Sobre os livros do Vestibular UFSC/IFC 2027
Esse é um episódio de utilidade pública! Vamos falar sobre as leituras obrigatórias para o vestibular 2027 da UFSC/IFC.
A querida Cristiane Roveda me ajuda nessa missão. A Cris é professora de Língua Portuguesa e idealizadora da Todo Saber Educacional. Ela tem graduação em Letras pela Furb e mestrado em Literatura pela UFSC. Além disso, ela é apoiadora do Posfácio desde que esse projeto começou!
Neste ano, foram indicadas as obras:
“Primeiro de abril: narrativas da cadeia”, de Salim Miguel
“Vésperas”, de Adriana Lunardi
“O irmão alemão”, de Chico Buarque
“Eu sou Macuxi e outras histórias”, de Julie Dorrico
“Clara dos Anjos”, de Lima Barreto
“A paixão segundo G. H.”, de Clarice Lispector
“Secos e Molhados”, álbum dos Secos e Molhados
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Ficha técnica:
Produção, roteiro e apresentação: Stefani Ceolla
Edição: BZT!
Stefani Ceolla
Cristiane Roveda
- Análise geral da seleção de obras para o vestibular UFSC/IFC 2027diversidade e representatividade·inclusão de autores indígenas·autores catarinenses·relevância do álbum Secos e Molhados
- Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia de Salim Miguel e o contexto da ditaduranarrador em segunda pessoa·processo de maturação da obra·tortura psicológica·contexto sócio-histórico e cultural
- Eu Sou Macuxi e Outras Histórias de Julie Dorrico e a ancestralidade indígenaautoria indígena·ilustrações marcantes·recontar a história do Macunaíma·descoberta da ancestralidade
- Clara dos Anjos de Lima Barreto e a crítica social no subúrbio cariocaliteratura contemporânea·construção do subúrbio·colorismo e preconceito·representação do masculino problemático
- O álbum Secos e Molhados como obra emblemática da ditaduralançamento em plena ditadura·qualidade estética e literária·glam rock e pop psicodélico·representação de identidade fluida
- Vésperas de Adriana Lunardi e a identidade femininalivro de contos·identidades femininas·impacto da vida na obra·olhar do interior de Santa Catarina
- A Paixão Segundo GH de Clarice Lispector e a jornada de autodescobertadesafio da leitura para adolescentes·caráter religioso e ritualístico·evento da barata e massa branca·fluxo de consciência e complexidade
- O Irmão Alemão de Chico Buarque e a busca por identidademistura de ficção e realidade·personagem autocentrado·uso do subjuntivo e futuro do pretérito·diálogo com o nazismo
Olá, postfaceiras, postfaceiros e postfaceires! Eu sou a Stephanie Ceola e vocês estão ouvindo o Postface Podcast. Esse é um episódio muito importante para gente, um episódio de utilidade pública que é sempre muito procurado e ouvido, o que me deixa muito feliz. E eu chamei a minha mesma amiga que tava aqui no ano passado, Cris Roveda, para a gente falar sobre as leituras obrigatórias para o vestibular 2023. Bibliotecas da UFSC, IFSC e IFC. Cris, seja bem-vinda ao Pós-Fácil.
Olá, obrigada pelo convite mais uma vez. Fico muito feliz de poder colaborar com essa utilidade pública e democratizar aqui a leitura dos livros obrigatórios do Unificado da Coppef.
Já vou dizer desde já que a Cris também tem o canal dela no YouTube em que vai ter um conteúdo ainda mais extenso sobre esses livros que a gente já tem, né, um conteúdo ainda mais completo desses livros que a gente vai tratar aqui. Eu vou deixar o link do canal da Cris aqui no nosso, na descrição, aí vocês podem ir lá e também acompanhar. Eu tô adorando os vídeos, recomendo muito. Vou fazer uma pequena apresentação da Cris: é professora de língua portuguesa e idealizadora do Todo Saber Educacional, tem graduação em Letras pela FURB, mestrado em Literatura pela UFSM.
E é apoiadora do Pós-Fácil desde que esse projeto começou. Te agradeço muito por isso, Cris. Obrigada por também incentivar meu trabalho.
Imagina, a gente tem que se incentivar e aí vai, enfim, né?
Eu vou fazer o mesmo esquema que a gente fez no ano passado. Vou passar aqui pelos nomes de todos os livros, depois uma sinopse de cada um, e aí a gente vai comentando. Primeiro eu vou só dizer os títulos, Cris, e vou pedir para você fazer uma análise geral assim do que esse conjunto de obras representa, significa. Eu particularmente gostei bastante da seleção desse ano. Os livros são— os livros não, as obras, né, porque não tem só livro.
Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia, do Salim Miguel. Vésperas, da Adriana Lunardi. O Irmão Alemão, do Chico Buarque. Eu Sou Macuxi e Outras Histórias, da Júlia do Rico. Clara dos Anjos, do Lima Barreto. A Paixão Segundo GH, da Clarice Lispector. E o álbum Secos e Molhados. Cris, o que que você achou dessa seleção aí?
Eu tenho dois corações com essa seleção, né? Mas assim, são dois corações no sentido positivo, né? Primeiro eu vou falar da parte positiva. Eu acho que tá muito mais rico do que o ano passado. Eu acho que tem uma diversidade bem interessante. A inclusão, por exemplo, do Eu Sou Makuxi, da Trudruá Dorico, eu acho que foi assim sensacional. Inclusive vai continuar para o ano que vem. Acho que é muito importante a gente ler literatura literatura produzida a partir de outras esferas que não, né, o eixo.
Além, claro, da literatura de Santa Catarina, de Salim Miguel, que continuou, né, a gente ainda tá fazendo a leitura. Então eu acho que tem um panorama bem interessante aqui, inclusive de outros aspectos que no ano passado não foram trabalhados, como a questão da representatividade. E não só a representatividade que tá explícita no Eu sou uma cuxi, mas essa representatividade feminina na Clarice, que hoje a gente tem uma outra leitura, né?
Quando eu fiz a graduação em letras, a Clarice era só um romance água com açúcar de mulheres ricas, e hoje a gente já faz uma leitura muito mais contextualizada a partir das desigualdades sociais, a partir da interseccionalidade. Então eu tô muito contente com essa lista, e ainda tem, né, a joia da coroa, né, que é o álbum dos Secos e Molhados, que aí é para gurizada mesmo pirar nessa lista.
Muito bom. E tem a Adriana Lunardi também, que é catarinense, né, do interior. Eu gostei bastante da lista assim também, fiquei bem feliz ver que o Salim continua ali, que não é só um autor catarinense que entrou, porque teve ano que não entrou nenhum e teve depois entra só um e dá uma impressão de que tipo tem que colocar um catarinense ali e não, né, gente. Tem que colocar, claro, mas pensando na qualidade das obras, né, e ter duas ali.
O Salim, que claro que a gente vai considerar a Catarina Enns, e a Adriana. Eu gostei muito, gostei muito de ver o Eu Sou uma Cuxi ali. O Álvaro dos Secos e Molhados achei sensacional que isso aparecesse. E fiquei muito feliz com a Clara dos Anjos também, que talvez seja o meu livro favorito do Lima Barreto. Eu sou encantada pela Clara dos Anjos. Eu gostei bastante dessa lista. Tem um livro que eu não gosto, que é O Irmão Alemão do Chico. Eu não gosto desse livro.
Será por quê? Ai, gente, eu também queria, não me cativou. Então quando chegar a hora dele eu vou.
Tá bom, você quer? Então vamos deixar para fazer os nossos apontamentos negativos conforme a gente for passando pelas obras, né? Aí eu vou para sinopse de cada uma. Então eu peguei ali no site da Biblioteca Universitária da UFSC a sinopse, vou ler, e aí a gente vai comentando, tá? Começando pelo 1º de Abril, Narrativas da Cadeia, do Salim. 30 anos após o golpe de 64, Salim Miguel publicou a narrativa sobre os 48 dias em que esteve detido para averiguações no início da ditadura civil-militar.
O escritor manteve um diário durante o período de sua prisão, no qual registrou as percepções e os fatos ligados à sua detenção no da Polícia Militar em Florianópolis. Trabalhou posteriormente sobre o texto e com isso publicou Primeiro de Abril, título alusivo à data do golpe, o qual foi premiado como melhor romance pela União Brasileira de Escritores em 94. O que que você me diz sobre o Primeiro de Abril?
Bom, primeiro que é uma das obras do Salim que a gente mais gosta, né? Eu não conhecia até o vestibular do ano passado e aí ele passa a fazer parte. Ele tem algumas características de forma que são bem interessantes. Que ali é a questão do narrador em segunda pessoa. Então a gente tem esse narrador que conversa com o autor. Então tem essa transição de vozes, a voz do Salim, que é o autobiografado, a voz desse narrador que diz para ele o que ele tem que escrever.
Há esse processo de maturação da obra que também eu acho bem particular, bem pertinente. Ele não escreve no calor do momento, ele deixa passar um tempo para então poder desenvolver o texto. É uma narrativa que, em princípio, dá um pouco de trabalho para os alunos, especialmente quando, né, vamos considerar que a gente está falando com estudantes de ensino médio em geral, né, são estudantes do ensino médio que têm uma certa dificuldade com a concentração.
Então esse narrador também merece aqui uma atenção especial nesse sentido de estar concentrado e entender qual é a voz narrativa que está ali. Então esse procedimento narrativo por si só já é fantástico e é algo que a prova cobra. Então, considerando ali que apareceu o ano passado e que teve questão, o que normalmente a UFSC cobra? Isso realmente é muito importante que quem está fazendo vestibular considere. Não basta saber o resumo, não basta saber quem são os personagens.
Esse resumão geral, ele até vai te ajudar, mas é preciso fazer a leitura do livro, é preciso encontrar essas chaves. Por isso que a gente está aqui, inclusive. Para dar essas chaves de leitura. Então tem um procedimento estético que precisa ser reconhecido. Então na hora que você tá fazendo a leitura, reconhecer esse narrador é chave para você entender que há um distanciamento daquela cena. E que cena é essa? É uma cena imprevisível, né?
Então o Tadinho, ele não estava ligado a nenhum— isso oficialmente, né, considerando a biografia dele— ele não estava ligado a nenhum grupo político, ele não era alguém que estava militando, mas era alguém que escrevia, que falava sobre a situação do Brasil. E aí, em 1º de abril de 1964, com o golpe cívico-militar, porque é golpe, ele então é detido para averiguações. Então tem algumas palavras ali que chamam atenção. Então esse detido para averiguações é algo que ele vai constantemente retomar, né, que ele não gosta dessa expressão.
O que que é esse averiguar? Eu tô preso? Eu não tô preso? E aí a gente precisa considerar que Alguém que está falando pela coletividade passa por uma situação individual, ser detido para averiguação, mas na verdade ele está sendo preso e ele não sabe por que que ele está sendo preso. Poucas pessoas podem ajudá-lo ou quase ninguém pode ajudá-lo. Ainda ali a palavra perplexidade, que é o que vai denotar também o início dessa narrativa, né?
O que que eu tô fazendo aqui? Por que eu? O que que tá acontecendo? Além da individualidade, eu gosto muito do título, que é Narrativas da Cadeia. Então não é a particularidade, não é só o indivíduo. A gente tem as histórias individuais, mas isso tudo vai formar um todo. Então a gente tem desde o funcionário da Celesc até o escritor. A gente vai passar por várias figuras da cidade e que estão vivendo sua vida e que de repente se veem ali naquele espaço sem ter uma Sem ninguém dizer exatamente o porquê que eles estão ali presos.
Eles mais ou menos entendem por que estão, mas há uma inconformidade. E o Narrativas da Cadeia não é só quem está na cadeia, né? Porque quem fica do lado de fora, então as famílias que acenam, tentam mandar algum bilhetinho, a própria Eglê, que fica sozinha com as crianças e aí precisa fazer a vida, enfim, cuidar daquilo tudo sem saber se o marido está bem, se não está bem. As cenas de tortura, são muito significativas, o passeio, né?
Então quando eles tiram, quando dois soldados, acho que a gente pode falar assim, o retiram dali e o levam para passear encapuzado. Então assim, é um passeio, mas ele consegue reconhecer, mesmo com os olhos vendados, ele consegue reconhecer Ibiguaçu, que é a cidade dele, e ele percebe que ele dá várias voltas, ele vem para ilha, volta para lá. Então Isso é uma tortura. A gente está muito acostumado a ouvir falar de tortura física no sentido de apanhar, de deixar hematomas, de choque, de pau de arara, mas e também há essa tortura psicológica.
Para os meus queridos alunos que vão fazer o vestibular, eu sempre digo para eles o seguinte: essa obra é um conjunto estético, ela é linguístico e ela tem o histórico. Então não é à toa que essa obra vai para o vestibular, não é porque é um autor catarinense, ela tem todos esses aspectos. Então o que é preciso considerar: estético, contexto sócio-histórico e, claro, contexto cultural.
É, eu acho muito bom assim que esse livro esteja no vestibular e também muito relevante a gente pensar que no centenário do Salim, a editora da UFSC está republicando toda a obra dele, né, inclusive 1º de abril. O Salim foi diretor da editora da UFSC, né, entre muitas outras coisas que ele fez. É um grande nome do Grupo Sul, né, que foi um precursor do modernismo aqui em Santa Catarina. O Salim teve por trás do primeiro filme feito em Santa Catarina.
Foi um grande cara, assim, né, uma pessoa incrível. E tem uma coisa que me pega muito, assim, desse episódio da ditadura militar, quando incendeiam a livraria que ele tinha aqui no centro de Floripa, né, Anitta Garibaldi. Já nem era mais dele a livraria, mas ainda assim acho que isso diz muito sobre as pessoas que estavam atacando ele e várias outras pessoas naquele momento. E também me faz pensar muito, e isso eu acho muito bom que essa obra esteja no vestibular, porque não sei você aí em Blumenau, mas eu sou mais do interior, eu cresci muito ouvindo que assim, a ditadura não teve impacto nenhum aqui.
Isso aí foi coisa que aconteceu lá, Rio, São Paulo, Aqui não aconteceu nada. E aí quando a gente se depara com um livro desse, a gente pensa, opa, aconteceu e aconteceu muito, né?
E muito perto. Tem um blumenauense ali naquela lista. E aqui quando eu vou trabalhar com os alunos em sala de aula e eu mostro a lista para eles, eles vão mexer no livro e eles olham a lista. Professora, mas esse é? Sim senhor. Então tá mais próximo do que a gente pode imaginar.
Eu acho importante essa aproximação. E sobre aquilo que você comentou do estilo do Salim, né, de usar a segunda pessoa assim, não é só nesse livro que ele faz isso, mas eu lembro da primeira vez que eu li o Nós, eu acho, né? E foi também quando eu fiz um vestibular da UFSC e que eu me deparei com aquilo dele usar o tu. Meu Deus, eu nunca tinha visto isso aqui antes assim, e realmente é muito raro, né, da gente ver. E o Salim usa isso e não se perde, né, nesse uso da pessoa.
Tem um estranhamento no começo, até para nós, né, professores, enfim, né, porque a senhorita é professora também, né, tem a carteirinha, tem o diploma, tá ali, tá ali. Mas quando a gente tá ali fazendo essa primeira leitura, assim, tem um estranhamento, porque normalmente a gente tem, né, a primeira pessoa ou narrador ou anunciante em terceira pessoa, mas de repente peraí, mas ele tá falando com quem? Quem que tá vindo aqui contar essa história para nós, né?
Mas o procedimento, depois da segunda, terceira frase ali, já funciona e é brilhante.
Aí eu fiquei pensando se não, na prova, se esse livro não pode estar ligado a temas da história, né? Não só da literatura assim, né? Não sei como é que vai aparecer, mas é possível, né?
O que acontece assim, ó, como é que eles colocam, como é que a Copera faz essa marcação, né? Então normalmente aparece um trecho da obra e mais um outro elemento. Então uma charge, uma tira, enfim, até print de WhatsApp aparece, né, como se fosse— agora me embananei toda— como se fosse uma brincadeira, né. Então a gente teve, por exemplo, na última prova, que era o grupo dos modernistas. Então tava lá o Oswald, o Mário, a Tarsila.
Então esse tipo de linguagem, então usar o livro literário mais uma outra linguagem e aí fazer a E normalmente as questões elas têm a mesma estrutura. Então, com base na leitura do texto tal e tal, mais a leitura integral do livro tal, o contexto histórico literário da obra. E aí, como é uma questão de somatória, então você vai ter ali as assertivas para falar, para ver se de repente, né, cada uma. Então vai ter estética, vai ter linguagem, vai ter contexto histórico, vai ter gramática, inclusive, né, o procedimento ali do uso dos advérbios.
Então você realmente precisa ter conhecimento da obra e fazer a relação com o que está acontecendo na atualidade, no mundo contemporâneo. Ela não está ali de forma isolada ou meramente ilustrativa. Tem que dialogar com outras estéticas, com outras obras, com música, com charge, com tira, enfim, com tudo que está aí rodeando a nossa vida.
Só pra gente encerrar a parte desse livro, esses dias eu tava conversando com alguém que tinha acabado de ler e a pessoa me disse assim, é impressionante como a gente passeia pela cidade, né, por Floripa e pela região, assim, lendo esse livro do Salim. E eu nunca esqueço dessa cena ali dele de olhos vendados passando pela Ponte Hercílio Luz, assim, né, que ele também reconhece pelo barulho da viatura pelo piso de madeira, assim, né. Mesmo sem ver, ele sabe onde tá, assim. Eu acho isso muito bonito.
A gente pode até inclusive comparar, isso aí eu tô fazendo em sala de aula, né, que é comparar o espaço de Florianópolis com o subúrbio do Clara dos Anjos.
Ah, que legal!
Como os espaços eles vão compor a narrativa, como eles vão ampliar os significados narrativos. Então o espaço ele não tá ali à toa, ele tem um significado.
Muito bom! Vamos para o próximo? Bora lá, outra catarinense de Chaxim, Adriana Lunardi, com o livro Vésperas. Vésperas é um livro de contos que narra os últimos momentos de vida de 9 autoras: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Com base em dados biográficos, Lunardi cria uma obra de coleção que homenageia a vida e a obra dessas escritoras, ao mesmo tempo que se aprofunda em seu universo íntimo e reflete sobre suas angústias, memórias e reflexões, destacando a complexidade de suas existências tanto como mulheres quanto como personalidades públicas. Fale-me sobre esse livro.
É um livro de contos, então dá para ler fora de ordem. É a primeira coisa que eu digo para os alunos também, é isso, né? Dá para ler fora de ordem. Eles têm uma temática que permeia, mas é possível fazer a leitura tranquilamente, de forma independente. Acho que a seleção que ela fez ali é muito rica e, de novo, o procedimento de narrativa, né? Então a gente tem alguns narradores que são em primeira pessoa, outros que são narradores oniscientes.
E aí o tema que eu acho que vai aparecer, inclusive na redação, já pensando em redação, porque essa lista também vai refletir lá na redação, que é a identidade feminina, as várias identidades femininas, como é que elas são construídas, como é que essas mulheres se relacionam. A gente tem ali a questão da morte, mas eu acho que não é um livro sobre morte, eu acho que é um livro sobre vida. É estranho, né, contraditório isso, mas é mais sobre a vida dessas mulheres e de como elas se comportaram e enfim tiveram suas relações sociais.
O próprio caso ali da Zelda, que é tristíssimo, né? Ela foi enlouquecida, ela não enlouqueceu, ela foi enlouquecida pelo companheiro. E então, como a vida dessas mulheres acabou também refletindo na sua obra, as escolhas de vida e as não escolhas, né? Então, pensando na última autora que eu até esqueci o nome. Júlia da Costa, isso. A forma como a Júlia se relaciona com aquelas mulheres que estão naquele último momento de vida dela.
Então ela não deixa de contar uma história bonita de amor, ela não deixa de narrar aquele sentimento bonito, apesar de saber que está ali no último momento de sua vida. E a forma como essas mulheres se colocam ao lado dela, estão ali ao lado dela. Eu conheci a obra da Lunardi No momento da publicação do livro, eu tava na UFSC nessa época e eu lembro quando foi publicado o burburinho que foi assim, nossa, mas ela, que chachim, né?
A gente ia assim, eu sou do interior, né? Eu moro em Blumenau, mas assim, chachim ainda é mais interior. Nossa, como que pode isso? E a mulher publicando lá na Rocco, então assim, que incrível, o que que é isso? E eu a conheci inclusive lá na UFSC, que ela participou de algumas mesas lá para o lançamento do livro. Então assim, tem também esse movimento de nós estamos produzindo uma literatura de altíssimo nível, riquíssima, a partir do olhar da aldeia para o mundo.
Ela olha para essas mulheres que são figuras internacionais, mundiais, consagradas, mas ao mesmo tempo é o olhar daqui do interior de Santa Catarina, do nosso viver, do nosso convívio. Não precisa necessariamente ser algo de fora. Acho que o primeiro ponto para a gente pensar esse livro é essa questão.
Eu acho muito massa e eu tô lendo nesse momento o livro chamado Chaxim, da Ieda Magri, que é o novo livro dela. A Ieda, que também é do interior de Santa Catarina, né? E tudo que a Ieda escreve é muito bom, ela é incrível. Inclusive fica aí o meu pedido à Copervi para colocar a Ieda Magri na lista, porque ela também trabalha com diferentes gêneros e estruturas narrativas, assim. E esse livro, o Chaxim, que eu tô lendo agora, é para quem é do interior, é um abraço, assim, né?
Porque você se reconhece em cada linha, assim. Isso é muito legal. E ainda sobre a Adriana, na verdade sobre esses 3 primeiros livros, o primeiro de abril, o Vésperas, e também o Irmão Alemão, eu acho muito interessante um aspecto deles que é a possibilidade de você criar uma ficção em cima de aspectos reais assim, né? O Salim ali, essa questão autobiográfica, esse episódio da prisão dele. A Adriana também trabalha com, né, com as mortes dessas mulheres como de fato ocorreram, mas ela ficcionaliza em cima daquilo, né?
E o Chico também faz isso no Irmão Alemão, de certa forma. Acho isso bem interessante.
É bem interessante, é bem, é um procedimento muito, muito importante no sentido de de estratégia mesmo, né? Então assim, não, e o que a gente tem que considerar, não buscar pistas sobre o que que é verdade, o que que não é verdade, né? Então senão a gente enlouquece ali. É interessante que a gente reconheça ali que há uma, quais foram as situações em que essas mulheres morreram, mas especialmente, né, qual é o procedimento de escrita.
Então, por exemplo, Há um dos contos em que é um homem que narra. Então ele tá no trem, é o dia do aniversário de casamento dele e da esposa, ele já é um homem de meia-idade. E aí ele vê a notícia dessa mulher muito jovem que se suicida. E aí então ele vai pensar no sentido da vida, ele não tava nem muito pensando nesse aniversário, se valia a pena comemorar, se não valia a pena. E é quase que o momento epifânico lá de Clarice, né?
Ler aquela notícia e aí ele vai nos contando quem era aquela escritora, por que ela estava daquele jeito, o que será que se passa na cabeça de uma jovem que vai, chega às vias de fato de tirar a própria vida. Então esse procedimento de usar a vida real, mas colocar essa vida real, o elemento morte ali dessa personagem, como isso impacta em quem está de fora, como é que a gente lê isso, como é que a gente vê isso e como isso pode modificar a nossa existência, nossa vida.
Enfim, vamos para o Chico. Primeiro assim, Chico Buarque, a gente te ama. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Há momentos e momentos, momentos e momentos.
O Irmão Alemão, vou ler a sinopse: a partir da memória e da história familiar, Chico Buarque constrói romance sobre a busca obsessiva do autor narrador por um irmão desconhecido, misturando as fronteiras entre ficção e realidade. Na São Paulo dos anos 60, o adolescente Francisco de Hollander, ou Tito, encontra uma carta em alemão dentro de um volume da vasta biblioteca paterna, a segunda maior de cidade. Em meio a porres, roubos recreativos de carros e jornadas nem sempre lícitas a livros empoeirados, surgem pistas que detonam uma missão da vida inteira. E aí, Cris?
Esse aqui é o livro que realmente me balança, né? Que eu queria muito gostar Eu acho essa sinopse fantástica, fantástica, até porque ela praticamente é real. A gente tem a participação inclusive do professor João Klug ali da UFSC, que foi ele quem descobriu isso nos seus estudos germanísticos, germanófilos. O professor João Klug encontra esse documento, essa documentação, né? Vai, peraí, será que isso é real? Será que isso não é real?
E aí então desencadeia ali a busca oficial do Chico por esse irmão e que depois vai acabar gerando o livro. Então assim, é a história perfeita. No entanto, é uma história escrita por homens e sobre homens. Então a primeira parte do livro eu realmente tenho assim muita dificuldade e quando eu vou fazer leitura com os alunos também eles sentem isso, especialmente as meninas. A gente sente ali que tem sim uma voz narrativa masculina muito forte.
A construção, eu acho que até é bem interessante, assim, a estrutura narrativa, o como ele nos carrega ali. Esse personagem, o Títio, ele é alguém totalmente autocentrado. Então eu acho que isso é um procedimento mesmo. O Chico faz isso de propósito pra gente realmente ficar meio que com ranço do Títio, porque tudo é sobre ele. Ele tem inveja do irmão ali que mora com ele, né, o Mimo Domingos. Ele tem inveja do amigo que tem um outro amigo que conversa não aguenta mais com ele.
Aquela cena do restaurante, eu digo, gente, pelo amor de Deus, vai arrumar uma louça para lavar, meu filho, que que é isso, né? Mas eu acredito que é um procedimento estético mesmo, é um procedimento literário, e faz aquilo para a gente ficar meio que com ranço do Tite. Então ele encontra essa carta, ele não sabe ainda ler em alemão, ele entende mais ou menos isso, vai encontrar com esse amigo que é o Telônios, e aí ele Vai ter esse outro amigo que é o Udo, que é alemão, filho de nazista, isso tá tudo muito claro.
Então esse retrato histórico dessa época, ele é assim impecável, porque a gente vai lendo aquilo e de novo a ideia, claro que lá é São Paulo, né, mas a gente vai reconhecendo as situações que estavam de fato acontecendo no Brasil inteiro. E aí o paralelo com o nazismo, porque o irmão nasceu em 1930, Então esse paralelo com o nazismo, aqui o Chico também é brilhante, isso não dá para tirar dele. No entanto, o personagem com as suas escolhas, com essa questão do trato com as mulheres, isso acaba deixando o livro meio blé, né, usar uma expressão dos adolescentes.
Mas professora, é assim mesmo, meu querido, né? E aí às vezes até os alunos, os meninos dizem, não, mas Mas não tá tão ruim, prof, claro, porque faz parte dessa construção do universo masculino. E aí a gente vai seguindo com ele, é tudo sobre ele, ele insiste. E eu acho que é muito importante aqui também um ponto que é o uso do subjuntivo e o uso do futuro do pretérito. Então a gente vai reconhecendo o que é real e o que poderia vir a ser a partir desse procedimento de utilizar os verbos ou no subjuntivo ou no futuro do pretérito.
E aqui eu acho que é chave de leitura mesmo. A USP não colocou esse livro só por conta do contexto histórico, que tá dialogando com, né, o Salim Miguel, tá dialogando com o álbum, tá dialogando até com a Clarice, mas também esse procedimento estético de escrita. Qual foi a estratégia que ele utilizou para que a gente pudesse entrar na cabeça do Títio e reconhecer que ele realmente é uma pessoa autocentrada, egocêntrica, e que só consegue pensar nele?
Ele vai criando essas narrativas: seria dessa forma, eu encontraria meu irmão, nós seríamos uma família feliz. Só que na verdade isso não acontece. Então, desde o encontro dele com o pianista aqui no Brasil, que ele vai invadir a casa lá do pianista para tentar forçar uma amizade, e sempre nesse, nessa possibilidade, né, nós seríamos uma grande família, nós seríamos muito felizes, a minha mãe não ficaria chateada. Então esse aspecto eu acho que é muito válido para questões de prova.
E aí, quando é que o livro fica bom e que é muito triste, né? O livro fica muito bom na segunda parte, quando Domingos, que é irmão dele aqui no Brasil, né, filho de pai e mãe, quando esse irmão é levado pela polícia, pelo exército. Enfim, nós temos ali uma situação que é o Telônios, que é realmente o personagem que tá envolvido. Aparentemente ele tá envolvido com uma célula, talvez, mas isso não fica muito claro, porque como o Tietcho é totalmente autocentrado, ele até esquece do que depois passa a se chamar Ariosto.
E a gente sabe que essa mudança de nome tem relação direta com fazer parte de grupos, de células, enfim. E aí então vai ter esse momento em que o Ariosto vai desaparecer. Vem a namorada que vem da Argentina, que precisa visitar algumas pessoas, e também isso não fica muito explícito quem que ele vai, quem que ela vai visitar. Essa menina acaba parando na casa deles e no dia seguinte os dois desaparecem, né? A polícia ainda vem, leva alguns documentos, esses documentos inclusive que vão ser a revelação final.
Mas ali eu acho que o livro fica incrível, assim, porque aí é o pai que, né, o Sérgio Hollander, que era apaixonado por esse filho, que de novo narrador em primeira pessoa, ele vai falar a partir da sua vivência. Então o Tito acreditava que o pai gostava mais do Domingos, E aí o pai, sem saber onde tá o filho, faz algumas ligações, deixa o emprego inclusive, né? Ele diz, nunca mais vou escrever para esse jornal, para essa emissora.
Então esse pai que não tem resposta e acaba morrendo sem saber o que aconteceu com o filho. A cena da mãe aumentando o volume do rádio para ouvir o filho. O Domingos, ele fazia jingles para o rádio, tinha uma voz, eles tinham uma voz muito característica, muito bonita, e aquela mãe aumentando o volume do rádio, uma mãe que cuidava muito da casa e agora a casa está tomada pela sujeira, pelos livros, ela já não se anima mais, tem que fazer a cirurgia da catarata, ela não quer fazer a cirurgia.
Ou seja, para que ver? Para que eu vou olhar para o mundo? Então acho que ali o livro ganha uma força fantástica. Eu tinha um irmão e agora eu não tenho mais. E aí eu fiquei tão preocupado nessa possibilidade de ter esse irmão alemão que eu acabei perdendo o meu irmão real aqui, o que existia. E depois o último capítulo, que é o momento em que ele vai para a Alemanha, né? Já pode falar de spoiler mesmo?
Claro.
Ele vai para a Alemanha, ele vai, ele vai ter até um movimento ali dele ser meio sustentado por uma mulher. E aí a gente vê essa inversão, né? Antes ele era o cara que pegava as meninas que o irmão havia deflorado, e agora ele tá sendo meio que sustentado por uma mulher e Tem ali o blog que ele alimenta, então tem um diálogo com a contemporaneidade. E aí a viagem, então, que é o momento em que tudo vai se esclarecer. E tudo se esclarece assim meio que num susto, né?
Então acho até um pouco preguiçoso, né, a forma como ele vai encontrar o irmão lá na Alemanha. A cena da bebedeira lá com o espanhol, né? Aquilo ali é totalmente ao acaso. Isso particularmente, Chico, eu acho que você foi meio preguiçoso. Deus ex machina, né? Mas A cena em que ele vê a imagem do irmão, porque o irmão já faleceu, o irmão também era artista, era cantor, trabalhava na televisão, conseguiu se safar dos nazistas, ele foi adotado, conseguiu acontecer a adoção, ele não foi para o campo de concentração.
E isso é algo que o Tito vai dizer praticamente toda a narrativa, ali o começo da narrativa, né? Ah, será que ele foi Porque há um dos documentos, né, em que tem o pedido ali pro pai mandar a certidão de nascimento pra comprovar que ele era ariano, que ele não teria sangue judeu, mas o pai não consegue enviar. E aí fica essa dúvida: será que ele virou sabão? Será que ele foi pra câmara de gás? E ele diz isso com uma certa naturalidade, assim, que é constrangedor.
Mas não, né, ele foi adotado. Depois ele muda de nome, ele assume o nome Hollander, e aí vira um artista, vira uma pessoa ligada lá às artes. E aí essa imagem final em que ele encontra o irmão no vídeo, né, no cinema, eu acho que é muito bonito. Então assim, o livro tem altos e baixos para mim, opinião pessoal particular. Eu acho que ele tem altos e baixos, tem algumas situações ali que eu acho que são meio preguiçosas, que são resoluções meio preguiçosas, mas quando ele acerta, ele acerta muito.
Então o momento em que o Domingos desaparece e tem ali o fim do pai e da mãe, eu acho aquele momento ali, aquele trecho sensacional.
Olha, eu vou te dizer uma coisa, te ouvindo falando sobre o livro, eu fiquei com vontade de reler porque eu detestei esse livro. E uma coisa que eu pensava enquanto eu tava lendo, assim, ó, eu perseverei, eu li até o fim porque era um livro do tipo bike, vou ser muito sincera, porque a minha vontade era de abandonar ali nas 100 primeiras páginas. E eu ficava pensando assim, a história que ele se propõe a contar É maravilhosa, é uma história muito rica, tem elementos muito interessantes, né?
E eu ficava assim, cara, como é que tu conseguiu pegar tudo isso, escrever um livro? Mas assim, vai ver, eu também tava meio de saco cheio na época e tal. Então acho que eu posso reler esse livro assim com meu coração mais aberto.
Eu acho que sim, eu acho que vale a pena. Até porque assim, ó, quando— vamos pegar ali, por exemplo, a minhoca, né? Aquela situação, tem uma personagem que é aluna, né, dele. Acho que ela é aluna dele.
Isso.
E aí ela também não tem nome. E aí, né, Minhoca é o codinome dela. Então, de novo, né, uma marca ali daquele tempo. Será que ela fazia parte de algum grupo? Será que não? Aí ele precisa da Minhoca para poder adentrar lá na casa do pianista, porque ele tá desconfiado que a mulher do pianista é a Amy Ernest e que o filho dela é o seu irmão, então a gente precisa dar um jeito de entrar lá. A saída que ele encontra para entrar lá, né, que é entregando para ela lá, dopando ela, entregando LSD, é péssima.
Aquilo não faz o menor sentido, né? Coloca a mulher lá dentro da casa do cara, entra meio que escondido, depois faz amizade. Aí quando chega na amizade com o rapaz, com o Christian, ali eu tipo, opa, pera aí, vai rolar alguma coisa aqui. Porque eu não sei se você pegou ali a referência, mas o Christian também tá se escondendo, só que não é da ditadura, ele tá escondendo a sua personalidade, né? Ele é gay, namora uma aeromoça, ou seja, a mulher nunca tá ali.
Isso eu acho massa assim, poxa, ele deu uma saída ali para o rapaz continuar sendo gay, namorar e nem precisar ficar com a namorada, porque a namorada é aeromoça, a namorada tá viajando o tempo inteiro. E aí, ali eu gosto também quando o Christian meio que dá uma incerta nele. Ai, olha só, quem sabe a gente pode— e ele: opa, não, pera aí, não é bem assim. Então assim, ele tem alguns momentos que a estratégia é meio preguiçosa, mas quando é bom de verdade, eu acho muito bom.
E aí também, né, vamos, vamos colocar, vai conversar lá com o pianista para realmente tirar a dúvida se a esposa do pianista é realmente— e aí o pianista desata falar E vai me explicando tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. Eu disse: não, não, calma, né? Me enrolou tanto até aqui, agora não conta tudo. Então tem esses altos e baixos, mas no geral eu acho que é uma nota 6,5. Para os vestibulandos, atentem ao procedimento da escolha do verbo, né?
Então o subjuntivo, essa marca do que poderia vir a ser, Então atentem, porque aquilo ali não necessariamente aconteceu. Eu acho que aqui é que a grande chave para o adolescente que tá fazendo a leitura não se atenha a esses detalhes sórdidos das meninas que frequentavam a casa dos Holanders, dessa mãe que fazia café para uma menina diferente todo dia. Isso você pode deixar meio de lado, porque não é isso que a Opus vai te cobrar.
Aproveite o que tem de bom no livro, porque dá para fazer um diálogo, inclusive, e aí eu acho que é sempre o ponto central aqui, né, o diálogo com o nazismo, com essa representação do que é ser alemão. Então o fato do Sérgio ter que mandar os documentos de batismo, isso tudo se insiste muito aqui, eu acho que tem um pouco da escrita do trabalho, melhor, do trabalho de pesquisa do professor João Klug, que é justamente o que que te faz ser um alemão.
O que que te faz ser daquele lugar? Então, se eu tenho a certidão de batismo, o ser batizado é o que vai me fazer ser ariano? Então, o que que é essa identidade? Acho que aqui o livro tem, tem chaves bem interessantes para a gente fazer a leitura dele. Dá uma segunda chance.
É, acho que eu vou fazer isso, ele merece. Vamos para o próximo, de Chico Buarque, para Júlia Rico, Eu Sou Macuxi e Outras Histórias. Uma escritora super jovem, de origem indígena, maravilhosa, né? Eu vou ler sinopse aqui do livro. A autora diz por ela mesma: nasci nas terras da Cachoeira Pequena, mais conhecida como Guajará Mirim, mas foi às margens do Rio Madeira que eu cresci ouvindo minha mãe contar as memórias da família dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas.
Um dia atravessamos esse rio gigante e fomos conhecer nossos parentes em Boa Vista, em Bonfim, Roraima, e em Letem, na Guiana. Essa travessia, feita ainda na infância, foi por meio da minha bisavó, o meu encontro com o Macunaíma e com as histórias Makuxi. Escrevo esse livro, Objeto Usado por Não Indígenas para Contar por Muitos Séculos Nossas Histórias, para ocupar esse lugar de autoria. Tão caro aos sujeitos indígenas. Também sou doutoranda em teoria literária do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC-RG. Maravilhosa essa menina, né?
Eu tô completamente apaixonada por ela. Eu sigo ela no Instagram e ela é bem ativa nas redes, é bem, bem participativa. Tava na França até pouco tempo. E eu acho que a escolha desse livro é de uma delicadeza assim. A Copérga, ela foi muito gentil porque ela poderia Poderia ter escolhido, claro que, né, os grandes, né, o Krenak, por exemplo, que a gente lê bastante, até cai na Unicamp também. Mas eu acho que houve aqui uma delicadeza que só a UFSC faz com a gente, assim, que é trazer essa menina para conversa.
O livro é belíssimo. Eu queria chamar atenção também para as ilustrações do Gustavo Caboclo, que também assim refletem uma estética que a gente não tá acostumado a ver, né, pensar dos povos originários, dos indígenas. A gente não tá acostumado a ver dessa forma, até porque sempre as representações vêm de um outro espaço, né, vem dos não indígenas, e aqui são eles por eles. Então essa ilustração também eu acho que tá bem, bem marcante.
É um livro delicado, é um livro poético, tem um diálogo com essa bisavó, o entendimento do que é ancestralidade, Gente, tem a recuperação do Macunaíma, que aqui para mim assim é uma puxada de tapete para a gente que é professor. Eu sou professora há 26 anos, então assim, o Macunaíma eu só conheço do Mário de Andrade, e é um livro que a gente normalmente trabalha no terceiro ano do ensino médio. E assim, está bem marcadinho, a gente sabe tudo que acontece lá, e de repente ela vem e diz não é assim, olha só, vamos repensar.
E então eu acho que esse recontar a história a partir do olhar de quem realmente é um indígena, eu acho que é fundamental aqui. Outro aspecto que eu acho que vale bem para, não para as leituras em si, mas para quem vai fazer a prova, que é o conceito de ancestralidade, e que a gente também tem a falsa ideia E ela desmonta isso aqui, ela desconstrói isso aqui, que é a falsa ideia de que todo indígena sabe que é indígena. E ela só vai descobrir isso na hora que alguém de fora olha para ela e diz, não, mas você é indígena, você não é daqui.
O conflito com o pai, que é garimpeiro, né? Ela gosta demais desse pai. O capítulo do pai aqui também, assim, de uma beleza, de uma delicadeza. É o pai dela, é uma figura que ela gosta, que ela tem contato, que não é alguém que é ruim para ela, mas ao mesmo tempo Ah, mas eu sou um garimpeiro, ele faz mal para o povo dela, faz mal para natureza, faz mal para o rio. Então tem uma complexidade que a gente não tá acostumado a ver nas histórias dos indígenas.
Normalmente é sempre uma história única, né? A chimamanda com o perigo de uma história única. E até isso, né, a gente normalmente lê os indígenas a partir desse lugar que eles estão autocentrados, que eles sabem, né, qual é a sua ancestralidade? Então calma, pera aí, a gente pode se descobrir indígena. E essa descoberta, até o prefácio que é do Daniel Munduruku também muito bonito em relação a isso, o descobrir a sua ancestralidade, descobrir de onde você veio.
Tem uma parte também que ela fala da avó, da professora, a avó como professora, avó que me ensina a ser macuxi. Então ela vai se descobrir já pergunta que ela é uma indígena, que ela é uma Makuxi, e ela vai aprender a ser. E quem é que ensina? É essa avó, é a mãe, né? São as mulheres que estão ali junto dela. Eu acho o livro belíssimo. Li com os meus alunos, esse aqui eu li completo com eles, assim, eles se divertiram. A gente fez inclusive um trabalho a partir dele, ficou muito bonito, que é esse reconhecimento da identidade, que dá também para a gente botar em paralelo ali com o Chico, né?
Essa busca pela identidade, quem eu sou, de onde eu vim, Por que que eu tô aqui, o que que me representa, o que que me constitui. E é isso que ela acaba fazendo aqui no texto.
E sobre o estilo narrativo dela, Cris?
Então, ela tem de tudo aqui, né? Mas é, em síntese, é poesia. Ela tem uns textos em prosa, alguns são em prosa, minicontos, mas é um texto muito breve, fragmentário, é poético. Então tem uma sonoridade, tem um ritmo ritmo não marcaria assim como uma— não dá para classificar, né? A gente não consegue colocar dentro das caixinhas ali da classificação, mas da classificação teórica, vamos dizer assim, né? Porque alguns capítulos eles estão em prosa e outros estão em poesia. Ela usa o formato poesia e é um ritmo bem, bem— tem ritmo, na verdade.
É legal ter essa diversidade assim também textual, né? Isso funciona bem.
Até eu tava dando uma olhada aqui agora, por exemplo, o da Murida, que é o capítulo sobre a culinária, ela usa o artifício da pontuação expressiva. Então assim, alguns momentos a avó fala, tem essa voz que fala com ela: água, tomate, pimentão. E aí tem os silêncios, e esses silêncios ela vai marcando pelas reticências. Aí alguém diz, né, só Isso, reticências. E sal e chicória, reticências. Só. Então essa pausa dá a entender de que elas estão naquele momento fazendo o preparo.
Então não é simplesmente uma lista do que tá sendo preparado, dos ingredientes que estão sendo utilizados, mas é o próprio procedimento de preparar ali o prato tradicional do povo. Então é esse ritual da cozinha das mulheres.
Muito bom. Vamos para o próximo: Clara dos Anjos, do Lima Barreto. Eu fico muito feliz que o grande exemplar de uma literatura clássica, mais tradicional assim, né, nesse vestibular, seja Lima Barreto, sabe? Eu adoro ele, eu sou fascinada por ele, eu acho muito bom que Clara dos Anjos esteja ali, porque eu li faz pouco tempo, na verdade faz um tempinho já, né, quando eu tava ali no curso de letras, mas enfim, nos últimos anos anos.
E é impressionante como parece uma literatura contemporânea assim, né? Você não diz que foi escrito lá em década de 20, né? Mas enfim, vou para sinopse. No início de 1922, Lima Barreto anunciava na imprensa do Rio de Janeiro que seu novo romance intitulado Clara dos Anjos já estava bem adiantado e que em breve ele seria publicado. Naquele ano, porém, o público carioca apenas conheceu um dos capítulos iniciais do livro, Saído na edição de maio da revista Mundo Literário.
Em 1º de novembro, vitimado por um ataque cardíaco, Lima Barreto morreu sem concluir um de seus últimos e mais ambiciosos projetos literários. O escritor retrabalhava o texto desde 1904, animado pelo desejo de convertê-lo numa espécie de epopeia suburbana a partir da malfadada trajetória de Clara dos Anjos. A história foi publicada em folhetim entre 1923 e 1924, e somente apareceria em volume mais de duas décadas depois, em 1948.
Cara, que vida fodida do Lima Barreto, né? Tipo, América, perdão da palavra, mas—
E assim, eu não queria falar da vida dele, eu queria só falar da obra dele, assim, porque a vida dele é isso mesmo, né? Assim, é bicho em cima de eita. E aí a obra dele é tão impactante. Eu não conhecia, assim, na verdade, quando— até por conta, né, dos outros livros, a gente acaba lendo mais na escola O Triste Fim, e depois até já teve na UFSC o Cemitério dos Vivos, que maravilhoso, maravilhoso, pesado, pesado. E o Clara, eu não conhecia o Clara, eu fui ler só agora assim.
Era um livro que inclusive passava os contos, né, O Homem Que Falava Javanês lá, mas era, era um livro que normalmente passava. E aí quando eu fui fazer os primeiros estudos para para preparar as aulas. E assim, o Lima tem uma passagem na vida dele que ele arrumava muito problema com todo mundo, né? Mas ele arrumou um problema com as feministas, né? E assim, cara, ele era realmente, é o título da biografia dele, ele era um visionário, porque ele tava falando, ele usa esse termo, as minhas irmãs, usa esse, cara, de arrepiar.
Ele tá escrevendo para o jornal dizendo: olha só, vocês estão falando de vocês, mas e as minhas irmãs? Então, isso lá em 1920, cara, é demais. Então é um livro que provavelmente ele se dedicou mais, ele passou mais tempo debruçado em cima dessa história assim, porque ele realmente trabalhou nela E tem essa construção do subúrbio. Então também tô fazendo a leitura com os meus alunos, a gente tá encerrando ele agora. E assim, ai, até é de salientar que o resumo da obra ele é quase que ingênuo, ele é bobo, né?
Uma mocinha que se apaixona por um cafajeste e ele deixa ela grávida, eles ficam juntos uma vez só, deixa ela grávida e ele vai embora e ela que se dane. É muito pueril essa sinopse, mas o que ele constrói aqui, toda essa apresentação dos personagens, o primeiro capítulo que apresentação do senhor dos anjos, do pai da Clara, eles tentam de alguma forma ter uma estrutura familiar, né? Ele é carteiro, ele cuida da esposa, ele gosta de sair no final de semana para ouvir as modinhas, Em esse aspecto da rua também, que é de se colocar na rua, de tirar os personagens de dentro de casa.
Então as ações, elas acontecem na rua, no trem, na rinha de galo, porque o Cass Jones, né, é um menino que tem o único jeito dele ganhar algum dinheiro na vida é com os galos. Então ele vai lá para rinha de galo. Então esse movimento da rua, a construção do espaço passo é um ponto que eu insisto com os meus alunos. Assim, ó, vai fazer a leitura, ok, é sim sobre a Clara, é sim sobre essa menina que tá tentando ser preservada, a família tá preservando.
Em linhas gerais, tá, aí essa família, os dos Anjos, que tem a Clara, que não é nada clara, é uma mulher negra, é uma menina negra, e eles vivem no subúrbio. É o Rio de Janeiro do início do século, final do século 19, início do século 20. A gente tem ali o trem da Central do Brasil que vai, enfim, para essa região do interior. Então eles olham para essa região ainda com as montanhas, com campo e tudo mais, mas o subúrbio tá sendo construído em torno dessa, dessa linha férrea.
Ali os bairros vão se construindo. E aí a gente vai ter a outra família que acha, que acredita que é um pouco melhor, e aí tem a passabilidade de serem brancos, né? Então esse colorismo tá muito bem marcado. Então assim, são conceitos que a gente tá sistematizando agora no século 21, né? Estão realmente sendo sistematizados. Mas o Lima Barreto já falava disso, é que é o colorismo. Então eles são pobres. A família do Cassie Jones é uma família pobre.
O pai e a mãe tem que trabalhar, né? A Dona Salustiano inclusive em algum momento da vida ali ela teve que Mas eles são brancos. E aí a fala é justamente essa, né? Uma negra vai casar com meu filho? Não, né? Então a gente tem essas duas famílias. O Cassi sempre foi um medíocre, e isso é dito desde a primeira linha. Ele não era bom em nada. A única coisa que ele tinha de diferente dos dos Anjos é que ele era branco, e só, mais nada.
Ele mal sabia ler e escrever, ele só arrumava confusão, ele não queria saber de estudar. Logo que ele fica rapazinho, ele começa de novo aquele E aí, de novo, porque já apareceu lá no Chico Buarque, né? Mas tem esse menino que quanto mais conquista tiver, melhor. Então veja que essa construção do masculino, a gente fala da construção feminina, mas a construção desse masculino também, né, é algo problemático e que tá representado nas obras.
Então esse menino, logo quando ele começa a ficar adolescente ali, ele já parte para esse projeto de vida. Então quanto mais meninas ele deflorar, ou as casadas, melhor. E aí então ele vai ser um galanteador, mas ele é medíocre, ele nem toca violão, ele toca direito. Então assim, né, ai meu Deus, né. Aí a gente vai ter lá o padrinho, o Mahamek, que vai fazer o dossiê, que é o apanhado de tudo que o Cassidiones faz de ruim na vida, e que vai ter aquele material guardado.
O menino na época poderia ter sido preso, poderia, tinha uma lei, né, que obrigava que ele enfim reparasse o mal que ele fez à menina. Mas como ele sempre escolhia meninas negras ou muito pobres, óbvio que a lei não ia dar conta. E aí então toda essa construção do subúrbio, de a gente entender o que é o subúrbio, de a gente entender esses personagens a religiosidade. Há um trecho muito bonito em que ele vai dizer, o narrador que é onisciente, ele conversa conosco, ele faz algumas antecipações também, procedimento literário bem peculiar.
Ele vai falar das religiões, que o pobre vai na macumba, vai no centro espírita, mas Deus o livre se não tiver batizado, meu filho não vai morrer pagão. Então a gente vai entendendo o que é a construção desse Rio de Janeiro, que é o microcosmos do Brasil, né? Então o que o Lima faz aqui para mim é assim, é obra-prima. Eu sinto não ter lido ele antes, só ter conhecido o cara dos anjos agora, e mais, eu já virei assim fã desse livro.
E acho que todo mundo devia ler assim para a gente entender o que que tá acontecendo no da sociedade hoje, a gente precisa entender o que que aconteceu no início do século para reconhecer essas disparates, essas diferenças.
E uma coisa que me pegou muito quando eu tava lendo é o modo como ele apresenta a Clara, assim, né? Você se apaixona por aquela personagem. E eu fiquei com uma impressão de que assim, ó, claro, fui ler sabendo que era do Lima Barreto e tal, Mas eu te juro que se tivessem largado na minha mão sem capa e eu fosse ler, eu diria que foi um livro escrito por uma mulher. Ele foge de toda essa literatura masculina.
Total, total. E essa questão ali, por exemplo, que nos incomoda lá no Chico, dele falando do irmão que deflorava, é o mesmo linguajar, inclusive, né? É o mesmo vocabulário. Mas por que que no Lima Barreto a gente não fica assim incomodado, né?
Não tem.
E a vítima, isso eu acho também bonito como ele coloca ali, a Clara, ela não consegue, ela não, claro que por conta da falta de experiência, né, ela nunca sai à rua, ela não conversa com ninguém na rua, os pais protegem demais, há uma superproteção, e ela não consegue reconhecer a maldade. Não, ela tá percebendo, ela sabe que ela tá fazendo alguma coisa que não é muito adequada, ela tem essa percepção, mas ela é doce demais, ela é ingênua demais, sem ser piegas, não soa falso. Realmente poderia ter sido uma mulher que tivesse escrito esse livro.
É lindo. Eu, tudo que eu leio do Lima Barreto, eu fico encantada demais. Eu até encontrei aqui, quando a gente começou a conversar, a edição que eu tenho do Triste Fim de Policarpo Quaresma, que é do ano que eu fiz vestibular para foi a primeira vez, 2002. E eu acredito que eu nunca reli, já tá na hora, né?
Ah, pois é, merece, né?
Acho que eu vou reler. Assim, ele tá bem maltratadinho, eu imagino que eu devo ter tido trabalho com ele, sabe?
Mas livro bom é livro maltratado, né?
É, eu acho que sim, é maltratadinho, mas tá aí durando até hoje, né? Foi 2002, tem 24 anos, abafa. Ai, muito bom! De Clarice, A Paixão Segundo GH. Vou para sinopse. Eu tenho até uma pergunta de curiosidade para fazer sobre esse livro, mas vou ler a sinopse antes. Romance original desprovido das características próprias do gênero, A Paixão Segundo GH— eu morri com essa definição também— conta através de um enredo banal o pensar e o sentir de GH. Foi um hater de Clarice que escreveu essa sinopse.
Concerto.
É através de um enredo banal, o pensar e o sentir de GH, a protagonista narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço que ela supõe imundo e repleto de inutilidades. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, GH depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco processando-se então uma revelação.
GH sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Achei bem ruim essa sinopse, sabe?
É, tem um equívoco ali.
Barata?
Não, do ela não. E eu acho que é bem importante, inclusive. Não é a GH que despede a Janaína, É a Janaíra que decide e morre.
Opa! Ah não, mas é que aqui, pela sinopse, a protagonista é a GH e ponto, né?
Não, Janaíra que diz: vou embora.
A minha curiosidade é: como que os adolescentes reagem à leitura de Clarice?
Então, a gente faz uma preparação, né? Em sala de aula eu os preparei com isso. É, então eu apresentei dois contos, né? A gente começa ali com alguma coisa do Laços de Família, né? Mostrar esse narrador. E aí depois eu passei A Menor Mulher do Mundo. Aí eu amo, né? Então assim, a gente começa leve. Aí eu também apresentei Macabeia, também tem um narradorzinho ali, né? Eu gosto muito do Rodrigo Essiel, mas assim, eles sofrem, tá?
Só que aí também é meu ponto, que eu também fico com dois corações. Cara, tem que se desafiar, maluco. Porque ser um estudante, porque ser um estudante universitário, ah, mas eu sou de exatas. Dane-se, meu filho, bora ler o mundo. Não tem lá o nosso amigo careca lá, ou não careca, careca, o Clóvis de Barros lá, né? Tem abril, meu filho, tem abril, vai atrás. Mas ao mesmo tempo, os meninos têm tanta coisa para ler, tem tanto exercício de química, física e matemática para fazer, que para quê?
Para quê botar uma tortura dessa? Porque assim, o começo é muito desafiador, assim, é muito desafiador. Eu acho que vencer as 20 primeiras, se você vencer as 20 primeiras páginas, a coisa vai andar. Outro ponto importante, e que normalmente assim eles conseguem, eu acho que adolescente ainda consegue fazer melhor do que nós assim, quando eles estão dispostos, mas assim, é a capacidade de abstração. Eles dão uma viajada juntos, então eles realmente conseguem viajar com ela.
Assim, a ideia do deserto, da travessia, isso tudo os toca porque eles estão, em alguma medida, eles estão nesse momento também. Claro que aqui eu tô falando também de um grupo social, né, que tem tempo para fazer a leitura, tem essa disponibilidade para fazer a Mas eu acho que mesmo em outras camadas sociais há esse movimento de transição. Eu lembro de ter lido Clarice aos 14 anos de idade e eu queria mais daquilo, assim. Eu não lia GH aos 14, mas eu li os contos e depois, né, A Hora da Estrela.
E eu lembro de ter ficado muito impactada ali por volta— eu tava no ensino médio ainda, Stephanie, e eu li da Água Viva. E aquilo para mim fazia todo sentido, assim, eu era aquilo, eu sabia, eu sentia tudo que aquela mulher falava, eu tava sentindo também. Depois, mais tarde, quando eu voltei, não bateu do mesmo jeito, talvez porque eu tivesse ficado cascuda. Eu acho que adulto fica mais cascudo e aí não consegue chegar no que ela tá passando ali, no que a GH tá E não é um, não é uma cena banal, né?
Tem muitas camadas esse livro assim. Então, por quais chaves a gente vai fazer essa leitura? Primeiro, é a paixão mesmo, tem um caráter religioso, não é à toa. Então é dor, é sofrimento, é a paixão de Cristo, sim. Tanto que quando a barata é esmagada, quando a massa branca vem também ela vai fazer inúmeras comparações com o corpo de Cristo, com a hóstia, com o sagrado na boca. Então todo aquele trecho em que ela começa a sinalizar que ela vai colocar aquela massa branca na boca, ela vai fazer essas comparações com os rituais cristãos.
Isso aí você não pode deixar de fora, tá? Então primeira chave de leitura é essa: leia como se fosse realmente um ritual cristão. E que em alguns momentos ela inclusive vai dizer: o inferno é mais legal, o diabo é mais interessante. O diabo escolheu sair, ele não foi empurrado. E de novo a ideia da Janaíra, né, porque a empregada resolve ir embora e ela então: ah, vou, né, estou no controle de tudo, vou lá limpar o quarto da empregada porque lá deve estar toda uma sujeira.
E ao chegar lá ela se depara com o quarto absolutamente limpo, cortinas abertas, que é outra cena também maravilhosa. Tem esse caminho de ir para o quarto, então essa travessia que demora, é difícil, tá escuro, o cigarro ali que meio que tá iluminando aquele caminho. Então a gente tem uma preparação para chegar naquele espaço. Pronto, chegou no espaço, o espaço tá limpo, tá branco, tem aquele desenho feito a carvão a mulher, o homem, o cachorro, eles não se olham.
Isso também é bem importante, porque ninguém se vê, tá todo mundo ali, mas ninguém se vê. E aí começa então o evento Barata. Barata aparece, ela esmaga Barata, e aí minha filha é só ladeira abaixo. Mas é um evento ritualístico e tem marcações muito fortes de que é uma relação direta com os rituais católicos, né? Então a Janaíra escolheu sair o diabo escolheu sair do céu, ele não foi empurrado, ele é que decide ir. Até a gente chegar nesse movimento de botar a massa branca na boca, que inclusive também, né, é assim, das cenas mais bem construídas assim, né?
Tá aqui claríssimo, porque a gente fica na expectativa, né? A gente sabe que vai acontecer. Os adolescentes pegam o livro já esperando qual página que tá, prof, qual página conectada, tem que ler para chegar lá. E aí quando eles chegam, e porque ela não engole, né, ela tem meio que um pequeno surtinho ali assim, vou botar na boca, preciso colocar na boca, preciso sentir o gosto. E aí a frase seguinte é ela tirando da boca, né, que ela sentiu alguma coisa esquisita aqui.
Então não tem a descrição exata da colocação da massa branca na boca, só dela tirando. Então Então acho que, de novo, a ideia do procedimento estético, né, da construção da cena, como é que o narrador nos conta a cena. Então eles embarcam assim. Graças a Deus eu tenho muita sorte com os alunos, quem lê, né, vamos combinar, quem lê, né, que tem os alunos que não lê, pega o resumo e brinca com a história. Mas em geral assim eles sofrem, ficam chateados com o final, porque no final ela tem uma desistência, né.
Então ela tá ali envolvida naquela busca pessoal de quem eu sou, que mulher é essa? Onde é que eu tô? Eu tô aqui no alto da minha torre. Ela até— eu tô agora aqui com a cortina bem aberta, tava tendo sol. E ela chega no quarto da empregada e a cortina tá aberta. Ela olha, ela vê: nossa, eu moro na cobertura e eu nunca olho para fora. Eu precisei ir para o quarto da empregada para poder olhar a vista, para poder enxergar, porque a casa dela tá sempre com as cortinas os quartos, a sala, sempre estão com a cortina fechada.
O fato dela ser uma escultora, então ela molda, ela cria, né? Então esse moldar, esse criar, o que que nós estamos criando? O que que a gente tá construindo da nossa vida, da nossa experiência, das nossas vivências? Por isso eu acho que é um livro que dá trabalho. Então se vencer as 20 primeiras páginas ali, comprar esse tipo de narrativa, não, pera aí, vamos ver o que né, tá falando. Eu acho que pode ser muito interessante para os adolescentes.
Ao mesmo tempo que o adolescente já tem tanta coisa para fazer. E aí eu juro para ti que eu tenho pena dos vestibulandos, né? Eu não sei se eu já falei isso aqui, se eu posso dizer.
Pode dizer o que você quiser.
Eu sou totalmente contra vestibular, né? Eu queria viver num mundo em que os adolescentes pudessem, ah, quero estudar, opa, vou estudar. E aí vai lá, faz a inscrição, a matrícula, e vai estudar. Eu gostaria que fosse assim, né? Mas como a gente não tem vaga para todo mundo, não vive nesse mundo, obrigatoriamente a gente vai ter que fazer algum tipo de seleção. Então se desafie, meu querido, assim, né? Arrisque, não tenha medo, não tem nada ali.
A linguagem, ela, ela não é hermética. Isso é outro aspecto também. Ai, porque Clarice é hermética? Não é romântico coisa nenhuma, gente.
Assim, romance desprovido de características próprias do gênero. O que que são características próprias do gênero? É um romance pessoal, pronto, sabe?
É um romance em prosa, em primeira pessoa. Ela tá narrando aquilo que ela sente, aquilo que ela tá vivendo. E inclusive, né, ela tá narrando a partir da— é passado. Ela avisa para a gente Gente, eu vivi uma experiência. Ela não mente e ela é muito honesta com a gente. Olha só, eu vivi uma experiência, eu não sei o que fazer com isso, eu não tenho palavras para contar o que aconteceu, eu preciso de ajuda. Pega minha mão, me dá tua mão.
Em alguns momentos ela diz isso, depois ela solta, né? Ela é bem sem-vergonha também, porque daí ela diz, ah, soltei a mão e fui sozinha. Bonita, me traz até aqui, depois Mas ela, ela avisa, ó, aconteceu uma situação comigo, eu ainda não entendi direito o que aconteceu, foi muito forte, foi muito violento, eu tô me sentindo muito estranha, muito modificada, eu não tenho palavras para descrever o que aconteceu, eu vou precisar de ajuda para contar o que aconteceu, não é qualquer um que vai entender o que aconteceu porque eu ainda não sei o que aconteceu.
Então já foi, o evento já foi. Então tá tudo bem, é um processo, é uma narrativa, pronto, é uma narrativa em prosa em que ela tá contando alguma coisa que aconteceu com ela. Tem o fluxo de consciência?
Tem.
Que é um problema?
É.
Mas é um fluxo de consciência dentro daquela cena, não é, por exemplo, eu acho muito mais difícil, e aí, né, a diva master lá, Virgínia Wolff, porque lá é realmente assim, ela começa falando de uma coisa, de repente entra outra situação. Porque isso é o nosso fluxo de consciência. Eu tô aqui conversando contigo, mas eu tô olhando lá para o outro lado, lá para o prédio. Tem uma pessoa lá pendurada lá fazendo a limpeza das janelas.
Eu tô pensando naquilo e alguém aqui tá no outro cômodo, tá fazendo um barulho, e eu tenho que preparar algo. Isso é fluxo de consciência. Aqui na Clarice, o fluxo de consciência dela tá concentrado naquela situação. Então é uma situação que modificou a vida dela, que ela fez uma revisão de quem ela é, E ela vai usar ali todos os elementos simbólicos para pensar aquilo, até chegar na religião, chegar na hóstia, chegar na figura do diabo, do inferno, do neutro, porque aí ela vai entender o que é a matéria da vida.
Então a matéria da vida é o neutro, ela vai chegar no âmago central do que somos. E aí depois que ela fez ali a experiência, enfim, botou na boca, tomou um susto, acordou. Peraí, calma. Ah, também nem precisa isso tudo também, né? Que exagero. Aí eu fico meio chateada, mas é isso, né? Quem faz terapia sabe que é mais ou menos assim que acontece.
E é muito complexo, né? Aí a pessoa vai lá e escreve que só um enredo banal. Vai lá tu comer uma barata e ver o que que vai te passar pela cabeça.
Não tem nada de banal, gente.
É muito complexo.
E no detalhe, né, são as iniciais nas valises, as iniciais em dourado. Então essa representação, o que que nós somos? Ela, eu gosto muito disso também, né? Ai, gênero humano, não tem nada de gênero humano. Isso é nosso, desculpa, isso é próprio da alma feminina, isso é Isso não é de qualquer um, isso é da GH. Então não vem com essa conversa de gênero humano não, tá? Não gosto disso. Mas enfim, alguns críticos vão utilizar essa expressão, não sei se serve para alguma coisa, particularmente não gosto.
Mas a ideia do GH dourado nas valises e a Janaír, que tem um nome, a Janaír tem nome, a empregada tem nome, a empregada decide sair A empregada toma os espaços porque o espaço tá em branco, né? As paredes estão brancas, só tem lá o desenho, tá tudo limpo, o armário tá limpo, a cama tá limpa, mas ela ocupa um espaço sufocante na vida dessa personagem, né? Ela ocupa aquele espaço. E aí, qual que é o espaço da dona daquele lugar ali, né?
Essa mulher que não olha para as coisas, que tá ali no alto da torre e não não vê o que tem abaixo dela. Então é muita complexidade, muita coisa linda.
Chegamos no último, que é o álbum Secos e Molhados. Secos e Molhados é uma coisa incrível. Eu fiquei muito feliz de ver isso na lista. É um disco dos anos 70, né, de 72. Foi lançado ali em plena ditadura, 73, desculpa. Tem aquela capa maravilhosa ali. A gente reconhece na imagem todo o estilo dos Secos e Molhados, né? Maquiagem, a nudez, aquela ceia desconstruída. É o meu disco favorito, Secos e Molhados, Neymar Grosso. Foi lançado em plena ditadura e eu fico, como assim que isso passou?
E com canções incríveis também, que você também fica assim, como assim isso passou? Como Sangue Latino, Vira, A Rosa de Hiroshima. É fantástico. Eu fico muito, muito, muito feliz de pensar que talvez tenha gente de 16, 17 anos agora ouvindo Secos e Molhados por causa disso, né? E que bom, continuem, pessoal, que é necessário. E é muito assim, eu fico pensando na qualidade estética, né, na parte estética que pode ser trabalhada, na parte literária também das canções, né?
Mas meu Deus, olha a letra de Sangue Latino assim, né? Uma coisa da Rosa de Hiroshima, é muito trabalhado, né?
E nisso a gente pensando só nos classicões, nos clássicos, nos clássicos, né?
Que toca até hoje.
Isso, porque se a gente pensar ali no patrão nosso de cada dia, eu amo Sangue Latino evidentemente, mas assim, o patrão nosso de cada dia abre abri com um sino. Então assim, queridos, escutem, não apenas leiam as letras, ouçam. Bota para rodar esse disco, tá? Tá disponível tanto no YouTube quanto no Spotify. Botem para rodar essa música em especial. Ela abre com esse sino e aí a referência direta à igreja: patrão nosso de cada dia, eu te dei a flor da minha vida, né?
A minha juventude eu te entreguei. E aí acaba acabou o dia. E aí eu só consigo pensar numa coisa, que a Skala fez por um, né? E aí tu falas assim, ah, como é que esse disco vazou? Vazou porque os cara eram burro, né?
Burro só pode, cara.
Não tem que, gente, pelo amor de Deus, eles eram muito burro, eles eram muito burros, porque eles leram essa música tranquilamente como se fosse uma canção de amorzinho assim. Eles não conseguiram reconhecer. E eu acho que é assim, é uma das canções assim mais emblemáticas desse álbum. Eu queria fazer só assim, eu acho que por motivos óbvios, o João Ricardo, com toda a sua— o João Ricardo é o compositor principal, né, das músicas, das letras, né, ele é o letrista principal.
Eu acho o João Ricardo um grande poeta. Ele tem seus equívocos, ele teve seus equívocos ali, né, com o Ney. A gente gosta demais do Neymar. Mas assim, o que eles construíram, que o João Ricardo fez na letra dessas canções também, assim, ele é filho de poeta, né? Então ele cresceu numa casa de poetas, e pensar essas, musicar a poesia, já é algo aqui que faz com que a gente, poxa vida, né? Que coisa bacana! O disco é de 73. A gente tem que cuidar também com o fato de ser nome do grupo.
Então quem tá estudando isso, quando a gente vai fazer o estudo ali, os alunos normalmente confundem. Então é justamente essa capa deles ali postos, né, as cabeças postas na mesa. Então tem uma questão, e aí eu não entendo de música, tá, gente, eu vou falar aqui a partir só do que eu fiz de pesquisa, não entendo de vertentes e tudo mais, mas tem aqui um tal de glam rock rock, tem o pop psicodélico e tem o folk. Então tem uma mistura de vários ritmos, de vários elementos musicais que estavam sendo incorporados, estilos que estavam sendo incorporados.
Essa figura, de novo, a ideia da identidade, da representação, né? Então assim, eles não são humanos, né? O que eles são? São homens? São mulheres? Somos bichos? Somos elementos da natureza. Então é preciso considerar esse aspecto estético também. É toda a repercussão que as músicas representam. Então, por exemplo, Vira, que tem essa marca portuguesa, mas ao mesmo tempo tem uma marca muito brasileira, né, dos elementos dos encantados.
E aí vamos, né, refletir o conceito também de folclore, que é folclore, são encantados, são entidades da natureza brasileira, dos povos originários brasileiros. Então colocar esses dois elementos, o português e o encantado brasileiro, cantado por um ser, por seres que a gente não sabe necessariamente o que são, acho que tem uma riqueza aqui. E aí, né, a gente poderia passar por cada uma das canções, mas eu acho que fundamentalmente assim, como é que a obra dialoga com as outras obras.
Então assim, é o mesmo período histórico. A gente, eu acho que eu não falei, mas a Clarice é publicada em 1964, né? Então assim, tem uma marca. A Copervi não reúne essa turma toda à toa. Em todos os vestibulares há um diálogo, a gente consegue reconhecer um diálogo. E aí a participação aqui de um um risco emblemático como esse, que tem uma questão de representatividade, de identidade, de pertencer a uma identidade fluida— é natureza, não é natureza, é homem, não é homem, que seres são esses— tudo isso vai acabar dialogando com o que a gente tem aí na Makuxi, no próprio Irmão Alemão, na construção da identidade brasileira lá do Clara dos Anjos.
Então ele, ele que todas as obras estão dialogando e estão marcando a representação do que se é, a identidade, a construção de uma representatividade que é plural, não é única. Tu querias que eu falasse de cada uma das músicas?
Não, não precisa falar de cada uma das músicas, mas uma coisa que eu fiquei pensando, são dois poetas que aparecem do repositório, que tem o Manuel Bandeira ali, né, junto com o João Ripardo no Rondó do Capitão, e o Vinícius de Moraes com o Gerson Conrad na Rosa de Hiroshima, né. Eu acho isso muito interessante, fiquei pensando assim se esse aspecto também pode ser abordado na prova.
Pode, pode, mas assim também a ideia de não se ater aos necessariamente esses poetas, né. Assim, no campo geral, a poesia ela sempre teve essa musicalidade. O que eles fazem ali trazer para a discografia, realmente fazer a musicalização desses poemas, especialmente ali a Rosa de Hiroshima, né? É um aspecto a se considerar. Mas de novo, a gente assim, é uma marcação que a Copervi deixa muito clara assim, né? A gente não vai ler as músicas apenas como texto, tá?
É importante ouvir, porque essa construção dos elementos, como o sino que eu falei ali no Patrono Nosso de Cada Dia, ou ainda tem aquele da, por exemplo, a canção Mulher Barriguda ali, né? Então ela tem uma sonoridade, ela tem uma marcação que vai fazer que eu pense ou perceba o útero dessa mulher. Então, que não necessariamente é o útero dessa mulher. E quando a gente vai lá, né, para leitura de metáfora, a gente vai pensar no país que estamos criando, no momento em que estamos criando.
Mas isso só vai fazer sentido porque eu ouvi a música, porque só a letra da música ela não me diz isso. Porque na verdade assim, ó: haverá guerra ainda? Tomara que não, mulher barriguda, tomara que não. Então pela letra tem um ou outro verso que me chama atenção para isso, mas a construção de sentido vai se dar na composição total, letra cultura e música.
Muito bom. Eu, da minha parte, é isso sobre esse disco também. Assim, eu adoro, acho que eu vou ouvir ele hoje, sabe? É muito gostoso. E de maneira geral, assim, eu acho que a Coperte fez uma ótima escolha, assim, né? Um conjunto muito coeso assim, né, das obras dialogam muito entre si de alguma forma. E eu fico pensando todo o potencial que tem você. Tipo, já que eu sou obrigado, entre aspas, a ler isso para me figurar, que seja prazeroso, né?
Eu aprendi a gostar de muita coisa de literatura porque gosto, assim, né? E te leva para outros caminhos também.
Tem uma professora nossa que diz isso, né? Professora Tânia Ramos, que diz isso: é a última oportunidade que a gente tem de colocar literatura na mão das pessoas e talvez, né, conseguir cativá-los de alguma forma. Então a lista ela tem que ser coesa, mas ao mesmo tempo ela tem que apresentar várias possibilidades. E eu tô muito, realmente eu tô mais contente do que do ano passado, assim, apesar de ter aqui o Chico que dá um trabalhinho, né, que a gente não gosta muito deste livro, Chico, deste E tem todo o hermetismo de Dona Clarice Lispector, mas eu acho que é uma lista que dialoga muito bem, os livros dialogam entre si, as obras dialogam.
E além disso, pensando em vestibular mesmo, para propósito de redação, é um material riquíssimo aqui. Então, para além das questões objetivas ali da somatória, mas pensar também também como isso pode aparecer na redação. Então a questão da identidade, da representatividade, próprio período histórico de 64, a relação com o nosso momento histórico, a formação da identidade brasileira, as mulheres, né, como é que nós somos representadas, a questão da saúde mental, que a gente nem tratou disso aqui, mas assim, no Vésperas a gente tem as questões de saúde mental, digital, que hoje, né, a gente discute muito mais abertamente.
Então dá para colocar tranquilamente ali alguns pontos junto ou em paralelo com a Paixão Segundo GH. Então dá para passear por uma série de aspectos aqui e que podem aparecer na redação também.
Você tem algum palpite para redação?
Eu tô trabalhando bastante com representação, até por conta da, até a questão do ilustrador ali Takushi, colocando em paralelo com o Sexo e Molhados. Eu acho que representação e construção de representatividade, eu acho que é uma boa possibilidade. Ano passado eles foram muito categóricos, né? Até tive muita sorte ali porque o tema eu trabalhei, que era a questão da desigualdade social patrão e operário, né? E foi isso que apareceu, tanto que apareceu lá, né, as meninas lá, o Bonchibombombom, E aí, meu Deus, o que que é isso?
Digo, gente, vocês têm medo do Manifesto Comunista? Isso aqui é Manifesto Comunista. Elas estão lá de shortinho, Porto Seguro, bronzeadíssimas, e elas estão falando aí da cadeia hereditária, né? Então assim, tenham medo é disso, não do Manifesto Comunista. Então eu acho que pode ser que apareça alguma, alguma questão ligada a construção de identidade, de representação.
Legal, Kiz. Eu quero te agradecer muito por estar aqui mais uma vez no Postfácil dando essa aula para mim e para as pessoas que estão nos ouvindo. É uma honra que eu ouvi falar sobre os vídeos. Eu fiquei com aqui até, fechei um segundo GH, que foi muito difícil para mim. Eu fiquei com vontade de reler e o irmão alemão principalmente. E adoro o teu trabalho, adoro quando você tá aqui podendo falar sobre isso. Te agradeço demais ter dedicado teu tempo para falar com as pessoas que ouvem o Passo a Passo sobre vestibular, sobre o livro vestibular. Obrigadão, tá?
Eu que agradeço. E vamos democratizar a leitura dos livros. Tô sempre à disposição, gosto muito de estar aqui. Acho que a gente tem que falar mais e mais e mais e mais de livros.
Vamos, vamos. Muito obrigada, um bom dia para você.
Beijo! Beijo!
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Esse podcast foi editado pela BZT e produzido por Pós-Fácil.