#170: Jogar, verbo intransitivo
A história dos video games é feita por game designers, por tecnologias, por jogos… e por nós, jogadores. Adriano Brandão e Danilo Silvestre entraram em uma onda nostálgico-filosófica para debater os diferentes “jogares” que emergiram de 50 anos de história dos video games: o jogar da criança, o jogar do micreiro, o jogar do fã, o jogar casual… tudo é diferente e tudo é, ao mesmo tempo, extremamente video game.
00:04:03 – Tema
00:59:55 – Joguinho de Papelzinho
O Debate de Bolso saiu de casa!
E agora é um podcast quinzenal, independente, em quintas-feiras alternadas, em debatedebolso.com, no Spotify e no seu agregador favorito!
Apoie o Pouco Pixel!
O Pouco Pixel regular está de volta – agora mensal, com episódios novos sempre na última segunda-feira do mês. E quem voltou junto? O Mecenato Esclarecido! Gastando menos que um suco de shopping você participa do grupo com os seres humanos mais fantásticos do planeta e receber os episódios sempre com antecedência. Além disso, se o grupo de mecenas crescer, a periodicidade do Pouco Pixel pode se tornar quinzenal e mesmo semanal. Participe e conte pra todos os amiguinhos!
Os famosos links no post
- Em breve!
Nosso som
A nossa linda abertura e todas as vinhetas são obras do nosso compositor residente, Rodrigo Faleiros! Já a música de fundo é de Kevin MacLeod e de Michael Grubb.
Carinha do jabá
O Pouco Pixel é uma produção da AD&D Studio, que traz a você podcasts como o Bola Presa, o Escuta Essa, o Debate de Bolso, o Ilha Quadrada… e, em breve, muito mais!
- A evolução do ato de jogar videogame ao longo da históriajogar como brincar·jogar como estar junto·jogar como pertencer a uma cultura
- A cultura do videogame e a participação sem necessariamente jogarrevistas de videogame·assistir outras pessoas jogarem·o Poco Pixel como parte da cultura
- O videogame como brinquedo e sua comercialização inicialbrincar versus jogar·jogos abertos e amorfos·venda em lojas de brinquedo
- A socialização através dos videogames em diferentes ambientesfliperamas como espaços sociais·consoles domésticos com múltiplos controles·locadoras como centros comunitários
- A mudança geográfica do videogame e seus impactos nos jogosdo Atari na sala ao PC no quarto·jogos para monitor versus televisão·portáteis e o jogar em público
- A necessidade de lidar com a tecnologia para jogar em computadores antigosfitas cassete e MSX·pirataria e complexidade·tornar-se especialista em hardware
A DDD Studio.
Ao vivo, Poco Pix, o número 170. Eu sou o Adriano Brandão, do meu lado tá o Danilo Silvestre. Tudo bom? Tudo bom, beleza, maravilha. Qual é o tema de hoje, Danilo?
Tema de hoje é jogar, verbo intransitivo.
Que bonito, que poético! Sobre o que que a gente vai falar?
A gente vai falar sobre o ato de jogar.
O ato de jogar, o ato de jogar não é sempre a mesma coisa, né? A gente meio que conforme o tempo vai passando, conforme a geografia, conforme a situação, conforme a contingência toda, jogar significa coisas diferentes.
Exato, né? Muda o lugar, muda a companhia, muda o contexto.
Jogar muda. E jogar videogame, que é o que a gente tá falando aqui no Pouco Pix, também muda. A gente vai falar sobre os diversos jeitos de jogar. Parece meio bobo, mas eu acho que quando a gente chegar no tema vocês vão entender melhor do que significa.
Boa! Acho que todo mundo já percebeu, né, que o lugar em que a gente jogava videogame foi mudando ao longo dos tempos, né?
O jeito como a gente joga, com quem a gente joga, em quais circunstâncias a gente joga videogame, tudo isso mudou e muda constantemente. Nunca é sempre a mesma coisa. É disso que a gente vai falar. Mas antes a gente tem que falar de outra coisa.
De outra coisa?
Outra coisa que é o Mecenato Esclarecido do Poco Pixel.
Ah, bom, foi um abono em que eu não sugeri nada diferente anteriormente.
Quebrou um pouco o rito, mas tá tudo bem.
Eu quis manter uma parte do protocolo.
Uma parte do rito aconteceu, o abono. Não, o Mocinato Esclarecido do Poco Pixel é o jeito que a gente criou para você que tá escutando a gente ajudar a gente que tá fazendo, falando aqui para você Certo? Continuar produzindo podcast todo mês, quiçá toda quinzena, quiçá toda semana.
É isso aí, para o Pouco Pixel existir, a gente depende da ajuda de vocês, queridos assinantes, queridos mecenas esclarecidos.
Exatamente. Para você apoiar o nosso projeto e receber em troca acesso antecipado aos episódios, às vezes bastante antecipado, esse aqui vai ser razoavelmente antecipado, e acesso principalmente ao grupo mais esclarecido da internet no WhatsApp, o que é engraçado. Você tem que entrar em pocopixel.com/mecenato. Lá tem todas as instruções, é bem fácil e é bem barato também, menos do que um suco de shopping. Desde 2016 é mais barato do que um suco de shopping, continua sendo, né?
Nasceu mais barato que um suco e vai continuar sendo mais barato que um suco, asterisco, de shopping. Não qualquer suco, não o suco que você faz na sua casa.
Aí depende um pouco da estação do ano, do país em que você se encontra.
Fazer um suco no inverno do Canadá é complicado, um pouco mais caro. Exato, muito bom. Mecenato Esclarecido do Poco Pixel é a chance que você tem de ficar mais juntinho da gente, juntinho também dos outros ouvintes. É o melhor grupo do WhatsApp, eu acho.
Sem dúvida, é o mais esclarecido.
Isso é no mínimo mais esclarecido, não tem nem disputa. É isso, vamos para o tema.
Bora!
Esse tema, jogar, que significa o jogar, ou usando aquele palavreado meio, meio tilelê, meio academia, que é os jogares, né?
Os diferentes jogares, os múltiplos jogares.
Será que é o nome do programa? Tinha que ser o Múltiplos Jogares.
Bonito, hein?
Bonito, né? Mas o nosso também é bastante bonito assim, o título de verdade do episódio. Mas enfim, a ideia de falar sobre os diferentes jogares veio a partir da sensação de que a gente já falou bastante da história dos videogames, da história dos consoles, da história dos jogos, da história dos fabricantes. A gente só não falou muito da história da gente, da história dos jogadores, de quem joga o videogame. Voltar o nosso olhar para nós mesmos enquanto consumidores dessa mídia, porque tem um monte de jeitos de consumir essa mídia, e esses jeitos também não são estanques, não são estáticos, eles também mudam com o tempo, com as épocas, com a nossa época de vida e também com a época do mundo, com a época que a gente vive.
E o que eu acho mais legal é que a diferença de quem é que está jogando, né, de como está jogando, altera os jogos, né? Os jogos têm que responder a isso. Então a história do jogador também influencia a história dos jogos, isso também é uma história dos videogames, claro.
Sim. É muito interessante. E vamos começar do começo. Eu acho que a gente pode fazer— a gente não vai conseguir fazer uma linha cronológica dos jogares, os diversos jogares, etc., mas a gente vai começar por um ponto cronológico, que é quando o videogame surge. E aí o que a gente roteirizou foi: ele surge como uma brincadeira. O jogar videogame, quando ele surge, é igual a brincar. Jogar igual brincar.
É que é curioso que seja brincar por parte de meia dúzia de cientistas acadêmicos de universidades, né?
Isso, perfeito. É um brincar muito restrito, mas é um brincar. Vamos, acho que a gente tem que dar um passo atrás, e você quem é a melhor pessoa para isso. Qual a diferença entre jogar e brincar?
Essa é uma diferença muito difícil, a gente já falou dela algumas vezes, porque é uma diferença que Não é comum na maior parte dos idiomas que falam sobre jogo. Exato, é português que faz essa diferenciação, e essa diferenciação vai depender de quem é o teórico falando a respeito. Mas eu gosto de diferenciar o jogar e o brincar de uma estrutura. O brincar é menos estruturado, o brincar tende a ser mais livre, estrutura mais solta.
Exato, os jogadores mudam de lugar, mudam de papel, mudam de função, os objetos recebem novas funções. Ao longo da brincadeira, enquanto jogar tá muito mais amparado por regras, por uma estrutura de regras.
Perfeito. E eu acho que isso é muito presente nos primeiros videogames, hein? Não precisa ser o jogo da velha feito com lâmpadas neon numa feira no Canadá, não precisa voltar tanto assim. A gente pode voltar para as primeiras experiências de videogame comercial doméstico vendidas nos anos 70 nos Estados Unidos. Os Pongs. E o Pong, ele é nítido nele que é uma estrutura de brinquedo, porque ele não tem uma estrutura de jogo muito consciente, ele não tem tantas regras, ele não te estipula em todas as versões dele, por exemplo, placares.
Várias versões de Pong não tinham placares, você que tinha que anotar no papel se você quisesse um placar.
Claro, e da mesma época tinham aqueles jogos em que tudo que você consegue fazer com videogame é controlar um ponto brilhante na tela.
Que aí você coloca um celofane colado na tua TV de tubo e aí faz um cenário, ele faz um labirinto, ele faz um campo de futebol. E se você obedece o labirinto, é problema seu.
Exato, né? O jogador é responsável por criar o contexto, as regras, até o terreno, né?
Tudo é feito pelo jogador. E isso é total brinquedo, né? Você tem um treco que faz duas coisas, sei lá, mostra uma coisa na tela. Aí você, quando você mexe um controle, aquilo na tela se mexe, ponto. Aí a partir daí, ó, é com você, se vira.
E aí você brinca com aquilo, basicamente uma parte brincadeira até na parte do desenvolvimento. A pessoa que tá criando esses jogos, ele tá simplesmente vendo o que dá para fazer com a tecnologia, vendo como é que você pode interagir com esse monitor, como é que você pode fazer com que uma coisa se mexa nesse monitor. Como é que um botão pode causar uma resposta no monitor? Tem algo de lúdico em criar esses jogos, porque esses jogos não têm intenção.
Sim, esses jogos não têm uma proposta pré-determinada, eles não tentando se adequar a um nicho de mercado.
É um jogo que ele é um jogo aberto, e significa que ele se amolda ao jogador e não o contrário. Não é o jogador que entra dentro do jogo e entende as regras e se amolda ao jogo. Não, não. Esse é um jogo que ele tá ali meio amorfo e o jogador é que dá forma pro jogo.
É, o desenvolvedor tá experimentando com a tecnologia e quando ele consegue descobrir que dá pra fazer alguma coisa, né, com essa tecnologia, ele oferece pro jogador fazer o que quiser com ela, né?
Sim.
É quase como se fosse um objeto mesmo, é um objeto lúdico, também conhecido como brinquedo.
Brinquedo! É isso, o videogame era um brinquedo e Isso é tão marcante que ele foi vendido em lojas de brinquedo por décadas, né? Ele já tinha se emancipado do brincar, já tinha virado um jogo com toda a potencialidade dele realizada, mas continuava sendo vendido em lojas de brinquedo.
E sabe o que é engraçado?
A Nintendo, quando lança o Nintendo Entertainment System, o NES, o Nintendinho, nos Estados Unidos, ela quer vender em lojas de brinquedo, ela não quer vender em outras lojas, ela quer vender como brinquedo.
E eu acho engraçado que a tecnologia ela pode ser considerada brinquedo ou tecnologia dependendo da função dela. Então se eu aperto um botão e liga uma luz e essa luz tem como função iluminar meu ambiente, é uma lâmpada, é uma lâmpada, e vai estar na área de tecnologia da loja. E aí o adulto vai comprar. Se você aperta um botão e liga uma luz colorida que não tem absolutamente nenhuma função ou serventia, Você vende para uma criança, porque a criança vai gostar de apertar aquele botão só para ver a luz ligando ou desligando.
Exato, tem a ver com a serventia. Quando você faz uma conquista tecnológica que ela não serve em absoluto para nenhum propósito prático, você tá criando um brinquedo. É, por mais tecnológico que seja esse brinquedo, se divorciou aquela tecnologia da utilidade.
Exato. Então aquele sistema osciloscópio que media as oscilações da linha de energia elétrica do Nordeste dos Estados Unidos, que o cara adaptou para virar um jogo de tênis, ele perdeu completamente a utilidade dele de medir a linha elétrica, né?
Então, tipo, ele sai da parte de tecnologia do supermercado e vai parar na parte de brinquedos.
Então o jogador de videogame, ele nasce como uma criança que brinca, né? É uma ideia que existe até hoje, porque o fato de diante de ter o videogame como um eletrodoméstico, como um eletrônico super sofisticado, caro, etc., não divorcia que tem um público que brinca com ele, que quer pegar no videogame e fazer coisas muito simples, principalmente crianças mesmo. Tem muitas crianças pequenas que têm o primeiro contato com videogame, elas não entendem o mundo das regras do jogo, elas querem a sensação, elas querem o sensorial de ver aquelas coisas se mexendo, de apertar o botão e ter uma reação.
Isso é só isso, É apertar um botão e ver o que que ele causa.
Eu sempre lembro do vídeo que a gente fez no YouTube jogando o jogo do esconde-esconde do Barney, o dinossauro roxo. Era um jogo feito para crianças, então ele não tinha nenhum aspecto de jogo. Ele não tinha desafio nenhum, tudo era possível. Você tinha que encontrar os amigos na floresta lá, mas eles estavam ali na tua cara. Você só passava ali, ele aparecia.
Você anda, olha para ele, ele fala, ah, você me encontrou. É só isso.
Aí você dá beijinhos nas coisas do cenário. É muito fofo o jogo.
E tipo, é só isso, é interação, não é desafio. É porque a gente, né, isso é assunto para outros Poco Pixels, mas a gente aprendeu a confundir interação e desafio na história dos videogames. Mas um não é necessariamente ligado ao outro, e os videogames certamente não surgem assim.
Sim. E aí eu acho que o do brincar sem escala, ele já encaixa num outro tipo de verbo que a gente pode encaixar aí jogar, que é a coisa comunal, a coisa de se estar junto. Os adultos usam muito o verbo brincar para se referir às crianças e pedir para as crianças ficarem juntas. É muito comum, do tipo: ah, vai brincar lá com seu amiguinho, vai brincar lá com seu irmão.
Brincar é brincar junto, né?
Brincar significa estar junto. Às vezes a criança não faz nada efetivamente quando tá, encontra o amiguinho, quando encontra o priminho, sei lá, Ele simplesmente está junto ali, ele tá lá, eles se conversam, um corre atrás do outro, sei lá, pronto. Pro adulto, aquilo é brincar. Estar junto com o outro é brincar. Vai brincar com seus amiguinhos.
E a gente fica surpreso, né, de quando duas crianças acabam de se conhecer e aí em segundos elas já estão, entre aspas, brincando juntas.
Isso.
Sei lá o que elas estão fazendo, às vezes elas só estão correndo, né.
E aí o videogame é um elemento muito forte de socialização. Pode ser as crianças brincando, porque existia, né, a pessoa tinha um Pong e aí a criança brincava e chamava outras crianças para brincarem juntas, tudo bem. Mas tem um ambiente público que isso acontece que é muito interessante, que é o fliperama. E a origem do fliperama é eminentemente tecnológica e econômica. É muito caro fazer um equipamento eletrônico de jogos e você não pode colocar na tua casa esse equipamento, é caro demais.
Você põe num lugar que seja público, né?
E aí você põe no lugar que seja público para fazer aquele efeito do você compartilhar o tempo com as pessoas, é tempo de jogo você tá compartilhando, você divide o tempo de jogo com as pessoas. O fliperama é isso. E aí acontece uma socialização por conta da economia do jogo. O jogo está lá, ele não é pensado para ser social, ele é só pensado para você e a máquina. Mas como ele tá no lugar público, as pessoas vão se reunir em volta dele, as pessoas que gostam do jogo vão voltar a frequentar os mesmos lugares porque elas querem jogar aquele jogo.
Os fabricantes percebem isso e já começam a fazer jogos que são jogáveis um com o outro, né? Você tá todo mundo no lugar lá, o arcade, você cria mais um, bota mais uma manopla ali e faz o jogo ser um contra o outro, né? Os primeiros jogos eram jogos de fazer a bolinha bater na parede, não precisa de um segundo jogador, né?
Eu acho que esse que é o paradoxo interessante, porque a gente falou aqui, né, o brincar é muito coletivo, o brincar é muito social. Mas a partir do momento em que os videogames conseguem ficar mais estruturados, eles substituem, né? Eles substituem justamente o outro jogador. A gente já falou aqui em vários momentos de história dos videogames em que os videogames começam a reproduzir jogos que já existem, e o componente tecnológico é simplesmente colocar um computador para fazer às vezes de um adversário.
Então ele começa a virar um jogo que deveria ser solitário, ele deveria ser monojogador. O que não acontece, e não acontece nos fliperamas pelos motivos que você deu, né? A gente tem que usar o mesmo objeto, né? O mesmo arquétipo, compartilhar com muitas pessoas. Mas não acontece nem naquelas universidades em que eu falei que as pessoas estavam criando os computadores dela que serviam para trocar informação, mensagens.
Exato, começaram a jogar, né?
Os computadores, eles eram bons de trocar essas coisas. Era a graça desses computadores universitários no começo, é que eles mandavam informações de um para o outro. E aí, mesmo quando os jogos eram para um único jogador, eles se trocavam fases, eles se trocavam mods. Os primeiros jogos que são feitos nessas universidades eram alterados por outros jogadores o tempo inteiro e depois compartilhados. Então ele é social mesmo quando os jogos são para um jogador só.
E no arcade isso fica muito evidente. Pac-Man não é um jogo multijogador, só tem um Pac-Man na tela, né? Flipperamas, arcades, são lugares em que muitas pessoas jogam juntas o Pac-Man, mesmo que um de cada vez.
Elas ficam vendo, existe um voyeurismo de videogame, surge instantaneamente, né?
E grupos de amigos iam juntos, você ia com seus amigos. Onde a gente vai hoje? Vamos jogar futebol? Vamos jogar flipperama? Vou jogar flipperama.
Sim, é isso, é uma atividade comunitária pública, mas também tem uma atividade comunitária doméstica. São pessoas que você chama para jogarem videogame com você na sua casa.
Exato. E aí, até porque no fliperama, sabendo que as pessoas estão indo juntas, os jogos começam a ficar multijogador.
É isso.
E aí é claro que isso é carregado quando os consoles vão para as casas.
Isso para mim era muito marcante, porque eu sou filho único e nunca tive muitas pessoas ao meu redor. Os videogames que eu ganhava, comprava, sempre vinham com 2 controles, né? Isso é uma coisa que mudou com o tempo, né? Os controles sofisticaram e agora você compra, daqui a pouco vai vender sem controle nenhum, né? Mas faça o seu próprio controle, sei lá, controle com gesto, com pensamento. E se você quiser algum joystick, você vai ter que pagar.
Mas quando você comprava um Atari 2600 nos anos 80, um Dactar, vinha 2 controles.
Perfeito.
Porque era imaginado, era uma pressuposição que um aparelho que fosse, que tivesse o preço que o Atari tinha, que monopolizava a TV da sala, tinha que ser usado por mais pessoas.
É porque a televisão é uma experiência muito coletiva, né? A família senta para assistir televisão.
Você vai usar a TV só para você? Eu vou, eu botei o meu aparelho aqui, vou ficar monopolizando, ninguém mais brinca? Não. Por padrão, o fabricante já coloca um segundo controle para uma pessoa brincar junto também.
E eu lembrei aqui a mesma lógica do arcade, né? Minha mãe contando de quando surgiu a televisão. Minha mãe nasceu em 54, quando as televisões começaram a chegar nos lares brasileiros, de que tinha uma televisão na rua.
Sim.
E aí todo mundo na rua ia para aquela casa para todo mundo assistir televisão juntos.
Eram os televisinhos, né?
Isso, os televisinhos são aí precursores da ideia de que o arcade é muita gente compartilhando o mesmo, o mesmo console.
E aí no console caseiro também tinha isso. Isso, por isso que vem com dois controles, vem com dois controles para você jogar com as pessoas da tua casa, mas isso se extrapola muito rapidamente para rua, para os seus colegas da escola. Crianças são notoriamente sociais, gregárias, elas têm sempre, tem muitas pessoas ao redor delas. Então a visão que eu já fiz aqui, já enunciei isso no Pico Pix várias vezes, a visão do quarto dos moleques de 10 anos, 10, 11 anos, cheio, 5, 6 pessoas no quarto pequenininho, em volta de um Master System jogando California Games é o clássico assim da socialização, do ato de brincar no sentido do adulto que fala, vai brincar com os amiguinhos, do ato social de se estar junto.
Essas pessoas estão jogando videogames, mas na hora do California Games só tem uma pessoa jogando por vez, tem uma pessoa jogando, 5 pessoas socializando. Né, tão curtindo aquele momento.
É uma experiência coletiva isso.
E a gente fala que elas estão fazendo o quê? Elas estão jogando videogame, né? Mas elas não estão, elas estão fazendo outras coisas, mas elas estão jogando videogame para todos os princípios. Então jogar também é o ato de estar em comunhão com as outras pessoas, né?
E é muito divertido porque parece na contramão daquilo que os joguinhos faziam de melhor, que era substituir o jogador humano. Sim, trocar o jogador humano por um computador, mas a gente quer pessoas, a gente quer que seja uma experiência social, né?
Pessoas gostam de pessoas, né? Tem uma outra experiência social que a gente lembrou aqui, que não é o arcade e também não é a casa, a sala das pessoas, que é a locadora, o ambiente público. Que aí ele tem duas facetas. Ele tem a faceta de ser um ambiente público que é meta, que as pessoas se encontram para alugarem jogos. E aí elas conversam, elas conversam sobre os jogos que elas vão alugar, elas perguntam: esse jogo é legal, não é legal?
A comunidade ao redor da locadora vira uma coisa viva, que sabe quando chegou um jogo novo na locadora, pede os jogos que querem jogar para o dono da locadora, para a pessoa que atende ali. Cria-se uma comunidade metajogo, não é? Elas não estão jogando, mas elas estão falando sobre o jogo em comunidade na locadora. Mas com o tempo também virou lugar de jogar, em que as pessoas alugam o tempo de consoles que deveriam estar em casa.
Eu não sei se essa experiência é muito universal, mas pelo menos no sul global, digamos assim, me parece que é bastante universal. Na minha infância era muito comum locadora que alugava os consoles, né, não para você levar para casa, você alugava o tempo ali, você ficava lá e jogava, e Eu passei muito tempo numa locadora perto de casa que tinha um hall muito grande na entrada com sofás e cadeiras, mas as pessoas ficarem lá, as crianças e adolescentes passavam o dia inteiro ali, elas ocupavam aquele espaço.
Era um espaço que uma criança podia sair de casa e ficar, e aí ficava vendo quais jogos eram alugados, quais jogos chegavam.
Aí às vezes pagava uma horinha de um console, jogava um pouco, depois voltava para o sofá, as locadoras de vídeo também faziam isso de uma certa medida para filmes, né? Eu me lembro muito, muito bem da socialização da locadora de filmes, de ter— ela não vendia só aluguel de filmes, ela também vendia pipoca de micro-ondas e balinhas, toda uma economia do filme, né? E as pessoas encontravam, perguntavam: o filme chegou? Não chegou? Que filme que chegou? Você fazia amizade com cada locadora.
Sabe que eu trabalhei numa locadora por um tempo?
Mas uma época diferente, uma época diferente.
Mas assim, eu trabalhei numa das últimas locadoras de VHS, de filmes de arte em VHS. Então tinha muita gente que ainda ia lá pegar, e as pessoas conversam com os atendentes, elas querem conversar, elas querem conversar, elas botam em papo, elas perguntam o que chegou, o que recomenda, se conhece algum filme de certo estilo. Tem ali uma tentativa de criação de vínculo indo na locadora.
Sim, é muito legal. E aí eu acho que eu vou pular o nosso roteiro por uma coisa que eu acho que é muito colada nessa história da locadora, que é o meta. Que é, o jogo ele não é só jogar, o jogo é uma cultura que se cria em torno do jogo. Porque a locadora é um pouco isso, é um pouco um santuário da cultura de videogame, certo? A criança ficava o dia inteiro lá, ela jogava, quando ela tinha dinheiro ela jogava uma horinha lá de Neo Geo, mas quando ela não tinha ela só ficava ali em volta.
Ela tava recebendo os fluidos assim do videogame ali, sabe? Não é? E aí, o que que tem na locadora geralmente? Cartaz de jogo, tem as próprias caixas dos jogos que ficam ali. Nem sempre eles estão disponíveis, mas as caixas ficam sempre disponíveis para você olhar na locadora.
E muita comida de criança. Tem comida de criança, balinhas, docinho, chocolatinho, é mil coisinhas assim.
E revistas de videogame. Aí as pessoas sentam e conversam sobre os jogos. Você tá vivendo uma cultura compartilhada quando você vai na locadora. E essa cultura compartilhada não existe, obviamente, só na locadora. Ela também, ela pode ser intermediada, e você virtualiza ela e leva para casa, em revistas, em programas de televisão, no caderno específico num jornal. Então jogar também é pertencer a uma cultura ampla que não necessariamente é gregária.
Não preciso estar junto com outras pessoas, mas só o fato de ter revistas já faz você participar de uma cultura. E você uma vez, no Poco Pix, falou que por um certo momento você não tinha nenhum videogame, mas você lia as revistas, você sabia o que tava sendo lançado, qual que era o papo que acontecia em torno dos videogames por causa das revistas.
Eu passei muitos anos sem um console, sem jogar videogame em absoluto, mas eu tava inteirado porque eu continuava comprando as principais revistas.
Você comprava as revistas, né? Isso significa participar da cena, mesmo que você não jogue efetivamente. A cena tá lá e você participa dela. O Poco Pix é isso.
O jogar, verbo intransitivo, mostra que jogar às vezes não envolve nem jogar. É Exato, você tá jogando mesmo que você não toque num controle, né?
Eu fiz muito isso que você fez de comprar as revistas. Eu me lembro que eu tinha uma cena que grudou na minha cabeça, não sei por quê, daquelas coisas que a gente pode levar para o analista assim, porque são pequenas memórias que surgem assim, eu não sei muito bem por quê. Eu morava em Curitiba nessa época, acho que foi meu primeiro ano de Curitiba, e eu não tinha—
você foi com quantos anos?
Eu fui em 91, então eu tinha 13, tava na 7ª série, né? Eu fui pra Curitiba em 91 e não tinha um computador, eu não tinha um PC, eu tinha um MSX. Então eu comecei a procurar lugares pra comprar os jogos de MSX. E esses lugares funcionam também como uma socialização diferente da locadora, só que você não aluga os jogos, você compra a pirataria dos jogos, né? Então eu ia lá e comprava o disquete que o cara copiava pra mim os jogos que eu pedia.
E aí eu perguntava, que jogo que é bom, que jogo que não é bom. Beleza, esse é uma coisa. Então eu exercia uma certa cidadania do MSX indo nessas lojinhas. Eu me lembro de várias em Curitiba. Mas eu também comprava as revistas. E eu me lembro muito bem de um dia que eu fui comprar um pão na padaria. Era uma padaria que tinha, era meio que na frente de casa assim. Tipo, eu morava num prédio que você conhece. Eu morava nesse prédio e meio que atravessando a rua, um pouco mais para esquerda, tinha uma padaria.
E eu ia nessa padaria e essa tinha, às vezes nessa padaria tinha uma prateleira de revistas. Eu lembro. E aí um dia eu fui nessa padaria, encontrei, tinha uma revista chamada Ação Games PC Games, e a capa era sobre o Indiana Jones e a Última Cruzada. E eu comprei. Eu não tinha um PC, eu não tinha videogames, eu tinha um MSX. Mas eu comprei, eu comprei pão em uma revista de videogame que eu fruí por dias, semanas. Eu ficava vendo lá o cara falando do jogo do Indiana Jones e a Última Cruzada.
Eu só fui conseguir jogar esse jogo, tipo, sei lá, 2, 3 anos depois, quando eu consegui finalmente um PC 386. E quando, sei lá como, eu consegui o jogo pirateado, porque não era tão fácil assim, não era ir na loja comprar, claro. Até tinha na loja, a Brássoft trazia os jogos, mas não era o que acontecia na prática. Alguém me passou uns disquetes que tinha um monte de coisa, e uma dessas coisas era o Indiana Jones.
Muitos anos depois.
Eu joguei depois, inclusive, que o Fate of Atlantis, porque a pirataria é mais fácil das coisas mais atuais, mais recentes.
As coisas velhas são difíceis de achar.
Isso. E aí um dia caiu esse jogo mais velho. Mas eu lembro muito, eu queria participar da cena de PC gaming sem um PC. E a revista que me fazia participar da cena. É uma historinha aí que eu não sei por que eu me lembro, até do clima que tava no ar assim. É engraçado, a memória tem dessas coisas assim.
É que assim, são momentos de encantamento. Eu acho que a gente lembra porque é encantador você se deparar com jogos novos e tecnologia nova e coisas que são assim sedutoras. E talvez até mais sedutoras porque a gente não tinha acesso, porque a gente não podia jogar. Eu lembro muito bem de resenhas de jogos de Neo Geo, de revistas da Super Game Power, que resenhava assim com detalhes.
King of Fighters, não sei o quê.
Eu nem gosto desses jogos, mas assim, eu não podia jogar e eu ficava vendo aqueles prints horrorosos e a qualidade da imagem parecia fantástica porque era um Neo Geo. O meu Geo era assim, tecnologicamente era muito superior ao resto. Mas eu lembro com muita vivacidade, era uma espécie de fascínio de estar descobrindo um animal novo na natureza, sabe?
É muito legal, é pertencer à cena, é jogar, é jogar sem jogar mesmo, né? E tem, e eu acho que muito do que é esse podcast que você tá escutando agora, o Poco Pixel é sobre isso, é sobre pertencer a uma cultura. Então, no fundo, a gente, a gente quer falar sobre a história dos videogames, a gente quer pensar jogabilidade e tal, mas no fundo o que tem no undercurrent da história do Poco Pixel é a gente quer acima de tudo participar da cultura de videogame.
Sim, não jogo muito videogame e tô aqui fazendo podcast todo mês participando da cena sem jogar.
E dela participar lendo, ouvindo, e dela participar falando, né? A gente gosta de pensar essa cultura, né? A gente gosta de pensar o jogar, no fundo.
Exato.
Então, que é o nosso jeito de jogar junto, né?
O caso de você ser especialista num jogo que você nunca jogou é real, porque você pode ter visto muito vídeo, você pode ter lido muito sobre. Eu me lembro que quando a gente começou o Poco Pixel teve vários estímulos, e todos esses Todos é muito. A maior parte dos estímulos para a gente criar o Poco Pixel não foram jogos em si, foram coisas sobre jogos.
Foi o Angry Video Game Nerd, foi o 99 Vidas, o podcast, foi o fato que eu tava escrevendo resenhas de jogos no Playfire, que era uma comunidade tipo um Facebook para jogadores.
Exato. E somando-se a isso, o advento do Raspberry Pi, que foi o um jeito que de repente a gente podia jogar emuladores não no computador mais, mas na televisão com um controle do Xbox. Então esse foi um estímulo de videogame mesmo. Todos os outros são coisas sobre a Meta, e a gente se sentiu estimulado o suficiente para fazer o Poco Pix, primeiro o blog e depois o podcast. Quer dizer, é participar da cultura, é muito atraente, né?
E eu acho que quando a gente começou, a gente teve algumas conversas sobre streamers e gente que assiste streaming. E eu acho que eu tinha muito mais preconceito do que eu tenho hoje. Eu achava, eu tava muito ligado numa visão teórica de que jogo é sobre agência, e de que se você não tá interagindo e você não tá tomando decisões, você não tem agência mínima com o jogo, você não está jogando. E aquilo é pior, não é que você não tá jogando, é que não faz sentido.
Vai assistir um filme. A minha lógica era: por que você tá assistindo alguém jogar jogo de videogame? Vai assistir um filme.
Esse episódio chama Meu Tesão é Assistir, e a gente precisa de refazer.
Eu acho que mudou muito, mudou muito. A cultura streamer mudou muito, mas eu acho que a nossa opinião sobre isso também, porque assistir alguém jogar não é ter agência, mas é participar da cultura do jogo.
Exato.
Ver alguém tomar uma decisão é ainda assim saber que existe uma decisão. Sim, é ainda entender que existe agência, mesmo que seja de outra pessoa.
Exatamente.
Não é a mesma coisa que assistir um filme, obviamente, né?
Você tá vendo alguém decidir ali em tempo real, mas é fascinante do mesmo jeito.
Exato, tem seu fascínio. É outro jeito em que o jogar acontece, assistindo outras pessoas jogarem.
Exato, é totalmente, né?
E que a gente já fazia, já acontecia lá naquelas locadoras que alugavam consoles por hora, que era muito comum de videogame. Você fica lá por perto e você vai assistindo as pessoas jogarem.
O fliperama era um ambiente lotado por 200 tipos de pessoas diferentes, mas a maior parte dessas pessoas tava lá para só para ver, porque é caro, você não consegue jogar tanto no fliperama, você fica comprando ficha, é meio inacessível. Então você fica ali, você fica escutando a musiquinha dos jogos e fica só olhando de canto todo mundo jogando. E às vezes você descola até ajudar alguém e joga um pouquinho, mas sempre tem essa Essa chepa do fliperama é real, assim, é muito, muito forte.
As pessoas querem participar sem jogar, é totalmente jogar. Não jogar é jogar também.
Perfeito.
A gente tava falando de uma coisa um pouquinho mais cronológica, de jogar como brincar e jogar como tá junto e na locadora e fora da locadora. E aí tem uma questão cronológica muito legal que é muitos dos primeiros videogames não eram videogames, eles eram computadores. Tanto lá os computadores de 8 bits do MSX, o Commodore 64, ZX Spectrum, como depois os PCs mesmo, né, a partir do comecinho dos anos 80. E jogar inevitavelmente significava lidar com aquele trubisco de plástico e silício que você tinha, que tava na tua mão.
Você tem que saber usar a máquina, saber usar a maldita máquina.
O quanto de tempo que a gente gastou com coisas que não eram exatamente jogar, mas que estavam envolvidas no videogame?
Fazer funcionar, simplesmente isso.
Porque é, né, é um constrinte impossível de pular, a barreira física do próprio, da própria tecnologia.
Eu te amaldiçoo todos os dias por me colocar numa situação em que eu tinha que pegar fitas cassete de MSX botar naquela porcaria daquele leitor de fita cassete, e aí botar para rodar e fazer nada, esperar 10 minutos e o jogo não carregar, e tentar entender por que que não está carregando. Fazer funcionar o jogo, aparecer, já era um inferno.
Porque o lance é o seguinte: uma vez já que funcionou, eu já vi funcionar, já vi funcionar, aí não funciona, aí funciona de novo. O que tá acontecendo? É aleatório?
Eu sabia alguns jogos apareciam, outros jogos não apareciam.
É que a fita magnética é um lance. Vamos conversar sobre a ontologia da fita magnética. A fita magnética é uma contradição em si, assim, porque ela é um meio analógico que você tá usando para guardar dados, sinais digitais. Eles não são digitais no jeito como ele é comportado numa fita, porque a fita é analógica. O que ela tem é só ondas. E a palavra analógico significa literalmente é parecido, não é igual, é por analogia, é próximo.
Só que você tá gravando ali coisas que não são próximas, são exatas, que são sinais 0 e 1 do código binário dos programas. Então você tá fazendo uma conversão de coisas que são aproximadas com coisas que são discretas, precisas, singulares, zeros e uns.
Você tem que fazer uma marca na fita que ele entenda como um som, e esse som tem que ser entendido como um 0 e 1.
São muitas camadas, muitas camadas. Então o cara, ele, o software lá e o hardware do computador transforma os zeros e uns em sons. Esses sons estão imprecisos e gravados numa fita cassete. Aí eles são lidos imprecisamente também como som pela, pelo leitor, que vai converter, que o computador vai ter que converter isso para sinais assim, a fita cassete, ela é uma, é um treco de plástico com material magnético em cima. Aquilo no calor aumenta um pouquinho, diminui um pouquinho.
Ele com a oscilação da linha elétrica faz girar um pouquinho mais devagar, um pouquinho mais rápido.
E fora que assim, ele é um material muito maleável, muito, e que tem que ser emaranhado e desemaranhado com frequência, assim, muitas vezes, toda vez que você usa, né? Então vai, vai Tem vários casos.
Quando você escuta música, a música é analógica por definição. Você tá escutando ondas sonoras, não são digitais, são analógicas. Tanto que o CD ou Spotify tem que fazer o processo contrário, né? Ele transforma bits em sons, né? Ele faz o contrário, né? E aí a gente não percebe que distorce um pouquinho, que mexeu um pouquinho. Só que o computador é mais sensível, ele sabe, não tá certo. Daí caga o teu jogo, entendeu?
É, às vezes uma coisa, né, um som que ele entendeu errado, já era o jogo.
Pronto, já errou o jogo.
Mas assim, a gente ficava tentando entender como funcionava, e isso envolvia saber escrever códigos no terminal, saber ver se uma placa de vídeo tava funcionando, né, e depois nos PCs, né, instalar atualizações, tentar instalar às vezes manualmente um hardware, né.
Quantas vezes a gente não teve que trocar o computador?
Trocar. Eu lembro de você desesperado lá quando uma vez queimou um processador, tipo teve que ir lá passar pasta térmica. Sim, a gente dava um jeito. Por quê? Por que que me deixavam? Eu só tinha 6 anos. Mas aqui na prática, assim, não é um meme, eu só tinha 6 anos. Como é que eu vim parar aqui? Eu só tenho 6 anos. Eu tinha 6 anos. Quem me deixava abrir um computador e ficar mexendo nos componentes? Mas assim, deixavam porque os adultos não faziam ideia do que tava acontecendo.
E eu era o único interessado, era eu que queria fazer aquilo funcionar. Se não funcionasse, não jogava.
Ninguém ia fazer por você, né? A gente aprendia a fazer isso.
Eu vi recentemente um vídeo de um pai com um filho, acho que de 12 anos, e o pai tá fazendo pergunta sobre como é que o filho usa o celular. Então ele quer saber do tipo, como é que você, qual atalho você usa, onde é que você clica, como é que você mexe no seu fundo de tela, você mexeu essas configurações, você mexeu aqui na sua tela inicial, o que que você escolheu? É muito legal descobrir como é que é o uso de um adolescente, muito interessante.
E acho que a coisa mais importante é: eles não sabem como funciona, eles não sabem configurar nada. Ele sim, ele tem lá uma, um widget com ações da bolsa que fica aparecendo para ele. Ele tem 12 anos, ele não tem bolsa, ele tá lascando com a bolsa, mas assim, tá lá e ele nunca soube como tirar da frente.
Ficou, só ficou.
A nossa questão era mais drástica, porque se você não tirasse o negócio da bolsa, se você não consegue conseguir se mexer em alguma coisa específica, o jogo não rodava. Então a gente tinha que aprender a mexer como necessidade para jogar.
Isso, tudo era muito, exato, e era tudo muito mais complicado pelo fato de que a gente não tinha acesso aos jogos originais de computador, era uma pirataria que isso adiciona camadas de complexidade. Tem que, você tem que aprender compactar e descompactar os arquivos do RAR, do ARJ, sei lá do quê, do ZIP. Você tem que saber fazer o crack, hack, tirar a proteção de cópia do jogo.
Computador funciona de um jeito em um e de outro jeito em outro.
E aí, quando você compra o jogo na loja, na caixinha, na big box, vem lá o manual que fala o computador tem que ter isso, que a placa sound blaster, não sei o quê. Quando é pirata é qualquer coisa, você não sabe. Então tipo, você vira o monstrinho do computador por causa do videogame.
Exato, você começa a consertar computador pra família. Mas por quê? Porque eu queria jogar.
Eu aprendi pra jogar e aí agora faço tudo com isso.
E é curioso, tipo, é jogar também, né? É o pré-jogo, ele é jogo.
Eu preciso dizer que por muito tempo na minha vida isso era mais legal pra mim do que o jogo. Saber fazer o FIFA funcionar, o do ano. O FIFA do ano é um mistério. Você tem um computador que já tem uns 3 anos, aí você compra o FIFA do ano. Compra assim do tipo, pede para o amigo copiar o CD lá. Aí chega, eu fico, você vai jogar ou não? Vai rodar? Aquilo vai rodar? Não sei. Aí sabe Deus, né, se eu tenho que comprar mais memória, eu tenho que comprar uma outra placa de vídeo.
Enfim, todo mundo era especialista em placa de vídeo, né? Sabia as marcas, as Matroska e as não sei o quê.
Era necessidade. Mas assim, isso não quer dizer que não seja, que não possa ser divertido. Eu acho que para mim era mais sofrimento do que diversão.
Eu me divertia muito.
Então tem gente que gosta de aprender regras de jogo de tabuleiro, não joga o jogo de tabuleiro. Tem gente que gosta de ficar estudando livro de RPG, é verdade. Tem muita gente que estuda mitologia de uma série e não tem nunca interesse em assistir essa série, né? Então acontece, faz parte, né? Tá no universo expandido, né, do jogo. Sim.
Quantas pessoas não começaram na informática Esse termo antigo que ninguém usa mais. É verdade, né?
Esse termo já era, né?
Esse termo já era por causa de videogame, por causa de principalmente de jogos nos computadores, muito, né? E o computador era visto como uma entrada meio natural para os jogos por dois motivos. O primeiro é que os pais é que comprava esses equipamentos e eles tinham as necessidades deles. Ah, eu preciso de trabalhar, eu vou botar o Word, sei lá, alguma coisa assim. Então o computador meio que ele tinha essa desculpa: eu não vou, não vai ser só para o meu filho jogar, ele também serve para eu fazer as minhas coisas do escritório.
Não era de verdade, mas a desculpa era bem boa assim. E a segunda é que os jogos você pirateia muito fácil. Então tem um estímulo econômico de você ter um computador em vez de um console. Eu vou comprar um monte de copiar jogo dos meus amigos, é a festa da pirataria. Então vale a pena, não é? Você paga mais aí no computador, mas vale a pena depois. Né? Então muita gente entrou nisso por conta de computadores. Tem que saber usar.
Eu vejo um monte de canais de YouTube que até hoje ficam montando e desmontando computadores dos anos 90, especificamente dos anos 90, esses Compaqs, não sei o quê, dos anos 90, porque é divertido, porque tem esse jogo, tem a nostalgia, claro, mas também tem esse jogo de fazer esses componentes muito díspares funcionarem, sabe? Hoje em dia é muito mais fácil, né, para organizar, né. Os computadores são caixas pretas, né. E aí o computador acho que introduz a gente numa outra questão sobre jogar.
Jogar é habitar, porque conforme o equipamento que você tem, você vai mudando de lugar na casa. Então o videogame, o Atari, onde que ele fica? Na TV. E onde fica a TV?
Na sala.
Aí quando compra um computador Para onde vai esse computador? Lembra da mesinha de computador?
Tinha gente na Casas Bahia, sei lá, que tinha uma mesa, uma bandeja retrátil para você colocar o teclado, né?
E o monitor ficava meio alto assim, num lugar mais alto. Tinha até alguns que tinham espaço para você colocar impressora. E assim, existia as caixinhas multimídia, tinha que ter um suporte para elas.
Existiam famílias, colocava essa mesa do computador na sala, num cantinho assim, geralmente era num cantinho.
Né? Não era perto da TV, era num lugar longe, por favor, longe.
Mas idealmente as pessoas queriam colocar no escritório, no escritório, mas o famoso escritório.
Mas o conceito da casa como escritório não é muito comum. Como muito famoso na época da pandemia, as pessoas que não tinham escritório em casa e que foram obrigadas a trabalhar em casa, elas começavam a trabalhar na cozinha, porque a cozinha tem uma mesa, né? É o único lugar que tem uma mesa. Então as pessoas usavam a cozinha e aí se esforçavam para converter um dos cômodos em escritório. Eu cansei de visitar apartamento para alugar, coisa assim, que tinha um quarto de empregada, a gente chamava assim, hoje não sei como que chama, mas é uma dispensa, é um lugar que fica na área de serviço do apartamento que o cara converte no escritório.
É assim, uma mesa, uma cadeira e uma prateleira.
O cara compra uma mesa, uma prateleira, embute Botia acho que é um verbo defectivo, mas enfim, ele coloca ali no quarto e vira um escritório. É um escritório sem janela, tudo ferrado, porque ele era feito para ser uma dispensa, mas ele é um escritório improvisado. As pessoas não tinham isso nos anos 90, nos computadores. O que era mais comum era essa mesa de computador, esse rack de computador, ir para o quarto de alguém. E aí o jogo mudou, mudava de geografia.
Ele deixava de ser um jogo público na sala, que é um lugar público, é um lugar onde as pessoas circulam. A sala é um campo de circulação na casa. E ia para um lugar privado, o quarto, que geralmente a arquitetura coloca os quartos nos cantos, nos lugares em que não há circulação, nos lugares mais íntimos, os lugares íntimos. E o jogo começa a invadir o lugar íntimo, que é o quarto, o quarto dos adolescentes.
E é claro que isso muda o jogo, né?
Isso muda o jogo. É o simples fato, jogando um jogo estilo Doom com vísceras e sangue espirrando para todo lado na sala, então não rola.
E a gente até falou disso outras vezes, mas a chegada dos jogos na televisão em contrapartida com o monitor muda que tipo de jogo você consegue fazer.
É verdade, né? O monitor, ele tem um, ele é muito disruptivo para os de videogames, porque o monitor e o mouse, né, o monitor fica a poucos centímetros do teu olho, né, a televisão fica a metros do seu olho quando você joga no console.
Dá para ter jogos com muito mais texto, precisão, caixinhas, né, muitas escolhas.
E o mouse como um elemento também de precisão, de você clicar para construir uma cidade, mas também para movimentar a mira da arma e coisas desse tipo.
Exato. E na televisão é claro que você não vai ter isso. Os jogos vão ter que ser diferentes.
Eles têm que aceitar imprecisão.
Exato.
Os jogos têm que ser pensados para serem imprecisos.
É, pelo menos nesse tipo de jogabilidade, que eles podem ser muito precisos em qualquer coisa que dependa de tempo de reação com o botão, né?
Sim. Mas para mira, por exemplo, os jogos têm que ser meio magnéticos assim, os de console da época.
Demorou muito para a gente pensar numa solução para isso, mas é, acho que principalmente os jogos de caixa, texto, escolha, os jogos formato Deus, né, eles são pensados para monitores. Você mudar o local da casa inviabiliza alguns jogos.
Exato. E aí você joga no quarto, é um jogo escondido, é um jogo, jogo que não acontece na frente das pessoas. Você pode jogar GTA, por exemplo, no quarto. Não sei se as relações são assim tão fáceis de você, de a gente montar, mas é interessante de pensar o quanto que essas mudanças geográficas do hábito de consumo do jogo afeta o próprio jogo que é lançado. Sim, sim, o GTA nunca seria lançado para um console que joga assim na televisão nos anos 90, no começo dos anos 2000.
Ele tinha que estar no computador, que era a princípio, como ele a princípio e cada vez mais visto como um treco individual.
Isso é individual, não social, para um público mais adulto, no ambiente mais afastado da casa, que fica recluso, né?
Então jogar também é habitar, você ocupa um lugar enquanto você joga, e aí a sala muda, o quarto muda, são coisas diferentes, é bem legal. E um dia chega o jogo que não habita lugar nenhum, ele habita o teu bolso, que é o portátil.
Isso muda também, é porque assim, por mais que um portátil possa ser jogado no ambiente bem privado né, bem recluso, inclusive na privada. Isso, ele também precisa ser jogável no metrô, no ônibus, na fila do banco, na frente de muitas outras pessoas. É, mesmo que a tela não é a coisa mais visível do mundo, você mesmo não consegue, depende do ângulo, né? Mas enfim, ele tem que ser maleável para todos esses lugares. Eu acho que o portátil sempre teve uma crise de identidade justamente por causa da geografia envolvida.
Sim, quais são os jogos que são de portátil? Porque essa é uma coisa curiosa, muito se fala sobre isso, né? Sobre esse jogo tem nesse portátil, mas não é jogo de portátil. Sim, como se existisse um perfil jogo de portátil.
Mas isso, isso é tão— parece que isso é meio instintivo. Por exemplo, o Henk Rogers lá, o executivo da Nintendo, que teve o instinto de perceber que o melhor jogo para lançar o Game Boy era Não Mario, mas Tetris.
O Tetris, por quê? Porque jogo de portátil. Mas o que isso quer dizer?
Nem existia categoria e ele percebeu, ele intuiu isso.
A gente consegue conceituar, mas assim, dá algum trabalho porque é uma coisa meio instintiva mesmo. Mas acho que envolve sessões curtas, poder parar e voltar sem nenhuma dificuldade, principalmente a falta da—
de novo a gente volta para a questão da tela, né?
Tem ter que ser uma coisa que funcione com poucos pixels, assim, com quadrados grandes e tal, que não precisa de muita precisão de visão mesmo, né, de delimitação de objeto. E também precisam ter temas, né, que sejam adequados para todos os ambientes, para consumo público, né, exatamente, para você poder circular por aí jogando.
O Tetris é perfeito, né, e eu sei que são quadrados.
Tem gente pensando assim, gente, Que jogo que você não pode jogar em público, né? Não vai jogar pornozão no Game Boy.
Mas não é isso.
Nos anos 80 e 90, uma coisa como um jogo de tiro em primeira pessoa não rolaria, era considerado extremamente antiético, era uma coisa vista como demoníaca.
O GTA original, que é sobre carrinhos, jogo de carrinho, já não daria, já era considerado, meu Deus, que coisa mais, sei lá, violenta.
É que eu acho que uma senhorinha no banco vendo você jogar o primeiro GTA no portátil, não ia entender nada. Mas assim, ver se o Wolfenstein já ia entender que tem uma coisa muito errada.
É, o Mortal Kombat. Isso, né? Naturalmente, com os computadores vai surgir um outro tipo de sociabilidade que também é igual jogar, que é conversar com as pessoas não na sua casa, nem na LAN, nem no fliperama, nem na locadora. Quer jogar? E conversar pela internet. O jogar online é um outro tipo de jogar também. Estar online é uma espécie de jogo.
É, exato. E até viralizou nos últimos anos histórias muito interessantes sobre grupos de amigos que se encontram principalmente no Fortnite, sim, mas também no Roblox, Minecraft, etc., que se encontram não para jogar exatamente. É claro que eles estão jogando, mas assim O objetivo é que eles estejam lá, eles estejam juntos, eles querem estar juntos habitando o mesmo espaço.
Isso acontece dentro de um jogo, isso, mas não necessariamente há uma regra, uma coisa lúdica assim.
Não necessariamente eles querem cumprir um desafio, vencer um jogo, eles querem só tá lá interagindo e conversando, dando risada e conhecendo outras pessoas até, né?
Eu fico pensando o que que surge primeiro. Por exemplo, eu sinto que muitas das características de como a gente faz interações online são devidas a jogos, a ideia do jogo online, a ideia de você ter um nickname, que você não tem o seu nome, você não pode usar o seu nome no Doom. Ninguém entra lá no Doom e escreve Adriano Brandão, não. Vai ser um nome tipo, sei lá, Destroyer 2428, sabe? Umas coisas assim. Você tem que ter um nick.
Eu me lembro que quando eu fui trabalhar no Provedor de Acesso, no fabuloso Provedor de Acesso Netpar, até os meus chefes, os donos da Netpar, da Provedor de Acesso, jogavam Quake, porque uma das coisas que motivou o surgimento do provedor era jogar em Quake, né? Eles tinham nomes estrambólicos assim.
Claro, tem que ter.
Isso se transferiu também para internet não jogável? Sei lá, quando você entrava no ICQ, as pessoas tinham nomes muito engraçados.
Botar o seu nome de verdade no email ou no ICQ, você tinha que botar o nome de não sei o quê.
Eu me lembro que o nosso primo Bernardo, que a gente cita sempre no Poco Pixel, ele, o email dele era olocomeu@ não sei o quê, tipo UOL, não sei o que tinha na época. Oloco meu. As pessoas não queriam ser elas mesmas na internet. Sabe aquele cartum famoso do que na internet ninguém sabe que você é um cachorro? E tem um cachorro usando a internet. É muito bom, é muito famoso isso, tipo revista New Yorker, sei lá. O cachorro tá usando o computador e aí alguém fala: fica tranquilo, porque na internet ninguém sabe que você é um cachorro.
Perfeito. Então as pessoas não queriam ser elas mesmas na internet, elas tinham que se despedir de si próprias e serem outras coisas. E eu acho que o jogo ensina isso. É a experiência de jogar o Ultima, sei lá, sabe? Alguma coisa assim no Commodore 64. E quem pergunta qual que é o teu nome, o próprio criador do Ultima não usa o nome dele. O Richard Garriott chama Lord British nos créditos do jogo.
Jogar é também interpretar papéis, se fingir outra pessoa, vestir fantasia, ter apelido.
E aí a pessoa na internet, ela não quer ser ela mesma, já que é um ambiente que meio que o jogo molda ela. Quando ela entra no email e aí ela manda currículo para conseguir emprego, o email que tá escrito no currículo é olocomeu.
Pois é, o que mais tem agora é gente que agora tem 40 anos de idade, mas o email é lindinha123.
Exatamente, tipo, ficou, né? A pessoa não consegue se libertar. O ICQ tinha números em vez de nick, mas mesmo assim as pessoas se identificavam com o nick.
O meu era 92147713.
Jesus do céu, você se lembra do seu ICQ? O meu era 2337, eu acho, uma coisa Começou muito antes. Comecei antes. E mas eu me lembro que as pessoas colocavam nicks em vez de nomes. E no MSN eu acho que não tinha número, era o nick mesmo, né?
Era um, não era seu email do Hotmail?
Era email do Hotmail, provavelmente. É verdade, acho que era email.
Talvez você pudesse pôr um nick em cima que o pessoal usava coisas até que se mexiam. Isso, as pessoas davam uma testada no teclado, tinha muita sujeira.
Mas isso é jogar.
Isso sim, eu acho curioso a gente chegar nesse ponto de que a internet tem muito da experiência lúdica do videogame, do jogo, né? Sim, que é uma espécie de faz de conta também, que jogar também significa vestir uma fantasia e ter um codinome.
É isso, faz parte do jogo, né, da brincadeira, né, dessa mistura de jogo com brincadeira. Ter um nickname na internet tem muito a ver com estar jogando, né? Pra gente terminar, a gente tem que falar daquele jogador que não é visto como jogador, o temível jogador casual. O jogador casual que é temível porque jogar também pode ser, significa não ser nada disso que a gente falou até agora, é porque ele não tá na cultura.
Acho que esse é o grande ponto. E eu acho que o gamer que tá na cultura, ele se ressente de quem joga mas não participa. Da comunidade. Sim, mas sim, eles são jogadores e jogam com alguma frequência. A minha coleção de idosos jogando jogos no celular no metrô, você tira foto? Eu tiro foto, eu tenho agora quase 100 fotos já.
E sim, é muito legal. Recentemente eu comecei uma leva de mahjong por algum motivo, porque as crianças, as crianças é ótimo. As velhinhas estão jogando mahjong.
Gente, não me prenda porque eu fotografo estranhos no metrô, ok?
Não publica.
Exato, entendam que eu faço isso por uma proposta de pesquisa. Eu acho legal ter e vou descobrindo o que que eles estão jogando pelas fotos. E assim, sei lá, os últimos 10 ou 15 idosos que eu fotografei jogando no metrô estavam jogando tudo mahjong.
Olha só, por algum motivo, pegou mais do que, sei lá, Candy Crush.
Isso, Candy Crush é muito comum. Eu tenho muitas fotos de idosos jogando Candy Crush, é muito comum.
Mas assim, é que às vezes não dá para saber se é Candy Crush ou se é algum desses milhões de outros jogos. Qualquer coisa que pareça Candy Crush pode ser desses jogos que parecem que são alguma outra coisa e são Candy Crush.
Eu chamo de Candy Crush e deixa em paz.
Mas isso é porque você não é um gamer de verdade.
Mas assim, Mahjong tá na moda e eles são todos jogadores. Isso também é jogar. Jogar paciência, que eu vejo bastante também, idoso jogando paciência no celular.
Isso já conhecia. Eu sempre lembro de uma história de que uma conhecida que era estagiária de um juiz de primeira instância em Curitiba, e o trabalho dela era: antes do cara chegar, ele tinha que ter o café quentinho na mesa e o Paciência Insider já aberto no computador, porque não conseguia abrir sozinho. Não sei se ele não conseguia abrir sozinho, mas ele precisava de ter o Paciência aberto. E já mostra que a pessoa não se dá o trabalho nem de abrir o Paciência, mas ela quer jogar.
E Isso é jogar, faz parte. Ela quer jogar, o computador tá lá para ela fazer petição, não sei o quê, e jogar Paciência Spider. E tinha que ser a Paciência Spider, não é qualquer paciência. Essas pessoas também são jogadoras, é que elas não são reconhecidas socialmente como jogadoras.
É verdade. E ela preferiu Paciência Spider do que o Paciência normal, já me conta até que tipo de jogador ele é. Sim, porque o Paciência Spider dá tempo para vencer, né? O Paciência normal não, às vezes tem, tem aleatórios de como as cartas saem que não permitem vitória.
E ele quer ganhar, ele quer ganhar, ele quer um puzzle mesmo, né?
Ele quer um puzzle que ele tem a vitória garantida se ele fizer direito.
E aí a gente, eu falei que a gente ia terminar, mas acho que tem mais um ponto que a gente deveria pegar, puxando do juiz velhinho que queria jogar, mas não tinha, não queria, que ele não sabia abrir a paciência, tinha que ter uma pessoa para abrir. Como que é a relação do videogame com a que a gente tem, qual é a nossa idade. A gente vai envelhecendo e a gente vai carregando videogame com a gente. A gente nasceu videogamístico, a gente nasceu numa época que já existia videogame, que era brincadeira de criança muito estabelecida, mainstream, para na nossa época de infância.
A gente vai envelhecendo e carregando videogame. Como é que, como é que é isso? Ou isso é papo para outro Poco Pixel?
É, eu acho que tem muitas camadas em relação a isso, né? Porque assim, existe, talvez fosse o nosso último ato de jogar aqui, que é o jogar mais velho, o jogar adulto, o jogar da terceira idade, sim, e da maturidade, da terceira idade, né? Exato. E acho que é um jogar diferente, mas o que me interessa é que é um jogar normalizado, é o fato de que é comum, de que as pessoas carregam videogame com elas durante toda a vida. Mas eu acho que tem características específicas.
Vamos fazer um programa sobre isso, pode guardar para outro episódio. Fica aí arquivado um programa para a gente fazer sobre como que é a relação da gente com videogame no tempo, como que a gente envelhece não na cidade, mas envelhece no videogame.
Perfeito.
Agora a gente vai fazer uma coisa que é mente jogar, brincar e falar no podcast.
Já sei o que é.
É joguinho de papelzinho, joguinho de papelzinho, joguinho de papelzinho.
Joguinho de papelzinho, joguinho de papelzinho, que eu ouvi dizer assim, dizem as más línguas, que não envolve papelzinho.
Não tem papelzinho de novo porque é uma continuação do jogo que a gente fez no mês passado. A gente jogou no mês passado o 3 Vidas, que era aquele que a gente tinha que adivinhar o jogo de acordo com uma imagem de capa que a IA tirava os textos e tal, e a gente tinha que adivinhar.
A gente via a imagem bruta, às vezes um pouco alterada pela IA, e tentava adivinhar que jogo era. E rolou, sim, rolou, claro.
As regras continuam as mesmas, mas o que a gente vai jogar hoje é o 3 Vidas Musical.
Que parece muito mais adequado para um ponto de podcast. Como que a gente não teve essa ideia antes, né?
Será, né, que a gente não pensou nisso antes?
Ficou aqui descrevendo para vocês imagens.
Foi muito engraçado, foi divertido, foi muito engraçado a gente falando: não, é um morcego, o que que é isso? E aí tinha feito qualquer coisa com aquele negócio e não era um morcego, era sei lá o quê. Mas enfim, agora a gente vai escutar música sem a IA. Não tem IA, é só música. Não tem ar nenhum, é a própria música do jogo. Jogos que são ao mesmo tempo da lista dos mais vendidos, então não tem nenhum jogo bizarro, obscuro.
Perfeito.
E que são de consoles específicos: Atari 2600. E aí lá vem pedrada, né, que raio de música que tem no Atari 2600?
Tem a música do Ele é um Bom Companheiro do meu amado jogo de esconde-esconde.
Tem a música do Spider-Man que eu canto até hoje.
É verdade.
O Atari 2600, o Nintendinho, o Super Nintendo, o Mega Drive, o Nintendo 64 e o Dreamcast.
Fantástico! São muitos consoles.
Vários consoles. Ele vai pegar só os jogos mais vendidos de cada console e vai escolher aleatoriamente uma faixa desse jogo e vai tocar pra gente.
Você sabe, né?
O quê?
Que a gente não tem a menor chance.
A gente não tem a menor chance. Como é que funciona o jogo?
Vai tocar umas músicas.
A gente não vai saber nada. Vai ser ridículo, a gente vai passar vergonha aqui. Mas vai ser legal e... São, por que chama 3 Vidas? Porque a gente tem 3 erros possíveis no jogo. Então quem errar 3 vezes primeiro perde. É isso, simples assim.
E você programou ele para sortear uma música qualquer aí?
Ele é, a base de código é a mesma do 3 Vidas de imagem, só pedi para ele procurar as músicas em vez de imagens.
Fantástico.
E é isso, vamos ver se funciona para na nossa jogabilidade aqui. Vai dar um pouquinho mais de trabalho de edição, mas o outro também eu tinha que caçar as imagens, as imagens. Então, tipo, acho que vai dar tudo certo. Vamos lá, segura na minha mão que vai dar tudo certo.
Quem começa?
É, você começa.
Eu vou começar com essa vergonha. Vamos lá passar essa vergonha no débito.
Vamos passar essa vergonha no débito. Primeira música, vamos lá ver se você reconhece. Ah, ele tem um limite, tá? Ele só toca alguns segundos. Então aqui ele escolheu 5 segundos.
5 segundos?
5 segundos. Deve ser uma música curta, né? Por isso que ele pegou só 5 segundos. Entendi, vamos lá.
Eita!
E aí, que jogo que é esse?
Parecia assim uma levadinha meio swingada.
Isso, acho que o que eu não quero dar dica, mas é muito mais fácil começar a jogar esse jogo pelo console. Quer escutar de novo, por favor?
Eu chutaria que é um Nintendinho.
É o Nintendinho?
O que que você tá chutando?
Não sei, não parece Nintendinho para mim. Eu não vou falar o que que eu acho porque você que tá jogando.
Sim, tem cara de trilha sonora de jogo de plataforma.
É total, né?
Total, né?
Tem essa estrutura, tem jeitinho.
Mas vamos lá, como eu não reconheço a música, eu vou chutar um jogo que eu conheço pouco. Então deve ser Donkey Kong Country do Super Nintendo. Isso, Super Nintendo.
Eu acho que o console, você acertou bem. Você acha que eu acho que tem que caber? Eu acho que soa mais com Mega Drive do que como Super Nintendo, mas vamos ver. Pilotwings 64 do Nintendo 64.
Nossa, bom, mas assim, temos, temos que ser justos de que não é o ponto forte do 64.
É verdade, musiquinha não é legal. Lembra do Super Nintendo, na real, né? Não tem muita diferença entre a música do Nintendo 64 e do Super Nintendo.
Exato.
Os cartuchos não tem memória para colocar música gravada, então é música MIDI mesmo. Muito bom. Uma vida perdida.
Bom, a gente vai tentar 3 vezes, eu vou perder 3 vidas. Tô achando que vai ser assim.
Vamos ver, agora sou eu. 11 segundos para mim. O Maestro Zezinho foi mais bondoso comigo. Vamos lá. Tá, vamos lá.
Claramente um jogo de terror, correto? Não tem como não ser.
E eu acho que pelo jeito do som parece um jogo de Nintendo 64 também. Eu tenho essa sensação.
Você acha que não pode ser um jogo de PlayStation?
Não tem PlayStation aqui na lista, mas podia ser muito um jogo de PlayStation. Parece muito um jogo de PlayStation, né? Mas não, é um jogo de Nintendo 64. 64, eu acho, tá? Vou chutar Castlevania 64. Boa! E assim, vou chutar também, tá? Chuta, não vale nada, mas chuta.
Tem um Q aí de Resident Evil?
Tem.
E aí teria que ser o Resident Evil 2, eu acho.
2 tem no 64. Tá, vamos ver quem que acertou. GoldenEye 007!
Faz muito sentido.
Nossa, passou pela minha cabeça, mas eu fui meio enviesado por você que falou de terror. Mas eu acertei o console.
Era uma cena de suspense só.
É, exato. Tem muitas no jogo, né?
Você cravou que tinha um console.
Eu cravei o 64 e acertei.
Tinha cara de 64.
Uma vida perdida. Segunda rodada do Danilo. 12 segundos pra você, Danilo.
Boa.
E aí, acho que a coisa mais Nintendinho que eu já ouvi na minha vida, né?
Profundamente Nintendinho.
A dica do Nintendinho é muito evidente, até porque não tem o Master System na lista, né?
Não dá para confundir, não dá para confundir, embora sejam jeitinhos diferentes.
E a placa de som do Master System é um pouco diferente da do Nintendinho, mas é jogo de Nintendinho. Que jogo? Tem que ser um jogo bem vendido.
Então essa dificuldade também tem cara de música de jogo de plataforma, né?
Total.
Mas assim, não vai ser um Mega Man, porque eu tô assumindo que a gente reconheceria as músicas dos 6 Mega Mans.
Eu acho que sim. Que jogo que é esse?
Um outro jogo de plataforma. Nossa, não é nem Ninja Gaiden, não é nenhum Mega Man. Mas assim, que vendeu muito. Quais são os outros plataformas que venderam Nintendinho?
Monte, vendeu bastante.
Não é nenhum Super Mario, né? Acho que não parece Super Mario em absoluto.
Imagina, será que é Kirby?
Não saberia dizer, nunca joguei. Não sei nem se vendeu o suficiente.
É porque foi bem lançado, bem no final.
Eu não faço ideia do que chutar.
Eu vou chutar um jogo, não vale para mim, só tô chutando. Micro Machines do Nintendinho. Olha só, muito específico, bastante específico.
Eu vou Vou assumir que minha memória deve ser uma porcaria e é uma música do Mega Man que eu não reconheci.
Mega Man, algum Mega Man, vamos ver.
E aí você tem a caridade comigo.
Sim, Pro Wrestling do Nintendinho. Olha só, é difícil de acertar. É daqueles jogos da série Sports, da capa padronizada, né? Sabe aqueles que tem capa preta tal? E aí tem vários que são jogos de futebol, tênis.
A capa do tênis é bem famosa.
Esse é o Pro Maravilhoso! Duas vidas perdidas, Danilo. Pois é, próximo jogo sou eu. Vamos ver, será que alguém vai acertar alguma coisa? É muito difícil, é muito difícil, mesmo com jogos famosos. Ganhei 12 segundos.
Vamos lá.
Bom, é Dreamcast, é um jogo japonês, é um jogo japonês Dreamcast que não foi dublado e que isso, essa fala entrou na música, na trilha do CD da música, sei lá, que tiraram e colocaram na internet.
Então assim, você tem que pensar quais são os jogos bem vendidos do Dreamcast.
É, então eu só penso no Jet Set Radio, no Space Channel 5 e no Shenmue. Todos eles são jogos muito japoneses.
Puts, é assim, eu não entendi o japonês que ela falou. Não é, não é impossível ser Space Channel 5, pode ser uma cena do Space Channel 5.
Então vou chutar o Space Channel 5.
Mas assim, dos jogos mais, dos jogos mais vendidos, o Dreamcast tem uma série de jogos que mistura robô gigante e relacionamento, que eu não lembro o nome, o nome me foge agora.
Se for, a gente vai descobrir.
Mas é, pode ser, porque assim, são os únicos jogos que venderam bem no Dreamcast, entendeu? Então talvez seja.
Vamos ver. É o Seaman. Mas é que a gente viu o Seaman em inglês na dublagem do Leonardo Nimoy.
Isso, do Spock. Não, eu nunca tinha visto em japonês.
É a primeira vez. Muito engraçado.
A gente não tinha nenhuma chance.
A gente não tinha nenhuma chance. Duas vidas perdidas. Agora é você, sua última vida, Danilo.
Perfeito. Mas Mas porém, todavia, contudo, se eu perder essa última vida, eu tenho que perder também. Você tem que perder também, porque senão aí quem começa tem desvantagem.
A gente empata na derrota. Isso é a Dilma.
Vai todo mundo perder.
Isso. Vamos lá, você tem 4 segundos. Vamos lá, a sua última vida com 4 segundos.
Nossa, que justo!
Muito justo. Vamos lá. Tá, é a música de morte, ou de morte ou de algum high score, sei lá, alguma coisa assim.
É música de fim de fase ou de morte de algum personagem.
É claramente Nintendinho, isso sem dúvida. Vamos de novo.
Não, não tem cara de morte mesmo, não, não tem mais cara de fim de fase.
Tá subindo, não tá descendo. Acho que é fim de fase, mission accomplished, sabe? Isso.
E aí, não é Mega Man, não é Mario, não é Ninja Gaiden.
É, tem que ser um jogo que quando termina faz assim barulho, hein? Esse musiquinha, que jogo seria isso?
Não faço a menor ideia. Adventure Island.
Adventure Island, vamos ver. Tecmo Bowl é o jogo de futebol americano da Tecmo. É um dos jogos mais vendidos de todos os tempos mesmo, é impressionante.
Deve ser o barulho de ganhar o jogo, fazer um touchdown, alguma coisa assim.
Que incrível! 3 vidas perdidas, Danilo, porque não me surpreende? Agora sou eu. Vamos ver, vai que eu acerto essa última, né? Senão a gente vai empatar na derrota. Eu tenho 6 segundos, eu tenho um pouco mais de tempo que você.
Bom, mas deve ser também uma dessas músicas.
Isso, vamos lá. É, é uma música de vencer fases do Nintendinho. Eu acho que é Track and Field da Konami.
É mesmo?
É. Vamos ver.
Nossa, pareceu muito certo disso.
Eu não acho que eu conheça as músicas do Track Field, principalmente do Track Field 2, mas eu não— lembra muito, parece, e tem um jeito da Konami, tem um jeito Konami. É, será?
Vamos fazer assim, talvez você erre e aí perdemos todos. Se for um jogo da Konami, eu te dou a vitória honorária.
Se for um jogo da Konami, vamos lá. É, esse jogo é NES Open Tournament Golf, não é um jogo da Konami, é um jogo da Nintendo mesmo. Mas é um jogo de esporte?
Não, eu já fui generoso com a Konami. Sério, tudo que eu quero, tudo que eu quero nesse momento é saber se algum dos nossos ouvintes, vocês escutaram isso. Algum desses vocês faziam ideia?
Não tem link do post porque é som. Vocês escutaram junto com a gente.
Algum de vocês acertou qualquer uma dessas músicas?
Sério, NES Open Tournament Golf. É claro que é um jogo mais vendido, mas assim, do tipo, eram 3 jogos Nintendinho, né? Veio bastante jogo de Nintendinho.
Veio um de golfe, um de futebol americano, e veio o Pro Wrestling, e um de luta livre. 3 jogos de esporte do Nintendinho.
Exato, porque vende para caramba jogo de esporte nos Estados Unidos, vende muito, muito bom. Jogamos 3 Vidas Musical. Talvez o 3 Vidas Musical tiver tem que ser, sei lá, 9 vidas ou 20 vidas, porque é muito difícil.
Até o acerto, e a gente faz um podcast de 2 horas até acertar.
A gente termina só quando acertar.
Não, por favor, contem pra gente se algum de vocês aí acertou uma dessas músicas.
É muito bom. Se vocês quiserem ter uma palhinha desse gostinho de jogar tentando acertar música de videogame, vão no Musical. É verdade, o musical.app, musical.app. Tem lá um monte de categorias de música para você adivinhar. Uma delas é música de videogame. Tem duas categorias, tem videogames novos e videogames antigos. Você pode escolher lá, é divertido para caramba. Mas os jogos não são esses jogos aí, os mais vendidos, não.
Qualquer coisa.
Só que aí você tem opções, você tem 4 alternativas para você escolher e você escuta mais do que 6 segundos.
É que assim, essa musiquinha de fim, de começo, só tem 6 segundos mesmo. Achei legal, achei legal. A gente tem a música inteira, é isso, mas Se divertiu muito, foi muito legal, foi muito legal, gostei de perder, foi rápido, mas legal.
É isso, esse foi o episódio de setembro. Muito obrigado, Danilo, muito obrigado a todos que escutaram a gente. No mês que vem a gente volta com mais papo novo sobre videogame velho. Valeu, tchau!