O mundo sonoro debaixo de água.
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Manuel Vieira
- Sons subaquáticos de peixesBioacústica e ecoacústica de peixes · Dactylopterus volitans (peixe falso voador) · Comunicação e reprodução de peixes · Monitorização acústica passiva · Sons de corvinas e charrocos
- Impactos ambientais da poluição luminosaRuído da navegação · Aumento da temperatura das águas · Adaptação das populações de peixes
- Ficcao Cientifica20 mil léguas submarinas · Descrição de vozes de peixes
Viva! Bem-vindos à escuta de mais uma história do admirável mundo da ciência. Já em 20 mil éguas submarinas, Júlio Verne descrevia o concerto de vozes dos peixes.
Citarei também, nestes mares curiosos, exemplares desses peixes da ordem dos acampotrigios e da família dos cianoides. Alguns autores, mais poetas que naturalistas, afirmam que estes peixes cantam melodiosamente.
e que as vozes reunidas de todos formam um concerto que não pode ser igualado por um cor de vozes humanas. Lamento que ao passarmos por eles, não nos tenham proporcionado uma serenata. Ainda não existia a tecnologia para guardar estes sons.
Baleias e golfinhos são os sons mais conhecidos nos mares. Mas o mundo subaquático não é um lugar silencioso. Pelo contrário, é ruidoso, vibrante e complexo, revela Manuel Vieira, investigador do Mare, Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Lisboa. Dedica-se ao estudo da bioacústica e ecoacústica em ecossistemas marinhos.
Com a colaboração do CE3C, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Climáticas, e da ARNET, a Rede de Investigação Aquática, foi um dos cientistas portugueses envolvido no estudo internacional que registou pela primeira vez os sons e os movimentos.
do Dactylopterus volitans, de nome comum, peixe falso voador, por causa das barbatanas peitorais com a forma de asas.
é uma das espécies bentónicas. Quer dizer que normalmente está perto do chão do prato do substrato. No laboratório, Manuel Vieira estudou minuciosamente estes chãos para conhecer o funcionamento dos ecossistemas, como os peixes e outros animais marinhos comunicam, se comportam e se reproduzem.
O nosso laboratório trabalha, já há muitos anos, em desvendar os mistérios dos sons que os corpéis produzem. E, entre isso, também temos feito parcerias com investigadores por todo o mundo, incluindo o Sven Norvatic, que é o primeiro autor deste artigo, é de uma universidade covata. E, na realidade, este estudo surgiu de uma maneira muito oportunística e espontânea. Houve um grupo de cientistas que estava a fazer censos.
para contabilizar essa espécie e outras daquela região. E eles perceberam que os animais estavam a fazer sons quando eles se aproximavam e gravaram com umas câmaras quáticas. Neste caso, eram as câmaras mais comuns que uma pessoa pode ter, que é as GoPro.
E daí ele foi contactado, ele depois nos contactou e fizemos esta caracterização, que se achou que era bastante necessária, porque nunca tinha sido propriamente descrito. Os sons do peixe falso voador foram analisados a partir dos vídeos realizados pelos cientistas no mar Adriático. Fizemos.
a análise destes vídeos, tentar descrever estes sons e depois o estudo também da anatomia. Aí sim foi um trabalho, neste caso até pelo Sven, em que ele capturou alguns indivíduos e depois analisou como é que estes peixes produzem sons e como é que eles até poderão estar percepcionados. São informações valiosas que abrem caminho para mais pesquisas. Nós conseguimos observar que esta espécie produz dois sons diferentes.
quando estão a sentir-se ameaçados, neste caso, a sentir-se ameaçados pelos mergulhadores, e também percebemos que os juvenis, neste caso apenas conseguimos mostrar um juvenil, produz sons diferentes de adultos, o que é bastante interessante e já bastante completo. Usar estes sons como maneira de saber o que é que os animais estão a fazer ou onde é que eles estão, apenas a fazer o que a gente atualmente chama de motorização acústica passiva, ou seja...
colocar um microfone, que é um microfone que nós colocamos abaixo de água, num local para monitorizar o local apenas através das gravações acústicas.
As vozes dos peixes falsos voadores irão enriquecer o catálogo da biblioteca de sons fishbioacoustics.pt e que pode visitar. Há outros sons bastante diferentes. Alguns fazem lembrar patos, outros fazem lembrar quase vacas. Há uma variedade enorme.
de sons produzidos pelos peixes. É um concerto de sons. Exatamente. Nós no nosso laboratório temos geralmente estudado esse concerto de sons. Temos estudado várias zonas em Portugal. Estudamos a zona costeira ao largo da Rábida, a paisagem acústica, que é isso que chamamos de combinação de todos os sons que podemos ouvir numa região da Madeira.
E no Tejo também. E no Tejo temos duas espécies incríveis. Que produzem muitos sons. Uma delas é o charroco. E a outra é a corvina.
E a corvina é realmente uma daquelas espécies que produz, talvez, os sons mais incríveis que se pode ouvir na natureza. Até Júlio Verne escrevia os sons das corvinas no livro 25 de Éguas Sumarinas. Elas fazem um coro todos os dias, mais ou menos ao pôr do sol, em que centenas de indivíduos se juntam. É superior àquilo que se podia ouvir de um coro feito por humanos.
E muitos cientistas já estão a colocar hidrofóres em vários ecossistemas marinhos para registrar esta polifonia. Já devemos dedicar a sua distribuição, mais do que aquilo que a gente já sabe, devemos dedicar o seu comportamento, saber em que altura do ano é que se reproduzem, se estão mais ativos em determinadas alturas do dia.
ou até se perceber como é que reagem a situações de estresse, como a presença de ruídos de barco, que realmente é um fator agora muito importante, esta poluição sonora. Manuel Vieira destaca ainda a grande importância de estudos como este para o conhecimento mais fundamentado sobre o impacto na vida marinha, do ruído da navegação, da poluição e do aumento da temperatura das águas.
Os peixes são muito sensíveis à temperatura da água, eles são animais de sangue frio, e estas alterações na temperatura poderão ter efeitos muito importantes nas populações de muitos peixes. O problema da escada é que está a ser demasiado rápido, então é difícil de adaptarem. Então, realmente, é uma preocupação a muitos cientistas. Como é que isto vai ocorrer e como é que as populações serão afetadas?
50 a 70% de toda a vida conhecida habita nas águas do planeta. E é tudo por hoje do admirável mundo da ciência. Cuidados técnicos de Leão Matos, edição de Ana Paula Ferreira. Fique bem e aproveite os dias.