#371 | A HISTÓRIA COMPLETA DE WARREN BUFFETT EM 193 MINUTOS
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Thiago Salomão
Matheus Soares
Frederico Vontobel
- Filosofia e Perspectiva de InvestimentoValue Investing e Benjamin Graham · Margem de segurança · Pensamento independente e 'inner scorecard' · Importância do tempo e juros compostos · Diferença entre investimento e especulação · Crítica à alavancagem · Controle de gastos e 'ter o suficiente' · Charlie Munger e a mudança de filosofia
- Erros que travam a vidaRelação com a família e filhos · Dificuldade em expressar emoções · Relacionamento com a esposa Susan Buffett · A relação com Astrid Menks · Agnosticismo e a falta de fé · Integridade e admitir erros · O 'skin in the game' e a ética nos negócios · O caso Salomon Brothers
- Mudanças na Berkshire HathawayAquisição da Berkshire Hathaway · Transformação de empresa têxtil para holding · O papel do 'float' de seguros (GEICO) · Investimentos em subsidiárias integrais e ações · Estratégia 'asset-light' e marcas fortes · Dempster Mill e o aprendizado com negócios ruins · O erro de comprar a Berkshire Hathaway
- Distribuição de Chope e Primeiro NegócioVenda de Coca-Cola e jornais · Fascínio por números e dinheiro · Contexto da Grande Depressão · Compra e venda de Coca-Cola no atacado e varejo · Venda de bolinhas de golfe e taco de golfe · Colecionismo de selos e bilhetes de corrida · Primeira ação aos 11 anos
- Vendas e precificaçãoCoca-Cola como exemplo de marca forte e 'asset-light' · See's Candies e o poder de precificação · Apple e o iPhone como produto disruptivo · Diferença entre negócios de commodity e negócios de marca · O conceito de 'prazer barato'
- História de Warren BuffettCoca-Cola · Apple · American Express · Washington Post · Salomon Brothers · See's Candies · GEICO
- Investimento em BolsaOrigem e infância de Benjamin Graham · O livro 'Security Analysis' · O livro 'O Investidor Inteligente' · A parábola do 'Senhor Mercado' · A importância do caráter sobre o cérebro · Ações como pedaços de empresas · A influência de Graham em Buffett
- Paciência e ConsistênciaExemplo do centavo que dobra diariamente · Exemplo da lenda do xadrez e os grãos de arroz · Aumento do patrimônio de Buffett após os 65 anos · A importância do tempo nos investimentos · A paciência como virtude do investidor
- Loteria e CondiçõesNascimento em 'lugar certo, hora certa' · Impacto da Grande Depressão na formação de Buffett · Ser homem e nascer nos EUA como fatores de sorte · A importância do ambiente familiar e social · O papel da aleatoriedade e da sorte
- Performance das ações no mercado brasileiroJuros altos no Brasil · Carga tributária elevada · Comparação com o mercado americano · Concentração de mercado em ETFs e Magnífica 7 · O papel dos fundos de pensão
- Mercado de ETF e produtos de baixo custoCrescimento exponencial dos ETFs · Concentração de capital em poucas empresas (Magnífica 7) · O debate sobre gestão ativa vs. passiva · A questão da 'profecia autorrealizável' nos ETFs · O papel dos investidores de Value Investing em um mercado dominado por ETFs
Frederico Vontobel:Einstein disse, né, que o juro composto é a oitava maravilha do mundo. Quem entende ganha, quem não entende paga. Se perguntasse para vocês: prefere 1 milhão de reais agora ou 1 centavo que vai dobrar a cada dia por 30 dias?
Thiago Salomão:O que que tu prefere?
Matheus Soares:Eu prefiro 1 milhão.
Frederico Vontobel:A gente pensa assim automaticamente: não, eu quero 1 milhão. 1 centavo dobrando, aí nós estamos falando de 6% por dia, em 30 dias dá 5 milhões e 300.
Thiago Salomão:No 30º dia?
Frederico Vontobel:É, o juro composto, o maior efeito tá lá na frente.
Matheus Soares:E aí até a fortuna do Buffett. Ele fez 1 milhão com 30 anos, 25 milhões com 40 anos.
Frederico Vontobel:Quando a pessoa pensa assim, ah, eu quero ser igual ao Buffett, tem que pensar o seguinte, olha só, com 5 anos nas férias ele vendia de porta em porta Coca-Cola. Ele com 19 anos, e ele escreveu para mim assim, agora tá me chamando de senhor Buffett, com 19 anos. Depois que ele tinha 50 guris que entregavam jornais. Uma vez perguntaram para ele só uma coisa interessante também, como é que ele sentia sendo milionário? Ele assim, nunca mudou nada para mim, eu sempre tive o que eu quis. E isso me faz lembrar uma coisa que eu tava lendo ontem de noite, eu tava vendo Eclesiastes, que foi a última carta que Salomão escreveu. E lá tem uma frase que eu achei interessante, que ele disse assim: "É melhor tu te contentar com o que tu tem do que tá sempre buscando mais." Ele sempre disse assim: "Eu nunca quis fazer isso para comprar Ferrari, para comprar um iate." E muita gente se coloca em apuros, se alavanca, faz coisas que não deve por não estar contente com o que tem ou por se comparar com outra pessoa. Isso é um problema muito grande. Coisa que ele também nunca gostou foi de alavancagem.
Thiago Salomão:Uma lição dessas várias que você ensinou aqui quando você veio no podcast, que eu mais gosto, que tem duas maneiras de Uma é ganhando muito dinheiro, a outra é gastando pouco. E é mais fácil controlar a segunda do que a primeira.
Frederico Vontobel:A pessoa que gasta menos do que ganha pode enriquecer. A pessoa que gasta mais do que ganha vai empobrecer.
Thiago Salomão:Sim, sim, sim, está começando mais um Market Maker. Seja bem-vindo ao podcast da família investidora brasileira. Eu sou Thiago Salomão, fundador e CEO dessa empresa. Estou hoje ao lado dele, meu sócio, meu amigo, irmão camarada, Matheus Soares. E quando o Matheus Soares está aqui, ou o papo é sobre alguma empresa da bolsa, empresa que a gente investe na nossa carteira, ou é um papo muito profundo e inteligente. Hoje é a segunda opção, não é, Mati?
Matheus Soares:Que elogio que você está me fazendo em público. Isso é bonito de ver.
Thiago Salomão:Eu sempre faço. Eu aumento seu valuation a cada aparição sua.
Matheus Soares:É impressionante.
Thiago Salomão:Seu passe fica mais caro.
Matheus Soares:E estou bem feliz de estar aqui.
Thiago Salomão:Mati, hoje é aquela conversa, eu brinco que é a conversa Caverna do Dragão. Tinha aquele desenho do Caverna do Dragão, para quem é mais... Novinho não vai saber, mas a turma que entrava na caverna do dragão e ficava a série inteira tentando sair da caverna, né? A gente vai entrar na caverna, a gente não sabe nem como, nem quando, nem se vai sair, porque a gente vai contar a história do maior investidor de todos os tempos, a história de vida, como ele se tornou esse investidor. Mas não vamos só passar o pano para Warren Buffett, a gente também vai falar muita coisa que podemos aprender do que não fazer com Warren Buffett, porque apesar de todo o seu sucesso como investidor, ele teve muitos problemas na vida pessoal ao longo da sua trajetória, relação familiar, alguns comportamentos que ajudam até a explicar o seu sucesso no mundo dos investimentos, mas um certo fracasso ali na sua trajetória familiar. Enfim, nós como apaixonados pela filosofia do Warren Buffett e aprendemos muito com ele, A gente também gosta de aprender com os erros dos outros e até nisso, para quem leu a biografia, o Bola de Neve, aquele livrinho pequenininho de mil e pouquinhas páginas, consegue perceber muito disso. Aliás, até nisso já tem um mérito bom na vida do Buffett, porque uma pessoa em vida deixar que publiquem coisas que podem ser até negativas para ele, o que pode até manchar um pouco a biografia. A gente vê tanta: "Ah, não leio biografia porque o cara só vai..." deixar que falem bem. Nessa biografia você vê muito também do que não fazer com Warren Buffett. Enfim, mas para falar disso, a gente aqui é muito apaixonado pelo Buffett, mas trouxemos alguém que talvez seja 10 vezes mais apaixonado e mais consumidor do conteúdo de Warren Buffett. Estamos aqui de novo com Frederic von Tobel, ele que é um dos gestores, fundador da Vulcan Investimentos. Na primeira vez que ele veio aqui, já foi um sucesso. Ele passou várias lições sobre investimentos, sempre falando da filosofia de Value Investing. Se tornou um grande amigo nosso. Essa camisa que eu uso com muito orgulho aqui da Berkshire Hathaway foi um presente que o Fred deu para mim quando a gente foi lá para Omaha. Foi quando? Foi a 8ª vez que você tinha ido para Omaha naquela?
Frederico Vontobel:A 9ª.
Thiago Salomão:A 9ª vez que ele foi para Omaha no evento da Berkshire Hathaway. Um cara que é um super amigo nosso, membro do M3 Club, então faz parte ali da nossa comunidade, então tá ali junto com a gente em todas as esferas, além de ser um grande amigo, um mentor para gente, vai nos ajudar nessa conversa interminável sobre a história do Buffett. Você tá preparado, Fred?
Frederico Vontobel:Tranquilo, só calibrando um pouquinho, não sou 10 vezes mais apaixonado, eu sou um admirador do pensamento, da maneira, da forma de investir. Ele nos ensinou a agenda de como investir bem, a diferença de especulação e investimento. Mas eu concordo contigo, sim, tem muita coisa que eu aprendi e com que não aprendi. Então é importante a gente pontuar isso. Mas enfim, vamos lá, é uma conversa longa.
Thiago Salomão:Antes de começar o papo, só lembrando, não existe almoço grátis e nem podcast grátis. Então quero deixar aqui o meu agradecimento aos nossos patrocinadores Binance, a maior exchange de criptomoedas no mundo. São mais de 310 milhões de pessoas no mundo que transacionam pela Binance. Só para você ter uma ideia, em 2025, 34 trilhões de dólares foram negociados na Binance. Lá você pode comprar Bitcoin, Ethereum, mais de 400 criptomoedas com a maior liquidez do mercado, de forma simples, segura, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e usando o Pix. Então apareceu agora um QR code aí na tela, vocês podem abrir sua conta na Binance, Vai ter um link também na descrição, se você está ouvindo pelo YouTube ou ouvindo pelo podcast, você pode abrir a sua conta na Binance e fazer seus investimentos em criptomoeda por lá. Será que o Buffett ainda não entrou nessa vibe?
Matheus Soares:Zero cripto.
Thiago Salomão:O Charlie Munger tinha umas opiniões fortes sobre isso também.
Matheus Soares:Bem negativas.
Thiago Salomão:Enfim, e como você me deu esse presente aqui, vou até começar Te dando esse... Isso aqui poucas pessoas têm e cada pessoa que ganha isso me gera um problema, porque eu recebo uns 10 WhatsApps, mas você vai receber a nossa super camiseta do Market Makers.
Frederico Vontobel:Muito obrigado, Thiago.
Thiago Salomão:O tamanho é M, mas cabe em mim, então deve caber em você, Fred, porque essa camisa aqui cabe. Então é um M grande. A nossa polo do Market Makers. Espero que você use e abuse dela.
Frederico Vontobel:Obrigado, Thiago.
Thiago Salomão:Galera, só para dar um ponto de partida, Preparei aqui uma breve introdução do Buffett, né? Um homem que comprou sua primeira ação aos 11 anos, entregava jornal na adolescência, vendia chiclete, Coca-Cola, revista, bola de golfe, selo, fliperama e tudo que aparecesse pela frente. Estudou análise técnica antes de encontrar Benjamin Graham, transformou uma empresa têxtil decadente chamada Berkshire Hathaway em uma das maiores máquinas de geração de valor da história do capitalismo, e por mais de 60 anos ensinou o mundo a fazer uma coisa que parece simples, mas quase ninguém consegue fazer. Comprar bons negócios com boas pessoas a preços razoáveis e deixar o tempo trabalhar. Mas esse episódio não vai ser só uma homenagem chapa branca ao Oráculo de Omaha, até porque se tem uma coisa que Charlie Munger nos ensinou é a forma de pensar por inversão. E hoje a ideia também é inverter o Buffett. Não queremos olhar só para o gênio, mas também olhar para aquele homem talvez estranho, obsessivo, sovina, emocionalmente limitado, muitas vezes ausente como pai, dependente da esposa para funcionar socialmente e capaz de dar conselhos maravilhosos sobre a vida enquanto cometia erros profundos dentro da própria casa. Buffett nos ensina muito sobre como investir, mas talvez nos ensine ainda mais quando a gente observa onde ele falhou. Então, como eu bem disse na apresentação, a gente gosta de aprender com os erros dos outros. E também não existe aquela distinção do Mateus investidor, Mateus marido, Mateus pai, Mateus empresário. Somos todos uma pessoa só, né? Então não adianta nada a gente desenvolver só um lado e deixar o outro desconectado. Mas falando de resultados, né, Berkshire venceu o S&P em uma margem brutal de entre 1965 a 2025, foi um retorno de 17% ao ano contra 10,5% do S&P, segundo dados compilados pela Reuters, o que deixa, né, o Buffett um fenômeno estatístico, o outlier do outlier. Em toda a sua história como investidor. Então, vamos falar muito sobre a vida do Buffett. Eu separei aqui alguns tópicos, mas, Mati, quer fazer algum comentário inicial antes?
Matheus Soares:Eu acho que seria legal a gente começar do início, da infância dele, do início do Buffett. Você comentou ali que ele vendia Coca-Cola, vendia jornais, e acho que desde cedo ele era fascinado por números.
Thiago Salomão:E fascinado por dinheiro.
Matheus Soares:Fascinado por dinheiro, por quê?
Thiago Salomão:É bom a gente ancorar isso porque a obsessão do Buffett por dinheiro talvez explique muito do que ele fazia.
Matheus Soares:Exato, e pegar o contexto da época, a gente tá falando de 1930, né?
Thiago Salomão:Um ano depois da Grande Depressão.
Matheus Soares:Um ano depois da Grande Depressão, o pai que era corretor de Wall Street tinha acabado de ser demitido, então se falava sobre dinheiro na mesa do café da manhã, né? E desde muito cedo parece que o Buffett já sabia ou queria ser rico, né? Então ele chegou a vender, ele fala, ele chegou a vender mais de 500 mil jornais e ele ganhava 1 centavo por jornal. Ou seja, antes dele entrar na escola ele já tinha acumulado aí $5.000, né? Era bastante dinheiro.
Thiago Salomão:É, eu até, a reflexão que eu tive, né, sobre essa parte do Buffett é que Ele aprendeu sobre fluxo de caixa antes mesmo de aprender sobre valuation ou ler algum relatório de empresa. Ele já sabia o que fazia uma empresa dar certo na sua própria, seu empirismo de fazer as coisas antes mesmo de... Que é o caminho inverso do que todo mundo faz no mercado.
Matheus Soares:Exato. O próprio avô tinha um armazém, que inclusive a gente vai falar disso, mas o Charlie Munger foi um... Funcionário do armazém do Warren Buffett, do avô do Warren Buffett. E nessa época o Warren Buffett comprava Coca-Cola, ele comprava 6 packs de Coca-Cola e vendeu. Ou seja, ele comprava no atacado para vender no varejo. Ou seja, ele também ganhava dinheiro comprando Coca-Cola do avô, né Fred?
Frederico Vontobel:Yeah. Bom, agradeço, quero agradecer a oportunidade de estar aqui e falar sobre esse assunto. É um assunto que eu gosto, tem muita gente que poderia estar aqui com vocês para falar sobre esse assunto, mas agradeço você ter lembrado de convidar.
Thiago Salomão:Só antes de você começar a falar, Eu queria mandar um abraço para Donato Ramos, que também é uma pessoa que poderia estar aqui. Várias pessoas poderiam, mas o Donato foi a pessoa que nos indicou talvez o livro que mais nos marcou sobre o Warren Buffett, que é o—
Matheus Soares:"Tell Me Where I'm Going to Die to Not Go There". "Me diga onde eu vou morrer para não ir lá", do Peter Bevelin.
Thiago Salomão:Peter Bevelin retrata uma conversa de Charlie Munger e Warren Buffett, uma pessoa desesperada por conhecimento e o bibliotecário, uma leitura— maravilhosa que todo mundo deveria fazer essa leitura. Tô com vários livros desses em casa. Quer ler de novo? É tão bom que eu nem terminei. Eu tô lá faltando umas 50 páginas. Cara, não quero terminar esse livro, é muito legal. Mas é uma leitura deliciosa. Então um abração para o Donato, que também poderia estar aqui. A gente já pode até fazer outras edições, o Donato estaria aqui também.
Frederico Vontobel:Mas eu queria também dizer, Thiago e Mateus, de reconhecer o trabalho que vocês vêm fazendo para toda a comunidade investidora e para todo o Brasil. Porque o Charlie Munger dizia que a melhor coisa que alguém pode fazer para o outro é fazer com que o outro saiba mais, é compartilhar conhecimento. E isso é uma coisa muito boa e o podcast tem feito isso. Eu tenho uma vizinha que ela está sempre na academia com a Bárbara ouvindo vocês. Eu quando vou para o Osório, meus filhos sabem, vou ouvindo junto vocês. E sempre é muito bom você estar nessa cadeira que tanta gente boa, que eu admiro, tem sentado para conversar com vocês e a gente aprender. E a ideia hoje, espero poder contribuir, é para as pessoas entenderem o que a gente vê de bom, o que a gente pode aprender de forma positiva e também negativa com o Buffett. Eu, só para pontuar assim, eu acho que a vida, a importância da vida, tu ter cuidado da vida com Deus, a família, e do trabalho, né? Então o que eu aprendo com Buffett é na questão do trabalho. Eu sou cristão, né? O Buffett é agnóstico. Agnóstico é diferente de ateu. Ateu não acredita.
Thiago Salomão:Ele acredita que não acredita.
Frederico Vontobel:É, o ateu, exatamente, ele não acredita em Deus. O agnóstico não sabe, né? O Buffett é agnóstico. É uma pena porque o pai dele era presbiteriano, né? O sogro dele era pastor. O pai da Susan era pastor presbiteriano, mas ele nunca conseguiu entender. Ele disse que não sabe, né?
Thiago Salomão:Mas faz muito sentido Buffett ser agnóstico depois que você estuda tanto a vida dele, porque eu sinto às vezes que o Buffett tem até meio que uma preguiça de tudo que não envolve o dinheiro. Então talvez ele nunca se permitiu se dedicar a qualquer coisa que envolva o mundo espiritual, religioso, fraternal.
Frederico Vontobel:É, o que eu sinto muito, né? Inclusive uma vez eu levei para ele um livro, né? Porque quando a gente podia ainda ter o meet and greet, eu entreguei para ele Porque a Bíblia fala que sem fé é impossível agradar a Deus.
Thiago Salomão:Cara, você deu um livro em mãos pro Buffett?
Frederico Vontobel:Sim, duas vezes eu tive com ele, lá nas primeiras reuniões, 2007, 2008.
Matheus Soares:Caraca, Fred, isso aí é novidade, a gente não sabia dessa aí.
Frederico Vontobel:Mas não tive retorno, porque ele recebe muitos presentes. Imagina. E na verdade, até dizendo que, disse na dedicatória, que sabia que o pai dele gostaria que ele mudasse em relação a isso, porque os pais dele eram cristãos. Enfim, a Bíblia fala que sem fé é impossível agradar a Deus. Então, se não tem fé, não agrada a Deus. Então, essa é uma diferença bem importante que eu tenho em relação a ele. E outra é cuidado com a família, que estava falando, né? Ele realmente não teve o cuidado com a família. O filho dele, o Peter, dizia que às vezes achava que ele tinha um antolho. Antolho é aquela peça de couro que põe nos animais para enxergar só o caminho ou para não se distrair com as coisas do lado. Isso o filho dele disse. Então ele era focado só no negócio. O que fez dele o que ele é, a lenda que ele é, né? E é daí que então o nosso ponto aqui é entender isso, saber o que que a gente pode aprender dessa parte de investimento, que é o que ele tem de bom, que é o que ele tem de melhor para ensinar, né? O legal também, como tu tava falando, né, que na biografia isso mostra a integridade dele. Apesar dele não ter fé, ele é um homem muito íntegro. Isso ele aprendeu com o pai dele. Essa integridade ele demonstra quando ele deixa no livro dele falar as verdades, inclusive os erros que ele cometeu e que ele admite cometeu. Ele admite que 99% dele ter separado da Susan, não separou, não teve um divórcio, mas ela foi morar fora, é culpa dele. Assim como ele admitiu os erros de investimento dele. E isso não tem nenhum problema, porque quando tu investe, tu vai errar. Ele mesmo disse naquele depoimento do Congresso, quando ele foi defender Salomão Brothers, ele disse: "Percam dinheiro para a firma, eu entenderei. Percam um pingo de reputação, eu serei implacável." Porque quando tu erra, é uma curva de aprendizado, isso tu aprende. Então, ele admite os erros de forma muito clara, gosta de falar dos erros que ele cometeu também em investimentos. Só não erra quem não faz nada, isso meu pai sempre me disse, que quem toma risco tem que tomar risco calculado, tem que tentar minimizar os riscos, isso é a melhor forma de tu pensar. E às vezes tem risco que tu não consegue mapear. Então, acho que o importante a gente entender o que de bom a gente pode, e todos os investidores podem aprender com esse homem que tem um track record que ninguém vai bater. Não existe ninguém que vai fazer.
Matheus Soares:Com o montante dele.
Frederico Vontobel:É porque se a gente for pensar o seguinte, de 65 para cá, quando ele assumiu o controle da Berkshire, esses 19,7% que ele fez ao ano até o ano passado, 19,7% composto multiplicou a ação por 60 mil. É difícil a gente entender isso. Como assim multiplicou por 60 mil? O S&P nesse período subiu 10,5%, multiplicou por 460. Então essa diferença de 9,2% ao ano fez o S&P subir 460 e ele subir 60 mil. Esse é o efeito do juro composto que as pessoas não entendem.
Thiago Salomão:Porque parece tão próximo. Ah, foi 19 a 10, não é tanto não.
Frederico Vontobel:É composto. Eu fui ver também que o core CPI dos Estados Unidos, que é a inflação, aqui nós também devíamos ter o core, que tira energia e alimentos, né? O core CPI nesse período foi de 3,9%. Ou seja, inflação que tu comprava com 1 dólar em 1975, hoje é 10,50 centavos. Então multiplicou por 10 a inflação. Então ele até fala assim que ele nasceu na loteria do ventre, porque ele nasceu no lugar certo, na hora certa, homem, né? Ele comenta isso, ele teve uma sorte. Se ele tivesse nascido em outro lugar do mundo, No Brasil mesmo ele não teria feito o que fez, porque ele nasceu logo depois da grande, nasceu no começo da grande depressão dos Estados Unidos, e quando fala em depressão tem até a foto daquela mulher que tava, sentiu que dar para os filhos, as pessoas estavam deprimidas mesmo, desemprego em 25%, fazendeiros quebrando, foi um período muito difícil, ele até disse que ele nasceu em agosto de 1930, porque ele acha que o pai dele estava fugindo dos clientes e estava em casa, e aí que engravidou a mãe dele, né? Nasceu naquele momento assim do começo da Grande Depressão, toda aquela década foi muito difícil para a economia americana, e é como o Matheus estava falando, tiveram restrições na casa dele. Diz que a Leila, mãe dele, às vezes deixava de comer para o Howard ter o básico que comer. Howard, pai do Buffett? É, o Howard, pai do Buffett. Teve o avô também que era, né? E então foi um período de muita restrição. E foi nesse período, né, tentando entender também essa motivação dele, de muita restrição, não só para ele como para todos, né? E nesse período também disse que lá, além da dificuldade econômica, teve uma seca muito forte, chuva de gafanhoto nas casas lá onde eles moravam no meio-oeste. Foi um período muito duro. Mas nesse período que ele, com 5 anos, começou a vender chiclete na rua. E depois limonada. Com 6 anos, nas férias da família, num lago lá perto, ele comprava 6 garrafas de Coca-Cola por 25 centavos e vendia de porta em porta cada uma por 5. E ele fazia conta que estava ganhando 16% de margem, que era uma margem pequena também.
Thiago Salomão:Comprava 25 a 6, vendia 5 cada uma, ganhava 35 centavos.
Frederico Vontobel:Mas ele já fazia conta. E um amigo dele comenta que ele gostava de números no começo, Ele decorava a população das cidades da volta e o amigo dizia a cidade e ele dizia o número.
Matheus Soares:Uma memória fotográfica.
Frederico Vontobel:É, e ele sempre gostou muito de número e também com essa questão assim pela restrição, com 5 anos ele ganhou uma niqueleira que era para quando ele vendia chiclete, bala, já guardar as moedinhas ali, né.
Matheus Soares:Convenceu os amigos a colecionar bolinhas de golfe e depois começou a vender as bolinhas de golfe para eles.
Frederico Vontobel:Ele carregava taco de golfe para as pessoas e aí começou a procurar bolas de golfe perdidas para vender essas bolinhas de golfe, tá. E tudo isso pensando sempre em juntar um dinheiro. E ele já dizia assim que ele realmente, talvez pela restrição que ele teve no começo, lá nos primeiros anos da vida, é que ele quis sempre trabalhar.
Thiago Salomão:Pessoal, só uma pausa rápida no episódio para dar um recado importante. A gente está destrinchando a vida e a filosofia do maior investidor de todos os tempos. Eu sei que tem muita coisa para assimilar sobre a história do Warren Buffett. Por isso, nós do Market Makers preparamos um e-book totalmente gratuito que você pode ter acesso agora. É o "Outro Lado do Buffett". São 12 princípios que estamos discutindo aqui no episódio, mas agora eles vão estar no papel, com aplicação prática para o investidor brasileiro, para você conseguir sair do "entendo a filosofia" e chegar no "eu sei fazer análise". Está aqui na descrição e também tem um QR code que está aparecendo na tela agora. É só você baixar e ler com calma quando o episódio acabar. E tudo de graça para você ter o melhor conteúdo do Market Makers.
Frederico Vontobel:Agora, quando a pessoa pensa assim: "Ah, eu quero ser igual o Buffett", tem que pensar o seguinte, olha só, com 5 anos, nas férias, ele vendia de porta em porta Coca-Cola, né? Depois começou a fazer esse negócio de bolinhas. Com 11 anos, né, ele comprou a primeira...
Matheus Soares:Ele gostava de corrida de cavalo também, né? Ele ia até o hipódromo, catava os bilhetes...
Frederico Vontobel:Ele procurava bilhetes, ver se alguém não tinha botado fora um bilhete premiado, junto com os amigos, né? E depois ele fez uma revistinha olhando as estatísticas, né, dos quais cavalos ganhavam mais, para tentar vender. Só que aí proibiram ele de fazer isso.
Thiago Salomão:Eu achei muito louco, porque assim, uma coisa é você comprar uma Coca-Cola e vender, né, uma outra coisa você as bolinhas ali. É uma coisa, até mistura um pouco de malícia com, porque uma criança de 11 anos começar a fazer o levantamento estatístico dos cavalos do para poder mostrar em qual que valia mais a pena apostar. Isso aí até mostra uma sagacidade.
Frederico Vontobel:Muito, muito. E ele mostrou também eficiência. Quando ele tinha 12 anos, o pai dele se elegeu deputado federal, foi para Washington, ele não gostou, aí ele pediu, como ele estava morando longe de Washington, acharam uma casa muito longe, ele disse que não estava bem lá, voltou para Omaha morar com os avós. Aí trabalhava na grocery store, que era o mercado, armazém da época da família. Onde o pai dele e o tio dele eram muito duros com todos que trabalhavam lá. E isso também deu uma disciplina muito grande para ele.
Matheus Soares:Ele começou a vender jornal lá nessa época, não foi?
Frederico Vontobel:Aí quando ele foi para Washington depois, que aí ele foi para no ano seguinte, aí eles conseguiram uma casa em Washington. E aí ele não queria, mas foi lá porque o pai era deputado federal. Aí tu imagina um filho de um deputado federal com 12 anos entregando 500 jornais por dia de porta em porta. Ele acordava às 5 da manhã E ele tinha 5 rotas e ele organizava de tal forma que tinha um prédio lá onde ele largava uma pila no 8º andar, outra no 4º andar para facilitar, e depois ele passava os andares entregando, deixava a cobrança no envelope para o zelador porque ele não tinha tempo de cobrar todo mundo. E além disso, ele pegou a distribuição também do concorrente, que era o Times, porque se alguém cancelava o Washington Post, ele fazia a mesma rota, entregava o concorrente. E além disso, ele olhava as revistas que ficavam no saguão e via quando é que ia vencer Porque dizia na etiqueta quando é que ia vencer a revista, né? E ele já ficava pronto para renovar a venda daquela revista. Ou seja, ele ganhava com 14 anos $175 por mês, que é o que ganhava uma pessoa de 25 anos na média na época.
Matheus Soares:E convertendo para reais isso até hoje, cara, sei lá, R$700, R$800.
Frederico Vontobel:Ganhava bem, né? Então, só para entender, e sempre pensando em como ser mais eficiente. "Como entregar mais jornais depois?" Aí no ano seguinte, com 15 anos, um colega dele comprou um fliperama, ele arrumava fliperama, comprou por $25 e ele viu que o amigo conseguia arrumar. Aí eles pensaram, eles sugeriram assim: "Sabe, a gente põe no barbeiro da esquina para cobrar, porque tinha que botar fichinha, a gente divide o lucro com ele." E na primeira semana tiraram 14, 7 para cada um. E aí viram que era um bom negócio, começaram a comprar máquina usada, barata, entre 25 e 75 dólares, e colocar nas barbearias. E eles botaram o nome na empresa porque eles eram garotos, né, para ninguém achar que estavam preocupados com a máfia, que podia ir contra eles. Botaram o nome na empresa. Quando alguém dizia: olha, tu não consegue uma máquina mais nova, melhor? Aí eu vou falar com o chefe. Não tinha chefe, ele dizia só para, né. Mas tudo isso com essa engenhosidade para fazer o negócio funcionar, né. Então, e depois quando ele saiu, aí ele foi estudar em Só não perdeu a linha de raciocínio e foi estudar em Wharton porque o pai dele, ele já não queria estudar porque ele já tinha lido tanto livro sobre negócios que ele não queria estudar, mas o pai dele insistiu para ele ir para Wharton Business School, que é ali na Pensilvânia. Ele ficou 2 anos lá e aí depois...
Matheus Soares:Ele era muito ruim de comunicação, não se comunicava bem, né Fred?
Frederico Vontobel:É, ele tinha dificuldade, ele era muito inteligente, mas com as gurias também ele tinha dificuldade. Mas ele pediu para ir estudar depois em Lincoln, Universidade de Lincoln, que é perto de Omaha. E aí lá com 19 anos, ele tinha 50 garotos em 6 condados que ele comandava para entregar jornais. Ele com 19 anos, ele escrevia para mim assim: "Agora estão me chamando de senhor Buffett." Com 19 anos, porque ele tinha 50 guris que entregavam jornais em lugares onde não tinha tanta concentração urbana, né? Mas ele era o responsável pela entrega do jornal lá. Então só pra gente entender o que estava na cabeça dele, sempre juntando dinheiro, não gastava nada.
Matheus Soares:E inclusive foi nessa época, aos 19 anos, que ele tenta entrar em Harvard.
Frederico Vontobel:Ele tentou entrar em Harvard, não conseguiu.
Matheus Soares:A entrevista falou que durou acho que 5 minutos e mandaram ele voltar no outro dia.
Frederico Vontobel:Então, tô dizendo só isso porque às vezes o pessoal, aquela história, né, o pessoal acha assim que o sucesso acontece da noite pro dia. Não, tem toda uma história por trás, tem que entender realmente assim a formação que ele teve sempre pensando e sempre Falando nisso, e só, desculpa aproveitar esse gancho, primeiro pedir um favor aí para produção.
Thiago Salomão:O Renan, se você puder pegar o livro ali do Bola de Neve para a gente botar aqui na mesa, só para a gente poder falar um pouquinho dele também, mostrar o livro. É esse livro aqui, ó, com a capa preta aí, ó. Acho que as pessoas não acreditam que sucesso vem da noite para o dia, mas é isso. Só esses 5 minutos que a gente conversou aqui já mostra o quão difícil é replicar uma história, seja ela qual for. E meu Deus do céu, olha só, olha, a gente tem quase que quebrou. A gente tem um antifrágil aqui. Ideia genial, Renan, muito bom, obrigado. Jogar o negócio aqui, ó, vou deixar aqui na mesa, só deixar na câmera aberta aí para o pessoal. Aqui, ó, tá aqui. Na câmera o livro, e tá aqui o livrinho que o Renan jogou aqui para mim. Ainda bem que eu tô treinando bastante de manhã, pude segurar. Mas o, acho que o grande ponto aí, primeiro, a, como é que era ali, a loteria do ventre, né?
Frederico Vontobel:Ele disse, ele sempre reconheceu que ele ganhou na loteria do ventre de ter nascido no lugar certo, na hora certa.
Thiago Salomão:E essa é uma coisa muito, para quem leu Outliers do Malcolm Gladwell, o quanto o externo influencia na sua vida, aquela coisa do "eu fiz por merecer isso", não. Muito do que acontece na sua vida, aliás quase tudo, tem a ver onde você nasceu, a época que você nasceu.
Matheus Soares:A sorte, a aleatoriedade.
Thiago Salomão:Uma aleatoriedade muito caótica, porque foi um ano depois da grande crise, então ele já tinha enraizado essa coisa do dinheiro, olha a falta do dinheiro que causa, olha o que a gente está sofrendo, preciso de dinheiro. Num país extremamente capitalista, você tem... Então, se ele não tivesse nascido no México, no Brasil, em outro lugar, certamente não seria Warren Buffett. Ter nascido homem, acho que também é uma coisa fundamental numa época em que 100 anos atrás era óbvio que se ele não fosse homem, não teria toda essa flexibilidade ou acesso a essas coisas. Então, quanto isso tudo influencia, obviamente tem o fator Buffett, né, que o diferenciava de todas as pessoas que nasceram nas mesmas condições, mas as condições também justificam muito disso, né. E qual outro ponto que eu ia falar da história dele? Aí, e acho que também acabava compensando essa dedicação profunda a algo Acho que o ponto positivo e negativo disso, você só vai conseguir ter com 11 anos de idade essa sagacidade de ser um intermediador de apostas no hipódromo.
Matheus Soares:Um empresário, né?
Thiago Salomão:Se você nos 6 anos anteriores você já estava se dedicando a isso. Imagina a gente aqui estudando Warren Buffett, onde a gente vai estar daqui 6 anos se a gente continuar estudando todos os dias? A gente já vai saber mais. E isso com todas as outras coisas que a vida adulta nos causa. Agora, quando você é criança, você não tem outras preocupações, é tudo muito fresco, é muito virgem, então você absorve muito mais esse conhecimento. Então ele já foi treinado desde o comecinho, quando o cérebro está vazio, a ter tudo isso. Então isso te ajuda a ir gerando esse conhecimento de segundo nível, terceiro nível, quarto nível. Pô, ele se tornava uma concorrência até desleal. Por outro lado, ele não desenvolveu boa parte dos, talvez, os soft skills que uma criança desenvolve tendo uma vida normal ali, convivendo, interagindo.
Matheus Soares:Inclusive, ele fez o curso, né? Com 19 anos, ele fez o curso do Dale Carnegie.
Frederico Vontobel:Isso.
Matheus Soares:Inclusive, tem um livro famoso, né? Que é o "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas". Justamente porque nessa época, se salvo engano, Ele tava tentando captar dinheiro com 20 anos, né, que ele já tava querendo montar o negócio dele. Aliás, a gente pode até dar um passo atrás, antes que ele fez a Universidade de Columbia, né, mas ele tava querendo explorar melhor a comunicação dele, fez o curso. Ele fala assim que o curso foi pago porque ele conseguiu, ele conseguiu, ele conseguiu encontrar a Suzy, que é a mulher dele.
Thiago Salomão:Exato, né, até hoje ele tem, né, a plaquinha do curso que ele fez, ele fala que foi o curso mais importante que ele fez. Acho que essa frase por si só deve ter feito o Carnegie vender os livros para pagar as próximas gerações, porque é absurdo a influência que esse livro— Confesso que eu li, não me impactou tanto, mas talvez— Me impactou, eu li e me impactou muito.
Matheus Soares:Eu li quando era novo.
Thiago Salomão:Eu li antes da gente ir para Omaha. Talvez eu acho que já alguma das habilidades ali eu já colocava ali no dia a dia. Talvez para o Buffett foi muito mais importante.
Matheus Soares:Porque o nome influenciar pessoas não é legal, tem uma conotação negativa. Tem uma conotação negativa.
Frederico Vontobel:Livro é de manipulação, que é ruim, mas não é isso, né?
Matheus Soares:Não é isso.
Frederico Vontobel:Meu pai tem uma edição de 1957 que ele comprou na livraria O Pidio Back em Santo Ângelo, que tá comigo, essa edição bem velhinha, o livro, né? E meu pai gostou muito de ler, né? E eu tenho esse livro e eu acho fantástico. São dicas assim simples, importantes, né, que ajudam até nos relacionamentos com a esposa, com os filhos, com os amigos, com os irmãos.
Matheus Soares:Ele fala algo simples, né, Fred? Você tem que lembrar o aniversário das pessoas, tem que perguntar se a família tá bem, lembrar o nome, né? Lembrar o nome, sabe?
Frederico Vontobel:Uma coisa tão óbvia, né? Não reclamar, não criticar, não condenar, né? Então, coisas assim, dicas simples para vida de relacionamento humano, que é uma coisa fundamental para sucesso em qualquer área, né? É um veterinário que pode ser um excelente veterinário para cuidar dos animais, se ele não souber se relacionar com os clientes que são os donos dos animais, ele não vai prosperar, né? Então são coisas que valem para tudo.
Thiago Salomão:Galera, só eu vou fazer o papel aqui do dono da linha do tempo. Só para a gente não se perder onde a gente tá, porque a gente acabou, já falou de Dale Carnegie, já tava com 19, aquele tava com 19 anos.
Frederico Vontobel:Uma coisa importante que eu ia comentar, 1940, ele disse que os homens que mais influenciaram ele foi o pai dele e depois o Benjamin Graham, né, que foi com quem ele trabalhar, foi trabalhar tanto, aquele botou do filho, né, o nome de Howard Graham, nome do pai e do Graham que ele trabalhou, é o segundo filho dele. Mas quer dizer assim, é que o Howard Ele foi eleito, ele achava que tinha escrito até uma carta na noite anterior, o pai dele, em 1942, reconhecendo a derrota, e foi eleito, acordou com uma surpresa que tinha sido eleito, porque ele falava muito contra o Roosevelt, que o Roosevelt na época estava gastando muito, ele achava que o governo tinha que ser muito pequeno, era um republicano o Howard, mas o que eu acho muito legal de falar do Howard mostrando o caráter dele que o Buffett leva, que ele fala muito na questão ética, que é fundamental nos negócios, é que ele foi eleito com um salário de deputado. No primeiro ano, os deputados aumentaram o salário, era de $10.000 para $12.500. E o Howard devolveu os $2.500 porque ele disse que ele foi eleito para ser deputado com $10.000, não com $12.500 que os próprios deputados tinham aumentado. Isso mostra o caráter da família, né? Então ele aprendeu com o pai essa questão muito forte do caráter e também de ter um pensamento independente, né? O que é o pensamento independente? Não precisa todo mundo concordar contigo. Não é porque todo mundo concorda que tu tá certo, nem porque todo mundo discorda que tu tá errado. "Tu tem que ter a tua opinião, tu tem que ter o teu pensamento." Isso também foi uma coisa que ele sempre agradeceu muito, e registra isso, ele perdeu o pai com 30 e poucos anos, mas o quanto isso foi uma influência do pai dele, de que tu tem que saber pensar e fazer o que é certo independente da circunstância, o que tu acha certo.
Matheus Soares:Que ele chama de "inner scorecard".
Frederico Vontobel:Exatamente, o placar interno. Ou seja, tu tem que ter o teu boletim, não é o boletim da escola, não é o boletim o que os outros acham. Tu tem que fazer o que tu acha que é certo, independente da circunstância. E ele mostra isso ao longo da carreira, a gente vai comentar depois alguns negócios que ele fez, que demonstram o quanto isso ajudou ele e esse caráter foi importante na vida dele. Só quis pontuar porque isso foi em 1942. Uma coisa importante também de falar é que quando ele com 11 anos comprou 3 ações da Sears Service, ele comprou por $38. 38,5 para ele e para a irmã, para a Doris, que era mais velha. Ele era o do meio, tinha a Doris mais velha e a Roberta mais nova. As ações caíram para 27 dólares, ele ficou assustado porque ele tinha ganho aquele dinheiro com muito esforço. Quando a gente fala em 38 dólares em 1941, não é 38 dólares hoje, era muito mais do que... A gente viu que a inflação de 75 para cá multiplicou por 10, então para ele era bastante dinheiro. Mas quando voltou para 40, ele vendeu. E depois ele viu essa ação indo para 200. Aí ele se deu conta assim de como a paciência também nos negócios é importante. Antes mesmo de ter lido o Graham, que depois explicou melhor para ele sobre as flutuações do mercado e como isso é bom para o investidor e não ruim, depende tudo de como é que tu vê. E muita gente olha do lado negativo e não consegue entender o lado positivo disso. É um assunto bem profundo assim que a gente pode falar mais depois, né? Vamos falar quando a gente chegar na no Graham, mas ele viu que ele se assustou quando caiu para 27, quando chegou nos 40 com um pequeno ganho ele saiu fora, depois ele viu essa ação ir para 200.
Matheus Soares:Ele era grafista nessa época, criança dele, né?
Frederico Vontobel:É, porque ele ia nos... Grafista?
Thiago Salomão:Analista técnico?
Frederico Vontobel:Analista técnico. E ele ia também no prédio onde o pai dele trabalhava e ficava anotando os preços das ações, na época não tinha internet, né? As ações chegavam pelo telégrafo e ele já ia pegando...
Matheus Soares:Não tinha gráfico, né, Fred? Você tinha que montar o gráfico na folha.
Frederico Vontobel:Então ele estava procurando uma forma de como ganhar dinheiro também nesse mercado. E aí foi quando, com 19 anos, que ele leu o livro. Quando ele estava indo lá, ele leu esse livro quando ele estava lá na Universidade de Nebraska, em Lincoln, que era para concluir o college, antes de aplicar para Harvard ou para Columbia. E um amigo dele que morava junto com ele disse que ele ficou encantado com o livro. Disse que ele disse: "Pô, agora achei, eureka, descobri, está aqui, é isso aqui mesmo, agora eu entendi." O Investidor Inteligente, escrito em 1949 pelo Graham.
Thiago Salomão:Eu pensei que estava falando do livro de análise técnica.
Matheus Soares:Não, não, não, aqui já estamos, ele já está com 19 anos aqui, 1949.
Frederico Vontobel:E até voltando um pouquinho para a gente entender a importância de ter, de o que ele fez, né? Quando ele buscou por 60 bilhões ganhando 19,7% ao ano, né, contra 10,5% do S&P, isso não foi liderar. Isso que é importante as pessoas entenderem. Quando a gente fala desse resultado hoje, não foi todo ano 19,7%. Lógico. Não, tiveram 11 anos negativos. Teve ano que caiu 48%.
Thiago Salomão:A gente até antes de gravar estava falando da sequência nos anos 70, que ele cai por 3 anos 50% com o S&P flat.
Frederico Vontobel:Eles mesmos dizem, o Munger falava que eles viram 3 vezes cair 50% a ação. E eles não se desesperaram, pelo contrário, ali que eles estavam mais animados, porque eles viram que era oportunidade de comprar mais. Foi, eu até trouxe aqui para não errar, mas em 1973 as ações da Berkshire caíram 2,5%, no ano seguinte caíram 48,7%, acumulando uma queda de 51%, e no ano seguinte subiram 2,5%, então em 3 anos ele estava caindo 48%. Imagina quem tinha ação, muita gente nessa hora ficou incomodada, especialmente porque em 74, quando ele caiu 48,7%, O S&P caiu 26, ou seja, ele caiu 22 pontos a mais que o S&P daquele ano. E no ano seguinte, quando ele subiu 2, o S&P subiu 37. Então ele estava há 3 anos com metade, quem estava com ação da Berkshire estava na metade e o S&P já tinha recuperado. Então ali naquela hora qualquer um dissesse: "Pô, esse cara aqui não sabe o que está fazendo, está errado." Só que depois, no ano seguinte, subiu 129. Então, só para dizer assim, que não foi linear.
Thiago Salomão:A gente vai chegar nessa parte, mas já para ancorar isso, eu lembro desse trecho no livro que hoje com a internet, até o nosso trabalho que você falou, como o nosso trabalho ajuda a educar os outros, mas por outro lado, o nosso trabalho dá muita visibilidade e muito acesso a muitas pessoas que talvez no passado não tinham espaço para dar tanta opinião na internet. Eu fico imaginando nos dias de hoje um gestor com seus 40 e poucos anos, que era a idade do Buffett na época, né?
Frederico Vontobel:Exato, 44.
Thiago Salomão:Que já estava tendo problemas dentro de casa, vinha de uns ótimos resultados, aí começa a entregar mal. Aí eu fico imaginando, putz, certeza que iam estar assim na internet: "Perdeu a mão." "Caramba, perdeu a mão, não consegue cuidar da família, está com problema em casa." Perdeu, doidou. Ah, esse cara aí já era, já. E olha o que aconteceu.
Matheus Soares:Com uma diferença importante aí do Warren Buffett nesse momento para gestores, né? A Berkshire não é um fundo de investimento, é de uma empresa. Então talvez se fosse um fundo de investimento, ele não aguentaria 3 anos, porque ele ia sofrer resgate.
Thiago Salomão:Exatamente.
Matheus Soares:Então essa é uma diferença grande do que que o Warren Buffett faz Pega uma empresa e compra negócios a partir dele versus um fundo.
Frederico Vontobel:E por isso também que ninguém vai repetir o que ele faz, não vai ter outro Warren Buffett em lugar nenhum do mundo, a não ser que faça exatamente o que ele fez. Porque ele, adiantando um pouquinho só para explicar o que eu estou querendo dizer, depois que ele terminou de trabalhar com Graham, que ele estava com 25 anos lá em Nova York, ele voltou para Omaha e fez as sociedades, as partnerships. Primeiro investiram 7 pessoas com ele. Quem eram as 7? Era a irmã e o cunhado, a tia dele que era solteira, irmã do pai dele, mais nova, um colega de Wharton, da Pensilvânia, e a mãe desse colega, um advogado e mais um amigo dele. Essa foi a primeira partnership que entraram com $105 mil e ele com $140 mil, que é o que ele tinha na época. Depois foram entrando mais parceiros, mas qual era a condição nessa época? E ele fez lá regras básicas, ele fez: "Eu vou prestar conta uma vez por ano, não é uma vez por mês, é uma vez por ano. Eu não prometo resultado. Eu tenho que ser avaliado comparativamente ao Dow Jones na época. Se eu perder um ano ou dois anos pro Dow Jones, então não é em relação à renda fixa. Se eu perder pro Dow Jones por um ou dois anos não tem problema, se eu perder por três já começa a endividar, se eu perder por cinco aí eu mereço tomate", ele dizia. Em cinco anos, então tem diferença de cinco anos. Mas o que é legal também é que ele disse o seguinte: "Olha, eu vou pagar até 6% do que eu render, eu não cobro nada. Depois de 6%, tudo que eu conseguir acima de 6%, 75% é de vocês e 25% é meu." Ali que ele fez o grande dinheiro dele, porque ele começou nessa parceria investindo junto com os parceiros, no final de 10 anos eram 100 parceiros, médicos e owner e pessoas.
Matheus Soares:Só um detalhe, Fred, desculpa te cortar, só para o o espectador vê, nos primeiros 5 anos o Dow Jones deu 74% e os investimentos do Buffett renderam 250%.
Frederico Vontobel:Então, ele foi muito melhor e ele ganhava 25% do que cedia 6%. Então, ali que ele fez o grande dinheiro dele, naqueles primeiros 10 anos.
Matheus Soares:E ficou milionário aos 30 anos.
Frederico Vontobel:Exato. E aí, quando chegaram, você falou dos primeiros 5, mas nos 10 também, como as ações estavam baratas naquela época, Ele performou muito bem, até porque o patrimônio era menor, até que ele comprou a Berkshire. E depois que ele comprou a Berkshire, quando em 1969 ele ficou só com as ações da Berkshire, ele deixou de ser um gestor para ser o CEO da Berkshire, que é uma empresa de capital aberto que investe em outros negócios, que esse aqui é o histórico da Berkshire, e ele ganhava $50 mil por ano para ser o CEO da Berkshire, e agora por último ele ganha $100 mil por ano. Nenhum CEO da empresa brasileira acho que ganha menos que ele como CEO da 9ª maior empresa americana, até o ano passado. Então, ninguém vai fazer o que ele fez. E com isso, mas é o que o Beto falou, ele não tinha mais o risco de o pessoal tirar dinheiro. O dinheiro ele estava investindo através de um instrumento que era a Berkshire, do qual ele tinha mais de 30% das ações. Então, o dinheiro estava lá. Se alguém quisesse vender ação da Berkshire, vendia, mas não tirava o dinheiro da Berkshire, que ele nunca pagou dividendos, porque ele justamente sabia que se ele pudesse compor esse recurso, isso ia crescer. Então é realmente um caso único. O maior problema do gestor hoje, da gente que tem a cota diária, que é uma das piores coisas que tem, porque a cota oscila todo dia, é isso. Pouca gente tem paciência e essa visão de longo prazo. Voltando um pouquinho também para esse resultado dele, que é por isso que a gente está falando dele aqui.
Matheus Soares:Acho até, né, Fred, que assim, a gente falou dessa construção de patrimônio dele, mas essa filosofia de investimento dele era calcada na filosofia do professor dele, que era o Benjamin Graham, que escreveu o livro Investidor Inteligente e que foi professor de Columbia Business School. Ele não vai para Harvard, vai para Columbia, aprende a analisar empresas comprando o que ele O que ele fez uma analogia como bitucas de cigarro, que ele não comprava empresa boa, ele comprava aquela empresa que tinha ativos e que deveria valer mais por conta desses ativos que ela tinha. E ele até falava por que era bituca de cigarro, porque era de graça, você encontrava na rua e dava para ter ainda uma tragada.
Frederico Vontobel:Isso.
Thiago Salomão:E que em inglês o nome fica até mais legal. Cigar butt.
Frederico Vontobel:Cigar butt, certo. E depois ele mudou um pouco o estilo, porque ele cresceu muito, né? Mas voltando a esse resultado de multiplicar por 60 mil com 19,7, eu gosto de dizer, não está na nossa cabeça essa questão da progressão geométrica. Tem dois exemplos só que vale a pena comentar aqui para as pessoas entenderem porque isso é educação financeira, que as escolas brasileiras não ensinam e poucos lugares ensinam, que é fundamental, porque o Einstein disse que o juro composto é a oitava maravilha do mundo. "Quem entende ganha, quem não entende paga." Infelizmente no Brasil com esse juro absurdo que a gente está vivendo, especialmente porque o governo é quem mais toma dinheiro e paga esse juro, porque tá com as contas que não estão boas, faz com que todo mundo tenha um juro muito alto, tem muita gente pagando esse juro que é impagável, absurdo o juro composto. Mas o Einstein dizia: "Quem entende juro composto ganha, quem não entende paga." Tem uma coisa que eu até mandei para meus filhos esses dias. Se perguntasse para vocês: tu quer ganhar 1 milhão agora, te dou 1 milhão agora, ou tu quer ganhar 1 centavo que vai dobrar a cada dia por 30 dias? Que que tu escolhe? 1 centavo. Tu prefere 1 milhão de reais agora ou 1 centavo, 1 centavo de real que vai dobrar a cada dia por 30 dias? Que que tu prefere?
Matheus Soares:Eu vou preferir 1 milhão.
Frederico Vontobel:A gente pensa assim automaticamente: "Não, eu quero 1 milhão." 1 centavo dobrando, nós estamos falando de 6% por dia em 30 dias, dá 5.300.000. No 26º dia está em 600 e poucos mil, no 27º vai para 1.300.000, depois 2.600.000 e 5.700.000. Então, esse é o juro composto. Quando a gente fala que a Berkshire Hathaway pagou 60 mil, um ano atrás era 48 mil. É que 20% sobre 48 mil dá 60 mil. Não, não dá 60 mil, é que foi 25% no último ano, o que rendeu a ação da Berkshire. Mas é só para a gente entender que quando faz a conta de trás para frente é muito mais. Outro exemplo é aquela história da lenda do xadrez, que o cara que inventou o xadrez disse para o rei, o rei disse: "Pô, mas que maravilha que tu inventou, como é que eu te pago?" "Não, tu me dá 1 grão de arroz dobrado a cada quadro do xadrez, que são 64." O rei achou: "Isso é fácil." Isso aí vira 18 quintilhões de grãos, porque não é 30, são 64 vezes que tu tá dobrando. Então, quando tu pensa o Buffett, e uma coisa importante também dizer assim, né, pra entender um pouco dele ser sovina, e acho que até demais, acho não, tenho certeza, né, o aspecto negativo dele, muitas coisas negativas foi ele ter errado com a família e com outras pessoas por ele ser sovina, mas ele mesmo assim, uma vez perguntaram pra ele uma coisa interessante também, como é que ele sentia sendo milionário? Eu nunca mudou nada para mim, eu sempre tive o que eu quis. E isso me faz lembrar uma coisa que eu tava lendo ontem de noite, eu tava vendo, tava de novo lendo ontem de noite Eclesiastes, que foi a última carta que Salomão escreveu, né, Salomão, rei de Israel. E lá tem uma frase que eu achei interessante, que ele disse assim: é melhor tu te contentar com o que tu tem do que tá sempre buscando mais. O que me chamou atenção? Não é errado buscar mais, não é errado o que Buffett fez, mas é muito melhor te contentar com o que tu tem. E ele se contentou com o que ele tem porque ele sempre manteve as mesmas coisas. Então ele sempre disse assim: eu nunca quis fazer isso para comprar Ferrari, para comprar um iate. Então isso é uma coisa interessante que serve para todos nós e serve para a vida, porque se tu não tá— até o livro do Morgan Housel, Psicologia Financeira, aborda isso de uma forma muito interessante. Que eles têm dois escritores lá, estão num jantar e tem um advogado, tá dando uma festa gigante. E aí um cara, o escritor, um diz pro outro assim: "Mas eu tenho uma coisa que ele não tem." "O que que é?" "O suficiente." Exato.
Thiago Salomão:É que o primeiro fala assim: "Poxa, já parou pra pensar que você nunca vai ter tudo isso que ele tem?" Aí falou: "Não, mas eu tenho algo que ele não tem." "É o suficiente.
Frederico Vontobel:Todos nós podemos ter o suficiente." E ele se contentou com isso. Por que ele fica com 100 bilhões? Porque uma vez perguntaram lá numa reunião, nos 14 microfones espalhados lá no no Kiyote Plaza, né? Por que que tu não aumenta o salário? Tá fazendo tão bem para nós. Ele disse: olha, não consigo comer mais hambúrguer, tomar mais Coca-Cola. Ou seja, ele gosta das mesmas coisas, né? Sempre cuidou da saúde, claro, ele sempre procurou nunca ficar com sobrepeso porque ele sabia que isso podia fazer mal para a vida dele, né? O que também foi uma coisa sábia ele cuidar disso. E ele às vezes, ele se limitava a comer 1000 calorias por dia para não passar Ele precisava emagrecer, né? Mas essa mensagem assim de, porque se tu não te contenta com aquilo, tu vai estar sempre sofrendo, né? E muita gente se coloca em apuros, se alavanca, faz coisas que não deve por não estar contente com o que tem ou por se comparar com outra pessoa. Isso faz muito, isso é um problema muito grande, né? Alavancagem, coisa que ele também nunca gostou foi de alavancagem.
Thiago Salomão:E bom, além do Buffett, isso é algo que quando você conhece o Buffett você já começa a se se familiarizar com esses hábitos simples dele. Lendo a história do Buffett desse livro, você vê uma certa patologia em algumas coisas também. Então também acho que vale a pena, mas de fato é melhor você se contentar com o que você tem, porque talvez esse seja o grande problema das pessoas que se tornam ricas, ricas financeiramente. E a gente teve até esse papo com o Rodrigo Silva, que a gente trouxe o Rodrigo Silva aqui.
Frederico Vontobel:Eu ouvi, muito bom.
Thiago Salomão:E até um dos highlights iniciais, ele fala uma coisa, uma verdade desconfortável. As pessoas, nem todas as pessoas estão preparadas para serem ricas.
Frederico Vontobel:Porque faz mal ficarem ricas.
Thiago Salomão:Faz mal para caramba, porque você não... Uma coisa é você tomar decisões, você se alavancar com R$1.000. Agora você se alavancar com R$1 milhão, a dor vai ser muito maior, porque... Faz o paralelo com a bolsa. Você pega uma... Porque tantas incorporadoras quebram, porque você precisa ter muito dinheiro para fazer os projetos, você se alavanca demais, um errinho de endividamento e você... Ganância.
Frederico Vontobel:A dor é muito forte. Cai na tentação de querer mais e se atrapalha por causa disso.
Thiago Salomão:Mas fazendo o papel da pessoa chata aqui, eu queria voltar na universidade. Qual foi a universidade? Por que ele não entrou em Harvard? E aí ele fez Wharton, é isso?
Matheus Soares:Não. Fez uma entrevista em Harvard, né, e a entrevista não durou 5 minutos. O entrevistador não gostou do Warren Buffett. E daí ele decide ir para Columbia porque ele tinha lido o livro do Benjamin Graham e sabia que lá quem daria aula para ele seria o autor desse livro que ele tanto gostou, que era o Benjamin Graham.
Thiago Salomão:E só eu conversei aqui com meu amigo ChatGPT sobre a analogia de 1 centavo cada dia, de fato, dá 5.368.000, no dia seguinte já vai para 10 milhões. Então, se o mês tiver 31 dias, a pessoa vai estar com 10 milhões de reais.
Matheus Soares:Para quem estiver ouvindo a gente, 1 centavo se quiser ajudar aqui.
Frederico Vontobel:Não é 90% do que o Buffett, do patrimônio que ele tem hoje, ele conquistou depois de 65 anos. Claro, ele conseguiu ficar vivo também, até os 95 que ele tem hoje. Então isso também, uma vez eu vi, ele não é só melhor como é o mais velho também, isso ajudou, né, porque ele conseguiu, só que na verdade o composto, o juro composto, o maior efeito está lá na frente, né, quando tu faz de trás para frente que tu entende. Outra coisa que explica o juro composto é que se tu pegar uma folha de ofício A4 e dobrar a altura dela, quantos dias leva para chegar na altura do Pico da Neblina, que parece que são 3.800 metros? Isso eu li num livro Fugiu o nome agora, mas enfim, são 28 dias. Aí pega uma folha de ofício, não é possível, tu vai dobrar, continua assim isso aqui. É que pensa o seguinte, 3.800, da 28ª para 27ª dobra, são 1.900, da 27ª para 26ª, né, são 800. E aí então 800 e 950, depois 475. Então quando tu vê lá Então, o composto não é só a taxa de juros, mas o tempo. Então, por isso que tem que ter paciência, por isso tem que olhar o longo prazo.
Matheus Soares:E outra coisa aqui... E aí, até falando da fortuna do Buffett, ele fez 1 milhão com 30 anos, 25 milhões com 40 anos.
Frederico Vontobel:Então, 10 anos ele conseguiu... E nesses anos aqui que a ação caiu 50%, Eu já li os relatórios anuais, ele não comenta sobre o preço da ação, eles comentam sobre as empresas que eles estavam investindo. E foi a vez que ele estava mais, como é que ele dizia que ele estava nessa época aqui? "Eu estou como um tarado num harém", porque estava com vontade de comprar tudo. É a expressão que ele usou, está no livro. Perguntaram para ele assim, estava todo mundo deprimido.
Thiago Salomão:Talvez 50 anos depois essa expressão não cairia tão bem, talvez o Buffett teria problemas de cancelamento hoje em dia.
Frederico Vontobel:Só estou dizendo o que está no livro. Mas enfim, é porque estava todo o mercado deprimido, ninguém queria comprar e ele vende tudo barato, ele não estava preocupado com os preços para baixo, ele até fala o seguinte, até isso é uma coisa que às vezes eu pensando, às vezes eu custei entender, porque a gente tem a tendência de sofrer quando o mercado cai, só que se aquele dinheiro é investimento, se tu não depende daquilo para viver e tu vai estar sempre comprando, as empresas estão dando resultado, elas mesmas estão recomprando e elas vão dar lucro. Eles assim, se tu vai comer um hambúrguer, toda vez tu quer que o preço do hambúrguer caia ou suba? É melhor que caia, você vai poder comprar mais e mais barato. Então, a gente tem a tendência de olhar o curto prazo e querer que as ações subam rápido. Ele é o contrário, nessa época, a ação dele estava caindo e ele estava feliz porque ele estava vendo que tinha muita coisa barata e as empresas continuavam gerando resultado, que é o que importa. Se a empresa gera resultado com o tempo, o preço da ação vai convergir. E foi assim, e só um parênteses, que nós estamos falando isso hoje, né? A gente não comentou antes, mas nos últimos 12 meses o S&P 500 sobe 27% e a Sandberg Chart cai 5%.
Thiago Salomão:Nesse momento que a gente grava, aqui no final de maio.
Frederico Vontobel:É, até o fechamento de ontem, né? Então, S&P sobe 27%, ele cai 5%, ele tá perdendo 32 pontos.
Matheus Soares:É muita coisa.
Frederico Vontobel:Sim, mas na reunião ele não tava nem um pouco preocupado com isso. É que o mercado olha muito isso e compara.
Matheus Soares:Ele já passou por isso outras vezes.
Frederico Vontobel:Já passou muitas vezes. Então essa vantagem também da experiência e da paciência de olhar as coisas em perspectiva. Mas então é notável, é notável realmente. Esses números são notáveis e ninguém vai repetir.
Thiago Salomão:Só até legal você ter falado isso porque Acho que esse é um episódio que vai dar para ser assistido por meses e anos, mas a gente está gravando no final de maio de 2025, então só para 2026. E teve um ponto que você falou, o juro no Brasil é muito alto. Esse é um ponto que talvez, infelizmente, não vai envelhecer aqui no Brasil, porque costumeiramente ele é alto. Mas vamos voltar para a Fonte de Renda.
Frederico Vontobel:Mas nesse período do lá também, quando as ações caíram aqui, o juro estava alto nos Estados Unidos, que é importante entender também olhando perspectiva. Porque ali em 71 Nixon acabou com a conversão de dólar para o ouro, daí em 73 deu a crise do petróleo quando o Pepe embarcou os Estados Unidos por causa do Irã, da guerra do Iugurquipur, inflação enorme. Então eles também passaram por momentos difíceis. Claro que aqui no Brasil o mercado não é tão market friendly, também não é pro-business, a gente tem um juro alto, isso é um vento contra que a gente tem, a gente realmente tem vivido períodos difíceis aqui na economia brasileira. O juro, eu sempre digo lá no escritório, nosso maior inimigo é esse juro alto, nosso maior concorrente é esse juro alto. Os fundos de pensão que já tiveram 33% alocados em ações hoje estão com 7% alocado em ações, que são os grandes alocadores. Por quê? Porque a gente é beta atuarial comprando título público. Isso não é bom para a economia. O juro alto faz com que as empresas não invistam, porque tu vai comparar com o custo do capital é muito alto. As pessoas, o bolso das famílias tá mais curto porque muita parte da renda tá sendo comprometida para pagar juros e prestações com juros muito altos. Então o juro alto é fatal para a economia, não pode ficar muito tempo. Se continuar muito tempo, não importa quem ganhar, isso aí para a economia não vai ser bom. Juro alto muito tempo vai levar à recessão. A gente tá vivendo com muito estímulo na economia, importante que a gente comente isso, na minha visão. Assim como anabolizante, a própria, a própria, como é que chama, a Sociedade de Medicina, ela disse que o anabolizante faz mais dano para a saúde usando para questões estéticas do que o benefício estético temporário. Esses incentivos que a gente está dando na economia hoje, que o governo está dando para manter a economia aquecida, bombada, bombada. Isso no longo prazo não é bom, porque as contas estão piorando. Déficit nominal de 8,5% ao ano, déficit primário, né, nem o quê. Aumentou bastante arrecadação com novos impostos, aumentou a despesa mais ainda, né, o juro subiu por conta disso. Quando acabaram com o teto de gastos, que para mim foi a melhor lei que o Congresso aprovou nos últimos 50 anos, lá em 2016 com Henrique Meirelles, porque aí botou uma camisa de força nos políticos. Enfim, nós estamos com 32,4% de carga tributária, isso é muito ruim para a economia do país, para todos nós, não só para a gente que investe em ações, que na verdade nós estamos investindo na economia brasileira. Se a gente não gostasse do Brasil, nós não estávamos aqui. Nós estamos querendo acreditar em empresas que estão dando emprego, que querem gerar riqueza no país. Então a gente está olhando para a economia brasileira, que a gente quer que a economia brasileira bem para o povo brasileiro também, não tá pagando juros altos e tendo que pagar dívida, enfim, mas isso é um parênteses. Mas eles também tiveram anos difíceis lá, problemas de diferentes tipos, claro que de um modo geral como ele falou assim, pegaram o pós-guerra que foi muito bom para a economia americana, década de 50, todo mundo disse que foi uma década maravilhosa porque todo Toda a sociedade americana, classe média, enriqueceu junto.
Matheus Soares:E ninguém acreditava no mercado acionário.
Frederico Vontobel:E o mercado estava deprimido porque com a lembrança da Grande Depressão, que levou 10 anos para recuperar a bolsa, 12 anos para recuperar.
Matheus Soares:Mas Fred, eu queria que você contasse que a gente tem que contar do início do Buffett como investidor, que foi o momento que ele faz a faculdade com Benjamin Graham. E quem era Benjamin Graham? Você fez uma... Mentoria para a gente numa imersão e você contou brilhantemente a história do Benjamin Graham, mas em 30 segundos, né? Quem era o Benjamin Graham?
Frederico Vontobel:O Benjamin Graham nasceu na Inglaterra, foi para os Estados Unidos, o pai dele quis morrer, não vou me alongar aqui porque, mas enfim, ele perdeu o pai com 8 anos, aí ele começou a trabalhar cedo também para ajudar a mãe, ele teve uma infância difícil, aí ele conseguiu entrar em Columbia, foi um dos melhores alunos do final de Columbia, que é a universidade lá de Nova York, né? Convidaram ele para ser professor, mas um professor dele, o reitor, disse: "Não, vai para Wall Street, com a tua inteligência tu vai sair melhor lá." Então ele ficou 42 anos investindo no mercado americano. Ele era de uma infância muito pobre, ele pegou aqueles anos 20 dos Estados Unidos que todo mundo ficou rico na bolsa, até a quebra da bolsa em 29, né? E ele, quando perdeu um filho, o Newton, filho dele que infelizmente perdeu muito cedo, ele Ele, para se distrair do luto do filho, ele começou a dar aula em Columbia sobre análise de empresas. E essa aula que ele deu durante 7 anos é que gerou o livro Security Analysis, que ele fez em 1934, que era análise de ativos.
Thiago Salomão:Tem até uma versão em inglês dessa aí, bonita. Olha aí, Fred.
Matheus Soares:Só não vamos pedir para o Renan pegar, senão...
Thiago Salomão:Não, eu já quase me... Eu não vou ter duas sortes na vida.
Frederico Vontobel:É, porque ele diz assim, só que ele sempre manteve muito cuidado, porque quando ele passou ali pela crise de 29, Ele perdeu, ele e os clientes, os fundos que ele geria caíram 70% entre 29 e 32. Foi muito difícil. Mas o que o Graham aprendeu ali? Quando, um mês antes da quebra da bolsa de 29, ele tinha mudado para um apartamento ali do lado do Central Park.
Matheus Soares:Estava gastando um belo dinheiro.
Frederico Vontobel:Um apartamento muito grande no prédio até que chama Bedford Building, do lado ali do Museu de Ciência de Nova York. E era um apartamento muito bom e ele teve que mobiliar o apartamento no mês em que a bolsa estava caindo. Foi muito doloroso para ele, a mulher dele querendo comprar os móveis e ele vendo as ações desmancharem. Ele nunca foi feliz naquele apartamento. E ele tinha motorista na época, tinha até as pessoas em Wall Street na época tinham massagistas, todo mundo para... Era assim uma opulência. E tem uma frase interessante que ele disse depois que me marcou. Que tem a ver também com a história do Buffett. Ele chegou a uma conclusão ali na crise, porque ele disse assim: olha, eu descobri que a felicidade material ela é alcançada quando tem uma vida que tu pode suportar independente da condição econômica. Ou seja, viver com menos, tu não deixar te iludir quando as coisas estão muito boas e tu mudar o teu padrão de vida. Porque quando muda o padrão de vida, muda muito o teu gasto, muda muito a tua despesa, e isso pode te atrapalhar. Então ele voltou depois da crise a andar de trem em Nova York. Esse livro ele escreveu junto com um colega sobre como analisar empresas, ele estava buscando dar fundamento para as análises, para transformar numa profissão o investimento.
Matheus Soares:Ele que quase cunhou a profissão de analista fundamentalista. Até então, claro que já se faziam análises fundamentalistas, mas ele conseguiu compilar isso para um profissional do mercado.
Frederico Vontobel:Exato. E aí depois, em 1949, ele escreveu um livro mais simples de ler, não é tão pesado assim, falando só de contabilidade, de avaliação de empresa. Aí ele escreveu O Investidor Inteligente, porque ele mesmo se deu conta que ser um investidor inteligente depende mais de caráter do que de cérebro. Depende mais do que quer ir de notas boas. O que é ser um investidor inteligente? É ser paciente, disciplinado e ávido por aprendizagem. Porque ele percebeu ali que muitos investidores erravam porque não conseguiam controlar suas emoções. Então, ele escreveu. E o Buffett, quando leu o livro lá em 1949, foi no mesmo ano que o Graham escreveu, ele sempre fala que...
Matheus Soares:Tem um ponto, né, Fred, que o Benjamin Graham falava que é: O mercado está aqui para te servir e não para te instruir. Querendo dizer que muitas vezes o mercado está errado. Você tem que saber ter a sua própria interpretação sobre aquela empresa que você está analisando.
Frederico Vontobel:Tem 3 ideias básicas que o Graham queria passar para os alunos dele e passou para o Buffett, que o Buffett diz assim: "Se você tiver isso inculcado na sua cabeça, você não vai sair mal investindo em ações." A primeira: uma ação não é um papel, não é um ponto do gráfico, Não é um ticker, uma ação é um pedaço de uma empresa, uma ação é um interesse real numa empresa. Então, se tu tem uma, qualquer ação, tu tem que pensar assim: eu tenho um pedaço dessa empresa. Eu dizia para minha filha, sempre digo essa história, quando a gente ia na Panvel, que era a rede de farmácia lá do Sul, quando a gente estacionava na Panvel assim, eu dizia: filha, é um tijolinho ali, é nosso. É isso, se tu tem ação da empresa, tu tem um pedaço da empresa. Quando eu vou secar a mão hoje, que eu pego ali papel da Kimberly Clark, eu fico pensando: "Poxa, isso aqui é da Suzano." Estou secando a mão com papel de uma empresa que eu tenho ação.
Thiago Salomão:Vou secar mais até.
Frederico Vontobel:Não precisa ficar numa folha. Mas então assim, isso é um conceito básico, porque muita gente, até o Peter Lynch uma vez contou uma história interessante, que a Barbra Streisand Queria falar com ele, ele estava de férias, mas ele foi atender porque era a Margaret Stryson. Aí ele atendeu, o secretário dele falou: "Olha, ela quer falar contigo e tal." Ele atendeu, estava de férias, aí porque estava tendo uma crise, as ações estavam caindo, e ele atendeu ela, isso tem um vídeo dele contando. Aí ela estava dizendo: "Olha, nunca perdi o sono e agora estou perdendo o sono porque investi em ações, as ações estão caindo." Aí ele perguntou: "Quais ações tu tem?" Ela disse as ações que que ela tinha. O que que elas fazem, essas empresas? Aí ela disse: não sei, né? Então ele diz assim: importante tu saber o que tu tem, né? A Suzano não é. The Disney Plus Hulu HBO Max bundle, the best in entertainment in one bundle.
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Thiago Salomão:Everything's either gonna be okay or not.
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Thiago Salomão:Terms apply.
Frederico Vontobel:Visit disneyplushulumaxbundle.com for details. Coisa que os fundamentalistas evitam. É bom de conhecer às vezes só porque tu sabe que tem muita gente olhando, é uma profecia autorrealizável. É como tem muita gente, o gráfico tá dizendo fazer tal coisa, vamos fazer porque o gráfico tá dizendo. Então às vezes é bom tu olhar só por causa disso, não porque tem fundamento.
Thiago Salomão:É um pouco da reflexividade do Soros, né?
Frederico Vontobel:Exato. Mas o que ele dizia assim, tu tem que conhecer o que tu tens. Se tu conhece o que tu tem, tu não... Pô, a Suzano tem 1 milhão e 700 mil hectares de eucalipto. Isso é irreplicável no mundo. A gente fala que de Porto Alegre a Brasília tem 1.700 km, imagina 10 km por 1.700 de eucalipto plantado. A celulose está crescendo, ela cresce na árvore, ela cresce do mato. Isso tem que ter uma logística, uma engenharia florestal de ter florestas perto da fábrica, não é uma coisa para ti. Assim, já é fusão de duas gigantes, que era a Suzano com a Fibra. Tem uma família controladora que é racional nos investimentos, que é a família Feffer. Que tem dono. Nos últimos anos investiu na fábrica nova, projeto cerrado, R$25 bilhões, comprou a Kimberly-Clark Brasil, esse ano está comprando a Kimberly-Clark Europa, América Latina. A gente faz a conta que nos últimos 4 anos a ação da Suzano não subiu, só que ela gerou R$31 bilhões de caixa que foi reinvestido no negócio. Então ela gerou 14% ao ano de caixa, só que esse caixa não foi... Sempre reinvestido. Foi reinvestido para a empresa crescer.
Thiago Salomão:Fred, deixa eu só, estou até buscando aqui, você falou de Suzano, a história, estou até buscando o título aqui. Suzano, a maior produtora de celulose do mundo. Um vídeo de 2 anos atrás dos nossos amigos, também gaúchos, do Curioso Mercado. É um dos melhores canais do YouTube, quem não conhece Curioso Mercado, já pode enquanto está vendo isso aqui, se inscrever lá. Contando a história da Suzano em um vídeo de 18 minutos. Eles fazem vários conteúdos muito profundos sobre mercado. E já dá os parabéns que recentemente eles atingiram a marca de 1 milhão de seguidores em todas as redes. No YouTube são 430 mil inscritos, então se inscreve lá para ajudar, que é um conteúdo muito bom. E aqui eles contam a história, o início da história da Suzano é muito legal.
Frederico Vontobel:Leo Pfeffer, né? Com o pai lá, quando queimou a empresa prometida.
Matheus Soares:Eu e você também fizemos um vídeo no mercado aberto, sobre Suzano, há uns 3 anos talvez ou mais.
Thiago Salomão:Muito legal isso. Então, um abraço para a turma do Curioso Mercado.
Frederico Vontobel:E só para trazer para o Buffett, o Buffett não gosta de commodity, porque commodity tu não define o preço. Então, isso é outra coisa que a gente pode comentar do Buffett, ele sempre evitou empresas de commodity, embora ele tenha a Oriental Petroleum hoje, ele tem empresas de commodity, mas a gente tem que tomar cuidado até na questão de aprendizado como investidor. Porque commodity é o mercado que dá preço. Ele brincava mesmo com o filho dele, que produzia milho. Ninguém vai comprar o filho do Howard Buffett, vai comprar milho. Saco de milho é saco de milho, não importa quem produza. A vantagem da Suzano é que ela é líder em custo, assim como a Vale também tem a vantagem de ser líder em custo e ter um minério de alta qualidade. Então, quando tu olha pra empresa de commodity, a vantagem que ela pode ter é liderança em custo, que é o que a Suzano tem, porque o eucalipto cresce em 7 anos aqui, no Brasil, no hemisfério norte, toda a produção de celulose no futuro acho que vai ser vinda do hemisfério sul, não só do Brasil, mas o Chile produz aqui, tem a Celulose Pacifica.
Matheus Soares:Tem o problema que o chinês agora está fiscalizando, mas aí a gente...
Frederico Vontobel:Mas não sei se vai conseguir por muito tempo, né? Talvez...
Thiago Salomão:Quem você acha?
Frederico Vontobel:É um problema do momento, né? Aproveitando que a construção caiu, estão aproveitando madeira, então está tendo um... Só que produção de celulose de custo mais baixo que a Suzano Não tem, né? Então os concorrentes vão estar bem piores, essa lógica aí, do que ela.
Thiago Salomão:Posso só trazer um ponto sobre o Benjamin Graham? Eu queria até, preparei aqui na pauta só para quem tá ouvindo o episódio, tá um pouco esse vai e vem, não tem jeito, né? Porque a sinapse aqui vão sendo feitas, mas eu tinha separado 10 blocos, o Benjamin Graham era o bloco 3, só para ter noção de quanto tempo deve durar esse papo aí, a gente tá em uma hora de conversa. Mas eu até tinha separado aqui, o Buffett vai para Columbia, aprende com Graham e absorve a lógica de comprar ativos por menos do que valem. Graham moldou a base intelectual do Buffett, sobretudo a ideia de margem de segurança e de Value Investing. Acho que são os dois conceitos importantes. Mas aqui tem um ponto sofisticado, Graham criou Buffett, mas também limitou Buffett. Buffett Graham puro comprava as guimbas de charutos ou cigar butch ou bituca de cigarro, que são empresas baratas, feias, muitas vezes ruins, mas com uma última tragada disponível. Munger depois foi quem ajudou a mudar a cabeça do Buffett. E aí até pensando assim: "Pô, como é que eu transformaria isso aqui numa pergunta?" Eu fiquei pensando se o Graham ensinou o Buffett a investir ou se ele ensinou Buffett a sobreviver. Porque também no final do dia, você comprando uma bituca de cigarro, a chance de você quebrar é muito baixa. Você pode cair no que a gente chama do Value Trap, aquela coisa que é tão barata, mas ela pode ser barata para sempre.
Matheus Soares:A gente cai na história da Berkshire, que a gente pode entrar nessa. Tem dois investimentos legais que a gente pode falar. Não sei se o Fred lembra dessas. Dempster Mill foi quando ele decidiu comprar o controle da empresa. Só que era um negócio ruim, então ele se envolveu com pessoas ruins. E a Dempster Mill ensinou ao Buffett que é importante você se associar a executivos que você confie, que sejam honestos, né, que sejam bons. Então esse é um investimento interessante. Aí em seguida, né, veio a Berkshire, que era uma empresa têxtil, né, fazia roupa. Lá da Nova Inglaterra. Ele comprou as ações a $7,50 e ela não tinha nenhum diferencial competitivo, né? Ao longo da história a gente vai falar aqui, o Buffett preza muito por bons negócios que tenham vantagens competitivas, que tem os moats, né? Que é naqueles fosso onde, se você tem um lago, você quer que esse fosso seja o mais largo possível e, se possível, que tenha crocodilos para que ele nunca seja atacado. Mas a Berkshire Hathaway, ela não tinha força, ela não tinha nenhuma vantagem competitiva. E aí ele se depara com esse negócio, ele compra as ações e tá com esse negócio na mão, né, Fred?
Frederico Vontobel:Yeah, yeah. Bom ponto, bom ponto, Matheus. Só para fechar o que ele aprendeu com os outros dois pontos que ele aprendeu com o Graham, para depois entrar nessa questão da compra da Berkshire, que tem a ver com isso, né? Então, primeiro que tem que olhar para uma empresa como um pedaço de uma ação, que nós estávamos falando ali, né? Uma empresa Qualquer empresa tem que olhar e tem que comprar bem. Não adianta só se gostar da empresa, não é aquela história: "Ah, eu gostei do produto, vou comprar." A empresa pode achar que você está fazendo um mau negócio e o preço não está bom. Então essa é a questão de imagem de segurança. Mas o outro que ele disse, ele disse numa reunião uma vez que ele aprendeu mais com o capítulo 8 e capítulo 20 do livro Investidor Inteligente do que as duas business schools que ele frequentou. Ou seja, e ali fala da segunda coisa que eu quero falar, que é as flutuações de mercado. Que são as oscilações do mercado, que o investidor inteligente tem que olhar para as flutuações de preço como um amigo, não como um inimigo, e tirar proveito delas. Aí ele traz o exemplo daquele do capítulo 8, da parábola do senhor mercado. Imagina o seguinte, que tu é sócio de uma empresa onde tu tem um sócio do outro lado, que todo dia ele te faz uma oferta ou para comprar ou para vender ação dele, que é o preço de mercado todo dia. E ele não se importa de ser ignorado, amanhã ele vai dar um preço de novo. Se você tem uma empresa de capital fechado, você não tem isso. Se você compra um apartamento, você não tem todo dia alguém te dando um preço para te vender o teu apartamento. Agora, se você compra um apartamento e estiver vendendo de um dia para o outro, vai ver o que vai acontecer, quanto desconto vai ter que dar. Mas ações é isso, ações estão negociando todo dia milhões de reais aqui na bolsa e o mercado todo dia está te dando um preço. Esse é o senhor mercado que ele é muito solícito, todo dia ele vai voltar, se vai fechar o mercado hoje, amanhã ele volta com outro preço, depois com outro preço. Ele não se importa de ser ignorado. Agora, tem que saber que esse mercado ele oscila, tem dias que ele está pessimista, dias que ele fica otimista. Saiu uma notícia lá, estourou uma guerra lá no Irã, já muda o humor do mercado. Qualquer problema que acontece já muda o humor do mercado. Tanto é que às vezes o pessoal tenta explicar por que a bolsa, no Jornal Nacional, qualquer noticiário: "A bolsa hoje subiu por isso ou por aquilo." Foi uma notícia que dominou o mercado e mudou o humor do mercado.
Thiago Salomão:Sabe quem fez uma analogia muito legal? Em algumas conversas que eu fiz, o Florian Bartonek. Sim. Na época que saiu o primeiro livro do Fora da Curva, lá em 2016, eu entrevistei vários dos personagens do livro, o Florian foi um deles, o coautor do livro e também personagem. E aí ele fez uma analogia interessante, que quando dá esses solavancos, que na época era 2016, era, se eu não me engano, a eleição do Trump.
Frederico Vontobel:Teve o Wesley Day também, não teve?
Thiago Salomão:Mas ele citou principalmente a eleição do Trump porque Ele pegou assim: "Pô, aí o Trump começou a subir nas pesquisas e o mercado estava com medo do Trump." E aí você vê aqui que a ação da, na época era a Croton ou Stasio, uma das duas de educação, ela caiu 10% aqui. Mas você pensa: "Poxa, mas o quanto que a mudança, a entrada do Donald Trump como presidente dos Estados Unidos vai afetar a receita ou a quantidade de alunos que a Stasio vai ter aqui, uma rede de universidades no Brasil?" Nada. Então, que é muito no curto prazo, as explicações ficam muito mais erráticas por causa do senhor mercado.
Matheus Soares:Mas sempre vai ter uma explicação. Mas sempre vai ter uma explicação. Alguém tem que explicar o porquê que a ação está caindo ou subindo.
Thiago Salomão:Aí você vai explicar que é o Trump. Mas quantos alunos vão cancelar? E aí ele faz até o paralelo com o apartamento. Imagina que o seu apartamento fosse listado. Aí acontece isso aí, aí o preço do apartamento caiu 20%. Aí você vai falar: "Não, não, eu vou vender aqui porque o Trump vai ser eleito." Então, eu tenho que vender.
Frederico Vontobel:Exatamente.
Thiago Salomão:E também nem ao contrário. Vou comprar agora porque o Trump vai ser eleito. Eleito, estava mais barato.
Frederico Vontobel:Tu não liga para o teu corretor se o vizinho, por acaso, por um motivo ou outro, questão de saúde, vendeu por 20% menos o apartamento dele, tu não vai ligar para o teu corretor e dizer: "Vende também, porque eu estou com medo que vai cair o preço de todos os apartamentos." Mas na bolsa é assim.
Matheus Soares:O custo de transação é muito baixo.
Frederico Vontobel:É, mas isso é o bom de ter ação, porque ação, isso é que dá mobilidade, tu pode comprar, vender, quando cai, tu pode aproveitar, em vez de participar da loucura, você aproveitar dela, que é o que eles falam, quando o mercado está maluco, Quando está depressivo, tu tem que aproveitar a loucura e não participar dela. Então, aquela história, outra frase boa dele: "Tenta ser corajoso quando os outros estão com medo e tenta ter medo quando os outros estão corajosos." Comprar ao som dos canhões, vender ao som dos violinos.
Matheus Soares:Tem várias.
Frederico Vontobel:É isso, né? Então, essa questão das flutuações do senhor mercado, tu pode realmente ignorar. O pior, é muito ruim ficar todo dia olhando o preço, só que a tendência é essa. As pessoas todo dia vão lá olhar o preço, como é que está. E se incomodam, né?
Matheus Soares:"Ah, caiu 5%, caiu 10%." Se esquecem de olhar o negócio.
Frederico Vontobel:Não estão olhando o negócio. Às vezes o negócio está melhorando, os resultados, e a ação está caindo. Então a pessoa tinha que estar contente. O negócio está melhorando, a ação está caindo, eu posso comprar mais. Outras vezes o negócio está piorando, a ação está subindo, a pessoa está contente que a ação está subindo e não está vendo que o negócio está piorando. Então tem que olhar mais.
Matheus Soares:É psicológico, né, Fred? Às vezes a ação começa a cair e o fato do preço estar caindo começa a te provocar do tipo: "Pô, se está caindo é porque alguém sabe alguma coisa." E é a natureza humana.
Frederico Vontobel:E é da natureza humana. O mundo não vai mudar, isso não vai mudar também. Por isso que é tentar ser racional, aquilo que o Munger também falava, eu só tento ser racional nos investimentos, porque não deixar a emoção atrapalhar. Só que muitos investidores, o mais difícil é controlar a emoção.
Matheus Soares:Nós inclusive, né Fred?
Frederico Vontobel:Sim, também a gente sofre. É muito difícil. A gente sofre mais, o mais difícil na gestão de recursos que eu digo não é estudar, que a gente gosta de estar estudando, acompanhando as empresas, visitando, conversando e entendendo as empresas, olhando como investidor. O mais difícil às vezes é tu administrar quem está junto contigo, a paciência e a cobrança e a preocupação e o resultado. E o pessoal às vezes não quer ouvir que a empresa está indo bem, eles só querem ver a ação subindo ou a cota subindo. Então essa parte às vezes é a mais difícil. E essa é uma grande vantagem do Buffett, como depois de 65 o instrumento passou a ser A Berkshire, ele não teve mais esse incômodo. Uma vez um cara estava reclamando, eles vão lá e compram as ações dele e deu, para de encher o saco. Desculpa.
Thiago Salomão:Não, eu só queria, estava até abrindo o livro aqui, porque como a gente está na cronologia, tem um capítulo do Benjamin Graham, capítulo 17. O capítulo 17 me marcou. Aliás, só uma dica, algumas partes a gente pulou da história do Buffett, quem tiver com o livro Bola de Neve, o capítulo 14 é muito interessante para entender a família, eu até defini como a família apocalíptica do Buffett. Buffett, que o tio e o pai do Buffett tinham comportamentos como investidores totalmente diferentes do que o Buffett faz. Se eu não me engano, o tio tinha a tese de comprar o título de dívida atrelado à inflação dos Estados Unidos. E o pai acho que tinha a tese de ouro, não sei se era o contrário, mas não era o investidor de empresa que o Buffett se tornou. É curioso como isso mudou. Mas o Benjamin Graham, Aí é aquela coisa do você vai lendo e você vê aquela frase que chama muita atenção. Ele conta a história do Benjamin Graham, que podemos dizer que ele tinha também alguns hábitos de vida peculiares, né? Não é questionáveis, talvez seja a palavra. E só que ficou muito curioso quando o Benjamin Graham, ele tentou entrar em Columbia, mas precisava de ajuda financeira. E aí tinha um inspetor responsável pelas bolsas, visitou a casa de Benjamin Graham. Eu vou ler aqui até que, bem, no entanto, detectara, teve certeza de que o inspetor detectara uma deformidade secreta na sua alma. Durante anos, aí aspa do Benjamin Graham: durante anos eu vinha lutando contra algo que os franceses chamavam de maus hábitos. Não vou aqui gastar meu francês, até porque não sei, que é um eufemismo para masturbação, que a combinação de um puritanismo inato com tratados da medicina de arrepiar os cabelos transformaram uma questão moral e física de proporções gigantescas. Aí eu fiquei pensando, caramba, o, ele foi vetado ali pela bolsa por maus hábitos que seriam eufemismos para masturbação. E fiquei pensando, como é que o cara sabia que Benjamin Graham tinha esse problema, que na época era um problema? Enfim, essa parte aqui me fez parar por uns 5 minutos a leitura para ficar refletindo.
Frederico Vontobel:Isso lá em 1910, né? Acho que é isso.
Thiago Salomão:É, ele foi em 1907 aqui, então é por essa época.
Matheus Soares:Talvez tenha tornado cômico por algum motivo, né?
Thiago Salomão:Começo do século 20. Eu queria saber o que esse inspetor viu que percebeu esses maus hábitos ali.
Frederico Vontobel:Eu acho que ele era de 1894 ou 1896, então ele tinha 11 ou 13 anos na época. Isso.
Thiago Salomão:Enfim, eu até coloquei no resumo aqui, eu até usei esse termo aqui para lembrar desse capítulo, né? O capítulo 17, quem tiver essa curiosidade, tá até na página 154.
Matheus Soares:Curioso, hein, Salomão?
Thiago Salomão:Curioso é uma palavra boa para isso.
Matheus Soares:Caramba, curioso! E aí a gente chegou na Berkshire, que ele compra achando que era uma empresa que tava de graça. No final ele percebe que a empresa não dava dinheiro, que não, quanto mais ele investisse na operação, novas tecnologias surgiam e ele não conseguia ser mais eficiente do que os concorrentes. E ele decide fazer o seguinte: eu vou deixar de investir em maquinário para Berkshire e vou começar e vou comprar uma empresa de seguros. E aí tá a grande sacada da Berkshire Hathaway, que foi a GEICO, né? Ele compra, ele não compra a GEICO de primeira, porque aí você tem a beleza do negócio do seguro, que é você vende, né, que você vai cuidar do carro de uma pessoa, da vida daquela pessoa. Só que eventualmente aquele sinistro não é exercido. Sim. E você— é uma estratégia muito fascinante de você captar dinheiro barato. E esse dinheiro, uma parcela tem que estar guardada para caso aconteça alguma fatalidade, algum problema. E a outra parcela desse dinheiro, que é o float, você pega para comprar. E aí o Buffett, no caso, pega para investir. E ele passou a investir em bons negócios. E aí depois a gente vai entrar na Siskiendis, talvez seja ali onde ele começou a mudar a filosofia dele.
Frederico Vontobel:Naqueles primeiros 10 anos com as parcerias, ele estava ganhando mais que o Dow Jones na época, né? E ganhando 25% além dos 6%. Estavam todos os parceiros muito contentes, quase todos eram lá da cidade dele, né? Eram todos conhecidos. E a Berkshire já era uma empresa centenária quase. Lá de New Bedford, Massachusetts, uma cidade que era de baleeiros, que ganhava muito com o óleo da baleia. Quando descobriram petróleo no Texas, aí perdeu a atratividade nesse negócio e eles começaram a fazer indústria têxtil lá em 1800 e pouco. Eram duas empresas, a Berkshire e a Hathaway, que se fundiram em 1955, 10 anos antes dele começar. Não, ele começou a comprar em 63 as ações. Mas o que chamou a atenção dele? Por que ele comprou olhando os números, olhando o balanço? E olhando o fundamento da empresa. A empresa tinha um capital de giro o dobro do que ela valia, o dobro do valor de mercado. Tinha muito estoque, ela tinha não só as instalações, já tinham fechado várias fábricas, mas tinha muitos teares e tinha muito estoque e muitos produtos que ela fazia. E ele, quando foi visitar, depois de ter comprado ações, porque ele comprou só por conta dos princípios do Graham, que era comprar o que está barato pela contabilidade, pelo balanço.
Matheus Soares:Chamado de net-net.
Frederico Vontobel:É, exato. Então, e a gestão já vinha há 30, 40 anos, né, com o Seabury Staten, parece que era o presidente, né, e sempre investindo muito. Ele pegava todo o dinheiro sem visão financeira, só ficava investindo. Então, por isso que a Berkshire Hathaway tinha sobrevivido. Muitas outras empresas tinham desaparecido, né, e talvez até feito melhor investimento do que a Berkshire. A Berkshire só estava investindo no negócio e mantendo o negócio, mantendo os teatros funcionando, né. Mas começou a surgir concorrência da China do Oriente e também do Sul dos Estados Unidos, na parte têxtil, mas eles continuavam investindo tudo no negócio sem uma visão de retorno de investimento. Aí o Buffett viu aquilo, viu aquela empresa e foi visitar. E tinha um filho dele, o filho do Seabury, que era o responsável pela tesouraria, que ia mostrar a empresa para o Buffett. E ele disse que o erro dele foi que ele não foi mostrar porque ele estava ocupado aquele dia e ele pediu para um executivo mostrar. E esse executivo tinha a mesma cabeça do Buffett, estava vendo os erros que a empresa estava cometendo. E aí ele ficou 2 dias lá conhecendo a empresa e aí o Seabury, quando viu que ele já tinha muitas ações, ele fez uma proposta para o Buffett para comprar as ações que o Buffett tinha comprado, inclusive o Buffett teria um ganho se vendesse para ele. Mas depois de ter acertado de palavra, aí vem a questão ética, depois de ter acertado de palavra um preço, quando mandou a carta lá para Omaha, ele tinha descontado 1,5% do preço que ele tinha falado. Ou seja, ele acertou, 15 e mandou lá 14,70, né? E o Buffett ficou bravo com aquilo porque, pô, o cara não tá honrando com a palavra. Quer saber? Eu vou comprar mais e vou disputar o controle da empresa. Falou inclusive com o irmão dele que não tava contente com ele também, até porque ele pensou: eu já tenho um cara para trocar com aquele cara que eu conversei, aquele executivo que conhece o negócio, que tem uma visão financeira, né? E vou dizer para ele o que que ele vai fazer. E aí com isso ele tomou o controle da empresa. A única coisa que o irmão do que chamava o hot, irmão do Steve Burry, pediu foi que fizesse uma proposta igual para o irmão também, para não criar o problema. Exato. E aí ele deixou, aí ele combinou com o Ken, esse que era o executivo, olha, só quero que tu faça uma coisa, nós vamos diminuir os produtos que a gente produz que não tem giro, vamos diminuir o estoque, o dinheiro que sobrar tu manda para uma, eu que vou investir, "nós vamos manter o negócio aqui". Ele não queria demitir, porque quando ele tinha comprado aquela Debster, aquela empresa lá perto de Oba, o pior dia para ele foi quando tiveram que demitir 100 pessoas e ele foi muito criticado por isso, ele não gostou. Ele nunca mais quer comprar um negócio assim para ter que demitir.
Thiago Salomão:Aquilo gerou um problema na cidade, porque ele se tornou um personagem não grato na própria cidade dele.
Frederico Vontobel:Exato, então ele disse: "Não quero mais passar por isso, então eu vou manter os teatros funcionando, vou manter a empresa". Na época eram 2.500 funcionários, eu acho, a Berkshire já tinha vindo de 12 mil para 2.500, já era bem menor. "Mas eu vou manter enquanto puder, mas eu vou diminuir o número de produtos que não dão lucro, que não giram, vou diminuir o estoque e essa sobra de capital tu manda para cá." Porque aí no primeiro ano ele tirou metade do patrimônio, ou seja, ele tirou o que ele tinha comprado, metade do capital de giro ele tirou, então ele tirou o que tinha pago no primeiro ano. Depois ele manteve vários anos funcionando a empresa, mas aí nunca reinvestindo porque ele sabia que não era investimento que ia dar retorno. E curioso que ele não quis mudar o nome.
Matheus Soares:Ele deixou de fazer.
Frederico Vontobel:Ele não quis mudar o nome, é porque ele gostava do nome e tinha a ver com a história também. E também aí com esse dinheiro que ele comprou a empresa de seguro em Omaha, que um cara, que esse cara que ele comprou a empresa de seguro, quando ele começou a investir com as partnerships, o cara já tinha muito dinheiro. Aí ele foi falar com o cara e o cara quis dar 10 mil para eles. Não, não, tem um cara que podia dar 50, 10 mil eu não quero só. Então ele não aceitou o dinheiro do cara. Aí depois o cara foi falar com ele e vendeu o negócio para ele por um motivo, porque também não queria desempregar ninguém, né, queria continuar trabalhando. E o Buffett diz: "Não, continua tudo como está, eu vou comprar para..." Aí que a Berkshire comprou empresa de seguro, não tinha nada a ver com o textual, mas já pensando na alocação de capital. Porque é isso, o que ele sempre falou? O que ele fez foi alocar capital para ter retorno de capital. O que é investir? Investir é alocar capital para tirar mais capital depois. Tem gente que fala assim: "Vou investir no carro novo." Isso não é investimento, tu não vai vender o carro por mais do que tu vai pagar ele novo. E o Buffett comprava carros usados também porque pensa o seguinte: se o cara dá 20% ao ano, não precisa nem falar em 20, vamos falar em... tu dobra o capital tendo 14,7% ao ano. Então se tu compra um carro por R$100 mil, esse carro daqui 5 anos está te custando R$200 mil se tu deixou de render os 14,7%. Então ele sempre pensou isso. E daqui a 10 anos é R$400 mil que ele está te custando, ele não vai valer R$400 mil lá na frente, ele vai valer menos que R$100 mil que tu pagou ele zero hoje. Então essa visão de longo prazo, e quando fala em investir capital é tu investir onde tu vai ter, ele dizia assim: "Eu prefiro ter um negócio menor que rende 15% ao ano do que um negócio grande que rende 5%." Ele se alavanca, né Fred?
Matheus Soares:Esse foi um jeito dele se alavancar também.
Frederico Vontobel:E pegar o dinheiro do float que ele entendeu assim: "Pô, como tem muita coisa barata para comprar e a Berkshire pode..." Ele captava dinheiro a rodo. É, como o seguro, tu paga o prêmio, Vai ter depois a—
Thiago Salomão:Vamos explicar essa parte, porque acho que esse é o detalhe minucioso que explica todo sucesso da Berkshire Hathaway. Mas por causa dos termos muito específicos do mercado de seguro, talvez as pessoas não entendam que ele pega o float e enfim. Mas o que é esse detalhe simples, porém determinante para explicar o sucesso do Buffett com a Berkshire Hathaway?
Matheus Soares:Pegar como exemplo um banco. O que que ele faz? Ele capta dinheiro, ou seja, a pessoa compra um CDB do banco, nada mais é do que o banco está recebendo esse dinheiro, que é o passivo do banco, pega esse dinheiro para comprar ativos. Então ele empresta dinheiro para você, ele faz investimento numa empresa. Só que esse dinheiro que o banco pega emprestado via CDB, ele remunera 100% do CDI, por exemplo. No caso do float, não. Você, então, você quer, você quer que o seu carro esteja segurado? Você quer que o teu celular esteja segurado?
Thiago Salomão:O que que é o float?
Matheus Soares:O float é o dinheiro disponível a investido por uma seguradora. Então você coloca o dinheiro, você paga o teu prêmio. Então vai, o seu seguro do carro é R$2.000, você virou lá para Azul, para Porto Seguro, deu R$2.000 para Porto Seguro. Você vai pagar isso ao longo de 12 meses. Se você não bate o carro ou não utiliza, esse R$2.000 vira dinheiro para seguradora. Entendi. Só que o que que ela pega? Ela pega 15% disso, coloca numa reserva, por exemplo, e o restante ela já pode investir.
Thiago Salomão:E esse seria o float. Então eu acho que é a melhor maneira pensar na própria seguradora, né, que O que é uma seguradora? Ela recebe dinheiros de várias pessoas que contratam seguro. O cenário ideal é que as pessoas não usem.
Matheus Soares:Calcular bem o prêmio.
Thiago Salomão:É, calcular para você poder ter a reserva caso alguém precise.
Matheus Soares:Tivemos uma entrevista com o CEO do IRB que explicou muito sobre.
Thiago Salomão:Exatamente, o Falcão, um grande abraço para ele. Aliás, baita livro que ele me deu ali.
Matheus Soares:Mas não podemos falar de IRB e Berkshire, melhor não.
Thiago Salomão:Aí vai falar: "Ah, por isso que o Panflet já compra IRB." Mas acho que a melhor maneira de entender então, a seguradora ela recebe esse dinheiro.
Matheus Soares:É muito barato.
Thiago Salomão:E num cenário que não vai ter um sinistro, tal qual nos bancos seria uma corrida bancária, todo mundo sai para resgatar. Na seguradora ninguém vai bater o carro no poste de propósito porque contratou um seguro. Então ela não vai usar todo esse dinheiro, então é uma parte deixa em reserva. E é um dinheiro muito forte.
Frederico Vontobel:Na verdade, ela recebe raramente parcelado em 12 vezes, ela recebe normalmente adiantado, ou em 3 meses. Então é um dinheiro adiantado que você recebe, que você pode investir. E a vantagem é que lá em Nebraska, onde era a National Endowment, podia investir em qualquer coisa, não tinha limitações, então ele tinha liberdade para investir e comprar ações que ele quisesse. Então era um dinheiro sem pagar juros, porque recebe na frente. Ele também percebeu isso quando ele comprou ações da Blue Chip Stamps. O que é Blue Chip Stamps, que é uma empresa da Califórnia? É uma empresa de selos de supermercado.
Thiago Salomão:Sim, é verdade.
Matheus Soares:Fidelidade.
Frederico Vontobel:Fidelidade. Então, quando tu compra no supermercado, tu ganhava os selinhos para depois trocar por torradeira, por ventilador. Só que a empresa essa vendia os selos para o supermercado e recebia o dinheiro adiantado e a pessoa às vezes demorava para juntar os selos para trocar pela torradeira, que aí ela tinha que pagar, ou demorar ou até esquecer na gaveta os selos. Quando ele se deu conta disso, ele falou: "Isso aí também é float, também é dinheiro que eu posso trabalhar e investir com racionalidade." E aí que ele também comprou esse negócio lá atrás, que era tipo uma seguradora, porque você recebe na frente, pode ter que pagar ou não. Uma seguradora tem o sinistro ou não, e lá no caso o cara podia esquecer na gaveta e nunca mais ser usado.
Matheus Soares:Por isso que ele queria controlar as empresas também.
Thiago Salomão:Mas aí entra também a loteria do ventre. Em que lugar do mundo que vai ter uma empresa listada de...
Matheus Soares:Até tinha aqui a Smiles, né? Só que...
Thiago Salomão:Não, mas não dá para comparar a Smiles com uma empresa... A empresa vende selo de...
Frederico Vontobel:É a carteirinha de selo de supermercado.
Thiago Salomão:Ou de vários outros supermercados, só para não fazer merchan aí. Até porque eu estou colecionando do Saint-Marché agora, está bem legal. Que assim como o Pão de Açúcar, também está com probleminhas aí, né?
Frederico Vontobel:Então, realmente, isso é uma outra vantagem, né, Thiago? Que lá tem muitas empresas. Nos Estados Unidos tem mais de 10 mil empresas de capital aberto. O mercado é mais. Hoje, 60% da economia americana está em ações. Nós aqui, quando a gente vê os fundos de pensão, estão com 7 hoje, que era para estar em ações. Pessoas físicas estão muito pouco.
Thiago Salomão:É que é algo inserido na cultura da sociedade. O capitalismo faz parte da sociedade.
Frederico Vontobel:Eu nunca me esqueço da minha lua de mel, que eu sentei com dois americanos numa mesa para jantar e os caras perguntaram assim para mim...
Thiago Salomão:Era lua de mel, você foi para Omaha também?
Frederico Vontobel:Não, não, não. Eu fui fazer um passeio de cruzeiro. E aí eles colocam as pessoas sentadas lá, e aí tava com dois casais americanos e eles perguntaram: "Quais ações tu tem?" Não era se tinha. "Quais ações tu tem?" Porque empresa pública nos Estados Unidos é empresa de capital aberto. Então o cara tem as ações lá da Disney, tem as ações do JPMorgan, é empresa pública, não tem essa conotação de empresa estatal. Empresa pública são que tá na bolsa, todo mundo pode ter. E aqui também, todas as empresas aqui, as que estão na bolsa, são empresas que todo mundo pode ter ação se quiser. Se economizar e comprar, e sentir dono do negócio, porque é um mercado mais, vamos dizer, livre mercado e mais pró-mercado. Então isso realmente é uma diferença que a gente tem aqui, aqui a gente não tem todas as empresas que tem lá, não tem essas empresas.
Matheus Soares:O juro é baixo agora?
Frederico Vontobel:É o país que lidera, é o país que lidera as empresas americanas hoje, quando a gente vê que uma NVIDIA valendo quase 6 trilhões, ontem saiu o resultado, chegou a 5,7 trilhões, não sei como é que está hoje.
Thiago Salomão:Eu ia até ver o resultado, o desempenho, NVIDIA nesse momento que a gente grava, 60% de alta no ano.
Frederico Vontobel:E então, não estou dizendo que é um bom investimento, pelo contrário, eu acho que é o— Mas mesmo assim, nós como Velho Investidor estaríamos fora, o Buffett está fora das empresas de tecnologia, só no Google que ele está posicionado agora, e Apple também, porque Apple é mais um produto do que tecnologia, na verdade é o iPhone que mudou o mundo desde 2008 para cá, tem concorrentes também, mas o iPhone é líder. Mas enfim, quando a gente pega uma NVIDIA e outras valendo 4, 3 trilhões, todas as bolsas brasileiras, todas as ações da bolsa brasileira, todas não valem 1 trilhão de dólares. Para ver como a gente é pequeno nesse mercado. A gente é um grão de areia numa praia.
Thiago Salomão:Mas também para pegar o mercado americano, hoje ele já é muito maior do que praticamente o resto do mercado inteiro. Eu não lembro exatamente essa estatística, mas o segundo maior mercado de do mundo é o japonês, e ele não é metade do mercado americano.
Frederico Vontobel:É bem menos, bem menos. Então assim, e mas sim, nós somos pequenos.
Thiago Salomão:Muito, muito. Só para NVIDIA cai 1,8% nesse momento. Também 60% de alta no, aqui eu só pegar year to date.
Frederico Vontobel:Ah, desculpa, year to date são 17%, 60% é 12 Uma preocupação que eu tenho, e a própria Berkshire, né? A Berkshire hoje está com 390 bilhões de dólares em caixa, em crédito de 10 anos. Não é nem, ele nem compra 5, 10 anos, é crédito de 2 anos, é caixa mesmo. Não, não tá preocupado com rendimento, só quer que o dinheiro esteja ali pronto para quando precisar usar.
Thiago Salomão:Só que eu juro, agora tá mais alto lá, tá ganhando um dinheirinho até, né?
Frederico Vontobel:É, mas é 2%, 2 e pouquinho. Mas é inflação, ele não tá, tá, na verdade tá empatando, né? Só que quando tiver assim o S&P subindo 27 nos últimos 12 meses, a Berkshire caindo 5, e ele com esse caixa, não tá, não tá. Muita gente começa a questionar ele, a pressão vem, né? Por que que tu não usa o caixa? Só que olha só uma coisa que eu me preocupo hoje: a Magnífica 7, NVIDIA, Apple, Amazon, Alphabet, Google, né, Microsoft, Tesla, Microsoft e Meta, elas representam 35% da S&P. Nunca, faz muitos anos que não tinha uma concentração tão grande nessas de tecnologia, ou seja, E aí vem outra coisa que me preocupa hoje, Thiago, e vou compartilhar essa preocupação com vocês aqui. Até estava outro dia falando com o Danilo Santiago, investidor, velho investidor brasileiro que mora nos Estados Unidos.
Thiago Salomão:Sim, sim.
Frederico Vontobel:Da Rational. Da Rational. Hoje o pessoal fala muito em ETF. E o próprio John Bogle, da Bonsai Investimentos, que foi que começou com essa visão de fundo passivo. Uma coisa que me preocupa hoje, você tem que pensar, Não é só seguir assim, tem que ir questionando as coisas. Quando o John Bogle começou, tinha muita gente, muitos gestores analisando as empresas e dando preço para as ações. Então, você copiar e ter um fundo passivo era uma coisa. Hoje, com os ETFs e com fundos passivos que são muito maiores do que a gestão ativa, você pega qualquer empresa nos Estados Unidos, quem são os maiores acionistas? É BlackRock, é Vanguard. Aí você olha lá nos 10, 20 maiores acionistas, Tem 2 ou 3 casas de análise de buy-side que estão analisando.
Thiago Salomão:Ou seja, é uma compra passiva.
Frederico Vontobel:Cada vez mais o Maria vai com as outras, é uma profecia autorrealizada. E aí isso me preocupa, porque isso pode causar o exagero, aquilo que o Graham falava do mercado ser maníaco depressivo, pode exagerar o preço tanto para cima como para baixo de uma ação. Porque todo mundo hoje quando compra a S&P É mais dinheiro para a NVIDIA, é mais dinheiro para essas que já estão muito caras.
Thiago Salomão:Só pegando esse seu ponto de preocupação, a gente tem feito muitos episódios sobre ETF aqui no Market Makers. Motivo simples, ETF de fato é um produto muito bom para o investidor, principalmente para o investidor de longo prazo e principalmente se comparar com—
Frederico Vontobel:E é muito eficiente.
Thiago Salomão:Eficiência, o próprio Buffett— Custa pouco. E no Brasil ele é ainda perto de 1%. Nos Estados Unidos, 60% do mercado já são ETFs, na Europa perto de 30%, que é— perto de 1%. Mas nessas entrevistas sobre ETF, eu fiz essa pergunta para alguns participantes. A resposta, eu confesso que não me convenceu tanto. Mas eu perguntei: "O que vai acontecer? Quer dizer, qual é o limite para os ETFs?" Hoje eles já são 60% do mercado americano. Mas dá para o ETF ser 100%? Não dá. Então tem um limite, porque quem é que vai estar dando preço para as ações? Se o ETF só está comprando uma carteira. Então, no final do dia, as ações com maior peso nos índices vão continuar subindo porque está entrando mais dinheiro nos ETFs que estão comprando essas ações, mas ninguém está fazendo a conta se ela deveria valer aquilo mesmo. Então, o que vai corrigir primeiro? Vai ser a percepção de: "Pô, mas tem muita coisa descolada do valor e para cima e para baixo, vou fazer o stock picking para comprar." Ou se vai ter que ter, sei lá, Houve um descasamento. E aí muitos falam de ETFs ativos, enfim. Mas para mim ficou uma pergunta, eu sei que tem muito questionamento lá fora sobre isso, mas aqui dentro eu ainda tenho uma interrogação sobre, não sei o que é o futuro disso.
Matheus Soares:Nosso mercado não é tão grande.
Frederico Vontobel:O Buffett e todos os investidores do Graham Doddsville, que ele dizia, não acredito que o mercado seja eficiente todo o tempo. Então ele até disse que se o mercado fosse eficiente, eu era um velhinho de caneca na mão pedindo dinheiro na rua. Ele se aproveitou muito da ineficiência do mercado, de comprar quando o mercado estava desesperado e vender às vezes quando o mercado estava muito otimista. Então hoje ele está fora, ele continua. Aí tu pergunta assim: será que essa vez é diferente? A gente sabe que this time is different é uma das coisas mais perigosas. Será que todo esse investimento que as Big Seven lá dos Estados Unidos estão fazendo vai gerar o retorno necessário para justificar o investimento que elas estão fazendo? Tudo isso são dúvidas que a gente tem e que a maior parte dos gestores, inclusive dos últimos 10 anos, os Value Investors americanos estão perdendo feio para S&P. A mesma coisa aconteceu na década de 90, ali antes do estouro das ponto com, os velhos investors estavam chamando esses caras de ultrapassados, tão velhos, não sabem o que estão fazendo, e depois na década seguinte recuperaram. Então é isso, às vezes tem uma posição assim, tem que olhar em perspectiva. O Eduardo, nosso sócio mais experiente lá do escritório, um abraço Eduardo aí que vai estar nos vendo depois, o Eduardo é fantástico, ele diz assim: "Tu ser herói ou bandido é uma questão de cronologia do mercado." Na vida. Na vida, exatamente. Então, o certo é fazer o que tem que fazer, fazer a coisa certa todo dia, o que tu acha que é certo todo dia. Então, eu sou a favor dos, sou contra os ETFs, eu acho que os ETFs estão indo muito bem, melhor que muitos gestores ativos nos últimos anos. Tem que olhar sempre janelas mais longas. Então, isso que aconteceu nos últimos 5 anos não quer dizer que vai se repetir nos próximos 10 anos. A gente nos últimos 10 anos conseguiu, até o final do ano passado, 20% ao ano, desde que a gente começou a fazer valuation. Só que nos últimos 3 anos, só que nos primeiros anos ele conseguiu 27%, porque o patrimônio era menor. Por isso também que a gente não quer crescer muito, a gente tem um limite lá, porque crescer é um problema também. Talvez isso que fez com que ele mudasse a cabeça, deixasse os conselhos lá do Graham mais para pro Munger e pro Philip Fisher, de comprar empresas baratas e sim empresas boas. Mas eu estou dizendo que nos últimos 3 anos a gente está perdendo para o índice. Isso nos incomoda, nos incomoda bastante, incomoda os nossos co-investidores, como a gente chama quem investem com a gente. Mas realmente, a gente sempre fala, é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros. E o importante é todo dia estar questionando: será que eu estou fazendo certo? Será que eu estou investindo nas empresas certas? Será que essas empresas estão no bom caminho? O que que eu tô errando, né? Tem coisas do macro que a gente não controla, mas não é porque a gente não controla a taxa de juros, né, ou o que que vai acontecer com o mercado, que a gente não possa estar atento para tentar ir ajustando ao longo do caminho, né? Tentar fazer, sempre tentando fazer o melhor de forma correta. Mas então, sobre a mudança da cabeça, talvez seja da sequência, né?
Thiago Salomão:Então, aí até falar, ó, no meu, na minha cronologia para tentar colocar um roteiro no meio do caos, eu falaria agora de GEICO.
Frederico Vontobel:GEICO, é o sapinho. Government Employees Insurance Company. GEICO.
Thiago Salomão:Ou a gente iria para GEICO ou então já pularia para Charlie Munger, o arquiteto invisível da Berkshire. É que na GEICO eu coloquei aqui, né, porque coloquei, né, é quando o Buffett descobriu o poder de um negócio excepcional, né, que a visita do Buffett à GEICO É um dos grandes momentos da mitologia do Buffett, porque ele descobre que o Graham era conselheiro da empresa, vai até Washington num sábado, bate na porta e é recebido e passa horas conversando com Lorimer Davidson sobre o negócio de seguros, que é quem acaba trazendo todo esse insight para o Buffett, que esse episódio acaba virando uma das primeiras janelas do Buffett para entender o poder de seguradoras, do float e de modelos superiores. Acho que a gente já falou um pouco disso, mas vocês querem contar algo especial sobre a Gates?
Frederico Vontobel:Só destacar isso, num sábado de manhã ele pegou um trem em Nova York, na época ele estava começando a trabalhar com o Graham, bateu lá na sede da empresa, tinha um porteiro lá, o porteiro: "Ó, tem um cara no 4º andar aqui que pode..." Ele ligou pro cara: "Pode receber?" Ficou 4 horas falando com o CFO da empresa, entendeu tudo, o cara se impressionou, porque quando ele disse que era aluno do Graham, o cara disse: "Vou dar atenção porque o cara é aluno do meu presidente do conselho da empresa." Ficou 4 horas num sábado Qual é o jovem de 19 anos que num sábado vai fazer isso? Então, para entender um pouco da história, assim, o pessoal que critica, né, essas coisas que eu admiro. Meu pai sempre falou assim, a gente sempre falou muito trabalho, né, o que que tá por trás disso tudo, né. E foi aí que ele entendeu o negócio. Essa era uma empresa de seguros que tinha vantagem de fazer seguro para funcionários públicos dos Estados Unidos. Então tinha um custo muito baixo porque fazia focado em funcionários públicos e também pegava uma parte do mercado que tinha menos sinistros. Então ela era muito lucrativa. E ele ajudou depois, num outro momento, quando a GEICO teve problema, que foi quando ele assumiu a GEICO anos mais tarde, ele conhecendo a história da empresa, vendo que a empresa mantinha essas vantagens competitivas de ter um custo mais baixo que os concorrentes, ele conseguiu ajudar a recuperar a empresa. Então, tudo foi uma história, uma construção de conhecimento que foi agregando ao longo do tempo e aprendendo com os acertos e com os erros. Ele errou muito também e aprendeu muito com os erros. A gente olha assim, mas ele mesmo fala, né?
Matheus Soares:Ele errou Berkshire.
Thiago Salomão:Berkshire é um erro.
Frederico Vontobel:O Munger não queria que ele fizesse. Ele disse: "Sai disso aí." E ele mesmo fala: "Foi um grande erro." Mas olha que coisa interessante também. Vale a pena falar do caso da Amex, que ele comprou na época da American Express, das parcerias. A Amex teve um escândalo, American Express, já tinha 1 milhão de americanos que usavam o cartão de crédito na época, teve um escândalo de uma subsidiária lá que não tinha nada a ver com o negócio principal, que era um caso de fraude mesmo. E aí o presidente da empresa disse que ia pagar, ia reembolsar quem teve problema com essa empresa para manter o nome da empresa. E como as ações caíram, o Buffett foi no restaurante deles ver como é que estão pagando, com cartão de crédito. Foi nas lojas, como é que estão pagando? Com a Amex. Então não deixou de ter o valor aquilo ali. E aí ele começou a comprar porque ele achou que era uma oportunidade, tinha caído bastante. Aí uns acionistas mandaram, processaram o presidente porque o presidente estava pagando indenização e ele se deu conta: "Não, para um pouquinho, ele está salvando o nome da empresa. Os acionistas que estão processando ele por estar pagando essas fraudes estão errados." Aí ele foi falar com o presidente da empresa, ele se dispôs a depor inclusive, a favor do presidente da empresa, né, isso que ele tinha 30 anos, porque ele dizia: "Não, só porque eu vou estar do lado certo aqui, o presidente tá fazendo, ele tá fazendo a coisa certa, é para salvar a American Express." Mas tinha gente criticando o presidente na época, queria depor o presidente, que tava querendo na verdade salvar o nome da empresa, né. Ele dizendo: "Eu vou fazer isso não só porque é uma questão moral, não só porque é uma questão moral de a gente ressarcir quem perdeu com essa subsidiária, como também é uma questão de salvar o nome da empresa." E aí também Aí eu acho que é uma ponderação minha, se vocês discordarem, fiquem à vontade de falar.
Thiago Salomão:Mas acho que também esse é um ponto importante para falar do lado bom do skin in the game.
Matheus Soares:Sim.
Thiago Salomão:E que, sei lá, talvez uma pessoa de fora do mercado vai falar: "Pô, esses caras são muito capitalistas, fazem tudo por dinheiro." Mas obviamente, Warren Buffett tinha um interesse em defender a empresa, porque ele estava comprando ação. Então ele sabe que um processo, dos acionistas ao CEO da empresa, por mais ético e moral que ele estivesse sendo, poderia prejudicar a empresa. Então, o skin in the game também nos faz... Eu brinco sempre que o legal da gente ter a nossa carteira, o nosso fundo de ações onde a gente investe nas empresas, é isso que vai nos fazer dormir uma horinha mais tarde e acordar uma horinha mais cedo todo dia para poder estudar um pouco mais sobre a empresa, para poder se preparar para um podcast, para poder quando for entrevistar um... Um CFO, um CEO de uma empresa que a gente investe, a gente tá mais bem preparado. Ler um livro que vai nos trazer um diferencial. Se você não tem esse skin in the game, se você não tem aquela necessidade de, pô, isso de fato vai fazer diferença na minha vida, seja financeira ou intelectualmente, pô, não dá assim. Você corre o risco de cair no que eu brinco da, pô, tá chovendo hoje, não vou fazer exercício. Ah não, pô, "Estou cansado, vou deixar para estudar amanhã." Não, cara, você está com o seu na reta aí, vai lá, cara, vai lá, defende, faz isso aí, vai. Então eu gosto muito do que o skin in the game nos traz de fazer coisas que talvez a gente não faria numa normalidade.
Frederico Vontobel:E mostra a postura dele de ir pegar um avião e ir morar lá no meio-oeste. "Eu vou lá falar com o cara, dizer que ele está fazendo a coisa certa." Aí o cara que perguntou: "Bom, tu me ajuda então no tribunal? Tu vai lá dizer isso também, que tu como acionista também acha que nós estamos fazendo a coisa certa?" Então é isso, se colocar à disposição. A mesma coisa aconteceu lá no Salomon Brothers, né, em 91.
Thiago Salomão:Exato, esse é o caso mais emblemático.
Matheus Soares:Que tinha colocado 700 milhões de dólares.
Frederico Vontobel:Mas ele até poderia pegar e sair, você ia sair com perda e tal. Não, mas eles não, eu vou salvar porque são 8 mil empregos, foi um cara que errou, né, que usou o nome de clientes para fazer uma coisa pelo Salomon Brothers, né, para comprar títulos que não devia, e agora tem 8, não é esse que errou que vai, os outros 8 mil vão pagar por ele.
Matheus Soares:E claro. E quase que se atrapalhou, quase que deu muito ruim a Salomon Brothers, porque o Fed tinha tirado o direito do Solomon comprar e vender títulos públicos, né?
Frederico Vontobel:Exatamente.
Matheus Soares:E daí chamam o Warren Buffett para virar o CEO. Ele fala que aquela foi a madrugada que mais— pior dia da vida dele, ele conta, né? Ele não sabe qual foi o pior dia, mas esse ele fala que talvez tivesse sido esse, porque ele tinha que fazer alguma coisa. Porque se amanhecesse com aquela notícia, a Bolsa de Tóquio e amanhecer com o apostolado caindo muito.
Frederico Vontobel:E o salmão ia para o vinagre, podia virar um Lehman Brothers, né?
Matheus Soares:E a questão da credibilidade que você trouxe, né?
Frederico Vontobel:Ele falou com as autoridades, olha, eu vou aqui. E aí que ele vem com aquela frase que é fantástica, que eu acho que assim, ele sempre fala assim, né? Faça tudo que for fazer, pensa se tu gostaria que a tua esposa e teus filhos vissem na capa do jornal do dia seguinte.
Matheus Soares:Porque esteve na capa do jornal, né? Esteve lá na página direita do jornal de Wall Street.
Frederico Vontobel:E aja de forma correta. Aí que ele foi depor lá, quando foi falar no Congresso sobre aquele problema, né, para salvar a empresa, ele disse: olha, o que que eu tô dizendo para os funcionários da empresa? Perca um dinheiro para empresa e eu aceitarei. Por quê? Porque isso faz parte de aprendizado, faz parte de, né. Agora, percam um pingo de reputação e eu serei implacável. Porque não podia. A partir de agora, nosso compliance é: ninguém pode chegar nem perto da linha.
Matheus Soares:E só para quem tiver ouvindo a gente se situar nesse contexto, isso foi em 1987.
Frederico Vontobel:Acho que foi 90, 91.
Matheus Soares:Acho que foi em 87, 91.
Thiago Salomão:É, eu lembro, foi 87, foi o ano que eu nasci, mas durou muito, né?
Matheus Soares:Tanto que no livro, assim, 91 foi estouro, o estouro do escândalo.
Thiago Salomão:No livro eu até tinha anotado quantos capítulos, assim, são vários capítulos do livro que fala sobre a Salomon Brothers, né? Então é uma passagem bem longa aqui do livro, pelo que eu tô vendo aqui, é o capítulo 47, 48, 49, 50, E é, vai, acho que vai até o 51, mas são pelo menos 3 capítulos, 3, 4 capítulos do livro só focado no Salomon Brothers.
Frederico Vontobel:Então assim, o quanto não teve de preocupação para fazer outra coisa. Outro exemplo também foi a briga que teve o Buffalo, o jornal de Buffalo que ele comprou, que tinha um concorrente, que eles ficaram 5 anos brigando, perdendo dinheiro.
Matheus Soares:Aliás, Fred, acho que sobre o jornal é legal a gente abrir esse capítulo porque é muito interessante. Ele era lá atrás, quando moleque Ele fez as rotas de entrega de jornais e depois ele encontra, em 1970, ele encontra o Charlie Munger, tudo, né, já tinha encontrado Charlie Munger. Em 1973 a Berkshire já valia $93 por ação e ele compra o primeiro jornal dele, o Omaha Sun, né, e ele faz o furo dos Boys Towns, que deu o prêmio Pulitzer pro Sun, né. Então é interessante, ele já conhecia do negócio, ele entendia a qualidade daquele business. E ele compra o Omaha Sun, que na verdade só publicava uma vez por semana, e ele gostaria que fosse diário, né?
Thiago Salomão:Só esse, para quem quiser tá anotando ali a cronologia, acho que vale a pena. Capítulo 35, o The Sun expõe a história de Boys Town e ganha o Pulitzer.
Frederico Vontobel:O Boys Town era uma instituição, né, que ajudava crianças É, e aí eles descobriram que o Buffett descobriu que eles estavam com muito caixa e continuavam pedindo cartinha lá, pedindo como se tivessem passando dificuldade, né? E ele achou que não era uma coisa correta, apesar da instituição estar ajudando pessoas, né? Ele falou que isso não tava tendo governança. E aí quando ele desconfiou, ele falou com o pessoal do Sun, aí foram atrás e descobriram. E porque aquela coisa de fazer o que é certo, né? Então, e era uma instituição bem, já bem importante na época, cidade mais rica da da América, que era uma, acho que era um centro de reformatório, né, é para ajudar crianças carentes, né. Só que ela tinha um patrimônio gigante que tava parado.
Thiago Salomão:Então isso até foi um evento que tornou Buffett famoso, né, ele começou a ter uma notoriedade quase de popstar mesmo.
Frederico Vontobel:A primeira notícia que teve dele foi famosa foi quando ele tinha 35 anos, né, que um cara aí do Omaha Herald, que era o principal jornal da cidade, Que ele comprou também depois. Exato. É porque essas partnerships eram com 100, chegou a 100 pessoas, né? Mas todas eram fechadas, que no começo ele tocava do escritório da casa dele, né? E depois que ele foi para lá perto, onde ele tá hoje, até hoje, né? Mas não era conhecido, não era. Aí um cara descobriu, olha, um dos maiores investidores aqui do de 55 a 105, mora aqui em Omaha, as pessoas já sabiam, e de novo ele prestava, escrevia uma carta uma vez por ano, as pessoas tinham uma vez por ano só para decidir se resgatavam ou se aplicavam mais, até podia no começo tirar meio por cento ao mês se quisesse, que era o 6%, que era o mínimo, mas ali que o pessoal comentou, ele não quis falar com ele, o repórter quis falar com ele, porque ele não gostava de falar para não ter que falar das ações que ele estava comprando. E até hoje ele não gosta de falar dessas coisas, é só depois que ele tem a posição que ele fala, né? Mas ele, aí ele disse para esse repórter: "Olha, eu não vou falar contigo, não quero abrir, mas o que tu escrever tá ok." E o cara respeitou, ele não atrapalhou também, e aí foi a primeira notícia, né? Tiraram foto, aí permitiu que tirassem fotos dele lá e dos assessores que trabalhavam com ele, mas não era conhecido até então. Aí traduzia Berkshire, não tinha a... Mas já estava compondo, já estava aquela história de tentar investir certo, contribuir, não só investir, mas contribuir, porque em muitos casos ele podia muito bem dizer assim: "Ah, quer saber? Esquece aí, não vou." Mas ele trabalhava, ele ia ajudar, ele pensava: "Se eu posso ajudar você empresa, se eu posso ajudar, eu vou ajudar. Se eu posso ajudar empresa, eu vou." Era um formador de opinião.
Matheus Soares:É, Fred.
Frederico Vontobel:E ele nunca fez assim uma compra hostil, ele nunca fez assim uma, não sei, essa discussão por causa desses centavos que o cara economizou, mas ele nunca foi assim. Ele sempre pensou assim: eu quero comprar os negócios, o negócio continuar.
Matheus Soares:Se eu não me engano, a compra hostil que ele fez foi a Wesco, certo? Que ele começa a acumular porque ela tava sendo alvo de uma fusão, né?
Frederico Vontobel:Mas a gente chega lá, ele teve problema depois com isso, ele teve problema. Dá para você alongar muito no tempo. Também não tem preocupação.
Thiago Salomão:Não, eu tô, eu já desencanei do tempo, gente.
Frederico Vontobel:Agora a gente vai ficar chato, pessoal tá ouvindo aí.
Matheus Soares:Não, acho que estamos abordando toda a história, acho que tá legal.
Thiago Salomão:Só, eu só ia aqui nessa pontuação dos capítulos. Quem quiser saber mais um pouco da história da American Express, capítulo 26, que é um capítulo muito interessante porque também fala da morte do Kennedy, né, foi nessa época também. E a morte do pai do Buffett e os impactos silenciosos que isso trouxe na própria vida do Buffett. E até ali você já começa a identificar a dificuldade do Buffett de expor os sentimentos e como ele, na verdade, ele nunca trabalhou isso, porque isso fica até bem evidente quando a gente vai chegar lá mais para o final com a morte da esposa dele, a Suzy. Talvez é um dos capítulos, também por estar no final e você já se envolve com a história do Buffett, é emocionante. Não tem como ler e não ficar comovido com o quanto aquilo impactou um cara que tinha uma dificuldade absurda de expor seus sentimentos.
Frederico Vontobel:Mas bom, vamos— Tem uma história bonita que eu gosto de falar, de família agora, uma história bonita que ele fala do pai dele, que uma vez quando ele fugiu, que ele não estava contente em Washington, ele fugiu, não deu certo pegar, ele era moleque, Aí acharam que tinha um deles que era muito baixinho, aí a polícia pegou e teve que voltar para Washington lá. Ele tinha acho que 14, 15 anos, e o pai dele, em vez de ficar bravo com ele assim, disse: meu filho, acho que tu pode fazer melhor que isso, né? Então o pai dele sempre foi um apoiador dele. Tu pode fazer diferente, mas tu pode fazer melhor que isso. Então é isso, uma coisa legal de— e quando o pai dele tava para morrer, ele tava questionando as posições políticas do pai, que era republicano.
Matheus Soares:Depois ele virou democrata, né?
Frederico Vontobel:Mas ele só mudou de partido depois que o pai faleceu. Exato. E quando o pai faleceu, disse que ele se afastou um período, né, depois voltou e botou um porta-retrato do pai tamanho real assim no escritório dele, na frente da mesa, né. E a relação dele com a mãe não foi boa, né, porque a mãe era muito dura também. A mãe dele, talvez o fato dele também desde o começo querer ganhar dinheiro e tal, porque a mãe dele também tinha tido uma infância difícil. A mãe dela enlouqueceu, as irmãs também, né, e a mãe era muito dura com eles. O pai que amenizava, né, e ele tinha uma relação difícil com a mãe, né, por conta dessa dureza que ela tinha. Ele até, as vizinhas diziam que ele tava mais na casa das vizinhas, dos amigos, do que em casa, porque ele não queria ficar ouvindo ela dar bronca assim como ela dava bronca neles quando eles eram pequenos, né.
Thiago Salomão:Meus queridos, voltando a cronologia, a gente tava agora na parte dos jornais, aquele comprou Washington Post, e Washington Post traz um evento interessante É que na verdade a gente pulou umas etapas, né?
Matheus Soares:Diz aí.
Thiago Salomão:A gente pulou o encontro com o Charlie Munger. E eu acho que assim, eu sei que essa, você até falou, não, o pessoal que tá ouvindo vai achar chato. Pô, quem quiser a cronologia exata, lê o livro, né? O livro tá aqui, vai ser essa loucura do lembrar os ensinamentos que a gente teve. Mas ali, pô, capítulo 23, conexão com o Munger, momento que, quer dizer, A primeira menção ao Munger é no capítulo 22, mas 23 é quando une os dois.
Frederico Vontobel:Eu até gosto mais do livro que eu li primeiro lá em 1998, que é A Formação de um Capitalista Americano, do Roger Lowenstein, que ele também falou com muita gente, falou com os filhos, falou com os irmãos. Esse aqui foi uma biografia autorizada da Alice, é mais detalhado.
Thiago Salomão:Exato, isso aqui é muito mais a história dele mesmo. Eu acho que eu até recomendo assim para quem não gosta de ler livro tão pesado porque é pesado, né? Eu que o diga, né? O Renan jogou agora, até para segurar foi difícil. Mas na Audible você pode ouvir esse livro, né? Então é uma audição interessante. O problema é que vai deixar de ouvir um pouco de podcast, né? Porque são umas 40 horas ali, sei lá, acho que é bem— é, mas vale a pena.
Frederico Vontobel:Mas então ele tava nesse período, né, trabalhando em casa. Ele comprou a casa lá, foi 1900, que ele mora até hoje, 1958, quando ele tinha 28 anos, né? Pagou— o cara ofereceu por 52 mil, ele pagou 31 mil, conseguiu uma barganha. E ele mora na mesma casa até hoje, ele gosta de lá, é na mesma rua do escritório dele, 2 km fica a casa do escritório, que ele só se mudou para o escritório em 1960 e poucos. Mas ele trabalhava sozinho pensando, e o ano todo trabalhando e viajando, conhecendo as empresas, não falava com ninguém. Aí um amigo em comum disse, olha, que já investia com eles, olha, tem que conhecer o Charlie que é muito parecido contigo e tal, que é 6, 7 anos mais velho, aí apresentou os dois, Eles se identificaram muito, né? E a partir dali eles nunca mais perderam contato. É isso, é. O Munger era advogado, tinha formação de Direito, até ajudou Buffett na questão da Salomon também, em outras questões ajudou com essa questão dele conhecer muito a parte do Direito, né? Mas ele falou assim: por que que tu, como advogado, tu tem que ser investidor, fazer as parcerias, as partnerships que nem eu faço aqui? E o Munger gostou da ideia, né? E a partir dali eles sempre começaram a falar sobre empresas. E o Munger também, ele também era um pouco melancólico, tinha perdido um filho muito cedo de leucemia, né?
Thiago Salomão:Depois ele falava que a vida dele foi bem trágica antes de conhecer o Buffett, né? Perdeu o filho, teve o divórcio, né? Os dois eventos quebrou, praticamente quebraram ele. Aí teve a doença no olho, né?
Frederico Vontobel:Isso tudo foi um erro médico, né? Ele nunca questionou, nunca culpou.
Thiago Salomão:Tudo aos 42 anos, né? Que naquela época, né? Hoje, 42 anos, as pessoas já não se sentem tão jovenzinhas. Do filho. Mas com 42 anos você já perdeu o filho, perdeu a mulher, perdeu a visão de um olho, quebrou, fala: porra, me fodi, né, nessa vida, não vou conseguir dar a volta.
Frederico Vontobel:E aí se conheceram, gostaram, os dois tinham trabalhado na grocery, Buffett Grocery Store, do avô dele, né. O Buffett não junto, não na mesma época, né, mas 6 anos mais velho. É, o Munger trabalhava nos sábados lá e aprendeu também dizer assim, que se alguém chegasse um minuto atrasado, o avô dele gritava: bom dia, né. E pagava pouco, né? Mas era também assim, ele disse que era uma lição assim de como aprender a trabalhar, né? E trabalhar só aprende, né? Eu lembro que eu com 9 anos fiz o meu primeiro estágio numa mercearia do espanhol, que tinha mercearia lá em Santa Maria, o Seu Bonifácio, não existe mais, né? Mas nas férias eu fiquei só uma semana lá, mas a primeira coisa era pegar e botar as melancias na rua, né? E tu aprende com tudo.
Thiago Salomão:Eu lembro da história quando você veio aqui, o primeiro episódio você veio, você contou que Você vendia, era na fila da onde, nos Estados Unidos?
Frederico Vontobel:Na fila do Six Flags Over Georgia, vendia, que era um parque de diversões, vendia lata vazia que dava desconto, né?
Thiago Salomão:Ah é, você vendia as latas vazias porque com a lata tinha desconto.
Frederico Vontobel:Cada latinha na época tava 50 centavos de Coca-Cola, eu comprava para todo mundo beber, juntava até no lixo lata vazia, aí eu ia no final de semana, pegava 2 sacos disso, enchei de lata vazia e essa latinha dava $5 em desconto de entrada do parque, aí eu vendia por $2 a lata vazia, sendo que ela cheia custava R$0,50. Só que eu chegava assim nas famílias que tinham bastante gente assim, ó, tu conhece a promoção, né? Cara, não, tu quer? Eu te vendo por 2 doses, ele tem 5 de desconto, né? Então eu vendia, ela tinha vazio. Só que eu ficava também lá no fundo, no final da fila, né, com medo que o pessoal do parque só fazia sábado e domingo, né? Porque durante a semana eu trabalhava na biblioteca lá da universidade. Então, e são boas lembranças assim de trabalhar cedo, né? Eu acho que Todo mundo deveria, assim, a gente sempre foi muito, né, isso é coisa do meu pai, de trabalhar nas férias sempre. Eu com 11 anos trabalhei também de empacotador de supermercado, né, porque não tinha plástico, tu empacotava no sacola de papel, tem que separar comida de produto de limpeza, né, e remarcando, na época ainda tinha inflação, a gente tinha que remarcar os preços, né, trabalhar com remarcador de preço e controle de estoque e tudo. Com tudo tu aprende, né, mas diz que a mercearia lá do vô de Cristiano trabalhando junto era muito dura assim, era uma aula para todo mundo. De todo mundo que passava lá, né? Uma aula de disciplina, de trabalho. E pagava pouco, o pai dele, o vô dele pagava pouco. Uma coisa interessante também, que o vô dele, para todos os filhos, juntava $1.000 depois que casava e dava no envelope, dizia: olha, esse $1.000 aqui é uma segurança. $1.000 na época era muito mais do que $1.000 hoje, né? Isso aqui é $1.000 para ter uma segurança que eu tô te dando de presente, para te não mexer. Se tu precisar de uma urgência, tu tira daqui, mas depois tu repõe, né? E não tenta especular com esse dinheiro, guarda. Para uma segurança. Não importa o quanto tu vai perder, deixar parado, vamos dizer assim, mas tu tem uma segurança. Aí eu fico pensando na cabeça dele hoje com esses 400 bilhões rendendo 2%, né? Mas ele tá sabendo sim que eu vou deixar esse dinheiro para quando tiver uma crise, aí sim que eu vou aproveitar. E de tempos em tempos as crises aparecem. A última vez que o S&P caiu foi em 2015, já fazem 11 anos. Vai ter uma crise, a gente nunca sabe quando, né? E ele tá esperando para a hora certa você precisa botar o dinheiro para trabalhar, né? E também, mas não deixa de comprar o que ele acha que tá barato, né? E aqui no Brasil hoje a gente tem muita empresa barata com múltiplos baixos, né? Nos Estados Unidos é difícil achar uma empresa valendo 5, 6 vezes o lucro de um ano, né? 5 vezes lucro é 20% de earning yield, é mais do que a taxa de juros até, sendo que a empresa ela protege da inflação porque ela, a empresa tende a crescer, né? E só que lá nos Estados Unidos hoje, de um modo geral, empresas grandes dando essa oportunidade que ele gosta de... Hoje ele não está mais querendo comprar barato. E essa foi a mudança para o... E aí o Charlie Munger chama atenção, olha...
Thiago Salomão:E era bem o ponto que eu queria chegar. Qual foi a maior contribuição do Charlie Munger para o Warren Buffett? Foi tirar essa ideia de comprar qualquer besteira barata.
Frederico Vontobel:E dentro dessa ideia do Charlie Munger também ter pensamento independente, ele falou assim: "Olha, o Graham está meio ultrapassado." Ele foi da época da guerra, lá do pós-guerra, quando tinha empresa valendo menos que o patrimônio, todas valiam metade do patrimônio, tinha as netnets. Hoje nos Estados Unidos já está mais difícil de aplicar ainda mais todo esse dinheiro que a gente está gerando dessas empresas. Nós temos que agora... Aí como ele leu também Philip Fisher, que era aquele "Common Stocks and Common Profits". É melhor a gente comprar uma empresa boa que vai continuar compondo, que aí deixou de ser cigar butts para compounder, que vão continuar entregando resultado e crescendo ao longo do tempo.
Matheus Soares:Tem a ideia do "scuttler butt" que ele fala. Que é você tem que ser um investigador, você tem que conversar com o CEO da empresa, com empresas concorrentes, perguntar para o concorrente que empresa ele investiria.
Frederico Vontobel:Então tudo isso foi o Munger que ajudou ele a mudar. Depois chegou uma época que ele disse assim: "Agora eu sou metade Graham e metade Fisher." Ele sempre atribuiu, isso é uma coisa legal, ele sempre teve humildade de aprender. Isso que é legal também, tudo que ele fez qualquer um poderia ter feito, mas ele teve humildade de aprender e botar em prática o que ele estava aprendendo. Mente aberta, né? Então ele até diz assim, olha, o que eu fiz não fui eu que inventei.
Thiago Salomão:Eu acho assim, até é bonito a maneira que ele definiu o Munger, mas depois de ler tudo isso fica ainda mais bonito, que ele fala que o Munger foi o arquiteto da Berkshire Hathaway, né? Que ele até, a carta de 23, né, que ele escreve, né, o Charlie nunca buscou crédito, mas a Berkshire se tornou uma grande empresa porque Charlie Munger foi o seu arquiteto. Então é muito legal essa conexão e como deu certo, porque foi algo muito longo. Então a gente até poderia falar um pouco até da sorte que ele deu de ter um parceiro intelectual, que até o cara que estava ali para ajudar, mas também estava lá para falar: "Você está sendo burro fazendo isso." Que também o Munger tinha uma... Em 5 palavras. Poucas palavras, mas às vezes... Às vezes uma acidez necessária ali para te botar no eixo.
Frederico Vontobel:Ele até disse que ele gostava de ligar para o Munger porque todo negócio que ele achava, o Munger como advogado via todos os riscos, né, e sempre dizia não, não, não, não. Aí quando ele dizia assim, tá, mesmo tu dizendo não, eu vou fazer, aí o Munger dizia, então deixa 10% para mim. Então, mas era para justamente fazer aquele contraponto, era com quem ele podia conversar para trocar ideia, e o Munger era muito de ver os riscos também, né. E ele dizia assim, olha, se eu só comprei empresa barata, ela vai continuar barata muito tempo, o que que vai adiantar? Tu pode tirar o que ela pode, mas depois tu vai ficar incomodado, perdendo tempo com aquilo ali, que não vai ser um grande negócio, né? Então aí veio a See Candies, né?
Matheus Soares:A See Candies, é. E quem assiste as conferências, né, da Berkshire Hathaway, já deve ter percebido que em cima da mesa sempre tem o pacotinho da See Candies, que é a doceria que o Buffett até falava, né? Se você fosse dar um doce para alguém que você ama, que seja a See's Candies, porque é a melhor.
Frederico Vontobel:Seria como a Copenhagen, que é uma Lindt, um chocolate mais...
Matheus Soares:E ele encontrou na See's Candies uma empresa capaz de ter pricing power, que conseguia repassar preços e que mesmo assim não perdia vendas.
Frederico Vontobel:Já era uma empresa de muitos anos, a See's era a fundadora, uma senhora já, tinha 200 lojas já na época.
Matheus Soares:Califórnia, né?
Frederico Vontobel:Na Califórnia. Só que quando eles pediram 30 milhões na época pelo negócio, o Bob achou absurdo porque era 2 vezes o patrimônio. Ele não estava acostumado a comprar, ele sempre gostava de comprar empresa valendo menos que o valor patrimonial barato, né? Mas o Munger disse: "Olha, mas isso aqui é um negócio que vai... A empresa é boa, tem marca, consegue repassar preço, todo ano consegue repassar preço, né? Acompanha a inflação, tem um produto de qualidade diferenciado, tem essa percepção de marca nos clientes." Ou seja, isso aí é tudo que não é uma commodity. É isso que ele falou assim, que tem dois tipos de negócio. Tem o commodity type business, que ele fala que é doente, É um negócio de commodity, quando tu não tem uma vantagem competitiva de custo, o negócio de commodity é um negócio doente que às vezes quando baixa a febre, quando a demanda é muito grande, aí diz que é hora de vender. Esse negócio de commodity. Agora tem outros que são de marca, que são monopólios, que esses têm uma vantagem competitiva, não é mais um doce, não é mais uma rapadura, é uma rapadura muito boa e também tem essa esse valor de ser considerado algo diferenciado. E aí que eles fizeram a proposta, pediram 30, era, eles disseram, não vou pagar duas vezes o patrimônio, mas eles ofereceram 25 e foi aceito. E de lá para cá sempre deu lucro, sempre gerou resultado. E até ele dizia assim, a única decisão que a gente tem que tomar uma vez por ano é quando que nós vamos aumentar no final do ano o preço dos produtos, porque é um objeto de desejo das pessoas. E realmente assim é gostoso, é diferente.
Matheus Soares:Ele tem até um exemplo, eu não me lembro se é a Adam, Mars Brands, que é a dona da Chiclete. Enfim, que ele fala que é muito, é um produto muito barato e as pessoas não vão trocar o chiclete por um outro de uma qualidade inferior, nem que você aumente um centavo ou dois centavos. Então ele encontrou também no chiclete um lugar para ter um bom negócio.
Frederico Vontobel:Quando a gente fala esse negócio de marca assim, pega por exemplo a Disney, né? Ele deu conta sempre, a Disney, os filmes esses da Disney que tem 50 anos ainda hoje Cinderela, Bambi, né, são, nós vimos, os filhos vão ver, os netos vão ver, porque são aquela coisa que vai, tem uma marca muito forte, não é o parque, é a marca, que até depois hoje virou chinelo com marca, o Mickey, né, tudo são coisas que ele conheceu pessoalmente o Walt Disney quando ele foi na Califórnia, teve com Walt Disney, e o Walt Disney faleceu 6 meses depois também, porque ele estava olhando a Disney, achou interessante os filmes, né, Aí foi lá, visitou o parque, foi com a família do Munger também lá no parque. E aí foi visitar, conheceu o Walt Disney. Só que viu assim, pô, esse cara é um cara— Importante conhecer as empresas também, porque assim tu vê quem é que vive o negócio. Ele sempre gostou de ver empresários que vivem o negócio. É difícil das pessoas entenderem às vezes que tem gente que vive, trabalha, não é pelo dinheiro, é pelo negócio, é pela realização.
Matheus Soares:E o nome Graham parece que perseguia o Buffett, né? Porque na compra do Washington Post, conhece a Katherine Graham. Isso que ele fala, que a Katherine Graham foi quem colocou ele nos círculos sociais. Ele pôde sentar na mesa de vários, várias pessoas que ele jamais imaginou sentar, né? Henry Kissinger, que é um cara lá, um baita estudioso, né, sobre diplomacia geopolítica e tudo mais, presidentes, né?
Frederico Vontobel:Enfim, era dona, viúva, né, dona do principal jornal de Washington, Washington Post. Que é a capital do país, né? Um jornal lido no país inteiro.
Matheus Soares:Inclusive ele compra muito do Washington Post quando tem o problema do Watergate, né? Que o Nixon começa a atrapalhar a história, né?
Frederico Vontobel:Só que por outro lado teve o reverso que a gente tem que falar também, que é essa ligação dele com a Katherine Graham, que era mais velha que ele, né? Ela tinha 10 anos mais. Como ela gostou e aprendeu muito com ele na questão de gerir o negócio, de recomprar ações, isso ele começou a frequentar e até quando ele ia para Washington ficava na casa dela. Isso gerou ciúmes na Suzy. Foi uma das coisas que gerou assim a... Há quem diga que a Suzy não estava gostando nada disso.
Thiago Salomão:É que na verdade é que esse livro, Bola de Neve, ele é muito mais sobre a história do Buffett do que as teses de investimentos em si. Tem uma parte em alguns capítulos antes dessa história, aliás, na verdade, ou não, foi depois de conhecer o Munger, que ele chega a vender, pensar em vender a sociedade para se aposentar. E o que deixou a Suzy muito feliz, porque finalmente ele vai ficar mais tempo em casa. Só que foi uma aposentadoria meio fake, ele já voltou à ativa. Então, ali já existia esse problema entre a Suzy. Fora que era uma pessoa com um um espírito muito mais livre do que o Buffett, né? O Buffett era aquela coisa muito mais fechada.
Frederico Vontobel:Ela era muito mais expansiva, um sorriso bonito, né?
Thiago Salomão:Ela era assim, todo mundo gostava dela, viajava. Então eu acho que nesse, quando começa a ter esse incidente, eu acho que se a relação deles fosse mais forte, causaria mais incômodo. Eu acho que já era uma relação mais, já tão distante, tão frágil, que era quase como "Vai lá, fica com ela mesmo, né?" Enfim, porque também ela já tava tendo uma outra vida, né? Ela já, não digo nenhuma outra vida, embora teve outro relacionamento, mas ela, a vida dela já, ela não era mais a esposa do Warren Buffett, ela fazia várias outras coisas ali que não tinha nenhuma conexão ali na relação com o Warren.
Frederico Vontobel:Mas ela, mas as fotos dela, tu vê assim o sorriso dela assim, sempre sorriso aberto, é um sorriso de pessoa assim E ele mesmo diz assim que ela que tornou ele uma pessoa sociável, ela que ajustou ele emocionalmente, ela que corrigiu muitos problemas que ele tinha, muitos medos que ele tinha. E todo mundo era uma pessoa que todo mundo se abria com ela, era uma pessoa assim que ajudava todo mundo, até a própria Astrid, que depois ela arrumou para ficar com ele. A Astrid estava depressiva quando a Suzy resolveu apoiar. Então ela é uma pessoa assim que ajudava todo mundo, queria ajudar todo mundo, então era uma pessoa assim É extraordinária, nunca verdadeiramente largou o Buffett.
Thiago Salomão:É porque assim, até você citou a Astrid, né? Para quem não conhece nada da história, o Warren Buffett e a Suzy nunca chegaram a se divorciar oficialmente, mas eles passaram a ter vidas separadas.
Frederico Vontobel:Ela foi para São Francisco, né?
Thiago Salomão:E só que ele era um cara tão emocionalmente carente, que precisava de alguém. A Suzy arranjou uma mulher para cuidar do Warren Buffett, que acabou se tornando a companheira dele, a Astrid.
Frederico Vontobel:E a desculpa no começo era assim: vai lá fazer uma janta para ele, vai lá fazer um almoço para ele.
Thiago Salomão:Era enfermeira, né?
Frederico Vontobel:Não, ela trabalhava no French Café onde a Suzy cantava.
Thiago Salomão:Ah, sim, verdade.
Frederico Vontobel:E ela era migrante da Letônia, parece, não sei de onde é que ela era, né? Mas ela se muda para casa dele. Sim, a Suzy começou a dizer: vai lá cuidar dele, cuida dele para mim e tal. E ela foi lá e foi lá primeiro para cuidar, para fazer comida para ele, para organizar a casa a pedido dela, né, e terminou ficando. Mas é uma relação assim, eles disseram que assim se ajustou bem para eles, mas de novo emocionalmente não é uma coisa que assim, né, não tem muita emoção assim, não teve, o próprio Buffett era mais uma dependência do que o amor mesmo pela esposa, senão ele não tinha deixado acontecer isso, né, na minha visão. Acho que esse foi um grande erro dele, porque a Bíblia fala que o homem tem que amar a esposa, a esposa tem que se sentir amada, não é só de ouvir um "eu te amo", tem que se sentir amada, tem que se sentir protegida, e ali na verdade era uma relação mais até de mãe e filho praticamente do que de marido e mulher.
Thiago Salomão:O Buffett aí também tinha um, aí não tá no livro, mas na última vez que eu entrevistei o Luis Stuberger estava o Luiz Parreira junto, juntos. E o, eu comecei a entrevista lembrando do, a única vez que o Warren Buffett cruzou a linha do Equador aqui para baixo do mundo, né, para o hemisfério sul. A única vez foi quando ele veio para o Brasil a pedido do Jorge Paulo Lemann. Ele veio e o Jorge Paulo apresentou o Warren Buffett para várias pessoas, e o Luiz Stuberger foi uma delas. E aí ele contou um fato curioso, né, que o Warren Buffett estava muito interessado em conhecer conhecer as jogadoras de vôlei de praia. Ele queria conhecer jogadores de vôlei de praia. Até o Stuberger falou: não sei porque ele queria lá. Não sabe, Luiz?
Matheus Soares:Será que não tinha bola de neve naquela época?
Thiago Salomão:Não, é que o ponto aí é que o Warren Buffett já era mulherengo, era mulherengo danadinho nisso aí.
Frederico Vontobel:Eu não tenho essa visão assim de— porque até dizem, né, que por exemplo com a Katherine Graham Foi um relacionamento de amizade e não se confirmou.
Thiago Salomão:Talvez porque ela era 10 anos mais velha do que ele.
Frederico Vontobel:É, mas acontece que na verdade assim, a visão que eu tenho, pelo menos posso estar errado, né, é que como disse o filho dele, ele tinha essa, né, uma visão só no negócio, em compor capital, trabalhando, né, com as mesmas pessoas sempre lá no escritório, eram poucas pessoas, né. E nunca teve assim, nunca, pelo menos eu nunca li, realmente nunca li dele ter tido um caso com alguém de nenhum lugar.
Thiago Salomão:Mas esse é o ponto, eu não acho que ele tinha caso, eu acho que mulherengo nem é o termo certo, acho que ele era só, ele gostava.
Frederico Vontobel:Ah, bom, ok, pode ser.
Thiago Salomão:Um apreço ali ao vôlei, às mulheres assim, de uma maneira que assim, Tipo, e acho que isso explica muito porque ele não é uma pessoa que se envolvia muito emocionalmente, então acho que ele não tinha esse envolvimento emocional.
Frederico Vontobel:E falando até dessa parte dos erros também, né, porque a gente está falando aqui, acho que isso é importante, né, a gente está falando da admiração que tem do negócio que ele fez e da forma como ele investiu, que a gente pode aprender com isso, né, seja envolvimento, trabalho, né, muito trabalho, não é sorte, não é, e Mas um dos grandes problemas pra mim foi realmente assim, o descuido com a família, né? Porque nenhum dos filhos terminou faculdade, todos os três separaram, né? E tem alguns episódios assim que realmente não consegue entender. Por exemplo, uma vez, depois que a Suzy faleceu, ele foi dar um presente para os netos e deixou de fora os dois filhos adotivos do Peter, porque ele dizia que não eram netos dele. Poxa, isso aí, né? A Suzy tratava todos como netos. Não tem explicação um negócio desse, eram os filhos do filho dele, né, que estavam... E outra coisa também, o Howie quando decidiu que queria ser fazendeiro, plantar, ele deu uma verba, conseguiu terra nesse preço, o Howie conseguiu lá barato no norte, lá longe da cidade, né, ficou produzindo 8 anos, plantando e produzindo milho, e ele disse que conseguiu levar o pai 2 vezes lá contra gosto, mas ele arrendava pro Howie, arrendava a fazenda, ou seja, cobrando arrendamento de mercado, né, e chegou até a propor um dia de diminuir o arrendamento, um percentual, se o Raul baixasse de peso, porque ele estava achando que o Raul estava acima de peso, né, mas era uma condição, então diminuía o percentual, o Raul não conseguiu, mas também então foi duas vezes visitar, nunca viveu o negócio do filho assim, nunca, né, hoje o Raul até depois com o tempo entendeu e hoje é conselheiro da empresa, né, Mas a filha, diz que a Katherine Graham foi visitar a filha, quando a filha dele teve um filho, foi na casa dela, ela tinha uma TV preta e branca, não tinha babá, né? E até ela disse: "Pô, tu pode dar uma televisão a cores pra tua filha, né? Tu pode ir." Então assim, tem coisas, né, que é patológico, tem coisas que assim, não estamos julgando aqui, né? Mas é um apego aí que também não se justifica, que talvez ele não tenha se dado conta por essa por essa questão de talvez uma inteligência emocional menor. Só que com isso hoje os filhos entendem, hoje os filhos entendem, mas na época ele não estava vivendo a vida dos filhos, então estava perdendo isso. Eu agora mês passado fui fazer uma viagem, fiz uma caminhada lá em El Chaltén com a minha filha de 8 horas. Isso não tem preço, ter tempo com os filhos, isso não tem preço e passa rápido. Criar memórias, Então os filhos dele na época mesmo diziam que ele estava— a Suzy uma vez disse que ela vivia com um cara que era feliz com uma lâmpada e um livro, porque só lia e estudava, passava fazendo isso, não convivia. O Peter uma vez que caiu, estava trocando lâmpada, caiu na escada, estava com as costas machucadas, ele chegou em casa com jornal que ele queria ler sobre um assunto que ele estava lendo, ele pulou por cima do filho para ir para o quarto onde ele trabalhava, né, o filho ali machucado do Ido, né, esse foi o Peter que disse que achava que ele tinha esses—
Matheus Soares:Nem percebeu que o filho tava ali.
Frederico Vontobel:É, então assim, isso foi um preço muito caro para mim, é um preço que não justifica, isso assim é o que eu chamo até de fracasso do bem-sucedido, né, tem muita gente super bem-sucedida que a família é um fracasso, o que adianta, Não adianta, eu digo assim, é um preço que não vale a pena, né? De novo, ele poderia ter, é muito melhor se contentar com o que tu tem do que sempre querer mais, né? Então esse equilíbrio, né, é que também como ele tava ganhando muita mídia, como ele tava se relacionando muita gente, gostando de estar em Washington, conhecendo as pessoas, e aquilo tudo foi subindo a cabeça, né? Talvez ele caiu nessa tentação assim de mas muito antes, desde cedo até, né, de não ter cuidado do casamento, né, que eu acho que é, e da vida, né. Hoje todo mundo entende, todo mundo de certa forma passa a mão, né, mas não volta atrás, né. E eu sempre digo, o pessoal do escritório sabe o quanto a gente acha que é importante o relacionamento, a família, isso É, tá acima até da— porque tem o Seu Monteiro, um amigo, tem 85 anos, toda semana eu converso com ele, né, é quase que um conselheiro assim, ele era consultor.
Matheus Soares:De Osório?
Frederico Vontobel:Não, ele é de Porto Alegre, ele é de São Paulo, mas mora em Porto Alegre, né, e ele sempre fala assim, ó, Fred, os clientes não vão te visitar no hospital, a tua família vai se tu ficar doente, né. Eu tenho um advogado, o João Carlos Sembranel, lá de São Borja, né, que uma vez ele ficou doente, com problema do coração, tendo que trocar uma válvula. Aí foi falar para uma pessoa, né, cliente dele, que ele advogava, tinha um processo. E quando falou do problema, a pessoa perguntou: "E o que vai acontecer com meus processos?" Não se preocupou com ele, se preocupou com os processos, né. Então, agora, o Buffett entendeu também uma frase que eu gosto muito, que ele fala assim, né, de que sucesso na vida é tu ser amado por quem tu ama. Isso é uma boa régua, né?
Matheus Soares:Ele disse isso inclusive agora na entrevista da CNBC. É, no dia da reunião da Berkshire, ele trouxe isso.
Frederico Vontobel:E ali faltou só uma parte que ele não disse, né? Porque ele falou assim que a regra de ouro ainda vale, que é tu fazer para o outro o que tu gostaria que fizessem para ti.
Matheus Soares:Que o Charlie Munger falava bastante isso para ele.
Frederico Vontobel:Não, mas ele chama regra de ouro porque foi o que Jesus disse lá atrás.
Matheus Soares:Mateus, né? Capítulo de Mateus.
Frederico Vontobel:É, amar ao próximo como a ti mesmo. Só que o que ele não disse e que ele não sabe, né, é a parte anterior que fala que É amar a Deus sobre todas as coisas, com toda a tua alma, com toda a tua mente, com todo o teu coração, e ao próximo como a ti mesmo. Então existe essa ordem, né? Reconhecer a nossa condição de existência e amar o próximo, sim, como a ti mesmo. Todos os mandamentos se resumem nisso, Mateus 22:37. Mas a coisa mais bonita que foi dita no mundo e que vale até hoje, é verdade. Na verdade, fazer o que é certo, não importa, fazer para o outro aquilo que tu gostaria de fazer, tu agir de forma ética, né. E então ele tem, ele é um cara inteligente, ele tem um QI, eu acho que acima da média, inclusive ele só, só algumas coisas emocionais que ele deixou passar. E o bom é que ele reconhece, ele reconhece isso, né. Isso é uma coisa legal assim, porque ele, quando ele perdeu a Suzy, aí ele disse, pô, eu, 99% culpa minha.
Thiago Salomão:Então, mas eu tava até, enquanto você tava falando, tava anotando aqui o vendo as anotações que eu tenho. Aliás, vou até fazer uma coisa aqui. Se alguém quiser receber essas anotações, são um pouco, é quase como resumos dos capítulos, não um resumo, mas é o que eu senti quando fui lendo cada capítulo. Manda um e-mail lá para contato@mmakers.com.br, pede lá resumos do Bola de Neve, porque tem alguns exemplos anedóticos ali que mostram desde o início do livro livro. Então, dessa obsessão do Buffett pelo dinheiro e essa perda do tato social, né? Então, pô, conta a história do jeito bizarro dele se vestir, que ele já até perdeu negócios porque o cara não queria conversar com alguém que trocava o sapato, vestido do jeito que tava, né? Enfim, eu— e aí também um pouco da desconexão com a Suzy, né? Tipo, o Só para entender um pouco de quem que era a Susie Buffett, né? Ela comprava casas de fachadas para os negros poderem morar nos bairros dos brancos, né? E era uma pessoa, né, muito com a cabeça muito mais para frente.
Frederico Vontobel:Uma das únicas casas em Omaha que recebia, né, negros em 1960 era deles, com naturalidade.
Thiago Salomão:Na época tinha essa questão, né, de Pô, mas aí tem um episódio do jantar do Buffett na China, que ele simplesmente não comia nada, e aí só começou a comer quando serviram o hambúrguer. E aí usava o argumento do, pô, se é uma criança de menos de 2 anos não comeria isso, eu também não comeria, sabe? Tipo, uma coisa até meio muito distante de um adulto de verdade, né? Beirava mesquinharia, né? E quando você falou da morte da Suzy, eu lembrei da morte da Catherine Graham, era essa?
Matheus Soares:Do Washington Post?
Frederico Vontobel:Sim.
Thiago Salomão:E ela morreu num acidente, né, num carrinho de golfe, né? Ela já era, ela teve uma queda e uma complicação, ela morreu. E o Buffett foi até o velório e não falou nada, não prestou nenhuma condolência. E aí depois ele fica assim, imagina, poxa, eu nem falei nada e tudo mais. Então ele teve também alguns episódios que mostraram para ele, pô, ele deveria ser mais assim, né. Então ele tiveram eventos na vida dele que poderiam fazer ele ter sido melhor com a Suzy enquanto ela estava viva, né. É por isso que para mim bate muito, né, nessa tecla do, pô, a gente aprende muito com o Buffett investidor, mas tem várias coisas ali que a gente tem o que aprender do que não fazer, ou melhor, o que ele aprendeu mais tarde também, né?
Matheus Soares:E ele sempre fala, né, ele sempre fala que você, você quer ser uma pessoa feliz, você tem que escolher muito bem quem tá do seu lado, né? É curioso. Então acho que depois de velho ele também pôde compartilhar esse conhecimento que ele teve na própria vida, né?
Thiago Salomão:Enfim, aliás, os capítulos finais ali, quando fala da capítulo 58 principalmente, né, do que começa já a toda a doença da Suzy. Ele vai narrando assim, são 62 capítulos, né? Então é, já é uma parte assim que começa a ficar bem, bem pesado assim o livro.
Matheus Soares:A Suzy morreu em 2004, vítima de um derrame após a cirurgia de câncer.
Thiago Salomão:Bom, mas seguindo, a gente já falou então do do Charlie Munger, da conexão.
Matheus Soares:Falamos dos jornais.
Thiago Salomão:Falamos. Quer ver o que eu separei aqui nos blocos? Eu tinha separado aqui.
Matheus Soares:Acho que tem agora expansão da Berkshire, né?
Thiago Salomão:É, era bem o que eu acho que o bloco seguinte do Munger já era falar mais da Berkshire Hathaway, o erro que virou um império, né? O próprio Buffett falava, né, foi um erro monumental, né? Ele comprou uma empresa a teste ruim Brigou com a administração, assumiu o controle e depois passou décadas usando aquela carcaça como veículo para comprar negócios melhores. E aí foi o que acabou formando. Eu até anotei aqui, né, o desconto de 1,5%, né, que acabou mudando a história do capitalismo americano, porque foi aquilo que fez o povo: "Já é, quer saber?
Frederico Vontobel:Então me dá essa porra toda aqui." E foi um erro, mas não foi porque no primeiro ano ele tirou o dinheiro todo que ele tinha colocado de ativos lá. Então foi um erro no estilo assim do que ele faz hoje, né? Mas o negócio não era bom, né? Mas ainda tinha o que tirar dali.
Thiago Salomão:E foi uma decisão emocional, talvez também por isso que foi considerado um erro.
Frederico Vontobel:Exatamente. Ali foi uma decisão emocional por não ter aceito uma atitude incorreta de quem fez uma proposta e depois mudou, né, tinha dado a palavra e mudou. E aí isso incomodou muito ele. Agora essa questão da ética, né, tu vê assim que é uma preocupação que ele sempre teve, né, de— isso é uma coisa importante, né, de tu— ele sempre fala, né, que tu pode fazer uma reputação, pode fazer uma história em 20 anos e perder em 5 minutos. Então tem que sempre Tomar cuidado com isso. Teve o caso também do, acho que vale a pena a gente lembrar, que tinha um sucessor dele, acho que era David Sokol, que era um cara que era candidato a ser sucessor dele, só que o cara comprou ações da Lubrizol antes da Berkshire, ganhou muito com isso e aí terminou saindo da empresa. Então, hoje está lá o Greg, esse que está assumindo, ele é um cara, é canadense, nascido em Edmonton, na província de Alberta, estudou contabilidade na Universidade de Alberta. O Bob sempre falou que contabilidade é a linguagem dos negócios, ele prefere até olhar balanço do que demonstrativo de resultado. Ele diz que olhar o balanço ao longo dos anos da empresa, tu percebe melhor o que pode estar acontecendo com o negócio. Nunca deixou de olhar balanço, de olhar todos os demonstrativos financeiros. Mas a gente sabe também muito bem que olhar só o release de uma empresa, a gente que está aqui, que as empresas as empresas todo trimestre elas soltam release, né? O release muitas vezes é enviesado para mostrar aquilo que a empresa quer mostrar, né? Então tem que olhar também. O Buffett sempre gostou de quando nas empresas que ele tinha a notícia ruim viesse primeiro. Ele dizia: notícia ruim tem que subir de elevador, notícia boa pode subir de escada, né? Tu tem que saber do que tá acontecendo errado na empresa até para poder corrigir, né? E não esconder, porque muitas empresas tendem a esconder alguma coisa que não tá bem no negócio, né? Isso tu pega balanço.
Thiago Salomão:Mas a gente, como a gente já foi e voltou em vários pontos, eu acho que o ponto que a gente poderia deixar explicado nesse bloco de Berkshire Hathaway é basicamente explicar o que é essa empresa. Ela é uma empresa? Ela é um fundo? Ela é uma seguradora?
Frederico Vontobel:O que é Berkshire Hathaway? Posso? Ela é uma empresa que tem ação, capital aberto há muitos anos, que ele assumiu o controle em 1965. Ele ficou com mais de 30% das ações. Inclusive, quando encerrou as partnerships que ele tinha com aqueles 100 investidores, ele disse: olha, ou vocês podem continuar com a Sonderberg Schreyer, ou podem pegar dinheiro. Ele indicou o Bill Hwang, que tinha sido colega dele também, né, para se quiserem investir, invistam lá com Bill Hwang, né, mas ou fiquem aqui na Berkshire, que agora vai ser o meu instrumento de investimento. Então, ela é uma empresa de capital aberto nos Estados Unidos desde antes do Buffett tomar o controle, há muitos anos, Que começou, era uma empresa de testes, que ele tirou o primeiro, inicialmente ele tirou o capital de giro da empresa, que fez os primeiros negócios comprando a empresa de seguros lá, a National Indemnity, e aí foi muito para essa área de seguro justamente para poder ter o float, para poder investir o float em outros negócios. Agora, se tu olhar uma foto hoje do que é a Berkshire hoje, ao longo desses 60 e poucos anos, a Berkshire Deixou de fazer texto em 1985, os teatros pararam de produzir uns anos depois, acho que uns 15 anos depois, não lembro bem quando foi. Ele manteve só justamente para não ter que encerrar o negócio, né? O negócio foi morrendo aos poucos de forma natural, mas hoje a Berkshire ela é uma holding, então é uma empresa que tem vários outros negócios. Tem negócios subsidiárias integrais, que são empresas que ela comprou inteira, Várias empresas que ela comprou inteira.
Matheus Soares:Que nem estão mais na bolsa.
Frederico Vontobel:Que nem estão mais na bolsa. Então são empresas que têm 70, 80 empresas que são subsidiárias integrais, até tem negócios pequenos como, tem por exemplo marcas de calçados. A GICO hoje é uma empresa de teares, frutos do tear, Fruit of the Loom, é uma empresa de roupa que eles compraram depois, tem calçados, tem bota, Dairy Queen que ele comprou também, que é uma concorrente do McDonald's menor. Burlington Santa Fe, todas essas são subsidiárias integrais, ou seja, são empresas que a dona é Berkshire. E que ele pede para esses presidentes dessas empresas duas coisas, só duas coisas. É um check em Omaha todo ano do resultado, ou seja, ele que vai alocar o capital do resultado que elas derem, porque ele acha que alocação de capital é o que ele faz bem. E muita empresa aloca mal capital quando um diretor quer fazer um outro negócio e erra na alocação. Então é um check-in, o resultado que a empresa gerou de caixa para Berkshire, que é dona, e também uma carta dizendo quem que substituirá eles na falta deles. Ou seja, se tu faltar, quem que fica no teu lugar? Porque ele não quer ter o compromisso de ter que se preocupar em quem vai tocar os negócios, que a Berkshire é dona.
Matheus Soares:A Berkshire de fato tem 20 pessoas, 22 pessoas?
Frederico Vontobel:É pouca gente. É muito pouca gente no mesmo lugar, mesmo prédio lá.
Matheus Soares:Essas empresas têm milhares de pessoas.
Frederico Vontobel:80 mil pessoas ou mais até, acho que é mais, na época que eu vi era 80, hoje deve ser bem mais. Então ela tem essas empresas que são subsidiárias integrais, ela tem um negócio de seguros que é um outro grande negócio, quando ela reporta, ela reporta das subsidiárias integrais, o negócio de seguros é um outro grande negócio, seguros e resseguradoras, e ela também tem as ações que ela vem comprando ao longo do tempo.
Matheus Soares:Onde ela não comprou 100%, onde?
Frederico Vontobel:Essas empresas que ela compra, ela tem parte das empresas, então ela tem hoje 10% da Coca-Cola, ela ainda tem a American Express. Apple que foi o grande... Apple dos últimos anos.
Matheus Soares:Maior retorno da história.
Frederico Vontobel:Da Berkshire. Então aí são aquelas, eles sempre, quando eu vou comprar uma ação eu sempre penso: quanto é que vale o negócio como um todo? Se eu puder comprar o negócio todo eu compro, se não puder eu compro um pedaço do negócio. Então tudo hoje está embaixo do guarda-chuva da Berkshire, que é uma das 10 maiores empresas dos Estados Unidos. E em patrimônio é a maior, em patrimônio líquido que nunca pagou dividendo, ele sempre reteve o resultado para ser reinvestido. Então isso é uma anomalia também, tem algumas coisas que são realmente únicas. Uma coisa que eu posso dizer assim, que eu admiro ele, tem aquela música do Frank Sinatra, My Way.
Matheus Soares:Que é a música favorita dele.
Frederico Vontobel:Ah é? Não sabia disso.
Matheus Soares:A My Way é a música favorita dele.
Frederico Vontobel:E estou olhando, tem todo sentido, porque ele fez do jeito que ele achava. A empresa não tem departamento de RI.
Matheus Soares:Do Frank Sinatra?
Frederico Vontobel:É, as empresas não têm assim uma relação com investidores, não, é eles que dão Eles que dão lá uma vez por ano, tem a reunião anual.
Matheus Soares:A ação nunca fez split, nunca se dividiu.
Frederico Vontobel:A ação nunca dividiu. Ele, numa ocasião, dividiu a A, transformou em 30 B para uma em 30. Nunca vendeu ação, ele nunca vendeu, ele sempre manteve as ações dele. E ganha, por incrível que pareça, $100 mil por ano. $100 mil por ano hoje são R$500 mil, divide por 12. Daí, né, dá 40 e poucos mil reais.
Matheus Soares:Ganhava mais dinheiro vendendo jornal.
Frederico Vontobel:Porque ele disse que ele gosta. E assim, quando pergunto, eu faço o que eu gosto. De novo aquela história, né, melhor ser feliz com o que tu tem do que sempre buscar mais. Ele buscou mais, mas ele sempre foi feliz com o que teve. E de fato, assim, isso é uma verdade, assim, tu vê que ele gosta, gosta do que faz, né, o que é admirável também. Faz porque gosta. Ele até acha que ele tá tendo mais anos de vida porque ele sempre fez o que gosta. E uma das coisas boas que ele sempre falou foi, uma das coisas boas que o dinheiro traz é tu poder trabalhar com quem tu gosta.
Matheus Soares:Também ele sempre se cercou de pessoas boas, daí, e mesmo se alimentando muito mal, tá aí com 96 anos.
Frederico Vontobel:Mas não é tão, porque nunca fumou, nunca bebeu, né, também, que os pais dele também não faziam, né.
Matheus Soares:Ele até fala, se ele puder, se entre viver um ano a mais de vida ou continuar comendo exatamente o que ele come, ele prefere continuar comendo o que ele come.
Thiago Salomão:Até porque não deve ter muitos anos a mais, né?
Frederico Vontobel:Então, é, e tá com 90, tá com uma saúde boa ainda. Tu pode ver na reunião que teve agora 15 dias atrás, né? Tu vê ele com um blusãozinho puído, né, lá, mas ele tá feliz.
Thiago Salomão:Não, isso claramente a gente percebe que eu nem sei se depois de ler a história dele, eu nem sei se A melhor palavra para definir ele é felicidade, mas ele realmente faz o que ele quer, faz o que ele quer, e não é o fazer o que faz porque ele gosta daquilo. Se aquilo faz ele feliz ou não, eu não sei bem, mas é quase como eu encontrei algo que eu faço muito bem, faço há muito tempo, gosto, e sou um dos melhores. E pô, sabe, às vezes nem é uma coisa tão legal, mas a própria satisfação de você fazer bem um negócio, se torna melhor que os outros, isso já traz uma satisfação.
Frederico Vontobel:E assim, em 84, 85, ele tava com, ele tava com 55 anos, ele comprou um avião, porque como ele tava no meio, ele tava sempre viajando e pegando. E aí ele pegava, o que mais incomodava mesmo do avião, indefensável, né? Porque na verdade foi um luxo que ele se deu. Mas o que acontece, imagina ele todo dia indo para o aeroporto, daí já tá ficando famoso, aí todo mundo queria Queria falar com ele, todo mundo queria uma dica, qual é a dica, aquela coisa. E ele viajava muito, o negócio na costa leste, costa oeste, né, viajando muito. Aí comprou um avião para empresa, né. Hoje ele tem a NetJets, que é uma propriedade compartilhada, né, que é um negócio também dá muito, deu muito certo. Mas ele continua ganhando como CEO da empresa $100 mil por ano. E aí tem outra Tem outra lição aqui que eu acho legal de compartilhar, né, que ele diz assim: eu sempre, toda pessoa em qualquer organização, ela tinha que pensar assim: eu tô me pagando, né? Será que eu tô justificando o que eu ganho, né? Porque é melhor, ele diz assim, é melhor tu fazer mais e ganhar menos do que fazer menos e ganhar mais. Se tu fizer menos e ganhar mais, tu tá com teu emprego ameaçado, né? Então, e outra coisa, isso foi uma coisa também que ele fez, é uma forma dele compensar quem confiou e manteve o dinheiro lá, né? Ele, agora, realmente, talvez não precisasse, é um exagero, né? Talvez um exagero, até porque ele deixou de ajudar a família, deixou de fazer outras coisas que...
Matheus Soares:Um outro aprendizado que ele, que acho que tem um marco importante aí, que é 2008, a grande crise financeira, né? Que o Warren Buffett fala sempre que os melhores investimentos sempre surgiram quando, não quando ele ligava para as pessoas, quando ele ligava para o CEO, mas quando os CEOs ligavam para ele. E tem a essência do Warren Buffett que é sempre fazer o que os outros não estão fazendo, né? Você tem que ser ganancioso quando tá todo mundo pessimista. E 2008 explica muito esse momento e essa filosofia, porque era um momento que ele também não tava, não tava tão bem, né? Tava acumulando caixa e vem a crise e ele passa a ser a pessoa, o empresário onde todos confiavam, onde todos precisavam. E na crise ele coloca muito dinheiro, né? Quando ele compra, ele foi o salva-vidas do Goldman Sachs, foi o salva-vidas do Bank of America. Então ele conseguiu colocar muito dinheiro quando todo mundo tava pessimista. Então acho que essa é uma parte importante, um marco, e também uma parte da essência do que o Warren Buffett sempre fala, né? De você tá comprar quando ninguém quer.
Frederico Vontobel:E vão ter crises, virão crises, não tem dúvida, né? Sempre vai, a gente nunca sabe como é que vai ser. Aquilo que o Morgan Russell fala, a coisa mais importante que vai acontecer nos próximos 20 anos ninguém sabe hoje.
Matheus Soares:E ele até fala para você não se preocupar.
Frederico Vontobel:Em dezembro de 2019 ninguém falava do blackout, do lockdown.
Matheus Soares:Ninguém sabe, né?
Frederico Vontobel:A próxima crise. Ninguém achava que ia ter a guerra.
Thiago Salomão:Olha o começo desse ano, mercado começou o ano super otimista e de repente estoura uma guerra.
Frederico Vontobel:É, então assim, tu não sabe o que vai acontecer amanhã, isso é uma certeza, né? E agora o que ele sempre fala é que os negócios vão continuar existindo, né?
Matheus Soares:Vão—
Frederico Vontobel:e também eu lembro de uma frase do Rei Salomão que dizia: "Invista teu dinheiro em vários negócios que no seu tempo tu terás o lucro." No seu tempo, ele fala bem assim, não é imediato, né? Invista em vários locais porque tu não sabe o que vai acontecer amanhã. Então, para diversificar também. Então, tu nunca sabe realmente o que vai acontecer. Agora, o segredo, e aí que tá, eu digo isso mesmo também assim, quando a gente tem assim os momentos piores, como a gente teve lá final de 24, quando a bolsa teve aquela queda, foi um ano bem ruim, nos últimos anos foi um ano que a bolsa caiu.
Thiago Salomão:Os dois últimos meses foram terríveis.
Frederico Vontobel:Foram terríveis, né?
Thiago Salomão:Até tivemos nesse dia que a gente grava, Ontem estive nessa cadeira que você está, estava o ex-ministro da Economia, Fernando Haddad, e a gente conversou sobre o que eu falei para ele do Haddad Day. Foi no final de 24.
Frederico Vontobel:Todo mundo esperava uma coisa e veio outra.
Thiago Salomão:Todo mundo anunciava um ajuste fiscal e veio um pacote de benefícios com isenção do Imposto de Renda. A reação do mercado foi horrível. Também uma piora lá fora, a gente viu. 2 meses que valeram o ano inteiro de valorização, né?
Frederico Vontobel:Queda absurda. E isso tem a ver, eu acho muito, com o que te dá segurança nessas horas quando tem uma crise assim, é tu manter os hábitos simples. Isso que foi o que o Graham aprendeu lá atrás, foi o que o Buffett tem até hoje, né? Então assim, eu tava lendo até outro dia um livro que eu ia comentar com vocês, que eu achei muito bom, que é O Homem Que Me Ensinou a Ficar Rico, rico, eu não conheço até o Vitor Craveiro escrever esse livro, né. Meu pai, meu pai tá lendo muito, tá com 87 anos, e a minha mãe também, né, ela tem 78. Eles estão lendo, meu pai tá lendo já, acho que tá no 20º livro esse ano, né. E ele leu esse livro, me alcançou, eu gostei muito. Eu li agora quando eu fui viajar com a Vitória e com a Ângela. O homem que me ensinou foi rico, ele conta de dois avós. Um avô que era funcionário público, ganhava bem e gastava bem. Vivia bem, aproveitava a vida. Mas o outro avô, que tinha uma caminhonete, 20 anos, que ia para fazenda com aquela caminhonete, e diziam: "Vô, por que tu não compra uma Hilux?" "Não, essa aqui me atende, me leva, me traz." Deixava uma água gelada no congelador, botava na caminhonete, na viagem ele tinha sempre água gelada, chegava lá, trocava a água do congelador que estava na fazenda e fez patrimônio. Então ele fala muito desse vô, o que esse vô ensinou para ele. E uma coisa que ele diz no livro, que eu gostei muito, não conhecia o Vitor, mas é um livro que acho que vale a pena ler, porque ele ensina justamente isso. A pessoa que gasta menos do que ganha pode enriquecer. A pessoa que gasta mais do que ganha vai empobrecer. Então, fato. E aí ele conta o exemplo também, por isso que eu lembrei de comentar isso agora. Hoje ele é assessor de investimento, então ele conta lá que teve um cliente que ganhava R$6.000 com 30 anos, mas que economizava 25% do que ganhava, já tinha uma poupança lá desses R$1.500 que ele vinha economizando há muito tempo. E tinha um outro, um médico, ganhava R$70 mil e tava devendo, né? Porque por ganhar R$70 mil, os filhos, cada filho estudava numa escola que era R$7 mil a mensalidade, trocava de carro uma vez por ano, tinha viagem internacional todo ano, tinha um padrão de vida que tava com uma dívida de R$400 mil, entendeu? Então não é o que tu ganha, é o que tu, não importa o que tu ganha, importa o que tu faz com o que tu ganha, né? Que o ideal é tu sempre poupar entre 10 a 25% pra gente ter uma reserva, né? E ele fala então assim que o padrão de vida, às vezes aquilo que a gente sempre fala, qualidade de vida não tem a ver com padrão de vida. Tu pode ter uma qualidade de vida muito boa com padrão de vida menor. Tem uma coisa que eu gosto de dizer também assim, né, que uma pessoa simples do campo que não tem estudo pode ter uma vida melhor do que alguém que está morando em Nova York, né? Não tem nada a ver uma coisa com outra, né? Então Tu escolheu os hábitos de vida que tu quer ter e saber que tu pode viver com pouco. A minha avó dizia que com muito se vive e com pouco se passa. Ela também dizia que tudo que o dinheiro compra é barato. As coisas mais importantes da vida, que tem valor mesmo, o dinheiro não compra. O dinheiro compra remédio, não compra saúde.
Thiago Salomão:Uma lição dessas várias que você ensinou aqui quando você veio no podcast, a que eu mais gosto é que tem duas maneiras de ficar rico. Uma é ganhando dinheiro, a outra é gastando pouco. E é mais fácil controlar a segunda do que a primeira.
Frederico Vontobel:Precisar pouco, né? Isso é engraçado. O ano passado, meu filho Dudu, né, ele fez 18 anos, ele tava com 19 quando tirou a carteira. Aí eu comprei um Sandero 2012 para ele, né, 20 e poucos mil o carro, um carro mecânico, né? E ele ficou bem feliz, né, com o carro. E agora eu fiquei preocupado só porque o Sandero só tem airbag de motorista, não tem airbag, às vezes tá viajando com os amigos. Agora eu fiquei preocupado, né? Dudu, quem sabe, pai, eu não quero, tá muito bom, me atende, né, me leva para o Jeovô, né.
Thiago Salomão:E então, Dudu só vai de motorista, não vai de passageirinho.
Frederico Vontobel:É, não, mas eu tô preocupado assim, tentando convencer ele a pegar um outro carro usado, mas talvez com mais segurança, né. Mas o legal é isso assim, é tu, é tu, quanto menos tu precisar, melhor.
Thiago Salomão:Pessoal, eu quero voltar para a pauta do Buffett. Buffett, você queria trazer alguma coisa?
Matheus Soares:Eu tenho um texto muito legal do Paul Graham que chama-se O Campo de Jogo, ou Playfield, que ele traz um pouco do Buffett, que aí meio que tentando sintetizar tudo que a gente trouxe até aqui, né? Então o Buffett, ele começa como um bom investidor, vai melhorando ao longo do tempo por ter essa cabeça mente aberta, e chega um momento em que ele não só é um bom investidor investidor. E ele domina tanto o campo de jogo dele como ele passa a formular as regras, ele passa a formular as leis. Que isso aconteceu em 2008, que é quando a própria SEC e o próprio governo americano passa a pedir para o Warren Buffett ajudar eles a passar por aquele momento. Então eu acho que o Warren Buffett atingiu o que talvez poucos investidores tenham atingido, que ele não só é bom naquilo que faz como legisla naquele negócio, ele passa a fazer as leis daquele jogo, né? Então esse texto é bem legal.
Frederico Vontobel:E até trazendo isso que tu lembrou, Matheus, que eu acho muito bom assim, ele falou que todo deputado, né, ele deveria ser eleito se ele conseguisse manter o orçamento dentro do, sem aumentar a despesa, né? Ele fala isso. Qual é a sugestão simples assim, que todo deputado que aprovar um orçamento maior, que vai gerar um déficit, não pode se reeleger, né, que tem a ver com o teto de gastos, né, porque na verdade hoje, gente, 32,4% do que se produz no país vai para o governo. Nós somos um país estatizante, que muita gente quer que o Estado tome conta, só que quem cuida mais do dinheiro, tu ou o Estado? Quem vai cuidar melhor do dinheiro, tu ou o Estado, né?
Thiago Salomão:Então o Estado tá muito caro e não traz, e não, e não, e não devolve para a sociedade, porque assim, ó, É, porque boa parte desse dinheiro hoje ele estava sendo usado nem para pagar o Estado, mas para pagar a dívida que a gente tem.
Frederico Vontobel:Pois é, mas foi dívida também feita de forma, assim, a previdência nossa errada muito tempo. Tem gente que está mais tempo vivo aposentado do que contribuiu. Então, na Suíça, a dívida é 15% do PIB e é proibido aumentar. Por que a Suíça é o que é? Por que o franco suíço é o que é? Porque o estado suíço lá é econômico, né? O estado é— e outra coisa, aí tu pergunta para o suíço: tu paga para ter saúde? Pago, eu pago imposto e aí eu tenho saúde, todo mundo tem saúde igual, mas é o dinheiro dos impostos. Então olha quantos anos eles estão na frente da gente. Só que essa cabeça, nós aqui querendo que o estado seja maior e não menor.
Thiago Salomão:Pessoal, eu quero— tô olhando para o horário aqui e aí eu tô vendo que a gente já passou por tanta coisa aqui no papo, eu tenho uma sugestão. Eu vou pegar alguns episódios importantíssimos que a gente não pode deixar de falar nesse super capítulo aqui do Warren Buffett, mas tem várias outras coisas que a gente vai ter que fazer um segundo episódio, porque eu tinha separado um bloco só para a gente falar praticamente sobre as frases do Buffett que elas por si só já geram uma super reflexão. Que, bom, até o que vai desde conversas que ele teve com Bill Gates, ensinamentos, e até várias as frases que a gente foi falando aqui no papo, que daria para ter uma profundidade maior. Mas esse eu vou deixar para um segundo episódio, para nesse aqui a gente acabar com os principais eventos ali da história do Buffett, para quem ouvir esse papo falar: caramba, então a gente pegou. E eu queria até ver se vocês concordam. Eu queria contar principalmente sobre os casos de investimentos. Então a gente já falou um pouco da American Express, Seascandy, Washington Post, mas eu queria entrar mais no detalhe da Salomon Brothers e Coca-Cola. E a gente pode falar até mais recentemente de Apple. Apple, talvez tenha sido o maior investimento feito, talvez não em termos percentuais, mas em valores absolutos. Buffett nunca ganhou tanto dinheiro quanto ganhou com os investimentos em Apple. Aliás, aproveitando, já vou deixar um recado importantíssimo até para o pessoal conhecer o que a gente entrega no M3 Club. O Fred uma vez veio aqui em São Paulo e fez um evento presencial com os nossos assinantes e fez uma mentoria de Value Investing Vela Investing, que até nos ajudou a montar a pauta daqui. E a gente vai disponibilizar gratuitamente essa mentoria para quem tá vendo esse episódio. Então é só você apontar o celular aqui no QR code que aparecer na tela, ou então clicar no link da descrição que vai estar lá sobre a mentoria de Vela Investing do Fred. É um conteúdo exclusivo para os assinantes do M3 Club, mas vocês vão ver gratuitamente porque se você tá nesse episódio, certamente se você gosta desse assunto, quer saber mais e vai ter um gostinho do que a gente oferece lá para os membros do M3 Club. Aí se você gostar, você pode até virar membro da nossa comunidade, a maior comunidade de investidores do Brasil, que cresce e cresce cada vez mais, né, Mateuzinho?
Matheus Soares:Se você quer tomar melhores decisões de investimento, seja em ações, seja na vida pessoal, seja na renda fixa, não tem outro lugar melhor para você estar do que o M3 Club.
Thiago Salomão:Exatamente. Bom, vamos lá para o episódio então. Eu tinha separado aqui na pauta para a gente falar das melhores frases, os ensinamentos. Isso tudo eu vou deixar para um segundo episódio. Então, Fred, você já vai ter que ver lá na sua agenda quando você pode vir de Porto Alegre aqui para São Paulo. Sei que não é uma cidade tão legal quanto lá em Porto Alegre, mas você vai ser bem recebido. A gente vai ter essa segunda conversa aqui sobre o Warren Buffett. Mas para terminar essa aqui, Eu queria contar 2 cases de investimentos rapidinhos, que pode ser até numa pegada bem rapidinha, mas só para finalizar a história do Buffett. Coca-Cola e Apple. Eu até queria falar de Salomon Brothers, mas a gente pode deixar até para uma próxima. Mas Coca-Cola e Apple eu acho que resumem muito bem o Buffett das antigas, a Coca-Cola, e a Apple, que foi o maior ganho financeiro que o Buffett teve. Percentualmente falando, não foi o maior ganho, mas com o tamanho da posição que ele tinha na Berkshire, já tava gigante, foi o maior ganho financeiro que o Buffett teve na vida. Até explica porque que ele, boa parte do dinheiro que ele fez foi depois dos 70 anos de idade, né, muito por conta da Apple. Então vamos resumir rapidinho o que que foi a Coca-Cola e o que que foi a Apple na vida do Buffett.
Frederico Vontobel:Olha que interessante, agora dia 8 de maio a Coca-Cola fez 140 anos, né, ela começou em 1886 em Atlanta, nos Estados Unidos. O John Pemberton era o farmacêutico que começou a Coca-Cola. E o Buffett, quando comprou a Coca-Cola, ela tinha 100 anos de existência, já tava na bolsa há muito tempo, né, mas não tinha dado oportunidade de comprar também como teve ali em 88. O Buffett mesmo já investia desde 1950, né.
Matheus Soares:Qual que era a senhora que tomava conta da Coca-Cola na época, Fred? Era uma senhora que o Buffett inclusive leu no jornal de 1800 e alguma coisa.
Frederico Vontobel:Teve o Asa Candler, que foi o segundo presidente, segundo dono do negócio, depois venderam para a família Woodruff, que era lá de— e foi o Robert Woodruff que foi presidente durante muitos anos da Coca-Cola, né? Foi presidente 40, 50 anos. E mas ali naqueles, ali no final dos anos 80, a Coca-Cola tava querendo vir com a New Coke, mudar a fórmula da Coca-Cola, né? E isso balançou com o mercado, né? Porque a Coca-Cola sempre teve o mesmo produto Mas isso fez as ações caírem. E também naquela época, lembrando ali que no início dos anos 80 o juro foi a 20% nos Estados Unidos. Então também teve um período ali de juros altos, que as ações estavam baratas. Teve esse problema também da discussão da New Coke, que aí teve passeata de pessoas querendo voltar para Coca-Cola clássica, quer Coca-Cola tradicional hoje, foi um grande lance de marketing. Teve passeata de clientes para voltar.
Thiago Salomão:E só um contexto histórico. '79, capa da, acho que era Business Week, não lembro qual era a revista, que era a morte do mercado de ações.
Matheus Soares:Mas era 1979 mesmo?
Thiago Salomão:Isso, '79, que foi o pior momento da história do mercado de ações. Então, estava falando que isso ia acabar. Bom, veio os anos 80, eu lembro bem porque foi a carta da esquadra falando dessa capa de revista.
Matheus Soares:E uma genialidade do Buffett também está em explicar as coisas de maneira muito muito simples, porque para explicar o racional de Coca-Cola, ele falava assim: não, cada pessoa toma 1 ou 2 litros por dia, estamos falando de centenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos, essa empresa tá expandindo para o mundo todo, então estamos falando aí de mais algumas centenas de milhões de pessoas que vão tomar Coca-Cola. Isso corresponde, se a gente multiplicar, como a Coca-Cola ela não só é uma marca boa consumida como também tem pricing power, Se você sobe 5 centavos por lata de Coca-Cola, lembrando que ele vendia Coca-Cola lá quando ele era novinho, isso significa que a Coca-Cola tem o poder de lucrar tantos bilhões de dólares em determinado período. Então assim, fiz uma newsletter, e quem quiser ler pode mandar também e-mail que a gente manda aí. Mas é uma tese, a genialidade do Buffett tá também explicar teses complexas de um jeito muito simples.
Frederico Vontobel:É, e uma coisa interessante da Coca-Cola, do crescimento da Coca-Cola, que ela cresceu na Segunda Guerra, quando o presidente da Coca-Cola era o Robert Woodruff, era amigo do Roosevelt. Aí, na época da Segunda Guerra Mundial, ele disse: olha, onde tiver um soldado, eu vou botar uma fábrica. Na verdade, foi a forma da fábrica ir junto com soldado, aí junto com as tropas, junto com a— ele mandava uma fábrica para fabricar Coca-Cola onde tivesse um soldado americano na Segunda Guerra. Foi uma forma de internacionalizar a empresa, isso lá em 1940. 2,44. Mas o que o Wolf sempre comentou também do negócio Coca-Cola é porque a Coca-Cola é também um negócio asset light. Tem a marca, tem toda a mídia que se faz, todo o marketing para manter a Coca-Cola, né? Mas o grande investimento, onde é que tá o pesado investimento, é o fabricante que faz.
Matheus Soares:Isso o Fred entende muito, inclusive porque a família Foi franqueada da Coca-Cola, né?
Frederico Vontobel:Então o fabricante compra caminhão, que compra máquina, que tem toda a— e que é um excelente negócio também, né? Mas a Coca-Cola é asset light, a Coca-Cola não tem muito patrimônio, né? E eu sempre dizia que nós, com a franquia lá do interior do Rio Grande do Sul, tinha mais funcionário que a Coca-Cola Brasil, né? Porque a gente tinha que ter vendedor, tinha que ter gente na produção, tinha que ter entregador, o transporte tem que ter.
Matheus Soares:Caminhão também, Fred?
Frederico Vontobel:Sim, tudo, todo investimento pesado é mais do—
Thiago Salomão:No final, a Coca-Cola era só a marca.
Frederico Vontobel:E vendeu xarope, mas tem toda inteligência do negócio, é um grande negócio. E o Buffett percebeu o seguinte: olha, esse negócio ele cresce, ele é asset light, ele consegue transferir o custo, né? É muito alto. É aquilo que você fala assim, por que o pessoal gosta de franquia? Outro dia você está falando com o dono de uma empresa de capital aberto aqui do Brasil, que ele gosta de franquias, porque não precisa botar todo o dinheiro para investir em todas as lojas. Tem a franquia, o franqueado também entra com parte do patrimônio. E Coca-Cola realmente, o Buffett diz assim: "O que eu vou fazer? Me dessem 100..." Qual foi o número que ele falou na época? "Se me dessem 100 bilhões, eu não teria como fazer uma marca como a Coca-Cola." Porque é uma marca, até a garrafa quando foi feita era para ser conhecida, mesmo quebrada, era para conhecer: "Essa aqui era uma garrafa de Coca-Cola", porque tinha até o formato das saias da época. Aquele formato da garrafa Contour original.
Matheus Soares:Dizem que o Natal só é vermelho por conta da Coca-Cola. Não sei se é verdade.
Frederico Vontobel:Ela também, Papai Noel, ela também sempre teve essa campanha muito forte, né? E o que o Buffett falava assim, o seguinte, né? Coca-Cola é um prazer barato, né? Realmente assim, não custa muito e te dá um prazer. Então é um prazer barato, mais ou menos assim que nem eu sempre digo, um sabonete perfumado As pessoas na crise não deixam de comprar o sabonete perfumado porque é um prazer barato, vai tomar banho e tem aquele perfume. Não tem crise. Esse Seu Monteiro, que era consultor da Coca-Cola, que é amigo até hoje, ele dizia assim: o dia que o brasileiro não tiver dinheiro para comer um pastel e tomar uma Coca-Cola é porque a crise está muito feia. A gente costumava dizer assim que é um dos últimos negócios a entrar na crise e o primeiro a sair, porque realmente é um prazer barato. Irreplicável também, eu diria, né? Irreplicável, né? E continua sendo um prazer barato, né? Hoje eu tomo Coca-Cola Zero por questões de saúde, né?
Thiago Salomão:O que também, esse prazer barato, e até falar que já fizeram até reportagens falando que a Coca-Cola Zero hoje é o novo cigarro depois do almoço. Então as pessoas até por questões de saúde, pô, ao invés de fumar aquele cigarro depois do almoço, o cara toma uma Coca-Cola Zero porque é saudável Enfim, uma coisa legal que tu não enjoa, né?
Frederico Vontobel:Coca-Cola não enjoa. Se tu pegar, tomar todo dia qualquer outro refrigerante mesmo da linha da Coca-Cola, né, tu com o tempo tu pode cansar, né? Coca-Cola não enjoa.
Thiago Salomão:Eu digo mais, eu evito muito tomar refrigerante. Não gosto de refrigerante zero e o refrigerante normal tem muito açúcar. E eu evito principalmente porque quando eu tomo um refrigerante, no dia seguinte eu quero tomar de novo. Então eu prefiro não tomar refrigerante nunca É gostoso, né?
Frederico Vontobel:E eu continuo muito amigo assim até do pessoal do sistema, né? O Alexandre Biage, que continua, eu sempre digo, ele é o herói da resistência, fabricante aqui de Uberlândia, né? Que eu gosto muito, né? E ele gosta muito do Buffett também, conhece o Buffett. E então é um negócio assim que o Buffett percebeu lá atrás que era um grande negócio, teve oportunidade de comprar, comprou bastante e hoje ele tem 10%, a Berkshire tem 10% da Coca-Cola. Na verdade ele comprou 8%, só que a Coca-Cola recomprando ações fez com que que quem continuasse fosse aumentando posição.
Thiago Salomão:E agora em 5 minutinhos, pessoal, por que que o Buffett traiu o movimento do não vou comprar empresa de tecnologia e comprou a Apple?
Frederico Vontobel:É, ele comprou, na verdade ele tá dizendo, eu não comprei a Apple, eu comprei o iPhone, né? Porque ele diz assim, isso aqui mudou o mundo, e realmente mudou.
Thiago Salomão:Ele até chama de o produto, o maior produto de tecnologia, né?
Matheus Soares:É uma empresa de hardware, né? Né, fazendo notebook, migrou para celular.
Frederico Vontobel:Então, e eu fico pensando assim, né, isso aqui substituiu agenda, substituiu lanterna, substituiu bússola, relógio, né.
Matheus Soares:Então, quanta coisa que já não se produz mais porque tu tem tudo, disruptou Kodak.
Frederico Vontobel:E a gente passa quantas horas por dia hoje, né, tu trabalha com iPhone. Então, realmente, né, Steve Jobs aí foi outra pessoa que fez muito né? E realmente assim, tem a Samsung que é concorrente, que também tem bons, e outros concorrentes, né?
Thiago Salomão:Mas eu acho que a força da Apple está na marca, né? Que é um pouco do que a Coca-Cola tem também. É que não é um, não é um prazer barato, né?
Matheus Soares:É a marca e cliente cativo, que o cliente não deixa de usar iPhone, ele vai usar. Vai subir preço 10%, ele vai continuar usando. Então A marca sem ter o cliente cativo, não é.
Thiago Salomão:Então, mas é que são duas coisas que andam juntas, né? Porque acho que até o aumento do preço não faz o cara ir para Samsung. Na verdade, dá ainda mais vontade do cara comprar, porque vai ser um produto ainda mais seleto. Então ele se sente ainda mais exclusivo.
Frederico Vontobel:Tem pessoas que eu conheço também que gostam de Samsung, tem Samsung, preferem Samsung também. E porque também é uma excelente marca, é um excelente produto também, né? É só que é coreano, não é americano.
Thiago Salomão:Eu acho que quem faz a conta no custo-benefício, Samsung é muito melhor que a Apple.
Matheus Soares:Custo-benefício.
Thiago Salomão:Porque a pessoa que usa a Apple não olha para o custo-benefício.
Frederico Vontobel:Exatamente.
Thiago Salomão:Ela olha muito para o status, para a marca.
Frederico Vontobel:E isso tudo muda também, porque uma época lá atrás os telefones eram Motorola, e Motorola perdeu espaço nesse mercado. Uma coisa que a gente sempre olha quando olha qualquer investimento, e isso é uma— Isso serve até para trazer aqui para o que o Buffett pensa de investimento. Quando tu pensa em ganho composto, tem que pensar se a empresa vai estar aqui daqui 10, 20 anos. Porque o mercado tem mudado muito.
Matheus Soares:Você deveria comprar uma ação como se a bolsa ficasse fechada por 10 anos, na mesma coisa.
Frederico Vontobel:Mas e que a empresa vai continuar? Porque tem muitos negócios que podem não continuar, seja porque o negócio foi disruptado. Imagina a melhor fábrica de lanterna, Melhor fábrica de charretes. Melhor fábrica de charretes, né? Melhor fábrica, a Olivetti, que era a máquina de escrever.
Thiago Salomão:Melhor fabricante de esquimê.
Frederico Vontobel:É, então isso tudo, o que a gente tem que cuidar de um negócio, já que o valor tá na perpetuidade, né? O valor, quando a gente faz um valuation, que a gente faz fluxo de caixa descontado, que é a forma de tu realmente chegar no valor do que realmente uma empresa vale, diferente do que o preço dela, né? O maior valor tá na perpetuidade. Por isso é que é tão importante tu olhar se a empresa vai estar aqui daqui a 5, 10, 20 anos, o que ela produz vai continuar aqui ou pode ter alguma disrupção? E disrupção acontece assim, às vezes até em setores de tecnologia. Quando o Pix, o Pix tirou mercado de cartão, uma coisa que não existia até pouco tempo atrás.
Thiago Salomão:Uma estatística sobre isso que também é importante. Hoje, 2026, o tempo médio que uma empresa permanece no S&P 500 é 15 anos. Em 1980, o tempo médio era 25 anos.
Frederico Vontobel:Isso aí.
Thiago Salomão:Em 1960, era 33. Em 1950, era 61 anos. Então, até isso mostra como os ciclos das empresas, eles estão mais rápidos. Então, talvez até essa frase do compromisso de ficar 10 anos com a bolsa fechada, eu acho que é melhor olhar por 5 anos, porque 10 anos pode ser até o ciclo da empresa. É melhor que ela seja—
Frederico Vontobel:Mas a ideia por trás da frase é o seguinte, Cliente, não te preocupar com o dia de amanhã, você vai engatar o preço daqui. Tu pensar assim, estou comprando um negócio, claro, se o negócio tiver risco lá na frente, o bom de ter ação também é o seguinte, se tu tem ação na bolsa e tu vê que o negócio vai ter ameaça no futuro, tu pode sair. Eu fico pensando hoje, o negócio de distribuição de combustível, como é que vai ser? Porque o que está surgindo de carro elétrico, e isso aí, cara que compra carro elétrico não vai voltar para o carro a combustão, é um cliente a menos nos postos daqui. Daqui para frente.
Thiago Salomão:É que aí eu acho que também tem o fator de tal qual o ETF, né, talvez não vai poder ser 100% do mercado, talvez o carro elétrico não vai dar, não vai dar para ser 100% porque nem todos os carros vão poder ser carregados ao mesmo tempo porque não tem a infra necessária ainda.
Frederico Vontobel:É, mas é, mas aí o ponto de disrupção tá muito mais na bateria.
Thiago Salomão:Se um dia for criado tal qual a gente tem um power bank que a gente liga aqui e carrega mesmo sem uma tomada a gente tem algo similar a isso para um carro elétrico, aí você resolve todos os problemas dessa indústria. Mas só para fechar, que o nosso tempo tá curto, por que que o Buffett teve tanta Apple? Por que que a posição dele foi tão grande em Apple?
Frederico Vontobel:Acho que é porque ele percebeu que ali ia ter um ganho composto, que ia continuar sendo um produto de desejo da população, né, que ia continuar crescendo no mundo todo. E ele só desfez uma parte da posição por uma questão fiscal, Ele tinha 40%, né? É, mas eu acho que é porque realmente ele viu que era uma empresa grande, que era muito lucrativa e que ia continuar crescendo.
Thiago Salomão:Ele tava quase virando a Berkshire Hathaway, né?
Frederico Vontobel:Piadinha ruim.
Thiago Salomão:Não fiz uma piada o episódio inteiro, 4 horas de episódio. Meus queridos, tem muita coisa ainda para falar do Buffett, mas eu vou deixar para uma próxima. Mate, abrilhantou demais. Fred, sempre aula. Só lembrando, a mentoria que o Fred deu para os assinantes do M3 Club, a gente vai deixar disponível gratuitamente para você que viu esse episódio. Clica no link, tá na descrição, ou deve ter um QR code aí na tela. Quem quiser o resumo meio aleatório desse livro aqui, manda um e-mail para contato@mmakers. Pode pedir a newsletter do Mati também. Enfim, entupam a nossa caixa de e-mail com as mensagens, que vai ser um sinal que vocês gostaram do vídeo, né?
Frederico Vontobel:Comentem.
Thiago Salomão:Isso aí também, aí eu jogo o padrão, curtir, se inscrever. Fred, você não vai embora sem o pingue-pongue. Tá bem.
Frederico Vontobel:Posso fazer mais? Eu só queria encerrar em relação ao Buffett, que o importante é a gente olhar não como uma idolatria nem nada disso, longe disso, quem está pensando isso, é mais o que eu posso aprender com ele. Tem muita coisa boa para aprender. Muito. E o que também aprender que ele errou aqui. Agora ele deixou um marco na empresa de investimentos, que é o que muita gente trabalha no mundo, deixou um legado. Muito grande.
Thiago Salomão:Aqui a gente aprendeu muito sobre investimentos que ele usou, muito sobre talvez lições que ele aprendeu com os erros dele, a gente pode aprender, mas também um pouco sobre essa, que para mim é a lição mais valiosa, que está no último capítulo do livro e até esse episódio ir para o ar deve sair uma newsletter minha sobre isso, que é a loteria do ovário, a loteria do ventre, enfim, o que for. Mas o quanto o seu entorno fala muito mais sobre o seu destino do que propriamente as suas atitudes. Isso tudo pesa, mas o entorno não tem que ser desconsiderado.
Frederico Vontobel:Ajudou.
Thiago Salomão:Vamos pingue-pongue? Vamos lá. Vou fazer um pingue-pongue diferente. Eu sempre peço uma recomendação de livro de mercado, mas qual das leituras sobre Warren Buffett, qual foi o livro que você, que mais te tocou e você recomenda para nossa audiência?
Frederico Vontobel:Foi o primeiro que eu li, que foi Buffett, A Formação de um Capitalista Americano, né, que conta a história dele, não só dele, como principalmente dos negócios que ele fez, da forma de pensar E eu acho que esse é um, tá. E eu diria também que ler as cartas, hoje tem um livro, né, das cartas, Universidade Berkshire Hathaway, a gente leu.
Matheus Soares:Esse é das teleconferências.
Thiago Salomão:Ah, é das telecom?
Matheus Soares:É, o das cartas é o do Lawrence Cunningham.
Frederico Vontobel:Ele fez um resumo, né.
Matheus Soares:Ele pega, ele pega todas as cartas e ele separa por temas. Então governança corporativa, valuation.
Frederico Vontobel:Ali ele pediu, tirou alguma coisa das cartas, mas tem um livro que é de todas as cartas desde 1965 também. Aí tu tá lendo Carta anual, né, que era uma carta anual. E esse, bom, acho que se jogar as cartas, cartas para os acionistas, fácil de achar.
Matheus Soares:E o que eu falei é uma capa vermelha do Lawrence Cunningham, ele também é uma compilação das cartas, tá?
Thiago Salomão:Fred, você já falou aqui de música e convidados, outra vez você veio. Eu queria que você desse mais uma indicação de uma música e um convidado para a gente trazer aqui para o Market Makers?
Frederico Vontobel:Tá, música, tem uma música que a Ângela, minha esposa, gosta muito, que é Pequenas Alegrias. Não lembro o nome da autora, né, mas é uma música bem bonitinha. E tem outra que eu tenho gostado de ouvir agora recente. O Dudu fez aniversário domingo, até eu coloquei homenagem para ele, que é Pilares, que é uma música, é uma oração e música gaúcha, né, do Miro Saldanha, uma música de 2006, 2007, que tem uma mensagem bonita também, chama Pilares.
Thiago Salomão:Pequenas Alegrias, será que é da Marcela Taís?
Matheus Soares:É isso aí, um abraço para Ângela, para o Dudu, que recebeu a gente.
Thiago Salomão:Muito amor. E um convidado que você gostaria de ver aqui?
Frederico Vontobel:Poxa, não tinha pensado nisso, né, mas Eu tenho gostado de falar, é um negócio bem diferente do nosso, completamente diferente, né? E que eu até não tenho nada a ver com o que a gente faz, né? Mas eu gosto da pessoa que é o Isaías, que criou o Fundo Pandora, né? Que é um fundo quantitativo brasileiro. Os fundos quantitativos são muito grandes lá fora. O Isaías entendeu, estudou muito tempo sobre fundos quantitativos, né? E eu gosto dele. Então, se for falar sobre fundo quantitativo, que não é o que a gente faz, mas é uma pessoa que—
Thiago Salomão:Sabe que eu já conversei com muita gente da Pandora, nunca foi com Isaías, que ia gostar de ter uma conexão com ele.
Frederico Vontobel:Ele sempre foi o motor por trás do fundo.
Thiago Salomão:Legal, pô, se fizer um meio de campo vai ser um prazer até conhecê-lo, né? Ele não fica em São Paulo, né?
Frederico Vontobel:Ele fica em São Paulo, ele é do interior de São Paulo.
Thiago Salomão:É, ele ficava no interior, pelo menos quando eu fui lá para Pandora ele não...
Frederico Vontobel:É um negócio diferente do que a gente faz, mas eu gosto dele, né? Então não tenho preconceito também nenhum com nenhum tipo de investimento.
Thiago Salomão:Se é amigo de Fred, é amigo nosso.
Frederico Vontobel:É isso aí.
Thiago Salomão:E qual a maior gentileza que fizeram na vida de Frederico Montoya?
Frederico Vontobel:Pois é, essa é uma pergunta que eu tava... 2 momentos que me marcaram, né? E quando tu tá mais sensível, quando tu tá mais fraco, que às vezes tu vê que a gentileza ela é mais mas ela toca mais, né. Quando eu fui para os Estados Unidos, que eu queria me sustentar lá, que eu queria ganhar um emprego na biblioteca, eu preenchi a ficha, né, de concorrer a uma vaga, né. E aí eu fui falar com a diretora que tomava conta da biblioteca lá, que era um negócio de 4 andares, à la leste ou oeste, a biblioteca tinha não sei quantos milhões de livros, né. E eu queria muito trabalhar, e o estrangeiro só pode trabalhar legal nos Estados Unidos na universidade onde você está estudando, né? Aí eu disse para ela que eu queria muito, né, aquele trabalho para mim poder ganhar $4 por hora naquela ocasião. E eu nunca me esqueço que ela tinha pego a minha ficha de inscrição, tinha colocado embaixo de uma pilha, né? E aí ela sensibilizou com o que eu disse para ela, né, que eu tinha mudado, estava dividindo apartamento com 3, 2 yemitas e um "Não." E ia ficar um tempo ali na faculdade estudando e ela pegou assim, pegou a minha ficha e botou em cima. No dia seguinte me chamaram! Nem sei o nome dela, nunca mais soube né? Mas aquilo foi uma coisa que marcou muito porque ela entendeu meu pedido e fez aquela gentileza.
Thiago Salomão:Que da hora!
Frederico Vontobel:Outra: A gente estava em Gramado nos anos 1900, a gente tava fazendo voo panorâmico, né, a gente tinha uma empresa de táxi aéreo com helicópteros lá e tava fazendo voo panorâmico em Gramado e tava muito frio, eu não fui preparado pro frio, eu tava só fazendo o embarque e desembarque dos passageiros ali, né, e aí o Luciano Pessim, que era o secretário de turismo de Gramado, que foi com quem eu falei pra ele achar um local pra gente fazer os passeios, ter autorização fazer os passeios lá naquela ocasião, ele foi lá pra ver como é que tava o movimento, era final de semana, e ele viu que eu tava com bastante frio, tava frio, tá? Foi uma noite assim, era um dia bem frio mesmo, né? E eu tava tremendo de frio, mas tava lá trabalhando, né? E aí ele foi em casa, pegou um sobretudo e me trouxe, né? O Luciano foi o que organizou o Natal Luz depois, e é da família do Caso da Montanha, né? E hoje ele nem sabe disso, acho que eu nunca disse isso para ele, né? Mas eu tava com frio e ele foi lá e trouxe um sobretudo dele, né? Porque ele viu que eu tava com frio. Então uma atitude assim, que às vezes é uma coisa simples que tu faz para uma pessoa, ajudar a pessoa que tá precisando, né? E é o que Jesus falou também, né? Quando tu der alguém que tá com fome ou cobrir alguém que tá com frio, é para mim que tu tá fazendo, né? Então, quando a pessoa tá mais sensível, que às vezes aquela gentileza, por mais ser uma coisa simples, ela marca, né? Então, da hora, tem muitas coisas assim, mas essas duas eu me lembro assim que marcou.
Thiago Salomão:Histórias bem legais. E o Natal Luz, para quem viu o nosso episódio com o Felipe Nunes, descobriu, né? Ou quem leu o livro do Felipe Nunes, é o Brasil no Espelho, hoje é a festa mais popular do Brasil, não Mas o Carnaval do Rio de Janeiro é o Natal Luz de Gramado. Então, até uma transformação da sociedade passando por isso. Fred, infelizmente a gente vai ter que encerrar esse papo, mas o Warren Buffett Parte 2 você já está convidado. Vamos ver a repercussão desse papo. Se você gostou do papo, deixa aí nos comentários. Se não gostou também, pode deixar nos comentários que a gente gosta de ouvir coisas para melhorar. Mati, sempre um prazer ter você aqui.
Frederico Vontobel:Tamo junto, salomá.
Matheus Soares:Sempre um prazer estar aqui. A gente está aqui com o Fred, então—
Frederico Vontobel:Obrigado, Matheus, pelo convite.
Matheus Soares:Adelianta ainda mais o podcast.
Frederico Vontobel:Espero que o pessoal goste e veja o que vai aprender. E tem aquela coisa também que a Bíblia fala: ouça tudo, retenha o que é bom. O que o pessoal gostar e achar que pode aprender, retenha. O que não gostar, separa. A memória de banheira que o Buffett fala também, de ouvir tudo aquilo que tu não quiser, passa para o ralo.
Thiago Salomão:Bom, pessoal, só lembrando, toda terça, quinta e domingo, 18 horas, tem episódio novo aqui no Market Makers. A gente desse lado aqui e alguém bem mais inteligente do que nós do outro lado compartilhando conhecimento. Até a próxima e tchau!
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