Episódios de Market Makers

#373 | STARLINK, 5G, CRISE DA OI E O FUTURO DA INTERNET NO BRASIL

11 de junho de 20262h4min
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A Starlink de Elon Musk pode mudar o futuro da internet no Brasil? E qual é o papel da Anatel nessa disputa entre 5G, satélites, operadoras, provedores regionais, data centers e soberania digital?Neste episódio especial do Market Makers, Thiago Salomão recebe Bruno Guimarães, do Last Mile, para uma conversa com Carlos Manuel Baigorri, presidente da Anatel.O papo passa pela história das telecomunicações no Brasil: da época em que linha telefônica era um ativo caro e escasso, passando pela privatização, pelo surgimento dos pequenos provedores de internet, pela crise da Oi, pela chegada do 5G, pela expansão da Starlink, pela bagunça dos postes, pelo Fistel e pelo futuro dos data centers no país.Baigorri explica como o Brasil se tornou uma potência em fibra óptica, por que existem milhares de provedores regionais, como a Anatel enxerga a concorrência no setor, quais são os riscos e benefícios da Starlink, e por que a infraestrutura digital virou uma das grandes discussões econômicas e geopolíticas dos próximos anos.No episódio de hoje:-Como o Brasil saiu da escassez do telefone fixo para a era da fibra óptica-Por que abrir uma empresa de telecom no Brasil pode custar apenas R$ 400-O papel dos pequenos provedores na expansão da internet-O que a queda da Oi ensina sobre regulação, mercado e concorrência-O avanço do 5G no Brasil-Starlink, Elon Musk e o debate sobre soberania digital-O potencial do Brasil em data centers-Fistel, operadoras e o impacto no mercado financeiro-A “treta dos postes” e o futuro da infraestrutura de telecomDeixe nos comentários: a Starlink é uma solução para o Brasil ou um risco para a nossa soberania digital?📌 Inscreva-se no canal e ative as notificações para não perder nenhum episódio!📢Apoie o Market Makers e ajude a fortalecer o mercado de capitais no Brasil! Clique no link e torne-se membro do nosso canal por apenas R$7,99 por mês: https://www.youtube.com/channel/UCwZwvDC6f0WhcVTG-3aBUTQ/join📩Entre para nossa newsletter gratuita: https://lp.mmakers.com.br/newsletter_gratuita?xpromo=MI-COMP-YT-DESCRICAO-MM-X📢 Anuncie sua marca no Market Makers: comercial@mmakers.com.br📚Biblioteca Market Makers: https://lp.mmakers.com.br/biblioteca/?xpromo=MI-COMP-YT-DESCRICAO-MM-X- - - - - - - - -STARLINK, 5G, CRISE DA OI E O FUTURO DA INTERNET NO BRASIL | Market Makers #373Apresentadores: Thiago Salomão (Apresentador do Market makers) e Bruno Guimarães (CEO e cofundador da WiFeed)Convidado: Carlos Manuel Baigorri (presidente da Anatel)Edição: Igor Conrado e Pedro PereiraCaptação : Renan Moncoski#ANATEL #BOLSADEVALORES #INVESTIMENTOS #MERCADOFINANCEIRO #MARKETMAKERS #THIAGOSALOMÃO

Assuntos9
  • História das Telecomunicações no BrasilMonopólio estatal e privatização · Linha telefônica como ativo caro · Orelhões e sua extinção · Telebrás · Privatização da Telebrás · Regime de concessão vs. autorização
  • O Papel dos Pequenos ProvedoresRedução de barreiras de entrada pela Anatel · Facilidade de abertura de empresas de telecom · Expansão da fibra óptica no Brasil · Tiozinho da lan house e garotão do Wi-Fi · Consolidação do mercado de provedores · Claro comprando Desktop · Brisanete · Unifique
  • Crise da Oi e Lições para o MercadoRecuperação judicial da Oi · Obrigações incompatíveis com o mercado · Problemas de gestão e aquisições · Atraso na entrada em telefonia móvel · Fim do regime de concessão · Oi · Rio Forte · Portugal Telecom
  • Starlink e o Futuro da Internet SatelitalConstelação de satélites em órbita baixa · Antenas de recepção Starlink · Direct to Device (celular conectado ao satélite) · Comparativo com fibra óptica · Cobertura em áreas remotas · Starlink · Elon Musk
  • Soberania Digital e Geopolítica das TelecomunicaçõesControle de dados e infraestrutura digital · Risco de espionagem e vulnerabilidades · Certificação de cibersegurança de equipamentos · Uso de órbitas satelitais como recurso global · Tratados internacionais e a UIT · Starlink e o caso Suriname · Brasil como voz em debates globais · Elon Musk
  • Potencial do Brasil em Data CentersDados brasileiros armazenados no exterior · Vantagens do Brasil: espaço, conectividade, energia sustentável · Neutralidade geopolítica brasileira · Regime Especial de Data Centers (Redata) · Desafios tributários e de energia · Geopolítica e a escolha de fornecedores (EUA vs. China) · Brasil como exportador de dados
  • Fistel e a Controvérsia das Taxas de TelecomFundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) · Arrecadação desproporcional e superávit para o Tesouro · Contencioso judicial bilionário das operadoras · Liminar suspendendo pagamento de taxas · Proposta de mudança para Contribuição de Intervenção Social (CID) · Regressividade da taxa por celular
  • 5G e a Rede Móvel no BrasilRede 5G Standalone como referência mundial · Concentração de mercado em telefonia móvel · Papel dos operadores regionais no 5G · Espectro de radiofrequência como bem finito · Leilões de frequência e a venda de 'ar' · 5G e a Rede Móvel no Brasil
  • A 'Treta dos Postes' e a Infraestrutura de TelecomConflito de interesses entre distribuidoras de energia e operadoras de telecom · Postes como ativo econômico não explorado pelas distribuidoras · Ocupação desordenada e 'lixo' nos postes · Proposta de 'posteiro' como agente explorador da faixa de afixação · Analogia com 'torreiros' no mercado de telefonia móvel · ANEEL
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Carlos Manuel Baigorri:Hoje o Brasil tem a rede de fibra ótica, cara, maior do mundo. Coreia, Estados Unidos, Europa. A velocidade média era de 1 mega e o preço era de R$100. Para o mercado 15 anos depois, que o ticket médio é R$80, a velocidade média é 500 mega. Então a gente saiu de um modelo extremamente regulado para um modelo baseado no caos do livre mercado.

Bruno Guimarães:O que eu posso dizer é que a Anatel não é apenas aquela agência para a gente fazer um telefonema quando a internet está ruim ou quando o sinal da operadora móvel não está funcionando. A Anatel de fato é A Agência Nacional de Telecomunicações, que regula e organiza um dos setores que é dos mais importantes, não só pra economia brasileira, mas pra economia mundial.

Carlos Manuel Baigorri:A linha telefônica, ela era um ativo que você tinha que declarar no seu imposto de renda. Teve muita gente que vendeu imóvel pra comprar linha telefônica e vender no mercado paralelo, alugar no mercado paralelo.

Thiago Salomão:Mas peraí, ele vendia imóvel pra comprar linha telefônica porque um imóvel valia tanto quanto uma linha telefônica?

Carlos Manuel Baigorri:É, uma linha telefônica era $5.000 na época.

Thiago Salomão:O Brasil já é o maior mercado de Starlink.

Carlos Manuel Baigorri:Segundo maior mercado, é o que cresce mais rápido. Contexto global é um assunto mega complexo, geopolítico, soberania, blá blá blá. Mas quando você olha pro contexto local, aí está levando, cara, levando Starlink pro interior da Amazônia, levando pra comunidades indígenas que nunca teriam acesso à internet.

Thiago Salomão:Ponto é que a Starlink resolve problemas que a fibra não resolve.

Carlos Manuel Baigorri:É isso, não vai resolver, entendeu?

Thiago Salomão:Twitter ficou fora do ar, né? Porque o STF mandou. Como é que essas coisas se conectam, né? O trabalho da Anatel. Tirar uma rede social do ar, o serviço da Starlink, né, já que tá tudo conectado, enfim, como é que fica essa questão de soberania?

Carlos Manuel Baigorri:Seja qual for o seu negócio, encontrar uma parceria de confiança não é uma tarefa fácil.

Thiago Salomão:Mas tudo muda quando você faz a escolha certa. A ePlace Corporativo é uma Apple Premium Business Partner. E trabalha com o ecossistema Apple completo, com soluções especializadas, ágeis e personalizadas, garantindo mais produtividade, segurança e melhor custo-benefício.

Carlos Manuel Baigorri:Se você e sua empresa querem evoluir, já sabe, a iPlace Corporativo é a escolha certa.

Thiago Salomão:Sim, sim, sim, tá começando mais um Market Maker. Seja bem-vindo ao podcast da família investidora brasileira. Eu sou Thiago Salomão, CEO e fundador deste canal que já fala com mais de 7 milhões de pessoas todos os meses. E olha, o episódio de hoje vai ser muito legal. Aqui várias novidades. A gente vai entrevistar o presidente da Anatel e para isso a gente uniu forças com o Last Mile, o podcast, eu não sei se é o maior podcast de telecom e tecnologia do Brasil, mas certamente é o melhor. E está comigo, ao meu lado, o Bruno Guimarães, que é o host, é o fundador também do Last Mile. Aqui só uns números do Last Mile: já superou 25 mil inscritos e 500 episódios publicados com CEOs, fundadores, executivos e grandes nomes do setor de telecomunicações e tecnologia. Então o Bruno, tal qual quando o Matheus Soares tá aqui para falar com alguma empresa da carteira do Market Makers, o Bruno tá aqui para ter as perguntas inteligentes a serem direcionadas para o Carlos Baigorre, que é o presidente da Anatel. Só o Bruno também é CEO e fundador Wi-Fi, Wi-Fi, Wi-Fi, uma empresa de tecnologia especializada em segurança de redes Wi-Fi que há mais 7 anos atende os principais players do mercado telecom. Ou seja, ele não só sabe para caramba do assunto como vive o dia a dia do setor. Então você que já tá vendo o episódio, deixa aquele duplo like e o duplo inscreva-se. Se inscreve no Market Makers, se inscreve no Last Mile, que vai ajudar muito a gente. Antes de passar a palavra para o Bruno, só o recado dos nossos patrocinadores. É, não existe almoço grátis e nem podcast grátis. E esse podcast a gente agradece demais ao pessoal da iPlace. Se você lidera uma empresa que tá construindo um negócio em crescimento, sabe que tecnologia não é só suporte, é estratégia. E é exatamente aí que entra a iPlace Corporativo, como parceiro oficial da Apple no Brasil. A iPlace vai muito além da venda de dispositivos, ela atua como uma consultoria especializada ajudando empresas de todos os tamanhos, de startups a grandes operações, a estruturarem sua tecnologia segura e escalável. A iPlace Corporativo também oferece soluções completas que incluem gestão de dispositivos, suporte técnico especializado e implantação, além de modelos financeiros que tornam a adoção da tecnologia mais acessível e previsível. No fim do dia, estamos falando de eficiência operacional, redução de custos e mais tempo para você focar no que realmente importa: fazer o negócio da sua empresa crescer. Então, iPlace Corporativo, a escolha certa para a sua empresa. Bom, Bruno, está preparado, meu querido? De onde você veio para estar aqui na cadeira mais cobiçada da Faria Lima?

Bruno Guimarães:Olha, Salomão, vou te dizer que é uma honra para mim estar aqui, fico muito feliz por essa parceria, esse collab que a gente está fazendo. Confesso que estou um pouquinho nervoso.

Thiago Salomão:Relaxa, durante os 3 primeiros toques na bola... Já tem nome de craque, Bruno Guimarães.

Bruno Guimarães:É aquele jogo fora de casa, sabe como é que é? A gente tem que jogar para a torcida.

Thiago Salomão:Começa tocando para o lado. Só chuta se tiver muito claro.

Bruno Guimarães:É isso aí. Mas eu queria dizer que realmente é uma felicidade imensa. Se eu for metade do que tu falou aí na apresentação, já estou muito feliz. Mas teve uma coisa muito importante que tu acabou não mencionando. Eu sou membro do M3 Club.

Thiago Salomão:Exatamente. Não é à toa que o Bruno está aqui, ele faz parte da nossa comunidade de investidores. Está gostando da comunidade?

Bruno Guimarães:Estou adorando e vou te dizer, Salomão, não sei se é uma correlação depois que eu entrei, mas meus resultados em bolsa começaram a melhorar.

Thiago Salomão:Caramba! Olha, então já tem uma... Um testemunho empírico. Não sei se porque está do meu lado está falando bem, mas brincadeiras à parte, realmente a gente tem muito orgulho da comunidade. Aliás, mandar um abraço para todo mundo, os não profissionais do mercado, os profissionais do mercado, hoje já são mais de 600 pessoas na comunidade, deixando a vida dos investidores muito mais fácil, muito mais inteligente. Bruno, só para você dar o primeiro toque na bola, você consegue explicar em um minutinho o que é a Anatel e por que a gente tem que ouvir o que o Baigorre tem a falar?

Bruno Guimarães:Com certeza, Salomão. Só queria fazer uma pequena revelação antes de apresentar a Anatel e falar um pouquinho do Baigorre. Tem muita gente que não sabe, mas o Market Makers foi inspiração para o Lash My Podcast.

Carlos Manuel Baigorri:Ah, é?

Bruno Guimarães:É verdade. Eu sou assim, eu assisto vocês desde lá da época da outra casa, com outros nomes, outras cores. Então, para a gente realmente é um momento bem importante, tá muito legal.

Thiago Salomão:Legal, fico feliz de saber.

Bruno Guimarães:Quis levar isso para o mercado de telecomunicações. Mas agora falando de Anatel, né, vou ver se eu sei explicar bem a Anatel aqui na frente do presidente. Mas o que eu posso dizer é que a Anatel não é apenas aquela agência para a gente fazer um telefonema quando a internet tá ruim ou quando o sinal da operadora móvel não tá funcionando. Ela é muito mais do que isso. A Anatel de fato é a Agência Nacional de Telecomunicações que regula e organiza um dos setores que é dos mais importantes, não só pra economia brasileira, mas pra economia mundial, que é o de telecom e de conectividade também. Coordena temas como 5G, internet via satélite, toda qualidade dos serviços, regulamentação do setor e a inclusão digital no Brasil, que a gente sabe que é um tema muito relevante. E agora, querendo ou não, a Anatel tá num ponto central aí quando a gente fala inteligência artificial, data center, infraestrutura e cloud, toda essa nova economia que a gente está desenvolvendo. Então, acredito que tem muita coisa que o mercado está disposto a ouvir que a gente vai trazer no episódio de hoje.

Thiago Salomão:E outra, até para ancorar o pessoal, a gente vai ter aqui uma história do setor e como ele mudou. Vamos lembrar, né? Começo dos anos 90, a ação mais negociada da bolsa brasileira, final de 80, começo de 90, chamava Telebrás, empresa do setor de telecomunicações. Enfim, hoje ela Male, male, tá na bolsa ali. A gente vai poder contar casos como o caso da Oi, talvez o caso que mais movimentou investidores da bolsa. Até conversando com um dos maiores analistas que cobre telecom aqui no Brasil, conversei com o Cadu, que é chefe de análise do BTG, ele falou: "Cara, você não pode deixar de falar dos leilões de frequência, falar do caso Starlink, falar de operações de banda larga, falar do Fistel." Sim, tem tanto assunto que dá para a gente falar. Então espero que você esteja com agenda confortável, porque a gente vai querer absorver muito do seu conhecimento. E bem-vindo, Faria Lima!

Carlos Manuel Baigorri:Valeu, Salomão! Valeu, Bruno! Tem muitos, de fato, vários pontos para a gente conversar. Vou tentar ser bem objetivo para dar tempo da gente passar por todos eles.

Thiago Salomão:A gente adora quando o convidado não é objetivo, não é prolixo, mas pode falar à vontade. Acho que a gente podia dar o pontapé de como o setor mudou, né?

Bruno Guimarães:Totalmente.

Thiago Salomão:Contar um pouquinho da história. É, até assim, eu já passei um pouquinho, né, do falando da Telebras, enfim, mas o que que era o setor de telecomunicações ali na época que a Telebras era grande estrela da bolsa? E como que ele chegou até onde a gente chegou? Antes a gente entrar nessas questões aqui já endereçadas.

Carlos Manuel Baigorri:Beleza, cara, o setor de telecomunicações eu acho que, acho não, tenho certeza, é o principal exemplo de sucesso nas privatizações que aconteceram no final dos anos 90. Quando o setor foi privatizado em 97, eu particularmente estava na 7ª série, então lembro não muito bem, mas o que eu lembro assim, sempre se conta uma história de que durante a final da Copa de 1994, o fundador da Anatel, Renato Guerreiro, ele para convencer o governo a fazer a privatização, ele colocava uma foto que era uma foto do Maracanã e uma fila dando volta no Maracanã. E ele falava: essa aqui é a foto do Maracanã na final da Copa do Mundial de 1994, Brasil e Itália. Só que a pessoa: pô, mas a Copa do Mundo não foi no Brasil, o que que o pessoal tá fazendo no Maracanã? Aquele dia tava tendo um plano de expansão da Telergy, ou seja, as pessoas que queriam ter acesso ao telefone fixo em casa tinham que ir pegar essa fila no Maracanã para poder entrar na fila e comprar um telefone de linha fixa da Telergy.

Thiago Salomão:E isso aconteceu durante a final da Copa, tu imagina. Enquanto você tá falando, vou procurar essa foto aqui.

Carlos Manuel Baigorri:Cara, eu já procurei, era uma apresentação que ele fazia, nunca achei de novo a foto, mas assim, o ChatGPT vai ter, vai fazer, né? Mas enfim, isso mostra o quanto que a sociedade precisava, quanto que as pessoas precisavam de telefone, de telefone fixo na época. Tinha os orelhões, a gente acabou, deu maior repercussão quando a gente mandou tirar todos os orelhões ano passado, no começo desse ano, se não me engano. Mas também, se vocês, quem vai se lembrar, o A linha telefônica, ela era um ativo que você tinha que declarar no seu imposto de renda. Era um ativo mesmo, você declarava no imposto de renda. E teve muita gente que foi fazer, tinha imóvel, vendia imóvel para comprar linha telefônica e vender no mercado paralelo, alugar no mercado paralelo.

Thiago Salomão:Mas espera aí, ele vendia imóvel para comprar linha telefônica porque um imóvel valia tanto quanto uma linha telefônica?

Carlos Manuel Baigorri:É, uma linha telefônica era $5.000 na época. Uma linha telefônica, se não tinha linha telefônica. Então assim, as poucas pessoas que tinham linha telefônica, todo mundo quer ter um telefone, queria ter um telefone em casa. A rede de telecomunicações não tinha condição de levar telefone para todo mundo, então era um ativo escasso que as pessoas transacionavam no mercado paralelo. E aí valia $5.000, por isso que você tinha que declarar, você declarava uma linha telefônica que nem você declara um carro. Quem que tem linha telefônica fixa hoje em casa? Acho que ninguém nem tem mais. E acontece, aí a privatização foi feita com o objetivo primeiro de viabilizar que as pessoas tivessem e trazer capital novo, capital estrangeiro, para a Telebrás, que você mencionou que não tinha grana para fazer essa expansão da rede. E aí, cara, a grana chegou. Muita gente que fez essa operação de vender imóvel, vender carro para comprar linha telefônica perdeu tudo, porque no dia que o mercado abriu, a linha telefônica passou a não valer quase nada, como não vale hoje. E aí, mas a rede foi sendo construída, foi sendo expandida, e a gente tem foram definidos o que eles chamam de plano de universalização, para levar telefone para todo lugar do Brasil. E hoje todo lugar do Brasil, hoje não, já alguns anos, umas duas décadas pelo menos, todo lugar do Brasil tem uma linha de telefone fixo ou um orelhão. Só que acontece, nesse modelo era o modelo das concessões, então eram assim grandes empresas, tu vai lembrar, Oi, a antiga Telemar, Telemar, Brasil Telecom, Telesp aqui em São Paulo.

Thiago Salomão:Quando eu comecei na bolsa O índice Bovespa mesmo, né, ele era uma sopa de letrinha no setor telecom, né, porque você juntava a Brasil Telecom, a Telemar, a Telemar Norte Leste, até eram várias dessas assim, até para ficar pensando, caramba, para ser um analista de setor deve dar um trabalho. Hoje em dia o analista que cobra o setor fica muito mais tranquilo, né, TIM, Vivo, aí tem Unifiq, que entraram agora, né, desktop Unifiq. Muito tempo era TIM, Vivo e Oi, né?

Carlos Manuel Baigorri:E aí o que acontece? Criaram esses grandes conglomerados com uma série de obrigações do processo de privatização. Então eles tinham obrigações, tinha controle de preço, tarifa mesmo, assinatura básica, todo mundo lembra, tinha controle de preço, controle de qualidade, obrigações de cobertura. Então era um setor extremamente regulado. Só que assim, e aí esse setor foi crescendo com muita regulação, só que por mais que as regras exigissem um monte de obrigação das empresas, elas não conseguiam cumprir. Sim, e aí isso virava um monte de judicialização, multa que a Anatel aplicava nas empresas, elas levavam para a justiça, não tinha conformidade, era um perde-perde generalizado. E aí em 2012 a gente decidiu mudar o mindset da Anatel. A gente falou assim: cara, não é papel do Estado dizer para o cidadão qual que é o preço que ele tem que pagar, qual a qualidade que ele vai ter e tudo mais. Quem vai definir isso é concorrência. Então a gente saiu de um modelo extremamente regulado para um modelo baseado no caos do livre mercado. A gente reduziu completamente as barreiras de entrada no mercado, a tal ponto, Salomão, que hoje se quiser abrir uma empresa de telecom para prestar TV por assinatura, banda larga e telefonia fixa no Brasil todo, te custa R$400. Uma vez só, paga R$400, tu tem autórgata da Anatel para prestar esses 3 serviços no Brasil todo.

Thiago Salomão:E eu posso prestar?

Carlos Manuel Baigorri:Pode, ué. Se você tiver uma certidão negativa de débito, você pode prestar. Aí o que acontece? Nesse movimento surgiram— hoje o Brasil é uma referência internacional que Hoje o Brasil tem 20 mil empresas de telecomunicações de internet prestando serviço no Brasil afora.

Thiago Salomão:Eu ia até brincar com essa facilidade. Tem gente que reclama: porra, minha internet cai toda hora. Ué, faz assunto.

Carlos Manuel Baigorri:E foi assim que começou, cara. O que acontece? As empresas lá da época da concessão, elas usavam a rede de telefonia fixa das antigas, que era aquela de, que era para fazer o DSL, internet 2 mega, 10 mega no máximo. Então assim, era essa a rede que eles tinham. E muitos lugares essa rede não chegava com capacidade de fazer acesso à internet. E aí, cara, começou tipo o tiozinho da lan house, o dono da loja de informática, o cara começou a ter uma lan house aqui com acesso à internet, vou puxar para padaria, vou vender internet para padaria, aí vou puxar para farmácia, vou puxar para aquele bairro, e os cara começaram a puxar a rede.

Thiago Salomão:Não, espera aí, assim, essa explicação, o Bruno até me tava me falando isso, eu fiquei meio encucado com a facilidade de se criar isso. Então só me explica melhor, como é que chega, né, do tiozinho da lan house que tem a internet, mas isso é onde? De que Brasil que a gente tá falando? Das cidades mais distantes?

Carlos Manuel Baigorri:Hoje a gente tem mais de um provedor de internet com fibra óptica em todas as 5.570 cidades do Brasil, do Oiapoque ao Chuí, no interior do Acre, no interior do Amapá, tem um provedor de internet levando fibra óptica na casa do pessoal. Isso porque qual foi a nossa lógica? Reduzir completamente as barreiras de entrada e dar opção para o consumidor, de tal forma que quem vai decidir o preço, a qualidade e aonde vai ter serviço é oferta e demanda, e não a vontade do burocrata lá em Brasília, que sou eu, entendeu?

Thiago Salomão:Mas uma dúvida até mais básica: como é que eu oferto essa internet? Como é que eu crio essa internet?

Carlos Manuel Baigorri:Primeiro você tem que ter um acesso a um link de transmissão. Então é como se você comprasse, das antigas, comprava um um link de 10 mega ou de 100 mega. E aí tu começa a derivar essa rede, tu compra um link de 100 mega, você é um cara que tem alguma grana, você não, você tem um custo da operação, aí você compra um link de 100 mega, ou que nem aqui hoje você poderia comprar de uma empresa de telecomunicação, comprar um link de 100 giga num bairro que não tem, não tem atendimento para as residências, e tu sai puxando fibra e dividindo esse 100 giga com as pessoas. Das antigas tinha gente que comprava e compartilhava o Wi-Fi. Tu comprava o Wi-Fi, abria o Wi-Fi e vendia a senha do Wi-Fi para o vizinho. Uma operação de internet, velho.

Thiago Salomão:Mas aí você deu o exemplo do tiozinho da lan house, porque geralmente quem contratava isso eram as empresas que precisavam de uma boa internet.

Carlos Manuel Baigorri:É isso? É isso.

Thiago Salomão:E aí o cara pega, mas aí como é que ele levava para as outras pessoas? Cara, sabe o computador que vende Wi-Fi? Tá aqui todo meu lado. Mas e para eu levar para mais pessoas, ainda a ponto de eu criar um CNPJ e isso virar uma empresa?

Carlos Manuel Baigorri:Vamos ser bem simples. Já viu que tem um computador? Quando você ia na lan house, eu ia na lan house jogar Counter Strike, tinha um computador e um monte de fio azul, os fios RJ ligando um computador a outro. É só pegar um fio maior e levar no vizinho, vai levar mesmo internet para ele. Só que aí tu fala assim, beleza, eu posso levar para o vizinho, para todo comércio. Aí para levar para um lugar mais longe tem que botar um equipamento para reforçar o sinal, para tipo para regenerar o sinal. E aí tu vai levando, vai comprando mais equipamento, mais computador, mais servidores. E vai distribuindo ao longo de— só que isso ao longo de décadas, milhares de pessoas fazendo isso simultaneamente. Hoje o Brasil tem a rede de fibra ótica, cara, maior do mundo, maior que— com mais densa, maior que China. Que China não, que a China é outro jogo, né? Mas que, sei lá, Coreia, Estados Unidos, Europa.

Thiago Salomão:Então, mas aí, ó, na conversa que eu tive com o Cadu do BTG, foi até um dos tópicos que ele trouxe. Vou escrever, não é exatamente que ele falou, mas foi as conclusões que eu tirei. 60% do mercado de banda larga é controlado pelos provedores de internet e não as grandes empresas de telecomunicação. É isso, isso só acontece no Brasil. Por quê? Aí ele falou: a tecnologia de cobre é super obsoleta. E aí até falou: a Oi, por exemplo, nunca renovou isso. Daí várias pessoas, os tiozinhos lá na house, começaram a criar a tecnologia de fibra. Nem a Anatel sabe quantos provedores de internet existem. Eu chuto que são 15 mil. Qual é o problema disso? Muitos deles fazem isso meio que fora da lei, porque eles passam os fios em cima dos postes. E para cada poste que você passa um fio, você tem que pagar para o— e o dono do poste, quem é?

Carlos Manuel Baigorri:Aí a gente tá falando de outra—

Bruno Guimarães:outro setor. É relevante também, é relevante também.

Thiago Salomão:Então seria que pagar pelo excesso de rede nos postes. Então você pagaria por cada poste, é óbvio. Que esses pequenos provedores não necessariamente pagam isso, né? Então ele falou, a Anatel já anunciou recadastramento, fiscalização, mas é muito difícil porque eles são muitos, né? Pô, a gente tá falando, ele chuta 15 mil, né?

Carlos Manuel Baigorri:Então são mais, são 19 mil.

Thiago Salomão:19 mil, mas esse número é preciso?

Carlos Manuel Baigorri:É um, cara, 19 mil outorgados que tem lá. Aí pode ter o cara que tá prestando serviço sem outorga, mas é 19 mil tem licença da Anatel, autorização da Anatel para prestar serviço. Pagam, pagaram os R$400 para tirar alta. Ah, tá, mas o fio que passa não tem como dizer, porque nem todos precisam usar fio. Se o cara quiser usar rádio, quiser usar outra tecnologia, o que a gente autoriza é a prestação do serviço. Como o cara tá fazendo para fazer o serviço chegar na casa do cidadão, se é fio, se é rádio, se é macumba, e aí é problema dele.

Thiago Salomão:Mas aí então esse é o ponto, aí também se quiser, né, nisso, porque aí a pergunta do ignorante que tá conhecendo O quanto isso é bom, quanto isso é ruim? Eu imagino que é bom porque, porra, para o consumidor, quanto mais oferta, melhor o preço. Você estava até me falando, qual foi a última vez que reajustou o preço? Então assim, na verdade, um serviço para quem oferece é uma merda, né? Porque você tá, a inflação tá te consumindo, na perpetuidade você vai quebrar, né? Então é, tem que ganhar muito dinheiro, volume tem que valer muito a pena. Então, para o consumidor é bom, mas é bom mesmo? Porque se o cara não tá pagando, as grandes operadoras vão querer investir em modernização, é imposto que não tá vindo, né? Porque, pô, enfim, se der algum problema, como é que eu vou cobrar? Qual o ônus e bônus dessa história?

Carlos Manuel Baigorri:Pronto, acho que essa é a forma certa de fazer a pergunta: quais são as partes boas e as partes ruins? Quais as oportunidades e desafios? Porque se isso é bom e isso é ruim, A gente tem que entender o mindset. A gente saiu dessa lógica de eu sou que nem chama o déspota esclarecido que decide o que é bom, o que é ruim. Mercado que vai decidir. Então o que acontece? Qual que é o lado bom? O lado bom é que você tem isso, um monte de gente construindo rede de fibra óptica, levando o serviço para o Brasil. Brasil hoje tem, todo mundo tem acesso à internet. A grande, grande percentual das pessoas que não tem acesso à internet é porque não querem. Mas tem internet no Brasil todo. Ah, mas pô, ao mesmo tempo tem uma concorrência desses 19 mil que é desleal. E aí esse é o ponto que hoje a gente está tentando corrigir, que é o seguinte: cara, a gente quer todo mundo competindo no mercado, a gente quer um mercado plenamente competitivo, mas todo mundo tem que seguir o mesmo jogo. É que nem no jogo de futebol, tu quer ver a galera jogando um bom jogo, mas tu não quer ver ninguém andando armado dentro do jogo. Então assim, hoje a gente aprovou, a gente fez um plano que a gente chama Plano de Combate à Concorrência Desleal, que é basicamente para ir atrás desses 19 mil e ver quem tá pagando porte, quem tá pagando imposto, para tirar do mercado, para ir atrás e punir e tirar do mercado eventualmente os caras que estão jogando, não estão jogando o jogo de forma leal. Agora, o que que ajuda? Mas isso é bom ou isso é ruim? Cara, isso vai ser um movimento que aí o Cadu deve ter falado sobre isso, de consolidação do mercado. Não faz sentido ter 19 mil carros, vai consolidar. Mas qual é o número que você acha que tem que ter? 10 mil, 5 mil, 50, 30? Cara, não sou eu que decido isso.

Bruno Guimarães:É isso aí, é consolidação, cara.

Carlos Manuel Baigorri:Tem vai ter o que a gente espera. A gente tá falando sobre isso agora, é por diversos fatores distintos uma onda de M&A nesse mercado. Tanto que tem uma M&A que deve estar, a não ser como é que vai aprovar, mas vai ser aprovado hoje. Então quando isso vai ser, tá sendo aprovado hoje, então quando for publicado, televisionado, já vai, já vai estar aprovado, que é a fusão da Claro com a Desktop. A Claro tá comprando Desktop, que é uma empresa que surgiu desse processo dos tiozinhos, que agora tá sendo comprada pelas grandes. E a gente imagina, nossa expectativa Expectativa é que isso vai ser o gatilho para uma onda de consolidações no mercado, porque não faz sentido ter 19 mil.

Thiago Salomão:E essa, mas são os tiozinhos que levaram a empresa para bolsa, né?

Carlos Manuel Baigorri:Levaram a empresa para bolsa. O Roberto da Brisanete, que é um outro cara, um cara, ele começou construindo rede de fibra ótica no interior do Ceará, lá no Pereiro, onde a sede dele até hoje. Saiu construindo fibra no interior do Ceará, levando para o sertão, para o Agreste, para onde quer que seja. O cara fez o IPO dele, tem o quê, uns 3 ou 4 anos. Fabiano da Unifiq lá em Santa Catarina, lá de Timbó, mesma coisa, começou construindo rede, o tiozinho da rede foi construindo, foi construindo, fez o IPO. A Brasil Tecpar, a Brasil Tecpar não tá na bolsa, né?

Bruno Guimarães:Ainda não tá na bolsa.

Carlos Manuel Baigorri:Então, mas é uma grande que tá aí também fazendo, atuando. Então, cara, tem, essa é uma história de sucesso do empreendedorismo brasileiro, cara.

Thiago Salomão:Até pegando o caso aí de, se quiser citar nominalmente elas, mas o que que fizeram essas empresas irem para bolsa? Em outras palavras, o que que fizeram essas empresas se destacarem no meio de 19 mil empresas? Elas foram fazer seus próprios M&As? Ela, como é que o tiozinho da Lan House acabou gerando um tamanho a ponto de investidores irem lá e colocar capital nela?

Carlos Manuel Baigorri:Cara, eu acho que assim, minha visão, um mix de crescimento orgânico com inorgânico. Os cara foram construindo, e aí isso dialoga, e comprando, fazendo muita fusão e aquisição, mas operação, fusão e M&A bem pequenininha. Sim, mas junta tiozinho, tiozinho, então assim A Brasil Tech Par é uma que começou assim, são centenas de originais que foram sendo juntados. A 20 Partners, quando começou a operação deles com a Averus, começou assim, saiu comprando um monte de tiozinho no sul, Minas Gerais, principalmente saiu comprando, comprando, juntando e unificando numa grande operação. Americanet também tem, acho que disso. Então assim, aí os fundos começaram a ver isso, 20 Partners com Averus, o Pincus com Americanet, Uma Quark tá agora com Brasil TechPower. Os caras começaram a ver essa porta, tese do crescimento, né? Falei assim, cara, tem um mercado extremamente fragmentado, vou sair comprando esses caras aqui e ser a nova GVT. Todo mundo tem essa visão, todo mundo vai lembrar da GVT, né?

Thiago Salomão:Então, o que que eu lembro da GVT? Eu não lembro o que que ela fazia de fato.

Carlos Manuel Baigorri:Que que a GVT era?

Thiago Salomão:Porque quando eu comecei na bolsa ela tava saindo.

Carlos Manuel Baigorri:É, então, a GVT era uma empresa que ela chegou, ela foi, na época chamava espelhinho, mas ela foi o primeiro maverick, o primeiro desafiador das com bens. Você tinha as concessionárias que tinham comprado os ativos estatais da Telebrás, compraram a rede pronta e estavam só girando a manivela daquela rede ali, tirando, operando a rede. Primeiro cara que chegou e falou assim, cara, eu vou construir uma rede nova, eu vou construir uma rede nova, começar uma operação numa rede muito mais moderna, com outra visão, foi a GVT. Começou lá no sul, o Ramos Guedes, que era o grande— e aí ele começou a construir rede, começou a construir rede, cara, e Foi tipo Davi contra Golias, ele foi construindo, foi crescendo, foi crescendo, foi crescendo e foi ganhando o mercado justamente que nem esses tiozinhos ganharam. Eu lembro quando a GVT abriu a operação deles em Salvador, os cara me falou assim: cara, a gente começou a operar em Salvador, a gente tá vendendo, a gente começou lá com uma operação de 1 megabit por segundo, 1 megabit por segundo tem fila e a gente não consegue atender todo mundo porque a Oi A Telemar, né, Oi, à época vendia 256 kbps a R$350 mês. Imagina um negócio desse. A galera queria. Então assim, esses tiozinhos todos surgiram, encontraram um terreno fértil para crescer e para conquistar mercado no abandono da rede da Oi. A rede da Oi, como a Oi, aí a gente vai dialogar, gente, como a Oi desde 2016 tá em recuperação judicial, e antes disso ela já vinha perdendo capacidade para fazer investimento por diversos capítulos aí que a história conta, né? Isso foi deixando o cidadão sem opção. Então tu ia lá, beleza, que que tem de internet nessa cidade aqui do tiozinho? Ah, tem a rede da Oi, tem internet da Oi, 10k por R$500. Cara, pô, vou fazer o meu, tem uma oportunidade de mercado aqui. E aí, cara, era tipo vender água no deserto. Num ambiente onde todo mundo quer internet, todo mundo quer se conectar e não tem conectividade, O cara que sabia fazer o básico, puxava, puxar um cabo, um cabo azul de uma lan house para padaria, começou a ganhar dinheiro.

Thiago Salomão:Olhando para trás assim parece que é tão óbvio ali, mas é, nossa, que loucura. Agora, nessa linha do tempo, duas informações que eu me perdi: quando você chegou na Anatel, tá? E o que que aconteceu com a Telebras, que ela foi de maior empresa da bolsa para para isso, né? Hoje ela tá ali na bolsa, mas assim, não, não tem a representatividade. Pô, só para a galera entender, né? Hoje Petro, Vale, Itaú tem lá 10, 15% do Ibovespa. A Telebrás, se eu não me engano, chegou a mais de 50% da composição do Ibovespa. Então o Ibovespa era a Telebrás.

Carlos Manuel Baigorri:Que acontece, aí só respondendo, eu entrei no setor de telecom assim que eu saí da faculdade, assim que eu saí da universidade, 2006, eu entrei no setor trabalhou na parte privada. Em 2009 eu entrei na Anatel, concurso público, eu sou servidor lá, tá? E aí o que acontece? A Telebras, ela era a holding do sistema estatal. Que acontece? Na, aqui em São Paulo era a Telesp. Todo mundo que morava aqui em São Paulo vai lembrar da Telesp. Lá em Brasília era Telebrasília, no Rio de Janeiro era a Telerg. Essas eram as unidades, as, os CNPJs de operação de telecom. E a Telebras era holding de todas essas operações. E você tinha uma operação nacional que Era Embratel. Então você tinha Embratel, que era o sistema nacional entre estados, e cada estado tinha a sua operação, Telesp, Telesp, tudo mais. As 27 operações, a Telebrás ela hold. Então ela era listada em bolsa, mas por exemplo a Telesp também era listada na bolsa. Então você tinha holding e a operação e a empresa, e a Telesp também era listada em bolsa. Então é isso que eu sei com a Telebrás. A privatização foi o quê? Foi a venda dessas unidades.

Thiago Salomão:Então você fez blocos, você esvaziou a holding, esvaziou a holding.

Carlos Manuel Baigorri:Só que por que que você não acabou com a holding? Porque você tinha um monte de empregado que tinha, que foi mantido lá, virou a holding, virou uma RH para gestão dos aposentados, entendeu? Porque tinha o plano de fundo de pensão, tinha uma série de atividades que eles precisavam manter até todo mundo se aposentar e ela acabar. Então ela ficou ali tinha como uma casca que ia desaparecer. Nunca fecharam capital, e aí não sei por quê, até que em 2008 houve um decreto dando novas atribuições para Telebrás, basicamente atuações mais do ponto de vista do interesse público, tipo de uma estatal, que é conectar, fazer algumas políticas públicas, levar conectividade, fazer alguns programas de política pública mesmo que as empresas de telecomunicações não fariam. Então em 2008, mais ou menos, a Telebrás foi, digamos assim, ressuscitada, não foi ressuscitada, mas assim, foi foi criado uma atividade, enfim, para ela fazer. E hoje ela tem uns projetos de construir rede, de fazer conexão, comunicação entre órgãos de segurança, entre órgãos públicos, para garantir segurança e privacidade, confidencialidade. Então assim, ela tem uma atividade hoje, ela tem uma atuação de nicho para aplicações públicas, digamos assim.

Thiago Salomão:E quando a gente fala de privatização, acaba politizando a conversa. Então estou conversando com um técnico do setor de telecomunicações. A sua opinião técnica sobre o quão importante foi essa onda de privatizações dentro do setor para a gente estar tendo esses problemas, entre aspas, que a gente está tendo hoje dessa máxima concorrência e tudo, essa evolução do telefone custava R$5.000 uma linha e hoje, né, não vale nada, ou até a própria internet que era oferecida, enfim. Qual foi a importância do programa de privatizações para a gente estar no momento que tá aqui no setor?

Carlos Manuel Baigorri:Olha, no setor de telecomunicações o processo de privatização foi fundamental. Ele foi assim, o setor de telecomunicações ele teve várias etapas. Se você for olhar historicamente, até antes da gente nascer, teve uma época que as telecomunicações eram municipais. Cada município tinha sua empresa de telecomunicação, era uma zona. Então assim, se você tava no município, queria ligar para outro, não conseguia fazer a ligação. Era como se fosse grandes interfones. Você não conseguia falar, você só falava com o bairro e tal, não tinha interoperabilidade, que a gente chama. E aí, no regime militar, criaram a Telebrás. E aí a União, o governo federal, foi comprando todas essas operações municipais, integrando numa rede só. Então, essa foi, esse foi o surgimento da rede nacional de telecomunicações, uma rede que um cara lá no norte consegue fazer uma chamada para um cara lá no sul. Só que esse, só que durante o tempo que o a empresa tinha grana para expandir essa rede, tudo funcionou bem. Chegou uma hora que a grana acabou, e aí teve que chamar capital, chamou capital privado, fez a privatização. Então assim, foi um movimento fundamental para você ter uma modernização, ampliação e melhor prestação de serviços de telecomunicações. Então assim, o Estado foi muito importante para cumprir o seu papel de criar interoperabilidade e interfaces abertas e tudo mais, mas quando a capacidade do Estado chegou no seu limite, o capital privado veio e resolveu. Mas uma coisa importante, o Salomão, que a privatização, por mais que ela tenha sido fenomenal, ela deixou um mega problema para a gente resolver, que foi o seguinte: a ideia lá na concepção original, eles já sabiam lá na privatização que não dava para tu criar um monopólio. Eles não queriam ter um, sair do monopólio estatal para o monopólio público, quer dizer, na verdade, explotar para o monopólio privado. Então tinha essa concepção de introduzir a concorrência. Só que acontece, você tem uma concessão que foi o cara que comprou a rede de telecomunicações lá do sistema estatal, um caminhão de obrigações, e que era tipo a Telemar, a Brasil Telecom. E aí vem uma GVT que não tem obrigação nenhuma, presta o serviço onde ela quer, do jeito que ela quer, com preço que ela quer. Quando esse cara é pequenininho, o entrante é pequeno, ele vai comendo as bordas, vai pegando os nichos ali. O outro vai tentando matar ele, ele vai sobrevivendo, foi aquela briga Só que à medida que isso vai se espalhando, seja pela ineficiência do grandão, vai criando espaço para os pequenininhos surgirem, o grandão fica inviável porque ele fica tendo que concorrer com um cara bem mais leve. E a concorrência, o ganhador dessa disputa não se dá pela eficiência, se dá por quem tem menos regra, entendeu? Então é como se tu tem que apostar uma corrida, um cara só de sunga e o outro cara carregando uma mochila cheia de pedra. Às vezes o cara, se não tivesse as pedras, talvez ele ganhasse, mas ele não tem essa oportunidade. E aí você Você criou um regime de concorrência onde o ganhador, onde o perdedor já tava definido. E aí esse modelo de concessão, ele virou uma draga para o setor, ele virou uma draga para o setor, até que a gente conseguiu, por meio de acordos no âmbito do TCU, acabar com esse regime de concessão e migrar todo mundo para o regime de autorização. Então esse foi uma mudança, a privatização foi fundamental. Mas ela não, ela não era sustentável nela mesma, entendeu? Precisou fazer ajuste, alterar a lei no meio do caminho para dar uma sustentabilidade de longo prazo para ela.

Thiago Salomão:Só um dado aqui, o meu amigo chat me mostrou que a Telebras hoje vale algo perto de R$1,3 bilhão na bolsa. Se pegar, né, aí tem questão de moeda, né, o próprio questão de privatização, acho que deve ter inflado os preços. Mas em 98, entre 94 e 98, a Telebras saiu de 9 bilhões de dólares para 37 bilhões de dólares. E o patrimônio do sistema podia chegar a cerca de 100 bilhões de dólares. Então vamos pegar 37 bilhões de dólares, né, valor de mercado, e hoje 1 bilhão de reais, né. Então o que ela já foi e o que ela é.

Bruno Guimarães:Impressionante, impressionante. Não, e a gente até tem poucos dados para ver qual que foi o impacto que essa conectividade teve no PIB do Brasil, porque querendo ou não, a gente sabe que levar conectividade na ponta para o Brasil como um todo é produtividade na veia. A gente tá falando de um país que é altamente conectado. Em quais outras áreas do mercado a gente tem números melhores que Estados Unidos, que Coreia do Sul, que Europa? Quando a gente fala de conectividade fibra ótica, a gente tá realmente nessa posição no Brasil.

Carlos Manuel Baigorri:Mas 5G também, a gente tem uma rede 5G hoje que é referência no mundo. A gente tem a maior rede 5G estado da arte, que tem vários, 5G tem várias tecnologias, tem várias versões, né? A nossa versão é a mais moderna, chama 5G Standalone. A gente tem a maior rede 5G Standalone do mundo, à exceção da China.

Bruno Guimarães:E, ô, Baigorre, já aproveitando esse gancho também, a gente tem um cenário de altíssima competitividade quando a gente fala de banda larga, de rede fixa, essa fibra ótica que chega até a nossa casa, até a nossa empresa. Mas quando a gente olha para telefonia móvel, né, o SIM card que a gente coloca lá no nosso celular, Aí o mercado já é muito mais concentrado. A gente tá falando de 97% dos acessos na mão aí de mais ou menos 3 empresas grandes que a gente já comentou: Vivo, claro, TIM. Como que tá a perspectiva da Anatel? Porque agora com a chegada do 5G já tem mais espaço para os regionais, né, os operadores regionais que ganharam o leilão, Unifiq, Brisanete, Amazonas 5G, por aí vai. Há uma tendência de aumento da competitividade nesse setor? A gente sabe que ali o jogo é diferente, o CAPEX é outro. Valor de investimento é outro. Como que a Anatel tá visualizando esse avanço das redes móveis e da competitividade no setor?

Carlos Manuel Baigorri:Então, você colocou, Bruno, alguns pontos importantes. O processo de provimento do serviço na banda larga fixa, ele é muito simples. O custo de entrada é muito baixo, o CAPEX que você precisa fazer é muito baixo, a tecnologia é muito simples. Então assim, qualquer tiozinho da LAN consegue começar uma operação. Na rede móvel, cara, é outro bicho, é outra tecnologia, os equipamentos são muito mais complexos, tem um ciclo tecnológico muito mais acelerado. Então assim, a escala de produção mínima é diferente, beleza, as escalas são diferentes. Mas o que acontece, eu vou voltar atrás, quando eu entrei na Anatel, quando eu entrei na Anatel, a Anatel tinha um mantra na cabeça de que tinha que ter 5 players nacionais na operação celular. Falei assim, cara, o Brasil é grande, o Brasil tem condição, mercado poderoso, a gente tem que ter 5 players nacionais, tem que ter. E a Anatel foi mantendo de forma vamos dizer assim bem claramente, artificial, esses 5 players. Até que um dia a realidade bateu na porta e a Nextel faliu e a Oi faliu. A operação móvel da Nextel faliu, que era Vivo, Claro, TIM, Nextel e Oi. E aí faliu. E aí beleza, o que que a gente faz? Cadê o quinto cara para comprar? E aí quem tinha bala na agulha para comprar essas operações, para comprar os ativos dessa empresa e continuar prestando serviço? Vivo, Claro e TIM. A operação da Nextel foi comprada pela Claro e depois Vivo, Claro e TIM foi dividida por eles num consórcio. E aí eu lembro que foi bem nessa época, e esse é um desafio que tá na Europa até hoje. Na Europa eles ainda têm esse mantra de que tem que ter 4 players, que não pode ter consolidação. E aí a gente volta, ô Bruno e Salomão, para aquilo que eu falei no começo. Não é nosso papel, a nossa, a visão da Anatel institucional é de que não é papel nosso dizer quantos players tem que ter no mercado. A quantidade de players que cabe no mercado é resultado das forças de oferta e demanda, e não da vontade do Estado. Então qual que é o nosso papel? Cara, se tinha 5 e 2 quebraram, deixa os outros 3 absorverem. Mas a gente tem que criar. Mas só que o problema no mercado de telefonia celular, você tem uma barreira entrada que não é burocrática, é uma barreira entrada que é técnica, que acessa o espectro de rádio frequência. Espectro de rádio frequência é um bem finito, que são as ondas de rádio. Sabe quando você tá andando no seu carro, você vai lá e coloca no dial 95.3, 98.7? Cada uma dessas coisas é um canal. O seu 5G, o seu 4G, ele anda não por essas frequências, mas por outras. E aí a quantidade, do mesmo jeito que o seu dial é finito, não cabe infinito, não tem infinitos canais de rádio no seu dial, porque existe uma faixa ali onde roda os canais de rádio, existe os canais de rádio, existe uma faixa por onde roda o 5G, por onde roda o 4G. Isso é limitado. Então o que que a gente faz? Lembra que o Sérgio Motta, ele falava, cara, esse é o melhor leilão de fazer, porque está vendendo o ar, né? Então não é vender uma rodovia, vender um negócio que a galera vai está vendendo ar. Então a gente faz leilão de ar.

Thiago Salomão:Quando eu perguntei para o Cadu como é, o que que esse tal de espectro, ele falou: espectro é o ar que as operadoras respiram.

Carlos Manuel Baigorri:É isso mesmo. E a gente vende para eles esse ar, a gente gera esse ar, é um ativo público de titularidade da União, e a Anatel é responsável por administrar isso, vender isso, proteger isso. Quem compra tem que ser protegido, garantir os direitos de propriedade. Então é mais ou menos esse o rolê. Então a gente faz esses leilões Só que se você não tiver esse ar, tu não pode tocar uma operação móvel, você não consegue subir uma operação móvel, você não consegue ter uma rádio, você não pode, você não consegue ter uma operação de celular se você não tiver esse negócio. E esse negócio é limitado. Então o que que a gente faz? O que que a gente fez no leilão do 5G? A gente falou assim: cara, acabou de rolar essa consolidação, consolidou o mercado em 3, será que cabe um 4º? Não sei se cabe um 4º. Como é que a gente faz? Bora testar o mercado. A gente fez um leilão e fizemos 4 lotes. 3 lotes, as 3 vão comprar, e o 4º lote a gente fala, cara, esse 4º lote, numa primeira rodada, só um entrante pode bidar. Se não aparecer ninguém, ou seja, não tem um 4º com interesse, aí deixa os outros bidarem, aí quem ganhar leva. Aí apareceu o 4º, aí apareceu um 4º cara, apareceu a Brisanete no Nordeste, apareceu a Unifique no Sul, apareceu outro, a Yes, no centro, na região Sudeste, e tal. Achou, beleza, tem uns caras novos. Agora, se eles vão sobreviver ou não, se eles vão ser comprados, cara, é mercado. Então, se a gente testou o mercado, tem interesse para entrar um quarto, entrou. Agora, pô, e se o quarto daqui a pouco bater na minha porta, na porta da Anatel, dizendo, pô, tô perdendo dinheiro, foi um péssimo negócio, falar, I'm sorry, vai para casa então, encontra alguém para comprar teu negócio e vai embora.

Bruno Guimarães:Claro, claro. Um pouco nessa linha, acho que a gente pode entrar agora talvez um tema que foi durante muito tempo vamos vir para o pauta do mercado financeiro, que é o tema da Oi, né, o Salomão.

Thiago Salomão:É que antes de entrar na Oi, é que eu, da conversa com Cadu, teve uma, aliás, mandar um abraço para o Cadu, né?

Bruno Guimarães:Pois é, o Cadu ajudou aqui, é verdade.

Thiago Salomão:Mas é que ele fez um comentário sobre essa questão do leilão, e até primeiro queria entender como é que surge o 5G, como é que é, tá, veio 5G, mas por que que veio agora? Por que que não veio antes? O que sobre como é que nasce uma tecnologia.

Carlos Manuel Baigorri:Então, o que acontece, existe, vamos lá, das antigas, das antigas, quando todos os sistemas eram estatais, o mundo todo era, os países todos tinham seus sistemas estatais, eles se encontravam e padronizavam a tecnologia. Por quê? Porque quanto melhor, quanto mais padronizada e harmonizada for a tecnologia em diferentes países, isso faz com que, com que a tecnologia fica, fique mais barata. E aí começou a surgir fóruns de padronização da energia, da tecnologia. E hoje o principal fórum de padronização da tecnologia é o 3GPP. E aí é um fórum privado que vem definindo as tecnologias, vem definindo os próximos ciclos de tecnologia. Então, voltando, existe fóruns, fóruns para padronização da tecnologia junto bando de engenheiro das empresas de tecnologia, Ericsson, Huawei, Nokia, tudo mais. Samsung, eles se juntam e falam: cara, vamos inventar a nova versão, vamos definir o que vai ser o 4G. E eles padronizam o que vai ser o 4G. E aí, quando definir esse padrão, eles começam a produzir os equipamentos, e aí surge a tecnologia. Então a tecnologia no setor de telecomunicações, ela surge, a inovação tecnológica, é bem engraçado isso, ela surge a partir de processos comunitários quase, de todos os caras se juntam e desenvolvem a tecnologia. Não rola uma empresa desenvolvendo a tecnologia, não. Não foi empresa X que desenvolveu o 5G, foi um grupo de empresas do mundo todo organizadas no fórum chamado 3GPP que desenvolve a tecnologia. E aí eles padronizam, e aí todas as fabricantes do mundo vão produzir os equipamentos seguindo o mesmo padrão. Porque, por que que faz isso? É por conta disso que o teu celular que você compra na China, compra nos Estados Unidos, funciona aqui. O rádio que vende lá é o mesmo que funciona aqui. Isso é bom porque reduz os custos, porque você tem todo, digamos assim, todo o R&D, todo o Research and Development, ele é dividido por toda a comunidade. Antigamente, tu lembra quando tinha o CDMA e o SMP, GSM? E os, como é que tinha o CDMA? Tinha várias versões de tecnologia aqui em São Paulo. A Vivo tinha um CDMA e tinha o GSM. Então assim, Isso, isso de uns 15 anos para cá já padronizou. Então não tem o 5G de uma tecnologia, 5G do outro, é tudo 5G. Então essa padronização é feita, e aí não é ninguém que inventa o 5G, ele é padronizado globalmente.

Bruno Guimarães:Eu digo que 3GPP é como se fosse a FIFA do mundo de telecom, porque eles vão lá, criam as regras, padronizam, impedimento é assim, o VAR é assim, funciona dessa forma, e depois todo mundo tem que seguir as regras.

Thiago Salomão:Mas nesse caso, 3GPP cria regras novas e boas, né? Sinceramente, todas as novas regras da FIFA, aliás, grande parte delas, é verdade. Um abraço para quem criou o VAR.

Bruno Guimarães:Um abraço para FIFA, ou não, foi uma ajuda, mas enfim.

Carlos Manuel Baigorri:Mas então assim, então em breve, quando tiver o 6G, já estão discutindo a padronização do 6G. O 6G, no dia que lançou o 5G, já começou a padronização do 6G. E aí os caras chegam e juntam assim: e aí, quem vai fazer no 6G agora? Pô, bora fazer chamada holográfica. Ah, beleza. Aí começa a dizer como é que é a chamada holográfica, "Não, vamos fazer censuramento por meio..." Aí começa as viagens, aí os caras começam a inventar, pensar em casos de uso e tal, e desenvolve a tecnologia. Mas é um processo colaborativo, digamos assim.

Bruno Guimarães:Eu vou aproveitar e fazer uma pergunta então sobre espectro, porque é uma pergunta que a gente até recebeu aqui de outras pessoas que fazem parte não só do M3 Club, mas lá do Last Mile, falando de frequência mid-band para regionais, os próximos leilões, porque a gente sabe que a gente tem 700 MHz, que acabou de ser um sucesso, né? O que que vem pela frente ainda de espectro? Porque tem ainda essa discussão do que que vai para os regionais, o que que ficou para as grandes operadoras, porque querendo ou não isso apoia também nesse tema da competitividade para esses grandes tiozinhos aí que cresceram e estão chegando na móvel, né?

Thiago Salomão:E é até um ponto que é na linha da pergunta, da questão que o Cadu trouxe, né, que era até de quais empresas que poderiam participar, né? Ele até citou, né, a Unifiq só poderia participar comprando Santa Catarina e Rio Grande do Sul anos atrás. Mas como ela comprou os direitos de comprar essa frequência via liga, né, do Paraná, ela pôde participar. E as grandes telas disseram que não era justo.

Carlos Manuel Baigorri:Enfim, essa é a treta do leilão que acabou de acontecer. E aí, esse aí, só para fazer o gancho da tua pergunta com a do Bruno, que acontece, a gente fez um leilão que a faixa de 700 MHz é uma outra faixa, filé mignon, que é o filé mignon. Ele é o filé mignon do 4G, porque qual antiguidade. Quando a gente, quando o Brisanete, esses caras entraram no leilão do 5G e compraram a faixa, eles ficaram com uma faixa que só dá para fazer 5G. Só que esses caras, imagina numa cidade do interior que você constrói uma rede, só tem 5G, e o cara que só tem um celular 4G, esse cliente você não pode capturar, entendeu? Então, e por questões técnicas também, eles ficavam muito com uma, eles ficavam muito fracos. Então a gente pegou uma faixa do 700 MHz e fizemos um leilão. Eles disseram, na primeira rodada rodada só esses pequenos podem participar. Se eles não tiverem bala na agulha, numa segunda rodada podem participar outros, e numa terceira rodada pode participar os grandões. E aí foi isso aí. Só que acontece, e aí a dinâmica do, do, a confusão que o Cadu menciona aqui do Paraná, é quando você, a gente vendeu em lotes regionais. Então o cara que comprou essa faixa do 5G no Nordeste, ele podia bidar numa primeira rodada neste filé mignon no Nordeste. Beleza, então você podia espelhar na tua área. Só que acontece, o cara que comprou Paraná, que é a Liga, que ele menciona, que era, que o Tanuri era o dono da Liga, agora tá vendendo, ele, ele não ia, ele já tava se vendendo, ele já tinha vendido a operação dele no Paraná para Unifiq. Beleza, só que o Tanuri também comprou o 5G em São Paulo, no estado de São Paulo, e toda a região norte. E aí, antes do leilão, ele vendeu esse, esse, esse, esse direito do espectro, né, para um consórcio de empresas de provedores do norte. Só que esses caras não tinham bala na agulha para comprar o Filet Mignon. E aí ficou todo mundo esperando. Bom, esses caras não vão comprar o Filet Mignon, o cara que pode comprar na primeira rodada sem disputa não vai aparecer, e aí vai cair para a gente disputar. Só que aqui que o Fabiano da Unifique, o CEO da Unifique, fez, foi lá nos cara que não tinha bala na agulha e falou assim: eu te dou, eu boto a grana aqui. Ele botou a grana e aí agora ele, na verdade, que ele comprou, ele comprou o ticket para poder entrar no leilão na primeira rodada, disputar com ninguém esse filé mignon. E ele comprou filé mignon em São Paulo e no Norte. Só que agora é um mega desafio, porque assim, esses leilões tu não compra e senta em cima. Tu compra e tem que construir rede. Agora vai ter que construir rede no Norte, São Paulo, um monte de lugar. Então assim, esses leilões aí, assim, essa é uma coisa que o Brasil é referência também. Por exemplo, o leilão do 5G na Itália foi vendido por 20 bilhões de euros. Cara, é muita grana, 20 bilhões de euros. As empresas, a TIM, a Telecom Italia, dona da TIM, e os concorrentes gastaram 20 bilhões de euros. E aí no dia seguinte deram um checão para o governo Governo, e no dia seguinte não tinha dinheiro para construir a rede, porque todo o dinheiro foi para o governo. Que que a gente faz aqui no Brasil? Fala assim, cara, tu não precisa me pagar, vai pagar com rede, tu vai pagar bem pouquinho, que é um valor lá do preço administrativo, e o resto vai pagar com rede. Tu tem aqui as metas de cobertura. Ah, pô, aí tu confia na conversa desses caras? E aí o cara chega lá depois, ah, não deu, foi mal. Mas assim, apresenta garantia financeira, e à medida que ele vai cumprindo isso, a gente vai devolvendo as garantias financeiras para ele. Carta fiança. Aí a gente tem uma gestão de garantias financeiras, dá uma grana para os bancos que fica emitindo essas garantias financeiras só para, só para fazer esse, só para segurar os caras pelos bagos.

Bruno Guimarães:E eu acho que é bem nessa linha que a gente pode questionar e entrar talvez no tema da Oi, porque assim, vocês já tiveram, né, o Brasil teve essa experiência da queda da Oi, que é um problema que vem desde 2016, querendo ou não. Na época foi o maior processo de recuperação judicial do mercado, pois acho que a própria Odebrecht acabou passando um pouquinho mais pra frente, né? Mas foi, enfim, uma recuperação judicial gigantesca. E aí, de um lado, a gente tem aqui: poxa, se a gente não aumenta a competitividade, fica tudo na mão dos grandes, vira um pequeno oligopólio, o consumidor acaba não se beneficiando. De outro, tem uma abertura de mercado pra novos entrantes, mas tem esse receio de: será que vai ser construído? Será que vai chegar até o final? Será que esse modelo de negócio para de pé? A gente já teve o caso Oi, a gente sabe no que que deu. Provavelmente a Anatel já tem muitos aprendizados desse caso, né? Então eu queria que contasse um pouquinho sobre essa temática da Oi, mas também numa pegada de, bom, e o que que a gente aprendeu que a gente vai fazer de diferente agora para esses próximos leilões, para que não ocorra mais um caso Oi no mercado brasileiro que gera aí toda essa celeuma, né?

Carlos Manuel Baigorri:Cara, assim, o caso Oi, ele é um tipo que nem aqueles desastres de avião que não tem um elemento só que causou ele, ele é multifatorial, são várias coisas. Tem coisas eu fazer, eu já comecei a fazer o meia-culpa que é do lado do Estado, né? O Estado criou uma série de obrigações para Oi prestar. Então ela era uma operadora com um monte de obrigações e tinha que competir com um monte de gente que não tinha obrigação nenhuma. Então assim, grande parte da perda de mercado da Oi, da incapacidade dela se manter competitiva, foi uma carga de obrigações incompatível com as demandas da própria sociedade. A Oi tinha obrigação de manter um monte de orelhão funcionando quando ninguém mais usava orelhão, mas ela tinha obrigação de manter orelhão. Então assim, o Estado demorou e a Anatel demorou para tirar algumas obrigações que já não faziam mais sentido. Então isso foi um problema que tá na nossa conta. Teve problemas de gestão também, tem problemas de gestão do tipo assim, pelo que eu me lembro, comprou-se a Brasil Telecom sem fazer due diligence. Então você comprou-se a Brasil Telecom sem fazer due diligence, quando fui a ver tinha um passivo judicial gigantesco. Teve aquela história lá do Rio Forte, lembra que eles fizeram operação com o Brasil Telecom que era um cara, um cara do Moçambique que era o presidente da Oi. E aí depois descobriram que tinha dado um golpe com aquele banco português, Rio Forte. E aí deu um calote de 5 bi. Então assim, teve problemas desse tipo também, enfim. E teve problemas também estratégicos, né? Tipo assim, a Oi demorou muito para entrar na operação móvel. Então assim, eles foram perdendo oportunidade de entrar na operação celular. Então eles apostaram muito que iam conseguir tirar dinheiro da rede telefônica durante muito tempo. Porque durante muito tempo é a questão do gato gordo, né? O cara tá tão acostumado a ficar naquele monopólio que ele não vê, ele não vê o competidor chegando, ele não vê as oportunidades, vai perdendo oportunidades. Quando ele vê, o mercado já foi, e aí já é tarde demais. Então teve problemas de todos os lados. Agora sim, o que que eu acho que é o grande aprendizado que fica da Oi? Não dá para você confiar a conectividade de um país do tamanho do Brasil em poucos players. É a capilaridade, a diversidade, a competição, cara. Eu acho que assim, um grande consenso, grande aprendizado disso tudo é: o único driver de inovação, prestação de serviço, qualidade, acessibilidade e tal é a concorrência. A concorrência é o único driver disso, não é a vontade estatal, não é a regra que você bota no papel, não é a marreta que você bate na cabeça das empresas, cara, às vezes não cumpre a regra que você inventou. Que passou. Não é, não é o voluntarismo do Estado que vai fazer isso, mas sim a concorrência e a vontade do tiozinho da lança milionário. Essa que faz a diferença. Então essa vontade do tiozinho ser milionário, e vários deles ficaram milionários, que efetivamente faz o cara comprar. Eu já escutei casos de provedor que o cara vendeu, vendeu a Kombi dele, ele tinha uma Kombi, vendeu a Kombi, saiu comprando fibra ótica, começou a construir. Então assim, é esse tipo de disposição ao risco, ao empreendedorismo, que efetivamente transformou o mercado brasileiro. Então, quando eu falo assim, porra, Anatel, tu deve ter maior felicidade, maior orgulho de ter feito essa transformação em 15 anos, saído de um mercado que 3 empresas tinham 94% do mercado, a velocidade média era de 1 mega e o preço era de R$100, para um mercado 15 anos depois que o ticket médio é R$80, a velocidade média 500 mega, e você tem 19 mil caras, sendo que os 10 maiores têm 40% do mercado. Cara, isso não foi uma vitória da Anatel. É claro que a gente criou as condições, mas quem fez isso foram os tiozinhos que tomaram risco, pegaram o dinheiro deles, construíram a rede, então tocando o negócio. Então foi o empresário brasileiro que comprou o risco, construiu os 19 mil tiozinhos da lan house que construíram essa rede, sacou?

Thiago Salomão:Então, pena que as lan houses não estão mais aqui para evidenciar isso.

Carlos Manuel Baigorri:Cybercafé, lan house. Mas foi isso, os caras construíram. E é isso aí, só que olha como é maravilhoso o livre mercado, né? Porque acontece, os tiozinho construíram isso, mas nunca ninguém imaginou que essa base de conectividade, esse monte de fibra óptica pelo Brasil afora, ia ser na verdade a base de um ecossistema de inovação de tecnologia que viabilizou a tua empresa aí. Que eu nem sabia que tu tinha essa empresa de Wi-Fi.

Bruno Guimarães:Totalmente.

Carlos Manuel Baigorri:Porque se não fosse isso, o negócio dele não existia. Então quantos outros garotões do Wi-Fi surgiram em cima dos tiozinho da lan house, entendeu?

Thiago Salomão:Agora pode mudar na lojinha então. Agora esses garotões do Wi-Fi, garotões do Wi-Fi, garotão do Wi-Fi.

Carlos Manuel Baigorri:Bora, garotão!

Thiago Salomão:Até um tema de filme adulto.

Bruno Guimarães:Aí não, aí não.

Thiago Salomão:Eu queria só entender um pouco melhor. A gente viu o desfecho da Oi.

Carlos Manuel Baigorri:Mas onde que fechou ainda? Oi tá aí.

Thiago Salomão:Ah não, é, mas bom, mas o desfecho, porque a gente viu no que deu. Mas onde a canoa começou a virar? Eu entendi que o Estado exigia muito da Oi, né? E até tava na pauta, né? Pô, se a Oi fosse cumprir o que ela tinha que cumprir, né, ia ter que tirar dinheiro da saúde, educação, enfim.

Carlos Manuel Baigorri:Ah não, isso que, isso aí que ele tá falando é porque assim, tinha um problema que era o seguinte: a Oi era uma, ela tinha um contrato de concessão, que nem tem um contrato de concessão de rodovia e tal, que é, a Oi tinha um contrato de concessão e ela tinha que manter, ela tinha que cobrir uma série de obrigações que não faziam mais sentido, tipo levar orelhão para casa das pessoas. Ela tinha que, a Oi tinha obrigação de levar telefone fixo para todo mundo com preço controlado e levar orelhão para casa das pessoas. Só que acontece, ninguém quer mais orelhão, ninguém mais tem telefone fixo. Então ela tinha obrigação de prestar um serviço que ninguém quer. Olha que surreal. Então o Estado por conta de um contrato que ela assinou com o Estado, tinha obrigação de prestar um serviço que ninguém mais quer. Esse negócio não vai dar certo, ela vai falar, e é tipo assim, é um buraco, né, que ela ia cavando, ela só ia cavando buraco, e deu no que deu. O que acontece, se a gente não tivesse feito, acabado com esse contrato de concessão, mudado a lei em 2019 para viabilizar o fim amigável desse contrato de concessão, esse contrato de concessão ele ia acabar vai acabar, final do ano passado, 31 de dezembro de 2025, e a gente ia ter que fazer uma nova licitação para encontrar uma nova Oi. Então imagina fazer um leilão para alguém prestar o serviço de telefone fixo no Brasil todo, com preço controlado, com obrigação de cobertura e obrigação de qualidade, sendo que para prestar esse serviço sem obrigação nenhuma custa R$400. Quem que ia bidar nesse leilão? Ninguém. Só que acontece, pela lei pré-2019, se não tivesse ninguém interessado em fazer O Estado teria que fazer isso. Aí tu imagina o Estado pegar a Telebrás, falar: Telebrás, agora tu vai voltar a ser o prestador de telefone público e orelhão. Back to the future, né? Você vai ser agora o prestador de telefone e orelhão para o resto, para sempre. E como é seu negócio não rentável, tu vai ter que botar dinheiro nisso, você vai ter que botar dinheiro nessa operação. É isso que o Cadu tá falando. Se a gente não tivesse encerrado essas concessões, hoje a gente tava discutindo da, de onde que a gente vai tirar? O problema é você entrevistar o Ministro da Fazenda aqui, perguntar: da onde você vai tirar dinheiro para continuar a operação de telefone público e de orelhão de telefone fixo na casa das pessoas? Aí, isso assim, cara, isso é uma bomba relógio, não faz sentido nenhum. E aí a gente teve o Congresso Nacional, o Executivo apoiou uma alteração da lei que permitia o fim dessas concessões, um fim amigável dessas concessões. E ontem eu assinei o último acordo da última concessão, que é a Sercontel lá de Londrina, para acabar com a última concessão. Então ontem a gente acabou com a última concessão. Então não tem mais nenhuma concessão. Elas saíram, basicamente o contrato se encerrou e acabou. E o Estado não tem mais obrigação de prestar o serviço.

Thiago Salomão:Então agora cortou-se totalmente o vínculo entre Estado e Oi.

Carlos Manuel Baigorri:Estado e Oi.

Thiago Salomão:Só, pessoal, a gente tá gravando no final de maio aqui, então, porque provavelmente esse episódio vai ao ar ao final de junho.

Carlos Manuel Baigorri:Então tá, hoje a Oi já é uma empresa completamente privada, e é isso, não existe mais nenhuma empresa de telecomunicações operando no regime de concessão. Todas as empresas hoje operam no regime de autorização, que é um, e é isso que é a beleza da lei. A lei, ela fala o seguinte, a Lei Geral de Telecomunicações, ela fala assim: no regime de autorização, a liberdade é a regra. Então assim, é um regime onde aqui você pode fazer o que você quiser, a não ser que seja proibido. A liberdade é a regra.

Thiago Salomão:Eu vou fazer uma pergunta, eu não sei se você vai poder responder, mas fiquei muito curioso com sua opinião. Aí, assim, você não é um analista de investimentos, mas tá muito ligado ao setor de telecomunicações. E a Oi, ao longo dessas idas e vindas, desde são 10 anos de RJ, mas muita gente apostou na volta da Oi. A gente via investidor de pessoa física, sardinha toda, sardinha. Mas não só as sardinhas, pô. A gente teve, vai lembrar um nome aí que chegou até ter manchete, o André Jacuzzi, talvez um dos maiores. Eu não digo nem investidor, porque o cara é trader, o cara é aquele cara que fareja oportunidade.

Carlos Manuel Baigorri:Eu falei para o Molica que ele tava viajando nisso aí.

Thiago Salomão:É mesmo?

Carlos Manuel Baigorri:Falei.

Thiago Salomão:Pô, então conta isso aí, porque era isso que eu—

Bruno Guimarães:conta para a gente, essa é boa.

Thiago Salomão:Vendo essa explicação, eu fico pensando, pô, mas qual era a chance da Oi Nunca teve, nunca teve, nunca teve, nunca teve. O que que foi esse devaneio? Não precisa fulanizar no Molica, no Molica, no Jakurski, enfim. Mas o que que foi esse devaneio do mercado de acreditar que a Oi podia, onde ela podia dar certo, e o mercado se equivocou?

Carlos Manuel Baigorri:Cara, eu acho que se acreditava que na hora que fosse vender os ativos, a parte da UPI, cara, não sei, realmente não sei. Eu acho que assim, todo mundo que se aproximou de Oi e tentou fazer negócio com a Oi hoje se arrepende grandiosamente disso, entendeu? Porque assim, não era só um problema de business mesmo, mas um problema assim de até de transparência, sabe, cara? Eu lembro, teve uma, uma UPI móvel, teve uma UPI que eles fizeram. O PI é quando você vende os pedaços no processo de recuperação judicial. Fizeram uma UPI de torres, pegaram as torres da Oi, a Oi falou: olha, eu tenho 7 mil torres aqui. Beleza, vamos vender as torres. Aí fizeram tal, venderam, foram vender as torres, o torres. A galera que comprou as torres depois foi bater lá na Anatel, falou assim: cara, eu comprei essas torres, mas tem lugar que a torre é um poste, tem lugar que a torre é um orelhão, e o cara tá dizendo que é torre. Eu falei: cara, mas tu não fez o do Dillis para ver se as torres eram torres? Não, mas não dava porque são 7 mil, eu não consegui visitar todos os 7 mil. Então eu acreditei nos documentos. Eu falei: bom, cara, esse é o problema. Assim, não tinha informação, a própria Oi não tinha, era tipo uma empresa navegando às cegas, entendeu? Entendeu? Então assim, cara, é muito complexo. Por exemplo, eu lembro que teve o pessoal que comprou o cobre, falou: vamos comprar o cobre da Oi, vale sei lá quanto, vamos lá tirar o cobre. Chegou lá no Rio de Janeiro, não tinha mais cobre nenhum, os cracudos já tinham tirado tudo, entendeu?

Thiago Salomão:Caramba, essa torre é Porsche, parece Coca-Cola.

Carlos Manuel Baigorri:Então é isso, teve torre que já tinha caído, tinha torre que a Oi já tinha vendido para outro cara. Então assim, Tinha algumas que era torre mesmo, mas assim, teve de tudo. Então assim, ninguém. E aí, o que que acontece? Isso só foi aumentando a lista dos credores, só foi aumentando os credores.

Thiago Salomão:E só disso aí eu fui lembrando, porque nessa época eu era, eu era chefe da redação do InfoMoney, e a gente fazia cobertura de bolsa o tempo todo, né? E aí, lá para 2017, foi, eu lembro muito dessa manchete, né, que foi quando chegou, eu tava procurando o nome dele aqui, o Zainel Bava, que era considerado o Messi das telecomunicações.

Carlos Manuel Baigorri:Eu lembro disso. Aí sei lá, 6 meses depois descobriram que ele tinha dado um calote de 5 bilhões de euros na empresa.

Thiago Salomão:Tem até, vale a leitura.

Carlos Manuel Baigorri:O cara tá foragido, algum rolê desse.

Bruno Guimarães:Esse foi o caso do Rio Forte.

Carlos Manuel Baigorri:É o caso do Rio Forte.

Thiago Salomão:A Consuelo Diegues escreveu uma reportagem sobre isso na Piauí, novembro de 2017. Quem quiser saber, Jogo Sujo na Oi.

Bruno Guimarães:Oi, Portugal Telecom, né?

Carlos Manuel Baigorri:Teve um erro, cara. Coitados, cara, da Portugal Telecom. Eles eram acionistas na Vivo, tinha 45, 55% na Vivo, era um joint venture com a Telefônica, Portugal Telecom, Telefônica. E aí eles saíram da Telefônica, venderam para os espanhóis a Vivo, venderam a Vivo para os espanhóis. Aí os espanhóis assumiram 100% da Vivo e pegaram essa grana e compraram a Oi. E aí fizeram a fusão Oi Brasil Telecom para ser uma empresa Lusitana, não, em todo lugar que você fala português. Logo depois se descobriu o golpe do negócio do Rio Forte e o papel da Oi. Tipo assim, essa operação, os caras saíram de uma operação redonda que era Vivo, foram para Oi, cara, foi muito prejuízo. Tanto que nem existe mais Portugal Telecom, mudaram o nome, agora é outro nome que eu não lembro mais.

Bruno Guimarães:Pensa numa má decisão de investimento, meu Deus.

Carlos Manuel Baigorri:Então assim, todo mundo, cara, que se meteu com Oi se deu mal. Eu não conheço, eu não conheço. E aí, cara, assim, só que aquela história, todo mundo sabe, né? Mas assim, pô, mas eu sou mais esperto. O problema do trouxa é achar que é mais esperto que os outros, entendeu?

Thiago Salomão:Aí assim, é que aquela, o mercado, ele te dá a opção de você, você tem muita facilidade de acessar qualquer ideia de investimento, seja ela boa ou ruim, o acesso é o mesmo, né? 4 letras e um número. Eu, pum, comprou ação. Então essa acessibilidade às vezes te faz entrar umas canoas furadas. Você vê, nossa, não é que você vê, talvez por potencial de retorno que ela pode ter, né, comparado ao que ela já valeu um dia, que ela tá valendo hoje. Até meio aquele golpe de gênio, né, que você acertar, eu sou um gênio. Bom, espero que a história esqueça isso.

Carlos Manuel Baigorri:É, mas é isso que acontece, é esse que é o problema. Muita gente entra no negócio sem vender qualquer um negócio, né? Mas não vou comprar Oi porque é um papel. Tô vendo Oi BR3 aqui no gráfico, ele tá aqui, e o booleano é sei lá o quê, cara, chega lá na hora.

Thiago Salomão:Mas aí é o ponto que aí o que que eu defendo dos tomadores de risco, né? Acho que decisão errada de compra ou venda de ativo acontece, da vida acontece. Depois você só vai saber se errou depois. Acho que o erro não tá na decisão de comprar ou vender, tá no tamanho da posição. Então, porra, se você entrou numa posição dessa sabendo que era um risco grande, então você botou 1, 2, 5% do seu patrimônio, tudo bem, gestão de risco, né? Exato. O problema é que botou, sei lá, 25, 30, 40% do patrimônio nisso. Aí sim, esse cara pedir para— aí não sei se ele tá aqui para contar história ainda.

Carlos Manuel Baigorri:Mas assim, cara, eu tô dizendo assim, generalizando, que todo mundo que mexeu com isso deu mal. Mas alguém deve ter se dado bem, porque assim Quando um ganha, o outro perde, né? Quem tinha opção de venda se deu bem.

Thiago Salomão:E nessa, aqui nesse inteirinho, eu tava, fui pesquisar o nome técnico de orelhão. Pô, me arrependi. É TUP, que é o telefone de uso público.

Carlos Manuel Baigorri:É, TUP é o telefone de uso público.

Thiago Salomão:Por isso que orelhão é mais legal mesmo. É que para explicar para um gringo é melhor falar que é um telefone de uso público.

Bruno Guimarães:Ô, Salomão, eu queria puxar para falar de um tiozinho que é bem importante aí nesse mercado, que ele chegou há uns 3 anos no Brasil, que tá crescendo rápido, que é um tiozinho chamado Elon Musk. Opa, esse aí é o Elon Musk, esse cara tá crescendo bem, ele chegou em 3 anos no Brasil, já é hoje a 10ª maior operação em número de assinantes, passou de 1 milhão de assinantes no Brasil com Starlink.

Thiago Salomão:O Brasil já é o maior mercado de Starlink?

Carlos Manuel Baigorri:Segundo maior mercado, que cresce mais rápido.

Bruno Guimarães:Muito rápido.

Carlos Manuel Baigorri:Estados Unidos, então, maior já fora do, fora dos Estados Unidos, a gente é maior.

Bruno Guimarães:E, e, Baigorre, a gente sabe que o mercado fala muito sobre isso, pô, Starlink vai acabar com os provedores, com as operadoras, o mercado vai ser engolido pelo Elon Musk. Não tem só Starlink, existem outras empresas de rede satelital. Acho que vale contar um pouquinho para gente, né, sobre os impactos da Starlink, o que que vocês ilumbram de futuro, tem aí muitas áreas de sombra ainda no mercado brasileiro, e até desse dicionário desse episódio, que tá do caramba, para não falar outra coisa, essa rede satelital, né?

Thiago Salomão:Onde é que ela entra nisso aí, né?

Bruno Guimarães:Como é que funciona esse negócio?

Thiago Salomão:Ele compete com quem aqui?

Carlos Manuel Baigorri:Vou falar só, vou começar dessa parte. O que que é uma rede satelital, cara? Imagina que ele pegou um monte de satélite, um monte desses negocinho, roteador Wi-Fi, e colocou em órbita. Então tá jogando um monte mesmo, milhares, milhares e milhares e milhares. Ele tem toda a cadeia de lançamento, ele tem uns foguetes dele, os Falcon, as outras gerações. Ele lança todo dia, bota um monte de satélites, né, que são os roteadores. Tô dizendo, mas para galera entender, joga eles em órbita, deixa ele girando em torno da Terra, eles ficam girando em torno da Terra, alguns caem, outros saem de órbita, mas ele tá sempre repondo. Então ele tá o tempo todo jogando isso e do lado do céu ele consegue trazer internet aqui para baixo. É claro que você tem que ter uma antena para receber. Hoje a Starlink é antena, uma antena que você compra, que você coloca. Todo mundo já deve ter visto na internet, né? Você tem uma antena desse tamanhozinho, que é a mini, que você bota na mochila. Você tem uma grandona, você tem uma profissional. Mas enfim, essa é uma antena que você coloca, que nem antena da Sky, da Oi, da Oi, da tele, da tela parabólica, só que ela é bem menorzinha. Antena. E ela é muito fácil de usar, porque das antigas você tinha que contratar um antenista para ir na tua casa fazer antena funcionar. Hoje não, com esse sistema que ele tem é uma constelação, ou seja, são vários, são milhares de satélites girando em torno da Terra. Então a gente chama isso de uma constelação de satélites que eles estão girando. Quando você coloca a sua antena na sua casa, na sua fazenda, em cima do seu, da capota do seu carro, Tem um monte de satélite passando, a sua antena consegue identificar um e comunicar com ele. Quando comunica com ele, esse te traz a internet. Basicamente isso. Tem umas complicações técnicas por trás, mas é basicamente isso que funciona. Então, para galera que tá numa região onde não tem, onde o tiozinho da lan house chegou, nem o garotão do Wi-Fi chegou, chegou um Elon Musk. Aí tu entra lá no site dele, faz o pedido da antena, chega na tua casa no correio, compra, debita no cartão de crédito, Tu abre a caixa, já eu fiz isso quando o Elon Musk vem no Brasil, eu tava lá e eu fiz a primeira instalação de Starlink no Brasil, que ninguém queria mexer. Abre a caixa, tu bota ela na grama, ela tem que ter visão, ela tem que ter o céu, né? Você bota ela, um cabo vai na tomada, o outro cabo vai no tipo num negocinho de Wi-Fi, no modemzinho Wi-Fi, pronto, tá funcionando Wi-Fi. Aí tem lá um QR code, você lê tu entra no Wi-Fi 300 megabits por segundo.

Thiago Salomão:Pô, ele respondeu a pergunta que eu ia ficar com vergonha de fazer.

Bruno Guimarães:Vale a pena.

Thiago Salomão:Porque eu tô querendo agora nessa vida de podcaster ambulante, eu queria montar meu kit para entrar ao vivo em qualquer lugar. Vou perguntar para ele se vale a pena contratar uma Starlink aí, mano.

Bruno Guimarães:Não sei se patrocinar isso.

Carlos Manuel Baigorri:Só tem uma preocupação, tu tem que estar, e eu falei, talvez passei rápido, você tem que estar no lugar que dá para ver o céu, porque o satélite está lá no céu. E isso é uma coisa importante. Pera aí, que lugar que não dá para ver o céu aqui dentro, por exemplo?

Thiago Salomão:Ah, não, tá, não, entendeu?

Carlos Manuel Baigorri:Se você botar uma Starlink aqui, ela não vai funcionar. E essa é a grande— isso é importante porque, Salomão, porque até que a terceira geração do satélite, porque a Starlink, eles começaram a lançar satélites em gerações. A primeira geração tinha uma velocidade, ele vai evoluindo a tecnologia. A terceira geração, ela já permite um negócio que chama Direct to Device. Que o pessoal tá chamando do celular do Elon Musk, que é o quê? Tu não precisa ter essa antenazona que eu te falei. Antena do teu celular já funciona. Então tu vai conseguir conectar o teu celular direto no satélite. Então assim, aí você assim, pô, mas aí vai destruir o negócio da Vivo, da Claro, da TIM, vai essa antena, vai quebrar os provedores, tiozinho da lan house, os garotão do Wi-Fi. Cara, não vai. Aí vou te explicar por quê. Porque aonde tem fibra ótica, a fibra ótica ganha do satélite, ganha da constelação, ganha na qualidade, ganha no preço. Então assim, mas e no futuro? Futuro, a Deus pertence, um tempo que vai ser o futuro. Mas enfim, hoje é uma conexão da Starlink, ela vai ter um preço. Depois tu vê aí quanto que é, para não errar os números, pessoal fala que eu tô fazendo merchan da Starlink, mas assim, a Starlink ela é significativamente mais cara que uma conexão de fibra. Fibra. E a conexão de fibra é significativamente melhor em termos de qualidade, sobre todos os ângulos de qualidade que você pode ter, velocidade, latência, jitter, enfim, ela é melhor. Então onde tem fibra, a fibra ganha. Mas o que acontece, tem muito lugar no Brasil, Rodrigo Salomão, que a fibra não chega, área rural, no meio da Amazônia, no meio do Pantanal. Então nesses lugares, que é muito lugar que tem assim no Brasil, Ah, a Starlink é imbatível.

Thiago Salomão:Achei aqui, ó. Hoje no Brasil, a própria Starlink anuncia planos a partir de R$149, R$179 por mês, dependendo da região, oferta, e kits como Starlink Mini aparecem promoções a partir de R$499 e R$799. Mas esses valores mudam por região, promoção e tipo de plano.

Carlos Manuel Baigorri:Então, o número inicial que é a compra do equipamento, entendeu?

Thiago Salomão:É, tem que até ele dá um passo a passo aqui, enfim. Mas também não vou ficar fazendo, se quiser patrocina aí o Market Maker, faz até um podcast.

Carlos Manuel Baigorri:Bota uma antena aqui em cima, não, até com o céu ali, tá aí uma boa ideia, via satélite.

Thiago Salomão:É, então via satélite pode ser até com você aí, a gente entrevista aqui numa boa, a gente trata bem nossos convidados.

Carlos Manuel Baigorri:Mas enfim, aí voltando aqui, aí esse é no mercado de banda larga fixa, o cara não vai competir. Quando esses satélites comunicarem direto com o celular, tu vai estar no meio da roça, tu vai lá perto da minha cidade, lá na Chapada dos Veadeiros, sem acesso ao 4G ou 5G, tu vai falar no telefone que ele vai conectar direto no satélite. Isso vai acabar com o negócio da Vivo, da Claro, da TIM? De jeito nenhum. Isso vai ser um complementar, porque aqui onde a gente está conversando agora, que não tem acesso ao satélite, a galera tá aqui mexendo no 5G, postando foto e tudo mais. Se tivesse só conexão Starlink, não ia ter acesso. Então, assim, são serviços que vão se complementar. Onde um funciona, onde tem o serviço que a gente chama terrestre, seja da Vivo, da Claro, da TIM ou de um provedor local, ou de uma internet fibrada, ela sempre vai ganhar do satelital. A satelital é imbatível onde não tem ninguém, onde não tem nada, ela é a melhor opção que tem. E existem outras alternativas que ainda não estão comerciais, mas que a gente já autorizou. A gente autorizou diversas, todas as constelações de baixa órbita, todas as constelações que existem no mundo, elas têm autorização para funcionar no Brasil. Então assim, porque o nosso mercado, o nosso mercado, ele é pautado, a nossa regulação é pautada por não ter barreira entrada. Chegou, pediu, levou, pode autorizar, pode operar no Brasil.

Thiago Salomão:Eu fiquei só com uma dúvida nesse assunto: soberania.

Carlos Manuel Baigorri:Soberania.

Thiago Salomão:É assim, quem garante o acesso caso tenha uma crise geopolítica aí, né? A gente sabe que, pô, a gente tá falando do Elon Musk, o Elon Musk é dono do X, o antigo Twitter. Twitter chegou a ficar fora do ar aqui no Brasil.

Carlos Manuel Baigorri:Sabe quem foi? A gente que tirou do ar, né?

Bruno Guimarães:Tá falando com o homem aqui que tirou.

Thiago Salomão:Mas você foi o don't shoot the messenger, né? Não era eu, hein?

Bruno Guimarães:Só cumpri ordens.

Thiago Salomão:Mas podemos falar desses dois assuntos então, né? Porque uma coisa está relacionada à outra. O primeiro, esse episódio, né, Twitter ficou fora do ar, né? Não foi, ficou fora do ar por um incidente, foi porque o STF mandou ficar fora do ar, né? Enfim, como é que essas coisas se conectam, né? O trabalho da Anatel, tirar uma rede social do ar, o serviço da Starlink, né, já que tá tudo conectado. Enfim, como é que fica essa questão de soberania?

Carlos Manuel Baigorri:Então esse é um assunto extremamente interessante quando a gente fala sobre isso, porque eu falei, eu dei uma visão extremamente bonita, linda, romântica do papel da Starlink no Brasil. E de fato isso é verdade. A Starlink no Brasil ela resolveu um problema que a gente não conseguiria resolver, a gente não tinha perspectiva de resolver. Levar conectividade para o interior do interior do interior, cara, todo território, todo território nacional, a gente nunca ia conseguir fazer isso, nem com 3G, nem 4G, com 5G, com nada, só com satélite. Satélite. E o cara, a Starlink, tem uma solução com cobertura nacional, acessível e de qualidade. Ponto. Isso é indiscutível. Só que isso traz questões de soberania. Aí vou te falar porque esse, a parte, digamos assim, o downside da Starlink, ela não acontece no contexto doméstico, ela acontece no contexto internacional. E aí, como é que isso acontece, Salomão? Pro Brasil não é tanto problema, porque o que acontece, a Starlink para funcionar no Brasil ela tem que ter o que a gente chama de estações terrenas ou gateways. É tipo um lugar onde tem um monte de antena que faz o sistema da Starlink funcionar. Se a Starlink, por exemplo, decidir que não vai cumprir uma decisão judicial ou não vai pagar imposto, ou não vai, tipo assim, falar: tô me lixando para legislação, para regra brasileira, vou continuar prestando serviço aqui, não quero nem saber. A gente consegue hoje inviabilizar a operação da Starlink em grande medida. A gente vai nessas, a gente iria nessas estações terrenas, que são 24, elas são licenciadas, apreende todos os equipamentos, chuta a porta, quebra tudo e para de funcionar. Então assim, estão chegando cabos de fibra óptica, tem que ter sustentável para dar esse momento. Assim, a rede ela não é 100% satelital, ela tem elementos em solo que a gente consegue ter algum controle sobre o funcionamento dessa rede no Brasil. Isso aí é superado. Por que que tem esses elementos em solo? Porque o Brasil é um país muito grande. Países muito pequenos, ela não precisa fazer isso. Então, por exemplo, no Suriname, a Starlink não tem autorização para funcionar no Suriname, mas se você for lá, vem aqui no Brasil comprar uma antena da Starlink e levar ao Suriname, funciona lá no Suriname. E o governo do Suriname não tem nada que ele possa fazer, porque não tem nenhuma estação da Starlink no Suriname. E a Starlink presta serviço lá do mesmo jeito. E aí isso é um problema de soberania que acontece em âmbito global. Por quê? É porque o global— até fazer o meu merchan, que eu sou candidato para uma vaga da Agência de Telecom da ONU, a UIT. E aí o papel dela, eu sou candidato do Brasil a uma vaga, número 2, secretário-geral adjunto da Agência de Telecom da ONU, chama UIT, União Internacional de Telecomunicações, da ONU. Anatel Global. Eu sou candidato a ser o secretário-geral adjunto lá. Caramba! O Brasil indicou meu nome, enfim. Aí o que acontece?

Thiago Salomão:Não, pera, eu fiquei curioso. O que que isso representa? Você vai ter que sair da Anatel?

Carlos Manuel Baigorri:Não, é após o fim do meu mandato. Meu mandato acaba agora dia 4 de novembro e a eleição lá é dia 11 de novembro. Aí se eu ganhar, vou assumir lá.

Thiago Salomão:Caramba!

Carlos Manuel Baigorri:E aí o Itamaraty, governo brasileiro, tá apoiando.

Thiago Salomão:Então pra você, eleição mais esperada do ano já.

Bruno Guimarães:É em novembro.

Thiago Salomão:É em novembro.

Carlos Manuel Baigorri:Eu tô pedindo voto aí, viajando o mundo com apoio do Ministério de Relações Exteriores, pedindo voto e tentando ganhar. Mas o que que é o papel da UIT? Por que que eu fiz esse merchan? Porque a UIT, ela é como se fosse— porque tem várias coisas em telecom que são regras globais. Por exemplo, satélite. Pô, de quem? De a órbita do satélite, onde está girando aquele negócio, os satélites da Starlink, aquilo não é do Brasil, não é da China, não é dos Estados Unidos, é um ativo global que precisa ser utilizado respeitado por todos os países de uma forma coordenada. É tipo os mares. Então você tem um tratado global, você tem um tratado internacional para uso de águas internacionais, você tem um tratado global para direitos humanos, você tem um tratado global para telecomunicações, que é o que deu origem ao ITU. Isso surgiu mais, é mais antigo que 1853, é das antigas. Começou com telégrafo, padronizando conexão de telégrafo para o telégrafo de um país atravessar para o tudo mais. Mas enfim, e aí um dos papéis da UIT é organizar o uso das órbitas satelitais. Beleza. E aí o que acontece? Pelo tratado internacional, quando você tem um satélite lá no espaço e ele quer comunicar com alguma coisa em terra, no chão, aqui entre nós, o país aonde esse elemento terreno tá precisa autorizar para você ter uma comunicação. Então assim, se um satélite da Starlink quer falar com alguém no Brasil, o governo brasileiro tem que autorizar essa comunicação por meio de uma outorga, uma licença, e a Starlink tem que observar isso em todos os países, é uma lei internacional. Beleza, beleza, só que acontece, em alguns momentos, por motivos dos mais diversos, geralmente políticos, essa regra não é cumprida. E aí, por exemplo, na Ucrânia, isso deu notícia lá, a Starlink começou a funcionar na Ucrânia, Ucrânia, ou quer dizer, eles desligou da Ucrânia. Mas por exemplo, tem um caso concreto de que a Starlink funciona. Eu falei o caso Suriname, Starlink funciona no Suriname e o Suriname não autorizou, e o Suriname não tem o que fazer. O Starlink funciona, há um processo no qual se demonstrou que a Starlink funciona no Irã. E aí, o que que o Irã faz? Como é que tira Starlink do ar? Então assim, existe hoje um debate de soberania de fato, que não é um debate local, é um debate global. E o Brasil é um dos principais vocais nisso, dizendo: cara, não adianta a gente ter um tratado internacional com um monte de regra se quem não cumprir a regra não sofre sanção nenhuma. Então assim, senão isso não é regra, senão isso é boa prática, guidelines, sei lá o que que é isso, entendeu? Então assim, então tem uma discussão internacional. E outra ainda: se essas órbitas são de todos os países Pô, bora fazer o hashi entre os países. Agora, se você tem 2 ou 3 países que conseguem explorar esse ativo que é comum a todo mundo, o cara tá lá jogando centenas, dezenas de milhares de satélites. Na hora que o Brasil, a Índia ou outro país tiver condições de usar isso, já não tem mais espaço porque é limitado. Então tem uma discussão global de uso razoável, sustentável e equitativo desse recurso que é de todo mundo. É tipo, tu chega assim, até o primeiro a chegar na praia, a praia é de todo mundo, a praia é pública, mas tu é o primeiro a chegar, chega lá mais cedo, tu bota cadeira em toda praia. Pô, não é justo, eu cheguei mais tarde, não vou poder usar praia. É mais ou menos isso. E o Brasil é muito vocal nisso, dizendo: oitê, vocês têm que resolver esse bagulho, entendeu?

Thiago Salomão:Mas e aí, como é que resolve isso aí, cara? Vai ter que sentar, pergunta. Então imagina numa mesa ali para sentar, não, bota lá então o responsável ali pelo Irã, Aí pega o presidente da Rússia lá, né?

Carlos Manuel Baigorri:Então, só uma galera do bem aí, né? Mas assim, quando você mantém isso no âmbito técnico, você consegue. E aí, e aí, já passou por isso alguns anos atrás, uma condição mais fácil, porque essas órbitas que a gente tá— por que que o Elon Musk tem que fazer uma, uma, como é que se diz, uma constelação de satélite? Por que ele tem que colocar um monte de satélites? Porque esses satélites, quando você olha para o céu, eles estão passando, passa um monte. Se você ver de noite, eles passam, eles passam brilhando em linha reta assim, tipo uma carreata. Isso é o que a gente chama de satélite não geoestacionário, ou satélite não geo. Que diabo é o geo então? Satélite geoestacionário é um satélite— olha, aula de física para galera aí que vai fazer o ENEM— satélite geoestacionário é um satélite que ele tá numa altura tal, 30.000 km de altura, e ele gira na mesma velocidade da rotação da Terra. Então, para nós, orelha seca que tá aqui embaixo, a gente olha para cima, o satélite tá parado lá no alto porque ele tá girando na mesma velocidade da rotação da Terra. Então ele é como se fosse um Wi-Fi lá alto, 30.000 km de altura no céu. E esses eram satélites que funcionavam antes. O satélite não geo, como ele tá mais baixo, ele precisa ficar girando para não cair, então ele tem que girar mais girar rápido, ele gira mais rápido que a Terra para não cair. E aí você tem que ter uma constelação. Só porque que eu tenho isso, Salomão e Bruno? Porque os satélites não geoestacionários, os satélites geoestacionários, também há muitos anos atrás, uns 30, 40 anos atrás, tinha essa mesma discussão. Os Estados Unidos, a Rússia começaram a ocupar um monte de posição nos satélites geoestacionários, e os outros países, você, ô, calma aí, isso não é É de todo mundo. E aí juntou técnicos, juntou os técnicos de telecomunicação do mundo todo no âmbito da UIT e falaram: bora fazer o Rashid. Quantos satélites cabem nesse bagulho aí? Ah, cabem, vou chutar os números aqui, cabem 100. Vou chutar outro número, cabem 400. Beleza, quantos países tem? Tem 200, cada um recebe um. Era tipo uma vaga de estacionamento, cada um recebe um. E os outros 200? Os outros 200 a gente vai botar para vender. E aí o que acontece? Pô, mas sei lá, A Namíbia ganhou uma vaga, mas a Namíbia nunca vai ocupar. Beleza, mas é da Namíbia. Se ela quiser vender, ela vende, ela pode alugar, ela pode vender, ela pode fazer o que quiser, mas o direito de propriedade foi dado. Então isso foi feito há décadas atrás com satélites geoestacionários, foi feito o Rashid. Mesmo gente que não conseguiu usar recebeu o seu quinhão, e aí faz o que quiser com seu quinhão.

Thiago Salomão:Então é isso que a gente tá falando, Elon Musk Terra é um país, então.

Carlos Manuel Baigorri:Mas pensando desse jeito, é, mas ele tem que vai receber o quinhão dele, entendeu? Vai lá e compra, ele vai lá e compra uma ilha lá, compra Tuvalu e fala, beleza, ele vai receber o quinhão de Tuvalu. Tuvalu é um país que tem lá o negócio dele e vende, entendeu? Aluga o espaço dele. E assim são. Então, se o que o Brasil tem falado nesses fóruns, nesse fórum internacional, é, cara, bora dividir isso de forma equitativa, isso não é só que sobrou para você usar. Vamos dividir entre todos nós. É mais ou menos isso. Mas assim, como é que divide isso? Porque quando eles ficavam parados era tipo uma vaga de estacionamento. E agora que eles ficam se mexendo, como é que divide? São tipo várias camadas assim. Tem uns de baixa óptica, de muito baixa óptica, de média óptica. Só que assim, eu sou economista, não sou engenheiro. Falei assim, cara, chama um monte de engenheiro, bota na sala, dá café, e os caras resolvem. Sei como é que divide, não sei. E depois, isso aqui eu não Eu penso nisso, entendeu?

Thiago Salomão:Não tem o risco de alguém jogar um satélite, ops, derrubei o seu, então derrubei o seu também, começa uma cascata, um efeito cascata, que nem naquele filme, já viu aquele filme Gravidade com a Sandra Bullock?

Carlos Manuel Baigorri:Começa o filme, começa isso, os caras estão tipo numa estação, são dois satélites de comunicação que batem, e aí quando bate gera um monte de debris, né, gera um monte de parafuso, só que um parafuso se mexendo a milhares de quilômetros por hora, ele começa a bater em outro satélite, vai cascateando, um efeito cascata que vai destruindo tudo. Então é mais ou menos isso das teorias do filme. Mas o que acontece, esse é um problema: à medida que você começa a ter mais e mais objetos em órbita, o risco sistêmico vai aumentando. Então a questão é o quão sustentável é isso? Então você tem um debate de uso sustentável desse recurso, que é, cara, quantos satélites vai colocar Isso, qual é o nível de risco sistêmico que a gente vai aceitar enquanto sociedade global? Então esse é um desafio. Quanto que a gente aceita colocar em cima? Eu vou colocar isso em cima até quando? Como é que a gente vai dividir esse, como a gente vai fazer o hash dessa grande constelação global? E basicamente isso, como que a gente vai garantir que todos os países possam utilizar e transacionar isso, transformar isso num ativo transacionável? E esse é o grande desafio da UIT, entendeu?

Bruno Guimarães:É como querer colocar um carro de Fórmula 1 enquanto a corrida tá rodando ali, guardando espaço. Uma hora vai dar problema, né?

Carlos Manuel Baigorri:É. E aí você tem toda uma gestão disso, porque assim, de como— aí tem um órgão da ONU, chama Copas Unosas, que ele faz o monitoramento disso para impedir que as paradas, que esses satélites batam. Então todos esses satélites, é engraçado, as pessoas sabem, ele tem um foguetinho lá, ele tem tipo uma tinha uma bobinazinha, e quando ele vai bater, o cara vai lá da base dele, tipo um controle remoto, e ativa, acelera ele um pouco, ele se desloca e o outro passa. Então isso eles chamam manobra, você tem que fazer manobras para evitar o choque. Só qual que é o problema? A vida útil de um satélite é o combustível que ele tem lá para fazer essas manobras. Quando acaba o combustível, você tem que tirar o satélite de órbita, porque ele começa a virar um risco, porque você não consegue mais manobrar ele. Então a última manobra é puxar ele para baixo minutos para ele começar a cair na atmosfera e explodir. E aí na atmosfera se desintegra. Ainda tem um debate, tipo assim, mas quando ele desintegra, lança um monte de elemento radioativo, metais pesados no planeta Terra. Caramba, é um assunto complexo, mano.

Thiago Salomão:Pô, agora tô me sentindo culpado de querer comprar uma Starlink.

Carlos Manuel Baigorri:Não, cara, pode usar.

Thiago Salomão:Ainda aproveita essa guerra geopolítica radioativa.

Carlos Manuel Baigorri:Mas é isso que eu tô te falando, quando Então você olha no contexto global, é um assunto mega complexo, geopolítico, soberania, blá blá blá. Mas quando você olha para o contexto local, cara, é isso aí que a gente tá fazendo junto com uma ONG chamada Povos da Floresta. Aí está levando, cara, levando Starlink para o interior da Amazônia, levando para comunidades indígenas que nunca teriam acesso à internet. Os cara coloca lá, tem acesso a telemedicina, acesso a serviços públicos gratuitos.

Thiago Salomão:Cara, justamente disso, quando que você falou da concorrência, pô, é que o ponto é que a Starlink resolve problemas, é isso, fibra não resolve, entendeu?

Carlos Manuel Baigorri:Então assim, quando você olha doméstica, eu lembro quando começou essa discussão da Starlink na Anatel, um monte de gente falou assim, pô, mas e a soberania? Mas e isso? Eu falei, galera, existem problemas globais, existem problemas domésticos. No contexto doméstico, a Starlink é uma solução para um problema. No contexto global, ela traz desafios. A gente é o regulador falou do Brasil. Então vamos olhar para o contexto doméstico. No contexto doméstico, cara, seja bem-vindo, pode vir, presta serviço, aleluia. Agora, no contexto global, o rolê é outro. E no contexto global, a gente é só um país no contexto global, mas que a gente leva a nossa voz e manifesta as nossas preocupações. Então, problema global vai ter a solução global, e a situação doméstica a gente resolver domesticamente.

Bruno Guimarães:O Salomão, eu acho que vale a pena a gente entrar no tema de data centers, já que a gente tá aqui falando sobre soberania, né? O corre, porque existe alguns fatores aí também, é uma questão multifatorial, porque a gente tá falando de boa parte dos dados, não só do governo brasileiro como das empresas, tá fora do país, né, em data center nos Estados Unidos principalmente, em outros países. O Brasil tem uma oportunidade muito grande, a gente tava até discutindo aqui antes, né, nós temos espaço de real estate, a gente tem um país altamente conectado com uma conectividade resiliente e que entrega, a gente tem energia, né, uma matriz energética energia extremamente sustentável, abundância de energia, e a gente tem ainda, em tese, uma neutralidade geopolítica, né? Então é o Brasil, pois é, e o grande ponto é, quando a gente passa para olhar, o Brasil é um dos poucos países que faz sentido fazer um investimento, né, de data center para trazer as empresas para cá. E sem falar que a gente é o segundo maior público consumidor de Netflix, terceiro maior público consumidor YouTube. O brasileiro é altamente conectado, a gente sabe disso. Então faz sentido trazer esses investimentos para cá. Então eu acho que a gente pode entrar talvez em quais são os possíveis riscos, ou por que que talvez o Brasil não aproveite essa oportunidade. Mas eu queria entender, porque hoje a gente vê empresas americanas, por exemplo, não querendo trafegar os seus dados em infraestruturas chinesas. Então isso começa a chegar também, essa briga geopolítica começa a chegar também no tema de data centers. Como que vocês dentro da Anatel estão estudando esses assuntos? Como que a gente vai poder fazer negócio com a China, fazer negócio com os Estados Unidos, estar de bem com todo mundo, trazer esses investimentos para o Brasil? Quais são os desafios inerentes ao negócio, mas que também envolve aí a soberania de dados, risco geopolítico e por aí vai?

Carlos Manuel Baigorri:Eu vou começar sobre a parte final, que é como sobreviver, como ficar nessa briga entre dois lados de um polo, de uma polarização geopolítica que fica cada vez mais acirrada, especialmente no âmbito da tecnologia.

Bruno Guimarães:E assim, não é briga de Twitter ou de X, né? Não é. As empresas realmente não querem fazer aí trafegar seus dados.

Carlos Manuel Baigorri:Até porque assim, muitas das empresas americanas, elas têm diretrizes do governo americano para não utilizar o que eles chamam de untrusted vendors, que são fornecedores de tecnologia que são banidos, simplesmente são banidos, não só nas operações nos Estados Unidos, mas em operações fora do mundo também. Então, beleza, cara. Eu fui o relator do edital 5G, então eu tava lá no diretor da Anatel, não era o presidente ainda, e recebi para ser o relator da versão final do 5G. E na época a gente recebeu uma pressão, uma pressão não, tinha um debate muito grande sobre banir ou não as empresas chinesas da rede de telecomunicações 5G no Brasil. E o principal argumento era esse argumento da cibersegurança, espionagem, tudo mais. E qual que foi a nossa saída? Cara, essa é uma discussão política, a gente é técnico, vamos sair na técnica. Então assim, existe risco de um equipamento qualquer que seja, qualquer fornecedor, ter um backdoor, ter algum vazamento, alguma vulnerabilidade colocada lá de forma maliciosa? Existe, a princípio existe, né? Não tem como dizer que não. Existe a probabilidade? Existe. Se tem ou não tem, vamos descobrir. E aí, o que que a gente decidiu fazer? Para não entrar e falar: não, esse país aqui tem mais chance, ou esse país tem menos chance, por isso a gente vai banir eles, a gente criou o que a gente chama, a gente criou uma camada de certificação de cibersegurança. Hoje, pela lei brasileira, todo equipamento de telecom tem que ser certificado, certificado pela Anatel. Não é a gente que certifica, na verdade, a gente tem uns laboratórios parceiros e os organismos certificadores designados que fazem esse processo de certificação. Essa certificação, ela era majoritariamente questão eletromagnética, de energia, se o pino do carregador era o pino brasileiro, não era o pino americano. Então Era mais tipo um Inmetro, só que de telecomunicações, específico para compatibilidade eletromagnética, esse tipo de coisa. Quando veio essa discussão, a gente falou assim: qual que vai ser a nossa saída, cara? Nesse processo de certificação, mais um requisito a ser certificado é o requisito de segurança cibernética. Pegamos um padrão global de segurança cibernética que analisa uma série de coisas, fazendo laboratórios. Quando você for fazer a certificação do equipamento, equipamento, você vai ter que certificar também de que esse equipamento não tem vulnerabilidades previstas na de cibersegurança. E aí a gente prevê, se depois que a gente certificou aparecer uma vulnerabilidade, que muitas vezes você descobre depois, o fabricante tem obrigação de corrigir. Se ele não conseguir corrigir, ele tem obrigação de tirar do mercado. É basicamente isso. Então assim, não importa a origem da tecnologia, se ela é do norte, do sul, do leste, do oeste, ela tem que passar na certificação. Certificação. Se passou na certificação, pode entrar no mercado brasileiro. Então essa é a forma como a gente lida aqui no Brasil. E nos data centers, a mesma coisa. O equipamento é certificado, não importa a origem dele, a gente tendo segurança de que ele não tem vulnerabilidades maliciosas de segurança cibernética, pode vender e pode operar. Agora, data center, data center é a mesma coisa, são equipamentos de telecomunicações. Alguns vão lá dentro, são equipamentos de telecomunicações, precisam ser certificados ponto. Agora, existem empresas, empresas especialmente empresas americanas, algumas europeias também, que por questões de compliance deles internos ou regulamentações nos seus países de origem não compram equipamentos de certos fornecedores. Mano, decisão deles, cara, não tem nada a ver com isso. Agora, por que que o Brasil, o Brasil tem um potencial, você falou, e eu concordo plenamente, de ser um grande centro de data centers, tanto que foi feito até o tal do Redata, que é o regime especial de data centers, que tá lá para ser aprovado no Congresso, processo. E hoje, se isso for aprovado, há uma expectativa da Associação dos Data Centers, lá da Associação Nacional de Data Centers, de todos os grandes players do setor de data centers, de que isso vai atrair muitos investimentos. Porque, como quase sempre no Brasil, a questão tributária é o principal desafio. Hoje você trazer uma GPU, você paga muito mais imposto do que o próprio preço da GPU, e aí isso muitas vezes inviabiliza. E aí foi diante disso que o governo federal apresentou essa proposta do Redata, que tá aí sendo discutida no Congresso agora.

Bruno Guimarães:Mas essa oportunidade, que qual vai ser o papel da Anatel assim sobre essa parte de regulação ou presença no data center, ou isso vai acabar indo para outras agências?

Carlos Manuel Baigorri:Então assim, o Ministério das Comunicações fez uma consulta pública, se não me engano, vai fazer, ou já anunciou que vai ter uma política nacional de data centers no intuito de diversificar geograficamente data centers e tentar— e o papel da Anatel deve ser no nível de certificar questões de segurança desses data centers. Existem já certificações de data centers no Brasil, e no Brasil, no mundo, e a Anatel deve falar: olha, para você poder operar data center no Brasil, você vai ter que ter a certificação tal e qual. Mas isso é um debate que tá em aberto, ainda não tem nada definido, tem debate se a Anatel deveria ou não certificar. Então assim, hoje o grande desafio é primeiro é ter o data center e depois a gente já vê o que que a gente faz.

Bruno Guimarães:Mas nesse momento a oportunidade é trazer o data center O Baigorri, deixa eu só complementar assim, mas tu realmente acredita? Porque eu enxergo um potencial caminho onde, como o Brasil hoje é exportador de commodities, petróleo, minério, principais produtos agrícolas, que a gente pode ser um exportador, entre aspas, de dados através de data centers, é uma proxy para energia elétrica, vai. Será que o Brasil pode ser um desses grandes players realmente, olhando para daqui 5, 10 anos? A gente tem esse potencial? A pergunta acho que tá mais nessa linha.

Carlos Manuel Baigorri:Cara, desafiador. Essa pergunta, hein, cara, eu realmente não sei dizer, não sei dizer do jeito, as is, né, do jeito que tá hoje, não, certamente não precisa de muita alteração, seja na parte tributária. Eu acho assim, vocês conhecem o setor elétrico melhor do que eu, vocês cobram setor elétrico, tem muitos desafios no setor elétrico, na parte de geração, curtailment. Então assim, eu acho que da parte setor elétrico também é um elemento, cara, não sei, realmente não sei, não saberia te dizer. Falar assim, o banco vai ser tal, cara, tenho minhas dúvidas. Eu acho que existe o potencial, mas realmente não sei dizer. A gente tem muito, muita conectividade, que é um elemento central para isso, muita fibra ótica. Mas eu não saberia dizer, porque assim, por exemplo, eu vi que tá tendo muito no Paraguai, cara. Energia no Paraguai é praticamente de graça, tanto de energia que sobra em Itaipu, tanto que o pessoal faz um monte de fazenda de mineração de criptomoeda lá, porque assim Principal custo de um data center é o principal custo de uma mineração de cripto, é energia, energia e equipamento. É basicamente a mesma coisa, entendeu? Então assim, pessoal tá indo para o Paraguai, estou vendo um monte de gente indo para o Paraguai. Até o prefeito Ricardo Nunes comentou ontem, eu vi no jornal ele falando assim, olha, Google não leve seus data centers para o Paraguai, faça aqui em São Paulo, enfim, alguma coisa assim. Porque assim, não há questão de qual país é melhor, qual comida que eu gosto mais, cara, é conta, onde que a energia tá mais barata. E o principal elemento é energia. Ah, mas o real estate, cara, o espaço é menos, entendeu? É um galpão, pô, é um galpão que você bota um monte de equipamento e liga eles. É tão simples quanto isso. Se tiver fibra óptica e tiver energia, acabou. E bota os equipamentos. Aí se você tem que pagar um caminhão de IPI, a energia é cara, tem bandeira de uma cor, bandeira de outra cor, você não sabe qual é o preço, você coloca aí não só o economics é complicado, mas tu coloca um elemento de risco ali. Então assim, eu acho que, eu acho que existem desafios. Brasil tem potencial, mas tem muito dever de casa para fazer ainda.

Thiago Salomão:Boa, boa, Bruno. Eu tô pensando aqui, como tá o horário do nosso querido presidente tá chegando ao final, eu acho que dá tempo de encaixar mais uma pergunta. Eu fiquei pensando na pergunta do Fistel. Você acha que tem alguma outra que você acha mais quente? É porque essa pegaria um pouco do assunto do mercado financeiro.

Bruno Guimarães:Eu acho que a do Fistel é legal. Será que a gente consegue incluir Fistel e postes para a gente dar uma finalizada, para quem cobre mais o setor?

Carlos Manuel Baigorri:Tá bom, beleza. Fala de Fistel e postes, porque assim, o pessoal do mercado financeiro adora falar esse assunto. E eu vou te contar mais ou menos a história dos postes.

Thiago Salomão:É só o contexto do Fistel, né, o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, é uma taxa regulatória paga pelas operadoras a Anatel para financiar as atividades de fiscalização do setor. A lógica original é simples e razoável, né? Quem é regulado contribui para o custo da regulação. O problema é que o modelo foi desenhado numa época em que telefone celular era um artigo de luxo, né? Pouco, existiam poucos celulares no Brasil. Hoje são mais de 150 milhões de celulares ativos, né? Então a arrecadação do Fistel cresceu exponencialmente, muito além do custo real anual da Anatel. Então ela arrecadava bilhões e custava milhões, né? Essa diferença obviamente não ficava parada, né? Vai para o Tesouro Nacional, vira receita para o governo, enfim. Mas aí foi criado, né, um contencioso bilionário, né? Em 2020, as grandes operadoras obtiveram uma liminar judicial suspendendo o pagamento dessas taxas por aparelho, contestando a constitucionalidade do modelo. E para não simplesmente deixar de provisionar o valor elas criaram um fundo para acumular os recursos, reconhecendo a possibilidade de que a decisão final pudesse ser desfavorável a elas e o passivo tivesse que ser quitado. Resultado acumulado até hoje: as grandes operadoras têm aproximadamente R$15 bilhões em taxas não pagas referente a esse período. Quando eu falei com o Cadu sobre isso, o caso estava na STF, com Alexandre de Moraes como relator, e o julgamento estava tinha sido adiado sem data definida.

Carlos Manuel Baigorri:Deixa eu contar um pouco então.

Thiago Salomão:É isso, no contexto do mercado, né, o próprio Cadu, ele faz contas bem conservadoras nos modelos dele. Ele considera que as empresas vão ganhar, vão perder. As premissas são conservadoras, não é o que ele acha que vai acontecer, mas as premissas são conservadoras. Ele fala: não, acho que as empresas vão perder, e aí em 2028 ela volta a pagar com uma regra um pouco melhor. Então é assim, uma premissa conservadora, mas também adota, é melhor ser conservador na premissa, com acordo, tem uma surpresa positiva do que ser otimista lá e tem uma surpresa negativa.

Carlos Manuel Baigorri:Cara, o Fistel, só para, tudo que você falou tá verdade, só tem um elemento aí que eu não sei se, que do fundo, mas que acontece, o Fistel é uma taxa que é paga formalmente pelo que a gente chama de contraprestação do exercício do poder de polícia. É para custear o orçamento da Anatel. Então, e o Fistel, ele é cobrado, o grosso do Fistel, 99% do Fistel, vem de uma taxa cobrada por celular. Então cada celular, 150, 200 milhões de celulares no Brasil, todo mês pinga um dinheirinho por celular. As operadoras que pagam, não é a gente que paga, mas operadoras pagam para Anatel um boleto. Todo final de março eles pagam esse boleto, que quando soma todos os boletos que a gente emite para Vivo, Claro, TIM, que são as principais, dá R$2,5 bilhões. Grosso modo. Beleza. Só que o nosso orçamento nunca passou de 660 milhões. Então você bota, vamos arredondar, 500 milhões de reais, 2,5 bilhões de arrecadação, você tem 2 bi sobrando todo ano. Só que acontece, a história é mais engraçada, mais curiosa de contar, porque o que acontece, 2020, 15 de março é decretado o lockdown, todo mundo vai para casa, ninguém sabe o que vai acontecer com o resto do mundo, ninguém sabe o que vai acontecer com a economia, o meteoro caiu, Ninguém sabe, cara, o que vai acontecer. Gera aquela apreensão. Dia 30 de março, 15 dias depois, o boleto já tava emitido. Ó, tem que pagar R$2 bi. As operadoras ficaram desesperadas. Cara, eu não sei o que que vai acontecer com meu negócio, que os meus empregados, cara, como é que eu vou tirar R$2 bi do caixa para pagar 15 dias depois numa situação calamitosa dessa? Eles foram para justiça, TRF-1 lá em Brasília, e apresentaram, se não me engano, sou advogado, mas eu acho que é uma ação de repetição de de débito. Que isso quer dizer? Olha, juíza, juiz, né, tribunal, a Anatel me cobra essa taxa que dá R$2,5 bi todo ano, que era para ela usar, mas ela só usa R$500. Esse dinheiro tá sendo, é desproporcional essa cobrança, quero meu dinheiro de volta para trás, eu quero tudo que eu paguei a mais, que eu paguei, a Anatel não usou, eu quero de volta. E esse boleto que eu tenho que pagar dia 30 agora, não quero pagar porque eu tenho um monte de dinheiro para receber, então não quero pagar. Aí, e colocou, além disso tem a pandemia e tudo mais, blá blá blá. Aí a decisão liminar é: não pague. Só que geralmente quando você tem uma decisão, por exemplo, uma multa, você tá, uma empresa tá questionando judicialmente uma multa que a Anatel pagou, o juiz fala: beleza, não paga a multa, mas apresenta uma garantia. Caso você perca aqui, eu executo a garantia, para depois lá na frente você falar que não tem dinheiro para pagar a multa. Então fica garantido o o valor em discussão fica garantido. Como o argumento era a pandemia tá aí, eu não sei o que vai fazer, um argumento, o tribunal, a juíza, né, a ministra na verdade falou, olha, não paga e não precisa garantir. Então as empresas, beleza, não pagaram boleto, mas também não depositaram, apresentaram uma carta fiança, não fizeram depósito em juízo, não fizeram nada. Só que aí passa 2020, 2021, 2022, 2023, 2026, meses e não tem até hoje o julgamento dessa liminar. Essa liminar nunca foi julgada, nunca foi julgado sequer o mérito. Ou seja, você não decidiu nem se a liminar deve ser mantida ou não, o mérito menos ainda. Então esse processo ainda vai durar anos. E a liminar valendo, só que beleza, as operadoras, beleza, não paguei o boleto, vou ficar com os 2 bi. Só que as operadoras, o que que elas vão fazer com esse dinheiro? 2 bi todo ano que ela teria que pagar um boleto que ela não tá pagando, porque a gente continua emitindo boleto todo ano, a gente emite boleto. Ela vai lá e: não vou pagar, tô protegido por uma decisão judicial. Falei: beleza, não paga, mas o boleto tá emitido. O que acontece? Eles, até onde eu entendo, tem que provisionar esse valor. Ele vai lá, conta uma conta de provisão e coloca 2 bi e meio todo ano. Todo mundo junto, né, coloca essa provisão. Eu nunca ouvi falar desse fundo, porque teve algumas empresas que ela assim: cara, essa provisão tá ficando gigante no meu balanço, é uma provisão que tá ficando gigante, gente, todo mundo tá começando a olhar, os analistas. Cara, que provisão maluca é 'Não, você tá botando aqui de 15 bi de provisão.' E aí, no meio dessa confusão, porque o que acontece, aí começou a ficar, Salomão, cenário muito binário. Se os caras perdem, toda essa grana tem que sair do balanço. Se eles ganham, cara, é uma distribuição de lucros e dividendos maravilhosa, entendeu? Então assim, ficou aí. Que que eles decidiram fazer? Ao longo desse processo, apresentaram lá no Supremo Tribunal Federal, relatou o ministro Alexandre de uma ação direta de inconstitucionalidade dizendo que essa cobrança da TFI, do Fistel, nesses valores é inconstitucional porque ela é desproporcional à sua função tributária, né, o seu objetivo. E isso tá em discussão. Então assim, que que vai acontecer, cara? Eu não sei, não sei o que vai acontecer porque, de novo, eu não sou advogado, não sei que vai demorar. No TRF eu sei que vai demorar uma decisão porque tá o começo. O STF pode tomar uma decisão que é muito boa para as operadoras ou simplesmente manter a confusão do jeito que tá. Então assim, é um cenário que tá ficando cada vez mais binário, digamos assim. Agora, o que que eu posso dizer? A Anatel já se manifestou, eu digo isso em prosa e em verso, em diversos momentos da sua história, dizendo efetivamente isso, que o Fistel de fato ele não tem a melhor estrutura de cobrança. Que por quê? Por quê? Primeiro porque ele é desproporcional, né, gente, 2,5. E querendo ou não, esse é um custo que vai ser pago pelo sistema como um todo, então está onerando o sistema como um todo. E segundo, ele é regressivo, porque como ele é um valor fixo, o Fistel é um valor fixo por celular, R$26. O tiozinho que tem um pré-pago de R$15, ele paga os mesmos R$26 de Fistel que o celular do Elon Musk, sei lá, do cara que tem que um milionário. Então eles acabam pagando a mesma taxa, ou seja, é regressivo. O cara que todo mundo paga a mesma coisa. Então a gente falou assim, cara, essa taxa, do jeito que tá desenhada numa lei de 63, se não me engano, ela tem problemas de estrutura, a ponto da gente já ter encaminhado ao Executivo há muitos anos atrás é um projeto de lei propondo transformar ela numa CID, que aí ela é uma alíquota, entendeu? É um valor percentual, entendeu? Que você garante e um valor percentual que garantisse a proporcionalidade e garantisse a não regressividade. Mas a situação que tá posta é essa. Então tem ações judiciais de um lado do outro, e a Anatel se manifesta em juízo lá defendendo que precisa do dinheiro.

Thiago Salomão:Aí, ó, para quem reclama, né, que o Haddad criou muita taxa, não foi tudo que ele criou, porque dava para criar mais uma aí, um imposto regressivo em cima dos celulares. Bom, mas aí, como é que essa história dos postes aí?

Carlos Manuel Baigorri:Ah, história dos postes é uma confusão generalizada. Vocês vão ter que chamar o Sandoval. Ontem eu tava com Sandoval Sandoval é o da ANEEL.

Thiago Salomão:Ele é resenha assim que nem você, porque eu confesso que eu tô surpreso de ter um papo desse com o presidente de agência reguladora. Pensei que ia ser um papo mais protocolar. Veja bem, olha aqui. Não, tá um papo muito legal assim, tá um papo muito bacana, cara.

Carlos Manuel Baigorri:Eu acho que sim, Sandoval é meu amigo, gente boa para caramba, mas a gente tem uma, não vou dizer uma treta, uma treta entre setores que não chega a ser bem uma treta, mas um problema que a gente precisa resolver e ninguém sabe muito bem vão ter que resolver, que é o seguinte: com o surgimento desses milhares de tiozinhos, da, dos tiozinhos das lan house e os garotões do Wi-Fi, todo mundo quer usar, pendurar suas redes de fibra ótica nos postes, que são esses postes aqui. As postes estão a zona aqui perto, né? Então assim, esses aqui nem tanto, porque aqui na Faria Lima não tem poste, mas tu vai para a rua de trás, Deus o livre. Então o que acontece? Por quê? Porque esses caras precisam usar os postes. Só que é isso, Salomão, a gente tem um típico caso de problema de incentivos econômicos. A dona do poste é a distribuidora de energia elétrica, aqui é CPFL, ou aí não sei nessa região quem que é, mas enfim, você tem a distribuidora de energia elétrica que é dona do poste. Só que o negócio da distribuidora de energia elétrica não é alugar espaço no poste, o negócio dela é vender energia elétrica. Aquela receita que ela tem alugando espaço no poste para o tiozinho do Wi-Fi, para o garotão do Wi-Fi, nem fica com ela, vai para uma cidade tarifária, e na receita dela é um negócio irrelevante. Então, para ele, o poste, explorar economicamente o poste, o poste não é um ativo econômico, ele é uma dor de cabeça, ele é uma porrinhação, porque ele não gera resultado, ele não traz receita, ele é só uma injeção de saco. Então, poste, cara, se eu pudesse nem tinha poste, se pudesse os cara fazer por radiofrequência, distribuição de energia, fazer por radiofrequência, mas não tem como, tem que usar o poste. Para as operadoras de telecomunicações, o poste é a forma mais barata de fazer a internet chegar na casa do cidadão. Então, poste é um ativo essencial para o setor de telecom, mas o dono do poste, para ele, nem tanto. E aí o que acontece? Aí você tem incentivos perversos de diversos lados. Aí eu vou começar pelo setor de telecom, que é o seguinte: as grandes operadoras já utilizavam esses postes casas antigas, e aí quando eles tinham que trocar os cabos, né, os cabos que estão pendurados nos postes, o cara pensa: pô, vou ter que pagar o peão para subir lá no poste e colocar mais um cabo, e vou ter que pagar o peão para tirar o cabo velho. Faz o seguinte, deixa o cabo velho lá, porque eu economizo com preço de peão, que não tem que tirar da empreiteira, né, não tem que tirar aquele cabo, economizo no custo. E no mais, se o tiozinho da da Lan House, o garotão do Wi-Fi quiser ocupar o poste, ele tá ocupado já. Então eu reduzo o meu custo e bloqueio a entrada de um novo competidor. Então é racional fazer isso. Beleza. Então, só que acontece, isso ao longo do tempo foi enchendo o poste de lixo. O cara vai colocando lixo, vai colocando lixo, vai colocando lixo. O tiozinho do Wi-Fi chega lá, o tiozinho da Lan House chega assim: operadora, distribuidora, CPFL, sei lá quem, Neo Energia, me aluga um espaço no teu poste aí. Aí o cara fala: pô, que lá vem aquele tiozinho xarope de novo querer alugar um poste. Vai embora, me dá teu projeto aí que eu vou analisar. Fica anos sem responder o cara, porque para ele, cara, é uma porrinhação aquele tiozinho querendo usar o poste dele.

Thiago Salomão:Aquilo que você tá querendo me dizer é: o próprio sistema, como ele é feito, faz com que os donos dos postes incentivem a produtividade ali do—

Carlos Manuel Baigorri:não é incentivo, porque eles não têm um motivo a explorar o ativo. Para eles não é um ativo, entendeu? Imagina que tu aluga, tu tem um apartamento que você aluga para uma pessoa qualquer, você nem sabe o que que é, você aluga, só que o aluguel não vem para você, a propriedade continua sendo sua, você não usa aquele ativo, mas você não recebe, você recebe zero de receita. Aí o cara do, o cara que aluga o teu apartamento liga: ô, Salomão, tá tendo uma goteira aqui. Aí você fala assim: problema teu, mano, se vira aí com Então, que incentivo você tem a cuidar daquele ativo se você não ganha nada com ele? Então, é mais ou menos isso.

Thiago Salomão:Charlie Munger já dizia: me mostra os incentivos, eu te direi seus resultados.

Carlos Manuel Baigorri:É isso aí. Ah, maneiro. Enfim, aí o que acontece? Aí, a distribuidora é tipo isso, é um aluguel de um imóvel que ela não ganha nada. Do outro lado, aí o tiozinho quer ver no mercado, ver a operadora vendendo 256k, R$500. Vem uma mega oportunidade de ficar milionário vendendo fibra ótica, já puxou da lan house dele, falou assim: vou ficar esperando esse xarope da distribuidora. Vai lá na madrugada, bota a escada, pendura o cabo dele. Só que assim, são milhares de tiozinhos fazendo isso, e aí começa a juntar aquela zona. Aí o cara assim: pô, só que muitas vezes o cara que tem que ter almoxarifado, pô, mas é difícil ter um almoxarifado para cidade desse tamanho, vou ter que ter almoxarifado de um monte de lugar. Faz o seguinte, pendura o almoxarifado os cabos extras, os equipamentos, pendura no poste, vai, já tá aí zoado mesmo, pendura. Então você olha para o poste ali, tem um monte de cabo velho, um monte de cabo a revelia, um monte de picareta que tá usando o poste sem pagar, tem uma galera pagando, tem uma galera não pagando, e um monte de almoxarifado pendurado lá.

Thiago Salomão:Nunca mais olhar para um poste do mesmo jeito.

Carlos Manuel Baigorri:Aí tu vê aquela zona, aí tu fala assim, de quem é a culpa? A culpa é da distribuidora? A culpa é nossa, do setor ou culpa do regulador. Então assim, é uma culpa. Aí eu falei, galera, enquanto a gente ficar querendo escolher quem é o culpado disso, a gente vai ficar só apontando o dedão para o outro. Vamos reconhecer que todo mundo tem culpa nesse negócio e bora sentar na mesa, encontrar uma solução. E aí a gente fez um processo longo, discutiu isso, e a solução que a gente propôs na Anatel, e que tá em debate com a ANEEL e no Congresso, enfim, é o seguinte: Cara, se o problema é que esse espaço, que acontece, o poste, ele é, ele tem uma faixa do poste, um pedaço do poste, 60 cm, se eu não me engano, que é onde você pode pendurar os cabos de telecom. Então, que a gente falou assim, cara, o poste inteiro é do setor elétrico, mas esse pedaço ele é um ativo econômico que o setor elétrico não tá explorando. Vamos criar uma obrigatoriedade de ceder esse espaço para um agente econômico único, só explorar esse negócio que a gente chama do posteiro. Porque posteiro foi inspirado no torreiro. Que que é o torreiro? Não sei se você vai deixar, já viu esses negociados na bolsa, American Tower, SBA, QMC, que são o quê? Antigamente as empresas de telecom, Vivo, Claretim, cada um deles comprava, construía sua torre e botava os rádios lá em cima. Aí chegava numa cidade, tinha um monte de torre, cada um com um rádio, todo mundo fazendo, multiplicando o capex. Chegou uns cara que são chamadas Tower Companies, que eles falam assim: cara, deixa eu te fazer o seguinte, cara, me vende as tuas torres e eu vou ser o dono das torres, você só vai pagar o aluguel, porque o teu negócio não é pagar IPTU, construir torre, manter ferragem. E aí o mercado desverticalizou. Então hoje no Brasil, grande parte das torres das operadoras celulares não são delas, eles alugam torre de alguém, do mesmo jeito que você não compra escritório, você vai lá e aluga um escritório, você não precisa construir o teu escritório. Então foi mais ou menos isso que rolou. Então a ideia é fazer a mesma coisa, tirar, obrigar, criar esse agente no mercado, que é o cara que vai explorar essa faixa dos 50 centímetros. E aí, como ele é o dono daquilo, se chegar o tiozinho na madrugada e subir, colocar o negócio dele, tiozinho, mete chumbo no cara quando tiver em cima da escada, entendeu? Ele vai ser responsável. Ó, tá pendurado aí, vai botar uma xarifada? Vai não, vai pagar, porque E se você começar a pagar pelo que está usando, cara, é realmente melhor botar o almoxarifado ali naquele cantinho e tal.

Thiago Salomão:Não mexe no meu posteiro.

Carlos Manuel Baigorri:Não mexe no meu posteiro, mais ou menos isso.

Thiago Salomão:Não mexe no meu posteiro ou pedacinho.

Carlos Manuel Baigorri:É, o posteiro seria o explorador desse pedacinho.

Bruno Guimarães:Ah, a empresa.

Thiago Salomão:É, a empresa.

Carlos Manuel Baigorri:O posteiro, essa faixa chama faixa de afixação de rede, alguma coisa assim. E você seria, você fala assim, cara, essa faixa, esse pedaço tem dono. Posteiro não é a distribuidora, é um cara que o business dele é explorar isso aqui. E como isso é o business dele, é 100% da receita dele, é isso aqui, ele vai cuidar.

Thiago Salomão:Mas desculpa, quem é o posteiro?

Carlos Manuel Baigorri:A gente vai ver o chamamento público hoje, a própria distribuidora.

Thiago Salomão:Hoje é a distribuidora, mas não é que ela não faz. Então vai criar uma terceira pessoa agora.

Carlos Manuel Baigorri:Isso, a ideia é criar uma figura, tá?

Thiago Salomão:Entre o tiozinho da lan house e o dono do poste, agora vai ter o que é o que vai colocar os fios do tiozinho da Lan House, organizar e tirar, e tirar, e tirar os tiozinho da Lan House que estão subindo lá escondido de noite, entendeu?

Carlos Manuel Baigorri:Ele vai ser o dono, como se fosse o síndico do poste, daquela faixa do poste. Essa ideia vai funcionar, não vai funcionar, cara. Cara, a gente tem que testar, porque essa zona do jeito que tá é inaceitável, entendeu?

Thiago Salomão:Cara, dá para contar a história do Brasil sobre o poste. Se entende muito o Brasil com essa treta do Eu acho que é o nome posteiro, achei um nome meio muito brasileiro.

Bruno Guimarães:É isso aí.

Thiago Salomão:Vamos para o pingue-pongue, porque tô vendo aqui o horário, ó, vai ter que ser pingue-pongue mesmo.

Carlos Manuel Baigorri:Tu já me falou antes as perguntas, já sei qual que é.

Thiago Salomão:Vamos lá.

Carlos Manuel Baigorri:Mas pô, já valeu, papo tá muito bom.

Thiago Salomão:Então fala que tocar seu coração na hora. Já pensei em várias músicas que tem telefone e tal, mas Primeiros livros, eu quero um livro mais nerd, um livro mais técnico.

Carlos Manuel Baigorri:Você é formado em economia?

Thiago Salomão:Então pode ser um livro de economia, ou pode ser um livro do setor, e um livro tema livre. Então duas recomendações de livro, cara.

Carlos Manuel Baigorri:O livro técnico, eu acho que assim, eu sou economista, doutor em economia, e sempre foquei na parte de microeconomia. Então para mim é o Microeconomia do Mascolell. Quem fez mestrado, doutorado em economia vai lembrar das listas de o exercício do sofrimento com esse livro. Ele é bem nerd. E o livro que eu acho que é livro livre, né, que você falou, que é para mim um livro mais massa de todos, que é a origem do papel do herói que a gente, como a gente conhece, das histórias mais antigas da nossa civilização, que é a Odisseia de Homero. Não sei se vocês já leram, é um livraço. Ele é meio xarope de ler porque ele é Épico, né? Mas assim, é muito maneiro. Tem uma tradução da LPM, esqueci o nome do cara, Schubert eu acho que é, que ela é numa linguagem muito, digamos assim, acessível, porque ele não fica tentando focar e manter a estrutura do texto, entendeu? Geralmente as traduções eles tentam manter a estrutura da sequência, da rima e da estrutura do poema, entendeu? Esse cara não, ele foca mais no entendimento complemento do texto. E aí, cara, é uma tradução muito boa. Eu nunca encontrei uma tradução da Ilíada tipo nesse mesmo formato, mas é um livrão, cara. O Ulisses é um personagem muito maneiro, o primeiro grande herói assim da— quem esse papel do herói, esse arquétipo do herói, ele é criado na nossa civilização a partir de Ulisses e na Odisseia dele tentando voltar para Ítaca depois da guerra, da guerra de Troia.

Bruno Guimarães:Pô, excepcional! Sabia que dizem que a versão que a gente tem da Odisseia, ela não é a versão completa, que se perderam ao longo da história outros volumes, outras edições Odisseia que a gente não tem acesso. Tem muita gente que procura ainda essas versões perdidas aí da Odisseia. Maneiro, boa, boa recomendação.

Carlos Manuel Baigorri:E a música, cara? Tava pensando uma música, eu gosto muito, que uma vez eu escutei. Eu gosto de rock, né? Então tava pensando em AC/DC, Ramones, Black Sabbath.

Thiago Salomão:Meu Joe Ramone ali fica ali em cima para só configurar o meu filho.

Carlos Manuel Baigorri:Miguel se amarra em rock também. Também e tal. E aí eu lembro, eu contei para ele uma vez que a Rádio Kiss FM, que aqui de São Paulo teve uma época que trocava em Brasília de forma clandestina, então ela tocava, às vezes não tocava. Eles faziam no final do ano a 100+ da Kiss, não sei se fazem isso ainda, mas fazem. E aí eu fiquei escutando para ver quem ia ser número 1. E aí eu falei isso para o meu filho, eu falei: Miguel, essa aqui foi eleita a melhor música de rock de todos os tempos, Starway to Heaven do Led Zeppelin.

Thiago Salomão:Realmente, Gente, é uma baita música.

Bruno Guimarães:Que legal!

Thiago Salomão:E aí, meu, você que acabou com a Rádio Clandestina, a gente teve que ir lá aprender os equipamentos, foi foda.

Carlos Manuel Baigorri:Caramba, aqui eu fiquei triste, não tinha mais a Kiss FM, ficava num hotel lá perto da Anatel, inclusive, o transmissor.

Thiago Salomão:Ainda bem que você tá falando isso, pessoal, já vai estar em Brasília.

Carlos Manuel Baigorri:Enfim, e aí é só um contexto, essa do Starway to Heaven, eu sempre falo, eu boto direto para o meu filho escutar, porque eu falo assim, quando, porque assim, criança é complicado, às vezes eles estão muito, vai para o recreio, joga bola, volta cheio de animação, agora volta para sala de aula, senta, essa desacelerada para eles é muito difícil às vezes. Aí eu falo, amiga, quando você precisar desacelerar, fecha os olhos e pensa em Starway to Heaven para ele tipo assim tentar regular a agitação assim.

Thiago Salomão:Se eu tivesse ouvido esse conselho, eu teria sido um aluno melhor, porque eu simplesmente não voltava do recreio. A gente jogava futebol, era tão pegado no recreio que a gente não voltava, era, ficava lá 10, 15, 20 minutos. Aí tinha professor não deixava entrar, tudo bem. Bom, e o convidado, alguém que você gostaria de ver?

Carlos Manuel Baigorri:Tô nem perguntando a gentileza, pô.

Thiago Salomão:Vou chegar, é a última, já tá ansioso.

Carlos Manuel Baigorri:Não sabia que você queria chamar o convidado.

Thiago Salomão:Você gostaria de ver aqui no seu lugar?

Carlos Manuel Baigorri:Ah, já falei dele, meu amigo, o maior presidente de todas as agências reguladoras desse país, Sandoval Feitosa da ANEEL.

Bruno Guimarães:Olha aí, quer resolver a treta do poste, hein?

Carlos Manuel Baigorri:Vamos ver se ele cede aí na treta do poste.

Thiago Salomão:E para fechar, a maior gentileza da sua vida?

Carlos Manuel Baigorri:Cara, assim, chegar até onde eu cheguei sendo estrangeiro, filho de argentino, e conseguir—

Thiago Salomão:Espera aí, estrangeiro? Explica para a galera.

Carlos Manuel Baigorri:É, te falei, eu nasci nos Estados Unidos, vim para cá com 3 anos de idade. Meu pai e minha mãe são argentinos, minha família toda argentina. Meu pai foi lá estudar, eu nasci lá e vim para o Brasil para o meu pai virar professor da Universidade de Brasília. Então assim, origem muito humilde, filho de professor universitário e tal, assim, ainda mais no governo Collor e tal, crises econômicas e tal. E tipo assim, depois fazer concurso público, entrar na Anatel, conseguir virar presidente num período relativamente rápido. Eu sou, acho que você talvez seja o presidente mais jovem da história da Anatel Anatel, todo mundo foi muito gentil, fez muito, sempre tiveram várias pessoas que me ajudaram. A pessoa que me deu meu primeiro emprego foi o Wesley Uzilli, na, quando eu entrei no setor. Todas as pessoas que me deram oportunidade. O primeiro presidente da Anatel que falou assim, cara, tu tem potencial, assume essa liderança, que foi o João Rezende. Então todo mundo que veio me galgando. Mas assim, eu vou falar da gentileza mais recente, que foi quando a gente apresentou lá na Anatel para o Itamaraty a ideia de ter um candidato para o IT, da agência que eu comentei aqui. E a gente levou alguns nomes. E aí o Itamaraty falou assim: cara, a gente quer, avaliamos aqui, a gente quer realmente ter um candidato, mas a gente não quer nenhum desses nomes, a gente só quer que seja você.

Thiago Salomão:Olha só, cara!

Carlos Manuel Baigorri:Aí eu falei: cara, mas assim, pô, não confesso que minha mulher, né, não sei, não sei se eu quero, né? Ela que manda, deixa eu ir para casa perguntar para ela se eu posso.

Thiago Salomão:Ela é o posteiro da casa.

Carlos Manuel Baigorri:Aí foi lá: você tem certeza? Tu quer mesmo? Tu acha que é uma boa? Vou ter que viajar muito, pedir voto? Não, vai lá, vai lá. Enfim, então acho que essa gentileza de ter sido, digamos assim, convidado pelo governo brasileiro para assumir isso foi uma grande gentileza que o Itamaraty fez comigo, especialmente o embaixador Eugênio, que hoje tá lá à frente da parte de ciência e tecnologia do Itamaraty, de temas digitais. Enfim, ele é o tech ambassador do Brasil. Então ele fez essa. Aí ele falou assim: a gente só vai ter candidato se for você. Eu falei: pô, e se eu não quiser? Aí não vai ter. Olha só, aí ele falou o seguinte: a gente só tem candidato, a gente só entra se for para ganhar, e a gente acha que com você a gente tem chance de ganhar. Se não for com você, nenhum desses outros nomes que tem chance. Aí falei: é para ganhar mesmo? Porque assim, eu também, também vou me sacrificar, viajar o mundo todo, ficar pedindo voto, maior rolê. É para ganhar, né? Ele falou: é para ganhar, então bora.

Thiago Salomão:Pô, espero que essa entrevista ajude aí, pelo menos dê sorte. Agora, se alguém na militância vê assim esse podcast, vai falar: ah, isso, né, pô, defende o livre mercado. Defende Starlink americano aqui, né?

Bruno Guimarães:Nasceu nos Estados Unidos.

Carlos Manuel Baigorri:Mas já sou naturalizado, nunca nem voltei lá nos Estados Unidos, só fui fazer enxoval de Miami, fazer enxoval para comprar meus chupetas.

Thiago Salomão:Então vamos descobrir isso aí. Pelé ou Maradona, quem foi maior?

Carlos Manuel Baigorri:Maradona.

Thiago Salomão:Ah, não é possível.

Carlos Manuel Baigorri:Aí acaba.

Bruno Guimarães:Não pode, não pode, não pode.

Carlos Manuel Baigorri:Sabe por quê? Eu não trouxe minhas meias do Maradona, cara. Não pode.

Thiago Salomão:Vai torcer para a gente. Argentina na Copa também?

Bruno Guimarães:Não, não é possível.

Thiago Salomão:Olha, eu vou torcer para você na UIT.

Carlos Manuel Baigorri:Mas não vai torcer na Copa?

Thiago Salomão:Mas a Copa não dá, não dá.

Carlos Manuel Baigorri:Bom, mas talvez possa ajudar. O meu coração mesmo é corintiano.

Thiago Salomão:Putz, piorou, piorou.

Carlos Manuel Baigorri:O palmeirense aqui ficou— Eu sempre falo, cara, meu passaporte, eu nasci nos Estados Unidos, meu sangue é argentino, minha naturalidade é brasileira, mas o coração é corintiano.

Thiago Salomão:Cara, olha, você foi perfeito.

Carlos Manuel Baigorri:Até o final, né? Você falou tudo até o final.

Thiago Salomão:Se você fala no começo isso tudo, já ia começar a entrevista muito bad vibes.

Carlos Manuel Baigorri:Guarda melhor para o final.

Thiago Salomão:Que isso! Não, que papo da hora, porra! Aprendi coisa para caramba.

Bruno Guimarães:Muito bom.

Thiago Salomão:Vou torcer demais. Até anotei 11 de novembro, é fácil lembrar porque é o aniversário da minha esposa. Então quando chegar o aniversário já vou dar uma chamada.

Carlos Manuel Baigorri:Me manda um zap.

Thiago Salomão:É, vou querer saber. Mas, ó, te liberar para você não perder o voo. Muito obrigado pelo papo.

Carlos Manuel Baigorri:Eu que agradeço, Salomão. Valeu, foi massa para caramba. Obrigado, Bruno, pelo convite, pela receptiva aqui, foi maneiro. Espero poder continuar contribuindo aí para o setor e para trazer informação para toda audiência.

Bruno Guimarães:Valeu, com certeza. Obrigado, Salomão, cara, excepcional. Obrigado pela oportunidade, obrigado, Bagori, sempre um prazer estar contigo.

Thiago Salomão:Boa. Então, galera, se você gostou também do episódio, se inscreve no Market Makers, se inscreve no Last Mile, podcast que tá bombando no setor telecomunicações. E a gente aqui no Market Makers tá toda terça, quinta e domingo, 18 horas com episódio novo. Eu aqui desse lado e alguém muito mais interessante do que eu do outro lado compartilhando a história dele com a gente. Até a próxima e tchau!