ETARISMO, IDADISMO E AGEÍSMO: NOVOS NOMES PARA ANTIGOS PRECONCEITOS - PROGRAMA 8: JUVENTUDE E PRESSÃO SOCIAL
EDITAL 9 - PROGRAMA 8
Cleber Falcone
Maria Rita
Arthur Chagas
- Juventude e LiberdadeIdealização da juventude nas redes sociais · Contraste entre expectativa e realidade · Impacto da comparação constante · Pressão por visibilidade e reconhecimento · Saúde mental dos jovens
- Conflito geracional e culturalEducação social e compreensão do etarismo · Acolhimento sem julgamento · Respeito ao tempo de desenvolvimento e individualidade · Ampliação de narrativas sobre sucesso e juventude · Diálogo entre gerações
- Juventude e Oportunidade de CarreiraImposição de um modelo rígido de juventude · Invisibilidade e sentimento de atraso · Tratamento de jovens como imaturos ou despreparados · Contradição entre falta de escuta e cobrança por decisões
- Reação pública e comoção socialPressão de adultos e figuras de autoridade · Pressão de pares (amigos, colegas, vizinhos) · Diferenças de poder aquisitivo e status social
Começa agora mais uma produção radiofônica da Everest FM. A Everest FM orgulhosamente apresenta Etarismo, Idadismo e Ageísmo. Novos nomes para antigos preconceitos. Uma nova série de 12 programas destinados à conscientização social contra o preconceito e à discriminação por idade. Apresentação, Cleber Falcone. E eu sou Maria Rita.
O episódio de hoje é Juventude e Pressão Social. Pense nesta situação.
Um jovem navegando pelas redes sociais. Vê alguém da mesma idade, viajando, empreendendo, com milhares de seguidores. Outro já formado com carreira consolidada. Outro com o corpo ideal. Tudo ao mesmo tempo. Tudo parecendo fácil. E tudo acontecendo no tempo certo.
A juventude é frequentemente apresentada como o auge da vida. Energia, beleza, produtividade e inovação costumam ser associados a essa fase. Mas a experiência real nem sempre acompanha esse ideal. Muitos jovens ainda estão tentando entender quem são, lidando com dúvidas, inseguranças e escolhas difíceis.
Esse contraste entre expectativa e realidade gera pressão. Existe a ideia de que é preciso dar certo rápido, escolher a carreira certa, ser produtivo e ainda ser feliz o tempo todo.
Quando isso não acontece, surgem frustrações, ansiedade e sentimento de inadequação. O etarismo também afeta os jovens ao impor um modelo rígido de juventude. Quem não se encaixa nesse modelo acaba invisível ou passa a acreditar que está atrasado.
É importante reconhecer que a juventude não é uma experiência única. Ela é diversa, plural e atravessada por contextos muito diferentes.
As redes sociais intensificam esse cenário, porque mostram apenas recortes da realidade e não a realidade completa. Pense em um jovem que publica uma conquista, uma aprovação, um novo trabalho, uma viagem. O que não aparece são os erros, as tentativas frustradas, as dúvidas, as dificuldades financeiras, os medos, traumas.
Para quem está assistindo, parece que todo mundo está avançando e só ele está parado.
Essa comparação constante gera sensação de atraso e fracasso. A pressão por visibilidade e reconhecimento é contínua. Likes e seguidores passam a funcionar como medida de valor pessoal. Isso cria um ambiente de vigilância constante, onde é preciso performar o tempo todo. Esse contexto impacta diretamente a saúde mental.
A ansiedade, depressão e esgotamento emocional aparecem com frequência. Falar sobre isso é essencial, porque muitos vivem essas experiências em silêncio. E reconhecer limites também é um ato de cuidado.
O etarismo não se manifesta apenas contra pessoas mais velhas. Ele também aparece na forma como a juventude é tratada. Jovens são normalmente vistos como imaturos ou pouco preparados. Suas opiniões são questionadas ou simplesmente ignoradas. Ao mesmo tempo, espera-se deles decisões rápidas e definitivas. Escolher profissão, construir carreira, ter estabilidade.
Essa contradição gera tensão, porque ao mesmo tempo em que não são plenamente ouvidos, são cobrados como se já estivessem prontos. Isso gera insegurança, medo de errar e dificuldade de experimentar. Valorizar a juventude não é acelerar processos, é respeitar o tempo de desenvolvimento, permitir erro e mudanças. E reconhecer que identidade se constrói ao longo do tempo.
E para aprofundar nesse tema, vamos conversar com o Arthur Chagas, que é psicólogo formado pela PUC São Paulo e mestre em educação pela USP. Atua como psicoterapeuta e professor na Faculdade de Psicologia da UNIP em São Paulo. Doutor, como a pressão social afeta a vida dos jovens?
Cleber, tudo bem? Obrigado pela oportunidade de estar com vocês na Rádio Everest. Hoje, a pressão social afeta os jovens de algumas formas. A gente pode pensar na pressão dos adultos sobre os mais jovens, na pressão...
de figuras de autoridade diretamente na vida de cada um deles. Então, o professor daquele jovem, ou os professores daquele jovem, a família daquele jovem, os pais ou a mãe daquele jovem. Então, a gente pode pensar de algumas formas, e tem uma que eu acho que nem sempre a gente pensa, que são...
Os próprios jovens, os amigos, os vizinhos, os colegas, os primos, que às vezes têm referências ou de um poder aquisitivo diferente ou de um status social diferente na família. E também vira outra forma de pressão social sobre o que o jovem deveria ser ou alcançar, ou compreender ou corresponder. Doutor Arthur, e qual a relação disso com o etarismo?
O etarismo é uma forma de preconceito, ou são todas as formas de preconceito ou de discriminação.
em relação a uma faixa etária, qual seja. Muitas vezes a gente tem até leis específicas, editais de contratação, regulamentações, muitas vezes pensando na questão da pessoa com idade mais avançada para que ela não seja excluída das oportunidades sociais. Mas os jovens às vezes também são, muitas vezes também são.
Então, a gente costuma dizer que você ainda não sabe disso, porque você ainda não tem experiência, você não entende, você não tem como entender. Atribui-se ao jovem uma insuficiência ou quase que uma incapacidade. Acho que alguns até tratam o jovem dessa forma.
Então o etarismo diz respeito também a esse tipo de... é um jeito de tratar até violento, se a gente pensar, de tratar quem está numa faixa etária específica, que está num nível de desenvolvimento intelectual, dos entendimentos, das reflexões sobre o mundo, sobre a realidade, sobre o que é o concreto, o que não é o concreto.
o que é o mais urgente no dia a dia, o que não é. São coisas que o jovem está se apropriando, está construindo esse entendimento. Então, o etarismo é, como muitas vezes, uma intolerância em relação a esse processo pelo qual o jovem está passando, na construção e na sua apropriação do real.
Na sua opinião, qual o ponto mais crítico dessa situação e o que fazer para contornar esse problema? Um dos pontos mais críticos aí é o...
que como jovem vai reagindo a isso, como cada um vai reagindo às formas mais agressivas ou violentas, discriminatórias, julgamentos, que lhes são apontadas, que lhes são dirigidas. Então alguns vão se isolando socialmente, outros vão ficando mais reativos, outros vão perdendo interesse, outros vão...
Evitando diálogos com algumas pessoas é compreensível, mas é um dos pontos mais sofridos e mais difíceis, que demandam uma atenção, um entendimento nosso de um pedido de ajuda, que às vezes não é feito em palavras.
mas que existe uma busca de um ponto de apoio, existe uma busca de um lugar de acolhimento, um lugar ou alguém que represente esse acolhimento.
Muitas vezes quem são as pessoas mais próximas, às vezes na família ou no círculo de amigos, de relações mais próximas, nem sempre acaba reconhecendo essa necessidade que todos nós temos de sermos acolhidos na nossa singularidade. O que nós podemos fazer em relação a isso?
Acho que tem muitas medidas que a gente pode pensar. Talvez passe pela questão de uma educação social, de uma compreensão disso que a gente está falando aqui.
Por cada família, por cada grupo de adultos que lidam com jovens no seu cotidiano, por cada grupo de jovens onde as relações de amizade, de convívio, de coleguismo acabam sendo marcadas por isso tudo também. Eu acho que a questão do acolhimento, quando a gente é escutado sem ser julgado,
quando escutam a gente, quando percebem a gente, reconhecem a gente, sem ridicularização, sem julgamento, encontrando um espaço de coleguismo ou de familiaridade, isso adivia muito os sofrimentos que essa pessoa passa.
Construir uma relação mais saudável com a juventude exige mudanças culturais. E essas mudanças começam pela forma como entendemos o tempo. Nem todas as trajetórias são lineares, nem todo sucesso acontece cedo e nem toda escolha precisa ser definitiva. Educação, família, mídia e políticas públicas têm papel fundamental.
É preciso ampliar as narrativas sobre sucesso, mostrar diferentes caminhos, diferentes ritmos e diferentes formas de viver a juventude. O diálogo entre gerações também é essencial. Quando há troca, há mais compreensão e menos julgamento. Respeitar o tempo de cada um é combater o etarismo. É reconhecer que cada fase da vida tem valor.
No próximo programa, vamos falar sobre legislação e direitos. E assim, estamos encerrando o programa de hoje. Você poderá ouvi-lo novamente em reapresentação no próximo domingo, às 11 horas da manhã. Ou acessando o perfil da Everest no Spotify e também pelo nosso site www.everestfm.com.br.
Na próxima sexta-feira estaremos de volta com um programa inédito. Até lá e tenham todos uma excelente semana. Este projeto foi realizado com apoio da nona edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Rádio Difusão Comunitária para a Cidade de São Paulo. Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa. A Rádio do Seu Rádio.