Claudio Gabriel + Isabelle Nogueira + Paulo Mathias Jr
- Festival de ParrillaBoi Garantido · Boi contrário · Isabelle Nogueira · Chico Paiva
- Situação na BahiaChico Paiva · Salvador · Moreré · Alto mar · Celular
- Naufrágio no Rio AmazonasIsabelle Nogueira · Santarém · Juruti · Rio Amazonas · Tempestade · Sucuri
- TatuagensIsabelle Nogueira · Grafismo indígena · Palha · Touro · Tatu
- Atuação em Casa das Sete MulheresCláudio Gabriel · Mariana Ximenes · São José dos Ausentes · Cavalo
- Astronomia e Navegacao CelestePaulo Mathias Jr. · Sara · Ilha · Touros
- Encontros e ÍdolosLindolfo Monte Verde · Boi Bumbá Garantido · Elis Regina · Bebo de Equilibrista
- Céu estrelado no KilimanjaroFábio Porchat · Kilimanjaro · Frio extremo
- Memórias de infânciaPaulo Mathias Jr. · Irmã · Briga
- Frases para lápidePaulo Mathias Jr. · Isabelle Nogueira · Cláudio Gabriel
Fábio Porchat:E aí, minha gente, eu sou Fábio Porchat e esse é o podcast do meu programa no GNT. Aqui, Que História É Essa, Porchat, eu ouço e conto também histórias curiosas e divertidas da vida das pessoas, seja anônimo, famoso, não importa. O que importa é ter uma boa história. Vem que vem, minha gente! Pode chegar, meu povo terrestre! Ê, boi! Olha aqui, Eu posso me assumir, mostrar meu amor pelo boi Garantido, homenagear o Festival de Parintins, uma das festas mais lindas desse Brasil. Lá, a disputa é entre o Garantido e o boi contrário. Eu vou só dizer o nome do outro boi porque, como eu já virei uma certa pessoa que divulga o festival, eu meio que tenho autorização. Mas não é pra falar esse tipo de coisa, não. Mas tem um tal do Capixoto lá. Mas enfim, a cidade é rachada entre o vermelho e o azul. Mas quem não gosta de uma implicânciazinha, né, de uma rivalidade? Aí na sua casa deve ter, até por coisa boba de repente, até arroz por cima do feijão, né, tem gente que ama coentro e não tem, às vezes essa bobagezinha que dá uma treta no almoço da família. Mas hoje, ah, hoje tá tipo aí na tua casa, tem disputa boa também, é touro de um lado, céu estrelado do outro, barco afundando, e nessa luta quem ganha é você. E pra brincar de boi com a gente, A Queen Anne do Garantido, Isabelle Nogueira! Paulo Matias Júnior! E Cláudio Gabriel! Ê, boi! Vamos embora! Bem-vindos, bem-vindos à Queen Anne! Que é isso? Deixa eu trazer... Atraiu positivo aqui pra gente.
Voz B:Pra cima, hein, Curumim?
Fábio Porchat:Pra cima! Vocês já foram ao Festival de Parintins?
Paulo Mathias Jr.:Não, nunca fui.
Voz D:Também nunca fui.
Fábio Porchat:É tipo ter que ir uma vez na vida antes de morrer. Tenho pena de quem não foi.
Voz B:Tem muito que ir.
Fábio Porchat:É um negócio... Já foram ao Carnaval do Rio aqui? É uma maravilha, né, o Carnaval do Rio? Parintins é 3 vezes mais que isso. Juro, juro, eu fiquei louco com aquilo. Eu fiquei totalmente encantado. O Garantido me tomou, porque tem 2 bois lá. É um lugar mágico. E eu sempre falo do festival de Parintins, porque eu fiquei muito tomado por isso. E já que a gente tá falando de boi, porque a tua história tem mais a ver com mato do que com boi, mas olha quem tem boi aqui, ó.
Voz B:Agora eu quero saber. Sério?
Fábio Porchat:Ele tem boi?
Chico Paiva:Ele tem um boizinho.
Voz B:Eita!
Paulo Mathias Jr.:Não que eu tenha, não que eu tenha, mas...
Fábio Porchat:Como é que é esse encontro bonito aí?
Paulo Mathias Jr.:Cara, rapaz... Isso aconteceu na primeira vez que eu fui. Eu tava começando o namoro com a Sara, minha mulher, que tá aí. A gente foi pros Açores, né, que a família dela lá, eu fui ser apresentado à família dela.
Fábio Porchat:Açores, lá perto de Portugal.
Paulo Mathias Jr.:Exatamente, arquipélago português, né, perto de Portugal. 2 horas e meia de avião saindo de Portugal pra dentro do Oceano Atlântico, assim, né. Então é bem distante mesmo. E eu sou doido com eu gosto de céu, com lua, estrela, essas coisas assim, eu adoro. E, pô, oportunidade boa, porque lá, como tá distante do continente, distante de grandes cidades, não tem aquela iluminação pra atrapalhar a ver o céu e tal, não sei o quê. Eu falei: "Pô, queria ver se um dia a gente viu o céu estrelado, que deve ser legal pra caramba e tal." Só que nunca calhava, porque céu bom é quando tem lua nova.
Fábio Porchat:Quando não tem iluminação nenhuma.
Paulo Mathias Jr.:Não tem iluminação nenhuma, quando... Não tem nuvem e tal. Aí, um belo dia, a gente voltando numa noite lá, eu tava dirigindo, ela falou assim: "Cara, hoje é um dia bom pra gente ver o céu." Aí eu falei: "É mesmo, né? Lua nova, não tem nuvem nenhuma. Vamos pro mato." E aí a gente foi pro mato. O mato lá é distante, mais distante da cidade que tinha lá. A gente foi pro mato e tal, não sei o quê, e tamo na estrada, ela falou: "Pô, entra nessa ruazinha aqui." Aí entramos numa rua do lado da estrada, tinha uma rua sem saída, de terra, de chão batido assim. Aí parou, desliguei o carro, tirei a chave da ignição e, cara, o céu... "O céu é incrível, lindo, lindo, céu lindo." Aí ela falou: "O ruim só é que aqui é onde ficam os touros." Touro?
Fábio Porchat:Aí eu... Avisou um pouco depois, né?
Paulo Mathias Jr.:Mas eu também tava começando, eu não vou mostrar que eu tenho medo.
Voz B:Claro, né?
Paulo Mathias Jr.:Falou: "Ué, esse macho garanhão..." Calma aqui, calma aí também.
Fábio Porchat:"Você chega e é touro? O que é touro?
Paulo Mathias Jr.:Eu pego touro e olha o que eu faço com touro." Aí fiquei ali, mas também não vou sair do carro, porque eu não sou otário.
Fábio Porchat:Aí fiquei ali dentro do carro. Ela tava vendo o céu do carro?
Paulo Mathias Jr.:Claro! Olhando aqui pelo para-brisa.
Voz B:Daqui tá ótimo.
Paulo Mathias Jr.:Nossa, muito bom aqui.
Fábio Porchat:Lindo o céu.
Paulo Mathias Jr.:Aí ela: "Não, mas peraí, mas com vidro?" Aí eu falei: "É, com vidro, não, né?" É mais chato. E eu pensando: "Ela esqueceu", porque pra ela é normal. Eles ali, eles andam... Cara, as vacas passam pela gente, a gente tá de carro, tem que parar pra vaca passar, aquela coisa, tem touro à beça.
Fábio Porchat:Passa muito touro. Bota esse vídeo passando um monte de vaca pra gente entender a quantidade, ó.
Paulo Mathias Jr.:É muita. Às vezes isso acontece direto.
Voz D:É isso.
Fábio Porchat:Olha quanta vaca, realmente é um negócio infindável de vaca.
Paulo Mathias Jr.:Não, lá tem mais vaca que gente na ilha.
Fábio Porchat:Olha só.
Paulo Mathias Jr.:É verdade, é verdade. E aí, tá, eu tava ali e tal, e aí, ah, não posso subir com vidro. Abri o vidro, né, e olhando, falei: muito bonito, você tinha razão, sem vidro é muito melhor. Porque ali ela: não, mas vai ver de dentro do carro.
Voz B:É claro.
Paulo Mathias Jr.:Aí eu falei: porra, mas e o touro? Mas não falei.
Fábio Porchat:O touro ficou em você.
Paulo Mathias Jr.:Claro, pô, eu sei lá. Aí eu falei: é, né. Aí abri a porta, abri a porta do carro, fechei o vidro e, bum, bati a porta aqui, fiquei do ladinho da porta, qualquer coisa, bum.
Fábio Porchat:Fiquei do ladinho.
Paulo Mathias Jr.:E o nosso olho acostuma, né? O nosso olho, quando tá tudo escuro, acostuma. Então eu vi, assim, o mato ali e tal, a estradinha e tal, e o céu... Lindo. Lindo, o céu fantástico. Dá pra ver estrela, planeta, dá pra ver satélite passando.
Fábio Porchat:Pô, parece Deus sentado na nuvem, né? Alô! Como é que tá, querido? Tudo certo? Beleza, hein?
Paulo Mathias Jr.:Exatamente. E aí peguei o celular, vai, vou tirar foto de Deus sentado na nuvem, né? E tô aqui, peguei o celular, e aí quando o celular, mesmo estando tudo escuro, o celular filmando o céu que tá preto e tal, não sei o quê, mas o celular tem uma luminosidade que te cega.
Fábio Porchat:Um pouco, é.
Paulo Mathias Jr.:Te cega um pouco. E eu tô ali aumentando a exposição e tirando sombra pra fazer a luz, a foto sensacional do céu e tal, não sei o quê. Aí ela: "Mas vai tirar com fio?" Tinha um poste do lado do carro e um fio passando assim. Ela: "Ai, com fio não." Eu falei: "É, com fio não." Uma pergunta: ela dentro do carro, né?
Fábio Porchat:Claro! É evidente!
Paulo Mathias Jr.:Ela é de lá!
Fábio Porchat:Ela sabe que é lá. "Vai tirar com fio?" E voltou.
Paulo Mathias Jr.:Voltou, exatamente.
Fábio Porchat:Ela jogava a pista.
Paulo Mathias Jr.:Jogava e... Eu falei: "Não, ela vai mais pra lá." Esse mais pra lá era mais perto de onde estávamos todos.
Fábio Porchat:Sei.
Paulo Mathias Jr.:E eu tirei o celular da frente, já não enxerguei mais nada, Eu tava olhando e falei: "Meu Deus do céu!" Não sabia onde é que tava a carro, onde é que tava a estrada. Falei: "Ah, é mais pra lá." Botei a lanterninha e fui assim com a lanterninha, cheguei no muro que dividia onde estavam os touros. Não que o muro fosse um empecilho pra que o touro fosse... Porque touro lá pula.
Fábio Porchat:Não era o Muro de Berlim.
Paulo Mathias Jr.:Não, era mureta, era muro. E touro lá... Lá tem tourada de rua. O touro pula muro mole. A gente vê vídeo lá de touro pulando pra dentro da casa, as pessoas saem correndo, o touro sai por dentro da porta da casa da pessoa. É isso.
Fábio Porchat:É touro lá pra crossfit. É outro nível de touro.
Paulo Mathias Jr.:Não, é touro com vontade de ser touro.
Chico Paiva:É touro bruto, touro touro.
Voz D:Mas você já tinha visto algum touro ali?
Paulo Mathias Jr.:Ah, caramba, nesse lugar?
Voz D:Não, na escuridão ali não.
Paulo Mathias Jr.:Na escuridão não, mas nesse lugar eu lembrei que já tinha visto. Realmente ali era o lugar onde ficavam os touros. E tô ali, quando eu chego perto dessa mureta, o muro ali tá quebrado. Porque o muro lá, os cerrados são feitos São ilhas vulcânicas e aí eles fazem o muro, as cercas de pedra vulcânica. Eles colocam, empilham assim e tal. E ali tinha desmoronadinho, tava desmoronando. Eu falei: "Meu Deus do céu, só bastava isso. Eu não quero não sei o quê, vou tirar uma foto rapidinha." Botei o celular de novo, ceguei de novo. Niquiço, ela dentro do carro, ela sentadinha, vidro fechado e tudo mais, ela vê um carro vindo na estrada. O carro tava vindo lá, só que ela esqueceu que ela tava numa rua sem saída, que não tinha como o carro vir. Só que ela achou que o carro tava vindo na nossa direção. Aí ela: "Pô, o que que eu vou fazer? Paulinho tá no meio da rua, o carro não vai ver a gente, vai atropelar ele, vai ser chato pra caramba, vou avisar." Ela de dentro do carro, vidro fechado, ela: "Paulinho, cuidado!" Foi isso mesmo, sei lá se é carro. Eu achava que era touro. Eu no meio do nada, desesperado, eu tirei o celular da frente, tava tudo escuro, eu não via mais nada. Eu comecei a— como se um touro fosse me olhar e falar: opa, ele tá sacudindo, não vou chegar.
Fábio Porchat:Assustar o touro, é claro.
Paulo Mathias Jr.:Eu não sabia onde tava vindo e saí correndo para direção que eu achava onde tava o nosso carro, sem ver nada. Eu não sabia se o carro tava a 2 passos, 3 passos, 4 passos da gente. Eu fui correndo, mas assim, com uma velocidade, para onde eu achei que era o carro. De repente, eu, bum, bati num campo de força. Era o nosso carro.
Fábio Porchat:Você bateu no teu carro?
Paulo Mathias Jr.:Eu bati com toda força, que eu não sabia onde tava. Bati no carro, capotei em cima do capô do nosso carro. Caiu do outro lado. E eu falei: "Meu Deus, o touro!" Saí correndo, abri a porta, entrei.
Fábio Porchat:Olhei pra ela, ela tá: "Ah, meu Deus!" Eu falei: "Que que foi?" E ela: "Vamos ter que ir pro hospital!" Eu falei: "Mas por quê?" "Você enlouqueceu!" Ela achou que você tinha enlouquecido?
Paulo Mathias Jr.:Claro, Fábio! Imagina ela dentro do carro, olhos são, olhos dela são. Ela tava vendo tudo. Ela tava vendo o carro, ela tava vendo a estrada, tava vendo eu, o muro, tudo. De repente, ela falou: "Um carro vindo, vou avisar. Paulinho, cuidado!" Eu começo a pular do nada, a gritar, correr no ar, como ela falou, e vir correndo em direção ao nosso carro. "Ele tá doido!" E bati com toda a força, capotando, entrei no carro. "Vamos internar, ele tá doido!" Um idiota, né?
Fábio Porchat:Ela tava apavorada de verdade?
Paulo Mathias Jr.:De verdade. Eu falei: "Mas por que você gritou?" Ela: "O carro tava vindo." Eu falei: "Mas era na estrada." Ela: "Eu não sabia!" E ficou naquilo. Cara, a sorte A sorte foi que eu acertei o capô do carro. Se eu acerto a porta, podia ter batido a cara, arrebentar a cara inteira. Ele ia bater na maçaneta, a minha altura, mas eu ia arrebentar a cara inteira, entendeu? E aí eu fiquei com o joelho roxo. A gente saiu para ver se tinha moça no carro, tamanha força que eu bati lá. E a gente ria, depois a gente foi acalmando, né? Aí a gente ria de madrugada, a gente acordou rindo e tal. Do medo. Ela descobriu que eu tinha medo de touro, por acaso, e ela achando assim, doido, né?
Fábio Porchat:Um doido, um idiota pulando. Pô, Sara, deixa eu falar. Sara tá aqui, minha gente, coisa maravilhosa. Você, sobre o teu ponto de vista, ele, pô, machão, fortão, bacana. Que nível de pinta ele deu? Quando você falou cuidado, ele correu de que ele gritou Cara, de 0 a 100, 100. 100. Pentosa. Você de verdade achou que ele tinha ficado meio...
Voz B:Cara, eu me assustei muito, porque vinha um carro, né? Então eu pensei: "Ele vai ser atropelado." Quando eu falo "cuidado", ele, ao invés de se afastar, ele vem contra o carro com tudo, correndo no ar, completamente louco, e ainda se atropela no carro. Nossa! Ele se atropela.
Fábio Porchat:Ele se atropelou. Isso é lindo de ver. Você não tinha compreendido o que que era, o porquê que ele tinha feito isso?
Voz B:Não, achei que ele tivesse enlouquecido mesmo.
Fábio Porchat:Tô presa nos Açores com esse homem. E aí ele, quando entra no carro, vocês tão apavorados, leva um tempo pra ele te explicar, pra você explicar pra ele.
Voz B:Claro, ainda achei que ele tivesse infartando quando ele entra no carro, né, junto.
Fábio Porchat:Ele tava tão assim mesmo, é.
Voz B:E eu demorei pra entender que o carro não vinha contra a gente. Cara, o carro veio, eu olhei, eu ia rodar a chave, só que ele levou a chave.
Fábio Porchat:Ai, meu Deus do céu.
Voz B:Então não dava pra acender o farol, pensei: "Cara, o carro vem contra a gente?" encontra mim e vai atropelar ele ainda.
Paulo Mathias Jr.:Porque dava uma ilusão de ótica, porque era uma curva, entendeu? O carro fazia isso aqui e virava para lá na estrada. É só que a gente tava do lado, numa rua sem saída.
Fábio Porchat:Foi isso. Maravilhosa! E tão juntos até hoje, significa que é amor verdadeiro. Ai, que maravilha!
Paulo Mathias Jr.:Corajoso, corajoso pra caramba!
Voz B:Ele encarou a força do Touro, né? Ele encarnou o próprio touro, né?
Fábio Porchat:E você vê que no dia seguinte ele quis lá se vingar do touro. Bota o vídeo do touro. Olha ele lá, ó lá, sacaneando o touro. Olha lá o touro lá na casa do caceta. Aí é bom.
Paulo Mathias Jr.:Dia seguinte, dia seguinte, a gente voltou lá para ver o touro.
Fábio Porchat:Ai, que maravilha!
Voz D:Isso é uma maravilha.
Fábio Porchat:Esses céus assim que a gente não tem mais na cidade grande, né? A gente não consegue mais ver o céu assim que é. Eu fui subir o Kilimanjaro, que é uma montanha que tem lá na África. E aí, enfim, quando você tá no meio do caminho, já não há mais luz de cidade nenhuma, então o céu fica exatamente isso. Eu nunca tinha visto um céu... Porque céu, na nossa cabeça, ele é em cima, né? É, o céu tá lá. Só que quando você tá num lugar que não há nada em volta, o céu, ele é do lado. Ele tem céu do lado. Porque o céu começa onde a Terra plana... Aonde a Terra... Aonde a Terra... A gente parou de ver a Terra, tudo isso é céu. Porque geralmente tem árvore, tem floresta, tem montanha, a gente só vê o céu meio daqui de cima. Então lá, eu conseguia ver o céu 180 graus. Ele tava 180 aqui e 360. Então era um negócio... Parecia de mentira. Parecia um planetário, assim. Só que a gente só conseguia ver isso, evidentemente, mais à noitona mesmo. E a gente lá dorme cedo, porque você tem que acordar às 6 da manhã pra começar a escalar, a andada e tal. Então, ia dormir cedo. E faz um frio de -10. E é acampamento. Então, é uma barraca, com sleeping bag, você deitadinho aqui. Só que eu levanto pra fazer xixi. Tem uma coisa que eu odeio na vida, é levantar pra fazer xixi. Você termina, acorda do teu soninho, Pra ir fazer xixi. Só que já é chato fazer xixi na minha casa em Copacabana. Cara... Dentro do sleeping bag, com -10 graus, eu ter que sair da cabana pra ir urinar fora é de você pensar em se mijar. Eu já pensei em me mijar, juro. Eu falei: "Ah, não vou. Amanhã eu lido com isso. Eu me mijo aqui." Depois eu limpo.
Voz B:"Para de aquecer meu corpo." É isso.
Fábio Porchat:Só que tá -10, então assim, quando você sai, você tá com uma roupinha, "Levinha, não vou botar uma roupa." Eu falei: "Eu vou rapidinho." Então, saí. Assim que eu saí, o frio já te consome. O frio te abraça e fala: "Eu vou te levar pro inferno." E eu fui assistir. Só que assim que eu saí, eu me deparei com esse céu que foi o céu mais lindo que eu já vi na minha vida. E era um céu, assim, deslumbrante, de você ficar 2 horas olhando. E era um céu tão forte, tão absoluto, que estrela cadente era normal. Não é assim: "Fica olhando que você vai ver." Não, passava muita, né? Passava uma. Passa outra. Era uma coisa assim meio mágica. Só que um frio puto. Eu de shortinho, camisetinha, -10, e eu aqui pensando: "Meu Deus do céu, mais linda da minha vida, mas eu vou morrer, eu vou morrer." E aí eu fui indo, tentando ir mais devagar. Aí eu fiz meu xixizinho olhando as estrelas, pensando: "Eu só tenho que aproveitar agora, porque eu não vou aproveitar mais." Voltei, e aí parei vendo meu slipzinho bag ali bonitinho, o céu mais lindo do mundo. Eu falei: "Eu nunca mais vou ter isso na minha vida." "Mas eu também não teria meu peru de volta se não entrar." E aí eu entrei...
Paulo Mathias Jr.:É melhor, é melhor.
Voz B:Fez bem.
Fábio Porchat:Muito frio, muito frio. Joyce, Joyce! Ó, você tem essa dada à toro maravilhosa. Faz de novo, como é que foi essa corrida toda?
Paulo Mathias Jr.:Era pra ver se espantava, né?
Fábio Porchat:Isso. Assim.
Voz D:A gente precisa aprender, né?
Voz B:Exato.
Fábio Porchat:Vai ser bem isso. José, cara a cara com o Você é ator. Esse aqui ficou cara a cara com o cavalo, porque a gente, ator, tem que saber jogar nas onze. E andar a cavalo pode ser uma especialidade também.
Voz D:Exatamente.
Fábio Porchat:Ali era o quê? Era Casa das Sete Mulheres?
Voz D:Casa das Sete Mulheres, em 2003, isso.
Fábio Porchat:E tu andava a cavalo?
Voz D:Andava a cavalo. Já fiz vários trabalhos, né? Cuidando de cavalo, já fui veterinário de cavalo de corrida.
Fábio Porchat:Isso em novelas também?
Voz D:É, tudo novela, séries, enfim.
Fábio Porchat:Boa, mas olha só, eu quero que vocês prestem atenção A cena que a gente vai ver agora da Casa das Sete Mulheres, ele é mau, né? Eles vão perseguir as mocinhas.
Voz D:Soldado, o cara mudo, né?
Fábio Porchat:Vai correr atrás de Mariana Ximenes para violar a moça. A cavalo, a cavalo, ele procurando a cavalo. Aí, a cavalo, tudo a cavalo. E se eu disser para vocês que tem um momento dessa cena que não tem cavalo? Como é que foi isso?
Voz D:Então, a gente foi fazer essa parte dessa sequência, que era uma sequência bem grande. Na verdade, sou eu e o outro ator que a gente vai perseguindo, e uma hora elas bifurcam. A Amanda, a outra atriz, vai para um lado, ele persegue ela, e eu fico com a Mariana Ximenez. E a gente foi gravar esse pedaço em São José dos Ausentes, o nome do lugar, um lugar lindo lá no sul. E a gente está o dia inteiro filmando, gravando, com um cavalo. Então era assim, ou era eu em cima do cavalo ou o meu dublê, né? E o cavalo não tinha dublê, né? O cavalo era o mesmo cavalo, né?
Fábio Porchat:Cavalo mais na escala 6x1, né?
Paulo Mathias Jr.:Exatamente.
Voz D:Aí ficamos gravando o dia inteiro, né, cara? Até que chegou um momento, isso aí já era no final da tarde, gravação feita pelo Jaime Monjardim, né? Ele falou: "Bom, agora eu preciso de..." "De um take a mais, né? Preciso só de um take." Uma última ceninha ali. Que é o Cláudio procurando a Mariana Schmidt, que havia se escondido nessa floresta, né? E aí era só isso que ele precisava pra...
Fábio Porchat:Você em cima do cavalo.
Voz D:Eu em cima do cavalo, o corpo todo do cavalo, né? Pegando nós dois inteiros, assim, um plano aberto. E eu ali procurando o cavalo. Só que aí vira-se o dublê, que também era o tratador do cavalo, que ficou o dia inteiro filmando, trabalhando, e aí ele vira e fala assim: "Pô, não dá mais pra trabalhar com o cavalo." Aí o Jaime falou: "Mas como assim? Como assim não pode mais? Como assim? Mas eu preciso desse take." Ele falou assim: "Sim, mas o cavalo já tá nas últimas, porque ele tá com um batimento cardíaco além do seu limite." E aí eu vim a saber que O cavalo, ele não pede arrego, não avisa: "Olha, tô passando mal", não para. E você vai cavalgando com ele, andando, cavalgando, enfim, e ele não para. E é capaz dele ter um infarto.
Fábio Porchat:Ah, ele pode cansar até morrer.
Voz D:Até morrer. Ele não dá nenhum sinal, ele não para, ele continua e pode acontecer isso.
Fábio Porchat:E o técnico do cavalo lá, ele sabendo disso, ele não podia permitir que esse cavalo fizesse mais, senão ele podia morrer.
Voz D:Exatamente. Ainda assim, né, que o Jaime falasse. Mas eu preciso só de um take, é rápido. Ele falou: "Cara, mas é impossível." Aí ficou nesse jogo aí entre o Jaime e ele. "Mas eu preciso do take." O cara falando: "Mas não pode mais seguir com esse cavalo e tal." Aí, no meio disso, eu tô ali esperando pra ver o que vai rolar, eu virei pro Jaime e falei assim: "Jaime, dá licença, eu sei fazer um cavalo." "Olhou para a minha cara e falou assim: 'Como assim, né, cara?'" Eu falei: "Não, porque eu faço um cavalo, fiz um cavalo no teatro, aí depois eu brinco de fazer ele assim na roda de amigos de vez em quando, de repente funciona. Se você fechar, de repente, o quadro..." Aí ele ficou ainda me olhando incrédulo, aí falou assim: "Como é que é esse cavalo aí?" É a pergunta que todos nós estamos fazendo.
Paulo Mathias Jr.:Como é que é esse cavalo aí?
Voz D:Aí eu fiz pra ele.
Fábio Porchat:Vamos ver como é que é isso? Claro.
Voz D:É uma coisa, o cavalo é sempre meio selvagem, né? Quer dizer, nesse caso aí, né? Então a perna vai pra um lado, a cabeça pro outro, procurando a Mariana Ximenes.
Fábio Porchat:Que é como se você estivesse em cima desse cavalo que não existe.
Voz D:Exatamente, procurando ela. Então a perna...
Fábio Porchat:Muito bom. E aí você fez isso para ele?
Voz D:Fiz isso para ele. Beleza, vamos fazer assim.
Fábio Porchat:Vamos ver como é que ficou a cena aí. Olá, olha ele, não tem cavalo.
Paulo Mathias Jr.:Maravilhoso.
Voz B:Não interpretando Nossa, muito bom, parabéns!
Fábio Porchat:Muito bom, ó, tá aqui. Porque corta, olha que interessante. Ó, mostra ele vindo de cavalo, aí que engana, ó. Ele tá no cavalo, ó, cortou. Não tem cavalo! Caraca, senhor. Peraí, mas agora eu quero saber fazer isso. Como é que faz? Você armou aqui.
Voz D:Você arma, aí a perna, ó, a perna é o cavalo.
Fábio Porchat:O segredo é a perna, a perna é o cavalo.
Voz D:A perna é o cavalo e aqui é você. Assim ficou.
Fábio Porchat:Aí vai, aí a perna pode, ela tem vida própria, entendeu? Entendi. Agora procura, procura. Olha, funciona mesmo! Faz um fechadinho em mim, faz um fechadinho em mim para você de casa depois me dizer se você se parece mesmo. É que eu tô segurando uma corda em cada lado aqui.
Voz B:Aqui, ó.
Fábio Porchat:Então aqui tá fechadinho em mim, tô aqui procurando. Aqui o cavalo. Não, mas tem que ter o braço aqui também, né? Será que funciona?
Voz B:Parece.
Fábio Porchat:É sensacional. Aí agora eu queria propor então uma troca. Eu queria ver você fazendo touro e ele o cavalo.
Paulo Mathias Jr.:O pônei, o pônei. Aqui, ó, o meu é mais delicado, ó, ó, ó.
Fábio Porchat:Mas foi pro lado, foi pro lado.
Paulo Mathias Jr.:Aqui, aqui, ó.
Fábio Porchat:Bom cavalo o seu.
Paulo Mathias Jr.:Ó, aqui, ó.
Chico Paiva:O seu é excelente.
Voz D:É aquele cavalo de apresentação, né?
Paulo Mathias Jr.:É equitação, eu faço equitação.
Voz B:O meu trota, ó.
Fábio Porchat:Deixa eu ver o teu touro. Como é que é o touro?
Voz D:Ele espantando, espantando o touro.
Fábio Porchat:É, ele espantando o touro. Foi? Mas foi viado igual. Igual. Maravilhoso. Muito bom, muito bom. Esse é o tipo de boi que você não vê.
Voz B:Diretores já sabem, né? Se faltar cavalo, aqui é o que mais tem, né?
Fábio Porchat:Aqui a gente tem.
Voz B:Inclusive você arrasou no cavalo.
Fábio Porchat:Não, achei que tem uma coisa ali. Uma manga larga bonita. Mas a tua história não tem nada a ver com boi.
Voz B:Nada.
Fábio Porchat:De história aquática, inclusive. E tem história de barco afundando agora.
Voz B:Égua?
Chico Paiva:Não, afundando.
Fábio Porchat:Vem comigo. Então, pera aí. Então vamos do início. Você tava onde, indo pra onde?
Voz B:Santarém, indo pra Juruti.
Paulo Mathias Jr.:Isso é quanto tempo?
Voz B:De lancha. Mais ou menos entre 5 e 6 horas, mais ou menos, pelo Rio Amazonas.
Fábio Porchat:E você já tinha feito esse passeio algumas vezes?
Voz B:Não, não é um passeio, é um trajeto. As nossas ruas são os nossos rios, né? Tava indo normal, de lancha pra lá, como eu fazia sempre, na maioria das vezes.
Fábio Porchat:Não tinha nenhum problema. Você já tinha feito algumas vezes?
Voz B:Várias vezes, era super tranquila. E eu tava indo de surpresa, então ninguém sabia. Então se alguma coisa acontecesse... Eu comecei a criar teorias. Eu tava lendo um livro e o livro falava sobre um momento que o autor tinha passado por um naufrágio, praticamente, né?
Fábio Porchat:Isso não é um bom sinal.
Voz B:Não, não é. Mas só que o dia tava lindo, gente. Sabe quando alguma coisa quer falar que alguma coisa vai acontecer e você: "Não, o dia tá lindo, vamos vibrar alto, vamos vibrar pra cima." E eu tava com uma marmita, eu tinha talher. Aí chegou no meio do rio, o tempo simplesmente fechou. Só tinha duas mulheres na lancha de 70 passageiros, eu e outra. Simplesmente, o dia lindo, maravilhoso, na Amazônia, realmente, às vezes fecha do nada.
Fábio Porchat:Porque chuva na Amazônia não é uma chuvinha. Não. É uma chuva, é um rio muito antes de cair em você.
Voz B:É verdade. E assim, no Rio Amazonas tem assim, o Redemoinho, tem algumas coisas que acontecem, algumas áreas têm profundidade que o rio, por exemplo, tem muito profundo. Então, assim, eu comecei a pensar, falar: "Cara, tá chovendo, mas tá tudo bem." Mas começou uma chuvinha leve. Uma chuvinha leve, começou um vento assim a balançar, né?
Fábio Porchat:"Não, tá tudo bem." E a lancha indo lá.
Voz B:E a lancha indo lá. Aí começou, simplesmente começou a cair um toró, um pau d'água mesmo, assim, que você não tinha boa vibração, minha mana, não tinha mais nada que você emanar pro universo. Caiu um pau d'água, você tem que aceitar. Caiu mesmo o pau d'água, reage, menina, o que tá acontecendo, entendeu?
Fábio Porchat:Você já não tava mais linda, então?
Voz B:Já não tava mais linda, eu já tava cheia.
Fábio Porchat:Já tava cheia de pernique pra dar uma aliviada.
Voz B:Já tava acontecendo. E aí eu falei: "Não, mas tudo bem, não tem ninguém passando mal, não tem ninguém gritando." É porque na hora do desespero você olha pra ver se tem alguém desesperado igual.
Fábio Porchat:Se tá todo mundo bem, você pensa: "Sou só eu." É, o problema tá em mim.
Voz B:E a gente começa a criar teorias pra se enganar. Eu acho que é uma autodefesa, né? Cara, o tempo realmente super fechou. Ficou assim uma escuridão, uma coisa assim absurdamente escura e um vento que balançava muito a lancha. A gente entrou numa onda assim de um banzeiro. O banzeiro são as ondas do rio quando sobe. Que a lancha começou a bater, pow, pow, pow, pow. E a gente batendo assim, ó. Aí eu: "Não, mas tá tudo bem. Não, tá tudo bem." Eu me batendo muito assim, pow, pow, pow. Aí a televisão que tinha começou a piscar. Pow, pow, pow. E todo mundo começou a se olhar.
Fábio Porchat:Aí o desespero chegou.
Voz B:É, mas eu me enganando, não, pô. Tá tudo ótimo.
Paulo Mathias Jr.:Linda se enganando, meu Deus.
Fábio Porchat:Eu já ia estar... Você já tá... Mantendo a chuva. Vou pirar o cu! Olha a Marconda!
Voz B:Não, eu pensei... Eu pensei: "Cara, tá chovendo. Se essa lancha virar, tem muitos bichos aqui no Rio Amazonas. Eu preciso buscar uma forma de me defender. Eu preciso... Cadê a minha faca? Lembra da marmita? Cadê minha faca? Minha faca!
Paulo Mathias Jr.:Preciso tacar minha faca!" Eu te juro.
Voz B:E a lancha trepidona, você...
Fábio Porchat:"Eu quero a minha faca, minha faca, eu quero a minha faca." Mas você achou que se o barco afundasse, o seu problema era matar jacaré?
Voz B:Amigo, eu pensei nisso.
Paulo Mathias Jr.:Claro, claro.
Fábio Porchat:Rango ela.
Voz B:Não, eu pensei numa cobra gigante.
Fábio Porchat:Mas faca da marmita, né?
Voz B:Pois é, com a faca da marmita.
Fábio Porchat:Que mal cortava. Só com a Duralex, né, velho?
Voz B:Que mal cortava. Que mal cortava. Boa, boa, boa, faca, faca, faca. Até que eu segurei a minha faca assim, bem forte, como se aquilo fosse me salvar.
Fábio Porchat:Imagina.
Voz B:E aí a televisão desligou assim, deu um pane de luz dentro da lancha. Boa, apagou toda a luz. Só tinha eu e uma outra senhora. Ela começou a gritar: "A gente vai morrer!
Fábio Porchat:A gente vai morrer! A gente vai morrer!" Aí é que tudo muda.
Voz B:Não, aí eu comecei a pensar: "Não, pô, acho que é só ela. Ela deve ter alguma coisa. Vai estar tudo bem, é só com ela. Ninguém tá sentindo isso." Ela começou a gritar e todos os homens levantaram na mesma hora. Os homens. E começaram a pegar... E começaram a pegar os seus coletes. Todos os homens começaram a pegar os seus coletes.
Fábio Porchat:Mas eles iam fazer o quê? Iam construir outro barco?
Voz B:Não tinha como. E a gente tava numa velocidade, eu acho que o piloto queria tirar a gente daquele momento. Era como se a gente estivesse dentro de uma nuvem, assim, era uma coisa muito surreal, no Rio Amazonas, no meio da Amazônia. Já tava com umas 2 horas de viagem, faltavam ainda 4 horas de viagem. Foi quando a gente entrou em pânico. Aí começou o pouco de vidro que tinha a entrar água dentro da lancha. Do vento começou a entrar água. Aí não teve psicológico, não teve boa vibração. "Mano, minha faca aqui, entendeu? Vai dar tudo certo, vou colocar meu colete, entendeu?" E se a sucuri vier, eu e ela lá no meio do rio e pronto. Se o jacaré vier também, eu vou enfiar o dedo no olho dele, entendeu? Eu vou buscando já técnicas pra eu me defender debaixo d'água, porque é o ambiente dele, o território dele, já tem que estar preparada. Aqui, tô com a minha faca, entendeu?
Fábio Porchat:Você com a faca?
Voz D:Não, com a faca, né?
Paulo Mathias Jr.:Na conta tem uma idade dessa grossura, com aquela faquinha que não corta um bife. Não, mas tá certa, você tá certa.
Voz B:Eu vim fazer me defender. A senhora começou a gritar: "A gente vai morrer! A gente vai morrer! A gente vai morrer!" E ninguém deu colete pra ninguém, não. Tipo assim: "Tá aqui, meu amor, o seu colete." Cada um por si e Deus por todos, meu amigo. "Vai lá, você. Você com a sua faca, eu contra a sucuri daqui, tu daí. E pega o teu colete, que é esse, senão eu vou pegar dois pra mim e tu vai ficar sem o teu." Te juro. Aí eu sou forte, corajosa, mas assim, né, uma sucuri com colete, eu acho que fica mais equilibrado, né, na água. Cara, parece que quando eu peguei o colete, parece que Foi quando assim, o fim do mundo, vai acabar mesmo agora, mano. Todo mundo morrer. Vamos morrer, eu não avisei minha família, eu vim de surpresa. Por que eu fiz isso, cara? Eu deveria ter avisado, pelo menos eu não me despedi de ninguém, sabe?
Fábio Porchat:É porque ninguém nem ia saber que você tinha morrido.
Voz B:Ninguém ia saber. Aí entrei em pânico, aí a lancha entrando água, a mulher gritando muito: "Vamos morrer!" Cara, imagina você estar numa situação dessa e uma pessoa não para de gritar que você vai morrer.
Fábio Porchat:É, usa a faca nela. É, né?
Paulo Mathias Jr.:Acabou, cara.
Voz B:Vamos todos morrer! Todo mundo assim rezando, orando. Foi um pânico e a gente ia contra o vento, sabe? O vento lutava com a lancha assim, uma coisa muito sinistra.
Fábio Porchat:E aí?
Voz B:Gente, chegando na cidade foi quando o piloto decidiu encostar próximo de uma árvore assim pra se esconder do vento. Ele disse: não tem como a gente prosseguir, a lancha vai virar, vai acontecer uma tragédia. A gente precisa estacionar em algum lugar e a gente não tem hora pra continuar. E a lancha desligada, um calor, porque tem que fechar, senão vai entrando chuva. Um calor, começou a dar desespero do calor. Ele parou atrás de uma árvore, estacionou pra gente só conseguir prosseguir na viagem depois. Isso, a gente tinha saído umas 3 horas da tarde. Já era mais ou menos umas 9, 10 horas da noite.
Fábio Porchat:Que que é isso?
Voz B:E aí não tinha celular, não tem sinal, não tinha Wi-Fi dentro da lancha, não tinha nada. E agora, minha família? Que ninguém sabe onde eu tô, que horas são, onde eu tô. Se eu tô com a sucuri, com a faca, ninguém sabe de nada, minha vida. Aí tá, meninas, e eu com a minha faca aqui, ó, tesa aqui com a minha faca dura, entendeu? Gente, um negócio, uma faca mesmo, não sei te explicar. Foi quando a gente foi chegando na beira da cidade, né, passou a chuva, diminuiu muito, a gente já atrasou umas 4 horas, foi diminuindo, foi só ficando aquele sereno e a gente foi passando o Rio Amazonas e aí a gente chegou na frente de Juruti. Quando a gente chegou na frente de Juruti, choveu tanto, gente, nesse dia, mas tanto, que tinha um barco virado na nossa frente. Olha! Tinha virado um barco grande de madeira, um navio, que a gente fala navio, né? E a gente assim, cara, a gente tá pra chegar lá, não é agora que essa lancha vai virar. "piloto, entre em ação". Cara, eu vou te falar, o piloto chorando: "Quero ver minha família, eu preciso ver minha família", em pânico assim. E a mulher gritando: "A gente ainda vai morrer, a gente ainda vai morrer".
Paulo Mathias Jr.:Ela ameaçando o piloto com a faca: "Vamos, vamos".
Voz B:Mas assim, aí eles chegaram. Imagina quando você tá muito perto e você parece que alguma coisa ainda não acabou, sabe? Tem alguma coisa rindo assim, sabe? A sensação de pânico. Foi quando a gente, graças a Deus, conseguiu estacionar. Quando a gente conseguiu estacionar, tinha familiares esperando As pessoas sem conseguir se comunicar, porque não tinha rede de telefone.
Fábio Porchat:E suas familiares estavam apavorados.
Voz B:Apavorados, aguardando, sem notícia da lancha, aguardando as pessoas pra falar com as pessoas, em pânico, aguardando os trabalhadores. E aquela mulher: "Vou morrer, vou morrer, vou morrer!" Ela só estava assim.
Fábio Porchat:Que inferno, senhora!
Voz B:A família dela toda aguardando. Ela começou a chorar, ele começou a chorar, chorou muito. Quando estacionou, ele foi o último a sair. Ele segurou o volante, chorou muito, agradeceu a Deus, começou a orar, porque foi um grande livramento. E aí, a gente, todo mundo saiu e, graças a Deus, ninguém morreu. A sucuri não atuou.
Voz D:Morreu também?
Voz B:Graças a Deus.
Fábio Porchat:Deu certo?
Paulo Mathias Jr.:Deu certo. Graças a Deus.
Fábio Porchat:Amém. Nossa. Quem tá aqui pra contar a história de barco afundado, olha que coisa curiosa, tem muitas conexões hoje, é o Chico Paiva, que estava em Parintins, não tava, não, Chico? Como é que está? E olha aqui, Isabelle, olha que beleza. Olha esse cordão dele.
Voz B:Ai, que lindo! Verdade, recebeu uma grande homenagem na arena.
Chico Paiva:Exatamente.
Fábio Porchat:E é isso, porque eu tava no último festival de Parintins e eu tudo conectou, foi tudo por acaso. Você tava lá recebendo homenagem, né?
Chico Paiva:Tava lá recebendo homenagem em nome da minha avó, Eunice Paiva, né? Que, pra quem viu o filme "Ainda Estou Aqui", da Fernanda Torres.
Fábio Porchat:A Fernanda Torres é a Eunice?
Chico Paiva:É a Eunice.
Fábio Porchat:Que é a sua avó.
Chico Paiva:E que depois do assassinato do meu avô fez um trabalho com povos indígenas e demarcação de terras e tal, superimportante. Aí me chamaram. Dizem que o boi que escolhe você, né? Eu recebi um direct no Instagram do Boi Garantido dizendo: "A gente quer te convidar pra vir aqui." E aí entrei na arena pra receber essa homenagem do João Paulo, que é o amo do boi, né? Que fez os versos em homenagem a mim.
Fábio Porchat:Olha que lindo. Ele tá aqui, por acaso, pra contar uma história de naufrágio.
Voz B:Eita!
Chico Paiva:Caraca! De naufrágio.
Fábio Porchat:Mas aí não foi no Rio?
Chico Paiva:Não, não. Foi na Bahia.
Fábio Porchat:Na Bahia, hein?
Chico Paiva:Indo de Salvador pra Moreré. Eu passei o Réveillon no interior do Ceará e, de última hora, comprei uma passagem de madrugada pra encontrar um amigo que tava lá em Moreré. Ele me indicou o nome de um barqueiro. "Ó, me falaram que esse cara aqui pode te ajudar." Eu falando com o cara, o cara: "Ah, vou levar um pessoal em Salvador de manhã, você pode vir na volta comigo." E aquela comunicação de interior da Bahia, o cara não falava direito que horas ia chegar, eu não sabia direito como ia ser. Você fala: "Nido, como é que tá? Que horas o barco vai chegar? Qual que é o barco? Qual que é o nome do piloto?" Aí o cara, 2 horas depois, responde assim: "Bom dia." Nada mais.
Fábio Porchat:É assim, meu, que é o baile aqui, cara.
Chico Paiva:Aí, no final, consegui pegar o cara.
Fábio Porchat:E que barco era? Era uma lanchinha?
Chico Paiva:Era uma lanchinha, de jacaré, 8 pessoas, assim. Desceu o pessoal, eu entrei, tinham 2 marinheiros, né, que teoricamente eram as pessoas que estavam sabendo o que estavam fazendo. A gente foi e lá, pra você ir de Salvador pra Moreré, o cara embica assim pro... Não é que você vê a Bahia, não é que é o bairro de Guanabara que você vai vendo, ele embica pro alto mar, que você não sabe se vai chegar em Moreré ou na costa do Marfim, entendeu? Você só acredita e o cara: "Não, tô vendo aqui." Eu vi que ele tava sem GPS e o cara: "Tô vendo na bússola aqui, eu sei aonde que a gente tem que ir." Aí, tranquilo, tá indo, você tá controlando, lembra do barco batendo assim, de repente uma barulheira, voando água para tudo que é lado. De repente, quando eu me restabeleci assim, eu olho para trás, o motor do barco tava pendurado, tinha quebrado a parte que apoia o motor. Os dois caras desesperados passando um cabo para um lado, para o outro, vamos salvar o motor, tem que salvar o motor. E eu olhando aquilo, comecei a ver que começou a encher de água assim por trás, e os caras salvando o motor, não sei o quê. Eu falei, gente, só que "Está enchendo de água, não é normal isso." Aí, de repente, os caras olharam: "Pô, realmente vai afundar, não sei o quê. Não, pega as coisas." Aí eu fui pra frente, estava com a minha mala, uma mochila, uma mala... Assim, loucamente, a única coisa que eu lembrei de fazer é que eu estava com uma garrafa de uísque na mochila que eu carreguei a madrugada inteira, estava pesada pra cacete, eu tirei a garrafa de uísque.
Fábio Porchat:Pra poder salvar? Achei que era pra tirar o peso. Não, pra tirar o peso. Pra matar o chorinho. Pra matar o chorinho.
Chico Paiva:É pra tirar o peso. Aí deu, sei lá, menos de um minuto, a gente já estava... Os três dentro d'água.
Fábio Porchat:Afundou mesmo?
Chico Paiva:Afundou. E aí, assim, o colete, um pegou um colete, o outro subiu em cima da almofada, me deu um colete, aí eu agarrado no colete, de repente eu pensei: "Pô, peraí, deixa eu ver." Eu tava com o celular no bolso já, submerso na água. Tirei o celular, tava funcionando.
Fábio Porchat:Olha aí!
Chico Paiva:E aí, tava 10 km da costa e começou a pegar sinal e eu consegui mandar mensagem pro meu amigo que tava me esperando e pro dono da lancha, que é o cara com quem eu tava me comunicando.
Fábio Porchat:E ele respondeu: "Bom dia." É.
Chico Paiva:Quanto tempo você já tava, desculpa, Já tinha umas 2 horas de viagem, 2 horas e meia assim. É, e aí comecei a mandar mensagem pro pessoal, a gente fez até uma pequena conferência, eu e meu amigo dono da lancha, porque estavam os dois me ligando, eu botei outro na ligação, a gente falou.
Fábio Porchat:Isso afundado?
Chico Paiva:Agarrado no colete de um lado e meu celular com a mão pra fora pro outro.
Fábio Porchat:E conversando com os outros dois, como é que é, vamos morrer juntos?
Chico Paiva:Não, os outros dois desesperados. Esperados, era o pessoal mais calmo assim. E aí o cara começou a mobilizar a gente, eu comecei a receber ligação de um, de outro, que tava vindo, que tava procurando, aí a capitania ligando e tal, não sei o quê, e eu lá boiando em alto mar com a mãozinha pra fora, com o celular todo molhado, tentava clicar, não conseguia, sabe aquela dificuldade? E aí enfim, quando a galera começou a fazer muita pergunta, eu mandei imagens pra eles, porque as pessoas não estavam entendendo assim.
Fábio Porchat:Eles acharam que vocês estavam meio...
Chico Paiva:Que tava à deriva, é! Aí começa a mulher da capitania: "Não, mas qual que é o modelo da lancha?" "Qual que é o prefixo da lancha?" "O modelo é H2O." E eu falando assim: "Minha filha, a gente tá aqui boiando no mar, a lancha tá no fundo do mar, a gente tá aqui." Tem que ser o modelo humano, é um rapaz.
Fábio Porchat:Tem que dar áudio dos cristãos.
Paulo Mathias Jr.:Localização, né?
Fábio Porchat:Como é que...
Chico Paiva:Eu mandei localização, mandei localização. E um monte de gente me ligando, número que eu não conhecia, porque mobilizaram várias lanchas. Só que quando você tá lá boiando, as ondas estavam grandes assim. Não é que tava quebrando o mar? Mas então você descia, você não via nada em volta. Quando você tava na crista, você conseguia ver mais ou menos, né, terra ali.
Fábio Porchat:Horizonte.
Chico Paiva:Horizonte, dava pra ver terra. E eu, na minha cabeça, né, a gente que cresceu com a imagem do Titanic, né, o Jack morreu porque o mar era congelante. Eu tava no Mar do Brasil, na pior das hipóteses, eu conseguia ver a terra. Larga tudo, nada, pode demorar 12 horas, vou chegar lá com insolação, com desidratação, mas eu chego.
Fábio Porchat:Mas você não sabia que terra é, já podia ser Angola.
Paulo Mathias Jr.:É.
Chico Paiva:Aí ficamos lá umas 2 horas assim até conseguir chegar alguém, e o cara achou a gente.
Fábio Porchat:Mas cagaço? Ficou com medo real?
Chico Paiva:Cara, eu comecei a perceber o risco que eu sofri na hora que o cara chegou, e eu falei: "Pô, tava na minha cabeça que a coisa, eu nadava." O cara: "Não, Chico, a correnteza tava te levando pra fora.
Fábio Porchat:Você não ia conseguir nadar." Ah, na tua cabeça achou: "Eu dou 3 braçadas!" É!
Chico Paiva:Ia chegar exausto, machucado. "Passar uma aguinha aqui." Aí depois eu fui ver, o "Sherlock" esse que eu tava mandando tava assim, uma linha reta levando pra longe assim o negócio.
Fábio Porchat:Ah, lógico! Porque você foi mandar a localização em tempo real, ela foi.
Chico Paiva:Aí tava 500 metros pra trás. Aí a próxima tava 500 metros pra longe.
Fábio Porchat:E quando chegou, você conseguiu ver? Porque a onda te joga pra baixo e não vê nada.
Chico Paiva:Aí um cara tava passando e vários me ligando: "Você tá vendo uma lancha?" "Tá, eu tô aqui." "Não, você já passou dali?" Já tava fazendo milhões de perguntas. Por sorte, na hora que o cara me ligou, eu subi e vi que tinha uma lancha uns 2 quilômetros. Falei: "Cara, não sei se é você. Se for você, vira à esquerda que você acha a gente." E era o cara. Aí ele conseguiu vir e resgatou a gente, graças a Deus.
Fábio Porchat:A gente tem uns áudios que ele mandou. Bota aí pra gente ouvir.
Chico Paiva:Ninguém ferido, estamos boiando aqui esperando algum resgate. A gente compartilhou localização já com o pessoal que tá em Morro de São Paulo e com vocês aí. Olha lá, os cara boiando, um acordado na hora. A gente tá boiando, tá todo mundo bem, só precisa resgatar. Eu tô com pouca bateria, ficar fazendo essas perguntas.
Fábio Porchat:O desespero. Você tem que se sentir à vontade.
Chico Paiva:Por favor, só segue a localização. Ó, vamos ter um senso de urgência aí, cara. A gente tá aqui há uma hora, a bateria tá no vermelho, vai acabar a qualquer momento.
Voz D:O cara tá com mais calma que a gente.
Chico Paiva:Tamo todo mundo boiando, meu amigo, por favor.
Fábio Porchat:Maravilhoso. Que loucura. Maravilhoso. Muito obrigado. Isso é maravilhoso, porque ele tá assim... A primeira mensagem tá tudo certo, na segunda já é: "Meu amigo, pelo amor de Deus, não seja de urgência, porque os cara tavam tentando fazer uma..." Tô tentando sair daqui, vou buscar o barco, falei com não sei quem, eu, cara, só queria que os cara chegassem.
Chico Paiva:Mandei a localização, tamo boiando, a lancha tá no fundo do mar, só chega logo. Você acha que um resgate...
Fábio Porchat:Também é possível. Deixa eu ver.
Chico Paiva:Olha o bico da lancha lá.
Fábio Porchat:Aquele é o bico da lancha? Lá na pontinha, tá vendo? Chegou aqui. E a terra... Ah, eu entendi. Você olha a terra lá, você acha que tá perto.
Chico Paiva:Você fala: "Na pior das hipóteses..." Claro.
Fábio Porchat:Entendi.
Chico Paiva:Não tá o marcão gelante, você nada, chega lá exausto, desidratado, com insolação, mas chega.
Fábio Porchat:E aí, quando chegou em terra firme, teve um momento que a sua ficha caiu?
Chico Paiva:Quando eu cheguei em terra firme. Não, primeiro quando o cara falou: "Você não ia conseguir nadar." Eu já falei: "Caramba, eu tava contando com isso como plano B." Aí eu fiquei pensando, cara, se... Muito do que você falou também. Se eu não tivesse com o sinal do celular, o meu amigo que tava me esperando em Moreré, a última coisa que ele ia pensar é que afundou o barco. Ele ia pensar: "Oxi, pegou a lancha depois, parou numa praia, encontrou uns amigos, tá almoçando, vai ver o pôr do sol, não sei o quê." Até o cara pensar: "Pô, peraí, aconteceu uma coisa séria", já ia ter virado a noite.
Fábio Porchat:Gente, que loucura isso! Nossa Senhora! Agora, ali na hora, no fim das contas, é um azar, mas com sorte que ele tá vivo. Mas deu sorte também porque tava no Oscar.
Chico Paiva:Tava no Oscar.
Fábio Porchat:Você foi pro Oscar, não foi?
Chico Paiva:Fui pro Oscar com... Também, gente, eu sou uma pessoa normal. Então assim, pra estar em Parintins, na Arena, pra estar no Oscar, pra mim é uma coisa surreal. Eu fui também, né, representando a família quando a gente ganhou. E aí eu tenho os meus... Eu digo que eu fui salvo muito por causa dos meus amuletos da sorte. Colarzinho de Parintins, que eu ganhei lá em Parintins quando eu fui. Aí, até tem uma história muito engraçada. Quando eu fui comprar, o cara falou, né, eu tinha recebido homenagem e depois as pessoas começaram a me reconhecer na rua, coisa que eu não estou acostumado, né? Pra você, você dá dois passos lá junto, mas, gente, eu tinha ouvido dizer que tinha um cara engraçado da Globo que frequentava lá também. Mas eu estava lá, dei entrevista pro Milton Cunha, as pessoas me passando na rua e eu me achando assim, caramba, estou, né, celebridade. Aí eu fui comprar esse colar, Ela se colaram, o cara não quis me cobrar, porque me reconheceu, ele falou: "Pô, você pode tirar uma foto com o meu filho?" Aí eu: "Nossa, eu tô tirando foto com criança agora." Eu tô assim, na crista da onda. Aí tirei a foto abraçado, o cara: "Pô, obrigado e tal, a gente tem muita admiração por você." Eu saí todo feliz, no que eu viro as costas, eu ouço o cara virando pro filho e falando: "Filho, esse é o Fábio Porchat." Ah, não!
Fábio Porchat:Pera aí, bota aqui, deixa eu ver aqui. Uau, uau, uau!
Paulo Mathias Jr.:Falta só naufragar para você.
Fábio Porchat:Só podia ser a gente. Gostei disso, tá vendo?
Voz B:Porque sabem que tu torce por Garantido.
Chico Paiva:Isso foi na festa da vitória, tava lá depois da cidade garantida, aquela euforia toda.
Voz B:Não, um cara assim Nessas características, torcedor do Garantido só pode ser o Panchaco.
Fábio Porchat:É isso.
Chico Paiva:Eu não sei quantas pessoas me pararam achando que eu era o Fábio Panchaco. Algumas me marcaram no Instagram, então eu tenho um conforto de que essas, pelo menos, sabiam o que eu era.
Fábio Porchat:E, ó, o colarzinho do Garantido.
Voz B:Era pra ti.
Voz D:Era pra mim.
Voz B:Era pra ti que era.
Fábio Porchat:Deixa eu pegar de volta. Mas outro colar que deu sorte foi esse indígena aqui.
Chico Paiva:Foi esse aqui, que também nessas andanças, né, representando a minha família no filme, Fui para Amapá, a convite do senador Randolph Rodrigues, e a gente fez uma atividade com os jovens lá na universidade. Tinha uma jovem liderança indígena que falou: "Olha, queria te presentear em nome do trabalho que a sua avó teve com os povos indígenas e tal." Eu, super emocionado, peguei e carrego comigo. E quando eu fui pro Oscar, levei na mala.
Fábio Porchat:Esse colar aqui você levou pro Oscar? Esse aqui tava por dentro. Bota aí. Olha aí. Lá no Oscar, com o colar indígena pra dar sorte. E a próxima foto já é com o Oscar, minha gente! Obrigado!
Voz D:E a sua tia? Obrigado!
Fábio Porchat:Que bom! Deu sorte pro Brasil, só não deu sorte pro barqueiro dele. Maravilha! E agora chegou a hora das perguntinhas do programa. Primeira lembrança que vocês têm da vida?
Paulo Mathias Jr.:Primeira lembrança que eu tenho é com a minha irmã. A gente brigava muito quando eu era criança, ela tem 7 anos a mais que eu, e numa dessas brigas, a gente correndo em casa, eu nunca alcançava ela. E aí, para alcançar ela, eu tinha uma cadeira, umas cadeiras lá em casa, sabe que tem aqueles pininhos em volta? Enfeite de cadeira mesmo. Eu arranquei aquilo dali de madeira, falei: "Agora eu vou te pegar", e joguei nela. A gente morava no terceiro andar do prédio, assim, aí ela baixou, Varou assim a janela, foi lá, embarcou lá na rua, a gente ficou olhando. Aí ficamos amigos na hora, né? "Ih, você é um besteira e tal". Aí ela foi lá pegar, o carro passou por cima, quebrou o negócio. E a gente tem até hoje, meu pai colou com um durex, enrolou, botou, tá lá na cadeira até hoje essa coisinha.
Voz D:Rapaz, é difícil essa pergunta, viu? Mas eu acho que é quando eu tava brincando de zurro lá em casa e eu tropecei e abri pela primeira vez a minha testa. Algumas outras vezes. Mas essa foi a primeira que eu dei de cara, de cara não, de testa aqui assim, ó, na quina de uma gaveta, dessas gavetonas assim de cama, sabe? Aí tava um pouquinho aberta assim. Pow!
Fábio Porchat:Cravou.
Voz D:Pow! Aí minha cara encheu de sangue, hospital. Acho que foi essa aí.
Voz B:A lembrança que eu trago, a gente morava numa casa de madeira, eu, minha mãe, minha família materna, E eu me recordo que eu tinha um gato, eu amava gatos, eu amo animais, felinos, e um gatinho meu morreu. E aí eu muito triste com a minha mãe, nós fomos enterrar o gatinho num pé de abio que a gente tinha. E aí a gente abriu o buraco ali, eu chorando muito, né, um grande caos. "Ai, meu gatinho morreu!" Minha mãe: "Tá bom, filha, agora enterra." "Não, eu não quero enterrar o gatinho, deixa lá, né?" Aí a gente foi enterrar o gatinho. Depois de enterrar o gatinho, eu lembro que a gente pegou o abio pra comer. A gente ficou comendo o abio ali com o gatinho enterrado assim. Sabe o que que é a Bill?
Paulo Mathias Jr.:Sei, a Bill é uma fruta. Não, mas você abriu, abriu ou abriu?
Voz B:Não, amigo, abriu.
Paulo Mathias Jr.:Abriu?
Voz B:É, não, gatinho, né?
Fábio Porchat:Fala mesmo. Abriu para comer, a sensação que deu. Exatamente. Você desenterrou o gato e fez um churrasco.
Paulo Mathias Jr.:Exato.
Fábio Porchat:Abriu para comer. Você pegou a Bill para comer.
Voz B:A gente enterrou o gatinho ali, um grande momento de luto, né? Tadinho deles. Fechou Aí a gente pegou o abio da árvore pra comer, que era nosso. Aí a gente ficou comendo o abio do lado do gatinho que tinha sido enterrado, entendeu?
Fábio Porchat:É, por um segundo toda a plateia falou assim: "Nossa, ela é escrota." Não!
Voz B:Não! Tá doido? Você já comeu abio?
Fábio Porchat:Olha... Não, não. Não consigo. É gostoso?
Voz B:Muito, gruda a boca.
Fábio Porchat:Gruda a boca, é?
Voz B:Fica fechadinho.
Fábio Porchat:Então acho que eu já. Olha aqui. Deixa eu...
Paulo Mathias Jr.:Só que era outro nome.
Chico Paiva:Vambora.
Fábio Porchat:Vamos aqui. Se você tivesse que fazer uma tatuagem agora, aqui, nesse momento, o que você tatuaria?
Voz B:Ah, eu tatuaria um grafismo indígena que representa a palha, que tem um significado de força e de empoderamento. Eu uso muito grafismo indígena no Festival de Parintins, no dia a dia também, e eu acho que eu tatuaria sim um grafismo indígena que traz o significado da palha.
Fábio Porchat:Você é louca. Você?
Paulo Mathias Jr.:Eu não sei o que eu tatuaria. Acho que eu tatuaria um touro.
Fábio Porchat:Um touro! Para poder... Você tinha que tatuar nas costas, porque se ele vem, você aqui, ó. Aqui, ó.
Paulo Mathias Jr.:Aqui assim, entendeu?
Fábio Porchat:Você?
Voz D:Eu não tenho tatuagem nenhuma, né? Porque eu aprendi que... Eu aprendi quando eu fiz teatro, né? Fazer teatro, estudava, que o ator, a melhor coisa é não ter nenhuma marca. Mas hoje em dia, isso aí caiu por terra. Aí eu tava pensando nisso, que eu acho que eu tatuaria uma coisa que eu vi outro dia na internet, que é um tatu fazendo uma tattoo de um tatu num tatu tatuando um tatu.
Fábio Porchat:Gostei desse. Gostei, me perdi um pouquinho, mas achei bonito. Me perdi um pouquinho, mas tá bom.
Voz D:Na verdade.
Fábio Porchat:Na verdade. E falando da tattoo, faz assim. Alguém da plateia quer fazer uma das perguntas do programa pra eles? Temos pessoas. Ela lá em cima e você ali. Vamos ver. Qual o seu nome?
Voz B:Laudijane.
Fábio Porchat:Laudijane?
Voz B:Sim.
Fábio Porchat:Uau, esse nome é mais... É uma mistura de nome de pai com mãe?
Voz B:Não, minha avó que me deu quando eu nasci.
Fábio Porchat:Mas ela olhou e falou: "Tem cara de Laudijane", é isso?
Voz B:Mais ou menos isso.
Fábio Porchat:Que pergunta do programa você quer fazer pra eles?
Voz B:Então, gostaria de fazer pra eles a pergunta que é: com quem vocês gostariam de cantar no karaokê? Ah, essa eu gosto das perguntas. Boa!
Fábio Porchat:Pode ser vivo ou morto. Pode ser a pessoa que baixa no karaokê pra cantar com vocês.
Paulo Mathias Jr.:Cara, karaokê...
Fábio Porchat:Karaokê...
Voz B:Eu gostaria de cantar com um ícone da cultura brasileira, que foi o Lindolfo Monte Verde, mestre Lindolfo Monte Verde, que foi o criador do Boi Bumbá Garantido. Maravilhoso. Ele já faleceu tem muito tempo, eu não era nem nascida. Então, com certeza, me alegraria conhecê-lo. Ele que mudou a diversidade cultural da nossa história. Reacendeu em Parintins essa história toda que a gente conhece do Boi Bumbá através do Garantido. Então, com certeza, ele era um grande poeta também. Me alegraria cantar um karaokê com ele ali nessa pavoagem aí, cara.
Paulo Mathias Jr.:Karaokê, karaokê bom tem que ter evidências. Eu acho que eu gostaria de cantar com uns tãozinho chororó, entendeu?
Fábio Porchat:Claro, ótimo.
Voz D:Eu pensei em várias pessoas aqui, mas eu, homenageando a cantora que eu acho que até hoje é a nossa maior cantora, a Elis Regina. Gostaria de passar essa vergonha cantando com ela no Cadê?
Fábio Porchat:Alguma música específica? Alguma música específica?
Voz D:Ah, o Bebo de Equilibrista.
Fábio Porchat:Bebo de Equilibrista, bonito, bonito.
Voz B:Legal.
Fábio Porchat:E pra terminar, o que vocês querem escrito na lápide de vocês?
Paulo Mathias Jr.:Dizem que a gente nasce, cresce e morre. Vou dar: nasci, não cresci e morri.
Fábio Porchat:Boa!
Voz B:Eu acho que na minha seria, por toda minha história de vida: "Descansa aqui, porém nunca morrerá na memória do seu povo." Eita!
Paulo Mathias Jr.:Podia ser também: "Descansa..." Ai, obrigada!
Voz B:Mas só daqui a 100 anos, tá?
Paulo Mathias Jr.:Claro! Podia ser também: "Descanso garantido." Pode abrir uma funerária, você.
Voz D:Acho que eu boto assim: saio de cena, mas deixo o público com gostinho de quero mais.
Fábio Porchat:Meu povo, nós todos vamos sair de cena e deixando vocês gostando de quero mais, que acabou. Vocês acreditam? Mas semana que vem tem mais, tem mais história. Não sei se um programa físico. Não sei se um programa com touro, com cavalo, com balançadinha, mas um programa com mais histórias divertidas que nem essas para vocês. Até a próxima, minha gente!