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Sobre a série e livro "A Casa dos Espíritos", de Isabel Allende, com Aline Fialho

31 de julho de 20261h1min
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Olá, posfaceiras, posfaceiros e posfaceires. Eu sou a Stefani Ceolla e você tá ouvindo a oitava temporada do Posfácio Podcast de bate-papo com escritoras e escritores e com amigas e amigos. 

E hoje eu recebo uma delas pra falar de literatura e também de adaptação de um livro pra televisão: a Aline Britto Fialho.

A Aline é minha amiga, apoiadora do Posfácio, trabalhamos juntas em redação de jornal no velho testamento e tem um currículo maravilhoso. 

Ela é designer, bacharel em Desenho Industrial e tecnóloga em Gestão do Turismo, especialista em Comunicação Midiática e mestre em Patrimônio Cultural. Ela tem ainda formação técnica em Desenho de Moda e Estilismo e curso de Desenho de Moda na Accademia d'Arte da Itália.

Aline também é uma grande leitora e a gente trocou muitas figurinhas sobre a série baseada no livro “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende, e é por isso que chamei ela ao Posfácio.

O livro foi lançado originalmente na década de 1980 e se tornou um clássico do realismo mágico e da literatura latino-americana. O romance conta a saga de uma família muito complexa, e tem elementos como histórias de amor, sobrenatural e por fim remete à ditadura no Chile. A série foi lançada em 2026 pelo Prime Video.

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A apresentação, roteiro e produção são de Stefani Ceolla, e a edição da BZT!

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SCStefani Ceolla

Olá, poçoaceiras, poçoaceiros e poçoaceires! Eu sou a Stephanie Ceola e vocês estão ouvindo a 8ª temporada do Poçoácio Podcast, de bate-papo com escritoras, escritores e com amigas e amigos. E hoje eu recebo uma amiga querida para falar de literatura e também da adaptação de um livro para televisão. Aline Brito Fialho, seja bem-vinda ao Poçoácio! A Aline, além de minha amiga e apoiadora do Pós-Fácil, trabalhou comigo em redação de jornal em outra vida, espírito, outro espírito, é.

E tem um currículo maravilhoso que eu faço questão de botar aqui. Ela é designer, bacharel em desenho industrial, tecnóloga em gestão do turismo, especialista em comunicação midiática, mestre em patrimônio cultural, tá fazendo doutorado agora, é isso?

ABAline Britto Fialho

Em políticas públicas, que eu vou juntar tudo isso isso numa coisa só.

SCStefani Ceolla

Toda vez que eu penso que eu fui muito louca em fazer mais uma graduação, aí eu penso em você e eu penso que eu não fui tão louca assim.

ABAline Britto Fialho

Não, eu parece que cada coisa tira para um lado, mas eu sei que no meio do caminho é onde as coisas acontecem, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, faz muito sentido. E você também estudou moda, né?

ABAline Britto Fialho

Estudei, estudei nas horas vagas.

SCStefani Ceolla

Muito legal.

ABAline Britto Fialho

Mas aí a carreira dentro da redação me sugou, né? Eu achava que eu tava fazendo uma coisa muito mais séria do que fazer moda, mas é que o design, né, que vai permeando a comunicação, não tem como É isso que é o meu DNA, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, que faz sentido. E nesse momento você tá em Santa Maria, no Rio Grande do Sul?

ABAline Britto Fialho

Eu tô em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Retornei em— bom, eu saí do jornalismo depois de 16 anos, saí do jornalismo, né, de redação, que era a minha paixão, né? Aprendi muito, eu acho. Enfim, aprendi a ser gente. E eu acho que uma coisa importante também que me ajudou agora que trabalho como autônoma, né? Então sou uma nômade também digital. O método de trabalho eu acho que me ajudou a ter uma certa disciplina para poder tocar, né, tanto essa vida de estudante paralelo quanto porque Depois que eu saí, eu já emendei um curso e fui, e não parei, né?

E não parei. Enfim, é muito bom, mas eu acho que estudar é um pouco espelho, né? Cada curso tu vai te enxergando, tu vai conhecendo outras pessoas. Eu acho que é isso, né? A gente tá se buscando, né, de alguma forma.

SCStefani Ceolla

É terapeuta. Perdida agora que eu não tô estudando, já tô louca para emendar outra coisa.

ABAline Britto Fialho

Ai, gente, não! E conhecer gente, né, Stephanie? Eu acho que é muito, é muito bom, é muito bom. Mesmo que as pessoas sejam como um bom livro, né? Tempo dura às vezes amizade, o tempo tem o tempo de duração da quantidade de páginas do livro, né? Mas aquilo sempre vai somar um pouquinho, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, é, e você é uma grande leitora, né? A gente trocou muitas figurinhas ali falando da Isabel Allende, que é o tema desse episódio, sobre o livro A Casa dos Espíritos, porque foi um livro que a gente debateu no nosso clube de leitura do Pós-Face, Donas da Porra Toda. E aí sobre a série, e foi por isso que eu te chamei, porque eu fiquei muito emocionada com um post que você fez falando desse livro. E aí queria aqui para a gente começar você contar isso da tua relação com a obra da Isabel e com esse livro.

ABAline Britto Fialho

É bom, como eu tava te contando, né, o primeiro contato que eu tive com a obra da Isabel foi através desse livro, tipo lá no final dos anos 90, no meu primeiro vestibular. A gente não tinha todo esse contato com essa quantidade de informação. Enfim, o meu refúgio na minha cidade do interior era a nossa biblioteca pública, que era num casarão belíssimo de esquina, uma biblioteca pública municipal. E que eu acho agora, depois eu rememorando, acho que a Casa da Esquina também na época eu associei aquele casarão que seria a casa da da família, né?

Até tava antes de conversar contigo agora rememorando, olhando umas fotos, né, no Google, enfim. Mas o meu primeiro contato foi isso, né? Eu peguei esse livro e comecei a ler. Eu não havia passado no meu primeiro vestibular, que eu saí logo da escola, certo? E daí então eu tinha só o segundo de um ano inteiro para estudar, porque aqui em Santa Maria os vestibulares de verão, né? E comecei a ler esse livro no inverno também. Enfim, para mim era uma história que não, que não, não terminava mais, né?

Meu Deus, aquilo foi me envolvendo, me envolvendo de tal maneira que eu achava encantadora, né? E eu acho que o mais muito importante. Porque eu tô falando disso dá para o vestibular, porque foi o meu primeiro despertar, porque foi realmente essa, esse flagelo do que é a ditadura, né? A gente não estudava muito profundamente sobre isso, né? Era uma passagem, um capítulo do livro, né? E ali, da forma como foi apresentado, né, até para uma adolescente, isso era uma história muito cruel, né?

Enfim, é nua e crua, né? Tão didático, mas ao mesmo tempo muito pesada, muito cruel, né? Principalmente porque tudo isso retratado no corpo de mulher, né? Eu acho que é importante, e é quando a gente começa a despertar, né, nesse período. Enfim, e depois, com o tempo, eu fui descobrindo que o corpo da mulher também era muito importante nas obras da Isabel, né? E acho que isso tanto é que incomoda tanto os escritores homens, né?

Porque ela tem essa pecha, né, de, ai, a cafona, ai, a sentimental, ah, isso, né? Todo esse excesso. E talvez seja um pouco porque ela é a leitora em língua espanhola mais lida no mundo, né? Enfim, ela obteve um sucesso que muitos chamam de comercial, enfim. Mas a gente não tá para discutir a qualidade dessa qualidade, enfim. Mas eu acho que tem, tá tudo nesse pacote, né?

SCStefani Ceolla

Mas é um excesso que tá presente em tudo que a gente lê de realismo mágico escrito por homem. Tá lá no Gabriel García Márquez, tá no Juan Rulfo, tá no Vargas Llosa, em muitos autores homens. E aí a gente não vê esse dedo apontado. Aí quando é uma mulher que faz isso, ai meu Deus, tá cheia de coisa. Eu não vi Tem livro do Gabo que tem coisa muito mais cafona do que— e eu tô falando do meu autor favorito— do que tem na Casa dos Espíritos.

Eu achei ele refinadíssimo, apesar dos excessos. E os excessos, eles são o tom da nossa literatura. Eu acho que é um motivo para a gente se orgulhar e não se constranger, né?

ABAline Britto Fialho

Exatamente. Eu acho que eles enxergaram um pouco também na literatura dela, né? E tipo, perderam, perderam a— ou é, enfim, é isso, esses excessos. E eu acho que mais do que excesso, eu acho que é uma qualidade que ela tem em começar no início do livro, né? Já tô me antecipando um pouquinho aqui, mas a qualidade que ela tem em nos apresentar com detalhes descrições que ao mesmo tempo são descrições emocionais, né? É, tu enxerga o físico, mas tu vai sentindo, né?

E ela tem, eu acho que uma— eu que adoro pet, que sou do mundo pet, enfim, ela começa falando do Barrabás e termina do Barrabás, né? Ou seja, né, tem sutileza. Cada vez que tu vai relendo a obra, né, vai revisitando, tu consegue perceber outras coisas, né? Eu acho que o Barrabás ali tá meio pra mostrar o fim de uma infância, né, e o início de uma... Tem toda uma leitura possível de se fazer, né. Mas é isso, né, eu acho que a importância dela...

E depois eu, em visita ao Chile, quando eu tive a oportunidade de ir a Santiago, aí fiz questão de comprar o livro no idioma local, no país, na editora original, né, que é essa de bolsillo, que é a que fez... Essa é uma das capas originais, né, e depois, em outro momento, Eu fui para Itália e tive oportunidade de comprar o mesmo livro com a mesma capa, né, mas de outra editora, e me dá o trabalho de ir comparando os textos, como eles são muito parecidos, né.

Aí fico pensando, é um talento tu ser um tradutor, né. É, é, meu Deus, é um talento muito grande.

SCStefani Ceolla

Impressionante.

ABAline Britto Fialho

Enfim, mas eu acho que é um pouco isso, né, essa presença da figura feminina que é o diferencial e que talvez seja o que incomoda tanto, né, é o espaço da mulher falar da mulher, tanto que ela tenha, como eu falei, né, a pecha de dos escritores dizerem que ela é uma mulher que escreve textos de mulher para mulheres, né?

SCStefani Ceolla

Porra, eles estão precisando ler um pouquinho mais, né?

ABAline Britto Fialho

Exato, né? É os cursinhos deles, né?

SCStefani Ceolla

É, não, é muito paia. E assim, eu, diferente de você, eu fui ter o contato com a Isabel só agora. Eu não tinha lido ela. Eu lembro de ter A Casa dos Espíritos na minha casa quando eu era criança, assim, minha mãe ter o livro, mas eu não li porque eu achava que era sobre espiritismo e eu tinha medo. Aí eu não li. E eu lia todos os livros da minha mãe, assim, Paulo Coelho, Daniela Steele, sei lá o que tinha lá, aquelas Júlia, Sabrina que brincam na rodoviária.

E esse eu não li porque eu achava que eu ia ficar com medo. Então eu fui ler só agora porque foi uma das escolhas do Clube do Livro. E eu já fiquei— e assim, eu não sabia sobre o que que era, tá? Eu não sabia, eu nunca— eu acho que eu vi o filme, aquele filme hollywoodiano horroroso, em algum momento. E aí eu só achei um filme ruim e talvez eu nem tenha terminado de assistir. Então o livro eu fui meio que tipo do zero assim. E eu já amei o início ali pelo Barrabás, o cachorro da família.

Aquilo também já me conectou rapidamente com aquelas personagens. Entender que essa é uma história contada por personagens mulheres, apesar de às vezes no livro eu ficar confusa sobre quem tá contando. E depois no final eu entender por que que eu fiquei confusa, porque não era uma pessoa só, né, assim. Então acho que ela foi muito inteligente assim nisso de deixar a gente na dúvida sobre os narradores mesmo. E isso se resolve muito bem no final.

E eu sabia que ele remeteria de alguma forma à ditadura no Chile, mas não sabia como. E eu até esqueci disso. Então eu fui lendo e fui me envolvendo na história daquela família. E ele começa ali, tipo, pô, o fino do realismo mágico, né? Tem episódios divertidos. Aí tem aqueles episódios muito violentos ali, né? Com o protagonista ali, o Esteban Trueba, um homem escrotíssimo, violentíssimo, né? Então aquilo foi me deixando muito mal.

E aquilo, e aquilo que você falou também, de você perceber que tudo se dá no corpo da mulher, né? A frustração do homem, ela é descontada no corpo da mulher. O abuso sexual, tem abuso de toda forma ali, né? Até que chega na ditadura. E aí achei isso também muito inteligente da Isabel fazer, porque assim, eu não posso dizer que é um livro sobre a ditadura no Chile. Eu posso dizer que também é, mas não é só, né? Então eu acho que Talvez ela tenha conseguido fazer com que muitas pessoas lessem esse livro e aprendessem mais sobre a ditadura, como aconteceu com a gente, sem necessariamente fazer um livro panfletário sobre o assunto.

Eu não tenho nada contra livros panfletários sobre esses assuntos, adoro inclusive, mas eu acho que é um jeito muito inteligente de você trazer leitores que talvez não estejam a fim de ler isso, né?

ABAline Britto Fialho

Exato. Não, isso realmente foi uma— porque isso torna a obra, infelizmente torna ela cada vez mais atemporal, né? Porque se tu pensar que foi um livro que foi escrito num período lá contando uma história do Chile de 1973, ela quase 10 anos depois ela começa a escrever, né, sobre uma memória dela, que o que se sabe é que ela escreveu quando soube que o avô ia morrer, ela tava morando exilada na Venezuela, né. Enfim, depois a gente, uma outra geração, né, pós-ditadura no Brasil, onde tu consegue ler outros livros, né, e pensar que nos anos 90 tu já tinha títulos latino-americanos circulando muito bem em escolas públicas, em bibliotecas públicas, né.

Enfim, até chegar hoje, meu Deus, é como se a gente tivesse falando exatamente sobre Tudo, exatamente tudo, até a moda vintage, né? Porque tudo ali, tudo é atemporal.

SCStefani Ceolla

Não, gente, tem greve dos caminhoneiros. Eu quase morri quando eu encontrei aquilo, né? Porque assim, bom, vou dar um contexto muito geral do livro, né, para caso alguém também descobriu agora ou tá descobrindo. É a saga de uma família por gerações, né, 3 gerações pelo menos, ou 4, enfim. E tem um momento em que finalmente o Chile elege um governo de esquerda. Eu tô falando do Chile, no livro acho que não é nomeado o país, né?

ABAline Britto Fialho

Não é, não é.

SCStefani Ceolla

A gente diz é o Chile porque a Isabel é de lá.

ABAline Britto Fialho

Exato, exato, é indissociável, né?

SCStefani Ceolla

É, tem toda essa ligação. Mas enfim, é eleito um governo de esquerda depois de muitos anos só de governo de direita, e a direita financia uma greve dos caminhoneiros. E boicote de alimentos. Isso que a direita faz muito bem. E eu fiquei horrorizada quando eu li aquilo, porque eu pensei, cara, a gente viu isso agora, a gente viu isso poucos anos atrás aqui no Brasil, né? É isso, é muito atual. É, você entende por que que a direita se revolta.

E não só a direita, né, mas tô falando de pessoas conservadoras, a elite de maneira geral se revolta com um governo de esquerda porque eles não querem justiça social de jeito nenhum, né? E o Esteban Trueba é esse personagem que é o patriarca dessa família, que chega nessa família, né? Eu entendo que na verdade a grande personagem é a Clara, né, a protagonista. Ele se casa com ela e eu tive alguns momentos no início que eu até simpatizei com ele assim, né?

Mas vai passando, ele se esforça bastante, né, para acabar assim com a simpatia.

ABAline Britto Fialho

Mas a respeito disso, alguns comentários que eu li, que antes da gente entrar nesse contexto de série e livro, exatamente isso, que acham que um dos pontos positivos é colocar o Estevão no lugar que ele deveria estar, e que no livro muitas vezes isso é, isso é aliviado, né, principalmente nas relações ali com as mulheres, que ao menos quando se contrapõe, e lá no final com a neta, né. Então, né, muitos críticos dizem que se aliviou e que a série conseguiu tipo botar ele, ele viveu praticamente uma, como é que se diz, um exílio em vida, né, no momento que teve aquelas mulheres que ele tanto amava, né?

SCStefani Ceolla

Eu lembro que acho que já podemos ir entrando na série assim. A série foi lançada agora em 2026 pela Prime Video. Eu fiquei muito feliz com o resultado assim, eu gostei dela de maneira geral, mas o grande ponto alto para mim é esse: é, eu achei que a série foi mais justa com Esteban do que o livro é. Assim, no livro rola meio que uma redenção dele, né? Ainda que Né, assim, aquelas mulheres que ele maltratou tanto meio que perdoam ele assim, né?

Mesmo que isso não seja assim, ah, é uma super passação de pano, não é, mas ele se sai bem no final. E na série não, né? Na série morre sozinho aí, veio filho da puta.

ABAline Britto Fialho

Tu sabe, claro que eu vou fazer agora uma referência porque tu é um pouco mais nova do que eu, mas enfim, né? Esse homem que envelhece aos olhos dessa neta, né, que tem um olhar de ternura, apesar de nenhum momento nela desconsiderar, né, a pessoa violenta e criminosa que ele foi, enfim, tudo, né? Tanto com todos, mas me remeteu muito a figura do Pinochet no final da vida. Não sei se tu tem referência de algumas imagens dele quando ele foi lá no final de vida, chega em Haia numa cadeira de— depois vamos averiguar se foi em Haia mesmo, mas no tribunal ele chega lá numa cadeira de rodas, todo velho, gagai.

Tu pensa assim, de que existe, né? Mas enfim, uma cabeça de adolescente, né? Porque foi também na época que eu li o livro. Pensei, de que vale agora para essa pessoa Mas vale para história, né? Vale para— e eles trabalham muito melhor, o país que, né, tem uma memória da ditadura muito mais bem construída do que a nossa, né? Com todos os monumentos, né? O que a gente chama que são as âncoras, né, de memória que eles têm nos espaços de memória, né?

A data, como a data é muito— 11 de setembro, né, deles— muito bem tratada assim, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, é verdade. Não, e isso de condenar essas pessoas, mesmo que seja no fim da vida delas, assim, né? A gente vê os cara que morrer de velho só, né? Eu acho isso muito lamentável. E aí, quando eu comecei a ver a série e eu vi que o Esteban Trueba jovem era o Alfonso Herrera, que é o ator que fez Rebelde, sim, eu fiquei com preconceito. Eu pensei, não vai dar, porque o Esteban é um personagem que vai exigir muito da pessoa, né, de quem vai estar interpretando. E eu acho que o cara entregou muito, tá?

ABAline Britto Fialho

Eu fiquei surpresa. Deu conta, deu conta, deu conta. E até seduziu um pouco, eu acho, né?

SCStefani Ceolla

Eu acho que sim. E assim, eu acho que é uma coisa para a gente analisar assim, né? Deve ter gente sim muito mais especializada em cinema e tal analisando isso, mas as personagens mulheres, conforme elas vão envelhecendo, a atriz vai mudando, né? Vão trocando de atriz com todas elas. E o Esteban Trueba não, é o Alfonso desde ele jovem até ele morrer bem velho. Eu não achei isso um problema, assim, talvez ele seja o grande nome do elenco e a gente sabe que precisa comercialmente também, né, que a série apareça.

Mas é uma coisa pra gente refletir, né? As mulheres jovens são sempre super jovens, né? Até mesmo a Clara, já na vida mais madura, é interpretada por uma atriz bem jovem. Sim, e o homem, eles meteram um cara e fodeu.

ABAline Britto Fialho

E a Clara era muito mais jovem que ele, né? Teve um momento que, porque, ou não sei porque, o cabelo fica branco ali, parece, nos dá a ilusão que eles tinham uma idade aproximada quando não tinham. Tinha um abismo entre ele, inclusive entre ele e Rosa. E entrando agora nas, não, e outra coisa assim, agora que foi falando isso, eu pensei, ah, sei lá, vamos abrir para as amorinhas, né, da literatura, da representação também, porque talvez ele seja esse personagem importante porque ele é um se tu for perceber, ele tá na história da avó, da Nívea, ele passa por todas as mulheres, né?

Ele é esse mesmo. Mas enfim, né, é isso. As vozes são Esteban e Alba, né? E alguns outros críticos consideram a Clara por causa dos cadernos, dos diários, cadernos de contar a vida.

SCStefani Ceolla

Eu achei lindo o nome. Sim, é, eu acho que faz sentido assim. E é um fato, né, o Esteban é a grande constante nessa história, né? Todas as personagens femininas vão mudando, elas se transformam mesmo, né? Da infância até a vida adulta, elas se transformam muito, elas têm muitas camadas. E o Esteban só piora, só piora.

ABAline Britto Fialho

E é o Átila, né, onde ele toca, tipo, ele foi o que plantou o que foi, né? Na verdade, ele foi a causa, né? Enfim, sei lá, ele é horroroso.

SCStefani Ceolla

Bom, a série eles dividiram em 8 episódios que tem menos de 1 hora cada um. Eu achei que deu conta de tudo assim.

ABAline Britto Fialho

Posso entrar com mais uma curiosidade, já que tu entrou com o RDB? Eu acho que vale dizer também que essa produção foi co-dividida entre a própria Alende, né, que para dar um caráter mais latino, sim, a coisa, né, ela com o olhar dela, né, escolhendo também os atores que apesar de não serem todos latinos, latinos não, sim, latinos, tem a Clara que é espanhola, enfim, que eu achei fantástico o elenco. Mas o curioso é quando começa a ver Eva Longoria, né, para quem não lembra Desperate Housewives, né, é verdade. Mas achei muito bacana, né, porque esse olhar da mulher latina mesmo, enfim.

SCStefani Ceolla

E faz toda a diferença, né? Porque eu olhei pra série como uma produção latino-americana, como foi a série dos 100 Anos de Solidão, assim, que eu acho que o grande acerto também foi esse. Primeiro, eles, os filhos do Gabo, estarem envolvidos na produção. Nesse caso, a Isabel Helene tava diretamente envolvida também. E se passar aqui, feito por uma equipe que a maioria é da América Latina. Faz muita diferença, né?

ABAline Britto Fialho

Eu acho que vale falar também da abertura, né? Foi uma, foi todo em tempos de AI, ele foi todo feito em computação gráfica, né? Ou seja, tem um talento ali de designers atrás, né? Deixa eu defender o meu quinhão. Enfim, que eu acho belíssima a trilha com uma cantora chilena também, né? Enfim, a empresa que fez todo CGI foi mexicana. E eu acho que a abertura também ela já conta uma história, né?

SCStefani Ceolla

Conta.

ABAline Britto Fialho

Acho muito, eu ando muito fanática por essas aberturas de série desde The White Lotus. Acho que ele tem uma história paralela sendo contada, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, e são cartas de tarô, né, que conforme as personagens são apresentadas, elas estão relacionadas a uma carta, né? Então, só que dão uma chave de interpretação assim, né?

ABAline Britto Fialho

E que mostram, e o castelo de cartas na verdade é o casarão da esquina.

SCStefani Ceolla

Isso, e mostra, reflete essa fragilidade dessa família, desse laço familiar que pode se romper a qualquer momento, tá sempre naquele limite assim, né? Eu achei tudo também, achei lindíssimo. Bom, vou entrar nos episódios, vou falar da sinopse de um a um assim, mas vamos, se você for lembrando de alguma coisa e quiser ir me interrompendo, introduzindo, fica à vontade, tá? O primeiro episódio se chama Rosa, a Bela. E a sinopse é: Alba retorna à casa de sua família e descobre os diários da sua avó Clara.

Durante a leitura, ela embarca numa jornada esclarecedora através do tempo, descobrindo as forças que moldaram o destino de Clara e os ecos que ainda moldam o seu próprio destino. É bem a introdução do livro, né, com ela contando a história da família. Achei muito fiel ao livro, assim, muito fiel mesmo. Ela descobrindo aquilo e ali ela descobrindo a história da família.

ABAline Britto Fialho

Algumas críticas que eu vi também, que acharam que foi muito antecipado mostrar a personagem, porque exatamente por essa confusão que tu teve entre a fala do quem está contando a história, né? Mas eu acho que a gente tem que dar o benefício porque é uma obra televisiva, né, streaming na verdade. Então tem que ter uns pulos do gato aí para poder amarrar a história, né? Mas concordo que eu achei super fiel, super fiel mesmo.

SCStefani Ceolla

Esse é o tipo de coisa que inevitavelmente se suprime quando vai para o audiovisual, né, que é o narrador, né. É uma coisa complicada de se manter essa ambiguidade que o livro tem.

ABAline Britto Fialho

É muito difícil fazer na tela, né, não tem como trazer para TV, não tem.

SCStefani Ceolla

Eu lembro da adaptação para o cinema da Hora da Estrela, da Clarice, porque na Hora da Estrela tem um narrador no livro que no filme não vai ter, porque Como é que ele vai caber ali? Ele não cabe. E ainda assim eu achei uma baita adaptação, acho que funciona super, mas teve que suprimir ele, né? Exato, é triste, mas às vezes precisa. O segundo episódio se chama Las Tres Marías. Tres Marías é o nome da fazenda, né, do Esteban. Ele nesse episódio, ele se instala nessa propriedade, né, que já era, já veio do pai dele.

O Esteban tava todo fodido trabalhando com mineração porque ele queria achar ouro para poder casar com a Rosa, que era filha dessa família por quem ele era apaixonado. A Rosa morre, né? Belíssima atriz que faz ela, belíssima. Meu Deus do céu, belíssima! E a cena toda muito bonita ali. A gente já tem uma cena de abuso, né, nesse segundo episódio já. Exato, é o cara mexendo no cadáver dela ali, né? E aí o Esteban fica muito mal e tal, aí ele volta universidade e depois decide se instalar em Las Três Marias recuperar essa fazenda.

A Clara Del Valle era a irmã mais nova da Rosa, que era uma criança ali quando a Rosa morreu. Elas eram muito apegadas e a Clara fica sem falar, né, depois que a Rosa morre. Ela fica muitos anos sem falar e ela só volta a falar quando ela diz que ela vai casar em breve.

ABAline Britto Fialho

Exato. E aí um detalhe, dois detalhes que eu vou incluir. Quando na narrativa do audiovisual, né, que eu achei super bonito e que é o que vai nos colocando dentro do Chile também, né. Por mais que a autora não queira mostrar, né, determinar que é esse lugar, quando aparece ele no deserto, né, que tu lembra, tu sabe que é o deserto do Atacama, que depois do período de muita seca vem aquele período da pata de guanaco, né, que são aquelas flores rosas, né.

Apesar de ser uma computação gráfica, eu achei muito lindo aquilo porque eu acho que foi um momento de esperança, né, do Esteban, né, um momento bom dele ali para mostrar que ele tinha alguma coisinha boa. E o segundo também, que quando ele vai fazer as tratativas para casamento, né, a família toda cheia de dedos, ah, porque ela tem coisas diferentes, que não sei o quê, não sei o que lá, e ela não tá falando, ela não fala. Ele não precisa de uma mulher que fale, eu preciso de uma mulher que tenha filhos, né.

Aí ele já começa também a comprar a prateleira dele, né, escolher as mulheres dele na prateleira.

SCStefani Ceolla

É isso que ele faz. E bom, a coisa diferente que a Clara tem é o nome do terceiro episódio, Clara Clarividente. Eles se casam, o Esteban constrói essa mansão, né, para essa família, que é o Casarão da Esquina, né, belíssimo. Eu amei também como ele tá representado na série, achei que eles arrasaram assim. E nasce a primeira filha do casal, a Blanca. É interessante que na série ele só tem mais um filho, né, e no livro são dois, são gêmeos, né.

ABAline Britto Fialho

Eles têm um capítulo à parte do livro, né? Que no livro são 14 capítulos mais o epílogo, e a série foi 8. Mas a gente entende, é isso, né? Mas tem uma importância na história deles, né? Porque eles são dois gêmeos, são duas personalidades opostas que se apaixonam por uma mesma mulher, que também não aparece na história, não aparece. Mas ali tem um episódio de violência com essa mulher também, né? A Clara e a Rosa, elas não são filhas únicas, né?

Que também não aparece. Elas dividem quartos, aparecem crianças lá. Hoje eu vou dormir com essa, hoje Entende-se que ela tem preferência pela irmã, mas enfim, né? Isso foi uma escolha, né? Uma escolha da editora.

SCStefani Ceolla

É, e né, é do jogo. Bom, nesse episódio aparece uma personagem que é muito importante também, que é a Férola, que é a irmã do Esteban, que se apaixona pela Clara, que nelas assim é muito nítido. E bom, o Esteban passa mais tempo em Las Tres Marías do que na cidade, as duas acabam ficando muito juntas, muito unidas. E o Esteban, todo esse tempo que ele fica em Las Três Marias, ele comete as maiores atrocidades, assim. Ele é um homem violentíssimo, ele estupra as mulheres, ele engravida as mulheres, não assume os filhos.

Ele é o pior tipo de ser humano, assim, né, que pode ter. A Clara não tem conhecimento disso, assim, né. Ao menos não no primeiro momento. Depois ela vai acessar isso também. E a Férola tá ali como essa figura que cuida dela. Porque os pais dela morrem, né, num acidente muito trágico. A irmã já tinha morrido. Então a Férula acaba se tornando essa base familiar dela, né? Mas Esteban obviamente não vai gostar nem um pouco, que ele percebe essa aproximação.

ABAline Britto Fialho

E não sei se já no próximo, e a própria morte dos pais também é um alívio cômico ali na história, né? Inclusive no livro, é porque é muito, muito engraçado assim a maneira como é. Foi muito, muito parecido assim com quando eu li o livro Sentimento, aqueles atores ali com aquela leveza, né?

SCStefani Ceolla

Não, e a cabeça, e aquilo tudo. Eu nunca achei que eu ia rir tanto com alguém achando uma cabeça, mas assim, a gente—

ABAline Britto Fialho

e a cabeça, e o próprio, quando ela chega para conhecer a casa, né, que era, meu Deus, aquela opulência toda, e ela não liga para casa, Clara, né? Chegando, Esteban ergueu aquele castelo para ela, e aí quando ela entra no quarto tem o Barrabás empalhado.

SCStefani Ceolla

Meu Deus, o Barrabás ali, o tapete do Barrabás, né? Eu ia matar esse homem. Eu, e o cara achou que era uma boa.

ABAline Britto Fialho

Acho que sim, achou.

SCStefani Ceolla

Olha a homenagem, vou fazer um tapete do cachorro que ela amou.

ABAline Britto Fialho

E que depois esse tapete volta lá no final na história, né? É por isso que eu digo que o cachorro tá sempre costurado na história.

SCStefani Ceolla

Apareceu aqui, eu tô olhando a sinopse, a imagem da casa assim, a fotografia muito bonita, né, Aline? Aquele ponto verde, aquela coisa, e o sol parte dela assim, muito demais, demais.

ABAline Britto Fialho

Era um palacete, né? Aí tu pensa como tinham dinheiro, como tinham dinheiro. E acredito que fosse exatamente assim, né, aqueles, aqueles palacetes que a gente vê hoje em dia nessas capitais, né.

SCStefani Ceolla

Enfim, bom, eles têm uma filha, né, filha mais velha é a Blanca. A Blanca começa aí todos os anos, enfim, com muita frequência com eles durante férias escolares e tal, lá para Las Tres Marías. E desde muito pequenininha ela conhece o Pedro III, que é filho do Pedro II, que é o capataz, que é neto do Pedro I. Eu vou fazer um só um parênteses aqui porque eu acho muito engraçado que tem até quando a gente fez o encontro do Clube do Livro A Larissa falou disso e a gente deu muita risada.

Larissa Guerra, do podcast Donas da Porra Toda. Tem uma hora no livro que parece que a Isabel meio que manda um shade assim pro Gabriel García Márquez, porque o Esteban queria que o filho homem tivesse o nome dele, né? E aí a Clara responde: não, esse negócio de ficar repetindo nome é só pra gerar confusão no livro.

ABAline Britto Fialho

Exatamente, é igual o Zenyatta.

SCStefani Ceolla

Mas sai pra lá, Aureliano. Mas tem essa repetição de nomes, que é o Pedro III, Pedro II, Pedro I, que são esses capatazes lá de Las Tres Marías. A Blanca e o Pedro vão crescendo e se apaixonam, vivem um amor assim linda, a história de amor deles, né? Eu ficava lendo o livro e torcendo pelos encontros deles todo ano, assim, uma história muito bonita, muito pura, muito, muito legal. Porém, né, o Esteban não acha nada legal. E quando ele descobre, né, esse relacionamento, ele flagra os dois, ele quebra tudo, agride ela, agride a Clara, né, quebra os dentes da Clara, que é uma coisa que no livro me marcou muito assim.

Imaginar aquela mulher belíssima sem dentes, e ela fazia questão de ficar sem prótese, sem nada, como uma lembrança do crueldade dele assim, né. E elas voltam para capital, as duas, e ele fica lá assim. Ali é um grande momento de ruptura. Exatamente.

ABAline Britto Fialho

Aí começa o, como é que se diz, a sentença dele em vida, eu acho, né?

SCStefani Ceolla

É, acho que sim, acho que é isso mesmo.

ABAline Britto Fialho

Ali é que eu acho que a série traduz muito bem isso. Tu percebe essa ruptura dessa família do Pedro, né? Pedro 1, Pedro 2, Pedro 3. Tem a história da coitada da Pancha, né, que é a mãe do filho enfim, né, que tá nessa linhagem dos Pedros. E outra coisa também, que isso é interessante também no livro, tem vários pontos que ela dá a figura da mulher, né, ela vai costurando assim. Eu tô com essa palavra costurando porque eu quero falar sobre os bordados da Rosa, né, daqueles animais fantásticos ali, enfim, né, os bestiais, né, que eles chamam.

E ao mesmo tempo tem o mesmo trabalho que a Pancha faz, que é a cortina, né, enfim, né. Então é como se fosse um destino da mulher, né. Ao mesmo tempo ele tá remetendo, elas não têm diferença, né.

SCStefani Ceolla

Né?

ABAline Britto Fialho

Não há diferença porque a Rosa, né, enfim, elas acabam tendo, a mulher como mulher, ela acaba tendo o mesmo destino, né, para essa sociedade, né?

SCStefani Ceolla

E é assim, e é esse caso, o abuso que ele cometeu contra a Pântia, que sela o destino da família, né? Porque ele, a Pântia era irmã do Pedro II, ela engravida, ela trabalhava na casa, né, ali do Esteban, ela engravida, o Esteban não assume, Esse filho, depois de muito tempo, imagina, esse filho vê o modo como Esteban trata os filhos legítimos, entre aspas, sabendo que era filho, sempre soube, é renegado por ele de todas as formas.

Vai em um certo momento pedir ajuda dele, já adulto, para entrar na polícia. E lá no final, esse homem dá o jeito dele de se vingar, assim, né? Mas você espera a gente chegar lá para falar o que que acontece, que é terrível. Bom, no 5º episódio, chamado Tempo dos Espíritos, é onde a casa aparece com muita força assim também, né? Porque aí a Clara tá nessa casa, ela tem, ela se aproxima dessas irmãs astrais que são a Luísa, Nora e a Marta, que são mulheres que também têm essa clarividência. As 3 irmãs Mouras, isso, são maravilhosas, né?

ABAline Britto Fialho

São personagens Que bom que isso, a série, se eu não me engano, no livro elas também, óbvio, né, que elas chegavam, mas eu tinha impressão que elas chegavam meio flutuando, meio atravessando paredes, não tinha alguma coisa assim?

SCStefani Ceolla

Mas para mim elas eram meio fantasmagóricas.

ABAline Britto Fialho

Exatamente. Mas eu achei que na série elas estavam fantásticas como foram apresentadas e são engraçadas.

SCStefani Ceolla

E aí aquela casa cheia, né, porque a Clara tinha isso de abrigar artistas, abrigar muita gente, a casa era enorme, vivia uma bagunça. Brunça e sei lá, sessão espírita, ela flutuava ali assim, é o auge do realismo mágico mesmo, né? Exato, acho que é lindíssimo. E a Férola já tá longe, né? Porque o Esteban, quando ele vê essa proximidade da Férola e da Clara, ele expulsa a Férola de casa. É muito triste isso assim. A atriz que faz a Férola também gostei muito, também gostei bem essa rigidez dela, apesar de acho que apareceu menos do que eu esperava assim.

ABAline Britto Fialho

Eu também, eu tive a impressão que eu tinha muito mais referência dela no livro, mas também fui tentar buscar na minha memória, não consegui lembrar assim, mas parece que ela tinha uma presença muito maior também.

SCStefani Ceolla

E aí também a Blanca fica longe do Pedro, né? Depois disso, Pedro vai para o mundo. Bom, eles crescem, o Pedro vira um comunista, um cantor, um artista, e a Blanca cresce na casa ali da família na capital. Então eles acabam se afastando assim, só que a Blanca tá grávida do Pedro, né? Então, e não, eles não, não podem enfim ter contato, não conseguem ter contato. O Esteban vai atrás do Pedro para matar ele, depois ele diz para Blanca que ele matou, né?

Então para Blanca ele tá morto. A Blanca acaba conhecendo isso. Eu já tô entrando no episódio 6, chama A Menina Alba. A Blanca acaba casando com outro homem, personagem muito louco também, francês, que o pai arranjou.

ABAline Britto Fialho

Era um, na verdade, era do prostíbulo que ele frequentava, né, da casa de tolerância. E lá ele conheceu esse francês que meio quis fazer alguns investimentos com ele. Era uma coisa muito confusa, né?

SCStefani Ceolla

Toda pinta de picareta assim, né? Totalmente.

ABAline Britto Fialho

Era um bom vivão, era, não sei o que dizer.

SCStefani Ceolla

E depois assim, é muito triste o que acontece com a Blanca nesse episódio dela com esse cara, mas também tem uma parte com muito alívio cômico, né, que é assim, a casa do cara era o surubão de Noronha assim, né, no meio do deserto.

ABAline Britto Fialho

Exatamente, né, isso aí para também, olha, os europeus estranhos que vem para cá, exóticos, ia dizer europeus que vem para cá.

SCStefani Ceolla

Eu amei isso, tá, o exótico é o francês, não é assim, gente, que é isso. Isso. E coitada, Blanca tá lá grávida no meio disso, caos completo, né?

ABAline Britto Fialho

E aí ela sai. Eu acho que daí tem uma linguagem do audiovisual que foi muito feliz, que é contrapor essa caminhada dela no deserto com aquele sapatinho de salto, ou seja, o deserto, a seca, tudo, para contrapor o momento que ela chega e que ela deságua, né? É isso. Eu achei tão— até me emocionei assim quando eu assisti. Quando eu vi, parecia que eu ia chorar junto assim. Assim, porque parece que a gente tava segurando com ela tudo aquilo naquele sentimento árido, tipo, não é momento de chorar agora, minha filha, vai com as tuas perninhas e tu vai chegar.

Enfim, né, que a gente sabe que isso é metafórico, mas aí no momento que ela chega, tudo vai, né? E aí ela chora tudo que ela não— exatamente, né?

SCStefani Ceolla

É muito, me pegou muito nesse, nessa parte dela no deserto, ela vestida de uma maneira super imprópria para aquele lugar, né? Aqueles vestidos incomodando ela. Nossa, tem um momento em que ela rasga aquele vestido. Eu já tava me rasgando assim, tipo, meu Deus, não aguento aquilo.

ABAline Britto Fialho

Mas o saltinho não cai do pé, saltinho firme ali. Era um sapatinho da Margarida do Pato Donald.

SCStefani Ceolla

Belíssimo, belíssima ela, né? E bom, ela chega e volta para casa e tem a filha, né? Alba nasce, a Blanca começa a se dedicar a ela, tem o tio, né, que é o Jaime, que se aproxima muito, a Clara tá ali, ajuda muito também. Nesse episódio mostra muito, nesse sexto, a Alba fazendo a cerâmica dela, sim, e a arte dela, que é como aqueles monstros, personagem rosa bordado lá no começo.

ABAline Britto Fialho

Exatamente.

SCStefani Ceolla

Sem saber, né? E bom, a Clara tá ali mais para lá do que para cá, no sentido de tá mais em contato com os espíritos do que com os seres humanos.

ABAline Britto Fialho

Assim, eu acho que daí ela se desconecta totalmente, né, dessa vida mundana, né? Até porque daí a casa é um portal, né? Isso, aquele teto, aquele domo de vidro, né? Tem toda uma, eu acredito, né, que tem toda uma simbologia ou um recurso visual.

SCStefani Ceolla

Enfim, é, faz muito sentido. E a Alba, ela cresce no meio disso assim, né? Então imagina para aquela criança que ele é um ambiente super normal assim, né? A vó tá flutuando, todo mundo conversando com os espíritos, tem um monte de artista aqui, um monte de gente super excêntrica, e aquela criança cresce ali. E por mais que o Esteban esteja na casa, ele sempre tá isolado, né? Ele tá no escritório dele, que tem outra cor, né?

ABAline Britto Fialho

Fazendo as cagadas dele, né? Fazendo só merda, virabolando a cagada dele.

SCStefani Ceolla

É, começa, ele entra na política, se torna senador, começa a se reunir, reunir os cara de direita, porque aí a gente não pode deixar a esquerda crescer, não sei o quê, não sei o quê. E nisso eu acho que é muito legal, e a série mostra de certa forma, talvez não aprofunde tanto, mas o livro mostra muito bem como como a esquerda vai se articulando, principalmente no interior do país, né, na área rural, né, junto dos camponeses. Essas pessoas estão totalmente abandonadas pelo Estado.

ABAline Britto Fialho

Exato.

SCStefani Ceolla

É ali que a esquerda começa a ganhar força. E essas pessoas que estão ali isoladas nos seus palacetes não estão vendo isso, né.

ABAline Britto Fialho

E o voto a cabresto também, né, quando ele descobre que tinham, estavam panfletando lá, lá se vai ele e mostrando quem que vai votar, todo aquele Tudo aquilo que a gente viu na nossa história aqui, né? A gente tá tudo muito próximo nesse sentido, inclusive na história recente.

SCStefani Ceolla

Mas, e assim, eles dizem muito, né, tipo, nunca vai acontecer da esquerda se eleger. Isso, eles têm essa confiança, né? Mas a esquerda se elege no país. Nisso, a Alba já é adolescente. A mãe Blanca reencontra com o Pedro III, né, porque ele se torna um ministro, né, do governo.

ABAline Britto Fialho

Então ela disse, ele vira um cantor famoso, né, popular, e ele começa as canções: vem, vamos embora.

SCStefani Ceolla

É o Geraldo Vandré deles, né?

ABAline Britto Fialho

Não, mas tem algumas referências, né, que fazem quanto a quem é cada um dos personagens, né, enfim, com personagens da vida real, né, que o poeta que aparece na história é o Pablo Neruda, tanto que ela faz uma referência, né, abre o O presidente é o primo, tio, nunca sei a relação, né, que é o Allende. E o Pedro é o Victor Jara, que é um cantor chileno. Exato. E a Alba seria ela, né? Enfim, mas tem toda essa história, né, que seriam essas inspirações dela.

SCStefani Ceolla

É, no livro, então não tem como desconectar.

ABAline Britto Fialho

Por mais que ela não diga que está no Chile, tem esses elementos, né?

SCStefani Ceolla

Não, não tem como. Mas eu achei lindo que no livro fala só o poeta e a gente sabe que é o Neruda.

ABAline Britto Fialho

Neruda. Exatamente.

SCStefani Ceolla

Ela te dá pouquíssimos elementos sobre quem é, mas você sabe que é o Neruda. E eu achei isso tão bonito, porque é uma maneira também de respeitar a grandiosidade dele, né? Se eu tô falando do poeta, eu tô falando do Chile, só pode ser o Neruda.

ABAline Britto Fialho

O poeta, ponto.

SCStefani Ceolla

É ele. Achei lindo, achei muito bonito isso. E bom, nesses dois últimos episódios, o sétimo se chama O Terror e o oitavo se chama A Hora da Verdade. Que eles são um pouco mais longos, eles têm quase uma hora cada um, é sobre a política efetivamente, né? Então ali no Terror, a Alba começa, tá na faculdade e tal, tá ali no pessoal de humanas, né? O pessoal de humanas é complicado, né? Começa a se meter com política.

ABAline Britto Fialho

Exato.

SCStefani Ceolla

Se apaixona por um cara que tá ali do DCE, bonitinho e tal, que é o Miguel. O Miguel super militante, como missão assim, vamos pegar em armas e tal. E eles se apaixonam e é lindo também, é outro amor proibido, né? Assim, porque imagina, ela é neta de um senador de direita que tá basicamente financiando um golpe.

ABAline Britto Fialho

Exatamente. Tanto que ela tá ali sem saberem quem é ela, né? Até que chega um parente, né? Parente, chega o parente e diz, fulana, tu tá aqui, você sabe quem ela é?

SCStefani Ceolla

Tem um vultado que tu tá aí, é babado. E bom, E o Esteban lá junto com a galera da direita tá financiando esse golpe de estado que vai culminar na morte do presidente, né, que é de esquerda, e na morte do próprio filho dele, o Jairinho, que é um médico que tava aqui, se tornou amigo do presidente, ia lá jogar xadrez com ele. Era um médico que já tinha toda uma relação, é um médico do SUS, né, era um médico do SUS, exatamente, o povo assim.

E ele tá no palácio quando o palácio é bombardeado, o Palácio do Governo, E ele é levado pelos militares, é um golpe militar, e ele é um dos primeiros mortos ali nesse golpe. Então já na primeira, o Esteban já mata o próprio filho, assim, né? Então ainda fica aquela saga do tá desaparecido, né? Demora até confirmarem que foi um dos mortos, assim.

ABAline Britto Fialho

É até entender, eu acho, né, esse processo de desaparecimento, né? Isso é uma coisa tão— a gente tem Argentina também como referência, né? Que caos, enfim.

SCStefani Ceolla

E o Esteban tá lá mega negacionista assim, né? Não, isso aí os militares estão tomando poder para devolver o país para gente, né?

ABAline Britto Fialho

Não, ele achando que tem os contatinhos deles, os coitadinhos.

SCStefani Ceolla

Vou falar com não sei quem. Os cara tão cagando baldes para ele, que animais! E que esses loucos se ferrem assim. É exatamente o que aconteceu em todos os países da América Latina e que quase aconteceu de novo aqui, que a gente não pode.

ABAline Britto Fialho

O dinheiro dele era só para patrocinar, não era, não era o poder poder de decisão nem nada, né? Uma guerra política.

SCStefani Ceolla

E é um outro isolamento que ele acaba tendo, né? Porque aí se isola politicamente também, porque para os militares que estão no poder ele não é ninguém, né? Não interessa. Ah, sou senador Esteban Trueba, foi tudo destituído. E os militares que estão no poder, ridicularizado.

ABAline Britto Fialho

E volta assim.

SCStefani Ceolla

Aí tem a primeira, o primeiro ato de redenção do Esteban, que é apoiar o exílio da filha, né, e do Pedro III, porque eles precisam deixar o país. E é pra Alba ir junto, só que a Alba desiste em cima da hora, assim, porque não quer deixar o vovô sozinho. E também eu acho assim que o livro, que a série talvez deixe isso mais evidente do que o livro, que é a Alba quer muito fazer parte daquela luta política, né? Ela quer, aquilo é muito importante pra ela.

E os pais dela já estão mais velhos e assim, finalmente vão poder viver aquele amor de alguma forma, né? Então eles vão embora e ela fica.

ABAline Britto Fialho

É, e ela já é a geração da mudança, né? Vem a mãe com aquela passividade, né, escondendo alimento, uma, uma que acho que na série também mostra, né? Enfim, naquela coisa que só queria viver o amor, enfim, né? Ela é a mudança, né? Ela é a outra mentalidade, a virada, né, da chave.

SCStefani Ceolla

Ela não aceita fugir, né? E acho muito bonito que tem um momento em que as irmãs Moura aparecem lá e falam que que vai acontecer uma coisa, né? A Clara já tinha morrido, né? E mesmo assim a Alba decide ficar e ajudar a resistência. Então ela começa a ajudar as pessoas a saírem do país, ela começa a levar alimentos. Isso não aparece na série, mas tem no livro, ela roubando as armas do avô, né, esconder e tal, porque eram armas que tinham sido compradas para financiar o golpe e tal. Então tem toda essa, é bem frenético assim, né, esse episódio assim.

ABAline Britto Fialho

É um thriller ali a finaleira, é bem, tanto que podia ser até um outro livro, né. Só essa parte da Alba, eu acho, da parte da ditadura poderia. Eu acho que por isso que tanto impactou na época que eu li, que era o primeiro contato que eu tive. Por isso que eu já era um pouco didático, um pouco a realidade nua e crua, né.

SCStefani Ceolla

E é interessante, eu fico imaginando você lendo e vendo que era uma pessoa tipo basicamente da tua idade, da pessoa, era eu, é, jamais seria esse.

ABAline Britto Fialho

Por isso que eu digo, ela era uma, como é que eu falei, nerd, era deixar Tipo, ela era um novo, ela representava esse momento de mudança, na verdade, isso, né, nos jovens, mentalidade, exato, a população assim.

SCStefani Ceolla

E aí acontece o que a gente vai vendo que vai acontecer uma hora ou outra, que é a Alba é presa também pela ditadura. E quem que prende e tortura ela? Aquele filho da puta do filho que o Esteban não assumiu. É, não, na verdade ele é o neto da Pancha, né. Ele se tornou militar e ele tá trabalhando para a ditadura, né?

ABAline Britto Fialho

É um militar que entrou para o exército por intermédio do Esteban, do pai.

SCStefani Ceolla

É, e ele tortura a Alba, ele estupra, e ele prometeu vingança, né?

ABAline Britto Fialho

Ele já havia quando criança prometido que ele se vingaria da família.

SCStefani Ceolla

E aí é assim que ele se vinga. Então você vê uma tragédia coletiva e particular ao mesmo tempo.

ABAline Britto Fialho

Exatamente, exatamente.

SCStefani Ceolla

Muito pesado. Assim. E a tortura da Alba é terrível, o período que ela passa presa e torturada, né? E eu achei que é terrível na série. Esse episódio eu precisei pausar um momento assim, que eu não tava dando conta, tipo, tava forte demais assim. Aí depois continuei. O livro eu lembro que eu também precisei, tipo, vou ter que dar uma segurada aqui porque não consigo.

ABAline Britto Fialho

E ela vai para solitária, e a maneira como eles descrevem os espaços, né? E ela ouvindo os coturnos, enfim, Enfim, é toda uma gama de sentimentos, né, e sentidos assim na maneira que é contado.

SCStefani Ceolla

E que elas sigam quase o tempo todo com os olhos vendados, né? Então é muito pelo som, né? Eu lembrei muito daquele filme que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, Zona de Perigo, o nome alemão. Gente, eu preciso fazer uma correção. Eu chamo o nome do filme que ganhou o Oscar de Zona de Zona de Perigo é uma música maravilhosa do Leo Santana, mas não tem nada a ver com Holocausto. O nome do filme é Zona de Interesse. Desculpa, perdão pelo vacilo.

Que é uma família que é vizinha a um campo de concentração na Alemanha. Não sei se tu viu.

ABAline Britto Fialho

Não, acho que não, acho que não, tenho certeza.

SCStefani Ceolla

A família vizinha de um— é muito bom, tá? Eles são vizinhos de um campo de concentração na Alemanha nazista. O marido trabalha para os nazistas, assim, né? É do partido, mas ele é meio, sabe, sou um trabalhador aqui, não Mas assim, eu só trabalho aqui, só trabalho aqui, uma vida super boa. E no filme a gente não vê o campo de— o que acontece no campo de concentração em nenhum momento, nem eles mesmos. Mas eles ouvem e a gente ouve o tempo todo. Aquilo é perturbador.

ABAline Britto Fialho

Tu sabe que eu tive uma experiência quando eu fui à Hungria, Budapeste. A gente foi no Museu do Holocausto lá. Tu entra por um corredor e à medida que tu vai caminhando, tu só escuta o passo, os passos dos E aquilo assim, ó, uns 500 metros, aquele corredor e aquela luz baixa. Menina, vai te dando uma coisa, uma coisa. E quando tu sai na sala assim que abre para exposição, aí coisa mais horrível.

SCStefani Ceolla

Eu fico toda arrepiada.

ABAline Britto Fialho

É coisa mais horrível.

SCStefani Ceolla

É isso, tem que sentir o incômodo mesmo, né? Exato, é para sentir, né? Nossa, é muito pesado. A gente chega no último episódio assim, o Esteban acaba, ele tenta todos os contatos dele na política para tentar soltar a Alba. Ele já não tem mais contato nenhum, ninguém tá nem aí para ele. Quem acaba ajudando ele, ajudando a Alba na verdade, é uma prostituta que também aparece na história desde o começo, né, personagem muito interessante.

E ela consegue, não mostra como, né, a gente só fica vendo cantinhos dela, que eu acho até a Trânsito, Trânsito Soto, né.

ABAline Britto Fialho

Né? Eu acho que sempre que ela aparece é como se fosse um lado humano mesmo do— não sei, me traz um lado humano dele, né? Até se ela não existisse, fosse um, sei lá, enfim. Mas é um recorte que ele parece que é onde ele pode ser quem ele é, né? Ele baixa a guarda ali com ela, né?

SCStefani Ceolla

Chora com ela, né? É a única mulher que ele trata bem, né? Também trata com algum respeito assim. É ela assim, eu acho que achei muito bom. E ela dá o jeito dela. E aí a gente só vê a Alba sendo solta, né, e voltando para casa toda detonada assim, né, toda arrebentada, muito machucada, muito ferida. Ela encontra aquele avô, ele já tá sozinho na casa, né, eles se encontram e tal. E aí, que diferente do livro, eu gosto que a série assim, a Alba tá puta com ele, ela sabe que, né, a participação dele em tudo aquilo que aconteceu, e E no livro tá, eles se reencontram, mas ela vai para o isolamento dela e ele vai para o dele e acabou.

Não tem na série. E no livro não, né? No livro vão os dois juntos acessar os cadernos de escrever a vida da Clara enquanto a Alba chora.

ABAline Britto Fialho

Ele diz o nome dela, ela chama ele de avô e fica um momento de—

SCStefani Ceolla

sim, é bonito. Mas eu, quando eu li isso no livro, eu fiquei meio tipo, Tá maluca?

ABAline Britto Fialho

Acho que devia estar maluca assim.

SCStefani Ceolla

É, devia, tava, ela passou, né? E na série não tem isso, né?

ABAline Britto Fialho

Não, não. Por isso que ele comenta que ali ele foi mais, houve mais justiça, mais justo com ele.

SCStefani Ceolla

E aí, né, essa narrativa circular, né, volta lá para o início, ela acessando os diários da avó, descobrindo a história da própria família e escrevendo isso, né, contando essa história. E belíssimo assim, né? As cores se tornam mais vivas de novo.

ABAline Britto Fialho

Exato.

SCStefani Ceolla

Aí aquela coisa sombria, né?

ABAline Britto Fialho

E isso, né? Daí o avô morre no livro, o avô morre nos braços dela, né? E no filme, na série, ele morre abandonado, total abandono, cinza encarangado na cama, né? No abandono, né? E outra coisa assim que não aparece, que tá no livro, né? Ela termina grávida na história, né, do É verdade. E aí não fica claro se o filho é do Miguel ou se é das atrocidades da ditadura.

SCStefani Ceolla

É, eu, é, para mim era do estuprador.

ABAline Britto Fialho

Eu também acho que é tipo a semente do mal ali sendo plantada, né? Não tem como, não tem como fazer assim, ó, e a história passar.

SCStefani Ceolla

Não esquece, né? Alguma coisa vai ficar.

ABAline Britto Fialho

É o corpo da mulher, né? Sempre o corpo da mulher. Isso.

SCStefani Ceolla

E é muito trágico assim, né? Ah, mas tem uma coisa tão bonita ali, eu já ia esquecer de falar, que eu chorei muito no livro, depois eu chorei muito na série. Que ela na série, eu acho que tem uma narrativa em off, eu não me lembro como é que aparece, mas em algum momento em que ela tava, acho que quando tiram ela da solitária ou levam ela para solitária, que ela tá só ouvindo, e ela ouve as mulheres todas cantando, e ela fala que naquele momento ela certeza que aquilo ia acabar, porque as mulheres estavam na resistência, eram elas que estavam naquela luta. Meu Deus, é muito bonito! É muito terrível, mas é muito bonito.

ABAline Britto Fialho

E é uma canção do pai dela, né, que ela escuta, que era uma dessas canções que o pai fazia.

SCStefani Ceolla

Lindo, né?

ABAline Britto Fialho

Verdade, verdade. Ali, ali ela tem uma energia, né? Porque é no dia que ela se liberta mesmo, que eles tiram ela e ela vai lá sem saber. Ela tava achando que tava indo para morte já, porque ela tava ficava um caco, né? Ela não tinha mais como sobreviver. Se ela ficasse, eu acho que ela morreria ali.

SCStefani Ceolla

Morreria. Naquele momento que ela tá na solitária, né, que ela começa a delirar, ela vê a avó dela, né? E também achei muito bonito isso, que a Clara aparece para ela e fala para ela escrever, né? Tipo, relembre tudo isso, escreva, ainda que mentalmente, para você não enlouquecer. E isso me fez lembrar é o filme 12 Anos de— não, o do Mujica, Uma Noite de 12 Anos. É isso, eu ia dizer 12 Anos de Escravidão. É Uma Noite de 12 ou Uma Noite de 14 Anos, agora eu tô meio confusa.

Ele, não sei se tu viu esse filme. Não, é sobre o período que ele ficou preso na ditadura militar uruguaia, né, o Mujica e os outros, acho que eram 3 amigos que foram presos com ele. E eles ficam presos durante 12 anos assim, né, os caras são levados uma noite e ficam 12 na solitária. Sem ver ninguém, sem nada, sem contato nenhum com o mundo externo, sem a família saber onde eles estão. Eles ficam presos tipo num silo assim no interior do Uruguai, então não tem nem barulho de fora, não tem nada, é um negócio terrível.

E o filme é belíssimo, é muito triste, mas é muito bonito também. E ele conta, o Mujica, que o que ele fez para não enlouquecer, ele e um dos amigos, eles dominavam o código Morse E eles ficavam contando histórias um para o outro com pedrinhas na parede, assim, vendo na parede, né, por muito tempo. E também escrevia cartas e tal, quando ele conseguia ter papel e caneta e tal. Mas assim, a palavra e a história é o que faz a pessoa manter algum contato com a realidade, assim, né.

ABAline Britto Fialho

E exatamente.

SCStefani Ceolla

E quando eu vi, nossa, gente, esse filme ele é tão lindo! E tem uma cena deles ali presos que toca aquela música, of Silence, uma versão que eu nunca tinha ouvido, muito bonita. Eu me acabei chorando.

ABAline Britto Fialho

Cantado por mulher? Eu não me lembro. Não é Joan Baez? Que a versão dela é belíssima, que é do Portão.

SCStefani Ceolla

Eu acho que é.

ABAline Britto Fialho

E acho que a versão dela, que também era um, era um, que ela canta, ela canta em inglês ou espanhol? Não lembro.

SCStefani Ceolla

Em inglês.

ABAline Britto Fialho

Ah, então é, pode ser, pode ser, pode ser.

SCStefani Ceolla

É muito bonita, muito bonita mesmo assim. E também me remeteu a isso isso, que assim você percebe como os caras conseguem ser cruéis. Parece que é por muito que eles sentem muito prazer sendo cruéis, assim, né?

ABAline Britto Fialho

Exato.

SCStefani Ceolla

Não existe o que justifique aquilo assim, e eles fazem, né? Então é muito, é terrível. E me remeteu muito assim esse final.

ABAline Britto Fialho

E pensar que esse sentimento tá nos rodeando a todo momento, né? Eu também, eu também.

SCStefani Ceolla

Eu morro de medo. É porque é uma história muito mal resolvida que não se encerrou, que pode se repetir a qualquer momento, que a gente vê se repetindo a toda hora, que ainda é tabu, que é pior.

ABAline Britto Fialho

O que é pior, que ainda é tabu.

SCStefani Ceolla

Tinha que ser uma coisa assim, assunto dado por encerrado, no sentido de não podemos mais discutir. Ah, foi uma revolução ou foi um golpe? Cara, a gente não pode estar discutindo esse tipo de coisa.

ABAline Britto Fialho

É, não, o próprio Holocausto vem sendo questionado, né, nessas novas. Olha que medo mesmo. Mesmo.

SCStefani Ceolla

Que medo, que medo! Eu acho que é isso assim, isso também é um mérito da série sair nesse momento assim, que a gente vê a América do Sul inteira também voltando a se deparar com esse fantasmão aí, com esse espírito que tem.

ABAline Britto Fialho

Verdade boa, é o espírito mesmo, teima em ficar aparecendo, aparecendo. Tipo, não é o zeitgeist, não é o espírito do tempo, é o espírito do mal mesmo.

SCStefani Ceolla

Exatamente, exatamente. Aline, o que eu tinha separado sobre a série é isso. Eu não sei se tem mais alguma coisa que você quer comentar.

ABAline Britto Fialho

Eu acho que foi mais ou menos isso também. O que eu tinha marcado mais para falar ao final era isso, né, que eles não tinham tratado sobre a gravidez dela. Não sei por quê, porque essa escolha, né, enfim, mas foi a que mais me chamou atenção. E acho que também quando tu escolhe não contar sobre um personagem, contar sobre outro, né, então é também uma questão de adaptar, né, as linguagens né, que são diferentes, né, as mídias, né.

Mas eu acho que é isso também, acho que repassamos, foi, né, foi, é uma adaptação de respeito, achei bem, muito bem feito.

SCStefani Ceolla

Ó, eu sempre encerro, e eu não te dei, não te falei isso antes, mas eu sempre encerro o Post Fácil perguntando para pessoa convidada dica de livro, o que que você tá lendo ou o que que você recomenda. Você pode continuar nessa mesma linha de livros ou se quiser dar uma dica aí totalmente diferente, pode ser também.

ABAline Britto Fialho

Ai, deixa eu pensar, menina. Agora eu tô lendo os meus de políticas públicas, né?

SCStefani Ceolla

Como estamos? São interessantes, são divertidos.

ABAline Britto Fialho

Não vou cometer esse— vamos, vamos umas coisas mais, mais, mas uma, olha, eu me redimi, né? Porque entre tantas coisas eu tava em atraso com Torto Arado, e é um livro, por mais que estivesse atrasado, mas foi o meu último livro que eu E inclusive tive a grata surpresa de encontrar o autor aqui em Santa Maria. Ele é um querido, ele contando a história dele tudo, e falou que os primeiros livros, ele lá daiane, nós aqui, os primeiros livros que ele leu, é um apaixonado pelo Érico Veríssimo.

E eu pensei, e os primeiros livros que eu li foram Jorge Amado, né? Porque eu sou apaixonada. Ai, Terras do Sem-Fim foram meus primeiros livros, e dos meninos, ai, me deu um branco agora. Capitã Dari. É, mas desde que esteja sendo repetido, então acho que Tortarada é um bom, é um bom para a gente conhecer, conhecer. E o mais engraçado foi um questionamento que ele levantou, né, que aí abriu. E foi a primeira experiência que eu tive do autor lendo trecho.

Sabe quando a gente vai em filmes, o autor senta? Eu nunca tinha assistido, até participado de algo assim. Achei fantástico ele lendo e acabou fazendo apanhado sobre toda a trilogia, né. Enfim, né. E ele questionou sobre o realismo mágico.

SCStefani Ceolla

Mágico.

ABAline Britto Fialho

Mas hoje eu entendo o que ele quer dizer, que nossa história no Brasil, com todas essas questões que ele conta, né, isso não é, isso é a nossa história, isso não é realismo mágico, né. E o realismo a gente deixa mágico, a gente deixa para o lugar de magia dele, né.

SCStefani Ceolla

Eu sempre digo aqui no Pós-Fácil que aqui na América do Sul a gente chama o realismo mágico só de realismo mesmo, né.

ABAline Britto Fialho

Exatamente.

SCStefani Ceolla

Então não me criei de fora. Eu já vi o Itamar Vieira ele detonar muito quem chama a literatura feita no Nordeste, por exemplo, de regionalista, né?

ABAline Britto Fialho

Exatamente. Não, ele tem essas, que é um geógrafo, né?

SCStefani Ceolla

Enfim, aí ele entende de territórios.

ABAline Britto Fialho

Enfim, eu acho que é isso. Deixo Torturado, mesmo que eu esteja atrasada.

SCStefani Ceolla

Não, eu acho que sempre, sempre vale. Eu não li esse último dele ainda, também preciso ler.

ABAline Britto Fialho

Também não li, também não li, mas tô com os 3 aqui Inclusive, Tamar, se você quiser vir aqui no pós-fácil, cara, eu queria muito. Gente, ele falando aquele sotaque, uma mansidão, uma delicadeza, meu Deus, dava para fechar os olhos e ficar assim ouvindo ele, calminha, né? E ele contando que tinha andado em Erechim, que é uma cidade aqui mais para serra assim, e foi bem nos primeiros frios ali em maio, que teve uma semana, a Feira do Livro era à noite, ele contando que a mão dele congelou, que tiveram que trazer água morna, um monte de coisa, porque ele não conseguia assinar uns livros de tanto frio que ele tava.

SCStefani Ceolla

Alina, eu acho que é isso. Já tomei bastante do seu tempo. Eu quero te agradecer muito. Que bom a gente ter esse tipo de conversa, né?

ABAline Britto Fialho

Ai, verdade. Olha, é uma outra história, né, a gente se encontrando aqui.

SCStefani Ceolla

Achei fantástico isso também. E pensar que—

ABAline Britto Fialho

e vou te dizer mais— e pensar que eu acho que nunca tivemos na nossa vida real, não virtual, tanto tempo conversando.

SCStefani Ceolla

Eu acho que sim.

ABAline Britto Fialho

E dividindo em redação. Ai, que nem quero lembrar.

SCStefani Ceolla

Ficava lá 12 horas por dia juntos. E não tinha tempo de trabalhar.

ABAline Britto Fialho

Aquilo sim, para mim é outra vida, outra vida.

SCStefani Ceolla

Deixa para lá, né?

ABAline Britto Fialho

Vamos deixar para lá. O que foi bom é o que sobrou agora, é o que sobrou para nós.

SCStefani Ceolla

Ajudou a gente a ser o que é.

ABAline Britto Fialho

Exatamente.

SCStefani Ceolla

Gostaria de voltar? Não, não.

ABAline Britto Fialho

Você trocaria?

SCStefani Ceolla

Não, não. Deixa assim agora, tá bem legal.

ABAline Britto Fialho

Aí eu que te agradeço, eu fiquei muito feliz. Adoro, sou muito fã de vocês fazendo tudo isso. Isso. Acho que tu tem uma desenvoltura, tu tem um traquejo. Acho que tu nasceu para isso também. E vai dar aula? E vai começar a dar aula? Não, eu não. Também me pergunta o doutorado, mas é para dar aula, né? Eu disse não, não é para dar aula.

SCStefani Ceolla

Eu não consigo ainda pensar nisso, ainda não consigo.

ABAline Britto Fialho

As coisas vão acontecer no meio do caminho. Onde vai acontecer, não sei.

SCStefani Ceolla

Eu vou nessa também. Se o caminho levar para lá, eu vou também, de muito grado. Admiro muito quem faz. Eu não me sinto preparada nesse momento, mas pode ser que mais para frente role. Vamos ver.

ABAline Britto Fialho

Então é isso, eu que te agradeço mesmo porque eu adorei. Para mim foi assim um momento de sair desse dia a dia, sei lá, foi ótimo. Mesmo que eu não tenha lembrado totalmente do livro, mas eu acho que o principal é isso aí, é o que a gente tratou mesmo, né?

SCStefani Ceolla

Acho que sim. Obrigadão, tá?

ABAline Britto Fialho

Tá, eu que quero te agradecer.

SCStefani Ceolla

Beijinho, até os próximos, até os próximos, e aguardo.

ABAline Britto Fialho

Tchau, beijão!

SCStefani Ceolla

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