Marx: Alienação e os Manuscritos de Paris | Espectro do Comunismo #43
- Redução da Jornada de TrabalhoConceito de alienação · Propriedade privada · Influência de Hegel · Influência de Feuerbach · Revolução Industrial
- Influências filosóficas de MarxIdealismo alemão · Adam Smith · David Ricardo · Pierre-Joseph Proudhon
- Desalienação
o respeito de saúde, os cidadãos da nova lei.
com a desvalorização dos funcionários, a opressão sobre as trabalhadoras terceirizadas e essa forte aliança entre os trabalhadores e os estudantes que entraram em greve em vários cursos, por mais contratação de professores, permanência estudantil, em defesa dos espaços acadêmicos, essa já é uma das principais greves da história da USP e vai aqui a nossa grande saudação e apoio a essa importante mobilização.
E hoje nós vamos falar sobre os manuscritos econômico-filosóficos, os cadernos de Paris, que o Marx escreveu no ano de 1844, ainda no período da sua juventude, e que ficaram desconhecidos durante muito tempo, pelo menos até 1927, quando um dos biógrafos, um dos principais biógrafos do Marx, que é o David Rezanov, publicou trechos dessa obra pela primeira vez através do Instituto Marx Engels de Moscou.
A primeira versão completa desse trabalho foi publicada em alemão somente em 1932. Então vários dos marxistas clássicos, como por exemplo Lenin, não tiveram acesso a esse material, a esse estudo econômico-filosófico que o Marx fez para buscar entender a economia política, para buscar dialogar com o pensamento de muitos autores, especialmente o Adam Smith e o David Ricardo, que pensaram a economia política nos séculos anteriores.
E nesses cadernos de Paris a gente começa a ver a transição de um jovem filósofo rei higliano para um crítico radical da economia política que começava a formular os conceitos que seriam desenvolvidos em obras posteriores, especialmente no capital.
E como nós estamos no meio dessa batalha aqui no Brasil contra a escala 6x1, essa forma nefasta da exploração capitalista e da opressão moderna, desse moderno, digamos, entre aspas, estranhamento do trabalho, nesse primeiro vídeo eu vou abordar especialmente o conceito da alienação do trabalho.
Os manuscritos econômico-filosóficos de 1844 foram escritos pelo Marx em Paris, num momento em que a Europa vivia já intensas transformações sociais e políticas. Talvez a mais conhecida seja a enorme mudança que aconteceu pela Revolução Industrial na Inglaterra, lá nos anos de 1780, e que, nas décadas posteriores, iria gradativamente interferir na maneira com que as economias nacionais e europeias produziam seus bens.
com introdução em especial da máquina-vapor e também com o crescimento urbano desordenado, o surgimento da classe trabalhadora concentrada nas primeiras fábricas, como aquela classe que realmente produzia nas grandes cidades.
E também nesse período de transição da manufatura para a maquinofatura. A Revolução Industrial deslocou massas de trabalhadores para as grandes cidades e foi submetendo esses trabalhadores a condições de exploração muito duras. E esse cenário de desigualdade, de miséria urbana...
Foi um dos elementos que deu ao Marx esse pano de fundo concreto para refletir sobre o trabalho, a alienação e a propriedade privada. Essa foi uma das grandes influências. Outra influência muito importante na construção desse trabalho
foi exatamente o lugar onde o Marx escreveu. Porque o Marx tinha deixado a Alemanha em 1843, fugindo da censura prussiana, da perseguição da polícia prussiana, e foi justamente para Paris. Um ambiente intelectual vibrante, centro de debates filosóficos e políticos e onde circulavam as ideias socialistas.
Ideias comunistas, inclusive, eram o centro de discussão das ideias republicanas contra as monarquias europeias naquela época.
e no qual as lutas teóricas entre as distintas tendências políticas se davam apertamente. É influenciada pela Revolução Francesa de 1789. Aliás, é importante lembrar que foi na França onde houve as primeiras greves operárias modernas registradas, como a rebelião dos tecelões de Lyon entre 1831 e 1834, e no qual as lutas teóricas entre 1831 e 1831.
Essas notícias inspiraram movimentos parecidos em várias regiões da Europa, em especial na Alemanha, por exemplo, na greve dos Tesselões da Silésia, nesse mesmo ano de 1844 em que Marx escrevia os cadernos de Paris. Então, esse elemento da classe trabalhadora é muito presente, ele baliza o conjunto da reflexão crítica do Marx sobre a alienação.
E é justamente em Paris que o Marx entrou em contato com vários pensadores, como o Pierre-Joseph Proudhon, esse anarquista que escreveu O Que É a Propriedade, com os socialistas utópicos franceses e com o pensamento desses socialistas utópicos, no caso do Saint-Simon e do Fourier.
Ou seja, esse contato com o socialismo francês foi decisivo, mas enquanto esses pensadores imaginavam sociedades ideais ou saídas idealistas ao capitalismo, que acabavam preservando a sua essência exploradora, Marx insistia na necessidade de uma crítica científica à sociedade existente.
baseada nas contradições reais que tem o capitalismo. E foi justamente, então, nesse período que o Marx passou a estudar, bastante intensamente, a economia política inglesa, em especial os trabalhos do Adam Smith, A Riqueza das Nações, e do David Ricardo, Os Princípios de Economia Política.
Marx reconhecia que esses autores tinham descrito com rigor a dinâmica do mercado, a dinâmica da produção, ainda que ele visse nessas análises uma falta, uma ausência, elas não captavam essa dimensão humana da exploração do trabalho.
E nos manuscritos econômico-filosóficos, o Marx começa a desenvolver a sua crítica a essa economia política, a economia política do capital, apontando que ela naturalizava relações sociais que, na verdade, eram históricas e eram passíveis de transformação. E nesse ponto, vale lembrar que o Marx recebeu uma importante influência do Engels.
Friedrich Engels, seu grande parceiro na elaboração do socialismo científico, porque o Engels já tinha escrito sobre esse tema um grande artigo que foi publicado nos jornais franco-prussianos, que era chamado Esboço para uma Crítica da Economia Política.
isso que já está publicado aqui no Brasil, em que ele explora várias contradições do capitalismo e a importância do trabalho para a definição do valor, dialogando com os mesmos autores, o Davi Ricardo e o Adam Smith. E quando Bartz leu esse artigo do Engels em 1844,
Ele reconheceu imediatamente a profundidade da análise e chegou a afirmar que o Engels tinha oferecido uma contribuição decisiva para a crítica da economia política. E esse entusiasmo do Marx foi tão grande que ele considerou o texto como uma confirmação.
das suas próprias reflexões iniciais nos manuscritos de 44. Essa também é uma enorme influência, claro, a gente não podia deixar de lembrar, a influência da filosofia do Hegel, que também desempenhou um papel central no pensamento do Marx nesse período. O Marx foi educado no ambiente hegeliano.
e ele absorveu a importância da dialética como método de análise da realidade a partir da influência hegeliana. E o Hegel enxergava a história como um processo racional e necessário que era guiado pela realização progressiva da liberdade.
Ou seja, para ele a história não era um conjunto caótico de eventos, mas sim essa manifestação do espírito absoluto, que se desenvolvia por meio de contradições, de superações dialéticas dos eventos anteriores da história. O Marx aqui estava muito interessado em pensar, ou começar a pensar o desenvolvimento desse modo de produção.
capitalista no decorrer da história, já antes inclusive da rebulsa industrial e posteriormente quando a maquinofatura começa a se desenvolver em primeiro lugar na Inglaterra e depois se espalha para o conjunto da Europa, então a reflexão histórica do Hegel é muito importante. Aliás, deixo aqui o convite para todos vocês que querem conhecer a dialética no Hegel e as reflexões que o Marx fez sobre isso, a gente tem um vídeo aqui no Espectro do Comunismo dedicado exclusivamente a esse tema.
Então, para o rei Yuca da época representava um estágio no avanço da consciência humana em direção à liberdade plena. E o Marx, então, reconhecia a importância desse método dialético que tratava a história como um processo.
ainda que ele pensasse isso, especialmente a história, como um processo aberto, com figuras e acontecimentos objetivos, mas já aqui a gente vê esse questionamento drástico do caráter idealista da reflexão dialética hegeliana, já que ele colocava as ideias...
como o motor da história, as ideias que antecipam os acontecimentos, a consciência que antecipava, nesse caso, a objetividade da história. Então, o Marx aqui, quem já lê o primeiro parágrafo,
desse item que a gente vai discutir hoje, que é o trabalho estranhado e a propriedade privada, já encontra aqui a definição de que a história é realizada pelo choque entre as classes sociais. Então Marx buscava compreender os processos materiais que moldavam a vida social tal como ela se mostrava, sem máscaras, sem um espírito sobrenatural que pairava ali como se fosse uma força dominante sobre as ações da história.
Então, esse aqui também é uma grande influência para o Marx poder realizar esse trabalho. E outra dessas grandes influências filosóficas foi o Ludwig Forba, que exerceu um papel fundamental no pensamento do Marx, especialmente ao propor uma crítica a esse idealismo hegeliano. Forba enfatizava a centralidade do ser humano real.
E que, portanto, a filosofia deveria retornar ao homem concreto, à própria natureza, em oposição a essas abstrações do espírito que o Hegel tanto enfatizava. Em especial, o Feuerbach havia mostrado nesse livro, talvez o principal livro que ele escreveu, que se chama A Essência do Cristianismo.
que a religião era uma projeção das qualidades humanas a uma criatura inventada, invertendo a relação entre o homem e a divindade. E esse era o mecanismo elaborativo central do Hegel. O Forba dizia, porque o Hegel atribui ao espírito, ou mesmo ao Estado, as predicações, as qualidades do ser humano.
Então, ele atribuía ao predicado as palidades do sujeito, ele invertia a ordem entre o criador e a criação. Essa perspectiva, que é um passo do idealismo ao materialismo, atraiu bastante o Marx a tal ponto...
que nesses mesmos manuscritos econômico-filosóficos, o Marx escreve que os escritos sobre Forba são os únicos nos quais, desde a fenomenologia do espírito e a lógica do Hegel, a gente encontra uma efetiva revolução teórica.
Então nesse episódio eu estou me centrando nesse item, trabalho estranhado e propriedade privada, que é um dos principais, talvez o principal trecho dos cadernos de 44, porque é aí onde o Marx vai tratar sobre a alienação do trabalho. E é também onde ele vai dialogar intensamente com Hegel, com Fichte e com toda a tradição do idealismo alemão.
que havia escrito ou que talvez havia incorporado dentro da filosofia essa terminologia da alienação. Nessa tradição idealista, a alienação se refere a esse processo de submeter a própria atividade a uma jurisdição alheia.
É uma vontade alheia, é um movimento que remete o eu para fora, a partir desse ponto inicial. É uma espécie de expulsão, de esvaziamento de si, ou ação de transferência de competências para algo externo. A ênfase aqui, dentro dessa tradição idealista, está no indivíduo particular.
Mas mesmo nesse parâmetro mais individualizante, mais abstrato, esse externalizar-se aparece como uma transferência de atributos próprios a outras pessoas. Isso é importante porque aqui a gente vai tratar de vários termos filosóficos e o Marx está dialogando justamente com eles.
na linguagem que ele tinha incorporado até então. Então Marx parte desses pressupostos, dessa tradutibilidade dos conceitos da alienação do trabalho para refletir sobre ela em outros termos.
Ele passa a entender o conceito de alienação não na esfera meramente individual, mas na esfera social, na esfera universal. Ou seja, o indivíduo aqui aparece como parte de um universo social que está dividido em classes.
em classes sociais. O trabalhador é o personagem dramático e o objeto de estudo para o Marx, que, como eu disse antes, já está influenciado pelos debates dos socialistas em Paris, já está influenciado pelas greves operárias que começavam a surgir na Europa e pela situação bastante difícil do ser humano dentro do modo de produção fabril.
Marx chega a dizer o seguinte, toda sociedade precisa decompor-se hoje nas duas classes, dos proprietários e dos trabalhadores sem propriedade. Ele fala isso logo no início desse trecho, quando ele passa a criticar a moderna economia política em que o trabalhador é degradado à condição de mais baixa ou mais vil mercadoria.
Essa abordagem eu acho interessante por vários motivos, mas em especial porque ela tira a discussão da alienação do âmbito da consciência individual, da autoilustração do indivíduo como uma via para a desalienação. Não, aqui o problema não é jurídico.
O problema não é deixar de submeter a sua atividade à jurisdição alheia, ou não é só isso, porque sendo um problema social, um produto necessário da sociedade dividida em classes, no período do nascimento da grande indústria, o Marx condiciona a solução radical da questão.
a transformação completa do estado de coisas atual. Ou seja, para o Marx aqui já não é possível resolver o problema da alienação, que a gente vai ver em breve o que significa, sem a transformação fundamental da sociedade. Então esse é o núcleo revolucionário do projeto do Marx já em 1844, já nesse ponto tão precoce assim do seu pensamento de juventude e é algo muito importante para a gente frisar.
Agora vamos ver mais de perto como Marx identifica esse problema da alienação. Ele situa esse problema na relação imediata que o trabalho estabelece com os seus produtos, na relação do trabalhador com os objetos da sua produção.
E essa é uma perspectiva nova, porque o trabalhador, vamos ver, o trabalhador despende a sua energia vital, a sua energia física e produz algo. Esse produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, que se fez coisa. Isso é a objetivação do trabalho.
E o resultado natural seria que essa criação tivesse a serviço do criador, que o trabalhador usufruísse livremente da relação de criador que ele estabelece com sua criatura. Mas, no modo de produção capitalista, diz o Marx, o objeto que o trabalho produz...
Seu produto defronta e afronta o trabalhador como um ser estranho, como um poder independente do produtor. Então aqui, olha que interessante, fica invertida a relação entre criador e criação. Como a gente já tinha visto na reflexão do Forba, ali ele estava pensando em termos religiosos, e aqui o Marx está usando essa mesma inversão para pensar a relação do trabalhador com o seu trabalho.
Então agora é o produto que oprime e controla o produtor, que tem o seu acesso ao produto cortado. O produto já não pertence àquele que o fez, pertence a outra pessoa que está separada do processo produtivo e que não objetivou nenhum trabalho.
Bom, aqui vocês já percebem que eu estou antecipando vários dos pontos que vão ser parte dos estudos econômicos posteriores que o Marx vai fazer, tanto nos Grundris quanto propriamente no Capital, sobre a expropriação dos meios de produção daqueles que tudo produzem.
Inclusive porque essa alienação em relação ao produto significa alienação sobre a própria atividade produtiva. Aqui eu deixo também outro convite. A gente tem vídeos aqui no canal dos espectros do comunismo tratando sobre a forma como o Marx discute a expropriação dos produtores dos Grundris. Em várias outras reflexões econômicas aqui disponíveis no canal. Então, no capitalismo trabalhador...
Ele não controla aquilo que faz, não controla também o ritmo em que ele produz, não controla o propósito global da sua atividade, a não ser em termos muito limitados. O conteúdo da produção, o ritmo da atividade produtiva, o propósito do trabalho são todos definidos e comandados arbitrariamente pelo capitalista, que é a personificação do capital.
A gente sabe que numa fábrica qualquer coisa produzida, sejam elas automóveis, celulares, eletrodomésticos, bens de consumo em geral, mesmo bens de capital, máquinas, elas não pertencem ao trabalhador, elas pertencem ao empresário que personifica essa propriedade privada dos meios de produção.
Então, do lado do trabalhador, a objetivação termina sendo perda do objeto e servidão ao objeto. Porque a reprodução ampliada desse produto repete o processo de sujeição do trabalhador ad infinitum. Enquanto esse processo de produção for feito dessa forma, esses produtos vão significar a submissão permanente do trabalhador a esse processo produtivo.
Então, vejam aqui que o trabalhador transfere para fora de si, não só a sua energia física e intelectual, aquilo que dá vida ao objeto e, portanto, diminuindo a sua própria vida, mas transfere para fora de si o controle e o destino desse produto, que ao ser criado serve para submeter esse trabalhador ainda mais.
Nas próprias palavras do Marx, ele diz o seguinte, abro aspas, a alienação do trabalhador em seu produto significa não somente que o seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas que se torna uma existência que existe fora dele, independente dele e estranha ele, tornando-se uma potência autônoma diante dele.
que a vida que ele concedeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha. Faixo aspas. Aqui é o Marx. Essa é uma forma bastante carnal de mostrar como aquilo que é produzido, ou tudo aquilo que é produzido, assim que surge, assim que nasce, se defronta de maneira hostil e estranha ao trabalhador. O trabalhador não se reconhece nesse produto. Ele não se reconhece como ser humano na sua atividade produtiva. Bom, esse aqui é...
a arquitetura da alienação do trabalho para o Marx. E isso tem consequências, porque toda a beleza, toda a harmonia, toda a riqueza que o trabalhador cria na sociedade diante de si, ele perde na qualidade de ser humano. O trabalhador, diz o Marx, produz palácios para os ricos, umas cavernas para o trabalhador. Produz beleza para os ricos, mas bestialidade e deformação para o trabalhador.
E ele até continua essa reflexão, aqui eu gostaria de citar de maneira completa, porque ele dá essa forma mais carnal para o problema. Ele diz o seguinte, abro aspas, O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riquezas produz.
Quanto mais riquezas produz, menos tem para consumir. Quanto mais valores cria, mais sem valor e indigno ele se torna. Quanto mais bem formado o seu produto, tanto mais deformado ele fica. Quanto mais civilizado o seu objeto, mais bárbaro o trabalhador. Quanto mais poderoso o trabalho, mais impotente o trabalhador se torna. E quanto mais rico de espírito o trabalho, mais pobre de espírito e servo da natureza se torna o trabalhador.
Por isso, então, gente, o trabalhador não se afirma no seu trabalho, ele se nega nele, ele não se sente bem no seu trabalho, ele não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre nesse trabalho, e sim ele mortifica o seu corpo, ele arruina o seu espírito, ele quebra.
a sua vontade de exercer isso que, para o Marx, é a própria essência do ser humano, que é a atividade criadora. Então, pensando hoje a escala 6x1, imagina que esse efeito é multiplicado entre esses trabalhadores que são obrigados a praticamente deixar as suas vidas no trabalho. Imaginemos, por exemplo, os trabalhadores de entrega, que têm jornadas estafantes, que não podem controlar, que estão nos algoritmos dos seus aplicativos, que controlam.
todos os seus movimentos, que precisam fazer três turnos, trabalhar os finais de semana, compensar as perdas por punição desses aplicativos, trabalhando até às vezes nas escalas 7x0 e sem nenhum direito trabalhista.
A gente vê aqui a máxima expressão moderna da exploração do trabalho, do estranhamento desses trabalhadores, da separação entre esses seres humanos, que é um fenômeno mundial, da sua própria atividade, da sua própria relação consigo mesmo como ser humano e com a própria natureza.
para não falar da sua relação com os outros seres humanos. Marx entende que todas essas separações são dimensões da alienação do trabalho e que assim nenhum ser humano se sente humano quando no trabalho. É um trabalho que por essência é forçado, é não voluntário, que faz a pessoa se sentir junto de si mesma só quando ela está fora do trabalho e fora de si mesma quando ela está no trabalho.
É daí que o Marx tira aquela formulação clássica que a gente conhece, que tão logo inexista a coerção de qualquer tipo, foge-se do trabalho como da peste. E é justamente nesse trabalho, aqui nos manuscritos econômicos filosóficos, que o Marx descreve esse efeito da alienação sobre a perda da autoatividade dos seres humanos. Eu vou ler aqui um trechinho.
Para vocês, o Martins diz o seguinte, a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se o trabalho não fosse o seu próprio, mas de um outro, como se o trabalho não lhe pertencesse, mas a um outro, como se ele mesmo no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro, assim como na religião, a autoatividade da fantasia humana.
do cérebro e do coração humanos, atua independentemente do indivíduo e sobre ele, isto é, como uma atividade estranha, divina ou diabólica, assim também a atividade do trabalhador não é a sua autoatividade. Ela pertence a outro, é a perda de si mesmo. Tá chovás para o Marx? Isso ele está dizendo claramente o modo de produção capitalista que estava nascendo e que é objeto do estudo do Marx.
Então, esse estranhamento de si mesmo, o estranhamento do ser humano com o seu trabalho, com o seu produto, com a própria natureza, como eu vinha dizendo. O Marx aqui diz que a natureza é o corpo inorgânico do ser humano. Esse não pertencimento e a perda de si mesmo, a perda dessa autonomia, da sua autoatividade, essa é a alienação do trabalho para o Marx.
E aqui, eu quero frisar, ainda que eu vá desenvolver isso em outro vídeo, existe uma preocupação do Marx com a natureza e com a própria ecologia. É muito marcante isso no Marx. Para adiantar, o Marx define que o ser humano somente consegue se relacionar consigo mesmo enquanto ser genérico através da natureza.
que é encarada não como um mero meio de vida imediato, mas como parte integral do ser humano, que com a sua autonomia é indissociável na natureza. Então, a gente pode dizer que não existe revolução para o Marx sem a dimensão ecológica.
E a alienação do trabalho estranha a natureza do homem. Ela exerce essa ruptura porque separa o trabalhador como classe produtora da relação orgânica consciente com o seu corpo inorgânico, com a natureza que permite que todo o trabalho seja feito. Isso eu vou desenvolver então no próximo vídeo.
Mas aqui voltando para pensar justamente a escala 6x1, nenhum trabalhador que está submetido a essa escala tão brutal e que pudesse escolher como trabalhar, escolheria deixar sua vida num trabalho embrutecedor, que não causa nenhum prazer, que define a nervos e músculos, que não satisfaz a sua energia física e espiritual e nem realiza a criatividade da própria condição humana. Os patrões, os capitalistas, os seus políticos de estimação que nunca trabalharam na vida,
Dizem que, por exemplo, os brasileiros trabalham pouco, inventam todo tipo de absurdo para justificar a manutenção da escala 6x1, que, a gente sabe, conversa de escravista, num país que tem um dos maiores coeficientes de horas trabalhadas no mundo, e não à toa a esmagadora maioria dos trabalhadores quer colocar fim a essa escala 6x1 e atacar esse aspecto fundamental da alienação do trabalho moderno pela raiz.
Esse é um desenvolvimento que a gente pode assumir dessas reflexões que o Marx já vinha fazendo em 1844. Então, a gente vê a essência da questão da alienação do trabalho na produção de um mundo que é independente do produtor. É uma potência autônoma estranha e hostil aos trabalhadores. Esse é o trabalho no capitalismo. Isso leva a gente a concluir que a alienação como fenômeno social não afeta igualmente as distintas classes.
O Marx está dizendo que, na balança entre as classes sociais, naturalmente os trabalhadores são muito mais afetados, porque essa ruptura da relação entre o produtor e o seu produto, entre o criador e a sua criação, é a razão de existência da relação entre o capitalista e o produto do trabalho.
É somente porque o produto do trabalho humano se independentizou do trabalhador, se o produto é independente do seu produtor, é que surge a figura do capitalista, como proprietário daquilo que ele não produziu.
Então, para dizer talvez em termos filosóficos, como o Marx diz nesse trabalho, é porque o trabalhador se perdeu a si mesmo que surgiu a relação subordinada do seu produto com o proprietário que não trabalha. Então é por isso que o Marx identifica a propriedade privada como resultado do trabalho alienado. Esse é um conceito que a gente vai ver, é muito importante.
Porque a propriedade privada é o produto da alienação do trabalho. E nesse caso o trabalhador é afetado por essa alienação de uma maneira que o burguês não é. O burguês alienado goza das riquezas. Ele não perde a relação com um produto que ele nunca produziu. Pelo contrário, ele ganha essa relação mediante a expropriação do trabalho, mediante a alienação.
O trabalhador, sim, perde de si aquilo que o define, a sua autoatividade. Ele perde de si aquilo que foi gerado pelo exercício da sua atividade física. Ele perde para outro que nunca trabalhou aquilo pelo qual ele dedicou o seu exercício criador. Esses são conceitos muito importantes para a gente entender a relação que o Marx estabelece entre a alienação e a sua atividade física.
e o seu outro produto, que seria a propriedade privada. Aquilo que encadeia os trabalhadores a esse contínuo ciclo de perda de si mesmo. E aqui, acho que vale até a pena a gente ver a conclusão que Marx tira nesse ponto. Ele diz o seguinte, abro aspas.
Se o trabalhador se relaciona com o produto do seu trabalho, com o seu trabalho objetivado, enquanto objeto estranho, hostil, poderoso, independente dele, então se relaciona com ele de forma tal que um outro homem estranho, inimigo, poderoso, independente dele, é o senhor deste objeto, é o senhor do seu objeto.
Se ele se relaciona com a sua atividade como uma atividade não livre, então ele se relaciona com ela como uma atividade a serviço de, sob o domínio, a violência e o julgo de outro homem. Fecho aspas aqui ao Marx. Aqui ele está expressando o início da reflexão que ele tem sobre o surgimento da figura do empresário do capitalista, do expropriador.
E a gente vai começar a ver então como é que o Marx imagina um trabalho livre, como seria um trabalho não alienado. Aqui a gente partiu desses conceitos básicos que o Marx estabelece nos manuscritos econômico-filosóficos, esse fenômeno que vai muito para além do indivíduo, transcende a esfera individual e atinge a dimensão das places sociais. E é justamente aqui que o Marx começa a se perguntar como seria então.
Se o ser humano perdeu a si mesmo, se ele perdeu a posse sobre a sua própria atividade, sobre o seu próprio produto, como seria essa reaproximação do ser humano consigo mesmo? Como se daria essa reapropriação da sua própria autoatividade? O retorno da nossa espécie ao seu ser genérico. É isso que a gente vai ver no próximo episódio do Espectro do Comunismo.