Os anos novos
"Esse segredo é uma âncora para que esteja sempre por aqui"
Referências do episódio:
O Livro das Semelhanças- Ana Martins Marques
Poemas: Visitas ao lugar-comum ; Cartografias
Triângulo das Águas- Caio Fernando Abreu
Fragmento do conto “Pela Noite” - “E, se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom?”
A Chama- Leonard Cohen (poemas, letras, desenho, notas)
Poema - Os acrobatas - Vinícius de Moraes
A minissérie “Os anos novos” está na Mubi no ano em que foi publicado esse episódio - 2026
Os demais textos e poemas são de autoria de Tarcila Tanhã
Canal do Youtube: https://www.youtube.com/c/VRATATAoficial
Instagram: https://www.instagram.com/vra_tata/
- A minissérie 'Os Anos Novos' como inspiração para reflexões sobre relacionamentosOs Anos Novos·Ana e Oscar·Relacionamentos
- A complexidade do amor e da convivência em relacionamentos duradourosAcordos em relacionamentos·Convivência·Intimidade
- A importância de aceitar o outro e a si mesmo na intimidade do amorAceitação·Intimidade·Coragem de ser bicho
- A dificuldade de lidar com o fim de relacionamentos e a importância de quebrar o silêncioSeparação·Silêncio·Expectativas
- A fuga da realidade e a criação de fantasias para lidar com perdas e recomeçosFuga da realidade·Fantasias·Perdas e recomeços
O segredo de liquidificador seria o segredo da gente na cama, no momento mais íntimo. O bairro inteiro ouvia aquilo. Uma coisa de língua no ouvido. Esse segredo é uma âncora para que esteja sempre por aqui. Existem inúmeras perguntas para entender. Por que algumas pessoas aparecem em nossas vidas? Destino? Sorte? Falta de habilidades com a vida? Um tropeço? Um abalo sísmico? Talvez uma música em comum que faz as estradas se cruzarem.
Uma noite de Ano Novo qualquer em que você está trabalhando num bar servindo pessoas altamente alucinadas esperando pelo novo. Cada metro quadrado dessa festa contém uma história que pode se cruzar com outra. Expectativas, desejos, frustrações, condenações. Um olhar triste do outro lado do balcão porque o amor acabou. Nunca é tarde pra recomeçar. Nunca é tarde pra romper a corda. A verdade é que não. Quando é tarde demais para tudo, até para recomeçar, quando sentir que falhou, que só acertou no irrelevante, Lembre-se de mim.
Quando achar que virou as costas, que um dia confundiu render-se com ganhar, que não tivemos tempo de ter um passado, lembre-se de mim. Lembre-se de mim como me lembro agora e sinto falta de nós dois. Não me cansarei de falar de amor, mas confesso, estou toda quebrada com as contas atrasadas, tentando urgir a arte que me resta, Bebo café sem açúcar, não como animais mortos e gosto de ficar horas em silêncio. Meu mapa astral é uma ilha de fogo rodeada pelas profundezas dos oceanos.
Me emociono ouvindo músicas tolas e escrevo umas bobagens que ninguém lê. A Vênus em Virgem me faz exigente como Clarice Lispector às 3 horas da tarde e me sinto particularmente Amiga do Mar, com a Inês Vardá. Sou todo um clichê de uma atriz paulistana. Há alguns meses assisti uma minissérie espanhola chamada Os Anos Novos, que tem um dispositivo muito interessante. Cada episódio se passa na noite da virada do ano ao longo de 10 anos.
Isto é, conhecemos os personagens nessa única noite E o que aconteceu no restante dos dias nós completamos com pequenas cenas, diálogos e com nossa imaginação. Nada de excepcional acontece. Não há efeitos visuais, tampouco grandes reviravoltas. São cenas do cotidiano, cenas ordinárias. Ora os personagens estão bem, ora estão mal, ora bolas. Isso é a vida. Os protagonistas são Ana e Oscar, ambos na faixa dos 30 anos. A história começa na passagem de 2015 para 2016.
Ela é então uma jovem que trabalha num bar e está prestes a viajar para outro país sem muitos planos concretos, e ele é um médico internista que tem uma vida mais metódica. Eles se conhecem nessa noite e daí em diante, por longos 10 anos, suas vidas vão se cruzar de uma forma ou de outra. Acaso? Sorte? Não sei. Depende do que você acredita ou bota sua fé. Cartografias, de Ana Martins Marques. E então você chegou como quem deixa cair sobre um mapa esquecido aberto sobre a mesa um pouco de café, uma gota de mel, cinzas de cigarro preenchendo por descuido um qualquer lugar até então deserto.
Você faz questão de dobrar o mapa de modo que nossas cidades distantes uma da outra, exatos, 1.720 km fizessem subitamente fronteira. Você assinala no mapa o lugar prometido do encontro, para o qual no dia seguinte me dirijo com apenas café preto, o bilhete só de ida do metrô. Apressa feroz o desejo, deixando no entanto esquecido sobre a mesa o mapa que me levaria Onde? Combinamos por fim de nos encontrar na esquina das nossas ruas que não se cruzam.
Devorei todos os episódios num final de semana, em meio a nostalgias, choros, apertos impenetráveis, sorrisos e saudades de viver um grande amor. E percorrendo infinitas memórias que guardo em diários, vejo que esse tema de encontros e desencontros me entrelaçam fatidicamente E por isso escreva esse segredo de hoje, que também é uma tentativa de exorcizar o que aconteceu e abençoar o que está por vir. Lembrando que tudo vira ficção e que Chico Buarque escreveu uma letra que diz: Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas o blues já valeu a pena.
Episódio 1: Arrebatamento. Oscar faz aniversário no dia 31 de dezembro e Ana no dia 1º de janeiro. Isso já diz muito sobre eles, que quase nasceram juntos. Mas ele nasce na eternização do fim, no último dia do ano. Ela nasce no início, naquele instante em que todas as vésperas são possíveis e tudo pode acontecer. Ano 2015 para 2016. Você se lembra o que estava fazendo nessa época? Puxei na memória agora. Vestimos branco, descemos as escadas do nosso apartamento para andar pelo Minhocão.
Estava vazio. Voltamos correndo, fizemos amor. Feliz Ano Novo! Oscar e Ana se conhecem numa ida para uma festa. Viram a noite, conversam, usam entorpecentes. Amanhece e fazem planos de continuar comemorando seus os aniversários e o Ano Novo. Todos os planos dão errado e acabam no cômodo onde finalmente acontece o arrebatamento. Existe sempre um silêncio que antecede o desejo do beijo, e aí pronto, não há escapatória, não há tempo de olhar para trás, apenas o arrebatamento.
Episódio 2: O Primeiro Amor. Vão ficar juntos quanto tempo? Não muito, eu diria. 2 meses? Menos. 2 semanas, não? Claramente não transaram com ninguém, mas vão transar hoje. Estão bem agora, mas ela vai começar a faculdade em setembro, direito ou administração, e vai conhecer as pessoas novas. E vão terminar. Oscar, Ana e amigos estão agora no ano de 2016 para 2017. Não contarei se estão juntos ou não, vamos manter o segredo. Numa certa altura, eles fazem uma brincadeira entre amigos, que é um jogo de perguntas e respostas que faço a você agora: quem cuidaria de você na velhice?
Com quem você montaria um negócio? Com quem você faria um mochilão de 6 meses? Com quem deixaria seus filhos se morresse? Com quem estaria num apocalipse zumbi? Com quem cometeria um crime? Com quem sairia pra festejar? A resposta foi a mesma pessoa em todas? Ou cada estrela ilumina uma parte do seu céu? Eu estava na casa em que moro agora, mas nem imaginava que iria morar aqui. Éramos 4: eu, meu ex-companheiro, uma amiga e um namorado recente que ela conhecera na Inglaterra.
Todos nós estamos separados agora. Tudo acabou. Mas naquela noite vestimos branco novamente e brindamos em volta da fogueira como se tudo fosse ser eterno. Nesse ano, na série, dizem que Leonardo Cohen faleceu. Então procurei aqui um dos seus poemas pra prestar uma homenagem. Escrita em 5 de agosto do ano 2000. Quis ter o teu amor, precisei do teu amor, tive que ter o teu amor, mas o que isso significava ou quem isso significava eu nem sei dizer.
Só que estava sozinho e havia você. Episódio 3: Acrobatas. É 1º de janeiro de 2018 e Oscar e Ana estão com uma terrível ressaca. Eles passaram a véspera do Ano Novo no apartamento de Ana, que está uma bagunça. Só tem um plano para hoje: passar o dia inteiro na cama e assistir um filme que tem mais de 300 minutos de duração. Eu tinha acabado de me mudar para o meu castelo com meu antigo companheiro. Primeiro Ano Novo na casa nova, amigos, mesa com quitutes vegetarianos, velas acesas pela casa e nossos cachorros brigando ou desesperados com os fogos.
Não soltem fogos em nenhuma ocasião. Subamos, subamos acima, subamos além. Subamos acima do além, subamos com a posse física dos braços. Inelutavelmente galgaremos o grande mar de estrelas através de milênios de luz. Subamos como dois atletas, o rosto petrificado no pálido sorriso do esforço. Subamos acima com a posse física dos braços e os músculos desmesurados na calma convulsa da ascensão. Ó, acima, mais longe que tudo, além, mais longe que acima do além, como dois acrobatas, subamos lentíssimos lá onde o infinito de tão infinito nem mais nome tem.
Subamos tensos pela corda luminosa que pende invisível e cujo nós são astros queimando nas mãos. Subamos à tona do grande mar de estrelas onde dorme a noite. Subamos Tu e eu, herméticos, as nádegas duras, a carótida nodosa na fibra do pescoço, os pés agudos em pontas como no espasmo. E quando lá em cima, além, mais longe que acima do além, no último impulso, libertados do espírito, despojados da carne, nós nos possuíremos e morreremos.
Seremos alto, imensamente, imensamente alto. A vontade de devorar o outro é inversamente proporcional ao que está na nossa imaginação. Mesmo assim, escolho devorá-lo, se assim me permitir, ou até que o espelho da realidade nos assuste, ou, como diz Ana Martins Marques, correr riscos e, ao fim harfante da corrida, voltar-se para avaliar o traçado. Episódio 4: Os acordos bem acordados e não perder-se de quem se é. 31 de dezembro de 2018.
Oscar e Ana convidam seus pais para um jantar de Ano Novo. Tive de buscar no Google Fotos para lembrar o que eu fiz nessa data e, coincidentemente, nessa virada de ano, meu pai e sua companheira vieram aqui em casa. Tudo em família. E família é um troço complicadinho. E escolher morar junto é um emaranhado só. Juntar famílias, fazer acordos. Acordo é a palavra mágica. Será que isso tira o romantismo, o mistério? Ou apenas evitar brigas e decepções?
Juntar os quadros preferidos? Quem cozinha não lava louça? Quem acorda cedo prepara o café? Quem lava não recolhe a roupa. Não dormir e, em hipótese alguma, zangados um com o outro. Eu não gosto que use o mesmo talher para manteiga e para geleia. Ele vai lá e, além de usar a mesma faca, ainda aproveita para cortar o bolo. A convivência é a prova de fogo. A rotina é inevitável, é um risco. Por isso, voltando a Ana Martins Marques, Amar profundamente, mas testar volta e meia se ainda dá pé.
Nos apaixonamos, começamos a morar juntos e de repente descobrimos que não dura para sempre. Há de se ter coerência, conhecer verdadeiramente um ao outro. Da lama ao caos, é uma boa ideia adaptar-se ou apenas sermos quem somos? Às vezes há de ceder, mas acho melhor aceitar o outro como ele é, aceitar a diferença, diz Ana. Adaptar-se às coisas do dia a dia, se eu puder mudar, não me custa nada, diz Oscar. Às vezes esperamos algo do outro e ele não sabe como entregar, ou talvez nem saiba o que se espera dele.
Então Isso é amor? E se de repente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o toque do outro for bom para você, se te der vontade de viver, se o cheiro de suor do outro também for bom, se todos os cheiros do corpo do outro forem bons, O pé no fim do dia, a boca de manhã cedo. Bons, normais, comuns, coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros.
E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido, você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros no rabo. O que é que você queria? Rendas brancas, imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas Desculpe, você vai rir.
Qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você pode até gostar sem que isso seja necessariamente uma perversão, Se tudo isso for o que se chama de amor, amor no sentido da intimidade, de conhecimento muito, muito fundo, da pobreza e também da nobreza do corpo do outro, do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual.
O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho, Se o amor for a coragem da própria merda, e depois, um instante mais tarde, isso sequer ser coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo, porque então você ama também. Episódio 5: Todos nós estamos tentando fugir da realidade.
E talvez por isso, no ano de 2019 para 2020, apenas protegemos nossos cachorros dos fogos e dormimos cedo, abraçados e convictos de que nada mais importava. Oscar e Ana viajam para Berlim e conhecem Uma festa alucinante. 2 anos e meio juntos será suficiente para deixar de regar as plantas? Desde que eles se conheceram, passaram 5 anos. Quantas histórias acontecem nesse tempo? Dá para ter nascido quantas pessoas no mundo e quantas morreram?
Quantas amizades se desfazem e quantas começam a nascer? Quantas vezes em 5 anos tentamos fugir da realidade ou criar algumas para que possamos sobreviver a tantas perdas e recomeços. Invento inúmeras fantasias para me amparar no globo terrestre. Eis aqui uma delas. Existem uns manuais que são dados às garotas para evitar o coração partido. Acabei abandonando todos no palco. Sou atriz de improviso e, por algum motivo cósmico, duas estrelas explodiram no céu e deixaram para trás um rastros de nebulosas, o tempo do espaço que é diferente do nosso se encontraram.
Senti o tremor. Acordei no meio da noite entre o pó de estrelas. Olhei o relógio: 216 horas e alguns quilômetros de desejo nos separam. Voltei ao palco de guardados. Rasguei os manuais porque não encontrei a parte das estrelas. Episódio 6: O tempo e a pausa. Em todos os episódios da série Os Anos Novos, encontramos Oscar e Ana dividindo a tela em diversas situações. Mas na virada do ano de 2020 para 2021, assistimos somente ao ponto de vista do Oscar.
Máscaras, hospital, pessoas morrendo, mais máscaras, cansaço, desilusão. E depois uma festa de Ano Novo para encontrar os velhos amigos. Os amigos dos amigos tentam apresentar novos possíveis amores. Um olhar triste para o passado, aguardando uma resposta de uma mensagem que chega, mas demora mais que um suspiro pode suportar. Aquele ano foi totalmente diferente para todos nós. De alguma forma, quem pôde deu uma pausa e sentiu o caminhar do tempo.
Eu trabalhei bastante, criei dois projetos e no amor estava tudo bem. Sempre está tudo bem até que um dia não está mais. Agora já são 6 anos que eles se conhecem, criaram laços, memórias e traumas. Um dia, por algum motivo que talvez você nem consiga codificar, Dois seres se separam e o que sobra? Ou não sobra nada? No hay banda. No hay respuesta da carta ridícula de amor. Li num poema da Elisa Lucinda: se não gostar mais de mim, não me responda nada.
O poema é lindo, mas o silêncio de Yogi Siddhartha não me embriaga. Nasci das artes dramáticas, gosto das palavras finais. O teatro tem fala e resposta, tem silêncios e pausas longas, e alguém responde ou toca uma música antes da queda do pano. Até mesmo a carta é devolvida. Algumas chegam com atraso. Se a tempo viessem, não existiria a tragédia de Romeu e Julieta. Será que o correio chegou ao seu destino dessa vez? Silêncio. Silêncio.
Viajo olhando pela janela do ônibus em busca das linhas vermelhas das fronteiras. Ou dos nomes luminosos das cidades pairando sobre elas como nos mapas. Neles não ventava nem chovia e nunca era noite, e eu passava horas estudando todos os caminhos que me levariam até você, mas nos mapas eu nunca te encontrava. Chego em 2 ou 3 horas, o coração no peito como pão ainda quente na mochila. Talvez você me espere na rodoviária, talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus.
Assim que descer, vou entregar nas suas mãos emboladas no novelo as linhas desfeitas das fronteiras e, como as contas luminosas de um colar, cada um dos nomes das cidades. Episódio 7: Saindo da Rota. Passagem de ano 2021 para 2022. Não posso ficar contando cada detalhe que acontece com Ana e Oscar, porque senão você perderá o mistério e sua vontade de ficar amiga deles. Mas vamos dizer que a pandemia Alterou as rotas do planeta Terra e tudo aquilo que provavelmente você planejou acabou por não acontecer.
E um milhão de coisas que não planejou aconteceram. E o que a gente faz quando as rotas mudam? Você é do tipo que se adapta ou fica preso a uma ideia inicial? Sempre pensei que eu fosse do primeiro tipo, mas tenho percebido que eu sou muito apegada a tudo. Vou ocupar meu mapa astral, que é todo rodeado de água e que me torna totalmente emocional e impulsiva. Maré cheia é coisa brava, o que tem suas vantagens, pois torna tudo límpido e transparente.
Nada para debaixo do tapete, todos os objetos voando no ar. Volto por um instante a Ana Martins Marques, que tem um livro chamado O Livro das Semelhanças, que é uma cartografia de encontros e desencontros através de mapas que não se cruzam. Nele tem um poema com o título: O que já se disse do amor? Fábula somente, cogitação imoderada, contentamento descontente, viva a morte, deleitoso mal, o tirano, beijo tácito e sede infinita, palavra inventada para rimar com dor, coisa aprendida nos poemas de amor.
E eu digo que o amor é uma névoa boa que vive em mim e de vez em quando passa. O perdi no último verão e agora, aos pés da primavera, me acenou. Mas porque meti as mãos pelos pés, na minha fúria de maré cheia deixei escapar. Volta aqui, eu digo, tantas coisas nos esperam. Me estenda a tua mão, é tudo que eu peço. Episódio 8: Sinal fechado e um baú de caixas guardadas. Chegamos numa parte da história que se pudesse transformar numa música seria uma mistura de Paulinho da Viola com Chico Buarque, Sinal Fechado e Trocando em Miúdos.
Um longo período sem se encontrar, há pouquíssimo tempo para colocar a conversa em dia, o sinal vai abrir, mas de repente o tempo fecha, as palavras viram facas e trocando em miúdos sobram apenas faíscas e uma pequena caixa com o resto das coisas que você simplesmente abandonou, deixou para trás, como qualquer história banal que deve ser esquecida num canto. É início da manhã do ano de 2023. Oscar e Ana se encontram ao acaso na rua, ambos com pressa.
É tudo que eu posso contar sobre esse episódio. Olá, como vai? Eu vou indo. E você, tudo bem? Tudo bem. Eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro. E você? Tudo bem. Eu vou indo em busca de um sono tranquilo. Quem sabe quanto tempo? Pois é, quanto tempo. No decorrer da série Fui me identificando cada vez mais com o Oscar, o moço metódico, do olhar triste, sempre preso a um passado. É muito difícil jogar as caixas no lixo, mas também é muito difícil olhar para os quadros nas paredes e perceber que você não está mais aqui.
Então eu jogo os quadros pela janela, mas sinto no instante seguinte O telefone toca e você diz que está indo buscar os quadros. Eu corro desesperadamente para ver se o lixeiro ainda não passou. Tem dias que a gente acha purpurina pela casa toda. Episódio 9: Quebrar o silêncio e depois recolher os pedaços. Na tarde de 31 de dezembro de 2023, Eu fazia o tradicional manjar de coco com calda de maracujá. Lembro que comprei umas taças coloridas de acrílico para beber vinho e espumante.
Usei dessa vez um vestido rosa e cabelos presos. Me sentia bonita e feliz. Os amigos vieram mais uma vez. A casa estava perfumada e linda. Oscar e Ana fazem uma viagem para visitar um amigo em comum. Um episódio de alguns silêncios no carro. Quebrar o silêncio e depois recolher os pedaços, testar-lhes o corte, o brilho cego. Eu não posso continuar assim, achando que tudo dá errado e desconfiando de todo mundo. E não só de estranhos, até de pessoas que eu conheço.
Por que você acha que é assim? Acho que faço isso pra me proteger dos desgostos, das decepções. Afinal, se eu não criar expectativas, não vou sofrer. Você não acha que é ao contrário? Às vezes, para evitar a decepção, nós nos antecipamos e vivemos decepcionados. E é uma merda porque perdemos coisas. No fim, confiar faz você ter esperança, e a esperança te dá força, faz as coisas acontecerem. Quando temos esperança porque confiamos em algo, isso dá força, dá motivação.
Se você anula a possibilidade de criar expectativas, você não se decepciona, é verdade, mas perde algo, uma parte da vida. E eu perdi algo da vida, criei expectativas. Eu escolho morrer para entender a graça de renascer. Nunca é tarde para recomeçar, nunca é tarde para romper a corda. Episódio 10: Um pequeno imprevisto. Coleciono gravações, vídeos e escritos desses últimos meses, desde minha separação. Eu penso que daqui alguns anos, quando olhar pra trás, conseguirei ver o quanto caminhei nessa travessia.
Não costumo reescutar os áudios ou rever os vídeos porque tenho medo. Não quero sentir pena de mim. Mas acho que por eu ser sozinha, sem filhos ou sobrinhos, meu rastro de memória para um futuro distante serão esses diários. No último episódio da série, descobrimos que Oscar também adquiriu esse hábito de registrar pensamentos em áudios. Talvez esse seja um traço comum dos solitários. Nós estamos constantemente falando sozinhos.
E o da Huxley até tem um verso sobre isso: estão terrivelmente sozinhos os doidos, os tristes, os poetas. Tive um sonho estranhíssimo. Eu estava na minha casa, a da minha mãe, mas no sonho era a minha, e começava a entrar água pelas janelas, por baixo das portas. Pouca, mas não parava, era constante. A casa estava cheia de gente, mas ninguém ligava. Foi horrível. Outro sonho: conheci o Djavan, ficamos amigos, fizemos uma música juntos.
Anoto no bloco do celular os sonhos quando acordo pela manhã. Alguns levo para terapia, outros Só me apavoram ou me dão sinais do que vai acontecer, como por exemplo a sua fuga ou a lambada de serpente. A traição me enfeitiçou. Faz 10 anos que Oscar e Ana se conhecem. Eu fiquei casada 10 anos. E enquanto eu assistia essa série, uma vida passou diante de mim, mas não só por por conta de um casamento, mas por tudo que acontece num período como esse.
Os projetos, conquistas, dificuldades, doenças, declarações de que tudo será para sempre e que desaparecem como água que evapora na chaleira. Não sei se é culpa do meu mapa astral dessa vez, mas não gosto de deixar as pessoas que amo partirem, mesmo aquelas me apoie, porque é como se eu morresse a cada adeus. Pra mim, a vida é esperar junto aqueles que caíram em si, que caíram na risada, que caíram no ridículo, que caíram do cavalo, que caíram das nuvens, que a noite caia.
Qual o seu desejo para 2023? Óscar pergunta a Ana. É amanhã. Na manhã de 1 de janeiro de 2025, nós passeamos com nossos cachorros pelo meio do mato. Eu levei minha câmera nova e gravamos um vídeo daqueles de cápsula do tempo que combinamos de ver juntos em 2035. A pergunta foi: como você se vê Daqui 10 anos, eu não podia imaginar o que seria sem você. Sabe como as pessoas se separam na República Dominicana? Tiram 8 dias de luto, um dia a menos do que por mortes, e fazem quase um rito de passagem.
Botam tudo para fora, choram, gritam, puxam os cabelos. É uma maneira de se libertar ou de seguir em frente. Segredos de Liquidificador é escrito e narrado por Tarsila Tanhan, produção de Ivratata, Traficante de Cultura. Esse podcast não tem dia nem tem hora para acontecer, então se você gostou, não deixe de favoritar, seguir e deixar estrelas para não perder próximos. Todas as referências usadas para a construção da narrativa estão na descrição, assim como minhas outras redes sociais. Um beijo na ponta da orelha e até daqui a pouco.