Ep. 169 - Ricardo Cabral
- Tecnologia de monitorização e modelos de negócioUtilização de dados de satélite e IA · Monitorização de pontes com radar · Detecção de alterações milimétricas · Prevenção de incidentes · Dados históricos e retroatividade · Monitorização de taludes · Aegis · Planet · Airbus
- Spotlite e monitorização de infraestruturasDados de satélite e inteligência artificial · Identificação de alterações milimétricas · Antecipação de riscos em pontes, taludes e redes de energia · Monitorização de património cultural, histórico e arqueológico · TEIA · Spotlite
- Percurso de Ricardo Cabral e fundação da SpotliteLicenciatura em Arqueologia · Experiência como arqueólogo no Iraque e Síria · Fundação da TEIA · Prémios Copérnicos Masters · Fundação da Spotlite · Ricardo Cabral
- Impactos das tempestades de verãoDetecção de torres de apoio da rede elétrica danificadas · Avaliação de vulnerabilidades em larga escala · Época de incêndios · Futuras tempestades · Tempestade Kristin · Brisa · REN · E-Redes
- Carga combustível vegetal e risco de incêndioAvaliação permanente da carga combustível vegetal · Identificação de zonas de maior risco de incêndio · OCDE
- Expansão e oportunidades de crescimento da SpotliteMercados internacionais (França, Espanha, Lituânia, Brasil) · Ambição de entrar nos Estados Unidos · Defesa como nova oportunidade de crescimento · Mercado americano · PG&E
- Uso da tecnologia na área da defesaMonitorização de infraestruturas da defesa · Mapeamento de movimentos de exércitos · Detecção de incurs
Como é que se podem antecipar incidentes ou acidentes em infraestruturas como estradas, pontos ou redes de energia, aliando os dados fornecidos pelos satélites e a inteligência artificial? Qual é a importância desta informação para as empresas que gerem essas infraestruturas?
E que negócio é este de prestar serviços observando o planeta Terra? Estes são alguns dos temas que vamos abordar na próxima pouco mais de meia hora com o CEO e cofundador da Spotlight, uma empresa que se dedica a recolher informação olhando para o planeta e trabalhando num mercado que promete valer mais de 20 mil milhões de euros nos próximos seis anos.
Estamos na quinta temporada das conversas com o CEO, entrevistas integradas no projeto de negócios de sustentabilidade 2030. É um projeto lançado pelo Jornal Negócios em 2020, agora no seu sexto ano, e que tem como referência os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e, em geral, as crescentes preocupações ambientais, sociais e de governação por parte dos cidadãos.
Licenciado em Arqueologia, depois de ter experimentado estudar Química, Ricardo Cabral iniciou a sua carreira como arqueólogo. Esteve em Campos de Escavação Arqueológica no Iraque e na Síria, deu aulas na Universidade de Coimbra, foi investigador no Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património,
Em 2017 é cofundador da TEI, uma empresa sediada no Instituto Pedro Nunes, que tinha como objetivo monitorizar o património cultural, histórico e arqueológico, exatamente com recursos a dados de satélite, e ganhou um dos designados Oscars do espaço, os Prémios Copérnicos Masters.
Em 2021 é cofundador da Spotlight, também para observar a Terra, mas agora com os olhos focados nas infraestruturas. Muito obrigada, Ricardo, por ter aceitado este nosso convite. Eu tenho de fazer essa pergunta, não é? Como é que um arqueólogo vai parar ao setor das tecnologias em que junta satélites, inteligência artificial e todas essas inovações?
Olá Helena, boa tarde e antes de mais agradeço o convite, é um prazer enorme estar aqui. E sim, efetivamente o meu percurso não tem sido muito típico, muito canónico, e digamos que está cheio de algumas circunstâncias curiosas que acabaram por depois nos trazer até aqui.
Eu, efetivamente, sempre tive muito interesse por tecnologia em geral, daí ter ingressado em química. Por diferentes razões, acabei por não me sentir satisfeito e mudei para a arqueologia, onde acabei por me licenciar. Estava, como a Helena referiu, a fazer doutoramento nessa área e a desenvolver trabalhos de campo na Síria e no Iraque.
Mas senti também que gostava de fazer o meu trabalho se fosse mais aplicado do que propriamente teórico e acabámos, na altura, eu e um colega, por fundar a TEIA, como referiu, que se dedicava, como disse bem, a desenvolver sistemas de monitorização de património.
daí para a frente a coisa já acabou por fazer um pouco mais de sentido porque depois de termos validado a tecnologia numa fase inicial acabámos por perceber que ela tinha outras aplicações neste caso nas infraestruturas críticas Mas quem é que os fez perceber isso? De repente foi a REN, foi ter consigo mas vocês têm isso, dá-me imenso jeito
Não, acabou por ter a ver com duas questões que se acabaram por solucar na altura. Foi por essa altura que surgiu um relatório das Nações Unidas que demonstrava que havia uma correlação muito grande entre o crescimento dos eventos extremos, que nós temos estado a assistir,
e os problemas de manutenção de infraestruturas críticas. E isso criou-nos ali uma ideia de que a tecnologia que nós estávamos inicialmente a desenvolver e que tinha também na altura a Génese nos problemas que aconteceram na Síria e também no Iraque com a destruição de sítios arqueológicos por parte do Estado Islâmico, por exemplo, e também em Portugal tivemos alguns desses problemas. Não, obviamente, por... Claro.
questões terroristas, mas por desenvolvimento de novas obras, agricultura, etc. E acabou por surgir, então, termos essa tecnologia nas mãos e perceber que podíamos tentar dar resposta e perguntarmos a nós próprios se há todo este manancial de informação de satélite, se temos inteligência artificial também.
Porquê que continuamos a ter este tipo de problemas de gestão e de manutenção? E se não será esta uma das formas com que nós podemos, nas próximas décadas, mudar o paradigma da monitorização? Mas houve um momento do tipo Eureka?
Não, não, foi de forma gradual, ou seja, nós fomos paulatinamente testando teorias. Seguimos, o processo até agora tem seguido muito o processo científico, digamos assim. Nós desenvolvemos teorias e depois vamos para o campo testá-las. O campo aqui passa a ser, o modelo de negócio funciona, os dados servem ao cliente, o produto está ajustado, portanto nós vamos testando todos esses parâmetros, fazendo testes, precisamente. Falei que foi o primeiro cliente.
O nosso primeiro cliente foi uma multinacional francesa, a Aegis, que é concorrente, por exemplo, da Vansy, que nós conhecemos bem aqui em Portugal, e que foi o primeiro, portanto, foi um cliente francês que apostou precisamente na utilização desta tecnologia na altura para a monitorização de autostradas. Daí para cá, nós, entretanto, já temos atacado também outros setores, mas foi esse o primeiro cliente.
Então, comecemos por explicar, ou começa por explicar-nos o que é que faz a Spotlight. A Spotlight...
Tenta não, a Spotlight está neste momento a fazer, a tentar liderar essa transição ou criar a próxima geração dos sistemas de monitorização e gestão de infraestruturas críticas. Porquê? Porque neste momento eles são feitos de uma forma, nós continuamos a ter vários, tivemos até recentemente em Portugal, várias falhas críticas, como nós chamamos, queda de pontes, queda de taludes, deslizamentos, incêndios.
Todos esses problemas, a nosso ver, derivam da forma como a monitorização é feita, tradicional. E nós achamos que, no futuro, é este grande manancial, temos milhares de satélites neste momento e vão ser lançados muito mais, dezenas de milhares, é a projeção que temos, com novos sensores, novas frequências, neste momento nós temos satélites que conseguem monitorizar praticamente hora a hora o território nacional.
E não estamos a aproveitar. Portanto, é daí que nasce a Spotlight. É de tentar alavancar estes dados que existem para fornecer aos gestores de manutenção as decisões que eles... Mas estes dados dão que tipo de informação que não se consegue ter de outra maneira?
Muito bem, os problemas que nós temos nas infraestruturas geralmente não são problemas que surgem de repente, são problemas que já se manifestam de alguma forma, às vezes, semanas, meses ou até anos antes. Os dados de satélite permitem monitorizar essas alterações e a inteligência artificial sinalizar essas alterações dos padrões de comportamento das infraestruturas.
Porque, no fundo, são aqueles dados tratados pela inteligência artificial, que são milhares de dados, que definem um determinado tipo de comportamento dos dados, que se for alterado...
Quer dizer alguma coisa? Exatamente. Nós temos satélites, utilizamos satélites, por exemplo, de radar, que conseguem medir alterações milimétricas na superfície, por exemplo, das pontes. É esse um dos projetos que estamos a desenvolver no Brasil. Estamos a monitorizar mais de 5 mil pontos no Brasil. É pontos ou pontos?
Pontes. Mesmo pontos britos. E o radar, por exemplo, funciona de noite, consegue atravessar as nuvens e, portanto, consegue monitorizar de forma sistemática, com alta frequência, exatamente, durante todo o ano. Que é o que nós não conseguimos fazer com inspeções tradicionais, que são muito baseadas em visitas ao terreno, de forma programada. E, portanto, por vezes não é possível detectar estas alterações previamente.
E já estão a aplicar, ou seja, já é possível antecipar e prevenir um incidente com uma infraestrutura? Sim, sim. E tem algum exemplo para partilhar connosco? Não posso partilhar exemplos concretos por razões de confidencialidade que temos com os contratos com os clientes, mas desde quedas de pontos. Mas pode estar, por exemplo, uma... Sim, sim.
Desde quedas de pontos, que conseguimos mapear de forma histórica, que o comportamento tinha-se alterado significativamente e, portanto, poderia ter sido evitado com uma intervenção prévia meses antes. Estamos a falar de meses antes.
Mas é um caso em que foi evitado o colapso. Não é só um caso, são vários casos. São vários casos. Não, não foi evitado o colapso, não estava a ser monitorizada. Ah. Agora tivemos... Quer dizer, se nós estivéssemos a aplicar esta tecnologia à ponte de Entre os Rios, o famoso caso em Portugal, dramático, ela não teria caído.
Quer dizer, é difícil. A responsabilidade dela não cair depois não é quem faz a monitorização. Mas a monitorização teria detetado que havia um comportamento anómalo. Isso está... É os padrões, não é? Alteram-se os padrões. Exatamente. Há um consultor da nossa equipa que fez precisamente esse estudo. Só queria ressalvar que na altura em que a ponta entre os rios caiu, a tecnologia ainda não existia. Portanto, nós conseguimos aplicá-la retroativamente.
Não podia ter sido evitado. Porque não existiam os mesmos satélites, nem a própria... Não, mas como é que fiz a retroatividade? Ah, porque existem dados históricos.
Então conseguimos ir buscar os dados de arquivo. De satélite. Exatamente. E isso, por exemplo, permitimos também... E esse estudo permitiu perceber que aquela ponte já estava bastante degradada e que teria sido possível identificar essa degradação com meses de antecedência.
Havia movimentos nos apoios da ponte que eram significativos. E é isso que nós temos detectado também noutros locais. O mesmo para taludes, por exemplo, ajudámos já um cliente que não conseguia, já tinha feito obras de intervenção para a estabilização de um talude, não conseguia resolver o problema e a partir dos nossos dados conseguiu ajudar o projetista a desenvolver a obra de engenharia porque entendeu finalmente de onde é que estava a raiz do problema.
A partir dos dados satélites, trabalhados pela inteligência artificial. Exatamente.
E digo, eu sei que esteve envolvido também nas tempestades, não é fazer tempestades, mas a apoiar as empresas de infraestruturas na sequência das tempestades que assolaram Portugal de 28 de janeiro a 14 de fevereiro. Aquele talude caiu na autostrada? Conseguiu-se antecipar através dos vossos dados que isso ia acontecer?
Esse é um dos nossos clientes e eu, por razões de confidencialidade, não posso partilhar. Porque a Brisa é a vossa cliente. Sim, é um dos nossos clientes, sim. Mas relativamente às tempestades, nós numa primeira fase... Mas do ponto de vista abstrato, era possível antecipar? Quer dizer, eles não tenham antecipado, porque pararam outro trânsito. O caso em concreto, estou eu a falar do ponto de vista da minha opinião pessoal, naquele caso concreto, aquele tipo de...
de, digamos, da ação que houve instantânea de erosão do talude, diria que é praticamente impossível, não é? Porque aquilo não era um problema, digo eu, não era um problema, eu não sou engenheiro civil, não é? Mas não era um problema estrutural, é um problema circunstancial causado por uma série de problemas que não é todo controlável.
Não é para esse tipo de eventos que nós, sobretudo, trabalhamos. É, sobretudo, para, em alguns casos, evitar alguns tipos de colapso que são possíveis de, numa primeira fase, mapear e detectar os problemas.
que já lá estão, e noutros casos ajudar a mitigar também. E nós foi o que fizemos, no caso das tempestades, tivemos com alguns dos nossos clientes precisamente 24 horas a tentar ajudá-los a fazer o acompanhamento da evolução.
Foram vocês que contribuíram também para que empresas como a REN, como a E-REDs e até a Brisa identificassem os principais danos gerados pelas tempestades o mais depressa possível. Esse trabalho está a ser feito agora, nessa segunda fase está a ser feita precisamente essa avaliação. Então vamos começar por o que é que aconteceu a seguir à tempestade. Telefonaram todas essas empresas a pedir o quê?
portanto, aí a primeira fase o que interessava saber era como é que estava a situação no terreno e por exemplo aí nós desencadeámos diligências para ter por exemplo, como eu falei há pouco, dados de radar que permitem, foram capturados durante a noite, por exemplo, e que permitem ter uma imagem do terreno e conseguimos detectar, em alguns casos, por exemplo torres de apoio de eletricidade que estavam que tinham sido danificadosốt
Essa foi a primeira fase. A segunda fase é a que está a desenrolar-se agora, que tem em vista avaliar a extensão em grande escala, estamos a falar de milhares de quilómetros, avaliar o impacto que teve a tempestade e, sobretudo, mitigar ou identificar alguma vulnerabilidade que agora na época de incêndios ou durante o próximo ano.
possam afetar a operação e também a população, não é? Porque estamos a falar, mais uma vez, de infraestruturas críticas que fornecem energia, fornecem redes de transporte, não é? E, portanto, acabam por ser muito importantes nós ajudarmos a manter o serviço operacional. Portanto, o objetivo final é sempre esse, é manter o serviço operacional. E, portanto, neste momento, então, em observação contínua, não só dessa região, mas de todas as...
de todas essas áreas. Sim, não só, mas sobretudo nessa região. O que fazem especificamente diferente nessa região que não estão, ou seja, neste momento têm como clientes a REN, desminta-me se eu não te over a dizer corretamente, a REN, a E-REDS, a Brisa, e são fundamentalmente estas grandes. A infraestrutura de Portugal? A IP também. E...
O que é que estão a fazer de diferente nas zonas afetadas pelas tempestades, que não estão a fazer normalmente na prestação de serviço rotineira que prestam esses clientes? Nós, essencialmente, ampliámos o âmbito do que já estávamos a fazer com eles. E, em alguns pontos específicos, por exemplo, aumentámos a resolução dos dados para permitir identificar outros tipos de danos que ocorreram e que eram específicos, que foram específicos da tempestade.
Porque, naturalmente, que a tempestade veio criar aqui problemas de uma magnitude maior do que o habitual, mas o nosso objetivo principal não é atuar após os eventos. O nosso objetivo é sempre prevenir, identificar as vulnerabilidades que são, digamos, estruturais, que já existem, para que a infraestrutura possa subsistir.
ou ter maior resiliência perante este tipo de eventos. E por isso isso é um trabalho continuado, não é? É um trabalho que necessita de ser feito regularmente até para entender os comportamentos das infraestruturas, não é? Claro, claro. Mas isso é o que fazem normalmente com os vossos clientes, não é? Acompanham, avaliam sistematicamente os padrões e se a informação recebida se está a afastar dos padrões ditos normais da infraestrutura.
Mas, e nos casos em que detetam uma alteração de padrão, comunicam imediatamente com o cliente? Sim, exatamente, essa é a principal interface que temos com o cliente, é um sistema de alerta.
E quanto aos satélites, há uma curiosidade que eu tenho, como é que vocês têm acesso, quanto é que se paga para ter acesso à informação dos satélites? Tem de se pagar, é um serviço, não é? Temos o espectro todo, desde, como deve imaginar, temos dados gratuitos que utilizamos e nós vamos, digamos assim, passando aqui a analogia, usamos todos os ingredientes que estão disponíveis.
para construir os módulos de monitorização. Portanto, vamos desde os dados gratuitos e diferentes tipos de dados. Nós já usámos satélites que detectam metano, fugas de metano, por exemplo, satélites térmicos, satélites que contam indicações da umidade do solo. Mas esses satélites pertencem a alguém, não é? Sim, alguns. O que nós conhecemos mais é o Starlink. O Sentinel. O do Elon Musk, os satélites. Sim, mas esses são de comunicação, sobretudo. Ah, mas está a referir-se a outros.
Sim, são satélites chamados de observação da Terra, que produzem dados de imagens da Terra, mas de diferentes tipos de imagens. Portanto, não são clientes do Elon Musk? Não, mas somos clientes da Airbus, por exemplo, ou da Planet, que é uma empresa também muito conhecida, e outros. Nós, no fundo, temos encomendado, por exemplo, dados de satélite com 30 centímetros de resolução.
em que cada pixel tem 30 centímetros. Portanto, nós construímos os módulos com base nos ingredientes, juntamos diferentes ingredientes, e o produto final são os dados, não são os dados, os dados de satélite, são os dados analíticos que nós depois geramos para o cliente final. Porque muitas vezes nem se quer ver os dados de satélite, a maior parte das vezes. Ele tem um painel de informações.
Sim, porque vocês dizem que cadeia um alerta e dizem que é preciso ir verificar esta infraestrutura. Porque nós monitorizamos, como eu disse, no Brasil estamos a monitorizar mais de 5 mil pontos e em Portugal monitorizamos dezenas de milhares de quilómetros. Portanto, não é execuível estar a ver ponto a ponto, nem é esse o objetivo, é ter uma visão global de toda a infraestrutura.
com uma alta frequência. É isso que os satélites sobretudo fornecem. Pois vocês, o que têm é um sistema, um software que vos faz alertas sempre que há uma alteração do padrão normal daquela infraestrutura, ou daquela ponte, ou do que for. Já falou várias vezes do Brasil, sei que ganharam um projeto no Brasil muito significativo, como é que está a correr o projeto.
O projeto começou agora, está a correr muito bem, estamos a fazer progressivamente a monitorização das pontes, portanto já com várias centenas neste momento a fornecer essas informações e é um projeto muito importante para nós porque eu diria que curiosamente foi esta a visão inicial, desde digamos da teia, voltando um pouco atrás.
que nós tínhamos em mente, era precisamente para este tipo de monitorização em grande escala, e este projeto é único a nível mundial, pela sua dimensão, são mais de 5 mil pontos, num país que é do tamanho de um continente, e que demonstram, a meu ver, todo o potencial que esta tecnologia pode ter de uma forma, digamos, muito objetiva. É bastante escalável.
Exatamente, e para nós é um projeto bandeira porque é o que nós queremos demonstrando que se consegue fazer este tipo de, prestar este tipo de serviço, que nos permitirá depois escalar para outros países, como por exemplo o mercado americano, que nós também vemos como um dos objetivos principais.
Uma das razões porque levantaram em dezembro, levantaram 3 milhões e 500 mil euros, foi exatamente para essa expansão nos Estados Unidos e também na América do Sul, embora, quer dizer, a América do Sul seja o Brasil. E esse projeto, como é que está, esse projeto de expansão?
Está a correr bem, está a começarmos, nós numa primeira fase queremos consolidar a nossa presença no mercado europeu e em paralelo abrir então o mercado norte-americano. E no europeu estão a expandir-se para onde? Nós já temos projetos em Espanha, na Lituânia, pode-me estar aqui a falhar algum... Sim, mas já existem alguns projetos, alguns clientes europeus. Sim, sim, sim. E pode referir a algum?
Continuamos a trabalhar com a EGIS, por exemplo. Em Espanha estamos agora com um projeto também com a rede elétrica espanhola. Bem, precisam que um dano cabe de nós no apagão? Creio que o apagão não teve... Não, era isso. Podíamos ver... Não teve muita relação com isso, teve mais a ver com a gestão da... Exato, pronto. Ou seja, vocês não podiam prevenir aquele acidente. Não, mas, por exemplo, houve agora recentemente também na ferrovia alguns acidentes em Espanha.
que estão aí sim também relacionados com o que nós conseguimos medir. São movimentos estruturais, porque nós conseguimos tanto a rodovia como a ferrovia. Nós também temos projetos na ferrovia. E tem a CP a vossa cliente? Não, não, a CP não. Não é que as estruturas é que é importante, não é? Não é a CP. E mesmo no Brasil também temos clientes de ferrovia, importantes clientes de ferrovia, que gerem a rede ferroviária.
Isso significa que, se isso se generalizar, nós podemos ter menos acidentes do que temos? É esse o nosso principal objetivo. É esse o nosso principal objetivo, é para isso que trabalhamos todos os dias. Para isso o quê?
para reduzir o número de acidentes, ou seja, nós temos um objetivo que também é societal, não é um objetivo apenas económico. E, portanto, é isso que nós defendemos, que existem dados que não estão a ser aproveitados e que existe tecnologia que não está a ser usada ainda de forma, digamos, ampla pelos gestores de infraestruturas.
o que é normal, porque é uma tecnologia bastante complexa, e nós queremos ser os líderes mundiais, ou digamos estar na liderança mundial, de ser uma das empresas que faz precisamente essa tradução entre os dados que existem e a gestão das operações no dia-a-dia destas empresas. Quem é o vosso principal concorrente?
Nós temos alguns concorrentes, apenas europeu e norte-americanos. Estamos a falar de 5 ou 6 empresas. Portanto, é um mercado emergente. E startups. Sim. Porque a tecnologia, como eu disse, também é emergente. Naturalmente, estes concorrentes estão um pouco à frente ao nível do capital que já levantaram. Também têm mais alguns anos do que nós, geralmente. E não são de que país?
Estamos a falar, portanto Estados Unidos, Alemanha e Holanda, sensivelmente, e Itália. Tem mais músculo financeiro. Exatamente. No entanto, apesar disso, e é uma das coisas que me deixa bastante contente, nós já concorremos com eles em vários projetos e acabámos por ganhar, portanto acho que temos uma abordagem, digamos que, a meu ver, a solução ainda não está bem definida, qual é a melhor solução, há muita margem de manobra e a nossa solução, para mim, naturalmente, é melhor do que a deles.
qual é a diferença? Eu imaginava que não havia diferenças. Não, não, não, há várias diferenças porque, como eu disse, é tudo muito emergente, então estas diferentes empresas andamos todos à procura da melhor forma de quais são os tipos de dados, quais são os ingredientes que se deve utilizar, como é que eles devem ser transmitidos, há muita ambiguidade ainda e, portanto, há muita margem para se crescer e para perceber quem é que no fim vai...
Vocês têm de mostrar também o vosso caderno de sucessos, mas depois não pode contar qual foi.
de sucessos a nível de... Sucessos, por exemplo, da ponte que não caiu, porque nós vimos que a ponte ia cair. Há esses, mas eu não posso nomear. Mas já ajudámos clientes, por exemplo, também na área da rede elétrica a poupar milhões por ano, por exemplo, porque mitigámos de tal forma, ou ajudámos de tal forma a fazer a gestão da vestação nas linhas elétricas que depois com os incêndios não houve praticamente nenhum impacto.
porque ela estava a ser muito bem foi muito bem gerida E acho que conseguem contribuir também para a detecção da quantidade de material que se pode incendiar Sim, estamos neste momento Recentemente houve um relatório da OCDE sobre esse assunto e aparentemente Portugal tem
40 toneladas de material que se pode incendiar agora falta-me o termo correto quando devia ter só 10 conseguem também contribuir para detectar quais são as zonas de maior risco de se desencadear um incêndio por causa do material que têm
Sim, exatamente, estamos agora a começar precisamente nesse sentido, temos agora dois projetos que vão começar para fazer essa avaliação de forma permanente, ou seja, não é uma avaliação pontual, porque é uma necessidade de acompanhamento, não é? Da carga, digamos, da carga combustível vegetal. É isso, carga combustível. E inclusive até recrutámos para a equipa precisamente especialistas nessa área e sim, portanto a resposta é... Quem é que é o cliente?
Não posso mais uma vez referir sempre os dados clientes, mas são operadores de rede elétrica ou de geração elétrica.
Ah, basicamente não é o Estado, por exemplo? Não, não, não. Não é uma autarquia que está preocupada com o incêndio que possa ocorrer no seu município? Não, para já não. São empresas privadas? Sim, 90% dos nossos clientes são privados. Nós temos vocacionado também o produto muito para essa área. Não quero dizer que não. Temos clientes públicos, naturalmente. Sim, sim. As infraestruturas de Portugal, por exemplo. E no caso do Brasil também é um cliente público.
Sim, sim, é uma espécie de direção geral das estradas do Brasil, não é? E qual é que é o perfil das pessoas que trabalham com vocês?
Do cliente ou da equipa interna? Da equipa que trabalha. Ah, é da nossa equipa. Portanto, nós somos uma equipa de 30, não tem uma dimensão ainda muito grande, estamos a recrutar ativamente. São perfis muito especializados e variados, temos desde, naturalmente, engenheiros geospaciais, que é o grande bolo.
especialistas em inteligência artificial engenheiros de software, naturalmente e depois até engenheiros geológicos que no fundo acabamos por criar aqui um ambiente que é muito difícil de replicar noutros sítios, portanto com valências muito distintas, mas todos a contribuir para este tipo de produto final que tem que fazer esta, como eu disse há pouco, esta espécie de camada de tradução. Eles conversam bem com os outros, essas tribos todas? Sim, sim, sim. E com o arqueólogo também?
Sim, também temos não só o único arqueólogo na empresa, portanto, não, não, porque a equipa fundadora éramos três arqueólogos e, portanto, cá nos mantemos, não é? Portanto, tem essa peculiaridade. Ah, eram três arqueólogos? Sim, sim, sim. E são os fundadores da empresa, são três arqueólogos ainda? Sim, são dois fundadores e um colega que começou desde o primeiro dia a trabalhar connosco e que acabou por ser ele até desenvolver grande parte desta tecnologia.
E tem sido fácil contratar pessoas com esses perfis tão especializados? Em Portugal, não. Ainda assim, a grande parte da equipa é portuguesa, portanto, estamos a desenvolver tecnologia em Portugal, que exportamos para o estrangeiro, é uma das grandes ambições também que nós temos e estamos muito contentes com isso. Em Portugal não é muito fácil efetivamente recrutar estes perfis nestas áreas, em algumas das áreas, especialmente engenharia geoespacial.
mas pronto, nesses casos colmatamos, nós recrutamos nós somos sobretudo uma empresa muito remota, não é? e portanto temos também já pessoas noutros países a trabalhar connosco a trabalhar de forma remota sim, tínhamos na Croácia, em Malta
em breve no Brasil, porque estamos também a abrir uma filial, são essencialmente, mas sobretudo em Portugal, de forma remota. O Brasil é um mercado muito difícil, não é? Tenho noção disso. Sim, sim, mas já estamos lá com uma presença... E matando em grandes empresas portuguesas. Sim, sim, sim. Estamos lá já com uma presença com clientes muito importantes e, portanto, estamos com grandes... E parceiros também, temos uma rede de parceiros. E, portanto, estamos com grande expectativa para o mercado brasileiro.
referiu que é difícil contratar e reter. Como é que fazem para manter as pessoas com esses perfis tão procurados? Não temos tido, felizmente, muitos problemas nessa área. Portanto, temos uma equipa muito motivada, não sei se é esse o segredo, mas temos uma equipa muito motivada, temos uma estrutura muito horizontal, extremamente horizontal, posso até dizer.
E não sei se isso às vezes não ajuda depois às pessoas a sentirem-se bem. E acho que o trabalho também que desenvolvemos é um trabalho que tem impacto, não é? Às vezes não é muito fácil perceber o que é que o meu contributo é a nível de sociedade. E nós temos aqui algum espírito de missão, não é? E isso eu creio que acaba também a ajudar. Qual é o vosso modelo de negócio? Como é que ganha um dinheiro, digamos assim?
Nós vendemos contratos de monitorização e gestão. Monitorização e gestão dos ativos. Portanto, são sempre contratos anuais ou multianuais. Temos clientes que já contrataram durante 4 anos, por exemplo. Alguns 3 anos fazem logo contratos multianuais, o que é muito interessante. Porque há uma aposta significativa na nossa tecnologia e demonstra que tem interesse, não é? E o vosso principal custo é?
É os recursos humanos. É os recursos humanos, sem dúvida. E depois, naturalmente, projeta a projeta os dados de satélite e os, digamos, os modelos de inteligência artificial que nós vamos desenvolvendo, que são a nossa propriedade intelectual. Mas são vocês que desenvolvem os modelos de inteligência artificial. Há algum caso que o tenha marcado, especialmente? Caso em termos de... Da atividade da sua empresa.
não, tem sido um carrossel de emoções muito e portanto eu já estou um bocado descensibilizado, se calhar porque tem sido efetivamente uma montanha russa, não é bem um carrossel uma montanha russa, porque nós somos uma startup tradicional, no sentido de que nós vivemos de... profissão.
E vivemos de rondas de financiamento, portanto nós operamos, para quem não conhece, uma startup opera geralmente em negativo, até se tornar uma empresa, que é o grande objetivo. Operando em negativo, portanto nós temos sempre um prazo de validade e temos que demonstrar resultados para ir buscar a próxima ronda de financiamento. É assim que funcionam as startups e portanto isso coloca bastante pressão. Grande pressão, não é? Grande pressão.
Mas o que eu perguntava era algum projeto que o tenha impressionado especialmente?
Este projeto que agora estamos a desenvolver no Brasil, para mim, é sem dúvida o culminar da nossa visão. Portanto, do ponto de vista operacional, também tem um impacto significativo e muito grande no desenvolvimento da empresa, naturalmente. Mas o que me dá mais prazer é efetivamente pensar que, quando criámos a empresa, era precisamente este o objetivo que nós tínhamos e o que nós, na altura, víamos como o potencial máximo da tecnologia e como ela devia ser utilizada e acabou por se concretizar agora.
E, portanto, isso deixa-me muito contente, porque foram precisos muitos passos e foram precisos testar várias teorias, não é? E ajustar até chegarmos a... Como é que ganharam esse projeto? Foi muito difícil?
Não foi, digamos, acabou por ser uma necessidade premente, porque caíram várias pontes no Brasil recentemente e isso gerou uma necessidade de resolver o problema, não é? De alguma forma, e nós acabámos por mostrar, demonstrar, que tínhamos uma solução para...
Vocês podem ir buscar os dados retroativos e mostrar, ora, se vocês estiverem, se vocês estiverem nossos clientes, nós tínhamos dito neste ponto tal que a ponta ia cair. E isso acabou por desenrolar muito rapidamente os passos, que geralmente são muito longos, não é? Mas acabou por criar alguma urgência e foi assim que o projeto acabou por ser concretizado. Ricardo, como é que gostava de ver a sua empresa daqui a 5 anos, digamos?
Essa é uma pergunta sempre muito complicada, porque tratando-se de uma startup… É uma clássica, isto é uma pergunta clássica. Sim, sim, a ambiguidade é muito grande numa startup, em termos de modelos de negócio, o produto, o produto é este… Já tem as grandes empresas, não tem? Exatamente. Neste momento, quais são as empresas que gostava de conquistar em Portugal?
Mais. Tem todas. Em Portugal, exatamente. O que é que eu gostava que acontecesse daqui a cinco anos é que estivéssemos presentes no mercado norte-americano, em força, porque digamos, é sempre um...
É um cartão de visita também, não é? Exatamente, e no caso das startups é sempre também um objetivo a vaga altura, não é? Mas sobretudo também, mais uma vez, concretizar a visão que nós temos, do ponto de vista de nós estamos, acreditamos que este vai ser o novo paradigma de monitorização e gestão das infraestruturas críticas.
neste momento ainda não é assim visto, mas nós acreditamos que é esse o caminho e que mais cedo ou mais tarde vamos conseguir montar esse projeto e mostrar que este vai ser agora a forma como nós fazemos a monitorização e a gestão e depois o resto é acessório.
Mas este passa a ser a forma principal, a forma, digamos, central, como é feita, e a nossa plataforma, portanto, o objetivo é que a nossa plataforma sirva, então, de referência, e, portanto, eu diria que esses são os dois, digamos assim, um mais do ponto de vista de visão, e o outro mais do ponto de vista, pronto, de ter aquele objetivo sempre...
que é provar que conseguimos entrar num mercado sempre muito complexo, mas com grande potencial que é o norte-americano E nesse quadro tem alguma empresa que gostasse de conquistar?
Sim, nós temos sempre, posso dar até um exemplo muito interessante. Não estou a dizer que é essa empresa em particular, mas podemos analisar daí. A Pacific Housing Electric, a PG&E, é uma das maiores empresas de... Em inglês é o Utilities, em português é sempre difícil de traduzir. Infraestrutura. Infraestrutura elétrica e de energia. E, para quem não sabe, a PG&E foi à falência precisamente por causa dos incêndios na Califórnia.
e teve que ser refundada. De tal maneira foi tão grave as consequências dos incêndios que teve que ser refundada. E depois investiram, não sei seguramente, mas centenas de milhões em montar um sistema de monitorização também por satélite.
E, portanto, esse tipo de clientes, e como a PG&E há outros também, mas esta tem um caso mais paradigmático, não é? Porque o impacto foi tão grande que a empresa colapsou. E, portanto, são estes grandes, seria entrar precisamente com a monitorização. Conseguir conquistar essa empresa, que ela própria tem um sistema. Tem um sistema, sim, que gastou.
Muitos milhões para desenvolver, seguramente. E conhece esse sistema? Já estivemos algumas conversas com eles e foi interessante perceber que estamos mais ou menos alinhados no que estamos a desenvolver, que é interessante, é bastante curioso.
Então aquilo que nós podemos esperar a curto prazo é que vai conquistar essa empresa que eu não consigo dizer o nome. A Pacific Eyes and Electric, sim. A curto prazo não sei, mas é esse um dos objetivos e não é especificamente essa, mas eu diria outras empresas desse género, mas seriam essas as grandes baleias, digamos assim, que nós gostávamos de atacar. Estamos mesmo a terminar, Ricardo. Nós estamos a viver momentos de enorme instabilidade no mundo.
com a guerra no Médio Oriente, é conhecida, que impacto é que isso pode ter nos vossos projetos e nos vossos planos, se é que tem algum.
Nós, o que temos visto, são sempre uma procura crescente nos nossos serviços. Não tanto pelo... Temos a instabilidade climática e é, sem dúvida, um dos fatores que tem trazido. É um dos negócios que ganha com a instabilidade. Exatamente. Com os eventos extremos e a instabilidade de clima.
Esta instabilidade também na área da defesa, também temos, tem nos trazido, temos alguns projetos já que estão a decorrer, alguns processos que estão a decorrer precisamente para aplicação da tecnologia, digamos o chamado uso duplo.
na área da defesa, mas ainda não estamos nessa fase. Como é que se pode usar na área da defesa? Como eu disse inicialmente, os dados de radar permitem, por exemplo, ver com alta resolução de noite, com cobertura de nuvens e, portanto, são muito usados, não por nós neste momento, mas são muito usados pela defesa, para mapear movimentos dos exércitos, etc.
E não só, portanto há outros tipos, até barcos. Vocês têm aqui uma área de potencial expansão também que é a área da defesa. Exatamente. Nomeadamente para fazer o quê? Monitorização, não só, também de infraestruturas da defesa, não é? Porque as redes de transporte necessitam de estar operacionais, não é? Sim, claro.
para serem funcionais, mas também para a movimentação, por exemplo, nós temos uma costa gigante e temos muitos barcos, houve alguns incidentes com barcos russos, etc, recentemente, e estes dados permitem, precisamente, detectar muito rapidamente estas incursões, mapear as trajetórias, etc, portanto, há algumas aplicações que podem ser feitas nesse sentido.
Só no sentido da antecipação, porque acompanhar os movimentos por radar, imagino que a defesa portuguesa já o faça, não é? Tem algumas valências nesse sentido que está também agora, creio eu, a começar a desenvolver. Muito bem. Muito obrigada. Obrigado, Helena. Foi um prazer.
Esta foi mais uma conversas com o CEO. Estivemos à conversa com o Ricardo Cabral, CEO da Spotlight. Obrigada por nos ter ouvido.
Spotlite
Monitoramento de infraestruturas críticas com dados de satélite