ETARISMO, IDADISMO E AGEÍSMO: NOVOS NOMES PARA ANTIGOS PRECONCEITOS - PROGRAMA 6: CULTURA E RESPEITO À IDADE EM OUTROS PAÍSES
EDITAL 9 - PROGRAMA 6
Cleber Falcone
Maria Rita
Marcos Genari
- Cultura e lazer na Zona VelhaValorização da idade em diferentes culturas · Diferenças culturais na percepção da idade · Respeito aos mais velhos em países asiáticos · Anciãos como guardiões da sabedoria em culturas africanas · Políticas de envelhecimento ativo em países europeus
- Reflexões sobre etarismoImportância do elemento cultural no combate ao etarismo · Normalização da presença do idoso no cotidiano · Valorização do convívio intergeracional · Papel da educação e mídia na construção de uma cultura sem etarismo
- Preocupações Sociais dos BrasileirosContraste entre discurso e prática no respeito à idade · Pouca integração efetiva entre gerações em espaços sociais
Começa agora mais uma produção radiofônica da Everest FM. A Everest FM orgulhosamente apresenta Etarismo, Idadismo e Ageísmo. Novos nomes para antigos preconceitos. Uma nova série de 12 programas destinados à conscientização social contra o preconceito e à discriminação por idade. Apresentação, Cleber Falcone. E eu sou Maria Rita.
O episódio de hoje é Cultura e Respeito à Idade em Outros Países.
A forma como uma sociedade enxerga a idade não é universal. Ela é construída culturalmente a partir de valores, tradições e contextos históricos. Em alguns países, envelhecer é sinônimo de prestígio, sabedoria e de respeito.
Em outros, a juventude é colocada como padrão quase exclusivo de valor social. Essas diferenças influenciam comportamentos, políticas públicas e relações entre gerações. Quando a idade é valorizada, as pessoas mais velhas continuam ativas e integradas à comunidade.
Elas participam de decisões, transmitem conhecimento e ocupam espaços sociais relevantes. Em muitos casos, são ouvidas em momentos importantes como decisões familiares ou comunitárias. E isso fortalece vínculos comunitários e preserva a memória coletiva.
Já em contextos onde a idade é desvalorizada, essas mesmas pessoas tendem a ser afastadas ou pouco consultadas. Olhar para outras culturas nos ajuda a questionar nossos próprios padrões e também a perceber que o etarismo não é inevitável.
Em países asiáticos como o Japão, o respeito aos mais velhos está profundamente ligado à tradição. Esse respeito aparece em práticas cotidianas, como dar prioridade à fala de pessoas mais velhas em reuniões familiares. Ou reconhecer sua experiência em decisões importantes. Datas comemorativas, como o dia do respeito ao idoso, reforçam esse valor.
Mas, mais do que a data, é a prática diária que sustenta essa cultura. Em algumas culturas africanas, os anciãos são considerados guardiões da história e da sabedoria coletiva. Em situações de conflito ou decisão, é comum que sejam consultados. Suas experiências orientam caminhos e fortalecem a coesão da comunidade.
Já em alguns países europeus, políticas de envelhecimento ativo incentivam a participação social. Pessoas mais velhas seguem inseridas em atividades culturais, educativas e até no mercado de trabalho.
Esses exemplos mostram que existem diferentes caminhos para valorizar a idade. E todos eles partem de um princípio comum, o reconhecimento da dignidade humana em todas as fases da vida.
Quando olhamos para o Brasil, percebemos que esses elementos existem, mas nem sempre são praticados de forma consistente. O respeito muitas vezes aparece no discurso, mas não se traduz em participação real.
Mesmo em culturas que valorizam a idade, os desafios do mundo moderno se fazem presentes. Mudanças tecnológicas, urbanização e novos modelos de família alteram relações tradicionais. Em sociedades ocidentais, a rapidez e a produtividade muitas vezes se sobrepõem à experiência.
Isso contribui para a exclusão de pessoas mais velhas, especialmente em ambientes como o mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, os jovens enfrentam pressões intensas por desempenho e sucesso precoce. O resultado é um cenário de tensão entre gerações. Mas é importante lembrar que esse conflito não é natural. Ele é construído socialmente.
Em contextos onde há diálogo e convivência, essa tensão tende a diminuir.
No Brasil, vemos esse contraste de forma muito clara. Ao mesmo tempo em que valorizamos a convivência familiar, ainda há pouca integração efetiva entre gerações em outros espaços. Compreender esses contrastes é essencial para pensar soluções. O diálogo intercultural amplia horizontes e inspira mudanças possíveis.
Para aprofundar esse panorama global, hoje conversaremos com Marcos Genari. Marcos é mestre em História pela Unifesp e atua como professor de História e Ciências Humanas no Centro Universitário FMU. Professor Marcos, o que faz algumas culturas valorizarem tanto a idade? Bom, se você pega os países do leste asiático, especialmente o Japão e a China,
que foram profundamente influenciados pelo confucionismo, você tem uma semelhança cultural, que é a questão da percepção do idoso como um acumulador de conhecimento, um acumulador de sabedoria e experiência. Esse elemento...
foi culturalmente enraizado ao longo dos séculos, a partir de uma série de políticas públicas e desenvolvimento dos próprios países. Mas quando a gente vai para o Ocidente e a gente pensa em países com economias que passaram a se industrializar e a tecnologia passou a se fazer mais presente, a noção de conhecimento e a valorização da experiência
dá lugar à adaptação, à produtividade, à rapidez em geral. Isso acaba muitas vezes sendo associado à juventude. Então a gente vê que a questão do etarismo não é só uma perspectiva moral, mas também tem um elemento econômico produtivo associado.
Professor, e por que algumas sociedades modernas enfrentam tanto o etarismo? Se você pega o elemento econômico que eu expliquei na última questão, a gente consegue entender um pouco melhor isso também. O combate ao etarismo, ele atualmente é muito trabalhado na perspectiva da produtividade e do envelhecimento da população. Por quê? A maior parte da população...
em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, tende a envelhecer. Então, a famosa pirâmide demográfica, em que a base fica curta e o topo fica largo, é uma questão para todos os países tratarem. O que isso significa? A população jovem diminui e a população mais velha aumenta. Então, um combate ao preconceito ao idoso, integração do idoso à sociedade...
E políticas públicas pensadas para a população idosa viram uma questão de Estado, certo? Então, a perspectiva cultural nessa questão, novamente, fica ligada à perspectiva econômica. Há algo que possamos aprender com essas culturas mais tradicionais? Eu acredito que a principal missão que nós podemos tirar de sociedades que culturalmente...
enfrentam o etarismo, é justamente essa outra perspectiva, não necessariamente econômica, que eu abordei nas outras questões. Porque, novamente, a maior parte dos países discute o etarismo dentro dessa perspectiva econômica, por ter se tornado uma questão de política pública. Mas o elemento cultural é fundamental, porque assim que você insere o idoso culturalmente,
seja normalizando a sua presença em quaisquer ambientes, incluindo ele digitalmente, trabalhando a ideia de que o idoso não necessariamente seja improdutivo.
construindo e elaborando espaços de lazer e políticas públicas que tirem o idoso da reclusão, já que esse é o principal sintoma do etarismo, que é a exclusão, você começa a normalizar a presença do idoso no cotidiano e essa questão começa a ser melhor pensada. Quando o idoso se torna uma questão econômica a ser lidada,
automaticamente o etarismo passa a ser trabalhado em uma perspectiva mais complicada, porque vira um problema a ser resolvido. Então o elemento cultural dessas sociedades pode contribuir para equilibrar com a preocupação econômica, que é tão importante quanto, mas não significa que seja o principal.
Observar outras culturas não significa copiar modelos. Significa aprender princípios que podem ser adaptados à nossa realidade. Valorizar o convívio intergeracional é um deles. Incentivar o respeito à trajetória de vida é outro. Isso pode começar em atitudes simples, como escutar mais, incluir nas decisões e reconhecer experiências.
Políticas públicas, educação e mídia têm papel central nesse processo. Mas a mudança também acontece no cotidiano, na forma como nos relacionamos com pessoas de diferentes idades. Construir uma cultura sem etarismo é uma escolha coletiva e também um processo contínuo. Uma sociedade que reconhece o valor de todas as idades é mais equilibrada, mais justa e mais humana.
No próximo programa, vamos falar sobre tecnologia e inclusão etária. E assim, estamos encerrando o programa de hoje. Você poderá ouvi-lo novamente em reapresentação no próximo domingo, às 11 horas da manhã, ou acessando o perfil da Everest no Spotify e também pelo nosso site www.everestfm.com.br.
Na próxima sexta-feira estaremos de volta com um programa inédito. Até lá e tenham todos uma excelente semana. Este projeto foi realizado com apoio da nona edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Rádio Difusão Comunitária para a Cidade de São Paulo. Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.