Episódios de Petit Journal

China é o alvo do novo tarifaço - Invest 116

05 de junho de 202615min
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Neste episódio do Petit Invest, analisamos a nova rodada de tarifas anunciada por Donald Trump e a estratégia por trás da medida. Mais do que atingir diretamente produtos chineses, o objetivo parece ser dificultar o comércio entre a China e terceiros países, ampliando a pressão sobre cadeias globais de produção e sobre parceiros comerciais de Pequim. Discutimos como essa abordagem representa uma nova etapa da disputa econômica entre as duas maiores economias do mundo.
Também avaliamos as implicações políticas e econômicas desse movimento, incluindo seus efeitos sobre investimentos, comércio internacional, inflação, crescimento econômico e reorganização das cadeias produtivas globais. O episódio explora ainda como diferentes países podem reagir à pressão americana e quais são as perspectivas para a rivalidade sino-americana nos próximos anos.
#China #EstadosUnidos #Tarifas #ComércioInternacional #PetitInvest
Participantes neste episódio2
D

Daniel Sousa

HostJornalista
T

Tanguy Baghdadi

HostJornalista
Assuntos4
  • Comércio China-EUADiversificação da produção para outros países (Malásia, etc.) · Produção em outros países para contornar tarifas americanas · Redução da dependência do mercado americano · Espalhamento da produção chinesa
  • Política de Tarifas de TrumpTarifa como solução para problemas econômicos · Uso de tarifas como mecanismo de barganha · Pressão para que países não comprem produtos chineses · Lógica imperial e unilateral, sem diálogo multilateral · Tarifar é fácil, dialogar é trabalhoso · Trump vê diálogo como fraqueza · Movimento de contenção da China
  • Trade MarketingUso de trabalho forçado como justificativa para tarifas · Objetivo de coibir o trabalho forçado vs. fins comerciais · Justificativas subjetivas para imposição de tarifas · Evolução das justificativas de Trump para tarifas (segurança nacional, protecionismo, trabalho forçado)
  • Globalização e suas contradiçõesCenário acelerado de desglobalização · Forçar países a se integrarem aos EUA ou à China · Imprevisibilidade e incerteza dos EUA sob Trump · Postura linear da China em contraste com os EUA · Impacto do déficit comercial como mecanismo de poder · Aumento da autonomia dos países com diversificação de parceiros comerciais
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TBTanguy Baghdadi

Petit Journal. Inteligência e irreverência em doses diárias. Olá, gente, bem-vindos, bem-vindas ao Petit Journal. Esse é o Petit Invest número 116. Estamos gravando numa live no YouTube do Petit Journal. São exatamente 10 horas e 23 minutos. Da sexta-feira, 5 de junho de 2026. Cá está a dupla de costume, a dupla que você conhece de cor: Tanguy vírgula Obagdadi animado, contente, preparado, revigorado, resiliente, retumbante, descansado, tarifado, muito mais tarifado essa semana, embora essas tarifas ainda não estejam valendo, mas a perspectiva delas não é boa.

E diante disso, o professor Obagdadi segue com insônia, muito preocupado com esse mundo pantanoso e imprevisível no qual estamos inseridos. E tem também Daniel Souza, que é esse que vos fala, Ao longo dos próximos minutos, vamos falar um pouco sobre ambiente de negócios, a dinâmica econômica internacional. Esse é o Pet Invest, espaço de toda sexta-feira do Pet Jornal. Agora, Professor Bagdadia, vejo um email nesse descritivo, no descritivo desse episódio. Para que serve esse email no descritivo? Vamos a isso.

DSDaniel Sousa

Tudo bem, Daniel Souza com S? Vamos lá para o nosso tradicionalíssimo, tradicionalíssimo episódio toda sexta-feira, o Pet Invest. Oportunidade para a gente falar sobre a dimensão basicamente econômica, né? A gente tá aí numa, num período de neotarifaço. Os historiadores já estão chamando assim, Daniel, neotarifaço Donald Trump, a nova onda de tarifas. A gente precisa falar sobre isso. Daniel Souza, muito bem observado, viu? Eu vi que você estudou, deu uma olhada aí, que tem e-mail.

Esse e-mail é uma forma que você tem de entrar em contato com a gente. Se você quiser fazer parcerias com o PetJornal, fala com a gente. Inclusive palestras. A gente tá com a agenda aberta para os próximos 2 ou 3 meses, né, Daniel, para palestra. Se você quiser levar o PetJornal para sua empresa, né, muito é possível que a sua empresa esteja sendo impactada por tudo isso que tá acontecendo no cenário internacional. A gente consegue fazer algo muito direcionado, personalizado para as necessidades da sua empresa, dos seus funcionários, clientes, colaboradores.

Vai ser um prazer estar com vocês. Daniel, Ao longo dos últimos dias, a gente voltou a falar sobre tarifas de Donald Trump, inclusive tarifas sobre o Brasil. Mas aparentemente os Estados Unidos têm um objetivo um pouco maior, que não é exatamente apenas o Brasil, mas a China parece estar no alvo. Você me explica isso, Daniel?

TBTanguy Baghdadi

Pois é, Tanguy, essa é uma camada super importante da decisão que foi tomada pelos americanos essa semana. Como eu disse há pouco, as tarifas ainda não estão em vigor, Mas existe a perspectiva de 12,5% de tarifas sendo impostas pelos Estados Unidos num futuro próximo. E existe uma dimensão que é justamente a dimensão chinesa. Afinal, os Estados Unidos acabam autorizando, com essa decisão, impor 12,5% de tarifas sobre 60 países que continuem importando produtos feitos com trabalho forçado.

E o objetivo, no final do dia, acaba sendo o seguinte: "Se você continuar fazendo comércio com a China, se você continuar comprando produtos chineses, eu vou tarifar você". Essa é uma possibilidade que se abre com essa decisão. E o que isso tem a ver com a rivalidade entre China e Estados Unidos? A gente sabe que uma das alavancas do crescimento econômico chinês nas últimas décadas tem sido justamente às exportações. E os Estados Unidos, quando fazem o tarifácio, acabam tendo a China como objetivo central.

No ano passado, em 2025, não foi a primeira vez, mas ano passado isso ficou bastante claro naquela escalada de tarifas que ultrapassou a barreira dos 140%, porque os Estados Unidos querem reduzir as exportações chinesas para o país, para os Estados Unidos, e consequentemente desacelerar a economia chinesa, impedindo que a China ultrapasse o PIB americano pela taxa de câmbio oficial. O que fez a China diante disso? A China diversificou, aliás, tem adotado aí uma estratégia de diversificação, exportando os seus produtos para outros países e reduzindo a dependência do mercado americano, reduzindo o peso das exportações chinesas para os Estados Unidos.

Nesse sentido, ao construir uma rede de alternativas, a reação vem agora. Os Estados Unidos olha para essa rede e diz o seguinte: eu vou tarifar vocês porque vocês estão comprando produtos chineses, e vocês estão comprando produtos chineses que são produzidos com trabalho forçado, o que acaba na prática sendo uma prática desleal do ponto de vista comercial para com os Estados Unidos.

DSDaniel Sousa

Eu tinha dois comentários para fazer sobre isso, Daniel. Eu queria te ouvir sobre os dois. O primeiro deles é que quando você fala sobre trabalho forçado, É louvável, né? Trabalho forçado é algo muito sério, né? A gente tá falando sobre trabalho muitas vezes análogo à escravidão. A gente tá falando sobre algo muito, muito grave. Agora, a gente sabe também, Daniel, que a maneira pela qual a gente pode interpretar isso também, que é uma instrumentalização de uma pauta muito séria, muito grave, para fins comerciais, né?

O objetivo não é na prática coibir o trabalho forçado, proibir o trabalho análogo à escravidão,, mas sim ter uma justificativa bastante subjetiva muitas vezes, né? Porque você diz que tem trabalho forçado sem pedir qualquer tipo de contrapartida ou algum, com base em algum relatório mais confiável, ou algum tipo de melhora na situação dos trabalhos forçados e tudo, para que você possa retirar aquelas tarifas. Na prática, você ganha uma grande liberdade.

Você veio comentando isso ao longo da semana também, que o Trump, ele vai encontrando maneiras de colocar tarifas. Então, antes era segurança nacional, você usa lá a Seção 232, Em outro momento vai utilizar a Seção 301. Não, mas você é protecionista, eu vou colocar proteções contra você também. Agora já é trabalho forçado. Dessa maneira você vai perpetuando a coisa. E outra coisa, né, o que eu queria te ouvir também é, e parece que isso tem um efeito muito limitado, né, é um efeito muito temporário.

Você vai colocar tarifas para evitar que a China diversifique, em algum momento pode ser que alguém deixe de fazer comércio com a China. Mas agora você não vai deixar de fazer comércio com a China permanentemente por conta de uma tarifa de 12,5%. Talvez valha mais a pena você se adaptar, você se tornar mais competitivo, enfim, você já levar em consideração que essa tarifa existe e continuar fazendo comércio com a China porque parece dar mais resultado no longo prazo.

TBTanguy Baghdadi

Eu concordo com você, Tanguy, 100% nas suas duas considerações. A primeira é uma instrumentalização da questão do trabalho forçado e a segunda é que o impacto tende a ser muito limitado na medida em que muitos países acabam tendo a China como seu principal parceiro comercial. Se a gente pensa no caso do Brasil, do ponto de vista comercial, para a economia brasileira, a China é mais importante que os Estados Unidos. Aliás, a China é muito mais importante do que os Estados Unidos.

É claro que o Brasil não deveria aumentar a sua dependência em relação aos chineses, deveria até diminuir a sua dependência em relação aos chineses, e parece que o Brasil tem trabalhado nesse sentido, de tentar construir uma diversificação cada vez maior, mas, puxa, eu vou parar de fazer comércio com os chineses? Vou reduzir o meu fluxo de comércio com os chineses por conta dessa imposição de tarifas de 12,5%? O ponto, Tanguy, é que a medida americana não proíbe, ou pelo menos não quer constranger, que você venda para a China.

Ela quer constranger que você compre da China. E, nesse sentido, alguns países poderiam potencialmente dizer: "Ih, China, sabe o que é? Vou comprar de outro, vou buscar aqui outros parceiros. Eu posso continuar vendendo para você, China, mas..." "Comprar, de repente, eu posso comprar de outro porque outros países, de repente, podem comercializar comigo." É difícil porque a China tem um volume de produção e uma competitividade em termos de preço muito significativa em inúmeros setores, mas seria ali uma tentativa por parte dos Estados Unidos nesse momento.

É uma tentativa no modelo trumpista, né, Tanguy? É o Trump sendo Trump. É tarifa, tarifa vai resolver, tarifa, tarifa vai resolver. Tarefa esses caras, que eu ganho mecanismo para barganhar com eles. E além de ganhar mecanismo para barganhar com eles, eu pressiono para que eles não comprem produtos chineses. Então é uma outra dimensão, uma segunda dimensão de pressão que eu gostaria de analisar aqui no Pet Jornal. Primeiro, a gente já analisou num episódio anterior, e hoje a gente analisa justamente essa segunda dimensão, essa segunda camada.

DSDaniel Sousa

Agora, eu fico com a impressão de que a China, ela meio que já pensou numa solução para isso antes mesmo dessa segunda camada de pressão acontecer. A gente também já comentou aqui no Pet Jornal outras vezes que o que a China começou a fazer para contornar essas tarifas é começar a produzir em outros países. Então aquele produto chinês, em vez de sair da China para os Estados Unidos, vai começar a ser produzido na Malásia, vai começar a ser produzido em algum outro país da região para daí ser vendido para os Estados Unidos.

Dessa maneira, essa pressão ela fica muito diminuída, né, Daniel? Eu sou, eu sou Brasil, não quero pagar 12,5% de tarifa, né? O que eu faço é eu compro um produto que é chinês, mas que tá sendo produzido em algum outro lugar, ao que a China já começou a montar. Tá certo isso?

TBTanguy Baghdadi

Tá certo. Aliás, num certo sentido, isso já tem acontecido nos últimos meses. Você tem tido aí uma diversificação de algumas fábricas chinesas, um espalhamento da produção chinesa, justamente para contornar tarifas que os Estados Unidos impõem a produtos chineses. E nesse sentido, você pode ter aí um aprofundamento desse tipo de estratégia. Uma vez mais, me parece que essa estratégia do porrete, porque é uma estratégia do porrete, que os Estados Unidos adotam inclusive em relação a muitos aliados, essa lista de 60 países inclui inúmeros aliados dos Estados Unidos, países super próximos aos Estados Unidos.

E aí fica aquela coisa: "Meu Deus do céu, Estados Unidos, você vai ficar me dando paulada realmente o tempo todo? É isso mesmo? Poxa, você deveria me atrair, você deveria construir uma parceria comigo, você deveria combinar o jogo comigo." "Você quer conter a China? Dentro dessa lista tem um monte de países que gostam da ideia de conter a China. Vamos construir uma estratégia juntos, vamos construir uma alternativa." Mas a lógica trumpista de ser imperial, a lógica trumpista de ser unilateral, de não ser multilateral, de não dialogar, de não conversar com ninguém, ela acaba sendo a que prevalece.

E me parece que é uma lógica um pouco preguiçosa também, né? Porque tarifar é fácil, mete a tarifa aí, tá tudo certo. Dialogar, buscar soluções, construir alternativas é algo muito mais trabalhoso, demanda tempo, demanda conversa, demanda diálogo. E me parece também que o Trump muitas vezes considera que o diálogo é uma forma de fraqueza. E ele é muito preocupado com essa imagem dele, particularmente para o público interno americano, de alguém super poderoso, de alguém que faz, acontece, resolve, não de alguém que fica dialogando e se submetendo a escrutínios de organizações internacionais ou a diálogo de países que seriam inferiores, né, inferiores aqui muito entre aspas, aos Estados Unidos.

Nesse sentido, é mais um movimento dessa estratégia americana de contenção da China. Lembrando, a gente até explora isso em palestra de maneira mais aprofundada, explora nas aulas do Petit Cursos, a questão dessa preocupação americana de tentar impedir que os chineses ultrapassem o PIB americano pela taxa de câmbio oficial. E desacelerar o crescimento chinês significa, em parte, reduzir as exportações chinesas. Se as exportações chinesas são cada vez menores para os Estados Unidos, cara, é reduzir as exportações chinesas para outros mercados, para outros grandes mercados.

Então, a gente tem que fazer alguma coisa, tem que correr contra o tempo, tem que impedir que a China continue crescendo da maneira como tá. Vamos puxar o tapete dela, vamos jogar óleo na pista. Um pouco aquela lógica de Corrida Maluca, né, do desenho animado Corrida Maluca. Que você vai ali, de alguma maneira, tentando impedir que aquele competidor se aproxime de você e chegue perto de você. Mas está faltando estratégia para o governo americano, está faltando método, está faltando cooperação com aliados, justamente para que você, de alguma maneira, possa atingir o objetivo que, do ponto de vista americano, é a contenção da China.

Países como o Brasil olham para isso e pensam: "Bom, eu não tenho nada a ver com isso, essa briga é de vocês, vocês briguem aí, gente". Eu quero fazer comércio com os dois, eu quero investimento dos dois. Aliás, eu quero investimento de outros países também, comércio com outros países também. E você briga aí. E nesse sentido você poderia estar adotando uma estratégia um pouco diferente, mas o governo trumpista parte de novo para o seu cacuete das tarifas, que as tarifas vão resolver tudo.

DSDaniel Sousa

E a gente está falando sobre um cenário acelerado de desglobalização. É aquela ideia de fazer com que os países, ao invés de serem profundamente integrados, como aliás as próprias economias dos Estados Unidos e China são entre si, Ainda são muito integrados, né? Apesar de dessa integração tá em déficit, né? Ela tá diminuindo. Mas você acaba, a ideia é tentar forçar os países a se integrarem ou aos Estados Unidos ou a China, contando que os países vão optar pelos Estados Unidos, o que alguns anos atrás era garantido.

Hoje, sei lá, viu, Daniel, pode ter um monte de país aí que vai falar assim, ah, cara, os Estados Unidos, olha que loucura, né? Estados Unidos é muito imprevisível, muito incerto, sei lá o que que vai acontecer nos Estados Unidos. O Trump fica anunciando tarifa o tempo todo. A China não. A China, ela traz uma postura mais linear e tal. Mas os Estados Unidos, eles colocam em jogo a sua posição de liderança, né, a sua cultura que é muito forte, o seu PIB que é muito maior ainda, é muito maior do que o PIB da China.

Ele tenta impressionar os outros países para fazer com que na prática eles entrem numa lógica de integração com os Estados Unidos em detrimento da China.

TBTanguy Baghdadi

Agora, como é que vai integrar com tarifas, né, Tanguy? Se você está tomando tarifas o tempo todo, nesse sentido também me parece um pouco contraproducente. Durante muito tempo, os americanos apostaram que o déficit comercial que eles tinham com muitos países era também um mecanismo de poder, porque, poxa, se você depende tanto do mercado americano, você não vai bater de frente comigo, né? Em múltiplas questões. Na medida em que você começa a depender cada vez menos do mercado americano, porque você está adotando uma estratégia de diversificação, os chineses estão fazendo isso, o Brasil está fazendo isso, o Canadá está fazendo isso, os europeus estão fazendo isso, tem um monte de gente fazendo isso, você começa a ficar um pouco mais livre dos desígnios americanos, mais autônomo no que diz respeito às suas tomadas de decisão em termos internacionais.

DSDaniel Sousa

Daniel Souza, dessa maneira a gente chega ao fim do nosso episódio. Queria agradecer mais uma vez muitíssimo a todo mundo que está aqui junto com a gente nessa sexta-feira, meio do feriado, né? Foi feriado ontem de Corpus Christi. A gente volta na segunda-feira. Na segunda-feira pela manhã nós temos o nosso tradicionalíssimo episódio também, no qual a gente cobre aquilo que aconteceu ao longo do fim de semana. Muito obrigado pela presença de vocês.

Deixo o lembrete: tem um e-mail na descrição desse episódio. Se você quer fazer alguma parceria com o PetJornal, levar o PetJornal para sua empresa, vai ser um prazer, né? Vai ser uma honra. A gente consegue fazer algo bem personalizado de acordo com a sua necessidade. E entre em contato com a gente que a gente conversa. Daniel Souza, nos vemos, um abraço, até a próxima, valeu!

TBTanguy Baghdadi

Tchau, tchau! Petit Jornal, inteligência e irreverência em doses diárias. Acesse www.petitjornal.com.br.