Então eu comecei a levar mais a sério por conta do trabalho. Essa é a verdade.

Mas depois de uns seis meses, eu já tava bem apaixonada. E não era mais trabalho, era paixão. E demorei muito pra evoluir na corrida. Porque daí eu evoluo quando eu quero, eu, hein. Aí não deixei a pressão me afetar, não. Você sabe que você é minha voz durante a corrida, né? Porque eu comecei a correr…

Jesus, eu comecei a correr em 2010. Faz quanto tempo? 16 anos. 16 anos. Bom, a gente já falou tantas vezes sobre isso, né? Quando eu comecei a correr, não tinha relógio. Mas fiz provas icônicas. Enfim, de distâncias variáveis. Nunca fiz uma meia-maratona.

Nunca fiz uma maratona, não acho que vou fazer. E tá tudo certo. Eu tô tão em paz com isso, porque, enfim, porque muitas coisas. Mas de lá pra cá, na verdade, eu acho que acima de tudo, eu não vou, eu não tenho em mim a questão de correr meia ou correr uma maratona. Justamente porque quando eu comecei a correr, isso não era nenhum questionamento.

Quais provas você já fez? Qual o seu pace? Era simplesmente, nossa, Marcela corre. Marcela faz umas provas. O que você acha que a corrida ganhou? E o que ela perdeu com esse movimento de registro, de exibição, mas também de comunidades fortalecidas?

E de uma cultura por algo tão saudável que resgata pessoas de buracos emocionais. Eu acho que eu respondi a sua pergunta. Não, tenho mais coisas pra falar.

a corrida ganhou a popularidade que ela merece. E não porque eu acho que corrida é o melhor esporte. Aliás, eu não sou da seita que acha que todo mundo tem que correr. As pessoas têm que fazer o esporte que elas gostam. Mas corrida é um esporte muito acessível financeiramente. Num país onde as pessoas têm que pegar duas horas de condução. Eu demorei duas horas pra chegar aqui, Marcela, no estúdio. Um país de mães solos.

Corrida é botar um tênis e sair correndo. Corrida é barato. Você não precisa ter um clube, não precisa ir numa piscina, não precisa de mais nove amigos, oito amigos, pra chutar uma bola. Então, a popularidade dela faz muito bem pra saúde pública. Hoje, as pessoas morrem de doenças relacionadas a sedentarismo.

A corrida, como é muito acessível, e essa popularização da corrida mostrou isso, que todo mundo pode correr, ajudou as pessoas a terem mais saúde. Saúde física, saúde mental. Corrida diminui depressão. Tem um estudo mostrando que corrida tem um efeito parecido com o antidepressivo, com o remédio mesmo. Não é para substituir uma coisa pela outra, mas é um efeito muito grande. A atividade física aumenta a vida de pacientes oncológicos, como eu.

Corrida, inclusive. Então, é muito grande, é muita saúde. E essa popularização mostrou pras pessoas, olha, dá pra eu correr. A pressão que a internet traz, de, ah, então agora eu tenho que ser uma musa fitness, que é cinco da manhã, já nadou, pedalou e correu, e só pra dar uma aquecidinha no corpo. Essa pressão, eu sinto que tá começando a minguar. Ela já foi muito tóxica.

E muito problemática. De muitas pessoas acharem. Eu não sou capaz. Eu não sou rápida então. Eu não sou corredora. Ou eu não tenho a barriga trincada. Eu não mereço expor a minha figura por aí. Mas como a corrida cresceu tanto. Cresceu também o número de pessoas diversas na corrida. Hoje tem muito mais perfil. De mulheres gordas correndo. De homens também. É que eu estou mais nesse universo feminino.

Então, eu acho que hoje, como tem muita gente, as pessoas têm mais exemplos, mais espelhos, isso é bom. É engraçado, né? Porque a gente já… A gente conversa muito, né? Sobre esse hype, sobre a pressão. Eu tenho a mesma sensação que você. Eu acho que essa corrida mais pela validação do que qualquer coisa começa a diminuir. Até porque, eu acho que começa a ficar muito claro que tem muita gente lucrando com um corredor inseguro, né?

Nossa, muita, muita. E começa a ficar claro agora que a gente já vive num ambiente de redes sociais há mais tempo. Porque querendo ou não, é novo, se você for ver. Então no começo a gente não sabia como funcionava internet, rede social. Agora a gente já sabe, ah tá bom, essa influenciadora ganhou este tênis. Ela trabalha com isso, então ela pode correr todo dia em horário de princesa e herdeira. Eu inclusive corria maratona, treinava em horários que... ...

Pessoas que batem cartão não conseguem fazer. Então, isso tá mais claro. Então, eu acho que tá bom, ela performa porque ela ganha tudo, ela ganha suplementos, ela pode só correr. A minha realidade é outra. Então, como a gente agora já entende mais como funciona a internet, eu acho que essas máscaras caíram, sabe? Ainda muita gente lucra com a insegurança das pessoas e com a ingenuidade das pessoas e com a falta de letramento científico da sociedade. Opa!

Mas eu sinto que isso tá melhorando. Sei, tenho essa sensação. Você não acha? Eu acho. Eu acho genuinamente que sim. Eu acho que tem movimentos complementares que ajudam nisso. Inclusive, o seu trabalho é maravilhoso. Vou puxar a sardinha pra chapadinha de endorfina também. Eu acho que a gente tem um papel.

nisso, mas eu acho que é uma porta que se abre, que de fato, a corrida ela te acompanha em qualquer lugar então você vai viajar você pode colocar um tênis e sair e é um escape

Muito disponível. Mas também vale caminhar, não vale? Muito vale, muito vale. Esse dado que eu te contei de que atividade física aumenta a vida de pacientes oncológicos, as pessoas eram incentivadas a fazer atividade física. Algumas correram, mas a maioria ficou na caminhada.

Três vezes por semana, 45 minutos. E essa foi a causa, não é correlação. A gente da ciência adora falar isso, né? Correlação não é causalidade, já ouviu isso? Sim. Nesse caso, é causalidade. A atividade física causou o aumento da vida de pessoas com câncer de intestino. Causa, é. E caminhada. Algumas correram, mas a maioria ficou na caminhada. É muito grande, cara. Muito grande.

Nossa, que bonito. É, eu também sinto muito isso que a gente tá falando. Mas porque eu estou numa cidade que as pessoas vão muito pra rua. Que o Rio de Janeiro tem muito disso. Seja no aterro do Flamengo, como fazendo as trilhas. Então, tem muita gente na rua. Então, quando você vê…

Quem realmente tá correndo na rua e não só quem tá registrando, você vê que é verdade, a corrida é muito democrática. Muito. Então tem que sair um pouco da tela e enxergar quem é que tá de fato lá no parque. Acho que as pessoas que têm medo de ir até o parque ou até esses ambientes e pistas de corrida, não imaginam o quanto tem de pessoa.

normal e correndo num pace ok. Muita gente tem medo de fazer a primeira prova de corrida. Falar, Raquel, eu queria fazer cinco quilômetros numa prova, mas eu vou ter que andar, eu tenho vergonha. Falei, amiga, você vai estar com vergonha com mais umas 30 pessoas do teu lado, andando com você. E percebendo que a sua vergonha, na verdade vai virar uma amizade ali com alguém na mesma velocidade que você vai terminar a prova. É.

Eu acho que… A gente andou junto numa prova. A gente andou junto numa prova, é verdade. Sem registro fotográfico da gente andando na prova. E eu fiz questão de postar, falando, olha aqui. Andamos. É que o nosso papo tava muito melhor do que uma performance. Tinha uma subidona. Foi no dia do meu aniversário. Foi, foi verdade. Lembra. Ah, gente, no dia do aniversário, depois de uma subida a gente não deve nada pra ninguém, vamos andar. Exato. É, a gente queria tirar uma foto. É isso.

Eu não ponho comida na minha casa correndo. Então eu não preciso performar. Eu preciso performar em outras áreas da minha vida. Eu preciso performar e entender de corrida, como cuida de corredor. Agora, correr é por diversão. E se for divertido pra pessoa andar durante a corrida, que seja. Ela não precisa provar nada pra ninguém. Bom, eu li o seu livro em primeira mão.

Gente, tem uma frase da Marcela na capa que eu descobri que chama blurb. Blurb. Blurb, é uma aspas. É aquelas frases de pessoas maravilhosas que fica na última capa do livro pra incentivar você a comprar porque a gente usa a maravilhosidade dessa pessoa pra te influenciar. Então tem da Marcela Ceribelli, da Mari Krieger e do Bookster, do Público Pacífico. Um trio bom. Eu achei. Eu fiquei muito honrada. Eu fiquei muito feliz de você ter escrito.

E eu acho que o que as pessoas vão encontrar nesse livro, eu falo, né, que é o livro de cabeceira dos corredores, mas não só dos corredores. Eu acho que de todo mundo que já sentiu que algo que eles gostariam de fazer, mas não é pra mim. E aí você divide, assim, você era a menina que fugia da aula de educação física. Sim, sim. Ainda sou, um pouco, viu?

Eu não sou aquela que acorda, ah, que delícia! Vamos fazer alguma coisa. Eu sou aquela que acorda e fala, eu quero voltar a dormir.

Então, eu tenho que usar ferramentas e estratégias para conseguir continuar em movimento. E por isso que eu acho que eu consigo me comunicar com tanta gente, porque a maioria das pessoas tem essa dificuldade. O nosso corpo foi biologicamente desenhado para ser preguiçoso se a gente tem comida ao alcance da mão. Como a gente, a maioria das pessoas, tem comida ao alcance da mão, o nosso corpo quer que a gente fique paradinho.

Então, pra conseguir se manter em movimento ou você já nasceu com um quezinho pra isso e eu acho que você nasceu assim. Você conta na sua infância que você gostava de jogar vôlei, não sei o quê, não é? Eu sempre gostei muito de esportes em grupo. Mas, por exemplo, ontem eram sete da noite eu não tinha feito nenhuma atividade e eu sabia que ia me fazer bem ir pra hot yoga. Sim. Só que eu não queria de jeito nenhum.

O meu corpo não queria, mas a minha cabeça sabia que precisava. Eu fui muito arrastada. E aí eu começo a fazer um mantra, assim, comigo, que é eu consigo fazer coisas difíceis. Eu faço coisas difíceis o dia inteiro no meu trabalho. Vamos lá, você consegue chegar até a aula, você consegue chegar até a aula. Então... E eu acho importante falar isso.

Porque quando eu lembro que até a Simone Biles tem dia que ela queria estar fazendo qualquer outra coisa eu acho que não existe alguém que acorda todos os dias com muita vontade de fazer. É, não existe. E o que é mais comum é ao contrário. Tanto que…

Mais de metade da população brasileira é considerada fisicamente inativa. Isso chega a 80% nos Estados Unidos, por exemplo. É difícil fazer atividade física no mundo que a gente vive, por várias razões. Por um impulso biológico, por falta de acesso a lugares, por exemplo, no Rio. Talvez quem more mais ali na... Como é que chama? Não é Grande Rio.

Na Baixada Fluminense. Ah, na Baixada. Onde essas pessoas fazem atividade física? Tem lugar para elas fazerem? Tem uma orla próxima, um lugar seguro para elas fazerem? Então, fazer atividade física é difícil. Como eu tenho essa dificuldade porque eu sou um ser um tanto preguiçoso eu acho que eu consigo me comunicar e dar ferramentas e não só falar ai, é força de vontade. Ai, você não faz porque você erra.

Não é sobre isso. É sobre conseguir modular o ambiente, mudar o ambiente ao redor pra conseguir colocar em prática o que precisa ser feito. Então, eu ensino isso no livro. Então, eu pego na mão e falo, eu sei que é difícil. Eu tô com você. Eu era criança que fugia da atividade física. Eu não sei até hoje como eu corri uma maratona.

Então deixa eu te ajudar. Não tem esse julgamento. Tem muito mais ciência de comportamento, ciência de formação de hábitos. Pra quem tem dificuldade, que é a maioria das pessoas, conseguir sair do sofá e ir atrás dessa saúde, que a gente fala muito. Ah, a atividade física faz bem pra saúde, tá? A gente fala tanto que vira quase banal. Começa quase a entrar por um e dizer pelo outro. Mas como colocar isso em prática de verdade? Então esse livro pega na mão e ajuda, sabe?

É, foi exatamente o que eu senti, até porque a gente tem muitas experiências, por exemplo, hoje se sabe que um número enorme de transtornos alimentares começam com a primeira consulta com o nutricionista.

É? Não sabia disso. Sim. Por quê? Porque, dependendo de como é tratado essa consulta, qual é o cardápio que se é passado e até qual é o contexto que essa pessoa está vivendo e qual é a saúde mental dela ali, você pode estar engatilhando alguém que vai começar a ser hipercontroladora com a sua comida. Fora alguns outros hábitos, por exemplo. Não é fácil. Não é fácil.

Jejum intermitente. Gente, eu não sou nem uma especialista, eu sou só uma estudiosa interessada. Jejum intermitente, por exemplo, é um grande gatilho pra comportamento bulímico. Sim. E as pessoas começaram a passar jejum intermitente pra qualquer pessoa, porque é o que vai dar certo, mas não é pra todo mundo. Sim. E eu acho que essa é a diferença de bons profissionais da saúde, quem respeita a individualidade como...

Você. É, na verdade, isso deveria ser o mínimo que todos os profissionais da saúde fizessem, né? Respeitar a individualidade de cada um. Mas eu entendo, eu entendo que na minha área também é muito difícil. Muitos profissionais da saúde ainda falam, ah, você não pode agachar. Você não pode correr. É melhor fazer hidroginástica. Corrida acaba com a pele. Corrida acaba com a bunda. Corrida acaba com o joelho. E é tudo mentira. E eu vou...

falando no livro, porque é mentira o livro no final, não sei se você viu tem um calhamaço assim de evidência científica porque eu mato eu não tô tirando da minha cabeça tá aqui a evidência, sabe? mostrando que sim, quem tem problema no joelho pode correr, se quiser quem tem problema na coluna pode correr, se quiser correr não envelhece, gente pelo amor de Deus, quem envelhece é ficar no sol e viver, viver envelhece

Cada dia que você corre, você envelhecer um dia, sabe? Então eu vou mostrando as evidências científicas de uma forma...

Eu acho que eu consegui deixar de uma forma divertida. Porque ninguém quer, bom, ninguém quer. Se você não é especialista na área, você não quer ler um livro que vai te falando um monte de evidência científica uma atrás da outra. Então, o que eu fiz foi dar um temperinho, deixar divertido, contar história, o que foi um desafio pra mim. Porque falar sobre ciência é muito fácil. Agora, falar contando uma história, deixando leve, menina, eu suei, viu? Mas estou feliz com o resultado. Ficou muito bom.

A última vez que a gente se viu, você lembra? Lembro. Você foi uma das primeiras pessoas a saber. Foi numa palestra, não foi? Foi numa palestra. É, é. Eu contei antes, né, pra você. Você me contou. A gente se falou no telefone. É, verdade. Porque a gente ia se encontrar no dia seguinte e você… Você quis me preparar? Eu não lembro. Eu achei… Gente, é o seguinte, né. Eu tive um diagnóstico de câncer de mama em junho do ano passado.

E eu sou muito aberta com a minha vida. E eu gosto de ajudar as pessoas com a minha vida. E então, eu pensei assim. Bom, em algum momento eu vou acabar falando do diagnóstico. Então, eu preferi, como a gente é amiga, te contar antes. Eu não queria que você estivesse no meio de uma palestra. Tipo, eu tô com câncer de mama. Então, foi por isso, assim, sabe? Claro, porque… As pessoas ficaram assim.

Oi? No meio de uma palestra, nada a ver. Então, gente, porque eu acabei de receber um diagnóstico de câncer de mama. É verdade, se eu soubesse no palco… É, então. Aí eu quis te avisar, porque eu não me planejei a falar. Mas eu também não me planejei a não falar. Então, eu falei, se rolar na hora… Daí eu já avisei todo mundo. E aí, dali… Você não me viu durante o tratamento, né?

Não, por isso que hoje… É, você já me viu recomposta. Mas a gente foi se falando. É, nossa, foi puxado. E eu corri a minha primeira maratona 17 dias depois do diagnóstico. Eu tava há uma semana de correr a maratona naquele dia. Tava muito em cima da hora.

e eu quis correr porque foram muitos meses de treinamento, falei, eu não vou jogar fora e importante dizer que todos os médicos falaram, não tem problema porque não era um tratamento que tinha que começar no dia seguinte, então, ah, claro nos 17 dias não vai mudar nada então eu fiquei 8 meses ah, deu quase uns 8 meses de um tratamento pesado e agora são mais 7 anos de comprimidos e essa parte ninguém fala as pessoas acham que a gente só tá tratando enquanto tá careca e aí

E na real, agora, pra mim, é uma das piores partes. Porque eu tenho 38 anos e parte do meu tratamento é me colocar em menopausa. Do nada, assim, puf, bota uma injeção desse tamanho em você. Se tomou um remédio, eu tô com menopausa com 38 anos. É verdade, não se fala sobre isso. E as mulheres têm vergonha. E aí, agora eu quero usar a minha visibilidade. E a minha falta de vergonha, que eu tenho.

Não, gente, calma lá. Tem como cuidar. Eu não posso fazer repouso hormonal, obviamente porque eu estou justamente cortando meu hormônio. E isso gera todos os problemas de uma mulher com a menopausa. Falta de libido, atrofia vaginal, dor pra ter relação, calorão. Eu esqueço palavra. Eu tô aqui, menina, me esforçando pra falar eu não posso esquecer nenhuma palavra, tô no meu dia óbvio. Ai, meu Deus do céu, ai meu Deus do céu. Insônia.

A gente te ajuda a qualquer coisa, fica muito tranquila. Eu acho que eu tô gritando, aliás. Não, não mesmo. Insônia, e pra tudo isso tem ajuda. Inclusive, pra libido, pra ter relação de gente tinha 38 anos. Você acha que o quê? Agora, eu não sou uma senhorinha. Apesar que uma mulher de 50 anos entrando no menopausa também não é uma senhorinha, mas eu tenho 38. Não, mas saiu da rota que você imaginou. E eu não vou parar de ser quem eu sou, porque são muitos anos de tratamento.

E eu quero ser uma voz pra isso. Você vai chegar pro teu médico e falar eu tô com pouca libido, eu estou com dor pra ter relação. O que eu faço? Porque as mulheres têm vergonha, elas acham que não, agora eu sou uma paciente oncológica, então eu só tenho que pensar no câncer. Eu não! Eu tô me tratando pra viver. E eu continuar tendo uma vida com o meu marido faz parte de viver. Então eu tô falando pra todo mundo. E saúde, né? É, pô!

Menina, agora eu vou contar. Eu nunca contei em lugar. Esse aqui é exclusivo pro meu jobs. Eu não perdi libido.

mas é um milagre e todas as minhas amigas estão como? como? eu falo, gente, não sei, aí uma médica maravilhosa uma ginecologista especializada em pacientes com câncer que estão na semana pausa ela disse, Raquel libido é uma punção de vida não é só um hormônio então se você mantém essa punção de vida você pode manter sua libido ai que...

Eu tô até arrepiei. Mas pra quem não conseguiu tem jeito, entendeu? Tem umas leiturinhas sabe assim? E essa médica é maravilhosa cara, ela deu, foi prescrição, tinha um remédio lá e tinha uma lista de livros pra ajudar na libido tinha João Paulo Ribeiro é que eu não lembro, eu tô com medo de falar errado Carolina Ambrolini

Depois a gente confere. Não, depois a gente confere. Não, é só porque caso você estivesse evitando falar, mas não tem problema nenhum. Não, eu quero falar dela. É que eu tô com medo de falar errado. Porque eu chamava de Carol, entendeu? E aí, ela… Cara, imagina, tinha João Baldo Ribeiro. Que assim, não é qualquer, não é uma Sabrina. João Baldo Ribeiro, no meio de uma lista, pra ajudar na libido.

Conte-me mais, o que mais tinha nessa lista? Ai, tinha várias coisas. Mas eu não preciso tanto. Mas a gente pode até um dia, eu te mando trazer ela aqui, é muito legal. É, eu gostei disso. E ela fala bem. Eu vi uma palestra dela, eu fui convidada pra ir num simpósio de médicos. Falar como paciente.

E ela tava dando a palestra e eu comecei. Eu falei, meu Deus, maravilhosa. Só que eu era a única paciente ali. Todo mundo, nossa, essa médica animada, né? Com assuntos de como melhorar a libido. E eu tava com cabelo ainda, não tinha cara de paciente oncológico. Mas fica aí a mensagem. Uma mulher e câncer de mama é muito comum. Uma em cada oito mulheres vai ter câncer de mama. É muito comum.

Então, não é porque ela tem cabelo, de novo, que ela não segue sendo uma paciente oncológica que precisa de ajuda, que precisa de uma rede de apoio, que precisa falar groselha com uma amiga, que precisa ter um ouvido pra falar cara, eu não tô conseguindo ter mais relação com meu marido, com meu companheiro, ou com sei lá quem, com quem você quiser, né? Porque ninguém sabe sobre isso.

E você trabalha com corpos. Tenho certeza que a maneira como você lidou com o seu corpo, sabendo mecânicas e funcionamento na sua vida, é muito diferente com pessoas que não tenham intimidade com o corpo.

Quando você olha pro seu corpo hoje, o que vem em você? Eu tenho muito orgulho do meu corpo hoje. Eu fiquei com mais orgulho do meu corpo um dia depois da minha cirurgia, da minha mastectomia, do que quando correria o maratona, você acredita? Acredito.

Porque eu fiz a químio antes de fazer a cirurgia. E eu sabia que a cirurgia ia ser muito grande, muito difícil. Então eu falei, eu vou ficar forte. Cara, eu peguei pesado na academia. Eu fiz a cirurgia no sábado. Na sexta eu tava agachando na academia com muito peso. Pra eu conseguir dar conta do pós-operatório. Aí eu fiz a cirurgia. Durou sete horas a cirurgia.

No outro dia eu fui pra casa, eu tinha dois drenos. Eu tinha oito cortes, eu contei. Eu tava cheia de hematoma. Eu tava sem uma mama. Eu saí sem uma mama. Isso eu também nunca falei tão às claras. Mas aqui a gente tá mais entre amigas. Eu fiz uma mastectomia radical e eu saí sem mama. Nenhuma.

E aí, eu saí com um expansor, que é muito engraçado. Que injeta um negocinho e ele vai enchendo. E aí, depois de um mês, eu já tava assim, que tá ótimo agora, né, gente? Linda e gata. Muito gata. A gente me tira, mas dá um trucão. Aí, eu mesmo, com esses drenos, dessa forma, eu ia no banheiro sozinha. Eu comia sozinha e eu levantava da cama sozinha. O que todo mundo tinha me falado que era impossível depois de uma cirurgia dessa.

Então eu me olhei no espelho e eu falei, cara, olha o que meu corpo consegue fazer. Ele está mutilado e ele está me permitindo viver bem. No fim das contas, era isso que eu queria. Eu não quero performar na corrida, eu não quero pagar de gatinha na internet. Eu quero um corpo que me permita viver bem. E eu consegui, com atividade física, no momento mais difícil da minha vida. Muito bem.

Eu sei que você tá bem, é porque a gente se conhece há um tempo, né? Então assim, eu lembro de você me falando tantas coisas assim tem que treinar força, porque quando a gente envelhecer a gente vai querer sair da cama então vai pra musculação, Marcela, vamos lá não importa a performance e aí a vida

Te entregou a prova concreta. E eu fico muito feliz que você tenha, a partir daquilo que você acreditou sempre, você saiu da estatística.

E eu tenho certeza que assim como tem gente que fala que grávida não pode fazer nada, não pode correr, não pode… Algumas pessoas podem ter achado, imagina, você tá no tratamento, não vai fazer exercício. Como se o corpo… Como é que você fala que o corpo não é uma coisa que se gasta? O corpo é antifrágil. Uma máquina a gente usa e ela acaba. O corpo acaba se a gente não usa. É ao contrário. Fala de novo pra todo mundo registrar.

máquina, essa frase não é minha vamos dar o crédito, é de uma pessoa chamada Nassim Taleb, máquina use-a e perca corpo, use-o ou percam obrigada qual é a melhor maneira de utilizar o corpo?

Do jeito que te faz feliz. Porque senão você não segue fazendo. Esse papo de que tem que sofrer, não sei o quê. Cara, não é assim que funciona. Não é no pay no gain? Não é, menina, você acredita? Não é no pay no gain.

É claro que o corpo precisa de estresse pra ficar mais forte. Se você fica só no muito facinho, ele não evolui. Mas esse estresse tem que trazer algum tipo de prazer, senão o corpo foge daquilo. Por isso que você vai pra sua hot yoga mesmo muito cansada, porque te traz algum prazer.

É… olhando sempre pro depois. Na verdade, não. Quando eu tava lá ontem, quando deu 15 minutos, eu já tava, nossa, que bom que eu vim. Mas eu entendo também. Porque eu acho que quando o corpo… Quando acaba o estresse, eu… É muito bom. Sobrevivir. É muito bom. E é sobre sobreviver. Eu…

Não tive um aviso de algo muito difícil. Então, de repente, eu tinha um câncer um dia. Eu não tinha. No outro, eu recebi um papel dizendo que eu tinha. Foi um exame de rotina, né? Não, menina. Eu comi uma bola gigantesca. O meu câncer foi muito… tava muito avançado. Comi uma grande bola. A gente não coma bola.

O que é não comer bola? Fazer? Fazer os exames bonitinho. Eu conheci uma… Conheci não. Uma das mães da escola, muito querida. Falou, ai, mas fazer mamografia dói. Mano, químio dói muito mais. Mamastectomia dói muito. Faz a caceta do exame. É chato? É chato. Mas a partir de uma idade tem que fazer. Eu acho que… Eu não sei qual é a idade do público do Bom Dia Obis. Eu acho que são mais jovens, né? Não.

Oi, ouvintes. Falando diretamente com vocês. Porque… Muito legal você falar isso. Porque a idade das ouvintes tá acompanhando a minha idade. Ó, o Moco de Google! A gente está crescendo juntas. Muito bom. Então…

Temos, claro, as minhas filhas. Mã me ama, mã me cuida. Mas são mulheres que estão me dando muito na nossa idade. Que tinham 27 quando eu comecei, sei lá, 28. E hoje tem 35. Então, na faixa dos 35, o que é não comer bola? E na gineco, todo ano? Ah, e a rotina… O que acontecia? A agenda da mãe empresária.

A minha gineco era muito longe da minha casa. E gineco eu queria uma pessoa de confiança. E eu não tava encontrando. Aí um dia, ah, vou nessa. Marquei, minha filha teve uma febre, desmarquei. Aí marquei de novo, sei lá o que, viagem de trabalho, desmarquei. E nisso eu acabei ficando mais do que um ano sem ir na gineco. E aí, quando eu fui, finalmente, meu câncer já estava avançado.

Porque tem que ir todo ano, gente. Tem que fazer Papa Nicolau. Apesar que hoje acho que mudou um pouco. Agora é um novo exame mais moderninho, né, de HPV. Tem que ir todo ano na gineco. Eu fiz Papa Nicolau faz umas duas semanas. Vai todo ano na gineco. Ah, a agenda tá… Dane-se, tem que fazer. Ah, então vamos convidar os ouvintes? Vamos. Vamos lá. Pausa agora esse episódio. Tá tudo bem? Tudo bem. O algoritmo pode dar. Eu prefiro que você pause.

Marca? Manda aquela mensagem? É. Marca. E depois volta. Volta? Volta! Por favorzinho. Mas eu prefiro que você não volte, mas marque seus exames. Eu vou te dar um bom exemplo. Uma boa... Um bom motivo. O meu câncer, se você olha ali no microscópio...

Ele é um câncer não muito agressivo. Ele não cresce rápido. Era um câncer que talvez, se eu tivesse pegado no começo, se eu tivesse feito tudo bonitinho, não precisaria nem de químio. Faria uma cirurgiazinha pequenininha, nem faria químio, tomaria um remedinho e acabou.

Eu, como eu deixei passar, mesmo ele não sendo agressivo no microscópio, ele teve muito tempo pra ficar aqui. Ele ficou muito grande, ele se espalhou demais. Eu fiz tudo do mais agressivo no tratamento. Tudo. Então, eu fiz a maior quantidade de quimios. Eu fiz uma mastectomia radical. Eu fiz a maior quantidade de rádio. Por que eu tô linda, fechada aqui? Eu sou toda queimada. Toda queimada.

Eu não, eu não, essa blusa aqui, embora linda, eu não colocaria uma blusa assim, normalmente. Eu vim porque eu estou toda queimada, tipo Chernobyl. Que horror. Eu posso, eu tenho lugar, é em mim, eu posso falar. Mas é, radiação, o que é isso? É radiação que me queimou. Porque eu fiz a maior quantidade possível de rádio. Eu vou, esse bloqueio hormonal que eu vou fazer, eu poderia fazer ele por dois anos, eu vou ter que fazer por sete. Porque eu deixei passar.

Eu demorei muito pra me perdoar, muito. Porque eu, profissional da saúde, ah, gatinha da ciência, comeu essa bola. Demorei muito pra me perdoar, já me perdoei porque eu sou um ser humano. E é muito corajoso você falar isso. Porque eu cantei a bola pra você. Pra você me falar, sim, foi rotina, seria fácil. Muita gente, quando eu falei, me escreveu. Ah, Raquel, mas diagnóstico precoce, hoje é ótimo. Os tratamentos, vai ter… Gente, não foi diagnóstico precoce. Eu falei, para de falar que foi precoce porque me…

Demorei muito, demorei uns bons seis meses pra me perdoar dessa comida de bola. Agora eu tô mais tranquila, a fase mais corporal passou, né? Que é a químio, que é ficar sem cabelo, ficar sem cílio. Ficar sem cílio é muito pior que ficar sem cabelo, muito pior. Que a cara, você fica parecendo um ovo cozido. Sabe? Olha só isso aí, por favor.

Você só é muito bonita. Mas pode rir. É que você fica sem graça. Não, pode rir. Eu faço pra você, Leve. Ovo cozido não dá. Ai, esse ficar sem cílio é muito triste, cara. Porque, cara, é que você põe um lenço, faz um estilo. Mas o cílio não tem o que fazer. Então, essa parte corporal, né? Ainda não acabou, porque eu estou com um expansor. Isso aqui é uma prótese de silicone provisória. Ela foi se enchendo. Eu saí da cirurgia, ela tinha 45ml.

E aí, eu fui enchendo ela toda semana. Então, eu vou ter que… Tá bonitinha, né? Tá uma gracinha. Eu não tinha nada, né, gente? Tá bonitinho, tá o peitinho bem bonitinho. Eu não tinha nada. Aí, eu vou ter que agora tirar essa… Porque é uma prótese provisória, ela tem uma válvula. Pra colocar uma prótese de silicone normal.

E reconstruí uma milhorela, que eu tirei ninguém. As pessoas não citam quando eu falo Ah, eu fiz uma mastectomia radical. É tão radical que as pessoas não conseguem conceber que isso aconteceu comigo. Porque é meio raro hoje em dia. Porque hoje o diagnóstico precoce realmente existe. E é muito difícil ter que chegar a esse ponto, sabe? Tô muito feliz que você voltou a ouvir o programa depois de ter marcado seus exames, viu? Bem-vinda de volta.

Raquel, sabendo disso e também inserida no mundo da corrida, da performance. E sabemos que não tem exame antidoping de provas. E a gente sabe que tem um uso considerável de hormônios. Você até riu, né?

O que mudou na sua visão sobre o uso de hormônios pra melhorar a performance pra provas de atletas amadores? Eu não acho que é só pra melhorar a performance. Eu acho que é mais estético, sabia? Justo. É verdade. A gente viu agora no carnaval, várias artistas. Olha que linda ela, nessa idade, com todo esse músculo. É bomba! Isso é bomba, suco! Sabe? Eu acho que tem um apelo mais estético do que de performance, hoje em dia.

É, pode ser. Pode ser porque, às vezes, quem fala abertamente fala que foi pra melhorar a performance. E eu tenho uma tendência a acreditar, na verdade, que me adita. Não por nada, mas eu acredito. Mas é verdade, é claro que é muito mais por estética do que por performance. Eu não sei, é um achismo. A gente teria que fazer uma pesquisa científica. Mas mudou a sua visão? Sobre o quê? Sobre os riscos? Não, não, é péssimo. Não, no sentido de…

Hoje, você acha que é ainda pior você se colocar em risco você fazer algo no corpo puramente por estético, sendo que tem um risco hormonal? Porque a gente sabe que o GH aumenta todas as células do corpo. Então, se tiver uma célula cancerígena, vai se multiplicar. Sim. Vale a pena pela bunda? Com certeza. Eu nunca tinha parado pra pensar sobre isso.

É, com certeza não. Mas eu acho que quem tá... A gente, o ser humano, é muito ruim de entender riscos. Nosso cérebro não foi feito pra calcular bem riscos, sabe? Então eu acho que quem faz isso não consegue. A pessoa tá fazendo porque ela não tem essa dimensão de o que pode acontecer comigo.

Eu ouvi um podcast sensacional que eu não lembro o nome deste homem que falou isso, mas eu prometo que eu deixo no link da bio. Eu acabei citando em um outro episódio também, então acho que foi marcante pra mim. Ele falava que autocontrole é quando você consegue priorizar aquilo que você quer no longo prazo versus aquilo que você quer no agora.

Eu achei uma definição maravilhosa. E isso veio desse homem que foi… Que passou por um tratamento de adicção à heroína. Então, ele tá falando sobre vício. Que também é algo muito mais grave do que você fazer um tratamento hormonal por estética. Mas eu acho que se encaixa um pouco nisso. Porque se você fizer o cálculo dos riscos, é claro que não vale a pena. E grande parte das coisas que…

Também somos vítimas de uma pressão estética insana. Tá voltando, né, as magrezas extremas. A sociedade é um pêndulo, né? E a gente tá voltando pra algo meio anos 2000. Daquela magreza esquelética, sabe? Você não sente isso? Eu vejo. É que eu acho que a gente foi longe demais, né? Nossa, completamente.

A gente começou a conquistar muita coisa. Eu acho que é uma maneira de silenciar as mulheres, né? Mulheres fracas, mulheres menores. E isso é completamente a resposta ao quanto a gente progrediu. Então, a maneira, como eu vejo, é progredimos demais. Qual a melhor maneira de controlar as mulheres? Pelo corpo.

Então volta. Mas você me conhece o suficiente pra saber que eu não sou uma pessimista. Eu acho que eu sou uma realista. Eu não acho que vamos voltar pra antes do nosso progresso. Mas eu acho que se você me dissesse há 10 anos, quando eu comecei é óbvio que eu ia ter que falar em 2026 sobre isso. É um pouco assustador.

a gente tá andando pra trás em várias coisas, né, a gente tá andando pra trás tá puxado mas falando de corrida e sobre esse livro então, enquanto você passava por tudo isso o livro tava tava onde? ai menina, demorou muito pra ser publicado eu entreguei o livro em abril do ano passado antes do diagnóstico antes da maratona ele demorou muito pra ser publicado porque a editora, enfim, problemas dentro da editora e aí

Então, na verdade, ele já estava pronto. Eu só fiz alguns retoques nele durante o tratamento e escrevi o final. Eu escrevi o pós-fácil, contando o que aconteceu, mas eu estava no meio da pior químio. Era uma químio, assim, aquela que joa, que passa mal. E existe um brain fog, a cabeça, assim, eu não conseguia fazer dois mais dois. Então, ele é bem curtinho, valoriza em cada letra, porque eu estava...

morrendo, e eu consegui escrever. Deu uma página e meia, assim. Falei, é o que eu consigo escrever, é isso. Mas ficou bem bonito, assim, o final mesmo curto. Nossa, ficou muito bonito. Então, eu não precisei trabalhar tanto nele. Foi só alguns retoquinhos, assim, durante o tratamento. O que foi bom.

O lançamento, teoricamente, era pra ser no final do ano passado. Mas no fim, foi bom. Porque no final do ano passado, eu estava com a cara de ovo cozido. E eu não queria estar com a cara de ovo cozido na minha sessão de lançamento, sabe? Você vai lançar linda como você tá agora. Queria de cílios e tal, cabelinho voltando. Então, no fim, foi bom, assim. Tava um momento muito conturbado no final do ano passado, pra mim. De tratamento e tudo mais. E o que é saúde pra você hoje?

Eu falei, olha, falei. Então, temos cinco. Não, hoje é a quarta, né? Hoje é a terceira. Teve o documentário, Endorfina.doc. Sim. Que eu falei que eu encontrei a minha saúde no momento que eu tava mais doente. Que vocês, né? Vocês falaram dessas diferenças. E saúde é, pra mim, é conseguir viver bem o meu dia a dia. Conseguir viver bem a minha vida.

Com as coisinhas da minha vida. Cuidar dos meus filhos, fazer meu esporte. E ter prazer em estar viva. Basicamente, saúde, pra mim, hoje é isso. E... Posso perguntar isso pros seus filhos? Claro! O que você acha ou gostaria que eles tenham entendido sobre saúde? Os seus filhos, a partir de tudo isso que eles acompanharam. Que pra ser saudável, ser saudável pode ser divertido também.

Ai, eles praticam esporte? Sim, gente, a minha filhinha ela tem seis anos e gente, eu não sei se dá pra ver na câmera eu tenho, câmera, na câmera eu tenho 1,53m, eu sou muito titica então a minha filha, ela tem seis anos ela tem tamanho de quatro ela nada, ela tem umas crianças enormes, você vê ela nadando ela passa todo mundo, ela nada muito bonitinha e ela nada melhor que eu, é a real oficial e o meu filho joga tênis e aí

eles não gostam de correr, porque eu acho que corrida é o que tira a mamãe de casa é, então provinha de criança, eles não querem nem passar perto ah, então, isso acontece muito, né porque, assim em um outro âmbito, uma amiga minha que sempre tocou nos blocos de carnaval, e o carnaval a vida dela, a filha dela se ela ouvir um batuque eu juro eu juro

Acho que meus filhos não vão poder ver um estúdio. Não, já o microfone. Eles vão ser programador de TI, assim, ó. E hoje, Raquel, o que você gostaria que as mulheres desaprendessem sobre saúde, corpo e controle? Que saúde não precisa ser chato. Não precisa ser chato.

Não precisa ter pressão, não precisa ter comparação, embora seja difícil isso acontecer. Que tem como encontrar saúde em algo prazeroso, divertido e leve. Basta seguir o chapadinho de endorfina também. E Raquel Castanharo, por favor! Amiga, e sobre esse livro, pra gente entrar na nossa reta final, qual que é a emoção que você gostaria que o leitor fechasse a última página?

Eu queria que ele entendesse a beleza que é um corpo funcionando no dia a dia. Porque a gente valoriza muito o maratonista, o triatleta. Ai meu Deus. E um corpo que consegue cuidar dos filhos bem, que consegue na velhice levantar da cama sozinho, que consegue depois de uma mastectomia tomar banho sozinho, isso é maravilhoso.

E o corpo é capaz de fazer coisas maravilhosas. Que elas não necessariamente são instagramáveis. Elas são maravilhosas ali na beleza e no singelo do cotidiano. Bom, mostra para os ouvintes o livro, por favor. Ai, eu mostro. Ai, merda.

Olha, a capa, quem fez? Foi a mesma artista que fez capa de Sintomas. E de Aurora também, né? Sim, a Amanda que tá comigo há anos. Quando eu fiz a capa, eu falei deixa eu pensar uma capa que eu amo. Não, Marcela Cerebelli, não sou boba nem nada. Eu amei que ela fez parte disso. Beijo, Pim.

Temos aqui Aspas de Marcela Ceribelli É um livro, eu juro pra vocês que é divertido Gente, as pessoas me perguntavam Raquel, indica um livro de corrida Eu não tinha um livro pra indicar Porque ou o livro era muito técnico E assim, sei lá Você achou um advogado, você achou em casa cansado Você não quer ler um livro técnico Ou o livro era divertido de ler, só que com muitos erros

Falando que correr acaba com o joelho. Ou falando que tem que correr descalço. Enfim, erros. Então, eu juntei as duas coisas. Um livro com informações confiáveis. Divertido de ler o conto da minha avó. Tá vendo que tem uma cicatriz aqui, gente? A minha avó, ela... Até ela morreu com 92 anos. Até o dia dela morrer, ela falava essa cicatriz tá aí porque você não fez o que eu mandei que era passar leite de cachorra. Juro por Deus.

aquele leite, ela tinha que pegar uma cachorrinha que tinha tido uma ninhada e pegar o leitinho e eu começo contando isso pra falar de ciência esse é o nível do livro, a gente tem histórias tem história de pacientes sempre com com as nomes alterados, tem uma história essa parte bastante gente me escreve que eu conto, é o único nome verdadeiro do livro eram dois irmãos não sei se você lembra dessa parte pode contar? por favor não sei se você lembra dessa parte

Eram dois irmãos e o irmão corria maratona e sempre queria trazer a irmã pra saúde. Ela sedentária, ela falava, ah, não quero, maratona é coisa de louco. E aí uma vez ele saiu pra treinar. Março, em São Paulo, chove, que é uma coisa louca. Caíram 150 árvores daquele dia e uma gerou um acidente fatal que foi do irmão dela.

E ela hoje já tá indo pra oitava maratona. Ela correu a primeira maratona com o tênis do irmão. E eu falo que por que as pessoas começam a correr? Pode ser vários motivos. Pode ser estética, pode ser saúde. Pode ser uma homenagem, pode ser saudade. Então, tem vários jeitos de correr. A pessoa vai entender que não é… Você não precisa ser blogueira ou fitness pra ser corredor. Tem vários jeitos de se tornar um corredor. E botou um tênis, se tornou um corredor. É isso. E eu sou escritora agora.

Raquel, meu amor, pra gente fechar o programa acho que das últimas vezes que você veio não tinha esses quadros finais. Não tinha. Mas vamos lá, o primeiro deles é você gostaria de me perguntar alguma coisa?

Ai, meu Deus, eu devia ter me preparado. Eu devia ter te preparado. Ai, você tem um sapato que parece um Crocs. Que ele é cheio de coisas. Ele é muito maravilhoso. Eu queria saber se ele ainda existe. Eu não sei se ele existe, mas é a Crocs da Simone Rocha. Tá bom. Dá uma olhada, a Lela tem também. Ai, pronto, eu sou tão fã da Lela. Lela, gosta de mim.

A gente vai fazer esse encontro. Nossa. Não, ai gente, eu tô na oportunidade de fazer uma pergunta no Mundo de Obes. Pergunta uma coisa besta dessa. Não é besta, não tem pergunta besta. Posso falar? Eu já recebi trocentas mensagens perguntando desse sapato. Acho que elas vão ficar bem aliviadas. De nada. É uma Crocs com a Simone Rocha. Mas eu acho que se você comprar uma Crocs e fizer as coisinhas, dá bom, não dá? Eu comprei uma Crocs com umas pontas assim, uns spikes, que eu sou roqueira.

Mas eu pensando na sua. Ai, eu queria tanto uma Crocs parecida com a da Marcela. Aí, aquela foi a máxima que eu consegui. Eu uso muito. Ai, fica muito linda. Fica muito linda. Eu sou aquela linda de qualquer jeito, mas aquela Crocs…

Obrigada, meu amor. E pra gente finalizar, qual que é a sua fissura atual? Pelo que você está fissurada? Olha, a gente vai fazer um marco narrativo. Taylor Swift. Tchá! Ó! Assim como bons textos fazem exatamente isso. Isso é uma técnica de escrita também, né? Olha, isso aí. Que é a retomada de raciocínio. Alguma música em especial? All to Well. All to Well? Ten, a versão de 10 minutos. Ai, muito bom.

E a sua preferida? Qual é? Você tem uma preferida?

Uma preferida? A do momento. Eu tenho um álbum preferido, que é o Evermore. Dentro de Evermore, vamos dizer Right Where You Left Me. Porque é uma música que ela fala, né. Help, I'm Still at the Restaurant. E na verdade, a construção que ela faz, que pra mim é muito inteligente. Ela fala, socorro, eu ainda tô num restaurante onde você terminou comigo. Que na verdade, é exatamente como funciona o trauma no nosso cérebro.

O que o trauma faz com a gente? Por que a gente fica o tempo todo lembrando de algo que já passou? Porque quando o trauma é muito grande, o nosso corpo acha que a gente tá naquele momento ainda. Então, essa cretina, ah, eu odeio a Taylor Swift, tá bom, tô explicando o raciocínio dela, você pode odiar ela. Ela fez uma música que, de certa forma, ela explica como funciona o trauma, que foi desse pé na bunda que ela tomou quando ela contou.

You told me that you met someone E aí? É maravilhoso, ela tá no meio da música Ela interrompe de novo, ela fala Help, ela volta e aí o help vai crescendo Enfim, as Swifts agora devem estar assim Marcelo, obrigada por ter falado isso E quem odeia a Tauê Swift vai falar Ai, que saco, nunca mais volto aqui Volte

Eu não falei o nome do livro. Este livro não é só sobrecorrida. De Raquel Castanharo. Livro da Raquel Castanharo. O link está na descrição do episódio. Siga o Raquel Castanharo. Obrigada, amiga. Te admiro muito. Ai, que maravilhoso. Muito, muito. Vem cá.