Diário de Leitura: "A Vegetariana", de Han Kang
Esse é o Diário de Leitura. São pílulas do Posfácio Podcast em que compartilho a experiência logo após ler alguns livros. Neste episódio, falo sobre "A Vegetariana", de Han Kang.
A protagonista, Yeonghye, tem um sonho, e depois disso deixar de comer, cozinhar e servir carne. "É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos à sua volta", diz a sinopse da editora Todavia.
"Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas. A tradução, diretamente do coreano, restitui o estranhamento do original".
Han Kang, nascida em 1970, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2024. Ela foi a primeira sul-coreana a ganhar o prêmio. "A Vegetariana" seu livro mais conhecido.
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O Diário de Leitura do Posfácio Podcast é uma realização do Posfácio Hub de Jornalismo em Áudio.
O roteiro, apresentação e edição desse episódio foram feitos por Stefani Ceolla.
Stefani Ceolla
- Veganismo e AlimentaçãoViolência contra a mulher · Corpo e vontades da mulher · Sonhos da protagonista · Ato de parar de comer carne · Intervenção familiar · Yeonghye · Han Kang
- Mancha Mongólica e AbusoMancha Mongólica · Abuso sexual · Atração pela vulnerabilidade · Estupro no casamento
- Terapia Alimentar e SeletividadeAnorexia nervosa · Esquizofrenia · Recusa em comer · Desejo de morrer · Autonomia sobre o corpo
- Narrativa e EstruturaNarrador em terceira pessoa · Marido da protagonista · Cunhado da protagonista · Irmã da protagonista · Narrativa fragmentada
- Relação abusiva e questões familiaresViolência paterna · Abuso sofrido pelas irmãs · Sobrevivência e covardia · Rompimento do fio com a realidade
Oi, eu sou a Stephanie Ceola e esse é o Diário de Leitura. São pílulas do Possarcio Podcast, em que eu falo sobre livros assim que termino de ler, destacando as anotações que eu fiz e o que eu grifei durante a leitura. Não espere uma análise desapaixonada. É um comentário aquente sobre aquilo que acabou de ser lido e ainda está fervilhando na minha cabeça.
Hoje eu vou falar de um livro que eu li já tem alguns meses, foi em novembro de 2025. Eu demorei bastante para ler essa autora, mas eu estava muito curiosa.
se chama A Vegetariana de Hankang. Espero estar pronunciando certo o nome dela. Ela recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2024, nasceu na Coreia do Sul em 1970 e teve outros livros traduzidos para o português, como Atos Humanos e O Livro Branco. Todos foram publicados pela editora Todavia. Eu estou com o Livro Branco aqui para ler também, espero ler em breve.
Mas sobre a vegetariana, eu demorei um tempo para gravar, porque esse livro me deixou com muita raiva. E apesar de eu achar que o diário de leitura...
O Olívio concorda. Apesar de eu achar que o diário de leitura é legal justamente por isso, por eu trazer essas percepções bem aquente do que eu acabei de ler, está sendo sempre um momento particularmente difícil para quem é mulher. Porque é um livro que também trata de violência contra a mulher, trata basicamente de violência contra a mulher e de diferentes formas de violência.
E algumas vezes eu parei para tentar gravar ele e estavam acontecendo fatos absurdos, como, por exemplo, o feminicídio da Catarina Kasten aqui em Florianópolis, os ataques à Erika Hilton. O tempo todo tinha uma história dessa, só que eu entendi, e não sem tristeza, que o tempo todo vai ter uma história dessa. Não dá para a gente esperar não ter para falar sobre.
E falar sobre também é um jeito de não deixar essas histórias serem esquecidas. Então, a vegetariana, entrando no livro mais propriamente dito, ele trata de violência contra a mulher de diferentes formas. Essa violência começa de uma forma aparentemente sutil. Mas o que para mim é a essência desse livro é o modo como o corpo da mulher e as vontades dela são tratadas...
como se fossem algo público. Então, uma mulher não tem o direito de decidir por si mesma, de parar de comer carne, por exemplo, sem que seja julgada pelo marido, pela família e pela sociedade, sem que deva explicações.
para os outros. A vegetariana começa com esse episódio, né? A protagonista, que se chama Yeong, e eu tô falando do jeito que eu pronunciei ao longo do livro, ela tem um sonho, e nesse sonho tinha muito sangue, tinha imagens muito pesadas para ela, e a partir desses sonhos, ela decide que ela não quer mais comer carne.
Apenas isso, tá? Ela é casada com um cara, um babaca, e ele não aceita essa decisão, rola uma super intervenção da família dela em relação a isso.
que termina num ato de extrema violência, e eu tô falando só do primeiro ato do livro, tá? Que se chama A Vegetariana, depois tem a segunda parte do livro que se chama A Mancha Mongólica, nessa segunda parte do livro tem também abuso sexual, abuso de vulnerável, é tudo muito complicado, e a terceira parte do livro se chama Árvores em Chamas. Esse livro é muito curto, ele tem cento e...
71 páginas e eu demorei um pouco para ler por essa dificuldade com o tema, né? Porque fui passando muita raiva o tempo todo. Bom, no começo, algumas coisas interessantes, assim, analisando a literatura, né?
Essa mulher que é a protagonista, ela nunca é a narradora do livro, e nenhuma das partes ela narra. A gente só tem acesso à voz dela quando ela conta desses sonhos que ela tem, esses sonhos que motivaram ela a parar de comer carne. A primeira parte do livro é narrada pelo marido dela. A primeira frase diz o seguinte, Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano.
Esse especial aqui não é algo bom, tá? Já na primeira página que esse homem tá narrando, eu grifei alguns trechos que, ao mesmo tempo que me deixaram muito incomodada, me causaram um risinho de canto, de boca.
Seguinte, ele diz, Acabei me casando porque ela não tinha nenhum charme especial e também por não ter notado defeitos muito gritantes. Uma personalidade dessa e sem frescor, brilhantismo ou refinamento me deixa confortável.
Não sentia necessidade de bancar o inteligente para conquistá-la e não precisava correr tentando não chegar atrasado aos nossos encontros. Tampouco sentia complexo de inferioridade ao me comparar com os típicos galãs dos catálogos de moda. Ganhei uma barriguinha já na segunda metade dos meus 20 anos. Meu corpo não desenvolvia massa magra nem mesmo com meus repetidos esforços de me exercitar.
Até mesmo o meu pênis pequeno, que costumava me deixar um tanto apreensivo, parou de me incomodar quando eu estava com ela. Eu não vou fazer nenhum juízo de valor, eu vou ficar bem quietinho. Esse cara é um homem extremamente medíocre. Mediano, médio pra pequeno.
E ele fala sobre como foi bom para ele escolher uma mulher tão comum quanto ela. Então quando ela, depois de cinco anos de casamento, decidiu parar de comer carne, para ele foi um absurdo. Ele dizia que ela surtou, que ela estava completamente louca. Aquilo era uma aberração para aquele homem.
E dela, como eu falei, a gente só tem acesso quando os sonhos são narrados. Então essas partes estão em itálico, assim, no livro. Eu vou ler um trechinho de um sonho dela. Era um bosque escuro, não havia ninguém nele. Machuquei o rosto e lenhei os braços ao passar pelos arbustos. Tinha certeza de que estava acompanhada de outras pessoas. Acho que me perdi sozinha.
Fiquei com muito medo, sentia frio, atravessei um arroio congelado e encontrei uma construção iluminada que mais parecia um celeiro. Passei por uma cortininha de palha e então eu vi. Centenas de pedaços de carne, uns pedaços enormes, estavam pendurados em sarrafos. De alguns deles pingavam gotas de sangue vermelho ainda fresco. Abri caminho por incontáveis pedaços de carne, mas não conseguia encontrar a saída do outro lado. Meu vestido branco ficou completamente encharcado de sangue.
E bom, é a partir desses sonhos que essa mulher decide parar de comer carne, sem dar satisfação pra ninguém, porque afinal de contas é o corpo dela e a vontade dela. Mas esse homem fica puto e ele fica indignado, ele reclama como que pode ser tão teimosa ignorar completamente a opinião do seu marido.
Ele conta de um episódio que ele vai jantar com pessoas do trabalho dele e ele sente muita vergonha pelo fato dela não comer carne. E que ela era muito egoísta, porque ela ignorava o quanto aquilo afetava ele, prejudicava ele.
Um completo escroto esse cara. E, bom, chega esse momento que ele resolve acionar a família dela, a irmã dela, que é casada com outro escroto, o pai e a mãe dela, e eles fazem um jantar, e é para fazer essa intervenção aí, porque ela não está comendo carne. Esse cara, evidentemente, deseja muito a cunhada dele, ele deixa isso muito claro. É um escroto, eu vou falar isso 800 vezes nesse episódio.
E bom, nesse jantar, ou almoço, eu não me lembro bem, nessa intervenção a família vai pra cima dela com tudo, os pais dela tentam forçar ela a comer carne na marra, tipo, enfiar carne na boca dela, um ato extremamente violento, e o pai dela bate nela, ela é agredida pelo pai.
E assim, o cara, o marido, não acha nem um pouco ruim, tá? Nesse episódio tem um trecho que diz Como a força com que o irmão segurava minha esposa era maior do que a minha cunhada agarrando o braço do pai, meu sogro se desvencilhou da filha e encostou os palitinhos na boca da filha vegetariana. Ela fechou a boca com firmeza e soltou um gemido. Parecia querer dizer alguma coisa, mas não abria a boca, com medo de que se o fizesse, enfiassem comida nela.
Isso depois dele bater na filha, ele ainda tenta enfiar carne de porco na boca dela contra a vontade dela. É um episódio absurdo e no meio daquela mesa, desse momento terrível, a Yeong pega uma faca e corta o pulso, um ato de extremo desespero. E aí ela é levada para o hospital depois dessa tentativa de suicídio.
E ainda assim, todo julgamento, as pessoas considerando ela louca, a mãe e a irmã ficam mais comovidas, mas os homens estão todos cheios de razão. E essa primeira parte do livro encerra assim, essa mulher no hospital, internada, depois de ter cometido esse ato.
depois de ter sido vítima de muitas formas de violência pela própria família. A segunda parte do livro se chama Mancha Mongólica. Eu procurei no Google o que é mancha mongólica, eu não sabia que tinha esse nome. Descobri que na minha família muita gente tem. Procurem também para vocês verem imagens, mas são manchas de um roxo esverdeado, que em geral as pessoas têm na lombar, assim, né? A Yon-Yong, ela tem essa mancha.
E aí a pessoa que é o narrador, nessa segunda parte do livro, é um narrador em terceira pessoa, que está acompanhando o cunhado da Yeong, o marido da mulher dele. Outro escroto, nojento, babaca, ridículo, metido artista, que na real é um vadio sustentado pela mulher. E aí...
Da mesma forma como o marido da Yeong é tarado pela irmã dela, esse babaca é tarado pela Yeong. E ele parece se atrair principalmente por essa fragilidade dela, pela vulnerabilidade dela. E aí, resumindo muito rapidamente essa parte do livro, ele decide...
que ele quer produzir uma obra de arte com ela, a partir da mancha mongólica dela. E essa arte consiste em ela ter o corpo nu, pintado por ele, e fazer sexo com outro homem, enquanto ele pinta os dois. A Yeong...
aceita, entre muitas aspas, isso. Lembrando que é uma mulher que passou por muitas violências recentes e tinha recém tentado cometer suicídio e estava vivendo à base de remédios, sozinha, abandonada pelo marido, porque ele abandona ela depois desse episódio.
E esse cunhado procura ela, enreda ela nessa situação, e ele termina abusando sexualmente dela também, de uma forma que na cabeça dele é consentida.
Mas lembrando que é uma mulher numa situação de extrema vulnerabilidade, que não tinha condições de consentir. E esse cara, da mesma forma como o marido fala muito sobre ter gostado dela por ela ser essa mulher normal, ele fala que ele tinha se acostumado a sentir pena dela.
Era isso que atraía ele nela. Tem alguns trechos que deixam muito claro isso, de que ela não estava em condições de consentir aquilo que estava acontecendo. Tem um trecho que diz, A voz dela tinha o peso de uma pluma, não parecia estar chorando, tampouco parecia a voz de uma pessoa doente, mas também não tinha nenhuma alegria ou jovialidade. Era a voz de alguém indiferente que não pertencia a lugar nenhum.
Também achei muito nojento porque essa mancha, a mancha mongólica, geralmente ela aparece em bebês e crianças e vai sumindo com o tempo.
E era justamente isso que atraía esse homem, né? Tem uma palavra, né? Para homens que se atraem por bebês e crianças. Tem um trecho do livro que diz Uma mancha sem função alguma, primitiva, existente apenas nas costas e nádegas de bebês e crianças. Sobrepondo-se a ternura com que havia muito tempo, olhou para o bumbum macio do filho recém-nascido. As nádegas de sua cunhada produziam em sua mente uma luz brilhante. Eu quase vomitei.
Tem um trecho que eu grifei e coloquei um ponto de exclamação, que diz Foi então que percebeu que ela tinha uma expressão indiferente, como a de um monge em contemplação. De quanta raiva ela teve que se livrar ou reprimir para chegar àquela expressão? Também tem outra coisa que acontece nesse capítulo, gente, é muito pesado mesmo, né?
que é, não só nesse capítulo, mas em diferentes partes do livro, que é o estupro no casamento, né? Homens estuprando suas esposas. Esse cretino aqui, ele estava obcecado pela cunhada e ele abusa sexualmente da própria mulher.
Tem um trecho que diz...
Não queria ouvir o tom nasal da voz dela, por isso lhe tapou a boca. No escuro não era a esposa que ele imaginava, e sim a cunhada, pensando em sua silhueta, nariz e lábios. Colocou na boca o mamilo endurecido da mulher e arrancou sua calcinha. Cada vez que a imagem da pequena pétala esverdeada se impunha e ameaçava desaparecer, ele fechava os olhos e apagava o rosto da esposa.
Quando terminou, ela estava chorando. Ele não sabia se pela excessiva violência com que tinha agido ou por outro tipo de sentimento que desconhecia. Virando as costas para ele, a mulher murmurou Estou com medo. Pelo menos foi o que ele pensou ter ouvido. Ou talvez tenha sido. Tenho medo de você. Ele estava prestes a cair num sono pesado como a morte e nem mesmo tinha certeza de que a frase havia saído da boca da esposa. Não sabia sequer por quanto tempo tinham durado seus soluços.
E bom, chega o momento em que, né, ele, um homem, movido por seus impulsos, ele não resiste e vai até a casa da cunhada pra fazer sexo com ela. Porque ele também não tem certeza se ela não quer. Vai que ela quer, né? Pode ser que ela queira. Gente, eu tô sendo bem irônica. E aí ele vai pra casa da cunhada.
E abusa dela. É muito claro, porque assim, ó. Eu vou ler exatamente como tá aqui. Ele tranca ela na casa dela, né? E fala assim. O narrador fala assim. Quando abaixou a calça dela até a altura dos joelhos, Jung disse, não quero. Ela disse, não quero. Tá? E aí ele vai lá e não tá nem aí.
Aí o narrador continua. Ela virou o rosto e o fitou em silêncio. Seus olhos pareciam dizer que sim. Pelo menos foi o que ele entendeu. Ela esboçou um sorriso. Um sorriso singelo, como se não fosse capaz de recusar nada. Nem sentisse a necessidade de negar-se a fazer qualquer coisa. Ou como se estivesse debochando dele em silêncio.
Lembrando que quem nos diz isso é o narrador. Lembrando que a gente não deve confiar no narrador. Principalmente quando ele está narrando só um ponto de vista, que nesse caso é o ponto de vista do cunhado cretino. Eu vou fazer igual a Deia Freitas, eu não vou dar nome para nenhum dos homens desse livro. Aí ele abusa dela e o próprio narrador diz, tinha sido um coito unilateral e breve.
E o que acontece? Ele dorme na casa dela, ela não tem reação, né? E a irmã dela chega lá e pega ele com ela, né? E fica putaça e tal. E aí esse imbecil também sai de cena. A Yeong...
não tinha condições nenhuma, não tinha reação nenhuma. E é a partir disso que vai para a terceira parte do livro, que se chama Árvores em Chamas, ela é levada para uma clínica psiquiátrica. Essa parte do livro tem outro narrador e parte do ponto de vista da irmã da Yeong, ela está indo visitar a Yeong nessa clínica.
Eu vou ler para vocês um trecho aqui porque não narra nenhum tipo de abuso e também para vocês entenderem como que esse narrador age, como que ele conta essa história.
Escorre a água do seu guarda-chuva, que está fechado. O chão do ônibus está molhado e irradia um tom preto brilhante. Como o guarda-chuva não era grande o suficiente, sua roupa está um pouco úmida. O ônibus avança rápido pela estrada molhada. Esforçando-se para manter o equilíbrio, ela caminha pelo corredor em direção ao fundo do veículo.
Encontra um lugar com os dois assentos vazios e senta-se do lado da janela. Tira um lenço da bolsa e limpa a janela embaçada. Com um olhar firme que somente quem viveu por muito tempo sozinha pode ter, observa a chuva forte que bate no vidro. A cidadezinha vai ficando para trás e, ladeando a estrada, começam a despontar os bosques esverdeados de fins de junho.
As árvores espessas cobertas pela violenta torrente parecem animais gigantes reprimindo seu uivo. Ao aproximar-se do parque florestal de Shukseong,
O caminho se estreita e ganha cada vez mais curvas. O bosque vai ficando mais próximo e faz vibrar seu corpo molhado. Onde estará a montanha no qual sua irmã mais nova, Young, foi encontrada três meses antes? Ela olha para cada uma das árvores que balançam sob rajadas e imagina os espaços escuros que elas escondem, até que afasta o rosto da janela. Essa é uma coisa interessante também, porque assim, como a Young não é narradora em nenhum momento,
e a gente tem três narradores, o marido, o narrador que acompanha o cunhado e esse narrador que acompanha a irmã, os fatos da vida dela a gente fica sabendo de maneira muito fragmentada. Então a gente sabe do momento em que ela decide comer carne, do jantar com os colegas de trabalho do marido, desse jantar com a família em que ela é agredida e tenta suicídio, do abuso do cunhado e desse momento em que ela fica Tchau!
perdida na floresta, mas a gente vai sabendo tudo isso de maneira muito fragmentada. É um jeito bem de um narrador moderno de contar uma história. E, bom, essa... A irmã vai lá visitar ela e ela está numa situação muito complicada. Ela está morrendo.
Ela emagrece muito porque em algum momento ela decide parar de comer completamente, não só parar de comer carne. É muito triste porque os médicos já fizeram de tudo para que ela voltasse a comer, mas ela se recusa e ela também não fala mais.
E assim, nesse trecho, a irmã também reflete muito sobre o casamento dela, né? Com aquele marido cretino que abusou da Iêong, né? Ela também se separa e fala sobre aquele casamento infeliz. Ele foi preso, a gente também fica sabendo assim de maneira muito...
fragmentada, diz que o marido não foi diagnosticado com nenhum distúrbio, por isso o encerraram em uma prisão. Depois, em contáveis processos e recursos, ele foi solto e desapareceu. Ele tenta alegar que ele estava surtado quando ele abusa da cunhada, como a gente vê muito homem abusador fazer.
E bom, aí chega o momento em que a gente entende o diagnóstico da Iaong, né? Um médico chega pra irmã e fala assim, como disse a senhora na última consulta, casos de anorexia nervosa tem de 15 a 20% de chance de morte por inanição.
Mesmo estando só ossos, o paciente continua achando que está gordo. Esses quadros geralmente têm em sua origem conflitos com mães muito dominadoras. Me surpreende que a culpa sempre vai ser de outra mulher, né? Mas enfim, o médico continua. Mas o caso de Yeong Kim é especial. Ela sofre de esquizofrenia e, além de tudo, se recusa a comer. Estava convicto de não se tratar de uma esquizofrenia aguda, mas francamente não previ que ficaria assim.
Se ela tivesse delírios persecutórios, haveria formas de convencê-la a comer. Por exemplo, melhoraria assim que visse o médico comendo a mesma coisa que ela. Mas nesse caso não está claro o motivo da recusa, e os remédios também não estão surtindo efeito. É difícil dar essas notícias à família, mas não há outro jeito. Antes de tudo, precisamos preservar a vida dela, e nosso hospital não pode garantir isso.
Ela conta que ela já tinha tentado levar a irmã pra casa uma vez, mas acabou voltando pro hospital. E nessa última visita, elas têm uma conversa em que a Young até fala, com uma voz muito baixa, em um tom muito sereno. E ela diz pra irmã, mana, todas as árvores do mundo são minhas irmãs.
E, bom, nessa nova visita, ela chega lá e a ONG está numa sala de estabilização. Ela é entubada, né, para que entre alguma coisa no corpo dela. Mas ela está morrendo.
E tem um momento que a irmã dela reflete, né? E a gente tem acesso a isso por meio desse narrador. Será que Eong quer voltar a ser criança? Faz tempo que parou de menstruar. E com seu peso, que não alcança os 30 quilos, não sobrou nada dos seios. Desaparecidas todas as características de uma mulher adulta, ela está deitada, assumindo a forma de uma menina estranha.
E aí elas têm uma conversa em que a Eong diz para a irmã, não sou mais um animal humana, não preciso mais comer, consigo viver assim, só preciso tomar sol. E a irmã fica completamente chocada, está preocupadíssima. E a irmã fala para ela que ninguém quer que ela morra e tal, e aí a Eong rebate, e por que não posso morrer? Foram as últimas palavras dela antes de se calar definitivamente.
Pra mim fica muito evidente que a decisão de parar de comer completamente e de querer morrer eram as últimas coisas que ela podia decidir sobre ela mesma sem interferência externa, sabe? Essa irmã tá sofrendo muito e ela também reflete sobre o passado delas nesse último capítulo. Aí tem um trecho que o narrador nos diz. Jung era o principal alvo da violência desferida pelo pai.
O irmão mais novo, por ser homem, saía batendo em outros meninos do bairro tanto quanto apanhava em casa. E por isso deve ter sofrido menos. E ela recebia mais atenção, pois era quem preparava a sopa para aliviar a ressaca do pai no lugar da mãe, que estava sempre cansada.
Mas Yeong, de personalidade pouco condescendente, não sabia acompanhar os humores paternos. E sem conseguir oferecer resistência, os maus tratos devem ter ele atingido até o fundo dos seus ossos. Agora ela sabe. A diligência com que ela agia como filha mais velha não era fruto de uma maturidade precoce, e sim de covardia. Era apenas um meio de sobrevivência. E aí essa mulher, a irmã da Yeong, começa a perceber os abusos que ela própria sofreu. Ó, né?
da família, do marido, ela vai pensando sobre isso. Ela chega a concluir que talvez ela nunca tenha vivido plenamente, que ela só aguentou tudo aquilo. Tem um trecho que eu grifei e do lado eu escrevi, rompido o fio. Não sei o que dizer com isso, mas eu vou ler.
Será que o sofrimento e a insônia de Yeong são mais antigos do que parecem e a atingiram numa intensidade maior do que atingem a maioria das pessoas? E que se extinguíram só quando ela rompeu o precário fio que ligava a vida cotidiana? No caso dela, pensou, durante as noites de insônia dos últimos três meses, de fato ela só conseguia aguentar por causa do filho. Não fosse pela responsabilidade que sentia ter, talvez ela também tivesse rompido o fio.
interessante, né? Romper esse fio com a realidade, essa conexão com o cotidiano, né? E aquilo que eu falei sobre pensar que parar de comer e querer morrer eram as únicas coisas que a Young podia fazer sem interferência de outras pessoas, tem um momento em que a irmã dela se dá conta disso, e ela tá muito mal, assim, e ela diz pra si mesma, né?
O máximo que ia conseguir era machucar a si mesma. Seu corpo é a única coisa com a qual você pode fazer mal. É a única coisa com a qual você pode fazer o que quiser. Mas nem isso te deixam fazer. E bom, é assim que a história termina com essas irmãs juntas, com a Ye Young muito debilitada, morrendo.
E a irmã mais velha refletindo sobre esses abusos que ambas sofreram desde a infância. Então, bom, é um livro muito sofrido, muito pesado, em que dá muita raiva de todos os homens. Ele se passa na Coreia do Sul, que é o país de sua autora. Eu li ele todo pensando no quanto é próximo de mim e das mulheres que eu conheço.
e quanto esses abusos são comuns na vida de qualquer mulher, né? E isso de a gente ter que lutar para poder mandar nas próprias vontades, no próprio corpo. Na orelha desse livro tem um resumo que fala...
Que o leitor, como outro membro dessa família, assiste espantado aquele gesto subversivo que vai fraturar a vida da protagonista e transformar suas relações cotidianas em um turbilhão de violência, vergonha e irresistível desejo. Pensem que o gesto subversivo foi parar de comer carne. E diz também que esse romance parece insuflar a beleza perturbadora e convulsiva de nossos sonhos mais perigosos. Gente, essa mulher só quis parar de comer carne.
Eu recomendo muito essa leitura, não é uma leitura leve, não é uma leitura tranquila, é uma leitura que cutuca a gente, que mexe mesmo, mas que tira a gente do lugar, ele me tirou do eixo, e eu gosto quando as histórias que eu leio fazem isso.
É muito perturbador, é uma história sobre tabu, violência, diferentes formas de violência, mas também tem muita beleza e eu acho que literariamente ele é muito rico, principalmente por essa narrativa fragmentada, por essa alternância de narradores e por contar de uma maneira tão concisa, uma história tão complexa.
Então, apesar de muito doído, eu recomendo esse livro e eu vou ler outros dessa autora e trago aqui para vocês. Postfácio! Postfácio! Postfácio!
Todavia
Editora