TRABALHO FUNERÁRIO: 💀 Preparei um cadáver para um VELÓRIO! | #VIDAREAL #26
COMO FUNCIONA UMA FUNERÁRIA NA VIDA REAL? ⚰️Você já parou para pensar no que acontece quando a vida chega ao fim? Hoje o Tavião decidiu encarar de frente um dos maiores tabus da humanidade: a morte!Com a companhia do agente funerário Lucas Sant, ele foi em uma funerária para entender todos os processos que acontecem nos bastidores. Do laboratório de tanatopraxia (a preparação do corpo) até a escolha do caixão e o funcionamento de um crematório.Bora sair do estúdio e ir pra prática no ACHISMOS NA #VIDAREAL :)TAVIÃO @taviaohttps://www.instagram.com/taviao/ LUCAS SANT @santdubhttps://www.instagram.com/santdub/Conheça e se inscreva no meu canal de comédia: https://www.youtube.com/@MauMeirellesVem pro meu canal no Telegram: https://bit.ly/3MDFZLhBora ver meu show no teatro:https://www.mauriciomeirelles.com.br
- Funeral e Cerimônia de EnterroDeclaração de óbito · Escolha de urnas · Preços de serviços funerários · Planejamento funerário
- TanatopraxiaProcedimento clínico · Troca de fluidos com formaldeído · Tamponamento (nariz e garganta) · Necromaquiagem corretiva · Reconstrução de corpos
- Preces e velóriosUrnas com visor · Urnas para bebês (anjinho) · Urnas religiosas (católica, evangélica, matriz africana) · Urnas para pets · Urnas para pessoas obesas
- Cagado e DesmaiadoTempo de espera para cremação (24h e 72h) · Processo de cremação (forno, tempo, cinzas) · Sepultamento de pets · Dispersão de cinzas (mar, urnas ecológicas)
- Arrumação do Corpo na UrnaPosicionamento confortável · Uso de jornal e serragem para calço · Ornamentação com flores · Posição das mãos (cruzadas ou não)
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Isso aqui é um depósito de caixões. Eu sou Otávio e hoje eu vou te mostrar como funciona uma funerária na vida real. A minha vontade é de pedir licença, pedir desculpa quando eu tô mexendo isso aqui que a gente tá fazendo. A gente tá fazendo o trabalho com uma pessoa, mas que na verdade é para atender às vezes dezenas, dezenas que vão no velório, dos familiares. É para eles, né?
É para eles que a gente precisa fazer. Se você senta para almoçar e liga a TV, vai estar passando tragédia. Vai estar passando morte. Você coloca um filme, tem morte no filme. Tipo, por que que na sua vida, que é o real, a vida real, você não encara de forma natural?
Hoje o Na Vida Real é sobre um tema mais sensível, mas que nem deveria ser, que é a morte. Que eu sei que é um grande tabu pra todo mundo, porém é uma das únicas certezas que a gente tem na vida. Todo mundo que você conhece vai passar por isso, inclusive você, inclusive eu. E é importante que a gente saiba sabe o que fazer quando isso acontece. Por isso que hoje a gente tá numa funerária para mostrar todos os processos que acontecem quando alguém chega ao final da sua vida.
Meu guia hoje será Lucas, agente funerário e também um dos maiores instagramers do setor, né, de conteúdo funerário. Como que isso aconteceu, Lucas?
Eu sempre quis trabalhar em funerária desde pequeno. Quando eu consegui, né, entrar para o setor, eu vi a necessidade de mostrar para as pessoas, de falar para as pessoas sobre morte, sobre luto, sobre como é esse processo por trás todos os bastidores. Então eu falei, eu vou trazer esses bastidores pro pessoal conhecer.
Mas pera aí, tu me falou que desde criança teu sonho era trabalhar numa funerária?
É, criança meio doida, né?
Não era ser jogador de futebol, não era astronauta?
No velório do meu pai eu vi o agente funerário descer o corpo do carro, preparar tudo, colocar o corpo ali em cima dos pedestais, né, da paramentação, e eu não entendia nada daquilo, mas eu falei, profissão legal, é isso aí que eu quero fazer. E aí fui atrás, vi o que precisava, né, eu era criança, então quando eu fiz 18 anos já fui atrás de habilitação, já fui atrás de tudo pra trabalhar em funerária. Foi já um um objetivo desde sempre.
E eu acho que o propósito do teu trabalho e do que a gente tá querendo mostrar aqui hoje é justamente conscientizar as pessoas de que isso aqui é normal, isso aqui é o processo que todo mundo vai ter que passar, e é importante que a gente saiba agir nesses momentos, né?
É como eu falo, a morte ela faz parte da vida, então não adianta a gente querer maquiar isso, a gente querer não falar disso, que é a maior certeza. Pra uns vem antes, né, outros vem depois, né, mas é algo que a gente— é a única coisa que a gente tem certeza.
E essa sala em geral, eu que já tive essa experiência também, é onde tudo começa, começa quando você precisa lidar com o óbito de uma pessoa amada. E é um momento muito sensível, que é escolher qual é o caixão onde a pessoa vai ser enterrada. Como que funciona isso, cara?
O serviço funerário, ele pode— ele só consegue ser feito a partir da declaração de óbito que o médico vai fornecer, seja o médico do hospital, médico do IML, médico do SAMU. Ele vai fornecer essa declaração de óbito, que é aquele papel amarelo, e a partir daí o serviço funerário vai acontecer. Então, a partir daí, a família consegue vir aqui para fazer contratação, né, do serviço, escolher qual urna vai ser, escolher como vai ser feito, flores, local de velório, local de sepultamento, né, ou cremação.
Aí eu tenho essa memória de chegar numa sala como essa e aí a pessoa falar para mim, ó, o que o teu plano, no teu convênio, não sei exatamente, o que cobre é esse daqui, que era o mais simplesinho. Talvez seja mais parecido com esse. Esse é o mais simplesinho que vocês têm?
É, esse é o mais simples, que é o padrão. É, esse aqui na verdade é o mais simples no serviço particular, mas a gente tem os do plano também.
A coisa era tipo, ó, mas tem esse que é mais bonito, isso, e custa mais caro, né?
É uma venda. Uma venda.
Se eu chegasse aqui, eu não tenho nenhum plano funerário, eu não tenho nenhum planejamento pra isso. Quanto custa esse caixão, que é o mais simples?
Aqui na nossa unidade, na nossa funerária, nós vendemos o serviço funerário, né? Então, tipo, as pessoas têm muito isso de achar que vai chegar aqui e vai comprar somente a urna, né? Só que se eu cobrar somente a urna, eu vou ter que cobrar todas as outras coisas. Vou ter que cobrar a flor, eu vou ter que cobrar o agente funerário que vai remover, o custo pra ir, custo pra voltar. Então, geralmente, as funerais, elas vendem o serviço. Né? Então aqui a gente tem serviços a partir de R$800.
R$800? Isso daí já cobre o caixão, a urna, o preparo, higienização, tamponamento, ornamentação, né?
O deslocamento do velório próximo. Aí tudo vai depender da região, né? Onde o corpo tá, para onde ele vai.
E em geral é você que acompanha a pessoa aqui quando ela tá escolhendo? Porque assim, realmente tem uns mais bonitos, mais ornamentados e tudo mais, mas esse deve ser um momento muito sensível para pessoa.
É um momento que tem que ter preparo, mas faz parte do trabalho do agente funerário. Por mais que tenha atendentes para fazer isso, mas também faz faz parte do agente funerário, porque a palavra agente funerário vem de agenciar um funeral. Você, o familiar, chegou aqui, você vai precisar, você não sabe de nenhuma informação, quem vai te auxiliar em tudo sou eu. Então quem vai, eu não tô aqui para te vender, eu tô aqui para entender a sua necessidade e realizar um velório, né, uma despedida ali para o seu, do seu familiar, para sua família.
Se eu chegasse aqui, ó, meu pai acabou de morrer, esse aqui é o nosso primeiro passo, como que você me orientaria a escolher um caixão?
Primeira coisa do agente funerário, Não vou te dar bom dia, né? Porque você não tá em um bom dia. Então, meus sentimentos. Esse aqui é o nosso mostruário, né? Se você tiver um convênio, te leva até o anel do convênio. Mas se você não tivesse, com um serviço particular, eu vou falar: olha, essas urnas aqui, né? Eu tenho todas essas urnas. Vou explicar a diferença entre elas, das alças, dos ornamentos dela, né? Dos desenhos, se tem visor ou se não tem visor.
Essa é uma coisa interessante que eu tava vendo aqui, né? Porque Esse aqui é um caixão que ele tem essa parte tampada, mas que pode ficar—
pode tirar e virar um visor, né? E aí tem tanto urnas com visor assim pequeno, ou uma urna com um visor maior, ou uma urna que pega o visor, pega o corpo inteiro, né? Então em uma necessidade, essa aqui tira tudo e aí vira o visor inteiro. Então se é uma necessidade de velar no visor, quando há essa necessidade que o velório exige de uma morte respiratória, ou de um acidente que vai ser preciso velar no visor, a família ela tem essa opção de velar ou no visor pequenininho, que só vai dar para ver o rosto, e aí nós oferecemos essa opção também de velar em um visor maior, onde você vai ter mais visibilidade do corpo.
E o que que define isso?
Regras municipais do próprio velório municipal, né? Geralmente pós-COVID tem bastante isso de morte respiratória sem causa definida, o velório no visor, ou até mesmo...
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Um acidente onde o corpo já não consegue fazer um velório aberto, né? E aí faz uma reconstrução e aí precisa ser velado no visor pra que a família não, naquele momento de emoção, venha ali tocar no corpo.
Cara, é muito impactante porque você tem até os caixões de bebezinho.
Isso, isso. As urnas de anjinho, que a gente costuma chamar, né? Essa daqui é a menor que tem, 60 centímetros. Depois dela tem a de 80. 1 metro, 1,20, 1,40, e depois essas daqui padrão de 2. Geralmente essas urnas, quando é natimorto ou RN, né, o natimorto é aquele nasceu morto e o RN nasceu, viveu e depois veio a falecer.
E aí, cara, você tava me falando que às vezes a pessoa chega e ela já tem uma roupa com a qual ela gostaria de ser enterrada, mas senão eu posso comprar também aqui?
Pode comprar. Vamos supor que você tem a camisa vinho, assim, a camisa vinho do Otávio, então vamos trazer a camisa vinho para colocar nele. Mas se a família às vezes às vezes ela não quer ir até o seu guarda-roupa para abrir, para sentir o seu cheiro, para ver suas coisas, reviver tudo ali naquele momento agora. Então tem essa opção de, ou ela é de longe, tem essa opção de ter aqui um terno, né? Esse no caso aqui é um terno feminino, mas tem terno masculino de outras cores, com paletó, sem paletó.
Lucas, eu tava reparando que é normal terem referências religiosas aqui nos caixões. E você tava me explicando, cara, que assim, esse é mais para quem é católico.
É, geralmente as pessoas, né, de Os católicos, eles chegam e eles procuram urnas que tenham referência à religião, né? Qualquer religião pós-morte. Essa aqui, ela remete ao Cristo, né? Então a gente tem de Cristo, tem de outros santos também.
Mas você me comentou que quem é evangélico prefere esses aqui que têm frases.
Frases de Bíblia, né? Igual essa aqui.
Tá, eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. É uma forma ali de deixar uma mensagem.
Sim, sim, uma mensagem bíblica, né? E aí tem nas duas cores. Tanto no marrom quanto no branco, né? E pessoas de matriz africana também, que geralmente são sepultados em urna branca, né?
Ah, tem isso? Tem.
Geralmente o pessoal do Espiritismo, Umbanda, Candomblé, né, eles têm essa preferência por urna branca, principalmente quem é de cargo, né, na religião. Um pai de santo, uma mãe de santo. Um pai de santo, uma mãe de santo, geralmente, né, eles são sepultados em urna branca.
E se eu chegasse aqui pra você e falasse assim, não, mas eu quero, pô, meu pai ele gostava muito de um orixá tal ou de um santo tal, vocês fazem customizado?
Aí depende do fornecedor. Como a urna não é feita aqui, ela é do fornecedor, mas existem sim urnas de todas as imagens, né?
Interessante. Porque eu imagino que o seu trabalho, cara, seja muito de conduzir a pessoa nesse momento.
Isso.
Por exemplo, imagina eu cheguei aqui, tô tentando escolher um caixão pro meu pai, mas o meu pai era obeso. E daí eu falei, não cabe nisso aqui.
Não vai caber nessa. Uma das primeiras coisas que a gente pergunta quando a família chega aqui com a declaração de óbito hábito é o peso e altura, para saber se eu tenho essa urna. Porque não adianta eu mostrar para você todas essas urnas sendo que eu não tenho todas elas em um tamanho especial. Se é uma pessoa, igual eu falei, essa urna aqui ela tem 2 metros. Se é uma pessoa maior que 2 metros, então precisa ter uma urna comprida. Se a pessoa pesa mais que 120 kg, ela precisa ter uma urna especial.
E você tem uma urna?
A gente tem aqui também, né? A funerária ela tem que ser preparada para atender todos os casos, né?
Tem uma aqui embaixo que ele tem umas patinhas de cachorro. O que que é isso aqui, cara?
Essa aí é uma urna pra sepultamento pet, né? Hoje em dia existe uma lei que ela proíbe o sepultamento clandestino, né, de animais, seja no quintal de casa, né, como o pessoal costumava.
Ah, que isso era muito comum.
É, então hoje é um crime ambiental. Então a opção ou é uma cremação né, ou o sepultamento em cemitérios pet, que existe também cemitérios pet.
Entendi. Então se eu não for cremar o meu cachorrinho, eu preciso enterrar ele dentro de uma urna adaptada, né?
E hoje no estado de São Paulo existe, né, uma lei que ela permite que você sepulte o seu animalzinho no seu jazigo. Então se você tem um jazigo particular, você pode sepultar lá no seu jazigo. Então assim, essa lei ela foi decretada, então cada município vai se adequar ali de acordo com a necessidade do município, mas vai precisar sim de uma urna para o sepultamento, né? Vai ser um sepultamento como um sepultamento de um humano mesmo.
Lucas, e aqui então é o depósito de caixões que vocês têm, é isso?
Olha, todo o estoque aqui, né? Então tem as urnas que sai mais, a gente deixa aqui embaixo, plano, a do serviço gratuito, da isenção do CRAS, as urnas compridas, né, as tamanhos especiais. E as que saem menos a gente deixa lá em cima.
E aquelas ali são as maiores que você tem?
Essas aqui são as maiores que a gente tem. Né, pra uma pessoa obesa, na necessidade de precisar fazer um velório pra uma pessoa obesa, nós temos aqui também.
Podemos abrir uma pra mostrar? Vamos.
Será que nós conseguimos jogar essa aqui, ó?
É leve? É pesado?
Essa aqui é levinha, que essa aqui é expositora. Pode pôr em cima. Essa aqui é expositora, até de papelão. Ah, tá. Vou abrir essa aqui que é maior.
Boa.
Quer abrir ela assim de frente? Acho que o take vai ficar—
Caramba! Esse aqui, Lucas, é um caixão para uma pessoa que pesa quantos quilos?
Essa aqui ela vai de 250.
Me parece até pequeno para alguém que pesa tanto. Acho que uma coisa que a gente tava conversando é isso: quando você tá no caixão, você tá muito espremidinho, e a gente percebe que a gente é menor do que a gente imagina, né?
Quando a gente vai preparar um corpo, a gente sempre procura deixar ele em uma que a gente chama de posição confortável, né? Então ele não pode estar com a cabeça muito para trás, tem a cabeça tem que estar sempre olhando para o pé dele, né? Olhando para quem vai chegar no velório, a gente fala, né? As mãos, elas, né, sempre tem que estar nessa posição. Ela não pode estar muito assim, não pode estar muito assim. É assim, depende, né?
Às vezes a família pede para colocar no peito, outras famílias, né, não, nem tanto. Então a gente Mas ele sempre precisa estar nessa posição assim de confortável, que vai ficar mais ou menos o cotovelo no cotovelo da urna.
E aí, cara, eu imagino que nesse momento seja um ponto onde algumas pessoas comecem a travar. Isso já aconteceu contigo? Como que você conduz assim? Porque você é quase um psicólogo no final das contas, né?
São 3 momentos que a família passa. Você já passou por isso, você pode me confirmar ou me desmentir. Acho que é o momento que você recebe a notícia do falecimento, que o hospital pede para você comparecer aparecer com os documentos no hospital. Então você já tem aquele choque. O segundo choque é quando você chega na funerária, que você precisa escolher a urna, que é um momento muito difícil. E o terceiro momento é o reconhecimento.
Eu acho que esses três momentos, para quem é o declarante, para quem tá ali de frente a tudo, esse vai ser um dos piores momentos. Para o geral vai ser quando fecha a tampa da urna, né, no velório. Mas quando fecha a tampa da urna para a gente seguir para o sepultamento, a pessoa que foi responsável por tudo, ela já tá calejada, né? Porque ela já passou por tudo isso antes que ninguém passou.
É, porque você tava me comentando que assim como quando alguém vai casar, quando alguém morre exige um planejamento que não é feito em—
que não é feito do dia pra noite, né?
Mas a gente não se prepara, né?
A não ser em Las Vegas, na hora, no casamento, ele precisa de todo um preparo. Onde vai ser feito o casamento? Quem vai no casamento? Qual vestido? Qual roupa você vai usar? No velório é a mesma coisa, no funeral, né? É que no Brasil tem muito essa cultura de morreu hoje, quero sepultar hoje. Ah, mas não é assim no Brasil? A gente tem essa cultura que vem quebrando, né, de acordo com o tempo. Mas se você pega outros países, o velório ele vai começar depois de uma semana.
Uma semana?
Se você pega Inglaterra, né, Estados Unidos, esses outros países, o velório, a pessoa falece e aí vai na casa funerária e vai fazer todo esse preparo. Então eu vou colher as informações, o que seu pai gostava, que ele vestia, para a gente junto montar esse funeral e o velório vai começar depois de uma semana, né?
Eu li uma vez que esse tipo de coisa é característica de países mais frios ou mais quentes, de que por no Brasil ser um país tropical, às vezes o corpo acabava—
isso antes, né? Claro, o calor ele vai acelerar, né, a decomposição do corpo, o que precisa ser feito um velório, um sepultamento mais rápido. Mas hoje nós temos tratamentos, né, com metanato taxia, né, o embalsamamento, que vai conservar, ele vai retardar a decomposição e conservar o corpo por mais tempo. É o procedimento que faz para viajar, para embarque, né, para uma família. Lucas, meu pai morreu, mas minha mãe tá no Japão e ela vai chegar só tal dia.
A gente precisa conservar esse corpo para sua mãe chegar e ter, participar também do velório.
Em que momento da vida você sugeriria que alguém tivesse essa essa preocupação?
Cara, não tem idade. A morte, ela não tem idade, ela vem para qualquer momento. Então assim, quanto antes você fizer essa preocupação toda, esse cuidado, esse zelo, é melhor, né? Como eu tava falando do seguro do carro, é mais garantido que você vai usar um convênio funerário do que você vai acionar o seguro do seu carro.
Você tem?
Tem.
Faz tempo?
Comecei a descobrir esse mundo quando eu entrei na funerária, né? Vendo o dia, todo dia, a preocupação das famílias tudo, eu não quero levar isso pra minha família.
E você tem já meio que, então, é estranho dizer isso, mas você tem já um desenho na sua cabeça de como vai ser?
É, a gente sempre pensa, né? Tipo, eu, Lucas, eu quero muito ser cremado, por mais que a gente saiba que nem todas as causas de morte pode ser feita cremação. Uma morte de causa violenta ou suspeita, né, um corpo que vai pro IML, essas causas, ou uma morte sem causa definida, ela não pode ser feita cremação por motivo de, por exemplo, futuramente de sua...
Precisar exumar.
É para fazer uma investigação. Então essas causas o crematório ele não aceita. Então aí sim precisa fazer o sepultamento. Mas agora eu tenho uma causa, pneumonia, vamos fazer cremação. Então minha família já sabe, né, o pessoal aqui da funerária já sabe, eu já falei qual urna que eu quero, né, tudo. A gente já tem tudo pré-definido.
Então você tem definido que você gostaria que fosse cremado. Mais alguma coisa que você já—
um velório, um velório, eu sempre falo que um velório com alegria.
Todo mundo fala isso, é possível.
É possível. A gente presencia velórios, inclusive na nossa unidade, de faz churrasco e bebe. E porque essas pessoas que têm esse entendimento que a morte faz parte da vida, no velório ela vai celebrar. Claro, é uma dor muito grande você perder alguém, você nunca mais vê essa pessoa, mas você vai lembrar dessa pessoa, quem ela foi em vida, o que ela importou para você, né? Então você vai celebrar a vida dela. O velório, ele é uma despedida, mas ele é para celebrar a vida da pessoa.
Mas Lucas, antes de ser colocado aqui no caixão, independente do qual você escolher, o corpo passa por um longo processo, um longo processo do preparo, né, desde a remoção até o preparo, até chegar no velório, que é a tanatopraxia, um procedimento clínico ou tratamento convencional, que não é feito aqui, é feito em um laboratório que a gente vai conhecer agora. Chegamos aqui no laboratório de tanatologia, mas não posso não comentar, Lucas, que a gente chegou aqui, você foi reconhecido, cara, você é famoso no universo, tem esse reconhecimento aí das pessoas, né, graças a um conteúdo bacana que a gente vem criando, né, desmistificando, trazendo um conhecimento bacana.
Então as pessoas acompanham tanto para saber como é feito o procedimento, pessoas que querem entrar na área, pessoas que perderam alguém, pessoas que são da área, né.
E como você tava me comentando, um agente funerário como você, cara, é uma banda de um homem só, porque você faz muitas coisas, inclusive trabalhar aqui, a tanatopraxia, que é o— cara, isso aqui parece um uma coisa ali, uma mesa de operação. Tem aqui, o que que é esse líquido?
Essa aqui é a bomba injetora. A tanatopraxia, ela vai ser o processo clínico, procedimento clínico para retardar a decomposição através da troca do formaldeído. É um produto à base de formaldeído, né, que é esse produto aqui, ó.
Por que que tem o amarelo, o verde e o vermelho?
Não se pega na cor, mas o vermelhinho aqui, esse TA, ele vai fazer o tratamento arterial. Arterial. O verde ele vai fazer o tratamento cavitário, nas cavidades, e o amarelo ele vai fazer o tratamento arterial em pessoas hepáticas, né? Tem até aqui, ó, para corpos com doenças hepáticas, cirrose, né, hepatite. Então essas causas precisa ser esse produto específico.
E o nome é Anúbis, que é o deus da morte egípcio.
E aí essa bomba, esse produto a gente coloca nessa bomba, o arterial, e faz ali, né, a troca do fluido através da bomba injetora.
Que daí, por exemplo, chegou um corpo aqui, o que que você vai fazer? Que você tava me mostrando, você tá com a mão tudo machucada, cara.
Aqui foi da própria pinça, né, a pressão dessa pinça aqui.
Aqui tem toda uma série de utensílios, né, e você opera isso aqui. Tanto que você tava me mostrando que você tava com o dedo machucado.
Isso, meu dedo tá até machucado aqui de tamponar, né.
O que que é tamponar e o que que você usa?
O tamponamento ele vai ser feito, né, após o procedimento de tanatopraxia, em corpos que vão ser feitos o procedimento e também em corpos que não vai ser feito procedimento. Tamponamento ele é feito nariz e garganta, né, com algodão. O algodão que a gente utiliza é o algodão em corda, né, esse algodão aqui que ele é meio que fosse permeável, né. Então contato com o líquido ele não vai encharcar como algodão de unha que a gente tá acostumado.
E aqui a gente precisa estar sempre de luva porque esse é o material, é aqui um ambiente clínico, né?
Então a gente precisa tudo sempre que for manusear, né, tá em contato com esses instrumentos, a gente utilizar aí uma luva, né?
Então esse aqui era a pinça que você tava usando ontem?
Isso, essa pinça.
E como que você se machucou? O que que você tava fazendo?
Acho que foi mais nessa parte, né, o jeito da pega, né, o dia inteiro. Então acaba fregando muito a mão aqui, acaba esfolando mesmo, né. O tamponamento então ele vai ser feito primeiramente na boca, né. Então a gente vai fechar o canal da traqueia, né, com algodão e o auxílio do pó de tamponamento. Esse aqui é o pó de tamponamento que em contato com líquido, né, ele vai inchar e vai virar um gel.
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A gente vai molhando tudo que tem dentro do corpo, sangue. Às vezes ele tomava muita medicação e foi extravasar. Com o auxílio do algodão e do pó de tamponamento, ele vai segurar. Mesmo após o procedimento de tanatopraxia, também é feito para garantir que não tenha nenhum transtorno ali no velório, né? Acho que quando a família, quando alguém vai no velório, a última coisa que ela quer ver é o corpo extravasar, né? Extravasar sangue, líquido, secreções sair pelo nariz. Né, pela boca ali.
E isso é uma coisa que pode acontecer?
Pode acontecer se não for feito um procedimento adequado, se não for feito o tamponamento, né. Ele é justamente para isso, para segurar, para família ter esse momento.
Mas aqui, cara, por exemplo, aqui não acontece nenhuma autópsia? Não acontece?
É tudo pó. Se fez uma autópsia, uma necropsia no IML, no SVO, ele vem para cá depois, né. Aqui é dado banho no corpo e é feito essa que eu falei da troca de fluido, né, para conservar, que entra os produtos fixar os tecidos para conservar. E aí depois o tamponamento, né.
Que eu achei que quando o corpo chegava para essa parte, ela já teria passado por um hospital, IML, e já teriam tirado todo o sangue, todos os órgãos. Não é assim que funciona?
Não, na verdade não retira os órgãos, né. Mesmo em um procedimento que vai tratar os órgãos, quando ele precisa ser retirado, depois ele volta pro corpo. Ele é tratado e ele retorna pro corpo, né? Esse é o procedimento de tanatopraxia, do embalsamamento, né? Mas no hospital, na verdade, o corpo faleceu, ele vai, eles fazem até um tamponamento no hospital, mas não é o tamponamento pra velório. O tamponamento do hospital, costumo dizer muito isso, que os tamponamentos do hospital, eles são feitos pra reconhecer o corpo, pra família não ter aquele, e mesmo assim ele não consegue segurar muito ali o extravasamento de sangue, né?
Então muitas vezes quando as famílias vão reconhecer o corpo, o corpo ele tá sujo. O tamponamento da funerária é para velório.
E aí, cara, o corpo quando ele chega aqui, e às vezes ele teve uma morte que foi violenta, né, que foi uma coisa ali que modificou o corpo, ele chega aqui já resolvidinho ou é você que resolve?
Você fala em questão de reconstrução? De tudo vai ser feito nessa mesa, por mais que ele passou pela necrose biópsia no IML, em uma causa violenta, em uma causa aqui de um acidente, por exemplo, que vai ser preciso fazer uma reconstrução. Quando ele vem para cá, para o laboratório, é aqui que é feito essa parte de restauração. Inclusive, aqui tem algumas massas de reconstrução. Essa aqui é uma massinha, o Restaura Max, que ele é uma massa de reconstrução.
Então, se a pessoa ela tem um trauma que abriu algo, né, a gente vai fazer com essa assim ali o fechamento e depois a maquiagem. Isso, o agente funerário, tanatopraticista, ele faz isso, né? Ele faz esse trabalho do começo, é o trabalho do começo até o fim, né? Desde atender a família lá naquela primeira sala até entregar no cemitério.
Como que você lida com isso? Como que você volta para casa e janta vendo Netflix?
E eu tento não misturar as coisas, né? Eu falo assim, tem a minha família e tem as outras famílias. Por mais que eu passe mais tempo às vezes com as outras famílias, mais tempo com a sua família do que a minha família, quando eu saio daqui eu preciso voltar para minha família. E a família, minha família não quer o Lucas agente funerário, ela quer o Lucas esposo, Lucas filho. Então ele precisa voltar. Então o que fez aqui, eu tratei, eu cuidei de uma família, entreguei no sepultou, eu vou para outra família.
Eu tento não guardar as coisas. Então eu saio daqui, o que ficou no trabalho ficou no trabalho. Felizmente eu consigo. Eu acho que Isso faz um grande diferencial para quem entra na área, é saber diferenciar as coisas, saber separar sua vida pessoal da sua vida do seu trabalho.
Isso foi uma coisa que imagino que foi com o tempo que você foi aprendendo a lidar, né, trabalhar o seu psicológico. Passou por todo esse processo? Tem mais alguma coisa?
Passou pelo procedimento, então vai fazer a troca dos fluidos, a aspiração dos gases e líquidos. O corpo, ele foi feito o procedimento, vai melhorar o aspecto da coloração dele, né, vai fazer aquele aspecto mais rosadinho, mais sereno. O corpo após esse procedimento vai conseguir durar mais tempo antes da decomposição voltar, né, ativa no corpo. E aí a gente passa para a parte de preparar o corpo para o velório, dentro do caixão, dentro da urna.
Bom, aqui, Lucas, a gente tem que colocar máscara porque todos os EPIs necessários para fazer a manipulação do corpo. Só por mais que tenha passado pelo procedimento de tanatopraxia né, pelo menos os EPIs mínimos, luva e máscara, é importante pro profissional nesse momento, né. Por mais que no velório, mas no velório a família não vai estar de máscara, mas pelo menos aqui no ambiente funerário, né, o ideal é você utilizar todos os EPIs. Entendi.
Então aqui é uma pessoa que passou ali por todo o processo do laboratório, veio pro caixão. Qual que seriam os próximos passos?
A pessoa, quando a gente coloca ela na urna, ela fica solta dentro da urna. Então a gente precisa primeiro pegar a altura dela pra saber como que ela ela vai ficar distribuída dentro da urna. Como que a gente vai fazer? No meio? Não. Todo o corpo a gente arruma como se ele fosse ver lá no visor, na janelinha do caixão, que a gente chama, né? E como que eu sei qual que é essa altura? Geralmente a gente fecha esse babado da urna que vai ficar aqui e a gente mede 4 dedos.
A cabeça ela tem que estar daqui para lá. Então ela já tá nessa posição. Se você for ver, o cotovelo vai ficar mais ou menos no cotovelo da urna, só que o cotovelo ainda tá baixo, né, dele. O pé ainda não chegou a bater lá no final da urna. A gente trava com jornal, né, com bolas, bolas de jornal aqui, né, que a gente vai enrolar ali para travar, para que esse corpo não desça durante o trajeto até o velório. Então a gente trava aqui com jornal.
Então agora o corpo já não vai descer, que eu vejo que o corpo já tá bem rígido nesse momento. Inclusive ela vai endurecer o corpo, ela, a pessoa, ela tá rígida nem por conta da rigidez cadavérica que vai fazer parte do processo, mas sim por conta do procedimento que foi feito. Após isso, nós vamos colocar ela na altura. A pessoa, ela nunca pode estar com a cabeça para trás. O ideal é que ela esteja sempre em direção, o olhar para o pé dela, né?
A gente sempre costuma chegar aqui um pouco erguida. Quando a pessoa chega no velório, ela sempre chega de frente com o corpo, geralmente, né? Chega de frente com o corpo. Então o corpo, ele precisa estar virado, voltado para lá. Como que nós vamos levantar esse corpo agora, né? Através do jornal.
Isso aqui é um jornal especial?
É o jornal de gráfica mesmo, de papel, né? Tem funerária que pode utilizar papel picado, isopor, né, até um próprio papelão enrolado, ou até mesmo o jornal. O jornal eu acho mais fácil de manipular do tamanho que eu quero. Então a primeira coisa que eu vou fazer vai ser levantar a pessoa. Ela tá afunda na urna, nós vamos levantar ela para deixar na posição. Se a gente dobra o jornal, ele não vai ganhar peso, ele não vai ganhar volume.
Se a gente enrola o jornal, ele vai ficar muito grosso e a gente não vai conseguir manipular ele. O ideal é você embolar o jornal de qualquer jeito. Você vai pegar uns 4 jornais e você vai embolar ele, ó, e vai fazer. E aí você vai prensando ele, ele vai como se fosse um lanchinho enrolado.
Entendi. Isso aqui é como se fosse um travesseiro daí, como se fosse um calço, né, que a gente chama.
Então vou pegar aqui mais um. E aí nós vamos levantar o corpo agora. Então eu levanto aqui, você põe embaixo aí, tá, embaixo do ombro dela. Aí eu levanto aqui também. O ombro, se você reparar, ele já chegou na altura que eu quero, que é eu fechar esse babado e o ombro Ombro tá aqui pertinho do babado, senão ela vai ficar muito funda. Só que agora a gente precisa levantar a cabeça também. Então, da mesma forma, nós vamos fazer esse levantamento, né?
Aí, ó, tá vendo que ela já deu uma altura? Quando a pessoa vai arrumar, quantas vezes você já viu em velórios o nariz pegar na tampa, né? Esse é o grande medo quando, quando as pessoas vão no velório e falam: nossa, mas amassou o nariz! É porque a pessoa que preparou, ela não tomou o devido cuidado com isso. Você pode ver se o nariz tá pegando fechando a tampa e ver se o nariz tá pegando na tampa, o que significa que o corpo tá muito alto, então você precisa baixar ele.
Ou você pode medir por aqui, ó. Geralmente, se você colocar em uma urna padrão, se você colocar um palmo, ah, que é o tanto que vai, é o tanto da tampa. Então se passar de um palmo é porque o nariz vai pegar, então você precisa tomar esse cuidado.
É sempre nesses mínimos detalhes que é a diferença de um serviço bem feito e mal feito. E uma dúvida que eu tô tendo aqui, Lucas, que assim confesso que isso aqui tá sendo um processo para mim de entender como eu devo agir. A minha vontade é de pedir licença, pedir desculpa quando eu tô mexendo. Como que você—
muitas pessoas pedem licença tanto por questão de religião, né? E a questão de pedir desculpa, você tem que pensar que é um processo que precisa ser feito para que a família faça o velório.
Mas isso que eu tô sentindo, você sentiu também?
É normal, sim, porque é uma coisa nova, né? Você tá passando por uma situação nova. Então todo cuidado que você vai ter, ele vai ser, né, algo sensível para você ainda. Então, mas você sempre pensa, não pensa na pessoa que está dentro da urna, pensa na pessoa que tá lá agora esperando, avisando os outros familiares, que recebeu a notícia. A pessoa que tá do lado de lá, ela é seu cliente. Seu cliente não é quem tá aqui, seu cliente é quem tá lá.
E isso muda tudo porque isso aqui que a gente tá fazendo, a gente tá fazendo o trabalho com uma pessoa, mas que na verdade é para atender às vezes dezenas, dezenas que vão no velório, familiares, filhos, netos, sobrinhos. É para eles, né?
É para eles que a gente precisa fazer o culto. A gente fez, levantou o ombro, só que agora o cotovelo eu tô achando ele um pouco baixo, tá muito para baixo assim, ó. A gente precisa levantar para deixar em uma posição confortável. O que vai auxiliar a gente nisso isso é um manto, ou conhecido como edredom, que é esse aqui. Isso, as funerárias elas podem utilizar na parte de baixo do corpo folhas talvez de samambaia, TNT, espuma, né?
A gente opta por trabalhar com esse manto, né, que ele vai cobrir tudo já. Ele serve tanto se a família não tem condições de arcar com uma boa ornamentação, né? Dependendo da funerária, ela cobra pela ornamentação, Então aqui já tá tudo incluso. Então a gente coloca isso aqui que ele vai substituir, né, as flores. Às vezes tem família que não gosta de flor, a pessoa, a gente ouve muito isso, não quero flor no meu velório. Então a gente precisa se adaptar tudo com esse pano, né, de cetim aqui para a gente conseguir substituir as flores ali.
A gente encaixa aqui, olha, já tem até os encaixes, encaixa na lateral. Religiões específicas pedem para não cruzar a mão.
Ah, É qual?
Espiritismo, dependendo, né, da religião ali, eles pedem para não cruzar a mão. Católico, geralmente mão cruzada, né? Tudo vai de acordo com o que o familiar contratou lá na primeira sala, faz a entrevista justamente para pensar cada detalhe. Como vai querer ornamentação? Vai querer ornamentações só com flores brancas? Vai querer um velório ou vai querer um sepultamento direto, né? Tudo isso a gente já faz já opita antes com a família.
Então, no caso aqui, a família ela solicitou, né, pela mão cruzada. Mas se ela não solicitasse também, o de praxe é mão sempre cruzada.
A gente tava vendo ali em cima, a gente encontrou um senhor que ele tava com uma camiseta do Corinthians. Do Corinthians é uma escolha, é uma escolha.
Isso, exatamente. Então tudo que a família mandar, nós vamos colocar. Nesse momento, então, ela tá travada. Porém, se a gente colocar a flor aqui por cima agora, a flor ela vai ficar meio desconexão uma com a outra. Então a gente precisa nivelar, fazer uma espécie de contrapiso. Geralmente pode ser feita com TNT, com espuma, né? Hoje eu vou te ensinar a fazer com serragem, pó de serra. Geralmente pode utilizar aquele próprio travesseirinho que vem dentro da urna, né?
As pessoas acham que na verdade ele é que quando a gente arruma o corpo a gente vai repousar a cabeça em cima dele, mas na verdade não. Remoção. O travesseirinho, ele é feito depois para a gente. No primeiro momento da remoção, sim, a gente pode apoiar, mas depois a gente vai forrar aqui. A gente tem já aqui uma serragem pronta, é a própria serragem mesmo da madeira. Nós vamos colocar aqui, ó, e vai nivelando a urna. Sempre tem que tomar cuidado para nesse momento desse processo não sujar o rosto, não sujar a roupa, né?
Então sempre coloca a mão assim para não não cair no cabelo. Com borrifador ou água, a gente molha a serragem para ela dar uma inchada, tá vendo? Ela vai dar uma inchada e ela vai assentar no lugar, então ela não vai voar.
Entendi, para fixar isso.
E ela vai dar uma inchada na madeirinha. Agora a gente consegue entrar com as flores para fazer essa parte da ornamentação. Eu trouxe aqui algumas coloridas e algumas brancas. Em uma urna padrão, a conta sempre basicamente vai ser 2 maços. Pode ser que você use um pouquinho, um pouco mais, mas 2 maços você consegue fazer uma ornamentação legal e simples em um corpo, que foi o que foi pedido, uma ornamentação simples. A gente opta por trabalhar com flores naturais, mas tem funerárias que trabalham com flores artificiais, né, as permanentes, até por conta também da localidade.
Às vezes é um estado que é difícil encontrar flor. Aqui no nosso estado a gente tem a sorte de ter muita flor Em tudo que é lugar.
E aí agora a gente vai colocando.
Eu gosto de fazer em uma linha. Se você começou daí, vem fazendo ela em uma linha e colocando uma por cima da outra.
Ah, entendi.
Cobrindo todo o pó de serra.
Na verdade viria assim.
E sempre cobrindo e apertando ela para as pétalas dela abrir, né? Assim a gente vai ornamentar tudo onde a gente cobriu com a serragem. A serragem ela foi para nivelar as flores. Um caminho de flores. Uma preocupação na ornamentação é sempre deixar as flores de frente para lá, para pessoa que vai entrar no velório. Exatamente.
Olha aqui, uma coisa que eu fiquei pensando aqui, né, do quanto são muitas etapas de um processo muito complexo que o agente funerário tem que saber lidar. Tratar a pessoa ali, escolher o caixão, depois fazer ali a parte do laboratório, depois fazer toda essa parte aqui. No Brasil que você faz tudo ao mesmo tempo, em outros lugares é mais especializado? Porque me parece muitas especialidades para um só profissional ter.
Isso vai variar muito da empresa. Por exemplo, hoje nós temos, por mais que todos saibam fazer tudo, hoje nós temos funções separadas. Hoje a gente tem um agente funerário que ele vai remover e preparar o tratamento convencional, temos os técnicos de tanatopraxia, específicos para fazer tanatopraxia. Porque um tanatopraxista, um agente funerário, ele pode ser um tanatopraxista, mas nem todo agente funerário é tanatopraxista, porque precisa de um curso específico para isso.
E você fez? Você fez tipo uma faculdade para—
Na verdade, no Brasil ele não exige uma faculdade, né, ainda. Ele é um curso, um curso técnico, né, que pode ser feito inclusive dentro das funerárias. Aqui nós temos cursos de tanatopraxia, né, nós formamos treinei mensalmente aí alunos para atuar no mercado de trabalho. É uma área que vem crescendo, né, uma área que tá cada vez mais reconhecida e uma profissão importante, né. Então tem a parte do atendente também, tem a parte do pós, que vai entrar em contato com a família para ver se ela precisa de algo, né, um apoio ali.
Todas essas funções separadas, né. E por último, nós vamos colocar o véu que vai por cima do corpo para evitar que moscas, né, durante o velório pousem sobre o corpo.
Inclusive, aproveitando, Lucas, isso aqui você tem todo o quê? Maquiagem?
Aqui tem toda a parte de maquiagem, né, da que utilizamos nos corpos, né. A necromaquiagem, ela não é para embelezar o cadáver, né. As pessoas que vão atrás de curso de necromaquiagem, elas vão muito quero ser necromaquiador, quero embelezar pessoas. Mas na verdade a necromaquiagem ela é corretiva, ela é para corrigir uma lesão, corrigir um hematoma, uma pessoa que tá bem roxa. A não ser em casos que a família o pide: eu quero um batom vermelho, eu quero uma maquiagem pesada, porque ela usava uma maquiagem pesada, era a personalidade daquela pessoa.
Aí você vai seguir. Agora, uma pessoa que nunca usou maquiagem a gente maquia, a gente tá tirando a característica dessa pessoa, o que não pode acontecer de forma nenhuma. Igual eu falei, a barba, não retirar a barba se a família não solicitou, não passar maquiagem se a família não solicitou.
Você acha que essa coisa do velório é um momento importante pro processo do luto da pessoa? Porque eu tenho uma coisa na minha cabeça de que eu não gostaria de ver ninguém da minha família após a morte. Essa é uma visão que eu não sei por que que eu formei ela, mas que muitas pessoas dizem que é uma visão errada, importante você ir?
Sim, o velório, ele é um, ele é algo importante para você passar por esse processo. É igual eu falei, não é só porque sepultou ou cremou que acabou, que você não vai mais sofrer. Você vai ficar lembrando dessa pessoa. Eu acho que varia muito de pessoa para pessoa. Tem gente que não gosta mesmo de ir em velório, mas eu acho que é importante você ter esse momento, que é um encerramento de um ciclo. Então você sabe que esse ciclo com essa pessoa se encerrou, você tem que começar outro agora.
Eu acho que quando você não passa por isso isso, você meio que o ciclo ficou em aberto. A gente vê muito isso em casos de pessoas desaparecidas. Ah, o meu pai sumiu e ele tá desaparecido. Esse ciclo não encerrou porque você não viu o ciclo encerrar. Então você não teve esse ponto final, né? Então acho que você ir em um velório é muito importante. Aí a gente coloca por baixo desse que a gente amarrou agora. Finalizamos, finalizamos, tá pronto, né?
Esse véu a gente recolhe ele agora, mas depois a gente na cerimônia coloca ele de novo, né?
E agora a gente fecha, pode fechar. E a partir daqui iria para o velório.
Agora vamos seguir para o velório para a família, né, poder ter o último momento de despedida ali, né, prestar suas homenagens de acordo com cada ritual da família e se despedir do corpo dessa pessoa.
E depois que passa pelo velório, aí ou é cremado ou é sepultado. Vocês não têm um cemitério, mas vocês têm um crematório. Temos um crematório que a gente vai conhecer agora. Ó, a gente chegou aqui no que é o crematório da funerária que você trabalha, mas ele tá em reforma, né?
Isso, tá prestes à inauguração.
Porém, aqui já tá instalado o que seria o elevador que desceria do velório.
Isso, esse aqui é o que vai buscar o corpo lá em cima na sala de cerimônia, né? Aí eu desço ele e pego com esse aqui, no caso o operador de forno. Vai, eu pego o corpo lá e levo até o forno. É, na verdade ele primeiro passa pela câmara fria, né? Ele precisa ter o período de 24 horas pra fazer, aguardar a cremação, né? 24 horas. E se for espírita, a gente aguarda 72 horas.
Por quê?
No Espiritismo tem a crença de que 72 horas é o tempo do desencarne, desacoplar a alma. Isso. E aí os crematórios, né, eles respeitam esse período de 72 horas.
E os 24 horas?
24 horas legalmente, caso haja alguma—
Existe mesmo essa coisa de gente que fala, ah, foi enterrado vivo? Porque passa por tanto processo.
Talvez antigamente era possível, né? Antigamente, quando não existia tantos procedimentos, não existia um tamponamento, não existia um procedimento de tanatopraxia, provavelmente sim, né? Tanto que o velório tem essa Tem uma história de que o velório foi criado por conta disso, pra garantir. As pessoas tinham muito aquela doença de catalepsia, que ela praticamente tava morta e depois ela acordava já dentro do caixão. Então o corpo era colocado em cima de uma mesa e a família ficava aguardando.
Voltou bem, não voltou, amém. E aí começaram a fazer cerimônia de velório por conta disso. As câmaras frias pra guardar também, pra conservar, né? Essa daqui é uma câmara fria que suporta a urna de obeso pesos, né? Igual aquele cachorro, igual aquela urna que a gente acabou de ver. No caso, ela ficaria nesse compartimento, né? E as outras já são de urna padrão. E aí depois, cremação autorizada, pode vir até o forno onde vai ser feito crematório.
Que esse aqui é o forno novo, nunca foi usado ainda, né?
Já tá tudo certinho aprovado. E aqui na verdade vão ser 4 fornos.
E quanto tempo leva o processo de cremação?
Depende. Depende do tamanho, né, do corpo ali. Em média, ali, acho que umas 2, 3 horas.
É bastante tempo. Todo esse processo aqui já não é acompanhado por mais pela família?
Não, a família ela se despede na cerimônia, no velório, e aí a cremação ela não acompanha. As pessoas têm muito a ideia de que cremou já vai virar cinzas aqui dentro, né? E aí tem até a preocupação de misturar minhas cinzas com as suas cinzas lá dentro, o que na verdade não acontece. Primeiro que só vai caber um corpo dentro do do forno, né? Quando colocar, só vai caber um corpo aí dentro. A urna, ela vai virar fuligem. A roupa, ela vai virar fuligem, né?
Só vai sobrar mesmo os ossos. Então vai sobrar os ossos, e após esse processo, ele é triturado para virar cinzas.
Ah, então não queima a pessoa, vira um esqueleto?
É como se fosse um esqueleto. E aí sim, tritura naquela máquina ali. Esse processo, ele é o processo tanto para humano quanto para pet, é o mesmo processo da cremação.
E daí quando você pega, tem essa coisa, né, eu quero que jogue minhas cinzas no mar, quero que joguem, pode fazer isso?
É, depende muito da legislação, não é indicado jogar direto, né, no mar, né, como as pessoas escolhem, né. Mas existem urnas que você consegue colocar no mar, inclusive hoje tem urnas que ela vira até coral, né. Então tipo assim, eu acho que se a pessoa quer ter as cinzas jogadas no mar é para dar continuidade ali, colaborar com a continuidade da vida. Então essas urnas que vira coral ou urnas que se desfazem na água, né? Tem toda essa opção também.
Mas se eu quiser, por exemplo, pegar as cinzas e levar com você, você pode, mas eu não posso jogar num parque, num lugar que eu sei que aquela pessoa gostava, por exemplo?
É, depende muito da legislação do local, né, onde você vai fazer isso, do município. Mas geralmente é o que acontece, né, que as pessoas fazem.
E eu acho que você percebeu, Lucas, que ao longo de todo o episódio eu fiquei tenso. Sim, acho que você deve estar acostumado a ver as pessoas ficarem assim, mas eu vejo que você leva tudo com uma leveza muito natural, natural, que você pode me dizer que é, pô, trabalho com isso aqui há 5 anos, né? Você tava me dizendo que era uma coisa ali que você começou na pandemia e tudo mais, já tem bastante tempo, mas você comentou que desde cedo você viu ali o velório do seu pai, você falou aquilo é maneiro, O que que você acha que tão cedo você conseguiu enxergar a morte com esse olhar tão leve?
Eu acho que ver meu pai deitado numa urna já sem vida e ver toda a família em volta, né, cada um reagindo de um jeito, uns fazendo mais escândalo que o outro, um chorando mais que o outro. Eu acho que isso surgiu ali, o desejo de cuidar de outras famílias, né? Tipo, alguém cuidou da minha família, então quero cuidar de de outra família. Eu quero participar do processo de remover, preparar e entregar o corpo pra família, que é um trabalho importante.
Imagina se não tivesse o agente funerário, a família ia conseguir fazer isso? Talvez não. Então precisa ter alguém pra coordenar tudo, pra auxiliar. Então eu vejo de forma natural, e na verdade é a forma natural, é um preconceito que a gente cria. Se você senta pra almoçar e liga a TV, vai estar passando tragédia, vai estar passando morte. Se você coloca um filme, tem morte no filme. Tipo, por que que na sua vida, que é que é o real, a vida real, você não encara de forma natural.
É incrível porque parece que é uma coisa que a gente acredita que não vai acontecer com a gente, né? Não tem nem como. Então, pô, muito bonito o seu trabalho e espero que o vídeo tenha ajudado as pessoas a encarar a morte como uma coisa mais natural, embora não dê para ser leve às vezes, porque a morte faz parte da vida real.
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Tennessee 2012.