O futuro em disputa: entre o tecnofascismo e a esperança. Destaques da Semana no IHUCast
Neste episódio, vamos falar sobre o genocídio que continua devastando Gaza mesmo após o cessar-fogo e a luta da nova flotilha humanitária para romper o bloqueio imposto à Faixa. Em um mundo atravessado por guerras, a inteligência artificial deixa os laboratórios e entra de vez nos campos de batalha. Lula e Trump frente a frente: três horas, muitos temas e uma trégua diplomática de prazo incerto.
Em uma perspectiva diferente da crise climática, talvez o maior desafio seja imaginar outra forma de viver no planeta. Um ano de Papa Leão XIV: o pontífice que confrontou Trump sem elevar o tom de voz e transformou a paz em programa de pontificado. Por último, fazemos memória de três grandes intérpretes do Brasil, pensadores que ajudaram a compreender o país, suas contradições e possibilidades.
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Direção, roteiro e edição: Lucas Schardong.
Apresentação e roteiro: Mônica Lima.
Locuções: Lauren Palma, Rejane Bastos, Alexandre Francisco, Christian Padilha, Guilherme Tenher, Mateus Dias e Mathias Lengert.
Lucas Schardong
Mônica Lima
Alexandre Francisco
Christian Padilha
Guilherme Tenher
Lauren Palma
Mateus Dias
Rejane Bastos
- Genocidio GazaSituação humanitária pós-cessar-fogo · Bloqueio de ajuda humanitária · Flotilha global SMUD · Ativistas presos
- Crise ClimáticaOutra forma de viver no planeta · Dia da Sobrecarga · Usina de Belo Monte · Crime organizado na Amazônia · Fim dos combustíveis fósseis
- Inteligência Artificial MilitarIA em campos de batalha · Algoritmo Lavender · Tecnofascismo · Empresas de tecnologia e o Pentágono
- Encontro Lula e TrumpTrégua diplomática · Cooperação bilateral · Terras raras e crime organizado · Eleições de meio de mandato nos EUA
- Um ano de Papa Leão XIVPontificado centrista e cristocêntrico · Confronto com Trump · Questões LGBTQ+ na Igreja · Autoridade moral da Igreja
- Dívida Pública BrasilMilton Santos e o lugar · Guimarães Rosa e o sertão · Fernando Novaes e a formação histórica
Sejam muito bem-vindos ao IHU Cast, o podcast do Instituto Humanitas Unicinos, que nessa versão traz no formato de áudio os destaques da semana. Nesse episódio, vamos falar sobre o genocídio que continua devastando Gaza, mesmo após o cessar-fogo e a luta da nova flotilha humanitária para romper o bloqueio imposto à faixa.
Em um mundo atravessado por guerras, a inteligência artificial deixa os laboratórios e entra de vez nos campos de batalha. Lula e Trump frente a frente. Três horas, muitos temas debatidos e uma trégua diplomática de prazo incerto. Em uma perspectiva diferente da crise climática, talvez o maior desafio seja imaginar outra forma de viver no planeta.
um ano do Papa Leão XIV, o pontífice que confrontou o Trump sem elevar o tom de voz e transformou a paz em um programa de pontificado. Por último, fazemos memória de três grandes intérpretes do Brasil, pensadores que ajudaram a compreender o país, suas contradições e possibilidades.
Quase três anos após a guerra declarada entre Israel e Hamas, e o que se provou um genocídio continuado promovido pelo Estado sionista, a Palestina e a Faixa de Gaza ainda sofrem com os efeitos da destruição e da geopolítica de Netanyahu. O que um dia foi uma região povoada e próspera, hoje é composta por pilhas e montanhas de terra. Detritos e lixo escondem objetos, restos de comida malcheirosa, animais mortos, dispositivos explosivos, mas acima de tudo, corpos.
Mesmo depois do acordo de cessar fogo, assinado em janeiro deste ano, o reflexo da guerra é desolador. A catástrofe humanitária provocada pelo Estado sionista causou a morte de centenas de milhares de pessoas. No início do ano...
Um estudo publicado pela revista científica The Lancet indicou que foram cerca de 70 mil vítimas, sendo que destas, quase 30 mil não foram registradas pelas difíceis condições das estruturas de socorro na faixa de gás.
Nesta semana, uma reportagem do jornal Haaretz informou que mais de 8 mil pessoas ainda estariam sob os escombros. A ofensiva israelense em Gaza também deixou milhares de crianças feridas e órfãos. O número de mortos é tão alto que no início do cessar fogo, os trabalhadores humanitários na faixa de Gaza criaram a sigla WCNSF. Traduzindo para português, seria criança ferida sem família sobrevivente.
O número de pessoas deslocadas também é impactante. Conforme dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, um total de 680 mil crianças vivem em campos de deslocados, que representa dois terços de todas as crianças em Gaza. Adultos chegam a cerca de 1,4 milhão de pessoas vivendo em tendas.
Esses locais de acolhimento e a região como um todo ainda sofrem com um novo flagelo, os ratos, pulgas e ácaros. Desde o cessar-fogo em outubro, as condições sanitárias e de higiene na faixa de Gaza não melhoraram e ainda por cima contribuem para aumentar o risco de doenças. Devido ao aumento das temperaturas e a contínua falta de esgotos e instalações adequadas para a coleta de lixo, eles se multiplicaram, agravando a situação de saúde da população.
A fome e a insegurança alimentar, alimentadas pela guerra, também assolam a região. No fim das contas, o cessar-fogo serviu apenas para tirar o drama dos palestinos dos holofotes e tentar esconder os atos de Israel e Netanyahu. Como se não bastasse todo o sofrimento, Israel continua impedindo a entrada de ajuda humanitária essencial no país.
No meio desse mar de caos e destruição surge um ponto de esperança e solidariedade. Mais uma vez, a flutilha global SMUD organizou uma frota para tentar romper o cerco ilegal imposto pelo regime israelense e exigir responsabilização pelos atos cometidos no genocídio palestino.
Os navios da flotilha estavam a caminho de Gaza para demonstrar sua solidariedade à população palestina e entregar alimentos, água potável e medicamentos, garantindo seu direito à saúde e à subsistência. Mesmo amparados pelo direito internacional, os ativistas sofreram intervenção das forças israelenses, que atacaram as 21 embarcações. Para o padre italiano jornalista Tônio Delolio,
Devemos chamar esse ato pelo nome verdadeiro, pirataria. Na ação, a marinha israelense cometeu uma longa série de crimes contra esses, destruindo motores e sistemas de navegação, abandonando seus ocupantes em mar tempestuoso e sequestrando, segundo a flotilha Global Sumud, 211 ativistas. A maioria deles foram libertados, alguns com ferimentos e sinais de maus tratos, mas duas pessoas continuam presas por Israel.
o ativista brasileiro Tiago Ávila e o ativista palestino-espanhol Saif Abukeshek. O caso ganhou maior percussão internacional com a recente morte da mãe de Ávila e a insensibilidade do Estado israelense em relação a isso, recusando seus pedidos de defesa. Além disso, segundo a Embaixada Brasileira, Tiago Ávila teria sido ameaçado por Israel com fotos de sua família no Brasil.
Para a deputada Mônica Seixas, isso levanta uma denúncia séria de atuação de agentes estrangeiros em território brasileiro para intimidar cidadãos. Em meio à prisão e ameaças, Tiago Ávila escreveu uma carta para sua filha, pedindo desculpas e justificando sua ausência por tanto tempo.
Prezada Tereza, sinto muito por não estar em casa com você agora. Tenho certeza de que você sente muita saudade de mim. E todos os pais e mães de crianças palestinas também sentem muita saudade delas e dariam tudo para viver uma vida de amor, felicidade e alegria que todo ser humano merece, independentemente de sua raça, religião, etnia ou qualquer outra característica.
Seu mundo será mais seguro, porque muitos pais decidiram dar tudo de si para construir este mundo melhor para você. Em uma entrevista concedida ao IHU no ano passado, o doutor em filosofia Peter Paul Pebart revela como Israel se tornou um laboratório da deriva tecnofascista mundial. Para o pesquisador, é no estado sionista onde se experimentam novas tecnologias de inteligência artificial utilizadas no extermínio em massa.
Por anos, as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício construíram uma narrativa cuidadosa sobre si mesmas. Eram forças do bem. A inteligência artificial era uma caricatura do desenvolvimento e progresso humano. Essa máscara acaba de desmoronar publicamente com o acordo do Pentágono para integrar IA em operações militares. O objetivo declarado...
é usar inteligência artificial em qualquer finalidade operacional permitida por lei. Na prática, isso inclui vigilância em massa, identificação de alvos e sistemas capazes de decidir quem será atacado, quando e como, processadas por algoritmos em tempo real.
Em outras palavras, a IA passa a recomendar quem matar. O exército israelense foi pioneiro nesse campo com o algoritmo Lavender. A IA cruzava dados de comportamento, redes de contatos e padrões de vida para gerar listas de alvos em Gaza. As Forças Armadas dos Estados Unidos já usaram o IA no Irã para selecionar mil alvos em apenas 24 horas.
E as empresas de tecnologia? A maioria aderiu. Google, Amazon, Microsoft, NVIDIA e OpenNI passaram a colaborar com projetos militares. 600 funcionários, incluindo cerca de 20 vice-presidentes, assinaram uma carta aberta pedindo que a empresa recusasse contratos confidenciais com o Pentágono. Todos foram ignorados.
O teólogo Paolo Benanti alerta que estamos diante de algo inédito. Empresas privadas fornecendo capacidades cognitivas artificiais a aparatos militares que operam longe do controle público. A pergunta central é simples. Quem responde quando o algoritmo era e as pessoas morem? Hoje, a resposta parece ser ninguém.
Benanti recorre à filósofa Hannah Arendt para definir esse cenário. A inteligência artificial aplicada a sistemas de armas autônomas representa uma nova forma de banalidade do mal. O julgamento sobre a vida e morte é delegado a processos algoritmicos, sem capacidade reflexiva, que não podem dar conta do mal que cometem.
Há poucas exceções nessa corrida armamentista tecnológica. A Antropki recusou determinadas exigências do Pentágono, principalmente aquelas ligadas à vigilância doméstica em massa e armas totalmente autônomas. A resposta do governo Trump foi cancelar contratos federais com a empresa e declará-la como
Um risco para a cadeia de suprimentos. Seu CEO, Dário Amodei, resumiu o risco. Em um número limitado de casos, a IA pode minar, em vez de defender os valores democráticos. Esse processo já recebe um nome entre pesquisadores. Tecnofascismo. Apalantir.
uma das principais fornecedoras de tecnologia para o Pentágono, publicou recentemente um manifesto defendendo o uso da IA em guerras e mecanismos ampliados de controle social. Seu presidente, Peter Thiel, também ampliou interlocuções políticas na América Latina em torno de tecnologias de vigilância e cruzamento de dados. A especialista Lorena John Palazzi
Afirma que essas empresas estão reescrevendo o próprio contrato social. Primeiro definem o que os seres humanos são, dados, padrões, ameaças. Depois oferece as ferramentas para administrar a sociedade a partir dessa lógica algoritmica.
Um dos principais beneficiados pela ascensão do tecnofascismo é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Promotor de guerras e ações autoritárias, como recentemente no Irã e na Venezuela, o líder do país recebeu o presidente Lula para uma reunião bilateral, após diversos meses de conflitos e ataques à soberania brasileira.
A reunião na Casa Branca durou mais de três horas e ocorreu a portas fechadas, com um resultado que foi considerado produtivo para ambos os lados. Lula destacou que foram discutidos temas complexos, como terras raras e combate ao crime organizado, com o lado brasileiro dando ênfase na cooperação e não na hegemonia de apenas um lado. Eu saio daqui com a ideia...
de que nós demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os Estados Unidos. Eu já tinha dito na malária para o presidente Trump.
de que a boa relação entre Brasil e Estados Unidos é uma demonstração ao mundo de que as duas maiores democracias do continente podem efetivamente servir de exemplo para o mundo.
Nós somos as duas maiores democracias do hemisfério. Nós somos duas democracias muito importantes do ponto de vista, sabe, um na América Latina e outro na América do Norte. E nós já tivemos com os Estados Unidos, é importante vocês não perderem de vista, durante todo o século XX, os Estados Unidos foi o maior parceiro comercial do Brasil.
Um dos maiores temores do governo brasileiro é a influência dos Estados Unidos, não só econômica, mas também política, nos assuntos locais. Por isso, rejeita a classificação das organizações criminosas como grupos terroristas, algo que os Estados Unidos poderiam utilizar como justificativa para ações em território brasileiro. Isso também vale para as eleições deste ano, já que o presidente Trump é alinhado aos interesses da extrema-direita de Flávio Bolsonaro.
Por outro lado, a tentativa de influenciar o Brasil está no uso das terras raras do nosso país. A proteção das reservas brasileiras de cobre, níquel, nióbio e lítio são tratadas como questão de segurança nacional. Lula avisou Trump que o Brasil aprovou um novo marco regulatório para atrair investimentos internacionais ao setor, mas se considera aberta a negociação para qualquer parceiro investidor.
A aplicação de tarifas contra produtos brasileiros foi um dos pontos iniciais das rusgas entre os dois países. Dessa vez, a possibilidade pelo encerramento da manutenção dessas taxas ficou em aberto, agendado para daqui a 30 dias, quando os dois presidentes se encontrarão na cúpula do G7. Próximo das eleições de meio de mandato, Trump entende que o Brasil é importante para fortalecer a economia interna, que está cada vez mais desgastada.
No fim, o encontro que poderia ser um desastre, como foi para tantos outros presidentes de outros países quando visitaram a Casa Branca, saiu com um saldo positivo de ponto de vista político e diplomático. Sem grandes deliberações e em um tom conciliatório. Resta saber se essa trégua vai durar.
Saímos de Washington com acordos, declarações e fotos. Mas há uma crise que não cabe em nenhuma agenda bilateral, porque ela exige algo que nenhuma cúpula diplomática consegue negociar, uma mudança de imaginação.
Segundo o escritor indiano Amtav Ghosh, a nossa imaginação ficou completamente presa ao consumismo e a uma forma de vida acelerada. Enquanto não conseguirmos imaginar outra coisa, não vamos mudar e o impacto sobre o planeta vai continuar sendo altíssimo. É uma provocação incômoda, porque ela não aponta para os vilões de sempre. Ela aponta para o nosso cotidiano, para como a gente sonha, para o que a gente acha que é sucesso.
Enquanto a imaginação trava, a realidade continua avançando. No dia 3 de maio, a Itália atingiu o chamado Dia da Sobrecarga, ou seja, esgotou o orçamento ecológico do ano inteiro em quatro meses. A partir do dia 4, o país passou a viver em déficit ecológico.
consumindo capital natural que não tem, acumulando uma dívida que se traduz em crise climática, perda de biodiversidade e degradação do solo. O padre e jornalista italiano Tonio Deolio resume isso. Se o mundo inteiro vivesse como os italianos, precisaríamos de três planetas. E a Itália nem está entre os mais consumidores do planeta. E o Brasil não está fora dessa discussão. Na Amazônia, cenário é preocupante. A usina hidrelétrica de Belo Monte
Completou 10 anos de operação.
Inaugurada em 2016 em Altamira, no Pará, é uma das maiores hidrelétricas do mundo e gera eletricidade plenamente em apenas seis meses do ano. A alteração bruta do rio Xingu simplesmente não sustenta a geração pelo restante do tempo. Cerca de 80% do fluxo do Xingu foi desviado por um canal artificial de 75 quilômetros. O resultado? Ecosistemas destruídos, comunidades deslocadas e o desaparecimento da piracima da Volta Grande do Xingu.
A promessa era desenvolvimento. O resultado expõe justamente o contrário. A incapacidade de imaginar alternativas energéticas que não reproduzam a lógica histórica do sacrifício ambiental em nome do progresso. Isso é o que Goss chama de fracasso da imaginação materializado concretamente. Um projeto de desenvolvimento que não conseguiu imaginar, ou de um sistema que não quis imaginar, o preço real do que estava sendo feito.
A Amazônia enfrenta ainda outra fronteira de destruição, que une meio ambiente e crime organizado. Uma pesquisa da Amazon Watch mostra que redes ilegais de mineração, narcotráfico e extração de madeira afetam hoje 67% dos municípios amazônicos, e colocaram 32% dos territórios indígenas em disputa entre grupos armados.
E esses crimes não surgem do nada. Eles existem porque é uma demanda gerada por economias que continuam a crescer com base na exploração. É a mesma lógica que Gossi descreve quando fala do petróleo. Uma imaginação completamente dependente da extração, incapaz de conceber outra forma de funcionar.
Mas nos cabe uma partícula de esperança. Em Santa Maria, na Colômbia, representantes de 57 países se reuniram numa conferência inédita. A primeira, em 34 anos de negociações climáticas da ONU, a colocar sem vetos o fim dos combustíveis fósseis como objetivo central.
Pela primeira vez em 34 anos, finalmente estamos tendo uma conversa que o mundo precisava. Disse o enviado especial do Panamá, Juan Carlos Monterrey. Temos tratado os sintomas e nunca dissemos que os combustíveis fósseis são a causa principal desse câncer. Complementa.
Nenhum grande acordo saiu de Santa Marta, mas algo mais sutil aconteceu, o rompimento do silêncio. A conversa que não conseguia existir dentro das COPs, onde qualquer menção a petróleo e carvão era vetada pelos países produtores, passou a existir fora delas. Uma colisão de países dispostos a agir sem esperar pelo consenso impossível de todos. Não é a revolução que a crise exige, mas talvez...
seja o tipo de coisa que Ghosh descreveria como o início de uma nova narrativa. Em um mundo atravessado por crises ambientais, guerras e desigualdades, cresce a expectativa sobre lideranças capazes de propor não apenas soluções técnicas, mas novos horizontes éticos. E é nesse contexto que chegamos ao primeiro ano do pontificado de Papa Leão XIV.
A paz esteja convosco. Foram as primeiras palavras de Robert Francis Prevost ao aparecer na varanda da Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025. Um ano depois, o homem que o mundo conhece como Papa Leão XIV segue repetindo essa palavra, paz, num mundo que parece cada vez menos disposto a ouvi-la.
Para entender esse pontificado, é preciso passar por um homem do século IV, Santo Agostinho. Em visita à Argélia, em abril deste ano, o Papa chamou Agostinho de O sociólogo Carlos Eduardo Cell argumenta que o debate sobre o Leão XIV
tem errado o alvo ao perguntar se ele é continuidade ou ruptura em relação a Francisco. A marca específica desse Papa está em outro lugar, está em Agostinho. É o cristocentrismo agostiniano que organiza tudo. A ideia de que só Cristo como centro pode manter juntos os fragmentos de uma igreja polarizada.
Cell desenha o perfil de Leão XIV com precisão. É um papa da síntese. Progressista no campo social e político, mas conservador no plano moral. Retomou gestos institucionais que Francisco havia abandonado, mas preservou os dois pilares centrais do pontificado anterior, a sinodalidade e o primado da evangelização. E numa entrevista à borda do avião, durante sua primeira viagem ao continente africano, deixou claro que não vai endossar a agenda moral liberalizante.
incluindo bênçãos formais de casais do mesmo sexo, como demandam os bispos alemães. Deslocou o centro de gravidade da moral católica. Há questões muito maiores, como justiça, igualdade e liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade sobre a obsessão histórica da igreja com a esfera sexual, disse o Papa. É nesse contexto que o Sínodo dos Bispos publicou essa semana algo histórico.
O relatório de grupo de estudos sobre questões LGBTQ+, inclui, pela primeira vez, os testemunhos detalhados de dois homens gays católicos. A Igreja Sinodal exige escuta. Isso finalmente inclui ouvir os católicos LGBTQ+, diz o documento.
A pergunta que fica, nas palavras do filósofo Pior Zygulski, é A unidade católica, para não ser uniformidade, deve sempre se alimentar de certa diversidade interna. Mas de quanta diversidade somos capazes como igreja? Mas é no campo geopolítico que esse pontificado ganhou um capítulo que ninguém esperava.
Enquanto parte do mundo político vive da agressividade constante, Leão XIV trabalha pela calma. E justamente aí está a sua força. O jornalista Marco Politi afirma que é essa serenidade que alarma Donald Trump. Não por confronto direto, mas porque o Papa representa um obstáculo moral inesperado.
O que escalou o conflito foi a guerra contra o Irã. Quando Trump anunciou seu desejo de aniquilar a civilização iraniana, Leão respondeu com clareza. A ameaça é inaceitável. A guerra é injusta. Os ataques à infraestrutura civil são ilegais. E apelou diretamente à população.
para pressionar parlamentares pela paz. Nenhum papa contemporâneo havia feito isso. Trump viu no pontífice um antagonista direto, num tabuleiro onde achava que jogaria sem impedimentos. Nesse contexto, na véspera do aniversário do pontificado, o secretário de Estado, Marco Rubio, visitou o Vaticano numa tentativa de recompor as relações, porque o eleitorado católico americano vem se afastando de Trump diante dos ataques ao papa.
Não é coincidência que Trump tenha feito suas críticas mais recentes em entrevista à rádio Hugh Hewitt. O voto religioso pesa e as eleições de meio de mandato se aproximam.
Leão XIV não entra na lógica do inimigo permanente. Ele desloca o debate para temas que desmontam o populismo identitário. Pobreza, imigração, sofrimento humano, exclusão social. Cuidar dos pobres é encontrar soluções para situações desumanas. Essa frase talvez seja o resumo mais precioso do pontificado até aqui.
Um ano de Leão XIV, um Papa que chegou com a palavra paz e foi colocado à prova em cada canto do mundo, onde essa paz está em falta. Um Papa que confrontou Trump sem gritar, que herdou Agostinho como bússola e está tentando com serenidade e tenacidade manter a Igreja unida num mundo que empurra para os extremos.
Ainda é cedo para dizer onde irá o pontificado de Leão XIV, mas talvez já seja possível perceber sua principal tentativa, reconstruir a autoridade moral da igreja, não pelo medo, mas pela escuta e pela presença humana. Uma igreja menos obcecada em vigiar corpos e mais preocupada em impedir sofrimentos.
Quando tudo corre rápido demais e nos falta capacidade de imaginar alternativas para o que está posto, é preciso colocar os pés no chão, respirar e olhar para o mundo sob outra perspectiva. No fim, as sabedorias antigas nos ensinam a ter outra forma de contato com a natureza e indicam caminhos para enfrentar os males que o capitalismo tecno-fascista nos impõe.
Povos originários, ribeirinhos, quilombolas. Para todos estes, não existe diferença entre meio ambiente e as pessoas humanas. Tudo faz parte do mesmo, da natureza. Milton Santos, um dos maiores intelectuais do país, acreditava na força do lugar como um poderoso catalisador de mudanças. Para o geógrafo brasileiro, o local não é isolado. É a conexão única entre o global e o local.
O ano de 2026 marca o centenário de Milton Santos. As produções do geógrafo brasileiro iniciaram com os estudos voltados para as realidades baianas. No artigo do mestrando em Planejamento e Gestão do Território, Iago Werneck Fernandes, ele destaca que o pensador estava à frente do seu tempo.
e da nossa imaginação. Em uma época em que as teorias decoloniais nem eram esboçadas, o autor buscou compreender o mundo a partir do sul global, debatendo outros projetos de futuro para o território nacional e a sociedade brasileira, afirma Fernandes.
Guimarães Rosa também foi um autor que nos ajudou a compreender o território e pensar em alternativas a partir do Brasil verdadeiro, aquele pertencente aos seus povos. Na obra Grande Sertão Veredas, ele exalta um sertão brasileiro que deve servir de exemplo para as outras regiões. Em entrevista ao IHU, o teólogo e filósofo José Roque Junges destaca. Guimarães Rosa queria resgatar o sertão ao nível da linguagem.
Porque o sertão não é uma realidade a ser superada pela modernidade, mas preservada por expressar a própria originalidade do Brasil.
Outro intérprete do Brasil, Fernando Novaes, nos deixou nesta semana aos 92 anos. Sendo um grande pensador da formação histórica do Brasil, ele contribuiu para inovar a forma de compreender a formação do Brasil a partir do antigo sistema colonial português. Formando diversas gerações de historiadores e economistas, Novaes deixa um legado para compreendermos e buscarmos uma superação do atraso econômico e da desigualdade brasileira.
O mestre em Geografia e colega do IHU, Guilherme Tenher, faz um comentário sobre o centenário e o trabalho de Milton Santos.
A disseminação de novas formas de organização socioeconômica depende de um trabalho sistemático de modulação dos afetos, hábitos e crenças das populações, o que revela que a técnica é sempre simultaneamente um fenômeno cultural. Para compreender essa dinâmica, Milton Santos propôs as categorias de Tecnosfera e Psicosfera.
A primeira diz respeito à materialidade dos objetos técnicos e às densidades informacionais que qualificam os territórios, conectando-os à lógica verticalizada do capital global. Já a psicosfera opera no plano das ideias, dos valores e das crenças, preparando as subjetividades para a incorporação dos novos arranjos técnicos e mercantis.
Ambas as esferas são redutíveis uma a outra e funcionam, em sua expressão hegemônica, como mecanismos de docilização das populações a serviço das grandes corporações e instituições mundiais, esvaziando os lugares de autonomia política.
e inventividade local. No entanto, a tecnosfera e psicosfera não são mecanismos de dominação sem fissuras. Devemos reconhecer neles uma ambivalência constitutiva. Se por um lado operam como vetores da racionalidade mercantil globalizante,
Por outro, são permanentemente reapropriados pelas populações vulnerabilizadas, pobres e migrantes, por exemplo, que subvertem os usos hegemônicos dos objetos técnicos e das normas corporativas, produzindo contra-racionalidades assentadas na solidariedade, na concretude dos lugares e em relações não predatórias.
São esses sujeitos, portanto, que demonstram a capacidade de reinventar os usos das duas esferas, apontando para outras formas de construção social no presente e para futuros distintos da lógica nefasta dominante.
Essa foi mais uma edição dos Destaques da Semana no IHU Cast. A direção, o roteiro e a edição foram comigo, Lucas Chardon. Apresentação e roteiro de Mônica Lima. Ainda contamos com a colaboração das colegas Laura Empalma e Regiane Bastos. E dos colegas Alexandre Francisco, Christian Padilha, Guilherme Tenier, Matheus Dias e Matias Lengert.