“A falta de coragem de uma política externa que nos orgulhe”, a “gaiola das loucas” de alguns deputados e o mérito de Villas-Boas que “pegou num cadáver e o ressuscitou”
Miguel Sousa Tavares volta a olhar para o mundo perante Trump e elogia os países que já admitem tratar-se de um "inimigo da Europa". Sobram criticas para a política externa portuguesa que "envergonha". O tom das discussões na AR também merece reparos ao cronista e não só na bancada do Chega. Falamos ainda das propostas do MP para reformar o processo penal, "sem o mínimo de autocrítica" e da conquista do campeonato pelo FC do Porto, com aplausos para treinador e presidente.
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Paula Santos
Cátia Mateus
Miguel Sousa Tavares
- Política externa europeia e TrumpCríticas à política externa portuguesa · Trump como inimigo da Europa · Retirada de tropas americanas da Alemanha · Tarifas sobre produtos europeus · Relações comerciais EUA-Europa · Posição da NATO face a Trump
- Título do Futebol Clube do PortoMérito do treinador Sérgio Conceição · Gestão financeira e reestruturação do clube · Arquitetura financeira de André Villas-Boas · Formação e juventude da equipa
- Reforma do JudiciárioFalta de autocrítica do Ministério Público · Atrasos em processos judiciais · Acesso a dados privados e privacidade · Recursos para o Tribunal Constitucional
- Reforma e Envelhecimento da PopulaçãoDemagogia e caça ao voto · Impacto financeiro na Segurança Social · Conspiração cinzenta (classes etárias) · Reforma de Vieira da Silva
- Debate Parlamentar CombustíveisGritaria na Assembleia da República · Estilo de André Ventura e do Chega · Contágio de tom nas discussões
Nas mãos de um louco mau é o título da crónica desta semana de Miguel Souza Tavares no Expresso que serve de ponto de partida para mais um episódio do podcast Miguel Souza Tavares de Viva Voz já imagina de quem estamos a falar mas não ficamos por aí nesta edição arrancamos dentro de instantes comigo Paula Santos e com o comunista do Expresso
E aí
Olá, eu sou a Cátia Mateus e este é o Céu é o Limite, um podcast onde os líderes das empresas portuguesas conversam sobre o seu percurso profissional, os altos e baixos que enfrentaram ao longo do caminho, as ideias mais ousadas, mas também os erros e fracassos, sempre com uma boa dose de gargalhadas pelo caminho. Junte-se a mim nestas conversas, ouça o Céu é o Limite em Expresso.pt ou na sua app de podcasts preferida e deixe-se inspirar.
Ora viva Miguel, e obrigada por mais esta presença em estúdio. Obrigado, Paulo. Falamos então do louco mau, que todos já terão identificado. Esta semana, grande parte dos líderes europeus reuniu-se na Arménia para analisar o atual momento geopolítico, com Trump, já sabemos, no centro das atenções. E isso para si foi um bom sinal, porquê?
havia dois temas na agenda um é em frente a Putin na Ucrânia e o outro é em frente a Trump na Europa colocados quase ao mesmo nível colocados quase ao mesmo nível eu até acho que depois forçaram um bocadinho a nota da Ucrânia para disfarçar que aquilo não era exatamente uma cimeira de resistência a Donald Trump mas de facto era foi despolutada pelo mais recente ataque de Trump à Alemanha e por acaso à Europa e à NATO
com a retirada dos 5 mil soldados americanos da Alemanha. Por causa de uma reação a palavras do presidente alemão. Exato, do chanceler Merz. E claramente que foi, embora se diga que já no outono os Estados Unidos iam considerar a manutenção de tropas na Alemanha, que poderiam sair algumas.
De facto, as que saíram não foram indiferentes, porque entre elas saiu a brigada que estava adestrita à instalação dos mísseis Tomahawk. E os mísseis Tomahawk também ainda não chegaram à Alemanha, e provavelmente não chegaram à Alemanha. E eles são essenciais para a defesa da Alemanha e para a defesa da Europa, por extensão, muito mais do que os 5 mil soldados que se foram embora. Portanto, aquilo é significativo.
E também foi significativo que Trump tenha rasgado o acordo feito na Escócia com Van der Leyen, o acordo comercial das tarifas, e tenha passado de 15% para 25% as tarifas sobre os produtos europeus. Ainda por cima justificando-se de que a Europa não tinha cumprido a sua parte, que era deslocar fábricas e indústrias europeias para os Estados Unidos.
Mas mais do que propriamente estes dados em concreto, aquilo que o Miguel destaca no seu texto esta semana é a própria forma como a Europa já está a olhar para Trump nesta fase. E há aí uma mudança. Há uma mudança. Só não é acompanhada pelo secretário-geral da NATO, que é um fantoche do Trump, o Marco Ruta, mas de facto nós vemos Wanderlein, Costa, Kirsten Thurman, a Inglaterra, Neloni em Itália, o próprio Mertz na Alemanha, quer dizer, tudo pessoas que...
tentaram estar do lado de que defendia a manutenção de relações mais ou menos normais com os Estados Unidos, neste momento começam a perceber uma coisa que há palha de testemunha, que eu já aqui digo há muito tempo, que o Trump é o maior inimigo da Europa. E que este profundo sono dos europeus em relação à ameaça americana, que não querem ver...
uma ameaça, finalmente começa a ser encarada como tal. Temos aqui um adversário, não é um aliado, é um adversário, quer nas relações comerciais, quer no esquema de defesa ocidental dentro da NATO e não só, quer numa série de políticas em que os Estados Unidos avançam sozinhos. É notável que Trump tenha acusado a Europa de não acompanhar no esforço de guerra contra o Irã, quando ele nem sequer avisou os europeus de que ia desencandear um ataque ao Irã.
Acredita, apesar disso, que alguma vez vão considerar Trump um terrorista planetário, como escreve? Não, isso não acredito que é dizer isso. É a liberdade de quem escreve no Expresso. Não é a liberdade de quem está nos Oriopagos Europeus. Medem as palavras, não é? Medem as palavras, são muito diplomáticos, continuam a dar palminhinhas nas costas do Trump, continuam a ir lá ao bejamão à Casa Branca, convidam-no para visitas de Estado, etc. Agora.
Acho que conscientemente os líderes europeus começam finalmente a despertar que o inimigo não é só Putin, o inimigo pode ser o Presidente dos Estados Unidos. Era uma coisa impensável aqui há uns tempos, mas previsível desde o momento em que se percebeu que ele ia ganhar a eleição e que ia voltar ao poder.
Luís Montenegro alegou motivos de agenda por causa de uma visita a Berlim, onde esteve reunido com o chanceler alemão para não se deslocar à Arménia. Mas o Miguel acha que teria feito melhor trocando uma viagem por outra? Eu acho que nós não podemos estar na Europa apenas para receber os benefícios da Europa ou então para acompanhar a Europa naquilo que é fácil. Por exemplo, nós nunca condenamos o genocídio de Israel em Gaza, escudando-nos no argumento que estávamos à espera de uma posição comum europeia.
Pois então agora não faz sentido quando a Europa anda à procura de uma posição comum face à ofensiva dos Estados Unidos Luís Montenegro diga que não tem agenda para ir à Arménia. É uma coisa absolutamente impensável. Eu também digo no meu texto e acredito profundamente nisso que ele não ia lá fazer nada porque ele não se atreveria a demarcar-se do Presidente dos Estados Unidos nem dos Estados Unidos. Portugal tem sido.
talvez o país mais cooperante com os Estados Unidos nesta ofensiva do Irão, com as lajes e não só, mas sobretudo com as lajes, por alguma razão fomos distinguidos pelo secretário de Estado, Marco Rubio, como os amigos dos Estados Unidos, enquanto que os outros são os que traíram os Estados Unidos.
E nós estamos na linha da frente dessa amizade. Nós ajudamos os Estados Unidos a prosseguir uma guerra ilegítima e ilegal fornecendo uma base ainda por cima de bórla, porque eles não pagam um euro para estarem nas lanches.
Mas seria, na sua opinião, uma posição simbólica importante esta presença na União Europeia? Não era só simbólica, ou somos membros da União Europeia ou não somos membros da União Europeia. Temos que ser membros da União Europeia para tudo. Não podemos dizer que não temos uma posição de política externa em relação a Israel, porque estamos na União Europeia, a União Europeia ainda não a teve, que era o discurso de Paulo Gangel daqui aos meses.
E, por outro lado, quando a União Europeia está a tomar, a tentar consertar uma posição comum em relação aos Estados Unidos, o Primeiro-Ministro não tem agenda para lá estar.
Ainda que este encontro superasse a União Europeia, envolvendo, por exemplo, a Inglaterra, não é? Não, não, a Inglaterra, o Canadá, o Primeiro-Ministro do Canadá veio de propósito, a Turquia, quer dizer, foi um encontro, e passou-se na Arménia, é um encontro abrangente, ou seja, é a ideia de que o círculo de defesa da Europa pode passar pelo Atlântico Norte com o Canadá, visto que os Estados Unidos não estão lá, pode passar pelo Oriente, pelo Médio Oriente com a Turquia, e ir mais além ainda com a Arménia.
Quer dizer, é uma ideia de Europa alargada como resposta à Europa desfalcada dos Estados Unidos. Somos demasiado cautelosos nesta matéria?
cobardes, não temos uma coragem para ter uma política externa a sério, que nos orgulhe. Eu pessoalmente sinto-me envergonhado por esta política externa. Eu digo no meu texto que não conheço nenhum episódio na história tão vergonhoso desde o orgulhosamente só de Salazar que enfrentava o mundo inteiro para manter uma guerra colonial fora de prazo.
E quando ninguém o acompanhava, começou também por acusar os aliados de serem traidores e acabou de dizer que estávamos orgulhosamente sós. Nós vamos caminhar para estar praticamente orgulhosamente sós nesta servidão aos Estados Unidos de Donald Trump. Porque aos Estados Unidos é os Estados Unidos de Donald Trump.
E já que falámos de Portugal, política diplomática portuguesa e de Montenegro, olhemos para a política caseira. Muitas vezes marcada, como escreve, por vozes estridentes e esganiçadas. Falamos do Parlamento, dos debates parlamentares, alguns deles, e também, obviamente, do Chega. E de uma espécie de estilo que procura convencer e ganhar votos. A gritaria rende votos, Miguel.
Eu pergunto-me isso. Eu pessoalmente a mim afasta-me. Quer dizer, eu não consigo ver uma reportagem televisiva sobre a Assembleia da República e que não agem ninguém aos gritos. E é uma coisa que me ultrapassa, não consigo entender. Quer dizer, a pessoa... Se eu me puser aqui aos gritos, eu estou convencido que os ouvintes não me vão prestar mais atenção, antes pelo contrário, menos do que estiver a falar normalmente.
Costuma-se até dizer que perde a razão a pessoa que entra por esse caminho, não é? É, agora de facto há ali uma série de deputados que estão convencidos que aquilo é uma gala das loucas mesmo, e que quanto mais alto eu gritar, mais força eu tenho. André Ventura é o expoente disso, mas não é o único. Não é o único na sua bancada, mas também vê esse cenário fora dela? Claro que vejo esse cenário fora dela, também há quem grite do outro lado da bancada. Paula Santos, por exemplo, do PCP.
Portanto, acha que há uma imagem do Parlamento que já, no fundo, é o produto de um tipo de contágio nesta altura e que não é bom.
O Parlamento não pode reproduzir lá dentro as conversas no mesmo estilo e no mesmo tom que se reproduzem num café. Não é? É suposto aquela gente ter um bocadinho mais de maneiras, de forma de estar, de convicção nos argumentos que têm, para não ser preciso estar aos gritos. Aquilo não é uma discussão de futebol num café. Aquilo é um oriópago.
onde estão representados 240 deputados que nós elegemos, que nos representam a nós todos. E nós não queremos, acho eu, ter como modelo, como paradigma de representação, uma cacofonia de pessoas aos gritos.
Mas já que falamos do Parlamento e também do Chega, vale a pena olhar para a proposta de Ventura que marcou os últimos dias, que é uma ideia de antecipar a idade de reforma como uma espécie de moeda de troca para aprovar a reforma laboral. É fácil perceber, por todas as reações que o tema suscitou e por tudo aquilo que nós já sabemos sobre a matéria, que tem tudo para correr mal esta ideia.
Se fosse em frente, tinha tudo para acolher mal. Agora, isto é o exemplo acabado daquilo que é a posição do Chega de André Ventura e de André Ventura pessoalmente. Eu acho que não há nada mais corrosivo da democracia do que a demagogia. Nada. É a coisa mais perigosa que existe. Porque destina-se a meter na cabeça de pessoas que não estão devidamente informadas ideias simples e falsas. Que é o que é que...
não gosta de ouvir dizer vamos subir as pensões e vamos diminuir a idade da reforma. As generalidades portuguesas, sobretudo aqueles que estão ou já na reforma ou próximo da reforma, ficam de acordo com isso. Agora, explicar que diminuir a idade da reforma quando as pessoas vivem cada vez mais tempos é, como eu escrevi, por uma progressão aritmética a tentar alcançar uma progressão geométrica. Jamais vai ser possível. E, portanto, só há duas saídas para isso. Se antecipamos a idade da reforma,
Ou aumentamos os encargos para a segurança social daqueles que ainda estão no ativo, ou diminuímos o valor das pensões daqueles que estão reformados. De outra forma, o sistema, pura e simplesmente, não se financia. Não há fórmulas mágicas. Não há fórmulas mágicas. Além de que isto consiste, mais uma vez...
em tentar favorecer a classe mais velha em prejuízo da classe mais nova. Isto é a tal conspiração cinzenta que alguém chamou um dia, não é? Porque os reformados votam muitíssimo mais em percentagem do que votam os jovens e, portanto, isto é uma caça ao voto daqueles que votam em detrimento daqueles que, não votando, estão indefesos perante isto.
Já tanto se falou sobre estas consequências e tanto se falou sobre a importância de aumentar a idade de reforma justamente por causa disto. Acha que André Ventura não tem a noção? Tem, tem completamente. Então porquê que insiste na ideia? É uma questão apenas de atingir a certa popularidade? Eu faço muitas críticas ao André Ventura, mas há uma que eu não faço que é chamar-lhe estúpido. Ele é tudo menos estúpido.
É tudo menos desinformado. Ele sabe muito bem do que está a falar. Aliás, basta olhar para a reforma do ministro Vieira da Silva há uns anos atrás para perceber que aquilo é uma reforma que, aliás, foi elogiada em toda a Europa. Porque nós temos problemas desde em toda a Europa, principalmente em França.
Vieira da Silva fez uma coisa muito simples foi a idade da reforma variava conforme variasse a esperança de vida e um fator que era a produtividade do país e essa forma é perfeitamente normal quer dizer, a gente percebe, quer dizer, se vamos viver mais, nós não podemos reformar-nos mais cedo, temos que nos ir reformando mais tarde
Para contribuir até mais tarde. Para contribuir até mais tarde e para não ser um encargo. A proposta do André Ventura equivalia, se entrasse já em vigor, imagino, para o ano que vem, em 2026, 100 mil pessoas saiam antecipadamente do mundo do trabalho, deixavam de contribuir para a segurança social, deixavam de ser receita para o Estado, e passavam automaticamente a ser um encargo para o Estado. 100 mil pessoas. Agora, quantos anos é que era preciso para isto falir? É fácil de fazer contas.
E da política, saltamos para a área da justiça. O Ministério Público apresentou... Também é política, Paula. É outro género. Altamente, altamente. É verdade, tudo isto tem a ver com essa visão política. O Ministério Público, dizia eu, apresentou em abril um conjunto de cerca de 130 propostas, creio que são mesmo 130, destinadas a reformar o Código do Processo Laboral.
São propostas que o têm... Peço desculpa, exatamente. Destinadas a reformar o Código de Processo Penal. São propostas que o têm surpreendido... O Código Laboral está na nossa cabeça, mas não é... É verdade, é verdade. Isto, dizia eu, são propostas que o têm surpreendido pela negativa. E eu gostava que explicasse por isso.
Bom, eu começo a dizer que já comecei a ler o relatório e não li todo, portanto, eu escrevo como base no resumo, que eu creio que foi bem feito, pelos jornalistas, dos órgãos de comunicação social, daquilo que é o mais importante. E para mim o mais importante, desde logo, é que o objetivo destas propostas é, se há disão, acelerar o procedimento criminal.
E não há nada, uma única proposta que vise penalizar os atrasos causados pelo próprio Ministério Público. Isto aparece uma semana depois de uma inspeção feita ao TSEAP, ter encontrado processos que estavam a dormir há oito anos, há dez anos, que há três anos que não acontecia nada.
e com arcoídos que têm o telefone sob escuta, que têm correspondência apreendida, que têm as contas bancárias congeladas e que na praça pública um dia foram apresentados como despeitas de um crime. E depois abre-se a investigação, faz-se a busca, apreende-se o computador, apreende-se tudo o que é possível e depois para. Durante anos.
Então não acontece nada destes procuradores. Não respondem perante ninguém. Até porque há uma suspeição que fica em relação a pessoas que depois acaba por não se perceber como é que dá, não é? Portanto, eu não consigo perceber que não haja o mínimo de autocrítica e de seriedade quando o Ministério Público vem apresentar propostas para acelerar o processo e não tem nada.
que atinja a causa própria. Não tem nada a respeito deles próprios. Não tem uma única disposição que diga um procurador que tenha um processo parado durante um ano, por exemplo, tem que justificar porquê? Ou arquiva ou tem que justificar porquê é que deve continuar a investigação. Agora, não pode ficar ali a dormir eternamente. Quer dizer, isto é inconcebível. E é a primeira crítica que eu faço. Segundo...
É preciso ver que desde o 25 de Abril nós fizemos um longo caminho de exceção em relação aos direitos garantidos pela Constituição em processo penal aos cidadãos. Um longo caminho contra os direitos dos cidadãos e a favor da investigação criminal. Sucessivamente foram-se dando passos de revisão no Código de Processo Penal que permitem à investigação ter poderes muito mais latos.
Além de que, hoje em dia, têm ao seu dispor meios tecnológicos de investigação que não tinha antes. Mais invasivos. Mais invasivos. Têm meios legais, como, por exemplo, as contas bancárias. Quer dizer, não sei qual é o montante ao certo, mas qualquer transferência bancária, hoje em dia, acima de determinado valor, levanta automaticamente uma participação ao Ministério Público para ser investigado. Não é investigado. Mas, se quiserem, podem investigar.
Tem uma quantidade de meios ao seu alcance. Portanto, é difícil para mim aceitarem.
O Ministério Público queira coisas como apreende o computador de uma pessoa e tem acesso a todos os meios automaticamente sem que antes um juiz de instrução, que é quem dirige a instrução do processo, diga, veja os meios e diga, estes, estes, estes, podem ser usados. Aqueles não.
Não têm acesso a estes. Eles querem fazer isto sem passar por um juiz, diretamente. Mais, e isso para mim é o mais grave tudo, eles querem ter acesso remoto, imediato, ao computador de uma pessoa. Paula está sentada na sua mesa. Tem o seu computador, como todos nós temos. Como temos a nossa vida, a nossa saúde, as nossas finanças, as nossas relações com os amigos, as nossas relações pessoais, familiares, a atividade profissional. E de repente há alguém.
que está a ver o seu computador. Ou se recebe o mail, alguém está a ver o seu computador. Dir-me ele, ah, mas é que ela é suspeita de crimes. Mas qualquer pessoa pode ser suspeita de um crime. Basta ver uma denúncia anónima, feita por razões de vingança pessoal. E eu pergunto, isto é aceitável? Será que não se não dá a conta que estamos a caminhar para um estado policial?
Outra coisa é a geolocalização da pessoa através do seu telemóvel. Vão ter o direito de saber que você está a almoçar no restaurante tal, que foi ao cinema no São Jorge, não sei aonde. Mas porquê? Com carga d'água. Precisam disso para investigar? Não, não precisam. Precisam disso para ultrapassar a sua preguiça, que é uma coisa diferente.
E é isso que o leva, dá uma maneira a escrever que a sua maior preocupação nestas alterações tem a ver justamente com as questões de privacidade e direitos individuais. Claro, porque senão elas não fazem sentido. Quer dizer, o segredo da correspondência privada é um direito fundamental dos cidadãos. A intimidade da vida pessoal é um direito fundamental dos cidadãos.
E, de facto, só em circunstâncias absolutamente excepcionais e sempre sob a iniciativa de um juiz, é que eles podem ser violados, digamos assim, e só até certo ponto. Agora, o que o Ministério Público pretende é poder generalizar e sem intervenção de um juiz, formas invasivas da vida privada dos cidadãos e da sua correspondência privada. Isso não é aceitável. Porém, simplesmente não é aceitável. Imagino, eu acho que as pessoas não se dão conta, por exemplo, o Ministério Público desconfia de fulano.
Vai ao seu local de trabalho, vai à sua casa, apreende-lhe o computador. As pessoas não se dão conta do que isto significa na vida de uma pessoa. De repente ficou sem computador, ficou sem contactos, ficou sem o histórico dos mails, quer ver quando é que mandou um mail para o carpinteiro, não consegue.
Morreu. É como se a sua vida começasse ali, porque hoje em dia estamos todos dependentes disto, do mundo digital, dos computadores, não é? E de repente eles ficaram com aquilo tudo. E não só têm acesso a toda a nossa vida passada, como nós é que deixamos de ter. Nós é que temos recomeçado o zero. Bom, isto é um conjunto de propostas. Vamos lá ver qual é o fim que ela vai ter, não é?
E há mais. Eles querem, por exemplo, que o recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, que é a segunda instância, eles querem que os recursos para o Tribunal Constitucional não suspendam os processos e eu e isto estou de acordo. Porque eu acho que o Tribunal Constitucional tem funcionado como terceira instância de recurso e não devia ser. Não tem desocupado o mérito dos casos. Tem simplesmente que dizer se fulano foi condenado a abrigo de uma lei que é inconstitucional ou não. É só isso que ele tem que dizer. Mais nada. E não é assim que tem funcionado.
Agora, retirar uma segunda instância de recurso em processo de crime, limitando-a a quem for condenado a mais de...
12 anos de prisão é uma violência. Porque facilmente, até num caso de homicídio, uma pessoa pode ser condenada a 8, 9 anos de prisão e, portanto, perde o recurso para o Supremo. E pode estar inocente. As provas podem ter sido mal avaliadas em primeira instância e no Tribunal da Relação. Para isso é que existe o Supremo. E, portanto, há aqui toda uma filosofia de... Da ideia que é preciso saltar etapas para ser mais rápida. Vamos abreviar o trabalho. Vamos aliviar o nosso trabalho dos magistrados.
vamos saltar direitos, vamos deixar de pruridos sobre acesso à correspondência privada das pessoas e tudo isso, porque isto é bom para o andamento do processo de crime. E quem não fizer isto está a fomentar o crime. E da política e da política de justiça, passamos para algo completamente diferente, seguindo para o improviso. É seu pedido, Paulo. Registamos. Fico registado.
E então, ao meu pedido, falemos então do Futebol Clube do Porto, que se sagrou campeão nacional de futebol, e eu começo por lhe dar os parabéns, naturalmente. Muito obrigado, muito obrigado. E a pergunta que lhe faço é se acreditava nesta vitória, neste campeonato, ou se foi sendo convencido que ela iria acontecer em função do que aconteceu ao longo dos diversos jogos? Não, eu no início não acreditava. Aliás, há um amigo meu, com quem eu troco sempre mensagens durante os Jogos do Porto, um portista também de Coimbra.
E eu disse-lhe no princípio, a certa altura houve um jogo qualquer, que o Porto-Benfica ou qualquer coisa, que o Porto devia ter ganho ou não ganhou, e eu disse isto é chato porque nós temos é que ficar à frente do Benfica porque à frente do Sporting não conseguimos ficar. Porque o Sporting era a melhor equipa em Portugal e a melhor futebol joga, claramente.
E continua a ser, apesar de não ter ganho o campeonato? Eu acho que sim. Agora, talvez eles tenham uma equipe limitada, não sei, mas eles tiveram muito mais gestão dos jogadores. Os jogadores, a certa altura, reventaram física e emocionalmente. E o Porto teve uma boa gestão dos jogadores, de facto. E isso é mérito de quem? Do treinador? Claro.
Obviamente, mérito do treinador. Mas também o mérito, também o presidente tem que se dar mérito, não só porque escolheu o treinador, porque contratou os jogadores, mas sobretudo porque faz agora dois anos que André Vila Lisboa chegou à presidência do Porto, pondo fim a um longo pesadelo e encontrou 8 mil euros em caixa nos cofres do Porto, um clube que tem 6, 7 milhões para pagar todos os meses.
8 mil euros. Portanto, ele pegou num cadáver e ao fim de dois anos esse cadáver ressuscitou e é campeão de Portugal. Isso é absolutamente notável. Verdadeiramente notável. A arquitetura financeira que o Porto fez, que conseguiu, insistiu sobretudo em trocar dívida de curto prazo por vida, dívida de muito longo prazo, de 25 anos, permitiu ao Porto levantar-se outra vez.
Teve um ano que as coisas colheram mal, pronto, também não tinha equipe, teve que vender os melhores jogadores também porque precisava de dinheiro e foi capaz de se reconstruir. E isso é mérito do presidente, é mérito do treinador, mais do que dos jogadores, eu acho. E deixa-lhe boas expectativas para a frente, ao contrário do que aconteceu no início do campeonato, ou não?
Bom, agora vamos entrar na pior fase do futebol para mim, que é o chamado de Fezo, que é um dos jornais desportivos que vendem mais, porque é todos os dias, ainda hoje, é o Benfica e Sporting, disputam de um B.A. ao Veneza. É a fase em que o Benfica é sempre campeão, porque vai comprar o mundo inteiro, em mais algum.
E as expectativas são enormes e então quando o campeonato começa a atitude de um portista por exemplo, é pensar que o Benfica tem que ser campeão com isto tudo, não é? Gastou tanto dinheiro, comprou tanta gente. Então tem melhor marketing o Benfica, é isso? Não, tem uma impressa, tem uma impressa ou serviço que o Porto não tem. Sempre teve. E isso o que é que diz para o futuro em relação ao próximo campeonato? Como eu estava a perguntar. Que é numa expectativa positiva ou não?
Depende de como correr esse tal defeso, não é? Depende de como correr. Agora, a Candei é que vai à frente a Lumia duas vezes. O Porto é o mais notável. O Porto conseguiu ser campeão com, digamos, os 14, 15 jogadores que mais jogaram. São todos miúdos. É quase tudo miúdos. É impressionante. Ele é comandado por um defesa central que para mim foi o melhor jogador do Porto tem 26 anos, que é o Bandarac. Mas o resto nós temos ali miúdos de 19, 18, 17 anos. Tem aquele miúdo polaco que foi comprado em janeiro, por exemplo.
E esses miúdos aprenderam o que era ser campeão. Portanto, eles ainda são muito novos e têm muita margem para melhorar, mas, por outro lado, já têm o ADN Porto e o ADN campeão. E isso é importante. E é assim, com um pé no dragão, que fechamos esta conversa com o Miguel Souza Tavares. Viajámos pelo mundo e pelo país, conduzidos pela sonorização e edição do João Martins. Voltaremos em breve para olhar de novo a atualidade. Boa semana.
Sous-titrage Société Radio-Canada
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