Especial de Dia das Mães reúne literatura, poesia e reflexões sobre maternidade
O programa Autores e Livros, da Rádio Senado, apresenta nesta semana uma edição especial dedicada ao Dia das Mães, reunindo entrevistas, dicas de leitura, poesia e reflexões sobre os diferentes sentidos da maternidade. Sob o comando de Anderson Mendanha, o programa traz obras que abordam afeto, memória, saúde da mulher, sobrecarga materna e vínculos familiares.
O destaque da edição é a entrevista com a escritora Flávia Camargo sobre o livro “Enquanto vocês crescem”, uma obra sensível que fala sobre os desafios e aprendizados da maternidade. Em um relato emocionante, a autora reflete sobre como mães e filhos crescem juntos ao longo da vida, em meio às imperfeições, descobertas e experiências do amor cotidiano.
A edição também traz uma seleção especial de dicas de leitura. Entre os destaques estão “A Nova Menopausa”, de Mary Claire Haver, lançamento da Intrínseca; “Assistida”, de Sabrina Alvernaz; “Maternidade sem Apuros”, de Renata Veras, publicado pela Mundo Cristão; e o infantil “Um Amor Infinito”, de Alessandra Pezarine, com ilustrações de Bruna Assis Brasil, lançado pela VR Editora.
Outro tema importante do programa é a divisão desigual do cuidado com os filhos. O livro O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna, de Laura Elisa Nascimento Vieira e Cláudio Márcio do Carmo, publicado pela Editora Appris, serve de base para uma reflexão sobre a dupla jornada feminina e os mecanismos sociais e jurídicos que reforçam a responsabilização das mulheres pela criação dos filhos.
A poesia também marca presença no quadro Entrelinhas com o livro Na proa do trovão, de Maurício Rosa, publicado pela editora Laranja Original. A obra transforma memória familiar em poesia ao reconstruir, com delicadeza e intensidade, a figura do avô materno que o autor nunca conheceu. O programa apresenta ainda uma homenagem às mães com versos do poema As Três Letras de Mãe, de Bráulio Bessa.
Anderson Mendanha
Ana Beatriz Santos
Braulio Bessa
Flávia Camargo
Hermes Coelho
Laura Elisa Nascimento Vieira
Maurício Rosa
- Poesia e memória familiarNa Proa do Trovão · Fabulação da história do avô materno · Autoficção poética
- Menopausa e perimenopausaA nova menopausa · Saúde da mulher na meia-idade
- Reprodução assistida e infertilidadeAssistida · Infertilidade e fertilização in vitro · Luto gestacional
- Homenagem às mãesAs Três Letras de Mãe · Amor e ternura materna
Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário. Olá pessoal, começa agora mais um Autores e Livros, que traz um programa especial dedicado ao Dia das Mães. Sou Anderson Mendanha e vamos juntos! Entrevista Entrevista
E a gente conversa aqui agora no Autores e Livros com a Flávia Camargo, autora de Enquanto Vocês Crescem, Cartas de Amor à Vida Real da Maternidade. Um livro com uma capa muito bonita que traz as cartas de amor de uma mãe e a gente vai falar aqui com ela aqui agora no Autores e Livros. Flávia, seja muito bem-vinda ao programa. Muito obrigada pelo convite.
Flávia, esse livro reúne aqui cartas escritas ao longo de 10 anos para os seus filhos, traz uma narrativa sensível, uma narrativa honesta, e como eu disse ali, você fala sobre maternidade real, mas você fala também de lutos, recomeços, aprendizados. Então, conta para a gente como é que surgiu a ideia de transformar a sua vida, transformar cartas íntimas escritas para os seus filhos, num livro compartilhado com todo mundo.
Pois é, primeiro eu só tinha mesmo a ideia de fazer essas cartas para ficar na nossa família. A ideia de fazer um livro com esse material veio bem depois, quase mesmo já chegando nesse marco de 10 anos. E quando eu comecei a escrever, eu ainda não sabia exatamente o que ia ter nessas cartas. Eu só sabia que eu queria deixar para os meus filhos um registro da história deles, para que eles estivessem...
Porque uma coisa é eu contar, mas aí depois de muito tempo eu vou ter esquecido. E com as cartas eu vou estar falando ali na hora que está acontecendo. Então para eles saberem como é que foi para mim essa sensação da mulher engravidar pela primeira vez. Já é algo bem marcante, mas as outras gestações também são momentos únicos. Cada filho desperta sentimentos novos porque são situações e fases da vida diferentes. E depois que eles nascem.
como que a gente tem que aprender quem é aquela criança, se adaptar a ela, oferecer o que ela precisa, observar como ela está se desenvolvendo. Então esse era o meu objetivo. E à medida que as coisas foram acontecendo, eu percebi que tudo isso também, não só os fatos em si, mas havia reflexões.
em torno disso, que também era interessante de deixar registrado. Acabava também botando muita coisa filosófica do que eu estava enxergando sobre o mundo, sobre a existência, questões espirituais e, enfim, muitos assuntos junto com o livro. E aí, quando já estava...
já com nove anos e eu escrevendo outros livros, que eu sou escritora já há 15 anos, então as pessoas meio que já me enxergam dessa forma. A Flávia é escritora, eu não sou só escritora, mas como eu já escrevi oito livros, então as pessoas já me associam a essa imagem. E aí, num livro que eu estava lançando, que era infantil, todo mundo achou que era um livro sobre maternidade.
E aí eu pensei, ah, então se eu fizer um livro sobre maternidade, as pessoas vão querer, vão se interessar. E aí eu percebi que as minhas cartas podiam virar esse livro. Estava dividindo só com a família, com os parentes mais próximos e quem lia. Gostava muito porque percebia que tudo que eu falava seriam coisas que aquelas pessoas também poderiam falar.
das suas experiências. Bom, então, todos os outros leitores que não me conhecem também vão achar interessante. E aí eu resolvi publicar para que quem quiser possa se emocionar também com a gente. Você mexeu muito nas cartas originais para publicação? Muito pouco, quase nada. A maioria eu vi realmente que eu estava escrevendo de uma maneira neutra.
E o que não era neutro, que é bem específico de cada criança, um gosto particular, uma característica só dela, se não depreciava a criança, se não comprometia, quando ela crescer alguém vai rotular, vai dizer, você faz isso, coisas que eu acho que são bem comuns mesmo. Eu deixei, não prejudicava nesse sentido, e até acho que...
ajuda, estimula que os pais reflitam. Bom, meu filho não tem esse gosto, apesar do meu filho gostava de arrastar cadeira de restaurante. Mas às vezes o filho de outra pessoa fazia uma coisa bem diferente, assim, mas desse tipo, e a pessoa vai poder resgatar uma memória que talvez ela já tivesse deixado para trás. Então eu também achei que valia com esse objetivo. E quais foram os temas mais complicados para você trabalhar nas cartas?
Bom, o luto, né, porque o meu primeiro filho faleceu pouco depois de nascer, então esse luto, esse assunto é delicado, é complicado, mas eu já tinha até escrito um livro só para esse filho, porque eu nem sabia se eu ia ter outros filhos depois desse, então quando eu perdi o Igor, eu fiz um livro para ele, então já estava assim, e foi um livro muito bem aceito, as pessoas até hoje é o meu livro mais vendido.
Então eu pensei, vou colocar nesse livro também, porque como agora eu estou fazendo um livro sobre todos os filhos, esse não pode ficar de fora. Então as cartas dele estão junto com os irmãos, é um assunto que é difícil, mas eu aprendi a me acostumar com a ideia de que as pessoas podem ver a minha fragilidade, porque eu tenho uma ideia de que todos nós.
Somos pessoas que sofrem. Então, eu tenho trabalhado se mim e não tem problema. Em mostrar, até porque eu acho que isso aproxima, e eu sou bastante procurada por outras pessoas que sentem falta de alguém para se abrir, para se mostrar dessa maneira, precisando de acolhimento, e sabem que em mim elas encontram isso. E depois, os filhos que...
que não faleceram, enfim, que estão vivos, eles vão passando por aquelas idades que todo mundo conhece, que aí a criança nem sempre obedece, nem sempre está calminha. E esses momentos também que a gente precisa administrar os conflitos, ter a paciência de acalmar uma criança que está nervosa, isso tudo requer da gente um equilíbrio.
que tem momentos que a gente consegue, outros momentos que a gente não consegue. E eu até coloquei no livro, se eu tiver uma maneira honesta, falando para ele, muitas pessoas às vezes de fora presenciam essas cenas e me cobram uma postura mais dura. E eu tenho as minhas experiências em que ninguém estava olhando, em que eu me descontrolei e naquelas que eu consegui...
Me manter serena. E o resultado foi muito melhor quando eu estive serena. Coisa passou mais rápido. Então eu tenho pra mim, sempre que eu consigo, eu vou tentar isso por esse caminho. E às vezes eu sou criticada. Então eu coloco às vezes nas cartas isso. Porque quem tá olhando de fora, tá achando que a criança é assim, porque eu faço a mão na cabeça. Só que eu já testei que às vezes que eu não consegui contornar, puxar a criança pra minha calma.
A coisa rendeu, foi mais difícil, então eu também falo bastante sobre esse assunto nas cartas.
E uma das coisas mais bonitas do livro é a sinceridade. Porque você fala com sensibilidade, com carinho, com amor, mas você se mostra ali nas cartas, na hora que você escreve para cada um dos filhos. Mostra as fragilidades, mostra o dia a dia, mostra a rotina, os pequenos gestos. Então, o que eu mais gostei, e aí eu queria que você falasse um pouquinho mais, é desse cotidiano.
Você falou que você escrevia as cartas à medida que ia acontecendo, e aí você fala um pouquinho mais desse seu cotidiano com os seus filhos e a lembrança do Igor. Esse dia a dia, de acordar, dormir, tomar banho, comer, são momentos que a maior parte deles são feitos disso. Então, se a gente ficar procurando só quando a gente viajou, quando a gente fez...
alguma coisa rara, diferente, a gente vai perder os melhores momentos. Então eu aprendi a me emocionar em muitos momentos assim que eu chegava no banheiro e tinha uma boneca dentro do boxe. E aquilo me lembrava que eu tenho uma menina em casa que por muito tempo eu sonhei com esse dia e não sabia se ele ia chegar.
E depois que acontece, aquilo vai se naturalizando no nosso caminho, é muito fácil a gente focar no que falta e esquecer no que já tem. Quando eu vejo nossos sapatos enfileirados perto da porta de sair para a rua, eu acho aquilo tão bonito porque eles representam as pessoas que são os donos daqueles sapatos e me mostram, olha, a gente mora junto.
A gente divide os dias. Às vezes eu vou almoçar, vou almoçar depois de todo mundo. Todo mundo já comeu, aí eu vou sentar para comer e alguém esquecer um cachorrinho em cima da mesa. Aquilo também me enche de ternura. Eu vejo o quanto a vida tem dentro da nossa casa. São coisas assim que eu acho que é legal a gente chamar atenção. Porque muitas vezes eu vejo meus filhos...
fazendo uma refeição, um almoço, um jantar, e estou assim explodindo de alegria, porque eu lembro que eu consigo botar comida na mesa. E eu me sinto tão grata, porque a gente tem geladeira, a gente tem micro-ondas, e eu lembro das pessoas que não têm isso. Não só hoje, como no passado não existiam essas coisas. Eu procuro passar isso para eles, porque não é um pensamento que fica na nossa cabeça o tempo todo.
E até botar no livro isso, eu acho que ajuda todas as pessoas também a fazerem esse movimento de reflexão. E sobre o Igor, ele é muito presente na nossa vida. A gente menciona o nome dele com frequência, no aniversário dele a gente fala dele.
Os filhos estão acostumados, assim, no lugar onde tem os porta-retratos das pessoas da família. Ele está no meio dos outros bebês. Eu tenho uma foto de cada filho quando nasceu. Então, assim, é num lugar onde todo mundo vê o tempo todo. E eu acho isso muito bom porque mostra a nossa família inteira. Meus filhos aprenderam a...
conhecer um irmão e permitir que a sua lembrança não seja aquela coisa que traz constrangimento, que traz tristeza, a gente já está tão acostumado que é uma coisa natural mesmo. Para a gente encerrar, Flávia, onde é que a gente encontra o teu livro e onde é que a gente te encontra também nas redes sociais?
Meu livro está na Amazon, na rede social. Eu sou Flávia Camargo, escritora. Flávia, muito obrigado por você participar aqui do Autores de Livros e parabéns pelo teu livro e até uma próxima oportunidade. Obrigada, fico muito feliz. Um abraço. Vamos agora a algumas dicas de leitura da Ana Beatriz Santos para o Dia das Mães.
Oi, pessoal, sou Ana Beatriz Santos e em maio a gente celebra as mães. E nesta dica de leitura apresento sugestões para contemplar os diferentes tipos de mulheres que compõem o maternar. Seja para você ou para demonstrar o seu amor e gratidão como presente criativo para as mamães da sua vida, essas obras merecem entrar na sua lista. Vamos lá?
A primeira dica é para quem deseja viver a meia-idade com saúde e energia. A nova menopausa da editora intrínseca de Mary Claire Haver. Especialista em saúde da mulher, a médica americana defende que a menopausa é inevitável.
Mas sofrer com ela não é. Com informações baseadas na ciência e em suas experiências, a doutora Mary Clare mostra como lidar com as transformações que acompanham o período, o que fazer para prevenir os riscos associados à queda natural da produção de estrogênio no corpo e apresenta as pesquisas mais recentes sobre os benefícios e efeitos colaterais da terapia de reposição hormonal. Uma leitura essencial para a nova meia-idade.
A trajetória das mulheres que encaram o desafio da reprodução assistida para realizar o desejo de ser mãe é o tema da segunda dica. O livro Assistida, de Sabrina Alvernaz, com edição da própria autora, é um relato corajoso sobre infertilidade e fertilização in vitro.
Sabrina quebra o silêncio sobre a pressão social de ser mãe a qualquer custo e fala abertamente sobre o luto gestacional e a saúde do corpo feminino. Uma leitura potente para entender as maternidades que ainda estão sendo gestadas no coração.
Apesar de nove entre dez mães brasileiras relatarem que enfrentam algum nível de exaustão, muita gente ainda idealiza a maternidade, almejando um desempenho impecável na vida profissional, na educação dos filhos e até mesmo no cuidado com o corpo e com a saúde mental. E a nossa terceira dica convida a mulher a se desligar deste padrão.
O livro Maternidade Sem Apuros, da psicopedagoga Renata Veras, é um abraço em forma de páginas. A autora conversa diretamente com essa mulher sobrecarregada e oferece uma solução libertadora, abrir mão da ideia de autossuficiência e acolher a própria vulnerabilidade. O lançamento é da editora Mundo Cristão.
E a nossa última dica é uma obra para unir crianças e adultos em uma leitura para formar vínculos e criar lindas memórias. Um Amor Infinito, de Alessandra Pesarini, com ilustrações de Bruna Assis Brasil, é um lançamento da VR Editora. A protagonista é uma garotinha que ainda está na fase de aprendizado sobre algarismos na escola.
mas já entende o valor deles para mensurar o que sente. Então, certo dia, ela diz à mamãe que a ama dez vezes mais. Mas a matriarca responde, eu te amo cem vezes mais. Dando início a essa jornada divertida de estimular a pequena a questionar, imaginar e encontrar numerais cada vez maiores para expressar esse grande sentimento.
E é, mencionando esse amor infinito que é o amor de mãe, que a gente encerra essa dica de leitura de hoje. As quatro obras estão disponíveis nos sites das editoras e nas principais plataformas de livros da internet. Boa leitura e até a próxima!
O cuidado com os filhos ainda recai quase sempre sobre as mães, e isso está longe de ser apenas uma escolha familiar. No livro O Filha da Mãe, Paranitalidade e Sobrecarga Materna, Laura Elisa Nascimento Vieira e Cláudio Márcio do Carmo investigam como a sociedade e até a legislação brasileira ajudam a reforçar essa desigualdade.
Lançada pela editora Apres, a obra propõe uma reflexão sobre a chamada dupla jornada feminina e mostra como normas jurídicas, discursos públicos e hábitos cotidianos naturalizam a ideia de que a responsabilidade pelos filhos pertence principalmente às mães. A Laura Elisa fala um pouquinho desse livro pra gente.
Laura, o título do livro já provoca reflexão, né? Afinal, por que existe essa ideia de que o filho é principalmente responsabilidade só da mãe?
Bom, vamos lá. Essa ideia persiste porque é uma construção histórica e social alimentada, retroalimentada, anos e anos, e hoje, inclusive, também, né, a gente mantém essa ideia da figura materna, né. Então, são diversos discursos articulados colocando a mulher nesse lugar, principalmente porque há uma perspectiva de um amor materno, né, uma coisa nata.
E a Elisabeth Badanter, que é uma filósofa francesa que a gente usou bastante na nossa pesquisa, ela inclusive publicou um livro em 1985 que chama-se O Amor Conquistado. Ali ela demonstra que o amor materno não é inato, ele é um sentimento humano, incerto, frágil, e variou drasticamente ao longo dos séculos. Até o século XVIII, por exemplo, a indiferença materna era comum.
As crianças eram normalmente entregues a amas de leite e isso era recorrente. Então, esse amor materno...
que pauta muito essa ideia da figura materna, ele não é inato. Mais recentemente, uma pesquisadora americana, a Conaboy, ela é jornalista e ela revelou que as mudanças cerebrais que deixam as pessoas mais aptas ao cuidado, ela acontece por as pessoas estarem expostas à atenção e ao cuidado.
a uma neuroplasticidade completamente adaptável. Então, não necessariamente é a mãe, porque ela passou por uma gestação, se for uma mãe biológica, não é essa mãe que passou por essa gestação que vai estar necessariamente adaptada. Então, isso é uma capacidade que o ser humano desenvolve a partir do cuidado. Então, realmente, essa ideia de que o filho da mãe é construída historicamente, socialmente, reforçada.
nos nossos gestos, nos nossos atos, nos nossos discursos no dia a dia. Inclusive nas leis, né? Inclusive, em especial, na lei que a gente analisou, e isso fica bastante demonstrado.
Essa foi parte da entrevista com Laura Elisa Nascimento Vieira sobre o livro O Filho da Mãe, Parentalidade e Sobrecarga Materna. A entrevista completa você ouve no nosso podcast o Autores e Livros Dose Extra, disponível nas principais plataformas e no site da Rádio Senado. E você encontra esse livro nas livrarias, no site da Editora Apres e também nos portais de livros da internet. E chegou a hora da poesia.
Entre Linhas, poesia em voz alta.
E chegou a hora de mais um Entrelinhas aqui com Hermes Coelho. Hermes, o que você trouxe para a gente hoje? Eu trouxe o livro Na Proa do Trovão, do poeta Maurício Rosa. Esse livro é muito interessante porque ele faz uma fabulação da história da vida do avô materno dele, que ele nunca conheceu. Então ele pega as memórias que foram contadas para ele e transforma em poesia. É muito bonito.
É quase uma autoficção, só que em vez de ser a biografia do autor, biografia do avô. Isso, exatamente. E essa biografia, ele deixa claro que ele se identifica muito com esse avô que ele nunca conheceu. Não só fisicamente, mas em traços de personalidade também. É muito bonito o livro.
Vamos para o primeiro poema? Vamos, é o poema que abre o livro, se chama Fascinação. Em algum lugar do Rio de Janeiro, enquanto no Palácio do Catete, o rei da Bélgica experimentava os licores do progresso carioca, uma mulher contorcia-se no escuro. Era na pequena África, era na Gamboa, era na saúde, era na Pedra do Sal, era no Morro da Providência, talvez.
Sagrada como a casa de Tia Ciata, a barriga de minha bisavó despedia-se daquele filho ilegítimo e tardio da abolição. Luz que poderia dar além daquela não havia. Por isso, decidiu morrer por ali mesmo, na penumbra de Paris sozinha. Entre as suas pernas, contudo, o menino vivo.
Nome dado de véspera, Armando. Pai de minha mãe, pai de minhas tias e de meus tios. Agora aqui comigo, apenas um bebê. Calo seu choro com canções que ele ainda conhecerá. Limpo seu rosto cujos traços um dia herdarei. Invento para ele uma outra sua história. Nino, meu avô. E que esse poema seja o seu berço. E que esse livro seja sua biografia incompleta.
Eu achei esse livro muito interessante pelo fato de que às vezes quando vamos contar histórias de alguém da família, uma biografia, mesmo que você tenha que preencher as lacunas com ficção, você vai para a prosa.
E ele resolveu escolher a poesia, e uma poesia forte, para contar a história desse avô, né? Eu acho fantástica a ideia dele, de fazer essa fabulação, nessa reinvenção da história do avô, por meio dessa autoficção poética. Porque ele chama a gente para participar.
A poesia tem essa capacidade, a poesia tem sempre esse mistério de permitir que a gente complete o que parece faltar nos versos. Então, a experiência se torna mais rica. E é um livro gostoso de ler, porque você vai acompanhando uma história. Exatamente. Ele começa com o nascimento do avô e chega até a morte do avô, a despedida, passando pelos amores, passando pelo momento que ele conhece a avó materna também, os filhos, a maneira que ele criou os filhos. É uma experiência linda.
Qual é o segundo poema? Esse aqui é o poema em que o avô Armando conhece a avó materna e tem um encontro amoroso com ela. Se chama Nuvem Passageira. Nuvem adquirindo várias formas, movível, errática, mas presente.
uma cordilheira ou um parque industrial, uma praia e sua borda, ou uma chaleira com fumaça e tudo. Porém, nuvem caída sobre ela é vestido de noiva, Armando olhando mais de perto. Nuvem se tornando mãe, nuvem convertida em cozinheira, nuvem parecida com água lavando a fralda dos pequenos, nuvem de levar para a cama.
Nuvem moldada pelo vento e no formato exato. Dois olhos tenazes, anca multifacetada, mãos de embalar, bater pernas de seguir e só retroceder para botar ombro a ombro seu homem de pé.
Uma trajetória bonita do autor, que começou muito cedo na literatura, na poesia, participou de várias antologias, publicações em revistas, participou de prêmios, e aí vem construindo uma poesia consistente.
Uma poesia consistente e reconhecida. Esse livro é prefaciado pela Lilian Sais, que é uma grande poeta, uma grande escritora contemporânea brasileira, geralmente semifinalista e finalista dos grandes prêmios que a gente tem em língua portuguesa.
É uma chancela da qualidade do trabalho do Maurício. E realmente, ele resgatar esse avô materno, um homem negro. No primeiro poema a gente tem isso, mas é bom deixar claro aqui na nossa conversa. Um homem negro com pouca alfabetização. Ele resgatar essa história, valorizar as raízes dele por meio da sofisticação dos versos. É uma experiência riquíssima. Tem mais poema? Tem mais um para terminar. Vamos falar dos filhos.
Filhos em pé, barbados, autorizados a ir ao cinema ou a tocar bateria no baile da jovem guarda. Filhas restritas, domésticas, confinadas à cozinha ou arrematando bainhas na máquina de costura. Comum a todos o direito de fumar, tomar frutado vinho de garrafão e abandonar a escola.
Na Proa do Trovão, Maurício Rosa, publicado pela editora... Laranja Original. Só pesquisar na internet que você encontra a melhor forma de comprar esse livro, que vale a pena. É preciosíssimo. Valeu, então, Hermes. Até a próxima. Um abraço, meu amigo. Até a próxima, Anderson.
Antes de encerrar o programa, quero deixar minha homenagem a todas as mães com um trecho do poema de Braulio Bessa, As Três Letras de Mãe. Ela tem o poder de carregar toneladas de amor e de ternura, uma infinidade de bravura e uma luz que jamais vai se apagar, pois seu brilho é capaz de iluminar o caminho que vamos percorrer. Se arrisca para poder nos proteger, não importa por onde a gente for.
Nas três letras de mãe tem tanto amor que não há quem consiga descrever. Meus parabéns, então, a todas as mães. E o Autores e Livros de hoje vai ficando por aqui. Sou Anderson Mendanha e o programa de hoje contou com produção de Ana Beatriz Santos e trabalhos técnicos de Pedro Henrique Vasconcelos. Até a semana que vem. Boa leitura!
Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.
Editora Appris
O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga maternaIntrínseca
A Nova MenopausaLaranja Original
Na proa do trovãoMundo Cristão
Maternidade sem ApurosUrutau Editora
Um Amor Infinito