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Laura Elisa Nascimento Vieira - O filho é da mãe

05 de maio de 202613min
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A sobrecarga materna, muitas vezes tratada como algo natural, é na verdade resultado de uma construção social que atravessa gerações. Esse é o ponto de partida do livro “O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna”, publicado pela editora Appris, tema da edição dessa semana do programa Autores e Livros Dose Extra, que entrevista a pesquisadora Laura Elisa Nascimento Vieira.
Na obra, Laura Elisa, em parceria com o professor Cláudio Márcio do Carmo, analisa como o discurso jurídico e práticas cotidianas contribuem para reforçar a ideia de que o cuidado com os filhos é, principalmente, responsabilidade das mulheres. A partir de uma abordagem que conecta história, linguagem e ciências sociais, o livro propõe uma reflexão crítica sobre as desigualdades nas relações parentais no Brasil.
Um dos pontos centrais da análise é a Lei 14.457/22, do programa Emprega + Mulheres. Embora criada com o objetivo de ampliar a inserção feminina no mercado de trabalho, a legislação é questionada pelos autores por direcionar medidas principalmente às mulheres, reforçando a associação entre maternidade e responsabilidade exclusiva pelo cuidado dos filhos.
O livro também chama atenção para situações do dia a dia que ajudam a sustentar essa lógica, como a presença de fraldários apenas em banheiros femininos ou o reconhecimento desproporcional de pais que participam da rotina dos filhos. Elementos simbólicos que revelam como a cultura ainda naturaliza a centralidade materna.

Participantes neste episódio4
A

Anderson Mendanha

HostApresentador
C

Cláudio Márcio do Carmo

ConvidadoProfessor
L

Laura Elisa Nascimento Vieira

ConvidadoPesquisadora
P

Pedro Henrique Vasconcelos

technical staffTécnico
Assuntos4
  • Desafios da MaternidadeConstrução social da sobrecarga · Discurso jurídico e práticas cotidianas · Lei 14.457/22 (Emprega + Mulheres) · Fraldários em banheiros femininos · Reconhecimento desproporcional de pais
  • Evolução do amorMito do amor materno · Indiferença materna histórica · Neuroplasticidade e cuidado
  • Trabalho de cuidado não remuneradoInvisibilização do trabalho de cuidado · Silvia Federici e trabalho com salário · Impacto econômico do trabalho de cuidado
  • Coletivização do cuidadoResponsabilidade compartilhada · Participação do Estado e sociedade · Diversos formatos de família
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Passamos a apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica semanal sobre o mundo literário. Olá pessoal, seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinda ao Autores e Livros Dose Extra. Sou Anderson Mendanha e hoje vamos falar de uma pesquisa que trata da sobrecarga materna.

O cuidado com os filhos ainda recai quase sempre sobre as mães, e isso está longe de ser apenas uma escolha familiar. No livro O Filho da Mãe, Parentalidade e Sobrecarga Materna, Laura Elisa Nascimento Vieira e Cláudio Márcio do Carmo investigam como a sociedade e até a legislação brasileira ajudam a reforçar essa desigualdade. Lançada pela editora APLIS, a obra propõe uma reflexão sobre a chamada dupla jornada feminina.

e mostra como normas jurídicas, discursos públicos e hábitos cotidianos naturalizam a ideia de que a responsabilidade pelos filhos pertence principalmente às mulheres. Os autores analisam, por exemplo, a Lei 14.457 de 2022, criada para estimular a empregabilidade de mulheres, mas que, segundo os autores, acaba reafirmando a maternidade como obrigação central da mulher.

em vez de tratar o cuidado como dever compartilhado entre pais, mães e responsáveis.

O livro chama atenção também para situações do dia a dia, como fraudários apenas em banheiros femininos ou elogios exagerados a pais que participam da rotina dos filhos. Pequenos gestos que revelam uma cultura ainda desigual. Mais do que uma pesquisa acadêmica, a obra é um convite ao debate público sobre parentalidade, justiça e divisão real de responsabilidades, dentro e fora de casa.

Uma leitura atual, provocadora e necessária. Muito, muito necessária. Eu conversei com a Laura Elisa sobre essa pesquisa e sobre esse livro. Seja muito bem-vindo, Laura. Muito obrigada, obrigada pelo convite. Laura, o título do livro já provoca reflexão, né? Afinal, por que existe essa ideia de que o filho é principalmente responsabilidade só da mãe?

Bom, vamos lá. Essa ideia persiste porque é uma construção histórica e social alimentada, retroalimentada, anos e anos e hoje, inclusive, também, a gente mantém essa ideia da figura materna. Então, são diversos discursos articulados colocando a mulher nesse lugar, principalmente porque há uma perspectiva de um amor materno, uma coisa nata.

E a Elisabeth Badanter, que é uma filósofa francesa que a gente usou bastante na nossa pesquisa, ela inclusive publicou um livro em 1985 que chama-se O Amor Conquistado. Ali ela demonstra que o amor materno não é inato, ele é um sentimento humano, incerto, frágil, e variou drasticamente ao longo dos séculos. Até o século XVIII, por exemplo, a indiferença materna era comum.

As crianças eram normalmente entregues a amas de leite e isso era recorrente. Então esse amor materno, que pauta muito essa ideia da figura materna, ele não é inato. Mais recentemente, uma pesquisadora americana, a Conaboy, ela é jornalista e ela revelou que as mudanças cerebrais...

que deixam as pessoas mais aptas ao cuidado, ela acontece por as pessoas estarem expostas à atenção e ao cuidado.

a uma neuroplasticidade completamente adaptável. Então, não necessariamente é a mãe, porque ela passou por uma gestação, se for uma mãe biológica, não é essa mãe que passou por essa gestação que vai estar necessariamente adaptada. Então, isso é uma capacidade que o ser humano desenvolve a partir do cuidado. Então, realmente, essa ideia de que o filho da mãe é construída historicamente, socialmente, reforçada.

nos nossos gestos, nos nossos atos, nos nossos discursos no dia a dia. Inclusive nas leis, né? Inclusive, em especial, na lei que a gente analisou, e isso fica bastante demonstrado. De que forma, então, que a legislação brasileira mostra essa, reforça essa sobrecarga materna? Em específico, a lei que a gente chama, o que se chama Programa Emprega Mais Mulheres,

que é sobre ela que a gente pode falar, né? Enfim, ela utiliza o termo parentalidade diversas vezes e de uma forma bastante contraditória. O primeiro ponto que já causa estranhamento é por que uma lei voltada à empregabilidade de mulheres ela precisa envolver parentalidade. Isso quer dizer que a maternidade é destino certo de toda mulher?

No segundo, a empregabilidade de mulheres é diretamente relacionada à parentalidade? Por quê? Será que esse termo está sendo usado no lugar de maternidade? Então parece que essa legislação específica, ela se utiliza de um termo para parecer moderno, ou atender uma demanda social, que seria a parentalidade, um termo neutro, mas está lá de maternidade, de novo. Então é por isso que ela reforça essa sobrecarga materna. Porque...

De novo, a gente está falando de maternidade com o emprego de um outro leque neutro.

Mas falando de entregabilidade de homens, a gente não fala, o filho não é assunto, né? O filho não entra nessa pauta. Então é nessa medida que essa lei em específico, ela acaba reforçando mesmo. Então ela usa o termo parentalidade para parecer com ânimo, mas na prática ela reforça que a responsabilidade primária é da mãe, mantendo o pai num papel periférico de, entre aspas, um ajudante. E isso mantém o status quo.

Isso acaba a gente vendo, refletindo na dupla jornada, né? Porque os homens, grande maioria, acaba não tendo a responsabilidade de levar de escola, de levar ao médico, de cuidar no dia a dia e acaba sobrecarregando as mulheres. Há mudanças nos últimos tempos sobre isso?

Olha, a gente vê um estado que tende a mudar, tem a gente muito lentamente, né? A gente também está falando de uma mudança estrutural social muito grande.

Então eu entendo que sim, mas eu entendo também que a gente fala, eu falo aqui, de um lugar privilegiado. Então dentro da bolha a gente vai percebendo alguns movimentos. Eu mesma fui, eu fiquei motivada a pesquisar sobre o tema, lógico, depois que eu me tornei mãe, mas na época que eu me tornei mãe o que estava muito em voga era essa maternidade real, né? Então só o fato de as pessoas estarem à vontade para expor o lado B da maternidade, expor a dificuldade,

que essa função materna implica, isso já demonstra o cômodo. Se há um incômodo, pode ser um processo legal.

Você falou também dos sinais, dos sinais presentes ali no cotidiano. Um sinal bem claro é a questão de fraudários nos banheiros masculinos. Isso tem mudado nos últimos tempos, mas não em todas as cidades e não em todos os locais. Que outros sinais, que outros símbolos marcam essa desigualdade?

A questão do fraudário é uma questão bem sensível, né? Porque muitas vezes os fraudários não estão nem disponíveis para os homens. Então acaba sendo uma ferramenta de manutenção. Agora, o símbolo que simboliza, a placa que simboliza o fraudário, em geral, é a silhueta de uma mulher. Verdade. Executando ali aquela ação. Como se isso fosse realmente... Isso projeta a identidade do cuidador como exclusivamente feminino, né?

Então isso não só exclui o pai disso, mas também mantém essa ideia de que a cuidadosa é sempre a mulher. Então são manifestações. Nesse caso, por exemplo, da raca de saudade, que a gente até analisa no livro, é uma manifestação semiótica desse erro que continua se perpetuando. Mas você tem aí diversas formas de manifestação disso no dia a dia.

Há pouco você falou assim, porque às vezes as mulheres é que buscam, é que levam, e muitas vezes eu vejo pais participando, levando, mas muitas vezes tem sempre essa mãe por trás e pensando, que eles chamam de carga mental, né?

Então você tem diversos discursos, você tem o grupo marcado da escola que fala, mamãe, e dá um recado para a mãe. Muitas vezes os pais recebem elogios desproporcionais quando eles executam essas atividades. Então no dia a dia a gente tem muitos discursos que reforçam, que alimentam essa prática.

E não cunha o cuidado, né? Porque eu acho que o grande ponto é coletivizar o cuidado. Para parar de sobrecarregar essa identidade, que a gente pare de projetar na mãe toda a identidade do cuidado. E que outros destaques você traz para a gente desse livro e da pesquisa que vocês fizeram? Bom, tem um outro destaque em que a gente fez uma pesquisa consistente.

que é sobre esse mito do amor, né? Esse mito, inclusive a Elisabeth Badantera, ela chama de o amor conquistado. Então, quando a gente usa essa... Fica muito difícil entender que isso também é trabalho. Então, a Silvia Federici, uma pesquisadora italiana, ela vem dizer que trabalho implica salário.

Então é muito fácil invisibilizar o trabalho de cuidado, em especial o cuidado, porque ele não é remunerado. Então essa é uma barreira que a gente precisa superar, essa barreira de achar que, de invisibilizar o trabalho do cuidado, em especial o cuidado da mãe, porque ele não é remunerado. E tá aí esse trabalho de cuidado, tá fornecendo mão de obra pra sustentar toda uma cadeia mundial que existe.

Tem números impressionantes com relação a isso. O dinheiro que não é monetizado nesses trabalhos de cuidado, eles são equivalentes ao PIB do Vale do Silício, se não me engano. Eu não tenho os números aqui agora, mas é um valor impressionante. Se isso fosse monetizado, fosse colocado na ponta do lápis, os valores são impressionantes.

Então, eu acho que o grande ponto que essa pesquisa nos mostrou foi realmente essa invisibilização, que a gente, pela chancela do amor, fica fácil invisibilizar isso como um trabalho, e essa falta de coletivização do cuidado. Porque quando esse processo reprodutivo é necessariamente vinculado ao cuidado,

ele fica forte de ser direcionado só para a mãe. Então não há coletivização. E a gente falou aqui muito da participação dos pais, participação masculina, mas precisa haver uma participação do Estado, da sociedade, das pessoas que não têm filhos. É um compromisso com a próxima geração.

A responsabilidade é de todos, né? É uma responsabilidade, se a gente quer criar um ambiente melhor, um mundo melhor, e a gente estava falando aqui, até fiquei pensando sobre isso, a gente falando, ah, porque os pais ou as mães, mas você tem diversos outros formatos de família e que precisam estar abascados nisso. Parentalidade é uma função de responsabilidade. Então, vincular isso ao processo reprodutivo, simplesmente, é muito...

precisa expandir esse entendimento sobre o cuidado. Muito bem, então. Laurelisa, obrigado pela sua participação aqui na Rádio Senado, obrigado também pelo livro, parabéns pela pesquisa, parabéns pela publicação e até uma próxima oportunidade. Muito obrigada. Obrigada a vocês pelo convite e pela oportunidade.

Essa foi a conversa então com Laura Elisa Nascimento Vieira, coautora do livro O Filho é da Mãe, Parentalidade e Sobrecarga Materna, uma obra que convida a repensar papéis sociais e a importância de dividir de uma forma real as responsabilidades com cuidado das próximas gerações. Você encontra esse livro nos portais da internet e no site da Editora Aplis.

E o Autores e Livros de hoje vai ficando por aqui. Sou Anderson Mendanha e agradeço a sua companhia. O programa contou com trabalhos técnicos de Pedro Henrique Vasconcelos. Até a semana que vem. Boa leitura. Acabamos de apresentar Autores e Livros, sua revista eletrônica sobre o mundo literário.

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