#300 - Tiago Abreu
Ele fundou e apresentou o Introvertendo durante 5 anos, escreveu livros, aposentou dos microfones do podcast e segue hoje como diretor do projeto. No episódio comemorativo de 8 anos do Introvertendo, Izabella Pavetits e Marx Osório conversam com Tiago Abreu sobre sua trajetória de vida, a experiência de fazer o Introvertendo, suas atividades atuais na música e outras curiosidades.
Notícias, artigos e materiais citados ou relacionados a este episódio:
- Tiago Abreu no Instagram
- Roda a Roda
- O que é neurodiversidade?
- Histórias de Paratinga
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- Asperger’s Are Us
- Creating an autistic-led and neurodiverse-friendly media in Brazil
- Reflexões de um Asperger
Transcrição do episódio disponível no site do Introvertendo.
- Produção de PodcastsOrigem e propósito do podcast · Evolução e impacto na comunidade autista · Realizações e episódios marcantes · Formação da comunidade e vínculos sociais
- Trajetória de Tiago AbreuInfância e percepção de diferenças · Experiências escolares e bullying · Impacto na autoestima e autopercepção · Descoberta do autismo e diagnóstico · Vida pós-diagnóstico e terapias
- Autismo e Ensino SuperiorAutocuidado e rotina · Suporte relacional e social · Flexibilidade e adaptação · Desafios da rigidez e interesses restritos
- Banda PoliedroOrigem e formação da banda · Processo criativo e musical · Experiência de tocar em grupo e shows · Música como forma de expressão e realização
- Visão Futura e Sonho GrandDoutorado e pesquisa acadêmica · Equilíbrio entre vida pessoal e profissional · Manter a capacidade de sonhar e ter tesão nas coisas · Contribuição para a comunidade autista
- Personalidades Autistas no ProgramaImportância da comunidade para autistas · Desafios da representatividade e visibilidade · O papel do Introvertendo na comunidade
- NeurodivergênciaMotivação para escrever o livro · Conteúdo e impacto do livro · Neurodiversidade como conceito
- História por trás da açãoImportância pessoal e cultural · Conexão com as origens familiares e o autismo · Registro histórico e preservação da memória
- Silvio SantosFixação em programas de auditório e TV · O assalto durante o Roda a Roda · Memória traumática relacionada ao programa
- Colaborações MusicaisVínculo familiar com a música · Frustração por não saber tocar instrumentos · Aprendizado de bateria e teclado · Jornalismo musical e trabalho na área
E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marcos Osório, farmacêutico, e hoje nós vamos apresentar o episódio número 300, por ocasião do aniversário de 8 anos do Introvertendo, hoje dia 11 de maio, e introvertendo faz 8 anos, e comigo está aqui Isabela Pavetits.
Oi, em primeiro lugar, parabéns pra nós. E em segundo, hoje, a criatura entrevista o seu criador. Hoje nós receberemos aqui um convidado muito especial, que será entrevistado nesse episódio de Final Zero, né? Todos os episódios com Final Zero a gente entrevista alguém. E é um integrante mais que especial, nosso diretor, Thiago Florencio de Abreu, um dos fundadores do Introvertendo, idealizador do Introvertendo. E hoje nós vamos conhecer mais um pouquinho a respeito dessa figura maravilhosa.
Que está aqui conosco hoje. E aí, pessoal, beleza? Ou, trazendo a tradição de como eu falava, um olá pra você que ouve o podcast Introvertendo. Estou de volta. Meu nome é Thiago Abreu. E estou feliz pelo convite, ou quase um alto convite. Considerando que vocês falaram várias vezes que eu tinha que voltar. Então, por que não voltar no episódio de oito anos, né? Então, vamos... Quero descobrir o que vocês prepararam.
E se você ainda não conhece as nossas redes sociais, nós estamos no Instagram, no Facebook e no X, arroba Introvertendo. E nós temos o nosso site também, www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do Nai Autismo. Introvertendo. Um podcast onde autistas conversam.
Então a gente vai começar o nosso bate-papo aqui do começo mais tradicional de todos, né? Que é perguntando pra você sobre como foi o começo de tudo, né?
Quando foi que você começou a perceber que você tinha alguma coisa diferente? Conta um pouquinho da sua história, lá do seu passado, na sua infância, quando o autismo já era presente, mas você não tinha conhecimento ainda a respeito. Quando é que você começou a se perceber destoando do mundo dos neurotípicos? É curioso, né? Porque assim, já foi tanto tempo que eu fui contando essas histórias dentro e fora do introvertendo, mas cada vez que a gente conta, sempre tem alguma coisa nova que surge, né?
E eu acho que nunca tem um momento exato que você se sente diferente. É uma coisa que te acompanha a vida inteira, né? No meu caso, a primeira pessoa, obviamente, a perceber foi a minha mãe. Eu tive atraso de fala. Eu comecei a andar um pouco mais tarde. Eu andei com um ano e três meses.
E cheguei nos dois anos e eu não falava nada. Aí a minha mãe já ficou meio suspeita. Minha mãe era uma mãe de primeira viagem. Quando eu nasci, ela tinha 21 anos. Então, ela não tinha muita experiência, muito repertório. Meu pai tinha 25. Então, eles estavam realmente bem cruz no geral. E a minha mãe tem alguns parentes com deficiência. Ela tem uma prima que tem epilepsia, deficiência intelectual. Então, ela ficava em dúvida. Porque tinha estímulos sonoros, eu não respondia de forma adequada àqueles estímulos. Que é uma coisa bem típica do autismo.
E ela foi e procurou um médico. O médico falou assim, ah, ele não fala porque ele tem língua presa. Precisa fazer cirurgia. Ela levou na segunda opinião de um médico. E o médico disse, não, ele não tem língua presa.
Aí ele perguntou pra ela, ah, você fala com ele? E a minha mãe, não, ele não fala. E aí ele foi e fez a sugestão que meio que salvou a minha vida. Que falou assim, não, coloca ele numa escola e vê no que dá, se vai desenvolver, o que vai acontecer ou não. A minha mãe me matriculou numa escola. Ela disse que ela lembra que no meu primeiro dia de aula, eu tava chegando perto da escola, eu simplesmente larguei da mão dela, dei um tchau e entrei, assim, de mudança.
E ela disse que depois de algum tempo eu comecei a falar, o primeiro nome foi o nome da minha professora, e ela disse que foi muito engraçado, porque parece que eu tinha pulado etapas, porque logo depois a linguagem parecia mais complexa do que ela esperaria de alguém que estava começando a falar, de uma forma geral. E aí ela se lembra, por exemplo, que ela lia histórias antes de eu dormir, e minha mãe tem uma dificuldade de leitura, porque meus pais...
Eles têm ensino fundamental incompleto, vieram da roça e tal. E a minha mãe disse que chegou o momento que eu perdi a paciência e comecei a ler sozinho as histórias antes de eu dormir, assim. Então, minha mãe sempre percebeu essa atipicidade, mas eu acho que o momento de se perceber diferente mesmo é na escola. Como uma pessoa que entrou na escola aos dois anos de idade, eu tive muita experiência escolar, até chegar ao início do ensino fundamental mesmo. E eu vivi umas poucas e boas, mas aí são várias histórias para contar.
Com relação à faixa etária dos seus colegas, você achava que você destoava muito a questão da linguagem, dos interesses em relação à criança da mesma idade que você? Isso sempre foi uma constante?
Sempre foi, sempre foi. Eu lembro, por exemplo, que o momento que eu começo a ter memórias mais consistentes sobre a minha infância, na escola é com cinco anos ali, mais ou menos. Eu já tinha um ano dentro de uma escola evangélica lá que eu estudava. E as minhas turmas eram turmas pequenas, por uma coincidência. As turmas eram maiores, mas na nossa faixa etária ali eram turmas de cinco, seis alunos.
E aí eu lembro que eu tive um colega de escola que se chamava Fábio, que ele chegou quando eu tinha cinco anos e a minha turma só tinha meninas e tinha eu. Então a professora foi lá e juntou nós dois e meu comportamento automático foi sair da minha cadeira e sentar em outra mesa. Tipo, ele sentou na minha mesa, eu levantei e fui pra outra.
Aí ele foi lá e sentou perto de mim, eu fui e levantei e sentei em outro lugar. Mas aí, eu lembro, eu tenho essa memória muito vívida, que até o final do dia a gente estava conversando e a gente virou meio que melhores amigos. Só que ele era muito esperto, ele tinha uma questão social muito aguçada, ele fazia piada e etc. E o meu jeito de interagir era meio bizarro. Então a gente se entendia em certa medida, mas a gente era muito diferente.
E aí eu lembro que teve algumas situações muito engraçadas, porque, por exemplo, uma coisa que eu fazia era imitar.
Então, eu sabia imitar a letra dele. A gente fazia tarefa. Às vezes, eu queria pregar a peça do professor. E aí, eu colocava o nome dele no meu trabalho, com a mesma letra. E aí, a professora não sabia quem era o trabalho de quem, sabe? Então, assim, eu tinha estratégias meio esquisitas, né? De uma forma geral. Só que, ao mesmo tempo, eu era um aluno que gostava muito de ler. Eu gostava muito de música. Gostava, me envolvia bastante nas atividades.
Mas eu não era muito recíproco com os colegas. Pelo menos eu lembro. Eu lembro que eu teve a época, por exemplo, nesse período com 5, 6 anos, que eu tinha uma fixação por chaves. A série que passava no SBT. Isso me levava a vários problemas na escola. Minha mãe era chamada a atenção. Tinha dessas. Aí mais tarde, no ensino fundamental...
Aí que as dificuldades ficaram um pouco mais visíveis, porque aí começou a entrar o bullying, né? Os comentários um pouco mais complicados. Aí teve alguns problemas escolares também, no sentido de que, por exemplo, em 2003, eu saí de Minas, né? Eu vivi minha infância em Minas Gerais. Fui para a Goiânia e quando eu fui para a Goiânia, eles erraram a minha turma. Eu era da primeira série, do ensino fundamental, me colocaram na segunda série e descobriram isso um mês depois.
Só que eu tinha me adaptado bem à turma, de uma forma geral, mas eu era o aluno mais novo. Aí, sendo um aluno mais novo, que já vinha de outro estado, em outro contexto, aí a galera começou a me encher o saco, pegar no meu pé, e eu não tinha as melhores estratégias pra responder isso. Eu sempre fui uma pessoa que me irritava, pegava ar muito fácil. E meu pai, na época, tava desempregado, então...
Eu só tinha um sapato, que era um sapato social que eu usei numa formatura da outra escola que eu estudava. E eu andava com esse sapato social. O pessoal achou muito esquisito. Eu, de short, sapato social. Aí a galera começou a me chamar... Acho que na época era o Lula que já era o presidente. Começaram a me chamar de presidente Lula simplesmente pela...
Aí eu ficava puto, sabe? Então assim, e aí daí a galera viu que eu era o alvo perfeito pra bullying e aí não tinha amigos e aí minha mãe não sabia muito o que fazer a gente ia pra escola a pé porque o bairro era novo, não tinha muitas escolas aí eu queria mudar de escola, mas não tinha como mudar a gente ia pra escola a pé e ficava a um quilômetro de distância, então assim, era uma vida meio complicada, meio conturbada, assim não só coisas do autismo
E como que todas essas situações impactaram na sua autoimagem? Como você se enxerga, sua autoestima? Nossa, vocês me pegaram, hein? Que pergunta difícil. Porque eu acho que existem coisas que você consegue elaborar ao longo da vida e tem coisas que você vai descobrindo, né? Acho que a gente tá sempre descobrindo coisas novas sobre nós, de uma forma geral. A minha reação inicial era olhar pro meu histórico e falar assim, poxa, eu sou uma pessoa que tira excelentes notas.
professores falam que eu sou um dos mais inteligentes da turma. O problema são as pessoas, né? Tipo, a galera aqui, eu tinha aquele pensamento um pouco arrogante de, ah, o pessoal é inferior, sabe? De uma forma geral.
Só que aí tinha um... Na pontinha, lá no fundo, no fundo, eu sabia que não era exatamente isso, entendeu? E eu sabia que tinha alguma coisa errada, alguma coisa diferente, mas eu não sabia exatamente o que era. Só que, ao mesmo tempo, eu olhava pros adultos, pras pessoas do meu círculo social, e eu acho que quando a gente é criança, a gente olha pros adultos e a gente pensa que existe um fosso de diferença muito grande de maturidade, de como as pessoas lidam. Acho que a gente tem uma visão idealizada dos adultos.
De como eles funcionam de uma forma geral. E eu ficava assim, poxa, tá, eu sou diferente de todo mundo, eu estou de todo mundo, mas eu acho que em algum momento eu vou chegar lá, sabe? Eu me imaginava com 20 e poucos anos, eu me imaginava tendo uma casa, casado, tendo filhos e vivendo a vida normal que todo mundo viveria.
Só que aí eu fui crescendo e vi que não era bem assim. Então, eu posso dizer, e eu já falei isso várias vezes no Introvertendo, que eu tive muitos problemas de autoestima, muitas questões relacionadas à falta de amigos. Eu lembro que, por exemplo, meus colegas frequentemente visitavam a casa um dos outros, faziam coisas sociais e eu fazia isso muito pouco. Minha mãe também não deixava eu ir pra casa de outras pessoas, porque ela ficava com aquela coisa, você vai ficar perturbando as pessoas, vai ficar enchendo o saco, de uma forma geral.
E nós morávamos no bairro muito novo, numa casa gigantesca, que não tinha vizinhos, era lote baldio. Então assim, eu vivia uma vida muito isolada quando me mudei pra Goiânia, de uma forma geral. Então acho que todas essas coisas foram influenciando e foram moldando. E é claro, teve um outro fator também, né? Quando eu tinha meus dois, três anos, minha mãe virou evangélica.
E eu virei muito adepto, né? Eu fui uma pessoa que sempre levou muito a sério a questão da fé, da crença. Então, o meu único espaço de socialização era a igreja. E nas igrejas que eu frequentei até certo momento, não tinha muita gente da minha idade também. Era um pessoal mais velho. Então, eu era muito deslocado nesse sentido. Então, às vezes, eu interagia mais com os adultos. E é uma longa história.
Um passarinho com sobrenome Shmura deu uma dica pra gente que tem uma história envolvendo características do seu autismo. E o Silvio Santos, você quer compartilhar aqui com a gente?
Hum, eu fui uma criança que assistiu muito televisão, né? Então eu falei sobre o Chaves e como a minha mãe era evangélica também, ela não gostava muito que eu assistisse desenhos um pouco mais violentos. Então os desenhos da Globo ali, né? Eu sei que teve uma geração que cresceu assistindo TV Globinho e isso não fez parte da minha vida. Eu assistia TV Cultura, assistia o Pica-Pau, que eu acho que...
Teve uma época que passou no SBT, teve uma época que passou na Record, né? E era isso, assim, de uma forma geral. E eu gostava muito de programa de auditório. Eu tinha uma fixação muito grande por como é que o universo da TV funcionava. Os telejornais, os programas de uma forma geral. Eu tinha formas de brincar que eram mais ou menos isso. E o meu sonho quando era criança era ser jornalista por causa de TV, especificamente. Depois eu fui desenvolvendo o gosto pela escrita e foi outro universo. Eu lembro que quando eu tava ali com uns 9, 10 anos... '' ''
foi quando estreou o Roda Roda da Chevrolet, né? Que teve o Roda Roda da Chevrolet, teve o Roda Roda da Johnson & Johnson e depois virou o Jequiti, que já é a... O do Chevrolet foi o melhor. O do Chevrolet foi o melhor porque tudo era relacionado a modelos de carros, né? Aí você tinha os valores dos prêmios relacionados aos carros. Nossa, muito bom.
E eu era fixado no Roda Roda, porque também envolvia testes de conhecimento, de identificar quais eram as palavras que poderiam se combinar com um tema específico. E eu sempre ficava, gente, se eu participar de um negócio desse, eu vou me dar bem. E todos meus parentes falavam, se o Thiago aparecesse nesse programa, ia dar certo. Mas uma criança não aparecia nesse programa, né? E aí eu lembro que era dia 30 de setembro de 2004. E aí minha mãe estava recebendo a visita de um ex-namorado da minha prima.
E aí ninguém sabe exatamente a história, mas aparentemente ele estava contando vantagem em algum contexto social sobre salário, sobre dinheiro. Aí teve essa hipótese deles, né? E aí alguém ficou com raiva disso e chamaram os caras para dar um susto nele. E aí seguiram ele, e ele foi visitar minha mãe, e aí eles entraram na casa, renderam todo mundo.
Pra saltar a casa. Só que, como eu falei, meu pai ele tava desempregado no ano anterior. Então a gente tava muito ferrado nessa época. A gente não tinha dinheiro. Minha mãe tinha 5 reais dentro de uma bolsa. E eu tinha 4 reais em moeda de 1 real dentro de uma caixa de leite. E como era uma caixa de leite, ninguém tinha identificado nada. Só que eles chegaram na hora do Roda Roda. Eles me atrapalharam no programa. E eu fiquei com muito ódio disso.
Então aí, pediram pra minha mãe avisar, né? Eles amarraram todo mundo. Menos a minha mãe, que minha mãe tava calma. E eu também, eles não amarraram.
E eu tava, tipo, sabia da situação, da tensão Mas eu tava, que merda Eles tão atrapalhando meu momento de assistir o Roda a Roda É
Enfim, eles roubaram quase nada. Roubaram, pegaram um celular meu da minha mãe, que era um Nokia 5120 que tinha antena, tacaram no chão porque não prestava, era um celular tijolão. E levaram o meu Polystation eu tinha um, né, que era aquela cópia pirateada do Playstation 1. Nossa, que tristeza, hein? Eu fiquei sem videogame e foi isso. Então essa é a minha memória traumática de Roda Roda, Silvio Santos e... Você ficou sem videogame, mas você assistiu o Roda Roda. Eu assisti o Roda Roda.
Tanto é que depois que os ladrões foram embora, a minha mãe foi pedir ajuda a uma vizinha e eu fui lá pra ver se o Roda Roda ainda tava passando. Peguei os dez últimos minutos do programa ainda. Pois é. Tiveram muitas histórias na sua vida que são parecidas com isso ou que tem a ver com...
Essa franqueza, essa espontaneidade natural do autista de querer fazer o que quer fazer e não seguir o escrito social das coisas, né? Mas em que momento da sua vida...
você começou a sentir que isso realmente começou a se tornar algo que atrapalhava você de fazer coisas que você queria fazer e você não conseguia por causa das dificuldades que o autismo trazia. Eu acho que o momento que isso foi me chamar da atenção, de fato, foi durante a adolescência, foi um pouco mais tarde, porque...
eu via que as minhas dificuldades não eram relacionadas só ao autismo. Tinham questões culturais, tinham questões da criação, do ambiente mesmo que eu vivia. Tinha questões relacionadas a outras características minhas. E eu acho que foi durante a adolescência que eu percebi...
que o fato das pessoas me odiarem ou eu não ter sucesso na socialização não tinha a ver com o fato de coisas pregressas que elas conheciam sobre mim. Como eu mudei de muitos lugares, de muitas cidades, estados, eu sempre tinha oportunidade de conhecer pessoas novas e estar em contextos que eu sou uma folha branca. Ninguém sabe nada sobre mim, ninguém sabe que eu fracassei socialmente em outros contextos. As pessoas podem ter uma impressão nova, positiva sobre mim.
E o que eu via era um padrão se repetir. Todo lugar que eu ia, depois de um tempo, aconteciam as mesmas coisas de pessoas que não tinham conexão nenhuma. Eu entendia que eu precisava de estratégias ou de pelo menos ter um maior sucesso na socialização, mas eu não sabia como. Parecia muito natural para as outras pessoas o que não era para mim. E aí eu lembro que quando eu terminei o ensino fundamental e eu ingressei no ensino médio, isso foi de 2009 para 2010,
Eu morei um tempo em Minas Gerais, eu fiquei lá por uns dois meses porque meu pai comprou uma casa lá em Minas. Aí eu passei aqui em Goiânia, tive que voltar, meus pais ficaram lá e eu fiquei morando com meu tio. E aí eu estudei em uma escola que foi esse teste, assim. E como eu fiquei pouco tempo lá, um mês, dois meses, parecia tudo ok, de uma forma geral, em termos de interação. Aí eu vim para Goiânia, passei do Instituto Federal de Goiás, que foi uma parte muito importante da minha vida.
E eu lembro que depois de uma semana, duas semanas, o pessoal da turma me odiava ou fazia comentários jocosos, bullying, etc. E eu ficava assim, vai ser assim pelo resto da vida, vai ser assim para sempre. E eu acho que é esse momento que eu percebi, só que eu percebi sem aquela percepção do tipo assim, ah, tenho estratégias, tenho formas para mudar isso.
Aí foi no final do ensino médio, já meados de 2013, que é claro que isso afeta a autoestima, e eu pensei assim, ah, eu acho que eu tenho depressão. E foi nesse momento que eu comecei a procurar por uma resposta que depois desaguava no autismo. Então a descoberta do autismo também foi por conta própria, porque por mais que eu não tinha estratégias, eu tinha uma auto-percepção que tinha alguma coisa para fazer, sabe? No caso, o diagnóstico já veio depois.
Do ensino médio? Depois do ensino médio. Na verdade, assim, tem uma coisa que aconteceu na minha infância também que foi muito importante, que a minha mãe percebia algumas questões. Eu tenho uma memória muito boa, muito boa não, uma memória muito ruim, mas uma memória sólida, né? De quando eu tinha oito anos de idade na escola e eu tinha um colega que fazia bullying comigo, ele perseguia.
Tinham coisas que beiravam assédio mesmo. E aí o pessoal da escola tinha uma reação do jeito assim, ah, mas ele dá brecha, ele é um aluno chato, assim. Ele é um aluno que tira boas notas, mas ele é problemático. E aí eu lembro que teve uma vez que eu não lembro qual foi a situação exatamente. Eu acho que eu tive algum conflito com a professora, eu falei alguma coisa, respondi, e ela me mandou para a sala da coordenação.
E a coordenadora fez um monólogo de uma hora pra mim. Eu tinha oito anos de idade e eu lembro isso com uma memória muito sólida da minha vida. Do tipo assim, olha, você não vai ser sozinho pra sempre. Você precisa fazer amigos, você precisa não sei o quê. E ela foi falando várias coisas e tudo que parava na minha cabeça, beleza, eu entendo, mas como? Então eu cresci com várias situações desse tipo, inclusive professores adultos falando coisas.
pra mim, que eu precisava fazer ou que eu precisava ser, mas era como se tudo dependesse de uma estratégia, de uma atitude minha perante a sociedade. E eu ouvi isso durante o ensino fundamental inteiro, eu ouvi isso durante o ensino médio também. O pior, assim, o bullying dos colegas eu até espero, agora por parte de professores que o negócio era meio complicado, né, de uma forma geral.
E aí foi durante o ensino médio que eu realmente tive essa suspeita. Porque se você me perguntasse o que eu sabia sobre autismo até aquele momento, eu não sabia nada. Eu tinha uma colega do ensino médio que a galera fazia piada chamando ela de autista. Nem autista ela era. Só porque às vezes ela era meio desligada e o pessoal usava esse termo em referência a ela. Então a primeira vez que eu ouvi falar sobre autismo, eu tive que ler e entender porque era algo que nem fazia parte da minha realidade a princípio. É, e nesse sentido... Eu...
veio então o diagnóstico, o que você acha que o diagnóstico impactou a partir do momento que você subiu? Tá, sou autista. E agora? O que eu faço com isso? Porque essa pergunta acho que todos nós nos fizemos logo de cara quando recebemos o diagnóstico. Como é que foi pra você esse momento? Olha, o diagnóstico impactou antes mesmo dele ser fechado, na verdade. Porque a história, no geral, é o seguinte. Eu estava no final do ensino médio.
Eu frequentava uma igreja nessa época. Era uma igreja que era dividida em células. E aí tinha reuniões semanais, na verdade, dessa igreja em células em casa, né? E aí eu lembro que teve um sábado que eu fui lá na casa da pessoa que estava organizando.
E quem organizava essa célula líder era uma psicóloga, uma psicóloga de RH. Inclusive, eu tenho um ranço muito grande de psicólogo de RH, porque todos eles que eu já conheci eram pessoas meio complicadas. Se você ouve o Introvertendo e você é um psicólogo, psicóloga de RH, espero que você não seja uma pessoa assim. Mas acontece que eu fui cumprimentar ela, eu fui abraçar ela, ela virou pra mim e falou assim, é, quem abraça desse jeito é porque quer soltar logo.
Eu achei um comentário muito gratuito, eu fiquei muito irritado, eu me senti muito desrespeitado.
E aí depois que tudo acabou e eu fui voltar pra casa, eu andava um longo trecho a pé. Pra referência, eu sei que algumas pessoas que ouvem a gente são da cidade de Goiânia, eu saía do bairro Urias Magalhães, na região norte, e ia mais pra perto do Balneário Minha Ponte. Então eu andava uns dois km a pé e eu fazia esse trecho a pé.
E aí eu voltei esse período todo andando, pensando na vida, assim. O que há de errado comigo, né? O que há de estranho? E eu não tava sem nada pra fazer. Era um sábado à noite, eu fui no meu notebook e comecei a... Mente vazia, Oficina do Diabo, né? Comecei a pesquisar testes de depressão.
adolescente, 17 anos, né? Fui lá. E aí eu encontrei uma notícia falando sobre um teste da PUC do Rio Grande do Sul que chamava Temperamento. Que você respondia, sei lá, 60 perguntas sobre a sua infância e 60 perguntas sobre aquela que eram no mesmo viés pra sua vida hoje. E eles traçavam um comparativo sobre seu perfil na infância e o momento que você vivia.
E aí eu respondi lá, deu sim uma cacetada de possíveis diagnósticos. Naquele momento da minha vida, como eu estava em sofrimento mental, é claro que as minhas respostas induziram para um monte de possíveis diagnósticos. Mas na infância teve um que era marcado como um provável de sinal na infância, que era transtorno de personalidade esquizóide. Aí eu fui ler o que era esse tal desse transtorno de personalidade esquizóide. Aí eu via que tinha uma questão social.
E aí eu comecei a observar conteúdo de algumas pessoas sobre esquizóide. E eu falava, tem alguma coisa que não bate aí, porque o esquizóide tem um desinteresse pelas relações sociais, um desprezo pelas relações sociais. E aí eu lembro que um desses espaços que eu estava acompanhando, teve um cara que postou assim, olha, tem gente aqui que provavelmente não tem interação no esquizóide, e sim síndrome de Asperger.
Falei, o que é essa síndrome de Asperger? Aí eu fui olhar a síndrome de Asperger, não sei o que, do autismo. Eu falava, autismo? Nada. Que autismo? Eu nem sei o que é autismo. Não faz o menor sentido. É uma coisa totalmente fora da minha realidade. Aí, mas eu tava com o bichinho da dúvida, sabe? Na cabeça. E já era época do Facebook. Eu entrei num grupo do Facebook.
que era sobre síndrome de áspera, e eu entrei só como observador. E o que tinha era postagens de pessoas perguntando sobre vida social, dificuldades sociais, como é que interpretava situações específicas de fazer e manter amizades. E eu falei, caramba, isso faz muito sentido. Tem um sentido lógico muito grande. E aí, nesses mesmos espaços, eu encontrei um blog de uma mãe de autista.
daqui de Goiânia, que tinha contato com vários profissionais, inclusive conhecia algumas pessoas do Naya, fez parte de algum momento da história pré-Naya. E aí eu entrei em contato com ela. E aí ela me encaminhou para o neurologista em 2015. Essa suspeita começou em 2013. Em 2015 foi quando o neurologista fechou o diagnóstico.
E aí, respondendo finalmente a sua pergunta, o impacto foi imediato. Por quê? Porque a partir do momento que eu comecei a procurar ela e essas redes, é claro que eu não me afirmava enquanto autista.
mas só o fato de entender que provavelmente a minha vida estava relacionada a uma condição e essa condição tinha uma série de explicações que eu sequer tinha racionalizado sobre isso, eu comecei a pensar, olha, eu acho que eu preciso mudar o meu jeito nisso aqui, isso aqui de fato era um problema das pessoas, e eu comecei a adentrar alguns espaços sociais ainda pré-diagnóstico que eu percebi que a minha interação social já estava melhorando.
Porque eu já estava evitando de fazer coisas que faziam as pessoas me odiarem. Então, as primeiras amizades que eu tive, que duraram mais de um ano, foram a partir daí, de 2014 pra frente. E algumas dessas pessoas foram muito importantes depois pro meu processo de diagnóstico, pra investigação do autismo. Quando eu comentei com a minha mãe, né, e quando eu recebi o diagnóstico, minha mãe não tem nenhum repertório técnico sobre autismo, né?
Mas pra ela fez muito sentido. Ela falou assim, é, você sempre foi meio assim. Eu sempre tive a perspectiva que quando você fosse trabalhar, tinha que trabalhar em alguma coisa específica porque você tem o seu jeito de lidar com questões X e Y e tal. E é basicamente isso. E aí eu costumo falar, já falei isso várias vezes no Introvertendo, que os melhores anos da minha vida foram anos pós-diagnóstico.
de fato. E eu acho que o lado ruim de você ser autista sem diagnóstico quando você é criança, é que você passa por muita coisa ruim. E o lado bom, se é que dá pra dizer que isso é um lado bom, ou pelo menos é um lado agridoce, é que você não cai na armadilha que o ser humano cai de ter nostalgia do seu passado, né? Que todo mundo tem aquela coisa, ah, se eu voltasse aos tempos de criança, melhor fase da vida, infância, adolescência.
Eu não sinto saudade da minha infância e adolescência, não. Eu não voltaria ao passado, não. Eu prefiro viver o momento de agora mesmo.
Eu acho que em algum momento a gente acaba chegando a essa conclusão, né? Eu demorei um pouquinho mais pra começar a ter consciência de que a melhor fase da vida que eu tô vivendo é agora também, depois do diagnóstico. E principalmente depois de passar...
pelas terapias e pelos suportes que fizeram falta lá atrás, que são necessários para a gente conseguir ter uma vida plena. E que eu tenho certeza que no seu caso também foi o caso. Quando você começou, o próprio fato de você começar a saber o que precisar fazer para melhorar socialmente é um tipo de suporte que a gente precisa. Tiago, pensando que todo autista necessita de suporte, quais são as formas de suporte que você tem hoje em dia? Olha, eu sou uma pessoa que...
Em termos de autocuidado, eu vejo que algumas coisas básicas que são necessárias para a vida eu consigo manter, por exemplo. Eu lembro isso muito claramente porque eu morei um tempo em Porto Alegre.
E quando eu fui pra Porto Alegre, eu recebi muito a ajuda do meu amigo William, que fez parte do Introvertendo, que eu já falei dele várias vezes aqui no podcast. E eu lembro que ele falou uma coisa pra mim na primeira semana, no primeiro mês que eu me mudei pra Porto Alegre, que foi muito marcante pra mim. Ele falou assim, ó, o jovem médio, quando ele começa a morar sozinho...
ele se permite a ficar um pouco relaxado em relação à família, porque você não precisa ficar lidando com cobranças. Por exemplo, você tem que limpar a casa com tal frequência. Aí você vai lá e pede um iFood, e você come aquilo que você quer. E a primeira coisa, segundo ele, que eu fiz quando fui para Porto Alegre, foi estabelecer uma rotina de limpeza, de cozinhar. Eu não pedi comida fora, eu comecei a cozinhar lá dentro.
E ele achou isso muito bom, assim, de uma forma geral, a nível de autista e de como o jovem médio ele faz. Então, eu vejo que eu tenho, assim, uma autogerência boa nesse sentido. Eu morando aqui em Goiânia, eu voltei tem três anos. Eu pedi iFood uma única vez porque eu tinha visita e a galera queria comer pizza. Fora os outros rolês, assim, que eu falo que eu pedi diretamente que eu tive que instalar o iFood ali no celular e pedi. Eu cozi minha própria comida, eu tenho uma rotina de limpeza.
Mas eu tenho uma dificuldade muito grande de sair da rotina, de fazer coisas diferentes. E se eu estou num ambiente, por exemplo, novo, um ambiente, sei lá, vou para uma festa, se eu não estiver com alguém, eu fico muito desconfortável. Então eu acabo fazendo as mesmas coisas, vendo a mesma vida, assim, de uma forma geral. E foi isso que me fez dar errado, entre aspas, em Porto Alegre. Porque lá eu conseguia trabalhar.
Eu trabalhava remoto de casa. Eu conseguia cuidar da minha alimentação. Eu conseguia manter uma rotina de limpeza. Chegava final de semana, eu ia na feira. Eu ia no supermercado, comprava as coisas. Eu ia no psicólogo. Mas eu não tinha vida social. Quando eu tentava ter vida social, eu ficava muito tenso nos lugares onde eu ia. Eu tentei fazer amizades nos lugares onde eu estava. E aí, quando você tem uma certa faixa etária de idade...
As pessoas estão mais fechadas. Eu tenho essa impressão que na faixa dos 25 aos 35 é uma fase que as pessoas estão se estabelecendo, estabelecendo em termos de vínculo amoroso, de trabalho. E essa parte do social vai ficando mais atrofiada. Vinha de um contexto pós-pandemia. Então eu me sentia muito sozinho, de uma forma geral.
E hoje eu vejo que muito do que eu consigo fazer, que é da minha dificuldade, eu consigo com a ajuda de outras pessoas. Então, por exemplo, eu faço exercício físico na academia, de uma forma geral. Eu odeio o ambiente da academia. O ambiente da academia é extremamente aversivo para mim. Se eu vou para a academia sozinho, você pode ter certeza que eu vou pular 3, 4 exercícios, vou chegar para mim, quero voltar para casa, quero ir embora.
Mas se eu estou com outras pessoas e eu dependo delas para voltar para casa, ou elas dependem de mim para voltar, eu faço o treino direito.
eu vejo que se o meu círculo de amigos me convida pra ir pra um lugar aí eu tenho uma vida social de sair de ir pros lugares, conhecer lugares novos se eu tenho que sair com alguém e eu tenho que escolher o lugar, aí fica mais complexo escolher o lugar, porque eu não conheço muitos lugares
Então eu acho que a principal ajuda, o principal apoio que eu tenho, o apoio social de pessoas ao entorno. Porque eu sou uma pessoa que tende a viver uma vida muito solitária. E eu acho que isso é muito comum. Seria o suporte relacional que você está falando? Sim. Suporte relacional e suporte para conseguir ter iniciativa nova, para fazer coisas novas. Suporte para sair do interesse restrito.
É, porque eu sou uma pessoa muito rotineira. Então, se deixar, eu faço sempre as mesmas coisas. Eu como a mesma comida. Eu lembro que uma vez eu fui na nutricionista. Ela, como é que você aguenta comer sempre isso e isso sem enjoar? Eu falei, acho que é autismo, né? Mas assim, minha alimentação é saudável. Então, tem autistas que têm dificuldade, por exemplo, com autocuidado. Tem dificuldade, por exemplo, com até a qualidade da alimentação.
A minha dificuldade para algumas coisas, ela até que não é as coisas mais julgadas pela sociedade. Mas as coisas que me comprometem também comprometem. E eu acho que como a vida é dinâmica e você precisa lidar com o inesperado, você precisa lidar com coisas novas, às vezes para você conquistar certas coisas na sua vida do ponto de vista profissional, do ponto de vista amoroso, do ponto de vista das relações familiares, você precisa ser mais flexível.
E eu sou extremamente rígido. Eu vivo mesmo numa disciplina militar. Então, isso acaba sendo um pouco mais…
difícil. Agora, mudando um pouco de perspectiva, no seu livro O que é Neurodiversidade? Você faz um breve compilado sobre o histórico do termo, aplicações, críticas, impactos. Por que você resolveu escrever esse livro?
Esse livro é fruto do meu contato com a comunidade do autismo. Porque no momento que eu descubro o autismo, eu fico impactado. E eu começo a me interessar pelo autismo enquanto conceito. Enquanto diagnóstico, com toda a sua carga histórica. Com as suas implicações médicas, sociais, culturais e tal. Até o momento que eu começo a participar do cenário do autismo localmente. Participo aqui em Goiânia, participo a nível nacional. E surge o Introvertendo. O Introvertendo dá uma visibilidade legal.
E eu chego à conclusão do tipo, ah, eu quero estudar autismo na pós. Eu quero fazer mestrado, doutorado, mesmo na minha área, que é a comunicação, estudando autismo. E aí, tem a pandemia de Covid-19, no ano de 2020. Foi um ano que foi difícil no sentido de que era o ano que era para o introvertendo acontecer. E aí, tudo aconteceu de forma diferente. Uma coisa que eu nunca contei aqui na história do introvertendo, já que eu posso falar de bastidores.
É que 2020 foi o ano que a gente meio que profissionalizou o podcast e a gente estava com uma galera, uma assessoria de imprensa, eles estavam alinhando várias coisas para a divulgação do podcast e do autismo na vida adulta no mês de abril. Inclusive uma participação no programa Encontro com Fátima Bernardes. Na época, a Fátima Bernardes ainda era do programa. Aí veio a pandemia, fechou tudo e a galera só queria falar de pandemia.
todas as portas de discussão sobre o autismo em 2020 foram fechadas. E aí, a gente acabou falando sobre autismo de outras formas, o podcast acabou crescendo por causa que, com a pandemia, todo mundo começou a ouvir podcast e a coisa aconteceu de outro jeito. E aí, chegou no final de 2020 e eu estava pensando, o que eu vou fazer de planos para a vida? Eu tinha passado no mestrado, a gente não tinha muitas oportunidades de eventos, de discussões sobre o autismo, e eu sentia falta de fazer alguma coisa fora do podcast.
Aí, dia 1º de janeiro de 2021, eu estava numa chamada com o William, inclusive, falando sobre planos para a vida, ele bebendo e a gente trocando ideias. E ele falou assim, por que você não escreve um livro meio neurodiversidade para iniciantes? E aí eu falei, poxa, gostei dessa ideia. Aí, com uma semana, eu escrevi o rascunho no projeto, porque tinha várias coisas que eu já estava escrevendo na época do mestrado.
E foi essa ideia, porque eu parei pra pensar poxa, a gente não tem um livro que vai discutir neurodiversidade no contexto histórico em língua portuguesa. Hoje em dia a gente já tem. Já teve gente que publicou depois. Mas naquele momento a gente não tinha uma coisa e os materiais eram em inglês.
Então, era uma ideia de ser um livro de bolso, que a gente tivesse referências a outros livros, as outras obras, para que as pessoas conseguissem seguir o raciocínio meu de procurar também as obras originais. Então, essa é a motivação do livro e eu posso dizer que foi um livro que teve um impacto muito bom.
Porque no momento que eu lanço ele, isso me dá mais espaço para mais palestras e eventos, que era algo que eu já fazia, mas eu fazia por causa do introvertendo. E aí depois teve gente que começou a me chamar por causa do livro. E aí são convites muito diferentes. E até hoje o livro rende. Eu estou num momento meio semi-aposentado da comunidade do autismo, mas de tempos em tempos eu recebo convite ainda e faço coisas.
E aí, pegando o gancho nessa história de livro, você tem um outro livro também muito interessante que você escreveu, chama Histórias de Paratinga, que conta a história da cidade de onde vêm seus ancestrais. Você pode considerar que é o seu lugar culturalmente de origem. Além de ser um registro histórico, ele é um registro que é uma parte de quem você é.
Você consegue fazer algum paralelo entre as histórias de Paratinga e a sua história pessoal e o outro livro? Não sei se é que existe, né? Qual a importância desse livro pra sua história, principalmente no pós-diagnóstico, né? Se se influenciou, de certa forma, você ressignificou algumas coisas? Como é que a sua relação com Paratinga, o que ela tem a ver com isso? Eu tenho certeza que tem alguma coisa. Tem muita coisa a ver. Eu diria, assim, que das muitas coisas que eu fiz na minha vida,
História de Paratinga, ele tá no top 3, com risco de ser a coisa mais... Pessoalmente mais importante que eu já fiz. Que eu tenho mais carinho. Quando eu tava na adolescência, nesses períodos de ver muita dificuldade social minha, eu viajava com bastante frequência pra Paratinga.
E eu fiquei cerca de 5, 6 anos sem visitar a cidade. Porque quando você se torna adulto, você vai relembrando a sua vida, você também vai ficando com vergonha de certas situações sociais. E isso me travava um pouco de... A galera sempre perguntava, ah, quanto que você volta, quando você volta? Eu falava, ah, não sei. Mas na verdade tinha um pouco a ver com isso, sabe? E aí eu lembro que eu estava na graduação, eu já tinha o diagnóstico de autismo, e eu resolvi voltar pra lá em 2016.
E ficar seis anos distante da cidade me fez perceber que quando eu cheguei lá, pouca coisa tinha mudado, na verdade. Porque é muito engraçado, a vida muda, mas tem lugares, inclusive Paratinga, que mudam coisas específicas, mas outras coisas permanecem a mesma. Até o tempo parece diferente quando você está numa cidade de interior, assim. E com o diagnóstico, com ressignificações de coisas da minha vida...
Eu comecei também a buscar alguns vínculos culturais também com a questão do autismo, talvez com as minhas origens familiares. Eu sempre cresci a ouvir falando que meu avô era diferente. Meu avô, o pai da minha mãe. Que ele tinha algumas características que podem ser associadas ou não ao autismo. Eu venho de uma família, principalmente da parte materna, que era um pessoal muito da música, de uma forma geral. O meu bisavô era sanfoneiro.
E o meu avô acompanhava ele quando era mais novo. Meu avô construiu instrumentos. Meu tio tem um violão que foi o meu avô que fez. Mas ele tinha muita dificuldade social. Chegava uma visita, ele falava com as pessoas por cinco minutos. Ele saía e deixava os outros fazerem o social. Ele era popular porque a localidade que a gente tinha lá, que existe na verdade até hoje, é um ponto de passagem. Então todo mundo passava por lá. Mas ele era um sujeito meio atípico.
Só que meu avô morreu em 2001, ele morreu num acidente doméstico. Então a gente não teve nenhuma possibilidade de ele ter um acesso ao diagnóstico. Mas eu tenho vários familiares e parentes com sinais. Eu tenho um primo que depois foi diagnosticado, eu tenho um tio, irmão da minha mãe, que a gente acha ele super autista. Ele tem hiperfoque em Roberto Carlos e mecânica. É basicamente isso, assim.
E aí eu fui identificando essas coisas, mas eu também acho que fui encontrar algo maior, porque como eu sempre morei em muitos lugares, meus pais são do oeste da Bahia, eu fui feito em Brasília, nasci em São Paulo, fui alfabetizado quando eu morava em Minas, morei em Goiás e passei dois anos no Rio Grande do Sul, eu sempre me senti meio que de lugar nenhum. Eu sou de muitos lugares e ao mesmo tempo de lugar nenhum. Eu falo isso inclusive no meu livro.
E o que eu descobri depois é que Paratinga explica talvez um pouco sobre mim, mas não explica tudo. Mas lá é um lugar que eu me sinto à vontade hoje em dia. É um lugar que faz todo sentido. E o legal é que o livro me permitiu construir vínculos com outras pessoas da cidade. Então tem várias pessoas hoje da cidade que eu construí uma proximidade, uma interação, que de vez em quando quando eu vou lá eu visito. Tem parente que eu não visito, mas eu visito pessoas da cidade que eu não tenho vínculo de parentesco, que são pessoas muito legais.
E eu acho que eu consegui deixar uma contribuição para a cidade, porque até o momento a gente não tinha um livro geral sobre a cidade. A gente tinha um livro sobre a fila harmônica da cidade, que era de um professor da UFG, que era de Paratinga, que ele foi assassinado. E contribuir com um município que não tem muito registro histórico. É uma das cidades mais antigas do estado da Bahia.
É a cidade mais antiga de toda aquela porção depois de Jacobina, que fica mais para cima. É uma cidade meio que mãe de quase todas as cidades ali da região, mas é uma cidade que não preserva a sua própria memória, a sua própria história. E o pior, o que é menos preservado são as coisas mais recentes. Eu consigo achar coisas sobre a cidade no período colonial, no período do Império, mas eu não conseguia achar coisas sólidas sobre a cidade no período da ditadura, por exemplo.
Ou, na década de 2000, que quando um prefeito ganha uma eleição, ele vai lá, a primeira coisa que ele faz é apagar o site da prefeitura, que tem todos os registros, e cria e-mails novos, inclusive, da gestão X. Não tem continuidade, não tem registro. Então, essa é uma coisa que me pegava muito quando eu pensava. E se as pessoas quiserem comprar os seus livros, onde é que elas encontram?
Dá pra encontrar... O História de Paratinga tem exemplares até hoje físico e digital. O Que é Neurodiversidade, a gente lançou uma segunda edição ano passado, que também está disponível, ambos pela editora Cânone Editorial, que é uma editora daqui de Goiânia que publicou. Antes eu vendia por conta própria também, mas as minhas unidades se esgotaram. Vamos colocar o link na descrição desse vídeo, então.
Você mencionou que a sua família sempre foi musical. A música, como você já disse, em vários lugares, é um dos seus hiperfocos. E recentemente, você, o Marques e mais dois amigos criaram uma banda. Queria que você, de repente, o Marques também complementasse, contasse um pouco sobre essa história. É, isso aí é uma coisa muito legal, porque eu cresci com um vínculo muito forte de música e, ao mesmo tempo, uma frustração muito grande por não saber tocar um instrumento. E a minha mãe me disse isso ano passado e eu fiquei...
Eu fiquei com uma sensação muito desconfortável de saber disso, que ela disse que quando eu era criança ela quis me oferecer, as pessoas me ofereceram aula de instrumento e eu recusei. Porque supostamente eu só queria cantar. Mas eu lembro que teve uma época durante a minha infância que eu quis muito aprender bateria, mas justamente pelo que eu falei, da gente morar num bairro novo, que era longe de tudo. Minha mãe só teve carteira de motorista depois da pandemia.
Ela não conseguia dirigir. Meu pai vivia viajando, então não tinha carro à disposição.
Eu nunca tive a oportunidade de fazer aulas ou fazer coisas diferentes no meu contexto social.
E fui deixando. Em 2010, quando eu tinha 14 anos, eu comecei a fazer aulas de teclado. E aí eu fiz por dois meses e me abandonei porque eu não tinha dinheiro pra poder manter também. Meus pais estavam em Minas e eu tava aqui em Goiânia. Eu tentei várias vezes ter esse vínculo de novo com a música, mas ficava uma coisa meio à parte. E aí eu pensei, tá, já que eu não domino o instrumento, eu ouço música o dia inteiro, eu gosto de música e gosto de música pra um além da questão musical, mas também da questão contextual, histórica, discografias.
meio que eu comecei a escrever sobre música. E isso virou parte da minha profissão. Eu trabalhei muitos anos no mercado da música, fiz jornalismo de música. Mas aí, quando eu entro no Naya em 2024, eu fui assistir um show dos Lanternas, que foi numa quadra de beat tênis. Foi uma coisa muito doida que aconteceu, né? Foi um show dos Lanternas numa quadra de beat tênis, se lembra? E eles estavam entregando um...
uma viseira, aquelas viseiras que o pessoal usa pra fazer corrida, pra jogar tênis, sabe? E eu tinha uma brincadeira com um amigo meu de internet dez anos atrás, que se eu montasse uma banda e eu tocar... Na verdade, eu acho que eu nem cheguei a comentar com ele. Era uma coisa que eu tinha na minha cabeça. Se eu aprendesse a tocar bateria, por exemplo, eu queria ter alguma estética que fosse minha, fosse a assinatura minha. E uma coisa que eu queria era ter aquelas viseiras.
No momento que eles começaram a distribuir aquelas viseiras, no primeiro show que eu fui...
Não foi no primeiro, foi no segundo, né? No segundo show dos Lanternas que eu fui acompanhar, foi um chamariz falando, você precisa começar a estudar um instrumento. E eu falei, não, vou conseguir isso. Em 2024 foi um ano que eu tive muitas mudanças na minha vida, porque eu fui demitido da empresa que eu trabalhava, que produziu Introvertendo antes.
E aí, conversando com o William, que é um grande amigo meu, ele falou assim, olha, você é uma pessoa muito controlada, muito organizada, mas eu tenho a impressão que você não cuida de você, assim, de uma forma geral. Você não investe em você. Você é muito comedido e eu acho que agora você poderia se permitir a fazer coisas diferentes, a ter lazeres novos, de uma forma geral.
E eu fazia natação na época, aí eu fiz natação por um ano e larguei a natação e falei, vou estudar bateria. Aí eu comecei a estudar bateria e comecei a desenvolver o gosto pelo instrumento. O Naya me deu um apoio nessa parte inicial, tinha uma bateria de criança lá que ninguém usava, eu usava ela para estudar e comecei a seguir um padrão muito rígido mesmo de estudo.
E aí eu via que ir na casa da minha mãe duas vezes por semana pra estudar bateria e frequentar as aulas não era o suficiente, que eu precisava tocar todos os dias. Aí eu comprei uma bateria eletrônica, comecei a tocar todos os dias, aí eu comecei a ver a diferença de nem que fosse tocar 5, 10 minutos por dia. E comecei a tomar gosto pela coisa. E eu sempre tive no meu círculo social algumas pequenas interações que eram relacionadas à música.
eu tive um colega no ensino médio que a gente era muito diferente, mas ele era a única pessoa, talvez, que não fazia bullying comigo e que tinha uma relação muito respeitosa comigo, que era o Saulo. E a gente perdeu o contato durante uma época porque o ensino médio foi uma fase muito ruim e eu não quis manter contato com ninguém daquele período.
E aí a gente se reencontrou numa festa de aniversário em 2019 e a gente ficou muito próximo desde então. E toda vez que a gente se via, a gente ficava horas conversando sobre música, sobre um disco novo, lançamento de algum artista XY. Ele me chamava pra assistir show, a gente viu o show do Roger Waters em Brasília.
E eu tinha um amigo de internet que eu conheci no Twitter, que era o Pedro Henrique Kisch. Que ele começou a me seguir porque ele era fã de Paul McCartney. Ele estava procurando pessoas que gostavam da carreira solo do Paul McCartney em Goiânia. E o Paul McCartney estava lançando um álbum na época que era o Egypt Station. A gente virou meio que amigo de internet e eu chamei ele para participar aqui do Introvertendo. Para falar sobre o Paul McCartney.
Foi o episódio 50. A arte de Paul McCartney, que é o episódio que ele participa.
Então eu conheci essas pessoas no social. Às vezes eu viajava com o Pedro também pra CG Show. A gente viu o Paul em Brasília. A gente viu o Kine em São Paulo em 2024. E o Waze, ano passado também, em São Paulo, em 2025. E eu comecei a frequentar um projeto na UFG, que é o Muse Vecidade. Que é um projeto que o Marcos frequentou durante muitos anos.
E aí eu levei esses dois amigos meus pro projeto, pro Musiversidade, né? A gente começou a interagir os quatro. E aí teve uma situação social, e eu acho que ventilou sobre a minha cabeça e ventilou sobre a sua cabeça. Que em algum momento a gente teria uma banda. Só que ninguém falou nada. Eu nunca falei isso e o Max nunca falou. Só que aí teve um dia que o Pedro tava em Londres e a gente foi fazer um rolê. E aí o Saulo falou assim, ah, o Musiversidade tem espaço pra tocar música internacional?
E aí eu falei assim, acho que é melhor a gente montar uma banda, né? E aí o Marques falou, a gente pode fechar em quatro. E aí a gente foi e montamos a banda e depois a coisa foi fluindo muito rápido. Eu nunca achei que eu ia ser capaz porque eu tava começando a aprender o instrumento. Ainda tem algumas limitações. Tem duas pessoas de muito talento na banda que já tem muito mais repertório de... Não só de show, mas também de gravação, que é o Pedro e o Marques.
Mas acho que a gente encontrou uma sintonia muito boa. E aí daí pra frente foram acontecendo outras coisas. Eu lembro, por exemplo, que quando a gente montou a banda, eu tinha uma ambição de a gente fazer música autoral e gravar as nossas próprias coisas. E o objetivo da galera era só se juntar e tocar cover. E eu pensei, eu não vou chegar aqui com o objetivo principal que eu vou assustar todo mundo. Mas eu vou agir pelas beiradas.
Aí qual foi a primeira coisa que a gente fez? A gente fez uma playlist e a gente colocou as músicas que a gente queria tocar.
aí a gente colocou as músicas na playlist, cada um escolhia duas músicas pra colocar nos ensaios, eu fui e coloquei uma música autoral do Pedro, porque o Pedro já compunha só que o Pedro falava que só compunha em inglês aí beleza, a galera tocou a música do Pedro, todo mundo gostou e incorporou isso como parte da banda
Aí tá, primeira etapa, a gente tá tocando alguma coisa autoral, mas é em inglês. Aí o Marx falava que ele não era capaz de compor, que ele já tinha tentado, que tinha dado errado. E eu falei, o Marx não vai tentar compor sozinho. Ele não vai ter cabeça pra isso. O que eu vou fazer? Vou puxar ele pra elaborar uma ideia. A gente fez uma música juntos, tinha já uma música em português, já tinha feito algumas coisas com o Pedro. A nossa música em português empolgou tanto o Pedro que ele começou a compor em português. Quando a gente viu, a gente tá fazendo um álbum.
Tudo deu certo, tudo andou, a gente decidiu definir o nome da banda. Fizemos nosso primeiro show em março.
e a coisa tá rodando, e aí você que tá... Fizemos o nosso primeiro show no Centro Cultural da UFG, pra mim foi uma honra gigantesca, é um dos melhores ambientes de apresentação que tem em Goiânia, e pelo fato de ser na UFG, porque é uma universidade que eu faço parte desde 2017, e que hoje eu trabalho lá, então foi uma estreia assim, que superou e muitas expectativas que a gente tava.
E foi muito interessante porque eu acho que o sentimento que pairava entre todos nós é que a gente achava muito distante. E eu acho que você deve ter sentido isso muitas vezes também, de achar muito distante da nossa realidade, conseguir fazer um show profissional num lugar top, com som de qualidade.
sem nunca ter feito isso antes de maneira própria, né? Eu toquei a vida inteira pros outros nos projetos que já existiam, como coadjuvante, mas fazer, mas isso aqui é é meu, né? Isso aqui é nosso, isso aqui é pessoal, isso aqui a gente vai fazer do jeito que a gente quer. E eu tenho certeza que o seu semblante de realização com isso também é o mesmo, de que eu tenho uma banda onde eu faço música.
eu passo a música de acordo com aquilo que eu estou querendo e essa realização pra quem passou a vida inteira sendo excluído, sendo taxado disso, aquilo, aquilo outro, é uma redenção. A poliedra acho que representou muito isso. Exatamente.
Falei toda a história da banda e não citei o nome da banda, né? A Poliedro. Quem se interessar, ter no nosso Instagram Poliedro Music. No momento que esse episódio tá sendo lançado, a gente provavelmente já tem coisas lançadas, né? Esse show que a gente fez, a gente contou com o apoio do Naya na produção. O Nicolas, que é o diretor de vídeo do podcast, fez toda a captação de vídeo. E a gente gravou o áudio. Então, a gente... No momento que estou gravando esse episódio aqui, né? A gente tá ainda na pós-produção, mas a gente vai ter coisas, então...
Provavelmente vai até, talvez, rodar nesse episódio alguma coisa aí. Mas vocês podem conferir. Nosso Instagram é poliedromusic.
do jeito de andar e de todos os segredos que existem em ficar é inútil disfarçar e eu sou péssimo em mentir tem um dia é importante se eu vivo pra fugir já não me importa se estou certo ou se eu tive razão isso é tudo que eu tenho
Se tudo der certo, a gente vai lançar um álbum. E eu acho que sim, esse é o senso de realização. Não só pela questão de você criar e você conseguir expressar coisas da sua vida musicalmente. Porque uma coisa é você falar literalmente sobre as coisas e outra coisa é você deixar nas entrelinhas coisas que as pessoas podem interpretar, coisas da vida delas como parte disso.
Essa questão da poesia, da letra, é uma coisa que é muito legal. Porque às vezes você compõe algo sobre um tema X ou Y e as pessoas interpretam de uma forma completamente diferente com aquilo que faz sentido na vida delas. Então acho que essa é uma das belezas da arte, de uma forma geral.
E a gente se encontrou também com banda no sentido de fazer as coisas muito organizadinhas. Nós temos uma rotina quase militar, assim, com as coisas, porque a gente tem os nossos ensaios tudo organizadinho, a gente grava os nossos ensaios, a gente ouve depois pra ver aquilo que a gente acertou, que a gente errou. Eu acho que um dos fatos da gente ter conseguido fazer as coisas tão rápido e ter conseguido se apresentar...
Foi o fato da gente ter essa observação sobre o nosso próprio trabalho e de como a gente poderia fazer as coisas. E o fato da gente ter montado a banda um pouco mais velhos, porque hoje você vai pensar, a galera vai montar uma banda, vai montar a banda no final da adolescência. Isso traz um senso de urgência pra mim de que, tipo, eu quero fazer coisas agora porque a gente não sabe se daqui a dois, três anos a gente vai ter tempo, cabeça ou vontade e eu quero ganhar o tempo que eu perdi dez anos que eu poderia ter feito isso antes.
Ao mesmo tempo que nos coloca talvez numa posição de lidar de forma mais madura com as coisas. Porque você vê projetos que dão certo, mas a galera tá num momento de transição da vida que é muito mais difícil. Quando você tá na faixa dos 20 e poucos anos, você tá descobrindo, não que os 30 estejam tão distantes disso, né?
Mas eu acho que a gente tá com outra cabeça, com outra vibe. Como a gente já fez parte de outros projetos, ou pelo menos tentou fazer parte, eu acho que a gente tem uma perspectiva daquilo que dá certo, que não dá certo. E a gente consegue se resolver, consegue se comunicar. Eu acho que isso é bom. E tem aquela coisa também, né? Pra você que tá começando a ter experiência de banda agora, e eu até já te falei isso, né? Tudo é muito novo, tudo é muito estreante, tudo envolve mudanças. O imprevisível.
E aí você entrou no projeto com pessoas que têm já muitos anos de experiência, né? Eu tenho... Eu toco em banda desde 2010, como eu falei em algum outro episódio aí pra trás.
Querendo ou não, isso é um tipo de experiência que enriquece também. E dá um fator protetor, porque eu sempre tive um problema de socialização, que era ser muito proprietário sobre as coisas que eu faço. Então eu tinha dificuldade de fazer trabalho em grupo, porque eu queria fazer os trabalhos do meu jeito. Se eu tinha um repertório muito grande sobre uma coisa, era insuportável.
O primeiro projeto que eu fiz na minha vida que eu tinha controle sobre as coisas, mas que tinha uma química legal com a galera e que a galera me dava permissão, era o introvertendo. Porque no introvertendo, modéstia à parte, na geração anterior, eu mandava e desmandava em tudo. Mas a galera deixava e funcionava muito bem. Então, eu sempre fiquei pensando muito que se eu dominasse o instrumento como você, por exemplo, domina, como o Pedro, eu seria insuportável.
Talvez eu seria muito chato de como a música deveria soar e como deveria ser, sabe? Então eu acho que isso me coloca numa posição que eu tô mais curtindo o processo e que eu fico mais na minha. Então eu fico começando... Ou talvez eu esteja com a autoestima baixa no sentido das coisas que eu vivi de ter sido taxado de chato também, né? Talvez hoje eu teria um repertório de não ser tão taxativo. Mas às vezes eu acho que o fato de não dominar tanto o instrumento está no nível assim, ok.
Me faz ser menos enjoado, sabe, sobre as coisas. Eu vejo que você está se permitindo estar no lugar da pessoa que aprende também. Porque você sempre teve essa necessidade de estar liderando, de estar comandando, de estar controlando, porque é uma maneira de você conseguir se organizar para fazer as coisas.
E existe muita essa coisa no autismo, de você, ou você assumiu o lugar de seguir cegamente o que os outros estão falando, porque é um ambiente estruturado, igual o Deco comentou lá no episódio sobre religião, de você seguir exatamente tudo que falam sem questionar, porque você gosta da presibilidade das regras, ou você ser a pessoa que quer controlar tudo, para que tudo fique de acordo com o que está na sua cabeça, e ter a presibilidade de estar de acordo com o que está na sua cabeça. E as duas coisas são disfuncionais e gera problema, gera prejuízo social.
E a banda, ela tá sendo uma experiência pra você, no sentido de você conseguir se permitir colocar no lugar de aprendizado, no lugar de flexibilizar, de ouvir a voz da experiência de quem tá há mais tempo, de também conseguir complementar coisas que nós não somos bons e que você é bom. De ser a pessoa que organiza coisas que a gente não dá conta de organizar. E também...
Me tirar um pouquinho desse lugar de ser a pessoa que comanda. Porque todas as bandas que eu passei até hoje, eu tinha tendência de ocupar esse lugar, de ser o chato com música, que ficava corrigindo o que tá errado, que organizava, que tentava dar foco, que tentava dar sentido. E essa posição é muito cansativa, ela é desgastante. E eu estou me permitindo não ficar nessa posição mais e somente ser a pessoa que tá lá pra fazer música, pra curtir o momento, fazer as coisas com mais leve. Então a sua presença...
Na banda me dá mais leveza Me tira um pouquinho da sobrecarga
de ser a pessoa que conduz em alguns momentos. E eu acho que isso está dividido, né? O Pedro tem muito essa figura, porque ele é o cara que tem experiência pregressa de composição e de gravação. Então tem muita coisa que ele comanda, e ele é o cara das redes sociais também, né? Ele é um jornalista que trabalhou muitos anos em social media. Então ele acaba ocupando essa função pra nós, e é uma coisa nova pra ele também, porque ele não teve muitos projetos musicais, ele sempre fez tudo sozinho.
de escrever sozinho, de gravar sozinho, distribuir sozinho. Então, isso tem sido muito legal para todos nós.
Antes da gente mudar de assunto, dá uma resposta pra quem ficou curioso. No primeiro show, você tava ou não de viseiro? Não estava, sabe por quê? Eu tava me arrumando pra ir pro show, aí eu cheguei pro Pedro e falei assim, é, eu acho que eu vou... E ele falou, não, tá muito feio, não faz isso. Eu falei, poxa, mas e se eu mudar isso aqui? Melhor não, faz isso não. É porque você imagina assim, todos nós tínhamos de preto com camisa de banda.
E eu tava com a camisa preta com uns dizeres lá de pai de família que eu tenho uma camiseta que eu ganhei no dia dos pais. Escrito lá pai, enxadrista, marido, enxadrista, lenda, não sei o que. Aí você vai chegar com um trem verde na cabeça? Não era verde. O que eu ia usar era preto. Era preto ou branco? Era um dessas coisas. É, menos mal, né? Eu acho que combinaria.
Achei que o Pedro ia falar por causa do verde, mas ele... Não, ele achou feio essa ideia, sabe? De ter o negócio. É. Aí eu falei, tá, então beleza. Aí fiquei com o rabo entre as pernas, guardei meu negócio no guarda-roupa e foi isso.
Aí eu usei isso na primeira vez que eu toquei num evento assim mais sério, que foi o Autismo no Palco de 2025. Foi um evento do Naya, que tem edição completa no canal do YouTube do Naya, que aí eu usei como referência. Ninguém pegou a referência, mas foi uma referência pra mim mesmo. Aí eu usei a viseira, eu comprei três viseiras, e eu usei, acho que foi a preta ou foi a azul, não lembro qual foi a cor, e lá na gravação tem.
Fica que a minha defesa é a viseira, ela sendo feia ou não, foi o que te motivou, né? E atrás disso, e você pensou nela como o fato de você querer ter uma identidade própria. Então, se você definir que a sua identidade é a viseira, segura na mão dela e vai. Você é um dos principais responsáveis pela existência, pela manutenção do introvertendo desde o início. Na sua perspectiva, assim, de uma das pessoas principais mesmo, qual seria a ideia central do introvertendo? Por que ele existe?
O introvertendo, no começo, foi uma desculpa para eu querer ter um podcast. Porque eu lembro que um pouco antes de ter o diagnóstico de autismo, eu tinha o sonho de ter um podcast de música, para discutir música, para falar sobre assuntos relacionados à música. Mas eu não tinha nem amigos como é que eu ia ter um podcast. E naquela época, podcast era sinônimo de mesa, né? Que é o formato mais popular de podcasts. E os podcasts em vídeo meio que reforçaram isso ainda mais, né?
Mas quando eu recebo o diagnóstico de autismo e eu começo a frequentar o grupo da UFG que surgiu o Introvertendo, eu vi a ideia, juntando o interesse por autismo, de fazer uma coisa que a gente pudesse conversar e que fosse um podcast. Mas ele não era um podcast de autismo, ele era um podcast de autistas. Tanto é que o nosso primeiro episódio que a gente gravou foi sobre galinhas. A gente falou por que galinhas eram desconfortáveis para alguns integrantes. E assim, é um episódio proibido que...
Ele só foi divulgado para os nossos apoiadores que apoiaram o podcast e tem acesso a esse material exclusivo. Se você quer ter acesso a esse material exclusivo, apoia a gente lá no Petro, no Catarse e não apoia-se. Exatamente. Que você vai ter acesso ao episódio das galinhas. Até eu fiquei curioso nesse episódio das galinhas.
Enfim, a gente falava sobre muitos assuntos diferentes. Mas aí com o tempo eu fui percebendo que era importante ter uma leitura sobre autismo. Por que introvertendo um podcast onde autistas conversam? Porque a gente tem aquela perspectiva e como o autismo é uma deficiência diretamente relacionada à questão da comunicação e da interação social.
Ali naquele momento que a gente se conhece e monta o podcast, ainda era impensável em pensar em um grupo, uma trupe de autistas falando e interagindo entre si sobre vários assuntos. Hoje é uma coisa mais normal, né? Hoje você tem... E olha que a gente tá falando de coisa de 10 anos, né? Então assim, olha como as coisas mudaram. Mas naquela época era muito difícil. Eu conheci um documentário, que era o Asperger's Us, que tá na Netflix, que era sobre quatro comediantes autistas que eles viajavam, faziam shows e tal.
E eu falava, tem uma coisa nisso, sabe? Nessa interação que não tá na internet. Porque na época era só gente falando sobre autismo no YouTube, falando em frente às câmeras, uma pessoa só, no máximo duas. E eu falava, tem alguma coisa aí que pode acrescentar, entendeu? Então eu diria que o introvertendo foi isso. Foi uma forma de expressar publicamente...
a nossa interação que a gente tinha dentro daquela sala de terapia da UFG, que eu falava o que ocorre aqui, eu não vejo isso na internet eu acho que isso precisa ter uma visibilidade Beleza, ele nasceu com essa ideia você acha que hoje em dia depois de anos e várias situações, conquistas do podcast, ele ainda é a mesma coisa?
Eu acho que tem uma coisa lá na essência que ainda tem, mas é diferente. É diferente porque eram outras pessoas, mas também era um outro momento da comunidade do autismo. Então eu acho que tinha um senso de urgência naquilo que a gente fazia, que hoje as pessoas veem um podcast sobre autismo, talvez elas não tenham o mesmo fator de impacto. Uau! Que se tinha ali em 2018.
Então, eu acho que isso, em parte, se perdeu. Mas tem uma coisa que não se perdeu, que eu acho que também representa os próprios grupos de adultos do Naya, essa interação, que é a formação da comunidade, a formação do vínculo, a formação quase cultural de um ambiente que você tem pessoas que são semelhantes, elas compartilham histórias de vida.
e características específicas e elas constroem quase que um nicho cultural ali entre elas. E eu acho que isso é uma coisa que o introvertendo tem e que nenhuma produção individual sobre autismo vai ter. Você pode se vincular com livro, você pode se vincular com blog, você pode se vincular com youtuber, um tiktoker falando sobre autismo, mas a interação coletiva entre autistas é uma coisa que o individual não traz.
E aí, pensando nisso, o que você acha que foram as realizações mais legais que o Introvertendo já realizou ao longo da história? O que você tem de lembrança de, assim, essa foi a coisa mais top que o Introvertendo realizou, que eu tenho orgulho disso?
Tem na dimensão pessoal e na dimensão do projeto. Na dimensão pessoal, eu vejo que a minha vida foi completamente mudada no Introvertendo. Grande parte das interações que eu tenho hoje, ou elas surgiram por causa do Introvertendo, ou em algum momento o Introvertendo atravessou elas.
inclusive na própria questão da banda, por exemplo, que eu vejo que o Introvertendo foi um chamariz, a gente já se conhecia, mas foi o fato de ter a recorrência do Introvertendo que fez com que a gente fizesse mais coisas e visse esses pontos sobre a música. Ou o próprio Pedro, por exemplo, que eu conheci ele pessoalmente, porque a gente foi gravar o episódio do Introvertendo. Então eu vejo que muitos dos meus vínculos sociais, eles foram proporcionados por causa do Introvertendo, e isso foi muito bom pra minha vida pessoal.
a gente começou na UFG, depois a gente trouxe gente de fora. A própria minha amizade com o William, por exemplo, que a gente fez muita coisa junto, foi graças ao Introvertendo. Quando ele começou no YouTube, o Introvertendo existia e a gente começou a trocar ideias por causa disso. Então eu vejo que minha vida foi muito melhor depois que o Introvertendo surgiu. O Introvertendo também, ele me fez perceber o quanto que era possível fazer um negócio bem feito, aproveitando talvez algumas das minhas melhores características que é a disciplina, a organização.
e fazer o negócio funcionar. Agora, do ponto de vista do projeto, acho que a coisa mais legal que o Introvertendo já fez foi fomentar discussões que eu acho que não passavam pela cabeça de ninguém. Teve uma vez que uma jornalista brasileira, mas que escrevia na imprensa internacional, não lembro qual era o veículo que ela escrevia, ela me procurou porque ela ficou encantada com o episódio que a gente fez sobre autismo e mudanças climáticas.
A gente estava discutindo o impacto das mudanças climáticas nas dificuldades do autismo. A pessoa autista que só consegue dormir de cobertor e a cidade está fazendo 40 graus por causa das mudanças climáticas. Como é que fica? Sem ar-condicionado? Como é que lida com as questões sensoriais? A gente conseguiu fazer isso a partir de um certo momento do introvertendo de pensar em temáticas que ninguém estava pensando.
E isso foi uma inspiração forte, que até hoje as pessoas comentam. Ao ponto que teve uma vez que eu recebi no meu WhatsApp uma foto de uma moça que ela fez a dissertação dela de mestrado sobre o introvertendo. Ela analisou os nossos episódios sobre sexualidade, sobre gênero, e fez o trabalho dela do mestrado analisando os episódios do podcast. E aí eu sempre fiquei pensando, caramba, a pessoa gastou anos da vida dela pra estudar um negócio que a gente fez.
Isso é muito doido de pensar assim. Então, o podcast foi chegando em certos lugares que... Chegou a lugares que eu nem sei. E eu acho que isso é muito legal. A gente deixou uma sementinha. A gente nunca vai ser uma mídia de massa como um programa de TV ou até mesmo como...
uma página no Instagram de 2 milhões de seguidores, mas a gente tem uma capilaridade na comunidade do autismo, a quantidade de pessoas que hoje criam conteúdo na comunidade do autismo e que passaram pelo introvertendo, que é uma coisa que eu posso dizer com...
pouca modéstia de que a gente deixou marcas profundas na comunidade do autismo. Por mais que muita gente ainda não sabe mais quem a gente é ou que a gente sempre passou por um nicho, acho que a gente encontrou o nosso lugar, sabe? Acho que isso é o mais legal, o mais bonito. E o que você, olhando para trás, você pensa que poderia ter sido melhor, que não foi tão bom assim, que poderia ter sido diferente?
que acaba que essa reflexão serve pra gente pensar também o que pode ser feito no introvertendo daqui pra frente, né? Que no passado aconteceu que não foi tão legal, serviu de aprendizado pra gente levar pros próximos tempos.
Eu acho que no começo do Introvertendo eu fiz algumas escolhas erradas, porque quando a gente começou a gravar eu não sabia editar. Não tinha quem editasse, quem editava era eu. Eu não sabia usar um equalizador, eu não sabia limpar ruído. Então a gente começou a gravar dentro de uma sala de terapia que era tudo muito barulhento, cheio de reverb. O primeiro episódio foi horrendo em termos de qualidade de som e a gente foi aprendendo no processo. Então para o Introvertendo ter um áudio bacana levou dois anos.
A gente perdeu muito público por causa disso. Porque muita gente chegava no Introvertendo, ouvia indicações e a pessoa ia ouvir o primeiro episódio. Aí eu ouvi o primeiro episódio, o podcast é essa merda aqui, não vou ouvir não. Então isso aconteceu demais. Quantas reclamações. Mas se a gente não tivesse começado também, não teria tido continuidade. Então é uma coisa que eu faria diferente, mas ao mesmo tempo eu não me arrependo, porque era o que dava para fazer.
Graças ao Introvertendo eu aprendi a editar áudio também. Eu trabalhei com isso. Então o Introvertendo me deu até um caminho profissional. Eu pude aprender muito.
E eu fiz algumas escolhas que hoje eu ainda não sei dizer se elas são certas ou erradas. Por exemplo, eu quis acabar com o introvertendo em 2023. Não sei se isso vai virar algum assunto em algum momento, mas tem muitas coisas. E aí, logo depois, um ano depois, eu mudo de ideia e quero inaugurar uma nova formação. Não sei se eu faria diferente. Eu não sei se eu já tentaria inaugurar essa formação e ao invés de anunciar o fim do projeto, só anunciaria um hiato.
Então, são coisas que ainda ficam ventilando na minha cabeça. A gente perdeu muito público com isso. Tem gente até hoje que não sabe que o introvertendo voltou.
A gente já anunciou os quatro cantos do do planeta Terra com a nossa força e tem gente hoje chegando. Nossa, o introvertendo voltou depois de um ano, né? Então, são coisas que eu fico muito pensativo, assim, porque teve gente que pensou acabou, acabou. E nós temos um público que é um público muito autista, né? Então tem muita gente, tipo, acabou, não são as mesmas pessoas, não vou voltar a ouvir. Então se você está, confie nesse episódio porque eu estou aqui.
Façam respeito a essa galera nova e ouçam o que eles quer dizer também. Manda a sua rigidez e caçar o que fazer e dê uma chance pra nova formação. Quem sabe, você pode até gostar mais do que da primeira, né? Com todo respeito da formação anterior que construiu aí a estradinha de pedras para nós. Tem gente que nem sabe mais quem sou eu, mas sabe quem é você, então acho que essa missão tá um pouco já comprida. O tempo passa e vai... E a gente vai...
mudando, não só a gente mudou como as pessoas que nos escutam também são outras, ou mudaram de perspectiva
Vamos supor que você está conversando com alguém, aí você conta que tem um podcast, não sei o quê. E a pessoa te pede para indicar dois episódios para conhecer o podcast. Quais você indicaria? Um da primeira e um da segunda geração? Nossa, mas isso é muito desafiador porque depende da pessoa, né? Se a pessoa é autista, é um episódio. Se for familiar, é uma. Se for uma pessoa de fora. Mas eu diria assim, que o episódio porta de entrada do introvertendo da geração anterior, que é um tema que eu acho que...
que interessa as pessoas, é o episódio 194, Autismo na Infância Sem Diagnóstico.
Que é um episódio que a gente fala assim, poxa, o diagnóstico do autismo veio tardio. Mas os sinais sempre estiveram ali. E aí a gente volta pra infância pra falar sobre as dificuldades, sobre as questões. E falar do porquê que esse autismo pode ter passado ou não despercebido. Então esse é um episódio que até hoje ele tem bastante tração. É dos episódios mais ouvidos da história do podcast. E eu acho que ele sintetiza muito da importância de discutir o autismo mesmo com o diagnóstico tardio. E quanto o diagnóstico mesmo tardio faz diferença.
A nova formação, meu episódio favorito até hoje, assim, de uma forma geral, se eu for pra pensar, é o episódio 272, Hiperfoco, ó. Hiperfoco foi o que saiu esse ano. Habilidades Sociais, parte 1. Porque eu acho que ele também foi um episódio muito dinâmico, muito legal. E é um episódio que agradou todo mundo. E é um episódio que mantém a vibe que eu acho que representou o podcast historicamente. Que é de uma conversa leve.
E que consegue falar sobre autismo de uma forma que não seja superficial e ao mesmo tempo não muito professoral. Porque eu acho que esse é o desafio, é você encontrar o meio termo entre as duas coisas. Isso é difícil. Tá, a próxima pergunta vai ser de uma convidada surpresa. A gente vai escutar e acompanhar ela aqui.
Olá, pessoal. Aqui quem fala é a Carol Cardoso, vulgo Varuza, ex-integrante da primeira geração do Introvertendo. E primeiro eu queria agradecer muito pelo convite. É muito bom revisitar esse projeto pelo qual eu tenho tanto carinho, que foi muito importante para mim ao longo dos anos em que eu participei e acompanhei como fã também. E então, tirando a poeira do meu microfone, eu tenho uma pergunta para o Tiago.
eu queria saber como você acha que seria a sua vida se você não tivesse seguido em frente e montado o Introvertendo. Eu pergunto isso porque eu sei que você é uma pessoa muito envolvida na comunidade do autismo e que tem desenvolvido muitos projetos em relação a isso, e querendo ou não, Introvertendo foi o grande pontapé para isso. Então eu queria entender como você enxerga tanto a sua trajetória como também...
A própria comunidade do autismo, né? É uma pergunta um pouco mais especulativa, mas eu acho que ela ajuda a gente a pensar nos últimos anos e como que a comunidade foi se transformando muito. As pautas, as expressões, os artistas, as discussões foram se transformando muito ao longo dos anos e se refletem nessa nova geração que está acontecendo agora.
E eu falo também por mim que se não fosse a minha participação no Introvertendo, eu não teria percebido que eu dou conta, eu não teria desenvolvido certas habilidades que hoje são muito importantes para a minha vida e que estruturaram tantas coisas boas que vieram depois dessa participação, né? Então eu queria muito entender, eu queria muito ouvir.
a pessoa que encabeçou esse projeto sobre como que ela avalia a própria vida e a sua inserção na comunidade. Muito obrigada. Carol Cardoso foi a última integrante a entrar no Introvertendo. Ela era uma ouvinte e aí a gente puxou ela pra um tema que ela sugeriu, a gente gostou muito dela e foi uma das melhores decisões que eu tive na minha vida foi puxar a Carol pro podcast. E eu fico muito agradecido pela pergunta. E é uma pergunta muito difícil de responder. Eu acho que que ele fez.
De qualquer forma, eu queria dar alguma contribuição para a comunidade do autismo. Se não fosse o introvertendo, ia ser alguma outra coisa, ia ser um texto escrito. Antes do próprio podcast, eu fiz um blog na época, ninguém lia, mas eu escrevi alguns textos sobre autismo desde 2016. Então, eu queria fazer alguma coisa. Eu participava do contexto local do autismo aqui em Goiás. Tive algumas tretas nesse sentido.
Então eu acho que esse vínculo com a comunidade eu teria. Mas a minha vida profissional estava girando muito em torno do jornalismo, da parte de cultura, de música. E hoje eu estou no sentido quase contrário. A maior parte da minha atividade hoje profissional está ligada ao autismo e eu sinto falta de trabalhar com música. Então, se eu não fosse um cara frustrado que queria falar mais sobre autismo e não conseguir ter o meu espaço e encontrar o meu lugar...
Eu acho que em algum momento talvez eu desencanaria e seguiria só pra continuar trabalhando com música, como eu faria. Mas ao mesmo tempo eu fico muito feliz com a escolha que eu tive.
E o que Tiago Abreu almeja ainda conquistar na vida pessoal e na vida profissional dele? Porque você fez um retrospecto aí do que poderia ter sido, do que teria sido, como ela perguntou. E pra gente fechar com chave de ouro no nosso bate-papo, qual é a perspectiva que você tem daqui pra frente? O que você deseja fazer?
O que você sonha? Abra o coração. Nesse momento, o meu foco principal tem sido terminar o doutorado. Não é o meu foco principal, mas acho que é o projeto mais concreto. Por muito tempo, a minha vida foi muito pensada em função de vou fazer mestrado, doutorado, vou fazer um concurso, virar professor.
mas são coisas que ainda não estão muito claras na minha cabeça. E eu descobri uma coisa sobre mim nesses últimos anos que eu acho que é muito legal, que é que eu estou sempre fazendo alguma coisa e isso tem sido suficiente para me manter e para manter eu fazendo atividades profissionais que sejam coisas que eu gosto. Então, conseguir combinar isso e ser financeiramente sustentável é legal.
e é fazer coisas que me pareçam úteis, que as pessoas realmente gostam e vejam e falam assim, isso é bom então acho que isso é realização que tem aquela frase, né, que trabalhe com o que você gosta e você não vai ter o que você se preocupar, ou trabalhe com o que você gosta e você vai odiar aquilo que você gosta no meu caso, eu já trabalhei com as coisas que eu gosto e raramente eu tomei raiva delas então acho que eu consegui fazer uma coisa que é difícil
de uma forma geral. E no doutorado eu estou tentando propor um conceito que é chamado de enquadramento da experiência que foi inclusive tema de episódio do Introvertendo, episódio 216, se não me engano. E é um tema muito...
É um tema que tem muito a ver com introvertendo, tem muito a ver com comunidade do autismo, porque eu observo que existe uma contradição. Ao mesmo tempo que autistas estão na comunidade do autismo e falar sobre as suas experiências pessoais e daquilo que elas viveram seja uma coisa importante para trazer visibilidade, emergência, urgência sobre as questões que a gente fala sobre autismo.
existe uma forma que as pessoas modelam a experiência da pessoa autista para atender a expectativa delas. Então, às vezes, é o familiar que quer saber ah, meu filho tem dificuldade no banheiro, como é isso para você? Então, esse tema, experiência, é uma coisa que eu acho que é muito central quando a gente fala sobre o autismo em primeira pessoa. Então, é um tema que eu estou navegando, que eu estou explorando.
E é o tema do meu doutorado que eu acho que está rendendo uma discussão legal. Eu espero que isso se torne, quem sabe, um livro. E a minha expectativa com relação à comunidade do autismo é continuar meio que na vibe que eu estou, que é aposentado da criação de conteúdo. É uma coisa que eu não curto muito.
Gostava do introvertendo porque era áudio. A gente tinha recorrência, tinha... Mas eu não precisava me preocupar em estar em frente às câmeras ou fazer alguma coisa do tipo. Então, acho que era um projeto que tinha sustentabilidade em relação a isso. Mas eu queria muito tornar minha participação na comunidade do autismo uma coisa diferente do que todo mundo está fazendo. Em 2023, eu participei de um congresso internacional de discussões sobre o autismo, pensando também em países do sul global.
com alguns autores com deficiência da academia e eu estou em correspondência com algumas pessoas de outros países e tem sido muito legal isso, tentando escrever em inglês. Então, acho que esse é um plano que eu tenho. Se eu, em algum momento, seguir a carreira acadêmica, acho que eu tenho essa possibilidade, eu sou uma pessoa que não tenho plano A, plano B. Eu tenho vários planos. O que aparecer e que for mais viável, eu vou seguindo.
Então, eu não sei se eu sou uma pessoa muito precavida ou muito disciplinada, eu realmente tenho steps, sabe? Em situações que as coisas dão errado. E isso me permite arriscar mais, fazer coisas que sejam um pouco mais complexas.
Eu tenho algumas metas pessoais. Eu acho que a gente sempre tem que se descobrir enquanto ser humano e descobrir coisas sobre nós e evoluir em alguns aspectos. Uma coisa que eu acho muito boa sobre mim é que eu me considero uma pessoa muito disciplinada. Eu sou muito disciplinado, sou modéstia à parte, eu sou organizado e eu acho que é difícil conseguir fazer as coisas que eu faço se eu não fosse assim.
Mas por outro lado, justamente por ter muitos planos sobre as coisas e querer ter uma segurança sobre as coisas, eu sou uma pessoa que falta coragem para algumas coisas. Eu sinto falta de ser uma pessoa mais corajosa e talvez pegar aquilo que é bom da impulsividade.
Sabe, das pessoas que não têm medo de fazer alguma coisa e elas não pensam muito e elas vão lá e fazem? Eu não, eu penso demais sobre as coisas que eu vou fazer. E isso me impediu em muitos aspectos. Profissionalmente, em termos de relações amorosas, principalmente. Eu sinto que eu preciso de um contexto, assim, duas, três, quatro vezes mais seguro que as outras pessoas. O brasileiro, por exemplo, de uma forma geral, ele não se planeja financeiramente.
As pessoas, elas não têm reserva financeira. Eu não, eu sou extremamente controlado no nível que...
que pode ser considerado disfuncional, mas pelo menos assim. Eu acho que é menos pior do que o jeito que as pessoas fazem, entendeu? Então, eu quero encontrar esse equilíbrio na vida. Eu quero encontrar o equilíbrio também do lazer com o trabalho. Algumas pessoas falam que eu trabalho muito e tal, e já foi pior. Então, são coisas que eu acho que a gente precisa descobrir sobre nós. Eu acho que eu consegui melhorar muito, desde o momento que o Introvertendo surgiu. Se eu olho para oito anos atrás da minha vida, por exemplo...
Eu era uma pessoa sedentária que estava descobrindo muitas coisas sobre a própria vida, sobre a relação com o mundo, com amigos, com sexualidade e tudo mais. Eu fazia tratamento psicológico, coisa que hoje em dia eu já, depois de muitos anos, eu já não estou fazendo pontualmente nesse momento. Eu não era autônomo financeiramente.
E hoje eu tenho uma autonomia financeira muito boa. Não só no sentido de me manter, mas poder ajudar as pessoas mais próximas que precisam. Se acontecer alguma catástrofe em torno, as pessoas sabem que eu posso ajudar de alguma forma. E ter essa sensação de que você é uma pessoa que pode ajudar os outros, isso é uma coisa legal.
Mas eu acho que é um processo constante pra vida, né? E do ponto de vista profissional, eu tô vivendo um momento que eu tô, honestamente, meio rabugento com a vida. Esse ano tem sido um ano que eu tenho passado muito estresse com muitas coisas, mas é porque, ao mesmo tempo, tem acontecido coisas muito legais. A banda, por exemplo, a banda hoje é a coisa que me deixa mais feliz, de uma forma geral. Eu tô com...
Esse sonho é a gente conseguir fazer um álbum e conseguir continuar compondo. Eu espero estar fazendo em breve aulas de teclado para poder aprender algumas coisas também que vão ajudar na ideia de composição. E, sei lá, eu acho que, se eu puder resumir tudo que eu estou falando, eu acho que uma coisa muito importante é não perder a capacidade de sonhar, de querer fazer coisas. Porque eu acho que a vida vai nos colocando responsabilidades e a gente vai tendo coisas para cuidar na vida.
Que a gente começa a agir no modo automático ou agir de uma forma meio cínica, sabe? A gente perde essa coisa de brilhar os olhos. E eu já vi muitos momentos na minha vida que eu perdi essa coisa. Eu tava perdendo, sabe? De brilhar os olhos. E uma coisa que eu quero é ter tesão nas coisas, sabe? De tá fazendo um negócio e falar assim poxa, eu quero fazer isso, isso é legal, isso é divertido. E de sentir a necessidade de colocar o pé no freio, na verdade porque eu tô empolgado.
Então eu acho que se eu conseguir manter isso pra vida a longo prazo, é uma coisa que eu acho que vai ser bom.
Bom, então eu gostaria de agradecer a sua disponibilidade de participar desse episódio.
Eu me sinto extremamente feliz e aprendi muitas coisas do que hoje. A sua experiência também enriquece a nossa experiência. Serve também de aprendizado e de repertório para nós. E eu realmente fico muito impressionado com todas as coisas que você conseguiu fazer, apesar das dificuldades, apesar de ter um diagnóstico tardio e de toda a crueldade que o mundo impõe sobre um autista sem diagnóstico.
E a gente agradece também a audiência e a atenção de vocês que nos assistiram até aqui. E esse foi o episódio 300. E que venham mais oito anos para Introvertendo. Muito obrigado. E nos sigam nas redes sociais. E eu queria agradecer o convite. Eu acho que voltar aqui e falar dessa forma...
É como se passasse também um filme na cabeça também. E muitas coisas vão brotando. Eu sempre prometi que eu ia voltar para a comunidade do autismo. Eu não prometo isso mais. Eu sempre falo assim, ah, gente, eu vou falar mais sobre os temas, vou fazer mais coisas. E aí, no final das contas, eu não consigo fazer. Então, se vocês quiserem continuar me acompanhando pós-introvertendo, eu tenho o Instagram, né? É arroba o ThiagoAbreuUnderline.
Uma vez na vida, uma vez na morte eu apareço em algum evento que eu participei, ou alguma participação no Introvertendo, ou participação em outro podcast. Mas eu estou vivo, eu estou bem, estou bastante ativo na comunidade do autismo local. Vocês que estão localmente comigo sabem que eu estou, às vezes, os sete dias da semana trabalhando, e é uma fase boa de uma forma geral.
E falar pra vocês, pra vocês continuarem acreditando no projeto, continuarem acreditando no Introvertendo, porque a ideia é que a gente comemore 10 anos e quem sabe em 10 anos tem novidades por aí. Tem muitas coisas, muitos planos na minha cabeça, coisa que eles nem sabem, mas vai rolar.