Episódios de Ossos Perdidos

Virariam DEUSES ao MATAR | Caso Leopold & Loeb

18 de junho de 202650min
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Neste episódio contamos a história do caso Leopold e Loeb, ocorrido em Chicago, em 1924. A partir do desaparecimento de Bobby Franks, são narrados os primeiros passos da investigação, a repercussão na imprensa e o contexto social, jurídico e intelectual em torno de um dos crimes mais conhecidos da literatura criminal. Também abordamos a forma como ideias filosóficas foram distorcidas pelos envolvidos e como o caso entrou para debates sobre psicologia criminal, punição e privilégio social.

Participantes neste episódio1
S

Speaker A

Narrador
Assuntos7
  • O caso Leopold e LoebDescoberta do corpo de Bobby Franks · Bobby Franks · Nathan Leopold · Richard Loeb · Carta de resgate
  • Investigação PolicialÓculos encontrados · Máquina de escrever Underwood · Nathan Leopold · Richard Loeb
  • Julgamento e CondenaçãoClarence Darrow · Pena de morte · Insanidade · Sentença de prisão perpétua
  • Sequestro de Patty HearstBobby Franks · Jacob Franks · Flora Franks · Pedido de resgate
  • Contexto social e familiarEscola de Harvard para Meninos · Elite de Chicago · Lei Seca
  • Filosofia e PensamentoFriedrich Nietzsche · Übermensch (Super-homem) · Último homem · Interpretação distorcida da filosofia
  • Vida no presídio de TremembéMorte de Richard Loeb na prisão · Libertação de Nathan Leopold · Robert Franks Clubhouse
Transcrição9 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Na tarde do dia 22 de maio de 1924, um operário retornava pra casa. Ele havia trabalhado o dia inteiro, estava cansado e esperava chegar em casa o quanto antes. Por conta da pressa, então ele decidiu seguir por um desvio dentro da Reserva de Wolf Lake, na divisa entre Illinois e Indiana. Aquele era um trajeto comum usado por muitas pessoas, nada secreto. Mas em pouco tempo na trilha, ao longe, o operário avistou algo estranho se projetando pra fora de um bueiro de concreto.

Quando se aproximou, percebeu que aquilo era um pé humano. Sem entender completamente o que havia encontrado, ele chamou alguns trabalhadores da ferrovia que estavam nas proximidades. Juntos, eles puxaram o corpo inteiro pra fora do tubo. Era um jovem sem roupas e machucado. Para os policiais da época, poderia ser só mais um caso de homicídio como tantos outros. Eles não sabiam, mas aquele era o início de um caso clássico dentro da literatura criminal, que ainda seria relembrado dentro da psicologia mais de 100 anos depois.

Eu sou Brian M. Endorfer e seja muito bem-vindo a mais um episódio de Ossos Perdidos. Hoje o caso em questão é conhecido como o crime perfeito. Há pelo menos 10 obras do cinema que retratam esse caso, ou que pelo menos se inspiraram nele, incluindo a terceira temporada de The Sinner. Curiosamente, este caso é altamente envolto em filosofia, literalmente no sentido de universidade e estudos sobre filosofia, no qual os dois criminosos eram obcecados Obcecados a tal ponto que o assassinato seria o trabalho final.

A Escola de Harvard para Meninos, localizada em Chicago, foi fundada em meados de 1865, em um período difícil pra cidade que ainda se recuperava dos danos deixados pela Guerra Civil Americana. Mesmo diante desse cenário complexo, o propósito da instituição era bastante claro: Moldar jovens destinados a ocupar posições de destaque dentro da hierarquia intelectual dos Estados Unidos. O homem por trás dessa ideia era Edward Waters, formado pela prestigiosa Universidade de Harvard.

Seu plano consistia em preparar jovens capazes de algum dia frequentar as grandes universidades do país, especialmente aquelas associadas à elite acadêmica da Costa Leste. Edward obteve sucesso nesse objetivo e, com o passar das décadas, a instituição consolidou sua reputação como uma referência de excelência educacional em Chicago. Com isso, passou a atrair os filhos de algumas das famílias mais influentes do país. Em 1902, a instituição passou por uma transformação significativa ao se fundir com a Escola Princeton Yale, dando origem a escola preparatória de Harvard.

Essa mudança aconteceu porque outras instituições começavam a surgir, criando uma disputa cada vez mais visível dentro do ramo educacional. Mais de 10 anos depois, a escola mudou sua localização para a Avenida South Ellis, no bairro de Kenwood. Ali circulariam cerca de 200 a 300 alunos, todos jovens que carregavam sobrenomes conhecidos dentro dos círculos da elite de Chicago. No entanto, essa normalidade acadêmica, por assim dizer, mudaria no dia 21 de maio de 1924.

Naquela data, um caso de desaparecimento marcaria pra sempre a instituição. No centro desse caso estava o adolescente Bobby Franks, filho mais novo de Jacob e Flora Franks, uma família respeitada dentro da elite judaica da cidade. O respeito pela família era tão grande que Jacob possuía até mesmo um apelido no meio empresarial, era conhecido como Jake o Honesto. Ao longo da vida, construiu uma sólida fortuna nos setores imobiliário e financeiro.

Com isso, a infância de Bob, a criança, se desenvolveu no bairro de Kenwood, uma das regiões mais abastadas de Chicago. Como consequência natural de sua posição social, Bob frequentava a prestigiada Escola de Harvard para Meninos. Por mérito próprio, o adolescente se destacava como um aluno inteligente, participativo e bastante presente nas atividades da instituição. Um dos aspectos mais marcantes de sua vida escolar era a participação no time de debates.

No começo de maio daquele ano, Bob havia apresentado um discurso em que defendia a abolição da pena de morte. Em sua argumentação sustentava que a punição deveria ter caráter reformativo e não vingativo. Apesar disso, ele era um adolescente competitivo, seguro e, como muitos jovens do seu meio, carregava o peso das expectativas familiares e sociais da elite. Bob costumava ir para a escola e retornar pra casa sozinho. Afinal, Kenwood era considerado um bairro tranquilo.

O adolescente mantinha uma rotina comum para um jovem privilegiado da época, participando das atividades acadêmicas e convivendo com outras famílias influentes. Dentro de casa, Bob era descrito como a flor da família e o ídolo do coração de sua mãe. Ainda assim, apesar de tudo o que representava para seus pais, nada disso teria qualquer peso diante de seu destino, quando no dia 21 de maio de 1924, sua vida chegaria ao fim. No fim da tarde daquele dia, Bob havia demorado mais do que o costume pra voltar pra casa.

Isso aconteceu porque ele havia ficado depois das aulas pra arbitrar um jogo de beisebol entre amigos. Após deixar o campo, restava apenas caminhar alguns quarteirões até sua residência. Foi justamente dentro desse curto trajeto entre a escola e sua casa que Bob desapareceu. Como já deve ter ficado claro, o bairro de Kenwood era uma região muito próspera, As casas eram bonitas, as famílias tinham empregos, móveis caros, fartura de comida e motoristas à disposição.

Era um mundo distante do crime, da era da Lei Seca e da violência de gangues que atingiam outras partes de Chicago. Desse modo, o atraso de Bob inicialmente não preocupou a família. Contudo, à medida em que o tempo passava, uma preocupação começou a crescer e tomar conta da casa dos Franks. Algum tempo depois, Jacob e um amigo decidiram sair pra procurar Bob pelo bairro, mas nenhum dos moradores havia visto o garoto. Enquanto isso, sua esposa, Flora, começou a telefonar para os amigos do filho, mas ninguém tinha qualquer informação sobre seu paradeiro.

Jacob continuou procurando pelas ruas de Kenwood, ao mesmo tempo outro amigo da família entrou em contato com a polícia. Enquanto todos estavam fora, Uma ligação chegou à casa dos Frentes. Quem atendeu foi Flora. Do outro lado da linha, ela ouviu uma voz masculina, suave, mas ameaçadora. O homem informou que seu filho havia sido sequestrado, mas que estava seguro. Disse ainda que, se eles apenas aguardassem novas instruções, haveria uma oportunidade de resgatá-lo.

Ao ouvir aquelas palavras sobre o destino do filho, Flora desmaiou imediatamente. Quando Jacob soube da ligação, ele e as autoridades compreenderam que no dia seguinte o sequestrador provavelmente voltaria a entrar em contato. E de fato, na manhã seguinte, o carteiro chegou com um envelope endereçado ao patriarca da família. Ao abri-lo, Jacob encontrou uma carta que dizia: Prezado senhor, como sem dúvida já sabe a esta altura, seu filho foi sequestrado.

Permita-nos assegurar-lhe que ele está neste momento bem e em segurança. Não precisa temer nenhum dano físico a ele, desde que siga cuidadosamente as instruções a seguir. O sequestrador também exigia que Jacob não contasse aquilo pra polícia ou seu filho seria morto. Ele deveria obter $10.000, colocar o dinheiro dentro de uma caixa de charutos e aguardar novas instruções. A advertência final parecia clara: Bob sobreviveria apenas se tudo fosse seguido exatamente como ordenado.

Ao fim da carta, o remetente assinava como George Johnson. Jacob faria qualquer coisa pra tentar salvar o filho e por isso rapidamente foi até o banco pra retirar o dinheiro. No entanto, essa história logo acabaria muito mal. Enquanto ele sacava a quantia exigida, em outra parte da cidade uma descoberta acontecia. Aquele corpo que mencionamos anteriormente encontrado em uma trilha por um operário se tratava de Bob. Os primeiros policiais que chegaram ao local observaram que o cadáver apresentava um corte na cabeça e manchas marrons no rosto nas genitais.

Uma busca pela área resultou no encontro de uma única meia e de um par de óculos. Os policiais que recolheram o corpo levaram ele ao necrotério, pegaram os óculos encontrados no local e colocaram sobre o corpo do menino, pois presumiram que pertencessem a ele. Naquela altura, ninguém sabia que aquele menino morto era Bob. A dúvida permaneceu até o fim da tarde daquele dia. Quando a polícia foi informada de que o filho de um milionário estava desaparecido em Kenwood.

A partir disso, uma ligação foi feita para a casa da família Franks. Jacob foi quem atendeu o telefone. O policial descreveu pra ele o que havia sido encontrado junto ao corpo, incluindo os óculos. Ao ouvir aquilo, Jacob sentiu um certo alívio, porque sabia que seu filho não usava óculos. Ainda assim, por desencargo de consciência, os familiares decidiram enviar o tio do menino ao necrotério para fazer a identificação do corpo.

Mas infelizmente, ao chegar lá, ele descobriu que o menino era de fato seu sobrinho, Bobby Franks. A notícia destruiu a família. Pra piorar a situação, enquanto Jacob ainda tentava lidar com aquela informação, o telefone de sua casa tocou novamente. O sujeito do outro lado da linha, que se identificou como George Johnson, o autor da carta de resgate, afirmou que Bob estava vivo e seguro. Jacob estava devastado, mas decidiu participar daquele teatro.

Ele ouviu o sequestrador explicar que deveria entrar em um trem e que ao chegar a determinado local teria que jogar o valor do resgate pela janela da locomotiva. Entretanto, Jacob estava abalado demais. Depois da ligação, ele acabou esquecendo esses detalhes, fazendo com que as autoridades perdessem uma oportunidade importante de encontrar o assassino. Na manhã seguinte, o jornal Chicago Daily Tribune publicou a manchete Menino rico foi sequestrado e morto.

A notícia provocou um verdadeiro frenesi nos jornais da época. Havia 6 jornais na cidade e todos passaram a disputar leitores com intensidade, publicando notícias 2 vezes ao dia, pela manhã e à noite. Pela primeira vez, a imprensa de Chicago percebia com tanta clareza que os americanos tinham um grande interesse por assassinatos sensacionalistas. O público estava fascinado pelo mistério em torno da morte de um adolescente de alta classe.

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?Voz A

Em poucas horas desde o achado do cadáver de Bobby Franks, vários jornais já haviam oferecido recompensas por informações exclusivas. Com isso, milhares de pistas começaram a chegar até a polícia. Se eram úteis ou não? Pouco importava naquele momento. O cenário era caótico, porque embora os jornalistas estivessem trabalhando ao lado da polícia, também alimentavam uma cobertura cada vez mais escandalosa da história. De acordo com algumas fontes, havia jornalistas instalados diretamente dentro da delegacia, apenas esperando por qualquer atualização sobre o caso, fosse ela relevante ou não.

Desse modo, uma das primeiras informações que caiu nas mãos dos jornais foi a de que os investigadores estavam procurando por um criminoso homossexual. Essa hipótese surgiu devido ao fato de Bob ter sido encontrado despido, levando os investigadores à conclusão inicial de que o crime possuía motivações sexuais. Seguindo essa linha, os policiais entrevistaram em peso os professores de Bob. Alguns deles chegaram até mesmo a ser presos sob suspeita, mas em pouco tempo acabariam soltos por falta de provas.

Quando essa pista esfriou, os investigadores passaram a analisar a carta de resgate. Com a ajuda de um perito, descobriram que a carta havia sido datilografada em uma máquina de escrever portátil Underwood que apresentava algumas teclas defeituosas capazes de identificá-la. O especialista afirmou que as teclas T e F estavam levemente fracas e que a carta poderia ser associada à máquina caso ela fosse encontrada algum dia. Porém, seguir essa pista se provaria uma busca quase interminável, porque milhares de modelos semelhantes haviam sido vendidos em Chicago.

Assim, o foco da investigação recaiu sobre aquele par de óculos encontrado perto do corpo. À primeira vista, não havia nada de extraordinário naquele objeto. Sua armação era descrita como relativamente comum, mas pra época, o par de óculos possuía uma dobradiça bastante singular. Notavelmente, havia apenas um fabricante de óculos na cidade de Chicago que utilizava aquele tipo específico de dobradiça, a Almer Company. Seguindo essa pista, cerca de 50 mil registros foram analisados com o objetivo de localizar pares de óculos fabricados que correspondessem à armação, à precisão e àquela dobradiça única.

E, surpreendentemente, foram localizadas apenas 3 pessoas na cidade de Chicago. A primeira era uma senhora que foi rapidamente encontrada, e os óculos estavam com ela. A segunda era um modesto morador local, mas no momento do crime ele estava na Europa. Além disso, também mantinha seus óculos em mãos. A terceira pessoa, porém, era um estudante da elite de Chicago, Nathan Leopold. De 19 anos. E diferente dos outros dois nomes encontrados, ele não estava com seus óculos.

Então, através de uma breve investigação, a polícia descobriu que a família Leopold era extremamente rica e que vivia a apenas 3 quadras da casa da família Franks. Nathan era descrito por seus amigos como um jovem brilhante. Ele havia até mesmo feito recentemente algumas palestras em Harvard, No entanto, outras pessoas descreviam ele como arrogante e excessivamente seguro de si. Mesmo assim, para os investigadores era difícil acreditar que um jovem com um futuro promissor dentro da alta classe de Chicago pudesse ser o responsável por um crime tão horrível.

Ainda assim, seguindo o protocolo, eles precisavam eliminá-lo formalmente da lista de suspeitos. Curiosamente, devido ao seu lugar na elite de Chicago, as autoridades não o levaram pra delegacia, mas para um hotel. O interrogatório ficou a cargo do promotor Robert Crowell. O objetivo era evitar que os jornalistas descobrissem que um membro da família Leopold havia sido citado no caso. E como se esperava, Nathan tinha uma explicação plausível para apresentar.

Ele confirmou que os óculos realmente pertenciam a ele, mas argumentou que costumava atuar como ornitólogo, dando aulas de observação de aves na região de Wolf Lake, onde poderia ter acabado perdendo o item. E de fato, Nathan era conhecido entre observadores de aves por ter encontrado um raro papa-moscas de Kirtland, uma observação financiada por sua família e que resultou até mesmo em um filme. Vale ressaltar que, depois de registrar uma das aves mais raras dos Estados Unidos, Nathan teria se aproveitado da situação, matado o animal e destruído seu ninho.

O argumento usado por ele era simples: queria adicionar a ave à sua coleção. Até aquele momento, por mais estranha que fosse, a história do jovem ainda possuía algum sentido. O problema surgiu quando Nathan afirmou que havia passado ao menos 4 dias em Wolf Lake, e que os óculos poderiam ter ficado durante todo esse tempo naquela área. Os investigadores, em contrapartida, notaram um detalhe importante: os óculos estavam extremamente limpos.

A partir disso, as suspeitas foram crescendo. Um grupo de policiais foi enviado para vasculhar o quarto de Nathan. Lá, encontraram duas coisas suspeitas. A primeira era uma arma, para a qual ele não possuía porte. A segunda era uma longa carta endereçada a Richard Loeb, de 18 anos, identificado como seu melhor amigo. A carta chamou a atenção porque parecia sugerir que havia algo além de uma simples amizade entre os dois jovens.

Aos olhos dos investigadores, eles pareciam ser homossexuais. As investigações então passaram a recair sobre Richard, que possuía um perfil bastante semelhante ao de Nathan. A diferença era que Richard costumava ser descrito como encantador, carismático, bonito e popular entre todos ao seu redor. Além disso, a família Loeb era extremamente famosa. Seu pai, Albert Loeb, era advogado e vice-presidente da empresa Sears Roebuck. Além disso, a família também era conhecida por promover exposições, concertos e festas.

Ainda mais curioso era o fato de Richard viver em uma das residências mais bonitas de Kenwood, localizada bem em frente à casa de Bobby Franks. A proximidade era tamanha que ele costumava jogar tênis com o adolescente. O promotor responsável pelo caso, Robert Crowe, acreditava que a dupla estava envolvida no homicídio e decidiu questionar pessoalmente Richard. Também no hotel. Contudo, Richard contou a mesma história apresentada por Nathan.

De acordo com os dois jovens, eles estavam juntos no dia do assassinato de Bobby Franks, mas não haviam matado o adolescente. Eles confessaram que saíram com o veículo Willys Knight vermelho de Nathan, pegaram algumas garotas, beberam com elas, flertaram e depois as deixaram em casa. Segundo essa versão, era por volta da 1 hora da manhã quando ambos retornaram pras suas casas. Essa narrativa dos acontecimentos foi repetida inúmeras vezes pelos dois, deixando os investigadores de mãos atadas.

Naquele momento, eles não tinham nenhuma prova concreta contra os garotos. Mas, para a sorte dos investigadores, dois repórteres novatos do jornal Chicago Daily News decidiram apurar o caso por conta própria. Seus nomes eram James Monroi e Alvin Goldstein, e ambos também eram estudantes de pós-graduação da Universidade de Chicago. A dupla havia recebido a informação de que seus dois antigos colegas de classe eram os principais suspeitos no assassinato de Bobby Franks.

Além disso, descobriram que a polícia procurava uma máquina de escrever portátil Underwood. Então, com essa pista em mãos, os dois conseguiram localizar estudantes que haviam trabalhado com Nathan. Todos eles disseram que, de fato, Nathan possuía uma máquina de escrever Underwood. Um daqueles estudantes ainda tinha anotações feitas pelo colega com a máquina e decidiu entregá-las. Os repórteres levaram as notas ao mesmo perito em máquinas de escrever que havia examinado a carta de resgate para a polícia.

E mais uma vez, o perito pôde concluir que aquelas anotações haviam sido feitas por uma máquina de escrever defeituosa compatível com a máquina na carta de resgate. Os repórteres tinham em mãos um grande furo jornalístico e uma nova peça de evidência, capaz de mudar o rumo do caso. Eles foram imediatamente para a delegacia, onde compartilharam suas descobertas com as autoridades. Mais tarde, James e Alvin acabariam ganhando o Prêmio Pulitzer por seu trabalho investigativo no caso.

Mas antes que isso acontecesse, Nathan foi confrontado com as descobertas, e as perguntas passaram a se concentrar no paradeiro de sua máquina de escrever. O jovem evitou confirmar as suspeitas e permaneceu em silêncio. E com isso, as buscas pela máquina se intensificaram. Porém, uma nova pista levaria ao desfecho imediato do caso. Curiosamente, como o interrogatório parecia se estender cada vez mais, as famílias de Nathan e Richard decidiram mandar o motorista da família Leopold, chamado Sven England ao hotel.

Ele levou uma muda de roupas e comida para os dois jovens. No entanto, enquanto estava no hotel, Sven ouviu de um dos policiais que Nathan havia usado seu carro pra ir até o Wolf Lake e descartar o corpo. O motorista, acreditando que aquela informação poderia inocentar seu patrão, afirmou que isso não poderia ter acontecido, porque o carro na verdade estava com ele. Guardado na garagem. Quando o promotor Robert Crowe ouviu aquilo, decidiu questioná-lo diretamente.

Sven apenas explicou que havia utilizado o carro durante a noite inteira e que quando não estava usando o veículo, ele permanecia na garagem. Nenhum dos dois jovens havia pegado o automóvel. Tanto os investigadores quanto o próprio promotor sabiam que aquela informação poderia resultar na prisão de ambos. Robert então retornou aos interrogatórios, mas daquela vez confrontou Richard com o testemunho do motorista. Até aquele momento, o jovem permanecia rígido, repetindo sua história com frieza.

Porém, ao ouvir sobre a informação dada pelo motorista, ele simplesmente desabou e confessou o crime. Em resumo, Richard e Nathan alegavam que tinham usado o carro para sair com garotas, Mas o motorista da família não sabia dessa mentira e acabou estragando a narrativa dos dois. Depois disso, os investigadores foram até Nathan e o informaram que Richard havia confessado tudo. No início, Nathan não acreditou e continuou frio. Mas o promotor quebrou aquela postura ao dizer que Richard havia confessado e que, na versão dele, quem havia matado Bob era Nathan.

Sem pensar duas vezes, Nathan apenas afirmou que contaria como as coisas realmente aconteceram. De maneira mórbida, ambos de fato contaram tudo em detalhes e pareciam até mesmo se gabar pelo crime. De acordo com a confissão, tanto Nathan quanto Richard disseram que haviam planejado o que consideravam o assassinato perfeito durante 6 meses. Eles passaram várias semanas criando uma identidade falsa, Morton D. Ballard, cujo nome foi usado para alugar um sedã azul.

Era esse o carro que eles estavam dirigindo no dia em que decidiram sair pelas ruas para escolher uma criança aleatória, sequestrá-la e matá-la. No dia do crime, compraram um cinzel, ácido e corda para usar contra a vítima. Mas havia um problema central: quem seria essa vítima? Segundo eles, essa decisão permaneceu em aberto até o momento em que resolveram escolher o alvo mais promissor que aparecesse pelo caminho. Ao que parece, um destino cruel levou Bob até eles.

O adolescente simplesmente passava pela rua quando foi avistado pelos criminosos. De acordo com Richard, ele conhecia Bob, porque costumava jogar tênis com o adolescente. Assim, enquanto Nathan dirigia o veículo, ele parou lentamente para que Richard abrisse o vidro e se inclinasse na direção de Bob. Então, disse que gostaria de falar com ele sobre uma raquete de tênis que o garoto havia utilizado no último jogo entre os dois.

Segundo Richard, ele queria comprar uma igual para o seu irmão. Bob confiou nele e entrou no carro. Lá dentro, depois que Nathan dobrou a esquina, Richard se virou para Bob e colocou a mão sobre sua boca, tentando abafar os gritos. Com a mão direita, usou o cinzel para bater na cabeça do adolescente. Em seguida, Nathan pegou um dos panos banhados em clorofórmio e o empurrou para dentro da boca de Bob. O plano inicial era estrangular o adolescente até a morte.

Pra isso, eles iriam enrolar uma corda em seu pescoço e cada um puxaria uma das pontas, de modo que ambos fossem igualmente culpados pelo assassinato. Mas naquele momento, Bob já havia sufocado até a morte sem que eles inicialmente percebessem. Em seguida, a dupla dirigiu até a região próxima da fronteira com o Indiana. No entanto, como ainda estava cedo, decidiram esperar até escurecer. Pra matar o tempo, Nathan e Richard disseram que pararam em uma barraca de cachorro-quente da região.

Depois de comprarem o lanche, os dois retornaram para o veículo onde o corpo de Bob permanecia no banco de trás, coberto por um cobertor. Mais tarde, ambos levaram o cadáver pra fora do carro, retiraram suas roupas e usaram ácido clorídrico para tentar mascarar a identidade de Bob. E depois disso, colocaram o corpo dentro de um bueiro. Os dois negaram qualquer tipo de violência sexual. Após deixarem o corpo de Bob naquele local, postaram a carta de resgate, que já havia sido ditalografada na noite anterior.

Foi Nathan quem telefonou para a casa dos Franks e também quem passou as instruções ao pai da vítima. Curiosamente, enquanto ouviam a confissão, As autoridades descobriram que um cinzel havia sido encontrado dias antes por um vigia noturno. Ambos confirmaram que, depois de cometerem o crime e retornarem para Kenwood, simplesmente descartaram o cinzel pela janela do veículo sem demonstrar qualquer preocupação. Até aquele momento, as confissões eram quase idênticas, exceto por um ponto essencial: Nathan dizia que Richard era quem tinha matado Bobby.

Richard, por outro lado, declarou que Nathan tinha sido o responsável pela morte do adolescente. Quando os dois foram informados de que cada um estava acusando o outro, ambos reagiram com fúria. Mas de qualquer maneira, pras autoridades aquela divergência não mudava o essencial. Ambos seriam julgados como igualmente responsáveis pelo assassinato. Ao todo, os interrogatórios haviam durado 72 horas. 10 dias depois do corpo de Bob ser encontrado, as confissões dos prodígios de Kenwood já estavam estampadas na primeira página dos jornais em todo o país.

As manchetes deixavam claro que o crime brutal havia sido cometido por um jovem de 18 anos e outro de 19. Porém, o detalhe ainda mais chamativo era o perfil dos dois, ambos descritos como bem instruídos e pertencentes a famílias influentes. Eram dois jovens com futuros considerados promissores, mas que por algum motivo haviam escolhido assassinar um garoto de 14 anos. Um garoto que vivia no mesmo bairro, que também tinha um futuro brilhante pela frente e que era completamente inocente. E foi aí que os jornais passaram a chamar aquele caso de o crime do século.

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Após serem acusados oficialmente pelo crime, alguns jornais entrevistaram frenologistas, a fim de estudarem os traços faciais e o formato da cabeça dos criminosos. Hoje em dia, a frenologia é considerada uma pseudociência, mas na época do caso, ainda havia estudos voltados a determinar características da personalidade de uma pessoa por meio das medidas do crânio, especialmente quando se tratava de criminosos. Esses estudos concluíram que Richard era fraco e afeminado, enquanto Nathan era forte e masculino.

Antes do julgamento, a dupla ainda levou policiais e repórteres a todos os lugares onde os acontecimentos haviam se desenrolado, o local onde mataram Bob, o ponto onde enterraram as roupas e até a lagoa de Jackson Park, onde confessaram depois de terem se desfeito da máquina de escrever. Eles chegaram até mesmo a reencenar a forma como atraíram Bob pra dentro do carro. A promotoria chamou alienistas, como eram chamados os psicólogos da época, para examinar a vida dos jovens até o ato criminoso.

Toda aquela atenção deixou Nathan e Richard visivelmente entusiasmados. Nas entrevistas com os especialistas, os dois demonstravam ansiedade para compartilhar tudo sobre si e— sobre o motivo de terem decidido tirar a vida de outra pessoa. Para entendermos a evolução da mente de ambos, precisamos retornar para meados de novembro de 1904. Quando Nathan nasceu. Desde cedo, Nathan se destacou por ser um prodígio. Na escola, seu QI estimado em 200 fazia com que ele parecesse diferente dos demais.

Obviamente, aqui não consideramos o QI como um índice de inteligência. Mas enfim, enquanto outras crianças brincavam, Nathan observava, analisava e se isolava dentro de si mesmo. À primeira vista, isso poderia parecer normal. Nathan tinha um foco, desejava se formar na Universidade de Chicago e depois seguir para Harvard. E de fato, aos 19 anos ele já estudava direito. Era metódico, obsessivo e apaixonado por pássaros. No entanto, havia algo que seu intelecto não conseguia alcançar com a mesma facilidade: habilidades sociais.

Ele era um jovem desajeitado, Isso acontecia porque seu ego era inflado. Nathan não se via como parte de seu círculo social, na verdade, acima dele. Do outro lado da rua estava Richard Loeb. Ele havia nascido um ano mais tarde, em meados de junho de 1905. Assim como Nathan, Richard veio ao mundo cercado pelo privilégio de uma família rica da época. Sua educação foi em grande parte conduzida por uma mulher, Emily Struthers, uma governanta contratada por seus pais para moldá-lo desde seus primeiros anos.

Foi ela quem ficou responsável por ensinar Richard a ler, escrever e estudar. Por causa disso, os livros se tornaram uma de suas grandes paixões. Ele adorava ler romances, especialmente aqueles que traziam personagens dispostos a desafiar o normal, figuras comuns em histórias policiais. Seu interesse era tão grande que ele participou ativamente de sociedades literárias e de clubes de debates. Foi assim até ingressar na Universidade de Michigan, onde encontrou a frustração.

Pra ele, o mundo acadêmico não era desafiador o bastante. Na verdade, parecia uma experiência dominada pelo tédio. De acordo com algumas fontes, Richard então teria procurado estímulos em festas, álcool e sexo. Diferente de Nathan, sua vida acadêmica passou a ocupar um lugar secundário. Mesmo assim, como os dois frequentavam os mesmos círculos sociais do bairro rico de Kenwood, Foi natural que, ainda na adolescência, se aproximassem, principalmente porque ambos eram vistos como prodígios.

Os dois criaram laços estreitos, marcados por admiração e companheirismo. Esses laços se tornaram ainda mais fortes em meados de 1921, 3 anos antes do crime, durante uma viagem de trem rumo à propriedade da família Loeb, em Charlevoix, no Michigan. Durante a viagem, eles tiveram uma conversa. Que mudaria tudo. Nathan confessou a Richard suas tendências homossexuais. Era uma grande confissão, porque se tratava do início dos anos de 1920, período em que a homossexualidade era ilegal.

Em resposta, Richard compartilhou que algum dia desejava se tornar um criminoso famoso. Embora já cometesse pequenos furtos, ele queria algo maior. De acordo com algumas fontes, Essa troca de segredos teria dado origem a um pacto, com Nathan disposto a cometer crimes em troca de favores sexuais de Richard. De volta à universidade, a dupla passou a roubar veículos, quebrar janelas com taco de beisebol e invadir propriedades. Até mesmo a máquina de escrever portátil Underwood, usada mais tarde para redigir a carta de resgate, teria sido originalmente roubada da casa da fraternidade de Richard.

Naquele período, além de cometerem crimes, os dois também começaram a se aprofundar na filosofia do alemão Friedrich Nietzsche. Mas pra entendermos como essa filosofia chegou até eles, precisamos antes compreender o contexto da época. No período posterior à Primeira Guerra Mundial, o ambiente acadêmico dos Estados Unidos começava a abandonar lentamente o velho modelo conservador do século 19, abrindo espaço pra uma atmosfera mais moderna, intelectualizada e europeizada.

Em outras palavras, os jovens da elite universitária americana queriam parecer sofisticados, cultos e intelectualmente superiores. E esse desejo abriu caminho para a popularização de filósofos provocadores, entre eles Nietzsche. Originalmente, suas obras chegaram aos Estados Unidos por meio de vários críticos, mas Henry Louis Mencken, foi o principal nome nesse processo. No entanto, Henry apresentou Nietzsche de uma forma bastante americanizada, simplificada e conturbada.

Em seus escritos, o crítico descrevia o filósofo como um pensador individualista, alguém que desprezava a mediocridade e incentivava a superioridade intelectual, a rebeldia e uma espécie de culto ao super-homem. Assim, pra muitos jovens universitários, Especialmente os ricos e acadêmicos ambiciosos, ler Nietzsche se transformou em uma espécie de marca de superioridade intelectual. O problema é que grande parte desses estudantes não mergulhava de fato em sua filosofia de forma profunda.

Ao invés disso, consumiam frases isoladas, interpretações populares e comentários superficiais feitos por professores, jornais e círculos intelectuais. Por exemplo, o conceito do Übermensch, que é o super-homem, acabou reduzido a uma ideia simplista de homem superior, como se certas pessoas estivessem acima das regras comuns da sociedade e que pudessem agir fora dos limites impostos aos demais. Essa interpretação ganhou força porque os anos de 1920 também eram marcados por um culto à genialidade.

Nas universidades da elite, a competição intelectual intensa entre os alunos era incentivada e muitas vezes valorizada como como um sinal de grandeza individual. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos viviam a chamada Era do Jazz, uma década de excessos, modernização acelerada, quebra de costumes e rebeldia juvenil. Dentro dos círculos da elite, Nietzsche se tornava uma referência associada à rebeldia e à superioridade intelectual.

Nathan, em especial, parecia nutrir uma atração sexual por Richard, e a partir disso passou a enxergá-lo como uma espécie de companheiro super-homem, Perfeito para o crime. Entretanto, antes de qualquer coisa, vale esclarecer que a ideia de Nietzsche em torno do Übermensch não é um convite à violência. Se analisarmos sem o olhar distorcido de Henry Mencken, esse conceito propõe nada mais do que uma reflexão sobre as limitações humanas, a ruptura com valores pré-estabelecidos e a construção de um novo sentido para a existência.

Em nenhum momento o filósofo defende a violência como um caminho necessário pra essa transformação. No entanto, essa ideia, consumida de forma distorcida, servia de lenha para as ambições de Nathan e Richard. Pra eles, ultrapassar a condição comum exigia algum gesto radical, algo que os colocasse acima das regras que organizavam a vida comum. Primeiro vieram os furtos e os atos de violência, mas o tédio, logo chegou. A pouca punição por seus atos de vandalismo somada à ausência de consequências reais fez com que os dois fossem cada vez mais longe.

Na busca por um rompimento definitivo, eles passaram a entender que a moralidade só podia ser destruída por completo através da morte. Ainda assim, eles eram inteligentes o bastante pra compreender que um assassino comum era visto pela sociedade em que viviam como um ser primitivo, impulsivo, dominado por instintos e intelectualmente inferior. Em outras palavras, a ideia deles só faria sentido se cometessem um crime perfeito, calculado e capaz de garantir que saíssem impunes.

Pra eles, aquilo era uma espécie de projeto. Eles queriam provar algo. Nietzsche criticava o que chamava de último homem, O indivíduo domesticado, confortável, anestesiado pela rotina e movido pela busca constante de segurança. Nathan e Rishan estudaram essa crítica, mas, mais uma vez, a corromperam. No crime contra Bob Franks aparecem fragmentos dessa visão distorcida. A violência empregada, o espancamento e a brutalidade do ato apontam para uma tentativa de expressão, como se houvesse ali um impulso de afirmar alguma coisa.

Com base nas confissões e no perfil dos dois, é possível interpretar que a vítima foi reduzida a uma representação, não necessariamente por ser quem era, mas pelo que passou a representar na mente deles. Bob se encaixava aos olhos dos dois criminosos naquele arquétipo do último homem, um adolescente destinado a uma vida comum dentro da elite, obediente, previsível e cercado pela segurança da própria riqueza e que provavelmente se tornaria uma versão semelhante de seu pai.

Espancá-lo, dominá-lo e destruí-lo talvez fosse, dentro da lógica deles, uma forma de rejeitar esse destino. Mas ainda assim, tudo indica que a escolha da vítima não foi inteiramente premeditada. Com base na própria confissão da dupla, Bob foi a vítima que eles encontraram na rua. Ou seja, podemos definir o crime como um ato de oportunismo. Algo muito comum em vários outros casos de assassinato. Apesar disso, sabemos que eles procuravam uma vítima no bairro de Kenwood, uma região predominada por famílias ricas e por jovens acadêmicos de elite, todos parecidos com Bob em origem, idade e posição social.

De qualquer forma, como em outros casos que envolvem a participação ativa de duas ou mais pessoas, os envolvidos acabam se completando. Nathan parecia viver através das ideias de Richard, pois elas resultavam em sua própria satisfação sexual reprimida. Roubo, invasão, sequestro e assassinato, não havia freio suficiente para conter essa escalada, da qual Nathan aceitou participar enquanto seus próprios desejos continuassem sendo atendidos.

Richard, no entanto, era diferente, era um jovem compulsivo, ambicioso, carismático e manipulador. Faria qualquer coisa para alcançar o elo com a superioridade que tanto cultuava, Juntos, os dois criaram um sistema fechado no qual as distorções de um alimentavam as distorções do outro. O vínculo entre ambos era sustentado por uma mistura de dependência, desejo, poder e validação. Assim, o crime foi planejado de maneira meticulosa durante meses até finalmente ser colocado em prática.

Com todo esse perfil dos criminosos em mãos, Para a promotoria, aqueles supostos super-homens não estavam acima da lei. Essa não era apenas a posição da acusação. A opinião pública também exigia vê-los enforcados.

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Enquanto as pessoas consumiam e comentavam as manchetes sensacionalistas sobre os criminosos, Entre confissões republicadas, teorias variadas e análises pseudocientíficas sobre os acusados, a família Franks precisava lidar sozinha com o luto. No dia do enterro, colegas de escola carregaram o caixão de Bob até o carro funerário. O menino foi enterrado no mausoléu da família no cemitério Rose Hill. Para a infelicidade dos Franks, jornalistas, vizinhos e curiosos passaram a rodear o funeral, Transformando aquele momento de dor em mais uma extensão do caso.

Um dos primeiros atos de Jacob, o pai de Bobby, para enfrentar o luto foi transferir recursos para a criação de um clube recreativo para meninos chamado Robert Franks Clubhouse. O objetivo era criar um lugar em que crianças pudessem brincar, conviver e se divertir. De alguma forma, aquele espaço celebraria o curto tempo de vida que Bob havia tido. Por outro lado, as famílias Wilpold e Loeb estavam preocupadas com a vida de seus filhos.

Embora fossem assassinos confessos, eles desejavam protegê-los da pena de morte. Pra isso, as famílias se reuniram e contrataram o famoso advogado Clarence Darrow, cuja presença em qualquer tribunal era descrita como brilhante. Além disso, Clarence era contrário à pena de morte, porque considerava incompatível com a sociedade moderna. De acordo com algumas fontes, o valor cobrado para defender os criminosos foi de $65 mil. Depois que Clarence aceitou o caso, Nathan e Richard se declararam inocentes.

A teoria inicial era que, diante do tribunal, eles alegariam insanidade. Mas a estratégia de Clarence era outra. No dia do julgamento, 300 pessoas, incluindo 200 repórteres, lotaram o Tribunal Criminal de Chicago. O público estava profundamente interessado no caso dos jovens criminosos. O juiz responsável pelo julgamento foi John Cavoury, que conhecia Clarence e já esperava dele uma defesa ousada. E de fato, o juiz foi surpreendido quando a defesa informou que Nathan e Richard retirariam as declarações de inocência e se declarariam culpados.

Em outras palavras, não haveria julgamento. A promotoria não gostou da decisão, porque isso significava que o próximo processo judicial seria a audiência de sentença. Ou seja, tudo passaria a depender de um único juiz, não de um grande júri. Por isso, o promotor Robert Crowe tentaria responder à altura. Então, no dia da audiência, ele convocou 102 testemunhas, incluindo os pais de Bobby Franks. Robert também recebeu ajuda involuntária dos próprios criminosos, que foram vistos no tribunal com feições despreocupadas, exibindo arrogância.

O advogado Clarence percebeu que aquela postura poderia prejudicar seus clientes. E pra lidar com a personalidade dos réus, decidiu que faria de tudo pra provar que Nathan e Richard eram apenas dois garotos que haviam errado, e não dois criminosos malignos. Pra sustentar esse ponto, a defesa decidiu descrever a vida dos dois acusados, insinuando que ambos tinham enfrentado uma trajetória difícil, na qual a criação privilegiada, em parte, havia conduzido eles até aquele crime.

A partir dos relatos dados aos entrevistadores, Clarence alegou que os dois meninos haviam sido criados basicamente por babás e governantas. Que no caso de Richard havia uma governanta controladora e no caso de Nathan, a governanta supostamente havia abusado sexualmente dele. O caso se estenderia até o dia 23 de agosto de 1924, quando Clarence apresentou seu argumento final de defesa, em uma longa narrativa emocional. Em determinado momento, ele afirmou: Pelo amor de Deus, se o estado em que vivo não é mais bondoso, mais humano, mais compassivo, mais inteligente do que o ato insano destes dois garotos insanos, anos, então lamento ter vivido tanto tempo.

Outra parte de seu argumento dizia: Este terrível crime era inerente a estes garotos, que se originou no passado. Devemos culpar alguém que tomou os ensinamentos de Nietzsche em sua vida? Devemos realmente condenar um garoto de 19 anos pela filosofia que foi obrigado a absorver na faculdade? E aparentemente, todo esse drama funcionou. Duas semanas depois, o juiz Keverly condenou Nathan e Richard à prisão perpétua pelo assassinato de Bob Franks, além de mais 99 anos pelo sequestro.

Clarence havia conseguido garantir que os dois sobrevivessem. Para a promotoria, o resultado representou uma derrota, já que o objetivo era vê-los executados. Nathan e Richard foram enviados para a Penitenciária Estadual de Joilhé, onde Richard seria retirado pouco tempo depois. Ainda assim, o veredito trouxe pouco consolo para a família Franks. 4 anos depois, Jacob, o pai de Bob, acabou falecendo. Em seu testemunho, deixou $100 mil para a construção de um memorial dedicado a Bob.

No dia 21 de julho de 1930, Flora Franks e seu filho Jack enfim conseguiram inaugurar o Robert Franks Clubhouse. Em uma entrevista, Jack afirmou que a morte do irmão havia deixado um vazio doloroso nos corações da família. Disse também que todos esperavam que centenas de meninos pudessem ser felizes naquele clube. Para a felicidade de todos, o espaço teria êxito e sobreviveria por longos 50 anos. Nathan e Richard, por outro lado, viveram a vida adulta atrás das grades.

Richard criou uma escola para detentos da prisão e escrevia com frequência para a mãe, compartilhando detalhes sobre seu progresso. Com o tempo, também passou a aconselhar outros prisioneiros. Depois de 6 anos preso, Richard foi transferido para a prisão de Stateville, onde reencontrou Nathan. A partir dali, os dois passaram grande parte do tempo trabalhando juntos na escola voltada aos presos. Registros mostraram que Richard era relativamente querido na prisão e que, ao menos aparentemente, não tinha inimigos.

Ainda assim, em 1936, um preso chamado James Day, que cumpria 10 anos por roubo à mão armada, esfaqueou Richard 56 vezes no chuveiro. O homem alegou ter agido em legítima defesa afirmando que Richard havia tentado abusar sexualmente dele. O inquérito da prisão concluiu que James dizia a verdade. Ao saber do ataque, Nathan correu para a enfermaria e viu seu velho parceiro e amigo. Morrer aos 30 anos. Depois da morte de Richard, Nathan foi mantido em celas psiquiátricas por 6 meses para garantir que não se matasse, não tentasse vingança, nem fizesse algo parecido.

Mais tarde, ele assumiu a direção da escola para presos e apresentou um pedido de liberdade, argumentando que seria mais útil fora da prisão. Ele mesmo teria dito que sabia ser culpado, mas que o assassinato era algo que foi Richard quem desejou realizar. Também afirmou que o amava e que faria qualquer coisa para preservar aquela amizade. Pela primeira vez, os jornais pareciam aceitar com mais facilidade a ideia de que Richard era o mais maligno dos dois, principalmente por causa de sua morte violenta na prisão.

Nathan se aproveitou dessa publicidade pra tentar melhorar a própria imagem diante da sociedade. E aparentemente, a estratégia deu certo. Em meados de 1958, depois de 33 anos atrás das grades, ele foi libertado em liberdade condicional. Nathan logo se mudou para Porto Rico, onde escreveu um livro de memórias e uma obra sobre as aves da ilha. Em 1961, se casou com uma florista viúva. Nos anos seguintes, passou a trabalhar no laboratório de um hospital geral de Porto Rico.

Entre vizinhos, colegas e amigos, era conhecido simplesmente como Nate. Em meados de 1959, o filme Estranha Compulsão, dirigido por Richard Fleischer, foi lançado. A obra tinha como foco o crime cometido por Nathan e Richard. Quando soube da produção, Nathan alegou difamação e tentou impedir o lançamento do filme, mas não teve sucesso. 10 anos depois, aos 66 anos, morreu em decorrência de um ataque cardíaco. Por fim, ainda hoje, o caso Leopold e Loeb continua despertando interesse.

Independentemente de qual dos dois assassinos se considere o mais culpado, ambos tiraram uma vida apenas para tentar provar algo a si mesmos. Segundo algumas críticas, é possível que Nathan e Richard só não tenham sido condenados à morte por causa da presença notável de Clarence Darrow, Em outras palavras, sobreviveram porque suas famílias tinham dinheiro suficiente para contratar um advogado extremamente caro. Caso contrário, provavelmente teriam acabado na forca.

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