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#299 - Autistas e Experiências Religiosas - parte 2

08 de maio de 202629min
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Muitas pessoas autistas viveram coisas boas e ruins em ambientes religiosos, e possuem ideias definidas em relação a suas crenças. Na segunda parte do episódio, que conta também com Bruno Frederico Müller, João Victor Ramos e Marx Osório ao lado de Deco Machado, abordam sobre coisas negativas que passaram em ambientes religiosos, os valores que deixaram de compartilhar, mas também coisas boas e inclusivas que observaram em ambientes religiosos e que fez diferença em suas vidas.

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Transcrição do episódio disponível no site do Introvertendo.

Assuntos2
  • Autismo e Ciência vs. ReligiãoReligião e letramento científico · Resistência ao conhecimento · Idade Média e Idade das Trevas · Ciência na China e Oriente Médio · Ciência grega antiga · Questionamento autista
  • Acessibilidade e Inclusão Religiosa para AutistasNecessidade de suporte em ambientes religiosos · Sensibilidade religiosa para autistas · Dificuldade com tempo de espera e pregações longas · Adaptações em igrejas para crianças autistas · Queda de seguidores em religiões · Desenvolvimento econômico e social vs. religião · Religião como apoio socioeconômico no Brasil · Igrejas substituindo o Estado em serviços sociais · Apoio a dependentes químicos e pessoas em vulnerabilidade · Proselitismo e chantagem religiosa · Liberdade de consciência · Barganha religiosa · Racismo religioso e preconceito contra religiões afro · Autistas e fanatismo religioso · Rigidez e dificuldade de convívio · Prostituição política de igrejas · Abuso psicológico e controle religioso · Imposição religiosa e controle · Cristianismo e cultura capacitista · Conceito de Deus e perfeição · Cura autista · Deficiência como falha ou erro · Aceitação da deficiência como parte da humanidade · Experiências pessoais com o catolicismo · Experiências pessoais com o espiritismo e umbanda · Críticas a líderes religiosos e exploração · Responsabilidade de líderes religiosos · Conhecimento mínimo sobre autismo por líderes religiosos · Interpretações sobre autismo em religiões espíritas · Criança índigo e anjo azul · Medo de possessão espiritual em jovens · Crise de ansiedade em ambiente religioso · Atribuição de problemas a vidas passadas · Falta de respeito e indelicadeza em discursos religiosos · Milagres de Jesus e cura de deficiências · Visão bíblica sobre deficiência · Deficiência como imperfeição a ser consertada por Deus · Contextualização histórica de doutrinas religiosas · Luta contra preconceito dentro da própria religião · Religião como lugar acolhedor e positivo · Tradução de Libras em terreiros · Apoio a pessoas surdas em terreiros · Crises de autismo em terreiros e acolhimento · Som organizado vs. poluição sonora em ambientes religiosos · Permissão para crianças autistas se movimentarem · Empatia e entendimento no ambiente religioso · Estímulos sensoriais em ambientes religiosos · Acolhimento da religião perante dificuldades autistas · Detecção e acolhimento da diversidade autista · Cura do autismo em discursos religiosos · Autismo como ser evoluído · Experiência de incorporação espiritual em jovens · Tom de superioridade em discursos religiosos · Proselitismo político em igrejas
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A grande pergunta de um milhão de dólares que a gente tem é se a religião não consegue explicar a origem das coisas, o autista precisa muito de explicação para tudo, para ter uma prezabilidade. O autista vai para uma religião, por exemplo, que acredita num monte de coisa que a ciência já refutou, inclusive, que é o cristianismo.

A própria existência do período dos dinossauros, lá do Paleozoico, das glaciações, vai completamente contra a cronologia bíblica. Tem várias coisas do começo da Bíblia que não tem nenhuma evidência arqueológica que existiu, como Jardim do Éden, Moisés, escravidão dos hebreus, etc. E tem uma pá de gente que acredita nisso até hoje. A gente sente que isso é um sintoma.

de como o letramento científico da maioria da população é inexistente ainda e a religião contribui para criar uma resistência das pessoas ao conhecimento.

E esse, pra mim, é o maior ponto negativo da religião depois das guerras, né? Que a religião causa no mundo. Que, pra mim, a pior coisa são as guerras. E o segundo ponto é esse. É criar uma aversão das pessoas ao conhecimento, por associar o conhecimento com rebeldia, com heresia, com ódio contra Deus, com uma coisa maligna. E adivinha só um período que isso era oficialmente...

encorajado na Idade Média, na famosa Idade das Trevas, onde a igreja era dona de tudo.

E sociedades que se recusavam a seguir as coisas dessa forma desenvolveram cientificamente muito mais do que a Europa. Como a própria China, Oriente Médio, os caras estavam lá estudando matemática, astronomia, botânica. Os gregos antigos também lá, muito antes, já estudavam. E tinha essa preocupação de estudar, de tentar comprovar as coisas através de fatos. E eles não deixavam de praticar a religião deles por conta disso.

porque os gregos eram cheios de mitologia, cheios de crença, mas eles eram científicos pra caramba. E a religião cristã fez um movimento contrário a isso, na tentativa de sustentar a sua autoridade.

Aí chega um autista na religião e começa a questionar isso de maneira natural. Foi o caso que você falou aí. A gente questiona essas coisas numa naturalidade, assim, impressionante. Pra gente não é um crime questionar isso. É tipo, não é um questionamento pra negar. É pra aceitar. É literalmente, pra mim, pelo menos, é tipo eu não tô questionando pra ir contra você. Eu tô questionando porque eu quero estar mais com você.

Eu quero entender melhor o seu lado. Só que aí a pessoa não consegue explicar o lado dela, sabe? De uma maneira concreta, né? Que nem você falou. Aí eu fico aí. E às vezes, através dessa troca de saberes, construir um laço de amizade ou reforçar um laço de amizade pré-existente, tá ligado? E tá tudo certo. Pra nós é natural mesmo. Só que aí o que acontece? Isso desafia hierarquias, autoridades. Aí, gente...

E aí é onde vem uma questão importante a gente pensar aqui, que é sobre, beleza, o autista está lá na igreja, está lá no centro de Umbanda, está lá no centro espírita, está lá em qualquer lugar religioso. Ele chega lá, ele vai ter uma necessidade de suporte, porque para a gente permanecer nos lugares a gente precisa de suporte.

A religião, ela pode oferecer algum tipo de sensibilidade para o autista, se ela assim quiser, se ela tiver afim de fazer isso, para que o autista tenha direito de frequentar. E pensando nessas coisas, eu fico relembrando, por exemplo...

uma coisa que é muito comum da igreja em si, que é a necessidade que a igreja tem das pessoas ficarem lá sentadinhas, bonitinhas, meia hora, uma hora, vendo uma pessoa pregar e ser muito mal visto a pessoa ficar, por exemplo, saindo, entrando, andando, por causa da questão do tempo de espera. Eu tinha uma dificuldade muito grande com isso. Porque, às vezes, o pregador era muito chato.

Ele era muito chato. E aí você só via eu saindo pela porta três, quatro vezes. E aí falar, nossa, isso aí é uma estrelinha, né? Só quer vir aqui tocar e aí não quer prestar atenção na palavra de Deus. Quando ele tá lá tocando, tá todo mundo sentado bem tido. Aí quando o pregador tá pregando, aí vai lá, vai lá fora ficar fofocando, vai beber água. Nunca vai ter uma pedra no rim na vida esse cidadão, né? E tinha pastor que ficava em cima do público ironizando.

As pessoas faziam isso. Como se você ficar sentado com a bunda na cadeira, se forçando a prestar atenção numa coisa que não era boa, fosse um critério de você ser fiel, de você ser espiritual e tal. No autismo isso é pior ainda.

E hoje, por exemplo, eu já vejo que em algumas igrejas já tem crianças com diagnóstico formal desde cedo, já tem autistas que são assumidamente autistas no contexto em que eles dão a liberdade da criança ficar andando para se regular, não fica pegando no pé porque a pessoa sai e entra.

Eu vejo que, aos poucos, algumas instituições estão começando a olhar para isso com mais carinho, porque, se não, as pessoas vão começar a deixar de ir. Eles estão perdendo também seguidores, né? O que a igreja católica perdeu de seguidor nos últimos décadas é um negócio bizarro. Por quê? Porque ninguém aguenta mais ficar encalacrado numa coisa que é a mesma coisa desde mil anos atrás. Mas a religião está caindo em todo o mundo ocidental.

Isso eu acho que a gente tem que voltar ao Nietzsche, filósofo, e entender que a ciência refuta as mitologias religiosas. Sim. E quanto mais a ciência avança, mais a religião se retrai. E outra questão...

é que o próprio desenvolvimento econômico e social tira da religião dos seus grandes apelos, que é o do conforto diante da realidade desalentadora do mundo. Então, quanto mais próspera a sociedade, quanto mais livre a sociedade, mais tênue a sua ligação com a religião.

E nesse aspecto, só os Estados Unidos e o Brasil são exceção, que tem uma taxa de crença em Deus altíssima. O Brasil acho que até mais do que os Estados Unidos.

O Brasil é tipo 94% da população acredita em Deus. É uma taxa que você só vê na África Subsaariana. E isso tem a ver com a religião como um lugar que as pessoas buscam para tentar achar um caminho, uma saída para o buraco em que elas estão, um buraco socioeconômico.

E aqui no Brasil, as igrejas substituíram o Estado em vários serviços sociais. O estado de bem-estar social que existe no Brasil é a igreja. Então, a pessoa está desempregada, ela vai na igreja não só para ouvir uma palavra de conforto, mas também para encontrar um apoio, uma cesta básica, ou até mesmo encontrar um emprego, porque elas formam redes sociais de apoio mútuo.

Porque a religião, exatamente, como no Brasil é um país ainda pobre, né? Tipo, tem muita gente ainda em questão de pobreza. A religião, as igrejas, não só as igrejas, mas tipo, eu acho que qualquer religião tem uma caridade, tem uma questão de ajuda social muito forte. Não é à toa que a gente vê pessoas com dependência química indo pra igreja, indo pro terreiro e sendo, tipo, tratadas ali de uma maneira ou de outra, tendo apoio pra tratar um pouco dessa dependência química.

Pessoas que estão com fome, que vão, pelo menos pegando o meu exemplo de terreiro, a gente tinha uma vez por mês, a gente fazia marmitas, 200 marmitas, entregava na rua, sem falar da religião nada, mas pra entregar, porque a gente sabia que tem pessoas ali com fome. E querendo ou não, as pessoas perguntavam, ah, é ali no terreiro, quando você quiser é só passar lá, que a gente sempre vai ter uma marmita pra você.

A religião hoje no Brasil, não posso falar no resto do mundo, mas pelo que eu conheço aqui no Brasil, ela tem exatamente essa função que o Estado deveria ter, de ajudar pessoas em vulnerabilidade, independente de qual seja. Mas isso é extremamente perverso, porque... Tudo bem, no seu caso não havia proselitismo, mas em muitos casos há. Então você está desrespeitando a liberdade de consciência do outro.

fazendo uma chantagem, na verdade. Olha, nós te ajudamos materialmente, mas você entrega a sua consciência pra nós. O autista, às vezes, ele não vai se dar conta desse fato aí que você falou agora logo de cara, né? No meu caso, acho que foi o contrário, porque as situações que eu estive de vulnerabilidade, eu não aceitei ajuda de religião porque eu não aceitei violar a minha liberdade de consciência.

Mas eu acho que você foi um caso à parte, Bruno, porque na minha última tentativa de adesão ao catolicismo na Catequese de Crisma, eu fiz uma última... Sabe quando você nutre uma última esperança? Tipo assim, tem um jeito de crer nisso daqui sem necessariamente aquele proselitismo todo? Deve haver alguma saída? Deve haver alguma vertente doutrinária dentro da igreja que possa...

Me dar essa... Me dar, não. Manter essa liberdade de consciência. Quando eu vi que não era por aí, bicho. Eu pulei fora o mais rápido que eu pude. Sério mesmo. E, cara, liberdade de consciência. Você disse tudo. Tem muita religião, em destaque as cristãs, que não respeitam isso de maneira...

alguma. Acho que se isso fosse mais respeitado, o mundo seria um lugar melhor de um tanto, cara, porque frase clichê do podcast do episódio de hoje, eu sei, mas isso faria com que os atos caritativos mencionados por você e pelo Deco fossem totalmente despretensiosos e com muito mais chances de serem ampliados e aceitos

Sem nenhuma chance de que, olha, você tem que aceitar esse prato de comida, mas aceita Jesus aí, velho. Não sei o quê, não sei o quê. É que é ridículo. Você vai ganhar o prato de comida, mas você tem que ver a missa. Pois é! Mas, cara, não tem sentido. Eu já vi muito isso. Não, mas agora que ele falou que eu lembrei mesmo. É porque faz tanto tempo que eu não participo desses solês mais de igreja e tal. Tô no terreiro há tanto tempo.

Cara, a gente nem falava, porque às vezes se a gente falasse que era de terreiro, o pessoal não aceitava.

Então a gente não aceitava a nossa ajuda. Então a gente nem falava, não, a gente faz um trabalho aqui da ONG. Que era uma ONG mesmo, né? Que eu tinha. Então era... Realmente, assim, eu tinha até parado de pensar nisso. Que tem essa barganha. E se a gente for discutir aqui sobre essas questões, a gente vai ter muito pano pra mão. Porque aí já vai entrar na questão do racismo religioso. Que a religião afro... O pessoal tem preconceito porque tem...

uma coisa racista envolvida nisso, né? E a própria Igreja Católica, inclusive, ela perseguiu oficialmente as religiões áfricas no Brasil durante séculos, né? Mas com relação a...

a vivência autista no meio disso tudo, eu chego à conclusão que nós somos uma parte da população muito vulnerável ao fanatismo religioso. Eu estive lá. O lugar de fanatismo religioso é um lugar muito triste. Você briga com a família, você perde amizade, você não consegue entrar em relacionamento, você se torna uma pessoa chata. Eu me tornei uma pessoa chata, uma pessoa difícil de conviver.

Uma pessoa que não abria a cabeça pra ver outros pontos de vista. Isso reforçou a minha rigidez de uma maneira muito absurda. Eu ia perguntar exatamente isso. Porque eu acho que ao mesmo tempo que a gente questiona muito, se a gente for pego pelaquilo, a gente vai ficar só naquilo também, né? A gente vai ficar, não, mas é isso, porque tem que ser isso. E a gente não questiona mais. E por quê? Porque eu tava num momento da vida que eu tava procurando um lugar seguro. Porque eu não tinha um lugar seguro. E como é que você saiu?

2020, pandemia, pós-2018, que vocês sabem muito bem o que aconteceu na política brasileira. A igreja se prostituiu para a extrema-direita, né?

E eu não aguentei. Eu presenciei coisas absurdas de promoção de politicagem em cima de púlpito, de levar políticos que são abertamente fascistas pra cima de púlpito e corrigir as pessoas a votarem nesses políticos, fazer proselitismo político dentro da igreja. Ficar tentando criminalizar as pessoas que não apoiavam aquilo, que tinham uma visão diferente. Então, assim, eu saí por conta da...

prostituição política, que é a instituição que eu participava, que é uma instituição extremamente ligada à extrema-direita aqui em Goiânia, inclusive. E depois eu fui refletindo fora daquele ambiente outras coisas e revendo a minha...

minha visão em relação à própria espiritualidade, à própria religião, e fazendo um apanhado das coisas que eu vivi, e fazendo terapia também, né? Eu entrei no processo terapêutico pra tentar identificar o que foi violência, o que foi legal, o que não foi, e aí eu fui me tornando mais cético um pouco em relação a algumas coisas, e eu realmente entendi que algumas coisas eram abuso psicológico, era prisão, eram coisas que eu ficava me culpando, eu comecei a me aceitar, mas...

como eu sou algumas coisas que eu ficava achando que era errado, que Deus não se agradava. E, na verdade, era só imposição religiosa pra me controlar, pra me manter no cabresto ali. E pra não deixar eu pensar por conta própria. Eu acho que tolia a liberdade de pensamento.

Fazer com que você se enquadre numa caixinha, que tem que ser aquela caixinha. E o cristianismo, ele é uma religião que vem de uma cultura totalmente diferente da nossa. Que vem de um outro contexto, que muitas vezes não se enquadra na nossa realidade. E um desrespeito enorme às realidades que a gente vive aqui no Brasil. E muita coisa errada, muita coisa errada em nome da fé, assim, muito abuso de poder.

muitas pessoas narcisistas ganhando palanque nesses lugares e prejudicando as pessoas, escravizando as pessoas. E muitas pessoas boas, sabe? De boa índole, de coração bom, que estão só procurando um sentido para a vida nesses lugares que eu conheci várias pessoas humildes.

Pessoas que realmente só querem ter certeza de que tá vivendo certo. E que são muitas vezes exploradas e manipuladas por esses canalhas aí, líderes da fé, sabe? E eu descrensei muito por conta disso também. Eu também, quando eu tava nessa época de ateu, assim, também fui igreja. Mas bem pouco, assim. Uma, duas vezes e falei, não é que...

Mas foi exatamente vendo muito disso que eu também já tinha visto no Espiritismo, que é as pessoas querem tomar conta das outras em vez de estar num lugar de se apoiar. Estar muito mais num lugar de ego, de...

De controlar mesmo, assim. De julgamento, exato. E isso era uma coisa que eu não gostava dentro dessa... Ainda não gosto, até no meu terreiro tem, né? Todo lugar vai ter isso, porque somos seres humanos, né? Mas, pelo menos na minha experiência, né? Pelo menos no terreiro, foi um lugar ali que, tipo, pra mim foi...

Não precisa acreditar, não precisa acreditar, mas se te faz bem, pronto. Isso é libertador de um tanto, Débora. É, tipo assim, vai no terreiro que eu participava e ateu. Gente que falava ateu, mas ó, não acredito que aqui tá um espírito, mas eu acredito nos ensinamentos que estão me passando.

Não acredito que tem uma entidade aqui na minha frente, mas eu acredito na experiência, nas coisas que estão me passando aqui e estão me fazendo bem. Então, continua vindo, porque é um lugar que ninguém vai te julgar se você está acreditando ou não. Se está te ajudando, se você está ali de boa ajudando os outros também.

E eu saí por causa de... Eu já saí de terreiro por causa de... De Pai de Santa, que também foi, assim, pra lado político, antivacina, essas coisas. Aí eu... Nossa! Na pandemia, continuou. Não quis fechar o terreiro, assim. Então, aí eu saí. Nossa, que... Negacionista tem em todo lugar, né? Não, não importa a religião. É isso. É isso.

Ainda falando sobre o tema da acessibilidade dentro do contexto religioso e pensando também nas pessoas que eventualmente a gente conheceu que poderiam se enquadrar dentro de uma deficiência. Eu conheci várias e, curiosamente, eram as pessoas com quem eu tinha mais afinidade, né? Porque, será?

Então, eu conheci pessoas que tinham características autísticas muito fortes, TDAH, pessoas com deficiência intelectual que não sabia que tinham, né? Além disso, eu vi muito capacitismo, eu vi muito bullying com essas pessoas, eu vi muita exclusão. Mas eu também vi muita gente se ajudando. Eu vi muita gente que tentava ajudar essas pessoas de alguma forma.

que compreendia, que tentava dar espaço, que tentava ensinar algumas coisas, que tentava colocar pra fazer alguma coisa. Eu vi de tudo. Então, assim, uma das acessibilidades que eu acho mais importante pra gente pensar no contexto religioso, por ser um ambiente coletivo, é que a instituição religiosa ela permita com que a pessoa autista, a pessoa com deficiência

ela possa expressar quem ela é, ter a liberdade de poder se regular, ter a liberdade de poder transitar pelo ambiente.

que não vai atrapalhar ninguém, claro, né? Mas que ela tem a liberdade de não precisar ficar reprimindo a sua condição pra poder se encaixar ali. Que ela possa ser quem ela é do ponto de vista, assim, o autista faz estereotipia e as pessoas não ficarem querendo reprimir e achar que isso é uma coisa errada. Isso é um primeiro ponto. O segundo ponto, tem muita igreja que tem problema com a poluição sonora. Com som alto. Isso é um problemaço. E o autista...

Ele sofre com isso. Eu sofri muito com isso em algumas igrejas. Nossa! E aí você vai reclamar... Eu sofro muito como vizinho de igreja. É? Aí você vai reclamar, o povo acha que você é chato e que não tem nada a ver. Tem gente sem noção nesse naipe, assim. O que vocês diriam de mais coisas que seria interessante? Então, eu acho que falta realmente, assim, o pessoal pensar muito nessa questão de inclusão. Estava até...

Antes do teu diagnóstico, né? Eu já frequentava terreiro antes, sabe? Que eu era autista. E já tinha no meu terreiro, já tinha, como fala? Tradutor de Libras. Porque tinha uma pessoa lá, uma pessoa que precisava de assistência no terreiro, que ela era surda, só conversava com Libras. Então, no terreiro vem a entidade, né? E lá da entidade tem o cambono, que é a pessoa que auxilia nessa comunicação, ajuda ali nos trabalhos, etc. É o estagiário, assim, né? Do terreiro.

E aí o Cambon sabia livros pra poder traduzir o que a entidade falava pra pessoa e traduzir o que a pessoa falava pra entidade. Então isso já era uma inclusão simples, assim, sabe? Tipo, também quando minha amiga que frequentava o terreiro teve diagnóstico primeiro do que eu, né? Eu tive por causa dela, inclusive.

As pessoas já entenderam que a gente precisava de... Eu tive crise no terreiro uma vez. O Pai de Santo pegou a sala dele e falou ó, você vai ficar aqui, fica aqui o tempo que você quiser. Tipo, fiquei horas lá e me esperaram porque sabia que precisava, assim, sabe? Então, isso fez eu entender que ali era um espaço muito mais acolhedor. É que pra mim, o atabaque não tem problema porque pra mim é um som organizado. Mas quando ficava muito barulho na sala, o Pai de Santo sabia que eu ia sair.

porque eu não tava aguentando barulho. Então, eu só ia ficar lá fora, porque tava muita gente conversando, assim, antes da gira, antes que acontecessem as coisas. Então, eles entendiam que eu ia ficar ali fora, sabe? Então, eu não sei como que é nas outras religiões, mas se a gente pensa... Só de entender as dificuldades das pessoas e ver como você pode mudar o ambiente pra acolher todo mundo, porque, assim, diminuir o volume não vai atrapalhar ninguém.

Não atrapalha ninguém diminuir o volume. Deus vai estar escutando também. Escuta a beça. Escuta a beça, pô. Então é meio... E são coisas que às vezes, não falando num lugar religioso, mas na vida mesmo as pessoas falam, mas tem que fazer tudo, mas não vai atrapalhar. Tipo assim, todo mundo ainda vai aproveitar o som.

Só vai diminuir um pouco. Ah, mas aí é tudo pra você. Mas, gente, é uma coisa tão simples, sabe? São umas coisas tão simples que podem ajudar de... Lá no meu terreno também tem crianças autistas, né? Durante a gira, todo mundo fica sentado, né? Durante o atendimento e tal, esperando a sua vez. As crianças ficam correndo e ninguém briga, porque sabem que são crianças que precisam se regular, se movimentando ali na sala, sabe? Então, são essas coisas de só empatia e entendimento que já ajudam muito o ambiente religioso. Porque é um ambiente que tem muitos estímulos.

E que muitos estímulos fazem mal pra gente e vocês sabem disso, vocês sabem. Então, ter um acolhimento da religião perante a isso também é uma maneira de mostrar que ali é um lugar pra todos. Tem uma responsabilidade também das lideranças religiosas, do padre, do pastor.

enfim, de outras religiões também, que levam a sério, que acreditam e que não estão ali para julgar e sim para acolher, de conhecer minimamente o que é o autismo, porque eles estão num ambiente de multidão. Fatalmente vai ter um autista ali.

E é preciso saber, para não ficar, na pior das hipóteses, dizendo que é o demônio, ou, na melhor das hipóteses, achando que é, sei lá, rebelde, falta de Deus, sabe? Encontrar um meio de detectar essas pessoas e acolher dentro da sua diversidade.

E é exatamente isso, né? De entender o que é, né? Porque senão fica nessa de... Não, isso é energia ruim, isso é falta de Deus, isso é coisa do demônio. Não, vamos curar seu autismo. Tantas vezes a gente vem à igreja, né? Vamos curar seu autismo. Pelo menos nas religiões mais espíritas, no espiritismo e na Umbanda, tem muito do autismo a ser um ser evoluído.

Então ele veio pra... Ele encarnou aqui pra ensinar. Eu tenho uma história com isso. A criança índigo, tá ligado? A criança da aura azul clara. Isso, o anjo azul. Exatamente. É literalmente o anjo azul sendo aplicado numa espiritualidade. Pois é, velho. Eu lembro que já queriam me colocar pra incorporar espírito numa primeira reunião mediúnica que eu fiz parte.

E eu era um garoto inocente de 16 anos que sequer diagnóstico tinha e eu morrendo de medo de um outro cidadão entrar no meu corpo, no caso o espírito, tá ligado? Tipo assim, ai meu Deus, eu vou ser possuído!

Ou seja, eu tive uma crise de ansiedade ali mesmo e cadê que me ajudaram? Não ajudaram em porra nenhuma. Falaram que eu tinha algum distúrbio que era por conta de alguma existência passada que em decorrência disso fez você nascer meio problemático, assim, nesse sentido, sabe? Às vezes é uma falta de respeito, né? Falar que, tipo... Brutal, né? A sua consciência, as dificuldades que você sente hoje você merece porque você fez isso em outra vida, sabe? Cara, isso é de uma afrota!

Isso é de uma indelicadeza gritante. Ainda mais pela forma como dizem isso no tom de superioridade que o Deco e o Bruno muito realçaram. Tá vendo como eu sou esse médium deveras controlado? Usam até essa voz de Cid Moreira. Esse médium que trabalha, porque se não trabalha no espiritismo pelo amor, trabalha pela dourar pra puta que pariu. E vocês levantaram uma questão extremamente delicada e polêmica e agora com relação principalmente ao cristianismo, né?

o cristianismo ter uma cultura muito capacitista os milagres de Jesus lá curando o paraplético lá, curando o aleijado, o negócio falava existe uma visão sobre deficiência dentro do contexto bíblico, muito complicada, e a nossa existência dentro do contexto religioso confronta essa lógica, muitas vezes, que principalmente a galera das antigas tinha, de considerar a deficiência como algo não incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom incom

a ser consertado por Deus. Porque deficiência não é perfeita, né? E a gente é semelhança de Deus. E Deus é perfeito, então você precisa... Então você não pode ser deficiente. Ou seja, eles usam o conceito de Deus pra respaldar algum tipo de perfeição. E através dos próprios versículos bíblicos, eles buscam algum tipo de respaldo espiritual pra promover a tal da cura autista, tá ligado? Como foi mencionado aqui. Mas só pra gente... E aí

chegar num consenso aqui de que eu não estou dizendo que todos os cristãos, que todas as igrejas são capacitistas, que é tudo um bando de fim do aégo. Não, não estou falando isso. Eu estou dizendo que há uma cultura capacitista introjetada dentro da maioria das religiões, porque elas são doutrinas muito antigas, lá de mil, dois mil anos atrás, onde deficiência era, sim, uma coisa mal vista.

E que se as lideranças religiosas não tivessem a capacidade de contextualizar isso e de entender que são outros tempos e que a deficiência não deve ser tratada como uma coisa que não deveria existir, como uma falha, como um erro, uma consequência do pecado de Adão e Eva e coisas do tipo. E tratar como uma coisa que faz parte da humanidade, faz parte de quem a gente é.

E aceitar isso como uma coisa que faz parte da sociedade, aí nós vamos começar a ter ambientes religiosos menos ruins para pessoas com deficiência do que a gente tem observado ao longo da história. E só para fazer um ponto, que como eu lido com muita gente na internet, principalmente pessoas religiosas, eu sei que vai... Muita gente, principalmente quem falou muito mal do...

da religião, de algumas aspectos da religião cristã, né? Gente, a gente tá falando de experiências nossas, ah, mas eu não sou desse jeito, minha igreja não é desse jeito. Mas não significa que as outras pessoas não são e não significa que elas de tamanho não representam a religião de vocês.

Porque muitas pessoas falam assim, ah, mas esse daí não é um católico de verdade. Mas ainda é um católico. Está representando o catolicismo. E está fazendo mal. Então você, em vez de rebater a gente por estar falando das coisas que a gente vive com o catolicismo, por exemplo, rebate seu irmão católico, tá ligado? Que está fazendo isso, pra gente não ter essa visão ruim.

Porque isso aqui, pelo menos, eu acho que ninguém aqui está trazendo devaneiros da cabeça. Isso aqui foi o que a gente viu e viveu, sabe? E eu entendo que muita gente é aquilo, cara. A religião, tem muita gente legal que está ali pela caridade, que está ali pela bondade ao outro, para se evoluir mesmo. A gente sabe disso, mas tem muita gente...

que tá fazendo muito mal. Alguém que também quer ter essa ajuda, que também quer ser ajudado pela religião. E eu falo isso também como responsabilidade dentro do terreiro. Tem muita parte de santo que faz trabalhos que eu sou contra, etc. Se a gente não lutar dentro da nossa própria religião com os preconceituosos, a gente não vai conseguir expandir a própria religião nesse sentido. Não precisa expandir ou não, né? Mas de ser um lugar acolhedor.

Porque o problema pra mim não é existir religião ou não, é não ser acolhedora pra todo mundo, não ser um lugar positivo, sabe? E muitas vezes muitas pessoas não é. Bom, meus queridos, então nós chegamos ao final do nosso episódio. Eu gostaria de agradecer mais uma vez ao nosso querido Deco Machado, nosso convidado de hoje. Eu vim obrigado. Obrigado.

é sempre um prazer eu agradeço muito aqui o espaço mais uma vez, adoro estar aqui se você não me conhece, segue lá nas redes sociais arroba o Deco Machado, eu falo sobre Umbanda e Autismo, tem o meu show de Umbanda Testemunho de Oxalá, se você quer conhecer um pouco mais da Umbanda, sem esse preconceito é um show onde eu falo de todas as religiões como todas as religiões são unidas numa força só, então é um show que eu falo das semelhanças das religiões

puxando mais a sardinha pro meu lado, né? Então venha se converter pra Umbanda. E também tô com o meu show Transtorno, começando agora na turnê, que é um show somente sobre autismo. Então, ainda tem um pouco de... Tem da minha vida, né? Então tem um pouco de religião também, mas é um show focado muito mais em falar da minha experiência como pessoal autista. E é isso, o Introvertendo é um podcast feito por autistas, gravado no escritório do Naya. E até a próxima. Muito obrigado.

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