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COMO LIDAR COM O AUTISMO NA VIDA ADULTA | #ACHISMOS PODCAST #422

29 de junho de 20261h16min
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Qual a real diferença entre psicólogo, psiquiatra e psicanalista? Entre muitos achismos sobre laudos e psicanálise, hoje a psicanalista Maria Nogueira trouxe um papo profundo e revelador sobre saúde mental, autismo e superdotação na vida adulta.MAURÍCIO MEIRELLES @maumeirelleshttps://www.instagram.com/maumeirelles/MARIA NOGUEIRA @mariamaia_psihttps://www.instagram.com/mariamaia_psi/Frio sem precisar sair colocando mil camadas.Inverno Insider + 30% OFF para novos clientes Use o cupom ACHISMOS + benefícios do site e no PIX tem +5% OFF https://creators.insiderstore.com.br/ACHISMOS #insiderstore #pix @insiderstoreConheça e se inscreva no meu canal de comédia: https://www.youtube.com/@MauMeirellesVem pro meu canal no Telegram: https://bit.ly/3MDFZLhBora ver meu show no teatro:https://www.mauriciomeirelles.com.br

Participantes neste episódio2
M

Maurício Meirelles

Host
M

Maria Nogueira

ConvidadoPsicanalista
Assuntos11
  • Ansiedade e saúde mentalTeoria do descompasso evolutivo (mismatch) · Excesso de estímulos tecnológicos · Cérebro e tecnologia · Necessidade de tédio para o cérebro · Ansiedade como resposta biológica · Alimentação da ansiedade por comparação social
  • Autismo e Ensino SuperiorAutismo em mulheres · Fenótipo feminino do autismo · Diagnóstico de autismo · Superdotação · Neurodivergência
  • Omissão e falta de validação parentalEquilíbrio entre estímulo e proteção · Importância do amor explícito · Conversa como ferramenta de apoio · Acesso a recursos públicos e comunitários · Adaptação e resiliência
  • Superpoderes e suas implicaçõesSuperdotação como "superpoder" · Custo emocional da alta produtividade · Tendência ao uso de drogas · Solidão intelectual · Diferença entre superdotação e autismo em relação à instabilidade emocional
  • NeurodivergênciaNeurodivergência como espectro · Diferenças na forma de processar informações · Estímulo correto para crianças neurodivergentes · Independência como objetivo terapêutico · Dupla excepcionalidade (autismo com TDAH, superdotação com autismo)
  • Diagnóstico e detecção de doençasBusca por diagnóstico para autoconhecimento · Diagnóstico como justificativa de comportamentos · Diagnóstico como alívio e aceitação · O diagnóstico não é ruim, mas o uso como muleta é
  • Sofrimento humanoSofrimento como parte da experiência humana · Diferenças na intensidade e manifestação do sofrimento entre neurotípicos e neurodivergentes · Sofrimento como motor para obras criativas · A importância de saber lidar com o sofrimento
  • Psicologia e PsicanálisePsiquiatra como único médico · Regulamentação da psicanálise · Formação de psicólogo · Vertentes da psicologia (TCC, Gestalt, Junguiana, Lacaniana)
  • Importância da faltaLacan como discípulo de Freud · Ênfase na linguagem e nas palavras · Constituição do ser por ausências · Aceitação da falta
  • Meditação e neuroplasticidadeDificuldade em lidar com o tédio · Meditação guiada vs. meditação com mantra · Ansiedade gerada pela meditação · A mente como lugar confortável
  • Expressão pessoal e terapiaTerapia como processo desconfortável de autoconhecimento · Banalização da terapia · Terapia como ferramenta útil em algum momento da vida · Diferença entre terapia e desabafo com amigos
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MMMaurício Meirelles

Visão dele de um neurotípico que fala: "Meu Deus, ela é uma nerd maluca." Exato.

MNMaria Nogueira

Não é isso, André? Nerd maluca é exatamente o meu apelido em casa. Mas enfim, ele vê isso como uma supervantagem. Eu sei o custo disso. Então eu sei que eu consigo fazer isso, a minha capacidade produtiva é muito grande. Eu fiz duas especializações ao mesmo tempo, eu cheguei a fazer duas faculdades ao mesmo tempo, eu agora faço mestrado, tenho a clínica. E o trabalho de divulgação e nananã. É bastante coisa. Tô escrevendo um livro.

E ainda assim eu encaixo tudo e tá tudo certo. Mas eu sei o custo que isso tem pra mim.

MMMaurício Meirelles

Olá senhoras e senhores! Mais um dos achismos mais esperados de todos os tempos. Afinal, todo achismo é esperado. Se você clicou aqui é porque você tem interesse nesse assunto. E hoje eu vou direto, Matheus, falar de um negócio que assim, deu uma polêmica no vídeo que eu postei com a psiquiatra.

?Voz C

Deu merda, né?

MMMaurício Meirelles

Cê chegou a ver?

?Voz E

Eu vi.

MMMaurício Meirelles

A galera criticou, mas eu vou explicar porque que a galera criticou. Não, não foi criticado não, né?

?Voz E

Não, não foi crítica. É aquele famoso negócio, você falou um negócio, uma experiência sua e aí teve um Zé lá que falou: "Eu não sou assim!" Exato.

MMMaurício Meirelles

O que que acontece? Quando a gente traz pessoas aqui de saúde mental, que eu sempre lembrar que o nome do projeto é Axismos, porque eu sou ignorante no tema, então por isso que eu não sou faxineiro, e quando eu trago uma faxineira é pra entender como é que é o universo da faxineira. Aí a faxineira, com a vivência dela de faxineira, ela me traz argumentos contra às vezes os meus achismos, preconceitos, estereótipos, por aí vai.

E aí o que eu fiz? Eu trouxe a Thaisa, que é psiquiatra, e eu falei da minha vivência, né, com laudos e tal, e ela deu a especialidade dela e a coisa ficou um papo descontraído e ao mesmo tempo informativo. Ela traz a informação e eu trago os achismos. E hoje vai ser a mesma coisa. Beleza, então eu trouxe aqui, cara, comecei meio bravo, né? Não, mas eu trouxe aqui, eu adoro esse tema, é um dos temas que mais dá repercussão aqui no canal, que é saúde mental.

Eu vou falar quem é você para as pessoas. Uau, você tá bombando para caramba a internet, mas você é mais do que uma influenciadora que bomba na internet, você é uma doutora. Vamos botar assim, é Maria Nogueira Maia, neuropsicóloga, psicanalista e pesquisadora dedicada ao estudo do cérebro humano do neurodesenvolvimento e da saúde mental, especialista em temas como autismo, superdotação, neurociência clínica e psicanálise lacaniana.

Então, por que que eu falei isso? Para você falar: nossa, você encontrou na rua a pessoa e veio bater um papo? Não, ela tem atuação na área, certo? Podemos começar assim?

MNMaria Nogueira

Podemos começar assim.

MMMaurício Meirelles

Agora eu vou te dar um presente da Insider.

MNMaria Nogueira

Eu sou Insider também, né? Eu estou de Insider.

MMMaurício Meirelles

Você tá de Insider? Ai, verdade!

MNMaria Nogueira

A gente é da patota da Insider.

MMMaurício Meirelles

É a patota da Insider chegando! E todos os psicólogos do Brasil, eles vão fazer a mente das pessoas, vai manipular as pessoas a usarem Insider.

MNMaria Nogueira

Eu amo essa cor.

MMMaurício Meirelles

É para você. Perfeito. Roupas da Insider com desconto aqui sempre, a Xismos Insider já tem uma parceria de quase 3 anos. Eu realmente amo a Insider fazer esse projeto acontecer. Se você não conhece a Insider, aproveite o cupom de desconto. É roupa com tecnologia. Você que precisa dar uma uma confortada, né, no seu corpo. Às vezes você tá cansado, calor, aquela coisa toda. É o melhor malha que eu posso dizer. Malha não, né? Melhor tecido, melhor tecido que tem no mercado.

Linha feminina já chegando com tudo. E vamos agora para o caminho do vídeo, que é, cara, quando eu vi aqui o seu currículo, eu fiquei com muita dúvida para onde eu começaria esse papo, porque você é autista, você tem laudo de autismo, você tem laudo de superdotação. Certo? Eu poderia começar com esse papo sobre como que é isso, eu quero chegar nesse lugar. Tem também o lado de você ser psicanalista.

MNMaria Nogueira

Tem.

MMMaurício Meirelles

Eu acho que eu quero começar talvez até para a galera entender qual a diferença entre psicanalista e psicólogo. Acho que muita gente não tem essa noção, queria ver como é que é.

MNMaria Nogueira

Já começar na polêmica.

MMMaurício Meirelles

Já começar na polêmica.

MNMaria Nogueira

Maravilha.

MMMaurício Meirelles

Já começar para a galera ficar.

MNMaria Nogueira

Bom, psiquiatra, psicólogo, psicanalista, psicoterapeuta, etc. A gente tem uma meio confusão aí porque tudo começa com psi. Coisas diferentes. Psiquiatra é o único que é médico, tá? Vamos já separar.

MMMaurício Meirelles

É o único que pode oferecer medicinas.

MNMaria Nogueira

Laudar, remédio, tudo com psiquiatra. Ele trabalha em conjunto com a gente, o psicólogo, né? O psicanalista. Bom, aí entra a polêmica. Eu acredito, eu, Maria, que todo psicanalista— Eu acredito.

MMMaurício Meirelles

Não é o conselho—

MNMaria Nogueira

Não é um consenso, é um debate muito fervoroso. Eu acredito que todo psicanalista deveria ter a formação de psicólogo. Nem todo psicanalista tem, porque o psicanalista não é regulamentado, tá? É uma formação terceira que você pode usar como especialização se você for psicólogo, até porque a psicologia foi fundada por um psicanalista, Freud, né? E vários outros que vieram depois, por exemplo, que eu sigo é o Lacan, que é discípulo de Freud.

E o psicólogo, ele tem várias outras vertentes que ele pode atuar. Então, todo psicanalista deveria ser psicólogo para ter a competência de cuidar da saúde mental das pessoas. Nem todo psicólogo é psicanalista, porque o psicólogo pode seguir N vertentes. Quando eu digo N vertentes, é porque realmente eu não consigo nem te nomear todas.

MMMaurício Meirelles

Por exemplo, TCC.

MNMaria Nogueira

TCC, Gestalt, tem um monte, né? Tem a galera que vai para o RH, tem uma de organizacional, tem galera que vai para Jungiana, Lacaniana, Kleiniana. Winnicottian, tipo assim, é muito, tem muita diferença.

MMMaurício Meirelles

Aliás, seria até legal a gente fazer uma série, vou jogar aqui já pra gente fazer de cada um pra entender como é que é.

MNMaria Nogueira

Isso é muito legal.

MMMaurício Meirelles

Isso é legal pra caramba, é a cara do Axis fazer isso, pegar vários.

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MMMaurício Meirelles

Você, como psicóloga, você é lacaniana, né? Exatamente. O que é o lacaniano?

MNMaria Nogueira

Lacan foi um discípulo de Freud que expandiu um pouco da teoria, se desvinculou de alguns aspectos e expandiu. Ele tem uma ênfase muito forte em linguagem, em palavras, em como nós nos definimos e definimos o mundo. Eu me identifico muito com isso, portanto eu escolhi seguir essa linha. Porque eu vejo muito isso em consultório, é uma linha que beneficia muito os meus pacientes, de análise do discurso, da língua, de como a gente se define.

MMMaurício Meirelles

De comunicação, você diz?

MNMaria Nogueira

É, também, mas é muito, eu analiso especificamente palavras que trazem para mim no consultório, como a pessoa se define, quais palavras ela usa para se definir, definir os pais, os irmãos. É muito mais do que isso, né, Lacan também analisa a nossa ausência, ele fala que a gente é constituído por ausência, neurodivergências. Então tudo nos falta, a gente presta muita atenção na nossa falta, né, porque é o que nos constitui e que a gente nunca vai preencher. Então tem muito uma terapia de aceitação aí da falta, de conciliação com ela.

MMMaurício Meirelles

É muito legal, porque aqui vai longe. Vai, não, tô falando sério, porque a gente pode ir para caminho de neurodivergência, mas tem uma coisa muito legal que eu acho que, porque neurodivergência obviamente ele inicia um pouco no nosso papo, porque tem gente que não é neurodivergente, falar não quero saber disso, eu sou, eu sou neurotípica, tá tudo bem, mas A ausência é uma coisa que todo mundo sente. E aí o Lacan, ele é um cara que fala muito disso.

Tem uma frase uma vez, eu vi, não sei quem falou isso, num espetáculo, que eu achei muito legal, que é: quando você foca naquilo que falta, você sempre vai sentir falta o tempo todo.

MNMaria Nogueira

Você cresce aquilo, né?

MMMaurício Meirelles

E isso é uma coisa milenar, você percebe isso? A gente sempre tem um vazio existencial.

MNMaria Nogueira

Sempre. Não tem como preencher. Como é que você preencheria? A gente é constituído por ausências. Tudo que a gente escolhe na vida tem um custo. O custo é a ausência, o que nos falta naquele aspecto.

MMMaurício Meirelles

Não tem um equilíbrio? Vou citar minha avó que fala: "Equilíbrio!" Tem!

MNMaria Nogueira

Só que o equilíbrio também é uma ausência. A ausência dos excessos.

MMMaurício Meirelles

Caraca, então ferrou!

MNMaria Nogueira

Então, né, tipo, tem tudo.

MMMaurício Meirelles

Se eu quiser olhar por esse prisma, então sempre vai estar... Aquela coisa do tipo, você nunca vai... A Torá fala isso, né? O primeiro preceito da Torá é: "Nem tudo terás." Ou seja, mas é a ausência que nos faz ser quem somos, assim? É a ausência, é essa busca por—

MNMaria Nogueira

Ausência é uma coisa humana, a gente precisa de ausência. A ausência, ela se dá a partir do momento que a gente tem consciência, né? Porque na consciência a gente consegue escolher, não só com base nos nossos instintos, a gente faz escolhas conscientes. E a partir dessas escolhas, a gente entende tudo que a gente não escolheu, que a gente poderia ter feito. E as ausências surgem.

MMMaurício Meirelles

É o famoso caso do cara que fala assim: o dia que eu morar no campo, eu resolvo meus problemas. Aí ele vai pro campo e vai falar: porra, aqui não tem um show do Oasis. É exatamente isso.

MNMaria Nogueira

É tipo exatamente isso.

MMMaurício Meirelles

Então será que nosso papo não vai sobre sofrimento? A gente vai bater esse papo aqui. É normal do ser humano o sofrimento? Ou há seres humanos que não sofrem?

MNMaria Nogueira

Bom, aí você fez uma equivalência da ausência ao sofrimento, né, que é curioso, porque a ausência, quando a gente não aprende a habitá-la, a gente não aprende a decorá-la, digamos assim, você habita o seu vazio, você vai decorando ele ali, você consegue ficar ali dentro um tempinho, sua cabeça vira um lugar que você gosta de estar, você consegue se conciliar com o fato de que sempre haverá uma falta. Se você vai por esse caminho, ausência não é sofrimento.

Ausência de paz, porque sempre vai ter. Então eu não preciso buscar na minha vida algo que vai me preencher por completo, porque nada vai. A maior parte do sofrimento humano vem dessa falsa, dessa crença que é falsa. Tipo assim, ah, por exemplo, eu tenho lidado muito no início da minha carreira, eu comecei a lidar muito com mães, eu trabalhei com mães, né, que tinham bebês na UTI. Especificamente as mães que estavam enfrentando ali uma situação de UTI neonatal, de sofrimento.

Muitas me relatavam que achavam que a maternidade ia ser o que preenchia toda a vida, todo o espaço, todo o coração delas. Embora a maternidade seja algo muito grande, gigantesco e maravilhoso, que preenche muito, não preenche tudo, porque nada preenche. E as que entendiam isso, tipo assim, ah sim, eu sou mãe, eu amo ser mãe, é a melhor coisa da minha vida, mas eu ainda preciso ser um ser humano nesse, nesse, nesse Nesse aspecto que não me dizem respeito à maternidade.

Essas não sofriam com essa: "A maternidade não me preencheu por completo porque nada vai, então eu vou achar outras coisas para encaixar também." Isso não cai um pouco no estoicismo? Um pouco.

MMMaurício Meirelles

Porque eu acho que está tendo uma moda de estoicismo agora no Brasil.

MNMaria Nogueira

Está tendo.

MMMaurício Meirelles

Não sei se no mundo, mas no Brasil eu vejo muito assim, né? Os livros de estoicismo, o Marco Aurélio, todo mundo agora está tatuando o Marco Aurélio. Antigamente se tatuava tribal, a frase estoica e tal. Esse estoicismo que a gente tá vivendo, só para quem não entende a coisa do estoicismo, assim, eu também sou burro, tá, só para deixar claro, mas estoicismo é quase como uma filosofia do foda-se, vamos botar assim, não posso controlar aquilo que eu não posso controlar, eu não preciso sofrer sobre isso.

Eu fiz um resumo bem, bem, mas é um bom resumo, né? É uma filosofia que fica ali meio, meio no, obviamente não é sobre você ser desleixado, mas é sobre assim, eu tenho controle sobre a guerra no Irã e os Estados Unidos? Eu não tenho Eu tô sofrendo sobre isso. Você acha que o estoicismo, ele tá fazendo sentido agora numa geração, numa época que a gente tá muito se cobrando? Por que que o estoicismo, ele está voltando como uma porrada? Tem alguma filosofia por trás?

MNMaria Nogueira

Eu acho que é uma filosofia fácil de entender, tá? Então assim, é mais fácil dela vir à tona e ser simplificada. Acho que o estoicismo tem essa característica, mas eu também acho que ele encaixa muito no espírito da nossa época, né? A gente tem uma coisa de agitação, de ansiedade, um espírito ansioso que sempre quer buscar, e o estoicismo ele vem na contramão disso, né?

MMMaurício Meirelles

Pois é.

MNMaria Nogueira

O que é suficiente.

MMMaurício Meirelles

É que eu acho que o estoicismo, quanto mais coach aparece falando: "Você tem que acordar 3:30 da manhã pra trabalhar", mais o estoicismo vai fazer sucesso.

MNMaria Nogueira

Vai fazer sucesso.

MMMaurício Meirelles

E vice-versa, se o estoicismo bombar no mundo, vai estar os coach daqui a pouco voltando a bombar. É quase como se fosse um ciclo do tipo, pra manter esse equilíbrio. A gente tá passando do limite da questão, pelo que você observa assim, até no seu, nas suas consultas, você tá vendo nessa busca de entendimento de sofrimento, a gente tá muito indo além disso? O que que você observa das suas vivências?

MNMaria Nogueira

Eu tenho uma opinião polêmica sobre isso.

MMMaurício Meirelles

Vambora, comece aqui, corte, já começa a clipar a galera. Não, brincadeira, vai lá.

MNMaria Nogueira

É o seguinte, eu acho que nós estamos vivendo um exagero do sofrimento, onde tudo vira uma coisa muito maior do que deveria, tá? E eu vejo muito isso quando a gente emprega a palavra trauma para tudo. Trauma é uma coisa muito grande, tá? Trauma é um evento que a nossa psique, nossa cabeça, não tem instrumentos para lidar e ela é confrontada com aquilo e ela precisa se adaptar e ela encontra formas de fazer isso. Isso é um trauma, tá?

Aí Você vê no Instagram, você tá rolando o feed, ah, eu fui traumatizada, nananã, tipo assim, não foi.

MMMaurício Meirelles

Porque um cara não me serviu a comida do jeito que eu queria.

MNMaria Nogueira

Ah não, fui traumatizada porque eu fui num restaurante, eu vi um desses outro dia, fui num restaurante péssimo, me falaram que era ótimo, eu fiquei traumatizada com o restaurante. Falei, caraca, você não tinha ferramenta para lidar com isso? Tipo, não gostar da comida? Caraca, tá faltando muito aí.

MMMaurício Meirelles

Então, mas será que isso daí tá acontecendo porque a gente, a minha visão, tá? Lembrando, eu sou burro, ela é especialista. Cara, joga nela, por favor.

MNMaria Nogueira

Não pode ter esse peso na nossa.

MMMaurício Meirelles

Todo problema desse vídeo é brincadeira, brincadeira. Não, mas eu faço as perguntas baseadas no que eu observo, né? E observo de forma ignorante tudo. Você acha que a gente não está preparado emocionalmente? E aí eu vou fazer outra pergunta. Esse excesso, a gente vai falar da dopamina, vai falar de várias questões que estão acontecendo hoje na sociedade, mas me dá a impressão assim, a gente está no É quase como o nosso corpo não foi preparado para os estímulos que a gente está recebendo. É minha visão, tá? Não sei se está certo ou errado.

MNMaria Nogueira

Você tocou numa teoria evolutiva muito legal, que é a teoria do mismatch, chama descompasso evolutivo, que é basicamente uma teoria, teoria, tá? Teoria, que afirma, né, ou teoriza que a gente tem um cérebro que não evoluiu no mesmo ritmo que a nossa tecnologia evoluiu. E, portanto, ele não é capaz de lidar com o cenário atual. Então, ele não tem como lidar com o excesso de notificações, com acordar e ter tela de telefone, com ter acesso a pessoas do outro lado do mundo e saber tudo o que está acontecendo o tempo inteiro. E é por isso que a gente se tornou cronicamente ansiosos.

MMMaurício Meirelles

Porque eu li, cara, que o ano passou o câncer. Ansiedade passou o câncer como doença do século.

MNMaria Nogueira

Continua. Pois é. Então assim, a gente vive numa estrutura de sociedade que é maléfica para o nosso cérebro. Nosso cérebro não se adaptou, ele provavelmente não vai se adaptar, porque por que ele se adaptaria a uma estrutura que é tão ruim para ele, que é esse estímulo consistente? O cérebro precisa de tédio, é uma das ferramentas mais poderosas para o funcionamento dele. Tédio. Ele precisa de um pouco de monotonia, ele precisa de automatizações que são benéficas para ele.

MMMaurício Meirelles

Como é que você vai falar que o cérebro precisa de tédio no momento que a Virginia tá publicando para caramba? Eu preciso clicar e ver isso, eu quero ver o que que tá acontecendo. Tem muita coisa acontecendo. Eu vou falar para você, eu mudei muito, realmente assim, eu me tornei uma pessoa muito mais ansiosa recentemente do que anteriormente. E talvez até quem tá assistindo pode ver através do meu relato, talvez, né, se conecte.

Aí você vai trazer a sua competência, que é o seguinte: me dá impressão que a ansiedade que eu acho que eu tinha, na verdade, ela foi criada. Assim, eu não tinha tanta ansiedade quanto eu tenho hoje. Obviamente, já unha a unha, eu já tinha uma predisposição a ser ansioso, mas me dá a impressão que eu tô muito mais ansioso hoje do que antigamente. Aí eu achava que eu tava ansioso porque agora eu tenho 42 anos, eu tenho um filho, eu tenho uma esposa, eu tenho uma mãe, eu tenho que cuidar de todo mundo, eu tenho a Dromedário.

Mateus tá reclamando do emprego, tem que aumentar o salário do Mateus, senão ele vai embora, senão ele vai pro Vilela. Então eu sempre fico achando que a ansiedade ela é referente ao meu momento, mas eu tô chegando à conclusão, eu, tá, que tem a ver com a vida nova, moderna que a gente tá levando. A pergunta então é, para te facilitar, a ansiedade que todo mundo tá tendo cada vez mais, ela tá sendo provocada ou ela já é nata na pessoa?

MNMaria Nogueira

Ah, é, a gente tem uma ansiedade que é nossa. Ansiedade é uma resposta do nosso cérebro, é biológica e é necessária. Ansiedade é o que faz você ver um leão na floresta e falar: "Putz, um leão, tenho que fugir." Ou senão: "Eu tenho uma arma, eu vou lutar contra ele." É esse o processo da ansiedade. A resposta de fuga, luta ou congelamento do nosso organismo. É natural. Quando a gente tem fatores externos, por exemplo, eu consigo dizer que hoje de manhã eu estive ansiosa porque eu ia vir aqui e eu gosto muito do seu podcast.

Então eu estava meio ansiosa de fato de estar aqui. Era uma ansiedade com um motivo muito claro. Que passou quando eu cheguei aqui e vi que você era realmente gente boa.

MMMaurício Meirelles

Que eu não cheguei e falei que ele era trouxa.

MNMaria Nogueira

Que chegou, foi engraçado, eu falei exatamente, foda isso, ele é legal. Quando eu vi que você era gente boa, ela passou, eu vi que era uma ansiedade pontual, ela tinha uma função. Qual era a função? É uma situação nova, o meu corpo interpretou como um possível perigo. Ok, beleza, essa ansiedade é normal, todos nós temos, teremos e teremos eternamente.

MMMaurício Meirelles

Que é o frio na barriga, que é o famoso frio na barriga antes de fazer uma apresentação.

MNMaria Nogueira

Isso, essa ansiedade que te sinaliza que você está diante de algo desconhecido e que você precisa avaliar bem se aquilo ali faz, né, o que você vai fazer nessa situação. Então assim, essa existe. Qual que é essa outra que você fala? É a ansiedade sem um fim, é uma ansiedade que você acorda e tá com ela, e aí você vai dormir e ela existe. E quando você vai apontar uma causa, fica mais ou menos do jeito que você fez. Tudo. E é isso, e isso, e filho, e esposa, e todo mundo aqui.

E entende que ela não tem um "Ah, eu tô ansioso porque meu filho está mal na escola." É quase como parte da minha vida, não é porque algo pontual está acontecendo.

MMMaurício Meirelles

Ela tem tudo.

MNMaria Nogueira

Por que que eu acho que ela não é criada, ela é exacerbada? Porque a gente tem realmente, nós estamos num momento de várias incertezas, um cenário econômico global, né, de possíveis guerras, enfim, mas que eu acho que cria essa sensação de ansiedade em quase todo mundo ali que tem acesso às notícias e vê o que tá acontecendo. Eu acho que ela é exacerbada porque, por exemplo, se eu tô com ansiedade e eu abro meu telefone e eu começo a me comparar com as pessoas que parecem que não estão com ansiedade porque estão mostrando a vida perfeita, E aí eu vou no stories da Virginia e ela acordou, já comeu uma maçã, já levou o filho na escola, já tomou um shake, já comeu uma maçã.

E essa foi a rotina dela. Eu me comparo com aquilo e falo: putz, hoje eu não consegui fazer nem isso porque eu tive uma crise de ansiedade. Isso vai alimentando e a gente não sai desse ciclo. Então ansiedade ela não termina, você não sente ela e ela vai embora, você sente ela e você alimenta ela com várias outras coisas.

MMMaurício Meirelles

Por isso que a pior coisa que se faz How about a creamy mocha frappuccino drink?

?Voz C

Or a sweet vanilla?

MNMaria Nogueira

Smooth caramel, maybe? Or a white chocolate mocha? Whichever you choose, delicious coffee awaits.

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MMMaurício Meirelles

O SBT tá no desenho, eu vou aqui. Aqui eu não sei. Você vai fazendo assim, do nada vem, tipo, porra, é guerra. De repente é: se você não fizer isso, você é um péssimo pai. Se você não faz isso, você é um péssimo trabalhador. Aí você fica meio—

MNMaria Nogueira

aí tem um vídeo que fala exatamente o contrário daquilo.

MMMaurício Meirelles

Ovo faz bem, ovo faz mal. E você não— você vai comer o café agora, você não sabe se come ovo.

MNMaria Nogueira

Entendi.

MMMaurício Meirelles

Você tava falando no começo ali a coisa do Lacan, né, que é a base da psicologia. E aí eu te perguntei uma coisa que eu acho que a gente foi abrindo, que é: qual a diferença então da psicanálise Onde que a psicanálise entra num paciente diferente do que a— eu sei que a psicanálise é uma extensão da psicologia, mas qual que é a profundidade da psicanálise nesse lugar?

MNMaria Nogueira

Nossa, que pergunta difícil, tem tanta gente melhor para falar sobre isso do que eu. Tomara que eu não ofenda a minha supervisora, a minha psicanalista. Eu acredito que a psicanálise ela entra num lugar— eu sou neuro, Tá. Então assim, o meu consultório ele trabalha com neuro e psicanálise, que muitas pessoas vão achar que é uma dualidade incrível, e uma vez que você se aprofunda na literatura você vê que elas são altamente convergentes, né.

A neuro explica todos os fatores biológicos, tudo que a gente tem no nosso cérebro, os mecanismos de ação, porque que um comportamento existe biologicamente, né. E eu acredito que a psicanálise vem preenchendo um espaço de subjetividade do sujeito, né, porque cada coisa que você vê na neuro tá ali na base biológica e o motivo para aquilo e o histórico daquele comportamento e por que que ele se deu de fato é altamente individual.

Eu não vou poder generalizar nunca porque eu tenho que olhar caso a caso, cada paciente é um paciente, cada pessoa neurodivergente é uma pessoa neurodivergente. Então a psicanálise vem para me colocar atenção no sujeito, na fala dele, na experiência dele, na subjetividade dele.

MMMaurício Meirelles

Não é uma coisa de grupo. Quem tem TDAH faz isso. O neuro, vou falar de uma forma bem tosca para ficar fácil para eu entender e para as outras pessoas entenderem, que é quase que assim, o neuro ele avalia assim: se você tem TDAH, possivelmente você vai ter esses sintomas.

MNMaria Nogueira

Entendi.

MMMaurício Meirelles

Já psicanálise é: deixa eu ver a vivência do Maurício. Ah, então se o Maurício tem vontade de comer o Mateus Que eu não tenho essa vontade.

?Voz E

É isso, mano.

MMMaurício Meirelles

É por uma questão de que eu tenho fetiche no poder.

MNMaria Nogueira

Entendi.

MMMaurício Meirelles

É isso.

MNMaria Nogueira

É, pode ser. Se você chegar a essa conclusão, entende? A psicanálise não te dá respostas, ela elicita respostas, ela suscita respostas.

MMMaurício Meirelles

Mas uma coisa, você falou que uma coisa é congruente, né, à outra.

MNMaria Nogueira

Elas são.

MMMaurício Meirelles

Mas ao mesmo tempo eu fico pensando, talvez é por isso que gerou talvez uma polêmica no meu vídeo anterior, que é embora eu tenha um laudo de neurodivergência, eu tenho uma individualidade e uma vivência que não necessariamente ela é em conjunto com esse laudo. A psicanálise, ela avaliaria por que que eu tenho esse tipo de sentimento, seria isso?

MNMaria Nogueira

Ela avaliaria não por que que você tem, mas como que você elabora isso, como que você é em relação ao que você tem. A gente nem se prende muito a diagnóstico, né, na psicanálise, que é uma parte que eu nem concordo tanto assim, por eu mesma ter os meus diagnósticos e terem me ajudado enormemente a me entender. Mas quando eu estou em consultório, por exemplo, em análise, eu paciente, a gente não fala disso, a gente fala da experiência.

Então assim, eu falei, olha, é, ah, por exemplo, uma pauta: eu sempre tive muita dificuldade de manter amizades, muita. Para pessoas superdotadas isso é uma coisa muito comum, muito comum, é muito difícil. Geralmente as amizades que a gente tem também são neurodivergentes ou também em superdotação, porque aí te entende, entende melhor sua cabeça, entende que você talvez seja uma pessoa um pouco mais distante, porque sempre dentro da minha própria cabeça o tempo inteiro.

Então assim, eu tava tratando isso. A pauta não era a superdotação, não era o porquê que eu sou assim. É, tá bom, como que eu me sinto em ser assim? O que será que eu poderia fazer? Por que que isso me constitui tanto? Qual é a ausência que existe nisso?

MMMaurício Meirelles

Logo que você tá me falando, é quase como uma obrigação. Sou eu, tô jogando aqui, hein? Eu cagando a regra aqui. Sabe por quê? Porque assim, eu tô vendo uma série de pessoas, eu, Maurício, tô vendo. Nossa, a gente tá muito na defensiva. Caguei pra vocês, é, comentário. Nossa, tô meio com medinho, não é esse cara? Eu não era esse cara, Matheus, agora eu tô com medo.

MNMaria Nogueira

Eu, pessoalmente, não.

MMMaurício Meirelles

Eu, Maurício, tô com medo do Moisés, mora em Recife, enchendo o saco. Vamos ficar aqui, esquece a galera. Mas assim, por que eu acho isso? Porque eu tô vendo uma série de pessoas que tem um diagnóstico e justificam comportamentos por conta de diagnóstico. Isso aí, que é o cara que assaltei um banco, TDAH, sabe essa coisa assim, como se, ah, gente, vocês têm que entender que eu bato na minha mãe porque eu sou borderline. Então é normal, né?

MNMaria Nogueira

Tem muito.

MMMaurício Meirelles

Então o que que você vê disso?

MNMaria Nogueira

O que que eu acho?

MMMaurício Meirelles

Eu acho errado. Mas o que que você vê desse excesso de diagnóstico? Você acha que as pessoas estão buscando diagnóstico para justificar ou é quase como um alívio? Às vezes me dá a impressão que o diagnóstico virou uma... Sabe o que virou o diagnóstico na minha opinião?

MNMaria Nogueira

Signo.

MMMaurício Meirelles

É, então... Antigamente era Sagitário, agora TDAH, sabe assim? É o novo signo.

MNMaria Nogueira

Juntou os dois, ficou um...

MMMaurício Meirelles

Fudeu, eu sou Capricórnio com Téia.

MNMaria Nogueira

Suportar não é do colar de girassol.

MMMaurício Meirelles

Eu sou autista com Libra, por isso que eu bato em pessoas. Exatamente. Então, não tem uma coisa assim da pessoa não querer buscar uma melhoria e sim se acomodar no diagnóstico?

MNMaria Nogueira

Eu acho que isso é muito sério e muito real, acontece, tá? Inclusive acontece em clínica, eu vejo isso nos meus pacientes o tempo todo, que eu pergunto, né, eu faço esse processo de avaliação, de neuroavaliação. Por que que você quer esse diagnóstico? Aí tem gente que fala: eu não quero esse diagnóstico, eu quero entender se tem ou não tem, mas querer ele eu não quero para mim. "Interessante, né?" Existem pessoas que falam: "Não, eu me sinto esquisito, eu preciso entender se tem alguma coisa disso ou não." E aí o outro fala: "Não, porque eu tenho certeza que eu sou TDAH e isso vai explicar muita coisa na minha vida." Eu falo: "Tá, três abordagens bem diferentes para o mesmo processo, mesmo diagnóstico." Esse terceiro geralmente: "Ah, eu quero explicar muitas coisas." É, ele é o que acaba usando como muleta.

Muleta. O diagnóstico, ele não é ruim, ele não é algo ruim. Ter mais diagnóstico também não é ruim, quer dizer que a gente conseguiu alargar um pouco, entender mais o que é o autismo. Por exemplo, não sei se você sabe, o autismo ele foi criado como categoria diagnóstica com base em estudos só com meninos, só homens. Então só meninos tinham, não tinham fenótipo feminino do autismo. Isso quando? 80? 70? 80? Até agora o fenótipo feminino do autismo foi aceito acho que em 2014.

MMMaurício Meirelles

Peraí, até 2014 não existia mulheres autistas?

MNMaria Nogueira

Era uma coisa bem assim, as mulheres eram diagnosticadas como borderline, bipolar, depressiva, ansiosa, era tudo TDAH, menos autista. E o autismo explicaria tudo ali, Era o diagnóstico e não fechava ser esse diagnóstico.

MMMaurício Meirelles

O autismo era o tipo clube do Juliano Casarré, era o curso.

MNMaria Nogueira

Era só meninas.

MMMaurício Meirelles

O Juliano devia falar: galera, é o clube do autismo e não clube dos homens. Caramba, é sério?

MNMaria Nogueira

Era só menino. E aí a gente, por não estudar meninas, não tinha o fenótipo feminino do autismo e as meninas não se enquadravam no fenótipo masculino por motivos Bob, né? E assim, assim foi indo, a categoria diagnóstica se expandiu e a gente tem mais diagnósticos porque as pessoas têm mais consciência, elas buscam mais, o atendimento não é tão mais caro quanto era, era um absurdo, era impraticável, e agora a gente tem no SUS e a gente tem avaliação de vários níveis, né, vários preços diferentes, e a categoria diagnóstica realmente se expandiu para englobar mais pessoas que se enquadram no transtorno, mas não se enquadravam naquele fenótipo inicial.

Dado isso, diagnóstico não é ruim, ele ter aumentado não é algo ruim, é bom. As pessoas se entendem mais e têm mais ferramentas para lidar. Por exemplo, mulheres autistas têm muita propensão a ter problemas intestinais graves. Eu tenho problemas intestinais a vida inteira, eu sempre tive. Eu sou a pessoa que mais pegou infecção, intoxicação alimentar da história. Pergunta para o André.

MMMaurício Meirelles

Tem a ver com autismo?

MNMaria Nogueira

Tem a ver com autismo.

MMMaurício Meirelles

Por conta de texturas?

MNMaria Nogueira

Não é por causa de textura, é quase como se uma fragilidade do sistema imunológico e do sistema gastroentérico mesmo. Então assim, aí para te explicar exatamente como funciona, eu tenho, vou faltar algumas palavras, mas existe essa correlação, ela é muito estudada. A mulher que sabe disso, ela não se ocupa tanto, ela se ocupa mais de tratar isso, porque entende que vem de um diagnóstico que é, por exemplo, autismo, e entender isso do que "Ah, eu não posso comer nada porque o meu estômago é esquisito" e não busca um tratamento para aquilo, entende?

Então o diagnóstico ele é bom. O que que é ruim? Se eu, uma pessoa superdotada, que a superdotação ela me veio com 13 anos, tá? Uau, 13! Eu era uma criança estranha, uma criança atípica, né? Então assim, eu tinha minhas peculiaridades.

MMMaurício Meirelles

Os hiperfocus.

MNMaria Nogueira

Tinha, e não só, eu tinha peculiaridades mesmo assim. Aí a gente sabe muitas coisas que vieram do autismo. Tipo, batendo na minha mãe. Eu tinha um hábito, eu lia muito Gibi da Turma da Mônica. Maurício de Souza era meu ídolo da vida inteira, escrevi um livro pra ele com 7 anos dedicado pra ele com poesias e tudo. Era um ídolo, assim, era apaixonada no Maurício de Souza, quis ir no teatro desde já. E aí eu lia um Gibi da Turma da Mônica por noite antes de dormir e eu tinha que comer uma maçã.

A maçã tinha que terminar exatamente no mesmo momento que eu terminava de ler o gibi. Eu lia rápido, então tudo bem. E aí eu tinha que tomar um copo d'água depois dessas duas atividades que eram em conjunto para poder dormir. Eu viajava com os meus pais, a primeira coisa que os meus pais se ocupavam de fazer era encontrar maçã. A gente pousou em Londres um belo dia, eu lembro da minha mãe desesperada que ela não achava maçã. Tipo assim: "Maria não vai dormir." Dito e feito, eu não dormi aquela noite porque não tinha maçã.

Eu tinha levado 6 gibis na minha mochila e não tinha maçã, eu não dormia. Eu gostava de falar com os amigos dos meus avós. Eu não gostava das pessoas da minha idade, falava: ai, criança. Eu, 8 anos, eu assim: ai, criança chata, muito chato, não gosto. Eu pegava os livros dos meus irmãos mais velhos para ler. Meu irmão tem 5 anos a mais que eu. Eu gostava de ler os livros que ele estava lendo. Até hoje é assim, mas agora é mais estranha. Ela falou: é, Maria, tem umas coisas, né?

MMMaurício Meirelles

Você falou do irmão?

MNMaria Nogueira

Irmãos, e você era a única nesse, a única neurodivergente diagnosticada da minha família, e eu sou a mais nova.

MMMaurício Meirelles

Entendi. Então sua mãe conseguiu ver padrões diferentes. Então não é uma coisa, entendi. Então você sendo essa pessoa, você se descobriu com esse laudo de superdotação.

MNMaria Nogueira

E aí o seguinte, poderia ter usado isso como uma muleta? Poderia. Eu poderia ser uma pessoa sem amizades, eu poderia não ter um relacionamento, porque é mais difícil para É mais difícil para mim ser noiva do André. Eu adoro ser noiva do André, mas é mais difícil para mim.

MMMaurício Meirelles

E para ele também.

MNMaria Nogueira

Mas ele já sabia, ele sabia no que ele tava entrando. Eu falei assim, no segundo date, eu falei: ó, eu sou autista, eu sou superdotada, vai ser meio difícil aqui, mas se você quiser, ó, tamo aí.

MMMaurício Meirelles

Talvez eu me entendi rápido. Traga assuntos, traga uma maçã.

MNMaria Nogueira

Sempre a maçã. E hoje vi, agora virou um livro. Mas enfim, eu eu me esforcei para fazer isso acontecer por mim. Eu não era uma pessoa que conseguiria falar em público, a minha mãe me botou no teatro. Tipo assim, eu fui criada numa casa que não tinha isso, não tinha desculpa. Se você tinha um déficit, você ia atrás de corrigi-lo, ponto final, era isso. Então assim, eu acho que essa deveria ser a mentalidade, não de "ah, preciso corrigir cada aspecto de mim", não.

Eu entendo muito profundamente das minhas coisas. Aqui eu estou no podcast falando com você, isso requer muito de mim. Eu vou chegar em casa e eu não vou fazer nada, eu não vou trabalhar, eu não vou atender hoje à tarde, eu vou ficar assim: neném, descansa.

MMMaurício Meirelles

Isso daqui gastou uma energia psicológica.

MNMaria Nogueira

Sempre gasta. Gravação gasta, e eu adoro palestrar, gasta, eu amo, mas eu entendo que depois eu vou estar rebaixada. Então eu preciso ter essa paciência comigo mesma, eu não vou voltar a exato, se descobrir. Mas é muito legal, mas percebe que eu faço? Sim. Não é, ah, isso vai ser muito mais difícil para mim, então eu não vou nem fazer, que é a muleta. Ah, me relacionar é muito mais difícil para mim, então vou ficar isolado. Eu vou encontrar formas de fazer, eu vou encontrar maneiras de fazer, e eu vou conseguir explicar para o André onde que dói em mim, porque ele não sabe, porque não é onde dói nele.

MMMaurício Meirelles

Aí você tá dando uma aula de autoconhecimento, mas a gente tá vivendo uma fase que é baseada no individual, né, que é coisa do tipo assim, até vou até te trazer isso, os neurodivergentes e os neurotípicos parece que são o lado A e lado B da sociedade. É, vai ser o esquerda e direita daqui a 10 anos.

MNMaria Nogueira

Nossa Senhora, eu vejo isso acontecendo.

MMMaurício Meirelles

É isso que eu queria entender, porque assim, quanto mais neurodivergente está aparecendo, me dá a impressão que a gente tem mais aceitação e mais o fato do tipo assim, então já que vocês neurodivergentes estão se conhecendo, logo você não precisa se adaptar ao que é o neurotípico. Então logo você não precisa, digamos, fazer teatro para você falar em público. Você não precisa, sei lá, eu aprender a comer texturas que você não gosta, porque você não gosta, a gente já entendeu.

Como é que funciona isso? Porque é muito legal ver você como autista, que você tá falando, tá olhando no meu olho, conversando. Bem que é uma coisa do olhar no olho, é uma coisa até muito pequena perto do que é a complexidade do autismo, mas assim Você fala bem, você se relaciona bem, você tá noiva. E a gente vê muitos casos de autistas que tem aquela coisa do tipo assim, cara, socialmente eu não funciono. E fico, o que que você recomenda?

Porque tem muita gente que tem filhos autistas agora e estão nessa coisa do tipo no TikTok falando assim, ele é do jeito que ele é, então não estimule, ou estimule sempre.

MNMaria Nogueira

E assim, o estímulo correto é aquele que pega as fortalezas forças da criança e cresce elas, mas não ignora os déficits. Então você tem coisas muito legais. Eu sempre gostei muito de palavras, meu hiperfoco da vida são palavras. Eu lia o dicionário, eu sempre li muito, eu gosto de escrever.

MMMaurício Meirelles

Você lia o dicionário?

MNMaria Nogueira

Eu lia o dicionário. Ok. Lia. Meu pai tinha um jogo, chamava empugna lá em casa, que era basicamente um jogo onde cada um falava uma letra em e você não poderia formar uma palavra. Então você tinha que armar para outra pessoa formar uma palavra antes de você, com a letra deles, né? E para você jogar isso muito bem, você tinha que saber muitas palavras, né? E palavras diferentes. Então assim, eu lia o dicionário, era muito estimulada pelo meu pai a fazer isso, pelos meus pais, que a minha mãe também sempre leu muito.

Eu sempre gostei de palavras, gostei de escrever. Os meus pais me incentivaram tudo que eles poderiam nesse aspecto, tudo, tudo. Eles me davam todos os livros que eles poderiam me dar, eles me davam um dicionário, versões de dicionários, aula para falar francês, aula para falar inglês, aula para falar todas as línguas, os gibis. Eles me incentivavam muito nisso. Eu tinha um ponto bem fraco que era realmente conseguir estabelecer relacionamentos com pessoas da minha idade, né?

Eles não ignoraram isso, falaram: ah não, Maria, assim "Mas ela é boa nisso, então vamos deixar ela aqui sofrer com isso aqui." Não, eles falaram: "O que a gente puder facilitar para ela, mesmo sabendo que vai ser mais difícil, vamos fazer? Vamos. Então vamos fazer teatro." Fiz aula de socialização com a minha primeira psicóloga, fiz fono para eu falar como eu falo agora. Então assim, eu acho que fazer isso não é se conformar a uma identidade neurotípica, porque você vê, eu não me identifico, eu não Eu não tenho a menor pretensão de me passar por uma pessoa neurotípica. Tanto é que eu falo: o resto do dia tá lost para mim.

MMMaurício Meirelles

Sim, e quem não entende o seu diagnóstico vai falar: ela é preguiçosa, ela só deu uma entrevista hoje, ela fez uma coisa, tá fazendo nada, podia estar fazendo não sei o quê.

MNMaria Nogueira

Exatamente.

MMMaurício Meirelles

E aí é você respeitar até onde vai a sua condição.

MNMaria Nogueira

Eu não funciono como um neurotípico nesse sentido, que sairia daqui, iria para outro trabalho ou outro podcast e continuaria a vida normal.

MMMaurício Meirelles

Mas quando você vai num teatro teatro, que seu pai te incentivou a fazer aula de teatro. O quanto aquilo foi dolorido para você?

MNMaria Nogueira

No começo, muito, porque era isso, eu era tratada como uma criança típica ali naquele ambiente, até porque eu não tinha, né, o laudo de autismo, e eu tive que me esforçar. Só que desse esforço veio, né, a capacidade. Tudo que a gente se propõe a fazer de novo vai ser difícil, no começo. O que que não pode acontecer? Uma cobrança de performar perfeitamente. Isso nunca tive.

MMMaurício Meirelles

Você não era a melhor do teatro?

MNMaria Nogueira

Não era a melhor do teatro, de jeito nenhum. Tipo assim, eu era péssima, inclusive, muito ruim. Eu tinha problema com nuance, né? Então realmente eu era péssima. Meus pais estavam lá, eles não me obrigavam a me apresentar, eles faziam eu ir para aula, mas apresentação eles entendiam que era uma coisa muito para E eu falava, eu conseguia falar, ó, esse aqui eu realmente não quero fazer, por favor. Então tá bom, entendi. Você foi até onde dava. O negócio é você nem tentar ir. Isso é o que me incomoda.

MMMaurício Meirelles

Sabe o que tava chegando na minha conclusão aqui desse papo que eu tô meio que tá analisando assim, de tudo que a gente falou, cara? É muito complexo tudo. Eu vou explicar por quê. A gente está tendo cada vez mais quantidade de pessoas neurodivergentes. Não que tá tendo mais, mas os diagnósticos estão aparecendo. Deve ter alguma motivação que a gente não sabe. Vai ter um cara espiritual o outro vai falar alguma coisa, vai ter o outro biológico, cada um tem uma visão, mas tá tendo mais, isso é fato, certo?

Até aí não é achismo, é fato. Ao mesmo tempo, a gente tá lidando com pessoas que, por exemplo, por a gente ter tido uma infância no passado ou pais mais rigorosos do passado, a gente começou a criar estabilidade emocional. Então a gente tá lidando com o mundo de hoje onde pessoas— imagina você que tem um filho neurodivergente, seu filho é autista. Seu filho é autista e você é um pai que não quer causar mal para o seu filho, porque você não quer de alguma maneira ser um pai ruim, como talvez o seu pai foi para você, o seu avô foi para o seu pai, por aí vai.

Então você começa a não forçar muito o seu filho a fazer coisas, né, porque, puta, ele pode ficar chateado e tal, sendo que você tá falando, mas o estímulo é o que funciona. E ao mesmo tempo, nisso tem uma série de informações, de estímulos jogando na cabeça de uma criança, de uma pessoa que é basicamente o que causa ansiedade, e ela vai ter uma instabilidade emocional muito maior do que a que você tá tendo. Então, qual a solução?

MNMaria Nogueira

A solução é você chatear no momento certo. Você não pode ser o melhor, você pode ser o melhor amigo do seu filho, mas você tem que ser pai do seu filho. Você tem que se colocar, tem que colocá-lo para fazer coisas difíceis, senão ele não vai ser resiliente. Então assim, existe uma linha E ela não é muito tênue entre o que é um pai que é emocionalmente distante, abusivo, que força, que causa sofrimento explícito numa criança, e um pai que força ela a fazer coisas difíceis pelo próprio bem, mas que tem empatia e compaixão para o momento onde ela chega num limite. É só isso.

MMMaurício Meirelles

Lembra que você falou no começo sobre esse papo todo? Ele tem que ter ligado. Que você falou no começo sobre excesso e falta, né, ausência. Exatamente, uma coisa leva para outra, né? Porque se você tá sendo o melhor pai do mundo, melhor amigo do mundo, você tá sendo talvez negligente com vários outros, com vários outros lados. E a visão que eu tô tendo assim até do meu entorno de amigos que são pais e tal, a maioria das pessoas estão um pouco com medo de causar essa coisa do tipo, não quero causar traumas, não quero que o meu filho seja forçado a nada. Só que eu acho que o equilíbrio, mas o equilíbrio é tudo difícil.

MNMaria Nogueira

Faz com muito amor, e amor assim explícito, não amor implícito, que era muito comum nas gerações anteriores, né? Ah, mas eu amo. Mas quantas vezes você fala que você ama seu filho? Ah, não preciso falar. Precisa, criança precisa ouvir isso.

MMMaurício Meirelles

Sim, é quase como não é zero nem 100. Antigamente era zero, não falo nada, ele tem que aprender no soco.

MNMaria Nogueira

Minha regra é É isso, ele vai ter que descobrir sozinho.

MMMaurício Meirelles

E agora também é tipo, eu vou e levanto ele para fazer tudo.

MNMaria Nogueira

Sabe o que que funciona muito bem? Conversa. Se você escutar o seu filho, ele te fala o que ele precisa. Então assim, eu chegava em casa, eu só posso falar da minha experiência como filha porque eu ainda não sou mãe, mas eu chegava em casa e chorava com a minha mãe que eu não conseguia fazer amigos. Não é uma coisa ok, aí você realmente se sente distante, você se sente estranho, você sente— eu não conseguia fazer as amizades, eu não entendia como que as pessoas chegavam para outras pessoas no parquinho e falavam: "Ah, vamos conversar, vamos ser amiga." Isso é uma frase que nunca saiu da minha boca, eu não sabia fazer isso.

Alguém tinha que me escolher e me pegar e tipo assim começar a conversar comigo, e tinha que por sorte ser algo que eu gostava de falar, porque senão ficava meio assim Eu não sei esse assunto, eu não tenho esse assunto, você quer outro assunto?

MMMaurício Meirelles

Isso fez mal para você?

MNMaria Nogueira

Eu chegava em casa chorando, não era legal.

MMMaurício Meirelles

Entendi, mas no começo da tua vida, muita gente, seus pais devem ter pensado assim: ah, ela tá ali no mundinho dela.

MNMaria Nogueira

A Maria é tímida, a Maria é inteligente. Eu sempre tive esses rótulos, né? A Maria tem questionamentos muito grandes sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte. Eu ficava refletindo, eu ficava no sofá refletindo, criança fazendo Pensava assim, aí chegava minha irmã, ela perguntava: Maria, o que você tá pensando? Eu falava: eu acho que um dia, né, a gente não vai mais estar aqui. Tipo assim, 6 anos.

MMMaurício Meirelles

Portela.

MNMaria Nogueira

O que é a vida? O que é a vida?

MMMaurício Meirelles

Que doideira, cara.

MNMaria Nogueira

Só que eu sofria com isso. Meus pais tinham uma escolha, eles podiam me deixar com esse sofrimento, falar: ai, tadinha, realmente você é assim, é mais difícil. Início e eu não ter desenvolvido esse lado. Ou eles podem falar, ó, tem uma coisa, falaram com o meu médico na época, falou, tem uma solução boa para isso que é aula de teatro. Tem aula de teatro, tem psicólogo que é especialista nisso e tem fono. Se ela tem essas três questões, vamos trabalhar essas três questões para que ela se sinta mais confortável com quem ela é, não para que ela seja perfeita.

MMMaurício Meirelles

Então, mas a gente tá falando um negócio que papo maravilhoso! Não, está falando um negócio que é baseado em grana. A gente vai chegar nesse lugar. Graças a Deus você teve um privilégio, seus pais conseguiram te colocar em lugares bacanas. Como que a gente faz numa, numa, porra, num país ou vários outros, outras sociedades onde o cara não tem dinheiro? E a pessoa, você sabe que eu tô falando, seu filho ele tem uma neurodivergência, você sabe que ele é diferente, ele tá tomando bullying na escola, Qualquer recomendação, o que faz sem gastar R$600 de consulta semanal?

MNMaria Nogueira

Bom, existem bons psicólogos e bons serviços no sistema público de saúde, mas existem filas gigantescas e vários problemas inerentes a esse processo, que não é para dizer não tentem, tentem, tem profissionais maravilhosos no SUS, mas eu acho que uma das coisas que dá para fazer Buscar apoios comunitários, eles existem. Eu acabei de saber hoje de manhã, acabaram de me ligar me contando de uma igreja lá em Fortaleza que é a primeira a ter uma catequese específica para crianças neurodivergentes com pedagogos capacitados para lidar com elas.

Tipo assim, super grupo de apoio. Existem esses lugares, eles precisam ser procurados. Bucrasco. Eles precisam ser procurados. Outra coisa, usar o recurso. A internet é muito ruim, mas a internet é muito boa. Usar o recurso que você tem para entender um pouco mais sobre, buscar entender o seu filho. Esse é o maior ponto de apoio que ele vai ter na vida, é o maior que existe. É uma situação muito longe do ideal, muito longe do bom, inclusive, tá ruim, né, o que a gente tem agora.

De desigualdade e essa questão dos privilégios. Não é todo mundo vai colocar o filho na aula de teatro.

MMMaurício Meirelles

No TO.

MNMaria Nogueira

Mas pode ser que ele consiga encontrar, por exemplo, no esporte, que aí é uma coisa muito disponível aqui no Brasil em sistemas públicos, em prefeituras. Pode ser que ele encontre no esporte esse lugar. Então entender quais são as alternativas viáveis, né, e estudar mais você Mas é legal você falando sobre assim, estimule.

MMMaurício Meirelles

Porque, putz, meu filho não quer fazer futebol, meu filho não quer fazer natação, meu filho não quer fazer teatro. Geralmente uma criança que tem neurodivergência, ela tende a não querer fazer nada que seja fora da sua zona de conforto, certo?

MNMaria Nogueira

O ideal é estimule, vai fazer, coloca, faz, dá uma, dá o conforto que ela precisa para ir fazer, né? Você seja o ponto de conforto, não a vida inteira dela ser só a zona de conforto. Você espera que ela seja medalhista olímpica. É, não, ela tá indo para ver coisas novas e se adaptar a novos ambientes, porque existe adaptação. A gente gosta muito de ver criança neurodivergente como uma, como incapaz de adaptar, e não é incapaz de adaptar, inclusive porque os tratamentos funcionam. Terapia ABA funciona, fonoaudiologia funciona.

MMMaurício Meirelles

O que que é o funciona? Ela se torna uma criança típica?

MNMaria Nogueira

Não, a gente nunca quer isso. A gente quer que ela se torne independente. O máximo possível, porque ela conseguir, porque da independência vem a satisfação na vida adulta, ela consegue desenvolver-se, né? Esse é o objetivo, que ela desenvolva as suas habilidades, seja essas habilidades quais forem.

MMMaurício Meirelles

Então te pergunto, hoje em dia tá tendo muita neurodivergência diagnosticada, certo? Muito mais do que— lembro que eu trouxe aqui uma vez um cara para falar de autismo, foi uma puta papa, mas faz 3 anos. E na época ele falou assim alguma coisa do tipo a cada 60 crianças, 60 pessoas, uma era. Eu acho que agora já aumentou, agora já é cada 20. A coisa tá vindo e tem muita possibilidade, igual eu falei aqui brincando no meu achismo, que pode ser que seja lado A, lado B, né?

Tem uma galera que é neurodivergente e neurotípica. Na sua visão biológica, clínica, espiritual, Você acha que isso vai virar uma vantagem ou um desafio no futuro?

MNMaria Nogueira

Nossa, tem muitos argumentos, né, de que o autismo é um superpoder e tal. Tenho a menor ideia, vou ser bem honesta, não sei. Eu vejo muito no meu convívio com o André, né, meu noivo é neurotípico, ele tem até algumas características aí um pouco TDAH, mas não o suficiente para preencher um critério diagnóstico.

MMMaurício Meirelles

É só celular, é só YouTube demais, é só TikTok.

MNMaria Nogueira

O cérebro dele funciona com telefone, eu acho. Acho que talvez seja por isso, mas enfim, a gente percebe uma discrepância na forma como eu trabalho muito grande. E aí o André fala: você tem um superpoder, é chocante, você consegue sentar e escrever.

MMMaurício Meirelles

Na visão dele, de um neurotípico, que fala: meu Deus, ela é uma nerd maluca.

MNMaria Nogueira

Não é isso, André? Nerd maluca é exatamente o apelido em casa. Mas enfim, ele vê isso como uma super vantagem. Eu sei o custo disso. Então eu sei que eu consigo fazer isso, a minha capacidade produtiva é muito grande. Eu fiz duas especializações ao mesmo tempo, eu cheguei a fazer duas faculdades ao mesmo tempo, eu agora faço um mestrado, tem a clínica e o trabalho de divulgação e nananã, é bastante coisa, tô escrevendo um livro e ainda assim eu encaixo tudo e tá tudo certo. Mas eu sei o custo que isso tem para mim.

MMMaurício Meirelles

Quais são?

MNMaria Nogueira

Eu sei onde eu sofro. O meu emocional é, ele é, não é muito bom assim, sendo bem honesta.

MMMaurício Meirelles

Conta para mim, o que que é o seu emocional? Por exemplo, você se apega muito a, sei lá, você seria, como é que chama o termo? Quando você busca muito qualidade o tempo todo, você é perfeccionista.

MNMaria Nogueira

Sou, mas não acho que isso me atrapalha muito. Tem uma coisa que é o seguinte, tinha, agora não tenho mais, uma questão de autopunição muito forte. Então se não tava exatamente do jeito que eu queria, eu me punia de N maneiras. E aí, N maneiras, eu tive transtorno alimentar, já tive que ser internada por anorexia, porque realmente era assim, não tava bom, eu não comia. Não tava bom, eu— não tava exatamente do jeito que eu queria.

De jeito que cheguei a me beliscar uma época, me beliscava muito forte, ficava roxa. Minha treinadora da época de vôlei me tirou do time titular só porque eu me cobrava a ponto de me machucar. Então assim, eu tinha esse padrão. Eu tenho um padrão que é consistente? Eu tinha. Eu fiz muita análise para melhorar isso e consegui. No meu emocional, eu sinto muito mais do que uma pessoa típica. Então você sente um, esse um exatamente acontece exatamente igual comigo, eu sinto 6.

Ok, ansiedade Ansiedade muito forte o tempo inteiro, né? Minha cabeça não desliga, eu tenho que botar ela no manual para desligar.

MMMaurício Meirelles

Então o que eu falei que deu a polêmica foi da minha vivência, de novo, foi que assim, é porque assim, o que eu falei assim, eu tenho um laudo lá da superdotação, que eu acho um nome muito merda, já deixei claro isso, porque altas habilidades ou superdotação é que nem diabetes falar tipo doce demais, tipo assim, 'Não, ele não teve nem infarto, ele teve altas palpitações.' Você fala: 'Mano, puta nome legal para um bagulho que é uma merda.' Só quando eu falei que é um bagulho que é uma merda, muita gente que tem condições de superdotação ou filhos que têm superdotação se sentiram ofendidas.

Porque eu falei, cara, porque esse nome romantiza. Porque parece assim: ele é superdotado, Einstein chegou, então tudo mágico. Porra, porque Porque assim, e até legal você falar: eu tenho superdotação. Nossa, ele é pauzudo, é um nome que gera, um nome que gera, ele tem pau imenso.

?Voz E

Toda vez que você me fala isso, eu acho meio babaca.

MMMaurício Meirelles

Não é meio babaca. Agora você fala assim: cara, eu sou alcoólatra.

?Voz E

Agora não, é coisa boa.

MMMaurício Meirelles

É, eu sou altas dosagens. É legal, ele sabe curtir. Eu acho o nome, eu acho o nome horrível. Horrível, porque eu trocaria para outras frustrações. Eu não sei, tem que ter alguma coisa nesse nome, porque eu até fico meio sem graça de falar, porque você vê que eu falo abaixando a cabeça.

MNMaria Nogueira

Eu sou muito inteligente.

MMMaurício Meirelles

Não, não sou inteligente, porque as pessoas não sabem assim, a gente pensa muito. Vou falar como é eu, minha cabeça ela não para de pensar, mas ninguém disse que os pensamentos são bons. Não, porque as pessoas acham que é todo assim, cura do câncer, agora veio aqui como salvar a economia do Brasil. Não, eu tô pensando Eu fico em, sei lá, vacilamento, qualquer idiotice. Por que que o grilo apita? Sabe assim, umas merda que não é importante.

O helicóptero tem buzina, eu fico 3 horas e meia, entendeu? Essa é a minha condição. Quando eu falei isso, deu uma polêmica do caralho, porque não é verdade, porque não sei o quê. E eu falei, o meu grande bônus, aí eu falo até pra quem gosta do meu trabalho, meu grande bônus é esse: porra, sim, eu consigo o tempo todo consigo prever cenários, eu consigo. Eu sou um workaholic maluco. Mateus sabe disso.

?Voz E

Faz nada, não tá em paz.

MMMaurício Meirelles

Quando o funcionário fala, o cara maluco, eu vou te falar, eu tenho vezes que eu tô em casa 2 horas sem fazer nada, eu bugo a cabeça. Por que que eu tô sem fazer nada? Eu preciso criar um projeto. E quando eu vejo, eu vou fazer um 36 projetos, eu faço muita coisa.

?Voz E

Isso cansa meu cérebro.

MMMaurício Meirelles

E aí a minha reclamação é: esse é o lado positivo que as pessoas acham de, ah, ele tá sempre, né, bem-sucedido, criando coisa. Mas ao mesmo tempo, cara, é uma estafa mental que me leva para um lugar muito delicado.

?Voz E

Ai, como ele é inquieto!

MMMaurício Meirelles

Eu acho uma merda isso, né? Então quando eu trago essa provocação é: a gente pode determinar que pessoas com neurodivergência elas são um putativo em matéria de produtividade e uma grande problemática em questão de sentimento, relacionamento? Como é que a gente pode falar isso de uma forma que Miguel em Niterói não enche o saco?

MNMaria Nogueira

Ah, sempre vai ter um Miguel enchendo o saco.

MMMaurício Meirelles

Existe uma solidão intelectual, é isso que eu quero dizer.

MNMaria Nogueira

Ah, isso é aquele estereótipo do gênio torturado? Não, cara.

MMMaurício Meirelles

Não é porque eu acho ruim o gênio.

MNMaria Nogueira

É, mas é que tem muita gente que é superdotada e mendigo, entendeu?

MMMaurício Meirelles

Não é o fato de você—

MNMaria Nogueira

tem muita gente que é superdotada que acaba não fazendo absolutamente nada com a vida porque não tem o emocional para lidar com isso. Exato, é isso, é isso. Então assim, é superdotado mendigo, ainda não conheci, mas acho que eles não teriam a consciência.

MMMaurício Meirelles

Eu acho que vai existir, porque é o cara que vai ficar toda uma crise existencial que ele vai entrar no lugar que ele sucumbe.

MNMaria Nogueira

Pós-laudo, né? Que teria que ser depois do laudo.

MMMaurício Meirelles

O que que é a vida? Ah, então vou ficar aqui em casa.

MNMaria Nogueira

Só que aí tem uma coisa interessante, né? As pessoas superdotadas tendem a usar, tendem a ir para o consumo de drogas, né?

MMMaurício Meirelles

Totalmente.

?Voz E

Segurado.

MMMaurício Meirelles

Cara, eu só não, eu vou te falar, eu só não uso porque me foderia muito, mas a tendência é você querer desligar teu cérebro. E para você querer desligar teu cérebro, você vai para alívio, você vai para bebida.

MNMaria Nogueira

Isso, ou desligamento total, né, que seria isso, né, essas drogas que realmente te deixam totalmente letárgicos e sem reação.

MMMaurício Meirelles

Pausa. Você entendeu o que que aconteceu comigo no caso Zoupi Day?

?Voz E

Sim.

MNMaria Nogueira

Obrigado. Teve um show que eu não Eu fui por causa de uns Opden, porque eu misturei.

MMMaurício Meirelles

Eu não posso falar agora.

?Voz E

Falei, você foi no show?

MMMaurício Meirelles

Eu fui no show, esse foi o problema. Eu fui. Sabe o que aconteceu? Eu tava sem dormir. Por que que eu tava sem dormir? Porque eu tava passando por uma questão muito pequena pessoal, não era algo gigantesco, mas aquilo fez eu perder meu sono. Você sabe bem o que que é isso. Eu olhei, era 5 da manhã, eu não tava dormindo. Eu falei, preciso dormir. E aí eu tomei um remédio remédio. Aí, 5 da manhã, é, mas aí passou um dia e eu com outro remédio que eu estava tomando, parece que não saiu o efeito.

E à noite eu fui fazer o meu show, antes eu fui no show do Guns N' Roses, tomei uma taça de vinho. É, então esse ishi já deu um problema. Aí foi duro, na verdade, e uma pedrinha de crack. E aí, não, tomei duas tacinhas de vinho assim normal, eu Bebo muito, porra, eu sou até um cara que bebe bem. Tomei duas taças de vinho, cara, desliguei meu cérebro, acordei no palco. E hoje eu tô devendo pra 700 pessoas uma multa. Não, eu paguei depois tudo.

Mas eu particularmente eu buguei, minha cabeça bugou. Por excesso de pensamento, eu precisava dormir, eu não conseguia. Então, é uma justificativa? Não, eu estava errado. Eu precisei admitir o meu erro, mas é baseado numa coisa meio que não foi de sacanagem, não foi: "Ah, pau no cu do público".

MNMaria Nogueira

Não foi isso. Você consegue entender, o legal é isso, você consegue entender o que aconteceu para não se crucificar por isso.

MMMaurício Meirelles

Porra, mas difícil.

MNMaria Nogueira

Não quer dizer que você não tava errado.

MMMaurício Meirelles

Não, tava muito errado.

MNMaria Nogueira

Entender o comportamento não é absolver o comportamento, mas você consegue não, você consegue entender que existe uma conjuntura de fatores para tal, um desses fatores era de fato a sua neurodivergência.

MMMaurício Meirelles

Sim.

MNMaria Nogueira

Então você não precisa se crucificar.

MMMaurício Meirelles

Não, tudo bem, já passou. Eu acho que o fato de eu ter sido honesto foi mais legal ainda, embora as pessoas não acreditem Foi a minha honestidade, foi, saiu da minha alma exatamente o que aconteceu. Porém, foda-se também, que não quiser acreditar não vai acreditar, e tá tudo bem. Pelo menos eu tentei ser honesto. O ponto que eu tava voltando para falar é: existem pessoas como eu, como você, que são as pessoas que têm essa questão, uau, meu Deus, eles trabalham muito bem, porém emocionalmente estão instáveis.

A gente não tá mais fodido? Vou te jogar a pergunta. Do que benefício, já que os robôs estão chegando exatamente com as mesmas habilidades que você tem. De nossa, ela faz 45 livros em 3 minutos, o Claude também, só que o Claude não é tão emocional, ele não chora fazendo, e não chora fazendo, né? O Claude, ele só faz. Isso não é um problema, ou na verdade é uma grande solução a gente ser emocionalmente instável, porque o robô não tem emoção.

MNMaria Nogueira

Emocional? Caraca, é uma vantagem. Ó, tá, sei emocionalmente instável. Tem gente que argumenta que é uma vantagem para arte, né? Você sentir muito faz você criar muito e criar coisas boas, né? Ou coisas ruins, mas que se conectam com muitas pessoas e portanto são boas, né?

MMMaurício Meirelles

Eu não confio em artista milionário, tá muito bem de vida, nossa, tá casado assim, Não considero. Não considero. Para mim, o artista tem que estar fodido. Se eu vejo, cara, fala um cara, o Dinho Santa Cruz, sei lá, no Hortofrutti, 6 da manhã, eu falo: não vou ouvir o disco dele, tá bem para caralho, maluco. Quero ver esse cara caído.

MNMaria Nogueira

Tem esse mito, é um mito, tá? Pessoas mais sensíveis tendem a ser mais criativas. A gente não sabe se isso é elas são mais criativas e, portanto, elas são mais sensíveis, ou elas são mais sensíveis, portanto, elas são mais criativas, ou se não tem nenhuma relação, só coexiste. Existe, tá? Não sabemos, mas a gente sabe que existe essa correlação, só não sabe se é de causalidade ou não. A partir disso, a gente associa que o emocional instável, que é mais característico dessas pessoas supersensíveis, né, esteja também relacionado a maior capacidade produtiva.

Que é para você produzir muito, em um aspecto está certo, porque para você produzir muito você tem que tirar de lugar. Seu cérebro precisa, ele tem recursos limitados e todas as áreas do seu cérebro competem pelos mesmos recursos. Você não tem a X quantidade de GABA vai para o seu emocional, não é assim que funciona. Você não tem X dopamina em uma certa área, você tem dopamina, ela precisa ser distribuída e usada para N funções.

Se você tá usando muito para uma, você vai tirar de outra, o emocional vai e sofre, ele é um dos primeiros que e aí que desliga. Não sei porque o nosso cérebro faz assim, mas ele faz assim, ele desliga ali. Então eu não acho que seja uma vantagem, tá, você ser emocionalmente instável. Eu acho que é uma característica de pessoas que tendem ali a uma alta produtividade ou que tendem a uma alta criatividade, mas também tá presente em pessoas que não conseguem fazer absolutamente nada porque elas estão paralisadas pelo tanto que consentem.

Tem essa galera também. Então eu acho que tá em todo lugar. Não é necessariamente uma vantagem, é uma desvantagem para relacionamentos. Mas se a gente for olhar puramente pelo âmbito produtivo, existem pessoas super estáveis que estão fazendo trabalho. Tipo assim, eu não consigo imaginar um engenheiro emocionalmente instável. Assim, o cara, para mim, ele tá ali tranquilão fazendo a matemática dele.

MMMaurício Meirelles

Tem uma porrada de autista engenheiro.

MNMaria Nogueira

Inclusive, não necessariamente é emocionalmente instável.

MMMaurício Meirelles

Não, não, achei que ele era por conta dessa questão de relacionamento, de não necessariamente a instabilidade emocional. Inclusive, tem instabilidade emocional às vezes, mas não posso generalizar que são todos.

MNMaria Nogueira

Sim, não dá para generalizar não. Por exemplo, a superdotação é muito mais relacionada à instabilidade emocional do que o autismo.

MMMaurício Meirelles

TDAH também.

MNMaria Nogueira

Entendi.

MMMaurício Meirelles

Mas o problema é a mistura, não problema, né, mas porque a gente está descobrindo que eu sou O que a gente está descobrindo é que tá vindo muita dupla excepcionalidade, né? Tá vindo o cara, ele é autista com TDAH, o outro ele é superdotado com autismo, outro TDAH com superdotação.

MNMaria Nogueira

Sabe o que que é a neurodivergência? É um espectro, né? Tipo, sabe a roda das cores, a roda cromática? É tipo isso, todas as cores pegam um pouco de outras das cores e assim se forma a roda de cores. Não é um espectro assim assim, onde aqui tá grave e aqui tá leve. É um espectro assim onde você consegue estar em qualquer uma das posições, porque para algumas coisas você vai ser mais, precisar de mais assistência, e para outras você vai precisar de menos assistência.

MMMaurício Meirelles

E a gente volta de novo lá no passadinho, provando que o meu TDAH tá em dia, que é o seguinte: o grande mal da nossa sociedade, igual falamos, a sociedade moderna, é a falta de lidar com tédio. Pelo que eu tô observando, neurodivergentes têm uma questão muito grave com a coisa do tédio.

MNMaria Nogueira

E aí é mais difícil, né? Imagina, você tem um cérebro que não para, aí você fala: vamos parar aqui um segundo, pode continuar, mas eu vou ficar parado. É muito, é doloroso, né? Chega a ser fisicamente ruim.

MMMaurício Meirelles

Eu paguei um curso de meditação, olha, eu falei: mano, eu tô pagando para ficar quieto?

MNMaria Nogueira

Que porra é essa? Funciona para mim, você De falar a verdade, eu medito, eu fico ansiosa porque eu sinto que eu não tô meditando perfeitamente.

MMMaurício Meirelles

Eu medito na velocidade 2.

MNMaria Nogueira

Eu sou muito ruim disso, que merda! E aí eu não quero fazer, eu fico ansiosa e levanto.

MMMaurício Meirelles

Cara, sabe por que que eu parei de meditar? Essa história maravilhosa. Eu tava fazendo aquela meditação guiada. Você já parou? Não, não parei de fazer a meditação guiada.

MNMaria Nogueira

Semana passada parou?

MMMaurício Meirelles

Não, eu parei de fazer meditação guiada. Eu fazia meditação guiada, que era o seguinte: eu botava um fone e ficava uma pessoa falando comigo. Aí ela fica lá: não, agora respira, inspira. Aí eu ficava pensando na pessoa, eu ficava e não meditava. E aí teve uma vez que eu tava em casa, cara, e ela falava: inspira. Aí eu inspirava. Inspira.

MNMaria Nogueira

Aí eu inspirava.

MMMaurício Meirelles

Aí ela falou: inspira, expira. Aí do expira para o inspira acabou a Aí eu esperei dormir, perdi o compromisso. Aí eu falei: não dá para fazer essa porra, velho. Aí eu mudei para uma que eu fico criando um negócio aqui, que é tipo um mantra para ficar. Eu durmo fácil, meditação para mim é um momento que eu falo: vou dormir, caralho, me perdi. Eu me perco, eu tô errado.

?Voz E

Eu falei lá na viagem, deve ser um inferno a cabeça.

MMMaurício Meirelles

O quê?

?Voz E

A gente não conversou disso aí, da cabeça que não para nunca.

MMMaurício Meirelles

Mas por isso que a meditação ela é boa, porque vou falar uma meditação que eu aprendi, que é uma coisa que você põe um mantra que você fica meio que nele, repetindo, você fica nele para você não ficar pensando em outras coisas. Porque se você começa a pensar em outras coisas, de repente você tá, sei lá, pensando merda e não sabendo lidar. Porque existem várias formas de meditação. Essa para mim não funcionou, a guiada, que talvez não funcione para você.

MNMaria Nogueira

A minha é a do silêncio total e vejo seus pensamentos como uma nuvenzinha. Eu fiz ela também, passando aquilo ali me dava uma ansiedade monstra. "Quanto as nuvens tem na minha cabeça?" Porque era assim, ó, ficava olhando.

MMMaurício Meirelles

Eu já tive essa também da nuvem, eu ficava assim.

MNMaria Nogueira

Não funciona pra mim.

MMMaurício Meirelles

Não, esquece o pensamento. Como esquecer o pensamento? Estou devendo pro Master. Eu ficava pensando. Aí entrava no Vorcaro, na festa do Vorcaro, no Coldplay, começava, ficava pior, voltava pior da meditação. Fiquei puto agora porque eu fiz, vou pensar no mar. Eu ficava na loucura.

MNMaria Nogueira

Perfeito, eu preciso de algo que direcione a minha atenção que não seja a minha que não seja criação minha. E aí o mantra vem muito nesse espaço.

MMMaurício Meirelles

Você tá presa na sua mente?

MNMaria Nogueira

Eu amo estar na minha mente. Eu acho que a minha mente é um lugar muito confortável de ficar, de verdade. Ela é agitada e ela tem todos os aspectos. Eu vi uma pessoa falando disso, aquela Eileen Gu, que ganhou a Olimpíada de esqui.

MMMaurício Meirelles

Não sei quem é, mas ela é perfeita.

MNMaria Nogueira

E ela tem uma mentalidade assim maravilhosa, e ela deu uma entrevista onde ela fala uma coisa muito parecida com como eu me sinto. Ela fala: eu penso muito, eu sou uma pessoa extremamente introspectiva, eu passo muito tempo dentro da minha cabeça, mas de um jeito cientista, não de um jeito "ah, estou sofrendo presa na minha cabeça", não, é um jeito tipo "ah, que interessante esse padrão, o que eu posso fazer, será, para mudar isso aqui?" Olha que interessante a forma que eu reajo a essa situação, Então, pô, por que será que eu reagi dessa forma?

Assim, tava— o que que eu posso dar um exemplo que não é comprometedor? Porque volta e meia eu falo das minhas amigas e elas vêm me falar: pô, eu sei que você tá falando de mim no seu Instagram, caramba! Eu falo: tem que ter toda uma DR. Mas volta e meia eu me deparo com uma situação de, por exemplo, sentir ciúme de uma amiga minha. Eu não sou uma pessoa muito ciumenta, mas eu— e o André ri. Mas eu senti um pouquinho de ciúmes de uma amiga minha que eu apresentei ela para outra amiga minha e elas viraram amigas. Aí, sabe quando dá aquela pontadinha, tipo, vocês são amigas por causa de mim?

MMMaurício Meirelles

Eu preciso ganhar 10% dessa amizade. Você fez a negociação.

MNMaria Nogueira

Cadê o meu?

MMMaurício Meirelles

Cadê o meu?

MNMaria Nogueira

Exato. Só que eu fiquei feliz e aí depois eu senti um pouquinho de ciúmes. A minha reação inicial não foi: nossa, eu sou uma pessoa horrível, olha, eu tô sentindo ciúmes de uma amiga minha que que eu fiz questão de apresentar porque elas se dariam muito bem. Eu fiz: "Nossa, que interessante, eu senti ciúmes disso. Por que será? O que será que isso me lembra? Por que surgiu esse sentimento em vez de só felicidade?" Sabe? Meio cientista, meio posso, você pode, você tem disciplina, você tem capacidade para fazer isso.

MMMaurício Meirelles

Você vai falar: "Por que eu gosto de água?" Não fica o tempo todo...

MNMaria Nogueira

Não, porque aí tem coisas... Porque tem explicação, né? A gente gosta de água...

MMMaurício Meirelles

Não, não, sim, sim, eu digo assim, mas assim, tudo não vira uma grande... Não, não, é coisas pontuais. Você fala coisas pontuais, senão você fica maluco. É, não existe. Quer dizer, é quase como assim, pô, é porque que eu tô tendo um sentimento ruim?

MNMaria Nogueira

Geralmente, ou tipo, ah, por que que eu tô tão inquieta hoje? Em vez de, nossa, eu tô muito inquieta, e alimenta aquilo e vai fazer um milhão de coisas. Nossa, por que que eu tô tão inquieta hoje? Será que eu, será que tem alguma coisa que eu possa desacelerar?

MMMaurício Meirelles

Sabe o que que me salvou? Vou falar uma coisa que me ajudou muito, eu vou trazer sobre ansiedade. Eu sou uma pessoa muito ansiosa, cada vez mais, né, igual te falei. E o dia que eu vi meu filho ansioso— e essa é a grande vantagem de você ter filho, porque quando você tem filho você precisa consertar em você características para você melhorar o teu filho. Porque eu não quero que o meu filho sofra o que eu sofro. Ele vai sofrer de outras coisas, mas não do que eu sofro, porque eu não quero que ele olhe para mim e fale: eu vou fazer igual o papai faz, né.

Então eu comecei a tentar consertar minha ansiedade para o meu filho, até entender a ansiedade dele. E aí eu cheguei a uma conclusão que eu falei: cara, 100% das coisas que eu penso catastrofizadas lá na frente é quase como eu projetar o meu presente num futuro que não vai ser. Então a gente pensa assim: nossa, vou dar um exemplo merda, assim, comprar terreno para em Santa Catarina, porque lá onde tá bombando, sei lá, dando exemplo merda.

"Essa é a minha visão de 2026, porque pode ser que daqui a 10 anos Santa Catarina, sei lá eu, tenha um terremoto e esse terreno que eu comprei já não faz sentido lá daqui a 10 anos." Então você sempre fica pensando quase como se fosse uma versão do teu presente daqui pra frente, só que daqui pra frente não vai ser exatamente a mesma coisa que tá sendo agora. Tanto que de 10 anos pra trás pra agora, a quantidade de coisas que teve, que se você tivesse feito um planejamento prévio, muito óbvio, ele não seria 100% fidedigno.

Obviamente, se planejar é importante, mas você viver em função de um planejamento de daqui a 10 anos, você vai bugar a cabeça porque ele não vai acontecer, você não consegue controlar. Aí eu fui mais para o estoicismo: não tem como eu controlar o meu daqui a 20 anos, não faço ideia o que vai acontecer.

MNMaria Nogueira

Não tem todas as variáveis, tem uma prévia de 10%, não de 100%.

MMMaurício Meirelles

Eu acho que causa mais ansiedade, foi o que eu cheguei à conclusão, É você tentar ter controle sobre o futuro. Você não vai ter, porque você não sabe. O Irã pode atacar o Brasil daqui a 6 anos, a gente não sabe. E você fez todo um planejamento que vai te deixar muito frustrado. Isso me facilitou. Então eu começo a tratar meu filho como se fosse: filho, a gente não sabe o que vai ser o dia de amanhã, relaxa. E isso fez ele tentar entrar um pouco no presente, mas é muito difícil mesmo.

MNMaria Nogueira

É aquilo de faz o melhor que você tem com as ferramentas e as informações que você tem agora. Então você só consegue decidir agora. Agora? Você não consegue decidir por você daqui a 5 anos, então não tem pra quê pensar nisso.

MMMaurício Meirelles

Por isso que o sofrimento ele é eterno, porque você sempre vai criar algum subterfúgio, sempre tem, sempre tem de onde você tirar um sofrimento, sempre. Você acha que neurotípicos sofrem menos do que neurodivergentes ou?

MNMaria Nogueira

Acho que eles têm menos consciência do próprio sofrimento, logo não sofrem tanto.

?Voz E

É, calma aí, mano, você não vai diminuir meu sofrimento assim não.

MMMaurício Meirelles

Tô sendo eurodiversificado.

MNMaria Nogueira

A gente não pode invalidar, alguém vai comentar que a gente tá invalidando.

?Voz E

Eu não sei.

MMMaurício Meirelles

Então você não sabe.

?Voz E

Eu não sei.

MMMaurício Meirelles

É, mas eu acho que—

MNMaria Nogueira

eu não acho que ele sofre menos, eu acho que sofre diferente. Diferente, é.

MMMaurício Meirelles

Acho que a intensidade é diferente. Seu sofrimento é diferente do sofrimento de uma pessoa que tem autista, porque autista O autista, ele tem muita sensibilidade no lugar onde talvez o neurotípico não chega, mas o neurotípico tem questões pontuais, até porque a vida é feita mais para o neurotípico, então óbvio tem mais frustrações diárias, né? O cara quer, pô, quero ter um carro, sei lá eu, o cara não tem, ele fica puto. O outro não tá pensando no carro, o outro tá pensando qual o papel dele no legado da sociedade, sei lá eu. Ou eu falei uma besteira?

MNMaria Nogueira

É porque eu acho que tem dessas pessoas nos dois. Se eu vou pegar um autista que tem hiperfoco em carro, ele vai ter sofrimento, entendeu? Tipo, ah, não posso ter e quero muito ter.

MMMaurício Meirelles

Até porque o sofrimento, ele já é uma coisa que está estudada há muito tempo antes de existir Laudos.

MNMaria Nogueira

É, ele é humano, ele é parte da experiência humana.

MMMaurício Meirelles

Então é isso, gente, você vai sofrer a vida inteira. Você que clicou nesse vídeo achando assim, nossa, vou responder as minhas questões e a partir de amanhã eu vou estar feliz, deixa eu te contar um eu posso. Não vai, porque você vai sofrer a vida inteira.

?Voz E

O sofrimento gera obras belíssimas.

MMMaurício Meirelles

É isso que eu ia falar.

MNMaria Nogueira

Isso aí, só que ele não precisa ser algo catastrófico.

MMMaurício Meirelles

Exato, esse é o ponto, é você saber lidar com o problema. É você não saber lidar com o problema. Falei bem? Falou ótimo, porque eu acho que o problema é esse. Problemas terão, você precisa saber reagir a eles. Se você não sabe reagir, aí temos que é o problema.

MNMaria Nogueira

Perfeito. Entender o que você pode controlar de fato e o que tá fora do seu controle. Que você pode controlar de fato vai ser meio por cento, vai ser nenhum por cento.

MMMaurício Meirelles

Então é isso, gente, autoconhecimento. Entenda por que que você tem um problema, descubra por que que você tem um problema, resolva internamente os seus problemas. E não necessariamente tudo precisa ser ir para cá, para o caminho da da, dos laudos ou não laudos e terapias e não terapias, né? Até porque você fez, você até falou sobre isso, né? Você falou de você não é muito favorável a todo mundo fazer terapia.

MNMaria Nogueira

Não, tem pessoas que nem todo mundo precisa em todo momento da vida, que falam que a terapia é tipo assim, você entra e você fica eternamente, e todo mundo precisa fazer exatamente isso, entrar e ficar eternamente. Eu acho que isso banaliza muito o que é a terapia. Terapia é um processo momento, é um processo desconfortável de olhar para si, de olhar para os seus relacionamentos com os outros e consigo mesmo e trabalhar para melhorar isso e para entender e elaborar isso.

Quando você fala: "Ah, todo mundo tem que fazer terapia o tempo todo", primeiro que a pessoa que precisa mesmo provavelmente vai deixar de buscar porque fala: "Ah, é só mais um lugar para desabafar, então eu vou desabafar com os meus amigos". E a outra é que vira uma coisa estética, né, tipo fala assim: "Ah, eu faço terapia, eu sou mais evoluído do que você." E o trabalho que é fazer terapia vai sendo diminuído e a pessoa vai lá só para, só para ouvir.

MMMaurício Meirelles

Tem pessoas que precisam pontualmente, né?

MNMaria Nogueira

Eu acredito que em algum momento vai ser uma ferramenta útil para todo mundo. Em algum momento da vida poderia ser uma ferramenta útil. Necessariamente vai ser a ferramenta que você escolhe? Não. Eu acredito que a melhor Precisamos, sim. Mas ela é vitalícia? Não. Ela faz sentido para todo mundo em todos os momentos? Não. Só isso.

MMMaurício Meirelles

Perfeito. Ó, adorei esse papo, quero trazer mais vezes.

?Voz E

Vamos, vamos.

MMMaurício Meirelles

Sabe o que eu queria, pô, de verdade, um dia trazê-la, a gente começar a falar assim o que que são coisas, a gente discutir o que que é felicidade, que que é neuro, sair do coisa técnica e para sentir sofrimentos. Eu quero trazer ela para a gente bater mais ansioso ainda. Não, pelo contrário, mais esclarecido.

MNMaria Nogueira

Perfeito.

MMMaurício Meirelles

Então um papo só sobre o que que é sofrimento. Imagina a gente batendo papo aqui, que é legal. Ela e mais pessoas, a gente podia fazer uma coisa legal. E eu quero muito trazer visões de psicólogos diferentes, diferentes. Isso vai ser legal, tudo para o caminho da saúde mental. É isso, respeita.

?Voz E

Eu respeito.

MMMaurício Meirelles

Gente, você gostou desse vídeo?

?Voz F

Eu respeito.

MMMaurício Meirelles

Deixa o like, comenta, até pra gente saber se o trabalho tá sendo bem feito. Lembrando, esse projeto chama-se Axismos. A ideia é juntar informação com vivências e assim a gente criar esse tipo de conteúdo. Se você gostou, deixa like. Na descrição do vídeo tem todas as informações informações da doutora. Chama de doutora?

MNMaria Nogueira

Não, ainda não.

MMMaurício Meirelles

Eu chamo de quê?

MNMaria Nogueira

Maria, Maria.

MMMaurício Meirelles

Ainda não podia estar lá, sei lá, a PhD, sei lá.

MNMaria Nogueira

A mesma coisa. Não, pode chamar de Maria.

MMMaurício Meirelles

Fala assim: não é doutora, cancela o vídeo. Tem gente que é assim. É coronel. Tem uma galera meio chata. Tá aqui embaixo as informações do Coronel Maria.

?Voz E

A patente dela é essa, a patente.

MMMaurício Meirelles

Você clica, obviamente você vai ter mais detalhes, mais informações sobre o que ela fala, né? Lembrando da competência e da especialização dela. Enfim, obrigado, sejam gentis uns com os outros e se cuidem.

MNMaria Nogueira

Tchau, tchau!

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