Primeiro Tratamento – Juan Jullian – # 372
Juan Jullian é roteirista brasileiro da Globo, com trabalhos em produções como Dona de Mim, Reencarne, Ritmo de Natal e o filme Roubo do Cão. No papo, Juan contou experiências, processos e muito mais.
No papo de abertura, segunda temporada de Jury Duty
- Carreira de Juan JullianInício na literatura e autopublicação · Transição para o audiovisual · Experiência na Play 9 · Trabalho na Globo · Laboratório de Narrativas Negras da Flup · Coautoria em Reencarne · Escrita de novelas · Processo criativo entre literatura e roteiro · Origem de ideias para projetos · Adaptação de "O Querido Ex"
- Júri Duty 2ª TemporadaComparativo com a 1ª temporada · Crítica à temporada · Personagens secundários · Ritmo e duração da temporada
- Roubo OrquestradoInspiração no mercado pet · Adaptação brasileira de "Esqueceram de Mim" · Protagonista preta e ambientação no Rio de Janeiro
- Processo Criativo e FormatosDiferenças entre novela e série · Desafios da novela das sete · Integração de publicidade em novelas · Etapas do desenvolvimento de roteiro · Argumento e Bíblia de projeto
- Bodies Bodies BodiesDiálogos e humor · Crítica social e geração atual · Produção de baixo orçamento
- Recomendações para iniciantesCoragem para se expor · Experimentação e publicação · Entendimento do ecossistema · Networking e eventos
- Corpo, Mente e AnsiedadePrática de Jiu-Jitsu · Benefícios para ansiedade e exaustão · Interação social em esportes de combate
- Viralizou (Livro)Apocalipse zumbi
Fala galera, meu nome é Filipe Cordeiro. Eu sou o Bruno Bloch. E tá começando o primeiro tratamento.
Fala, Brunão. Tudo bem? Filipe Cordeiro, tudo bem, cara? Como está o senhor? Tô ótimo, Brunão. Gravando aqui, mas... Gravando em São Paulo, mas na verdade fora de São Paulo. É, olha só. Eu quero fazer um disclaimer aqui que talvez nessas próximas quartas-feiras os episódios que têm normalmente entrado no fim do dia ali na quarta...
Podem entrar, talvez na terça, talvez na quinta, talvez de manhã. Pode ser lá o que vai acontecer. Porque eu estarei num fuso horário completamente maluco. Eu ainda não sei direito, inclusive, como é que vai ser direito isso. É isso mesmo. Você que está ouvindo o Filipe Cordeiro agora, não faz ideia de que ele está no Japão nesse momento.
está de férias no Japão, então a gente, na verdade, gravou essa cabeça com alguma antecedência, né? Algumas semaninhas antes, mas ele está lá no Bem Bom, né? Você, Filipe, está no Japão, no Bem Bom, lá, comendo, explorando, né? Essa cultura, se esbaldando, né? Fazendo amigos, tomando um negocinho, né? Tenho certeza que você está curtindo.
Espero que sim. Espero que o meu avião pouze, né? Tenho um pouco de medo de avião, inclusive. Espero que sim. Estarei... São quantas horas de viagem? Cara, na ida vão ser 25 ou 26 e na volta vão ser 33. Caralho, brother. Cara, tem que ir muito.
comprei aquela meia de compressão cara cara, tem que estar muito tranquilo tô vendo talvez até de tomar um calmantezinho porque muito tempo em avião mas é para em algum lugar, imagino, né? para onde?
Eu vou por Addis Abeba, Coreia, Narita. Volto por Los Angeles, Detroit, sei lá, algum outro lugar nos Estados Unidos e aí São Paulo. Que isso. Aventura, né, mano? Sei que você vai ter boas histórias pra contar aí depois. Sei que você vai ter altas confusões, né, que tu vai aprontar conhecendo o Filipe Cordeiro. Vamos ver se ele volta, né? Sobrevive.
sozinho, né? é um fun fact também, mas sozinho, né? você está nesse momento sozinho no Japão fazendo seu turismo enquanto a galera escuta, é isso eu estou indo completamente sozinho eu gosto de viajar sozinho, né? você sabe disso, eu gosto de sair sozinho você tem essa qualidade cara, que é impressionante, que você se basta você é sustentável autossustentável, não precisa de ninguém é impressionante, cara, eu admiro muito isso em você הא הא הא הא הא הא הא הא
É, eu curto, eu curto passar um tempo comigo mesmo. Mas, Bruno, falamos muito sobre mim. Eu sei que você quer trazer aqui um assunto, eu não sei, inclusive, se você quer trazer como uma dica, se você quer trazer como uma crítica. Sei que é uma série que está na segunda temporada, mas é completamente diferente do que a primeira, mas não assisti a segunda. Inclusive, eu confesso que eu estava esperando você me falar sobre...
Tem algumas séries, algumas coisas que ficam no meu radar e eu fico esperando que você teste pra mim. Vou te confessar isso aqui. É mesmo? Júlio Duri, segunda... É, muito. Inclusive, coisas que eu sei que você gosta, segundas temporadas e afins, eu fico meio nessa. Júlio Duri, segunda temporada. E aí?
Cara, então, trazer um relato aqui, pra quem não sabe, o Judy Judy acabou agora, a segunda temporada, é um programa de pegadinha, basicamente, só que num formato um pouco mais sofisticado, que é uma, enfim, parece estar assistindo uma sitcom, né? Tem todo um universo de personagens, tem toda uma gama ali de situações.
e apenas uma pessoa envolvida, são todos atores, são todos personagens, enfim, tudo roteirizado, mas tem uma pessoa ali no meio que não sabe de nada, né, que é uma pessoa comum, que não é ator, e ela tá lá no meio sem saber, ela acha que ela tá realmente participando daquele evento, e aquele evento é real, e ela vai, enfim, né, ela vai descobrir no final que era tudo uma pegadinha e tal, e ela vai ganhar uma grana no final e tal.
E aí essa é basicamente a premissa, a primeira temporada foi num tribunal, né, essa pessoa tava ali fazendo parte de um júri ali, de um caso que na verdade era mentiroso e tal, mas enfim, altas situações e confusões ali, super engraçado, eu achei a primeira temporada ótima, você viu, né, Filipe?
A primeira temporada é... Gostou também, né? Incrível. Muito boa e realmente assim, me pareceu uma boa sacada mesmo assim de como é que você faz uma sitcom nos tempos de hoje, né? Que pareça fresca, né? Que tenha todos aqueles arquétipos, aquela linguagem, mas que seja uma coisa original, né? Muito original.
Personagens muito engraçados ali, compondo esse universo. Você tinha lá o James Madison, né? Aquele ator ótimo fazendo ele mesmo ali, uma versão de si mesmo. Muito engraçado também, enfim. Foi bem fascinante mesmo a primeira temporada. E aí essa segunda surgiu, né? Com uma novidade.
Pareceu ótima também, né? Beleza, vamos fazer uma segunda temporada, só que vai ser num outro lugar, um outro contexto. Vai ser, em vez de um tribunal de júri, vai ser num retiro corporativo de uma empresa fictícia, né? Então você vai ter essa pessoa real ali no meio dessa empresa falsa, dessas atividades, desse retiro e tal. Eu achei a ideia ótima, achei o trailer interessante, eu gosto muito dessa coisa de retiro corporativo. Enfim, pra mim tinha tudo pra dar certo.
E, cara, assim, falando assim por alto, resumidamente, que sem entregar spoilers, né, eu me decepcionei um pouco. Me decepcionei. Novamente, fazendo aqui uma conexão com o que a gente conversou do The Pit, né, da segunda temporada. Claro, a gente perde o frescor por ser a segunda temporada, por mais que seja num outro ambiente, o formato é parecido com a primeira, então a gente já não tem mais essa novidade, a gente já não fica mais, né, com essa impressão caramba, né, que ideia original.
que já aconteceu na primeira, enfim, então a gente tem que levar isso em consideração, certo? Mas, cara, eu assim, eu achei... Eu achei legal, eu não achei ruim, tá? Eu achei legal, achei o final bom, achei que realmente o final é... Vale a pena você assistir pra ver o final, pra ver a revelação, pra ver os... Todas as engenharias de bastidores que eles fizeram ali, né?
pra enganar essa pessoa enfim, tudo muito legal agora, sei lá, cara, eu achei os personagens por exemplo, ali os personagens que compõem ali essa empresa eu achei não tão interessante quanto a primeira, não tão engraçados alguns personagens meio genéricos talvez os atores eu achei sei lá, o cara, por exemplo, que faz o e aí
o filho do dono da empresa, o dono da empresa vai se aposentar, vai passar o bastão para o filho, aquela coisa, e o filho é meio sem noção, meio doidão, eu achei, não sei, eu não gostei muito do personagem do filme, eu achei muito engraçado, eu não sei se foi uma coisa de roteiro, se foi uma coisa da escalação do ator, eu ri muito mais na primeira.
achei longa a temporada. Achei longa. Eu confesso que eu fiquei empurrando com a barriga alguns episódios ali na meiuca. Falei, gente, no terceiro episódio eu já tava meio satisfeito. Eu queria ver logo a revelação. E aí eu me pergunto até se precisa de uma temporada acho que de oito episódios, ou até dez. Não lembro de quanto que era direito. Mas será que precisa de uma temporada tão longa pra esse formato, sabe? Não sei, cara.
Eu achei meio chato mesmo, assim, sabe? Novamente. No final valeu a pena, mas...
Mas eu tenho uma provocação aqui para você disso que você falou agora. Obviamente, acho que você matou muito a charada que formatos muito originais e muito inovadores, e aí acho que você trouxe muito bem The Pit, que na verdade é uma combinação de várias coisas que torna muito original, eles tendem...
a encantar muito quando a gente entra, mas depois a gente, quando a gente pede a surpresa, a gente tende também a notar que, cara, o que era mais incrível era a surpresa da inovação de formato do que realmente o suco. E aí, por exemplo, a gente conversou uns dois, três episódios atrás.
Sobre The Pit, que eu acho que a segunda temporada fez muito bem, é que, independentemente do formato, ela continuou com personagens muito...
fortes, muito interessantes então esse tipo de série que inova muito no formato, ela é muito boa de entrar e de você ver quase que uma espécie de sprint, sabe? Tipo assim, ah, isso aqui é tão original que eu vou ficar aqui um certo tempo só que eu tenho a impressão, eu não assisti de novo mas eu tenho a impressão que na primeira temporada
Não era só o formato que era incrível. E aí é uma dúvida que eu vou trazer para você e uma provocação que eu vou trazer para você sobre a segunda temporada, que é o seguinte. No primeiro episódio a gente entende aquele formato e fica meio que esperando a revelação. E isso é um excelente gatilho de suspense. É aquela coisa de ter a...
bomba embaixo da mesa que você vê e você vê duas pessoas conversando, sabe o que o Alfred Hitchcock fala, que é a criação de suspense, você fala assim, cara, quando que esse cara vai saber? Será que ele vai notar? Será que ele não vai notar? Como é que vai ser essa revelação? Só que na primeira temporada os personagens eram muito bons. Eu lembro, talvez, da gente conversar que é o seguinte, se não fosse essa inovação de formato, eu sinto que seria uma sitcom que eu assistiria.
independentemente desse cara saber ou não, sabe? Essa galera maluca no júri, e aí tem uma coisa muito interessante. É, talvez aquela arena da primeira temporada era muito boa para uma série de comédia. É, o James Marksen fazendo o papel dele mesmo, tem uma curiosidade muito engraçada, não sei se é um tweet, se foi alguma coisa que saiu, sei lá, na Variety, que eu li que o personagem que seria mais premiado do James Marksen.
era ele interpretando ele mesmo, porque ele sempre fez uns personagens meio bundas, e eu acho ele bom ator. Ele é ótimo. Ele sempre fez uns personagens meio bundas. E nesse ele, porra, brilhou demais. Eu acho que seria... Aí é que tá, eu acho que a primeira temporada, a grande coisa da primeira temporada, na verdade, talvez não seja o catch dela, seja que eu veria aquela série se fosse totalmente ficção, sabe?
É, pode ser, pode ser, é isso. Eu acho que a arena era muito específica ali, né? E eu acho que a arena da segunda é boa também, tá? Eu acho que também ela possibilita aí, né? Uma curiosidade, um potencial bom aí de comédia, né? Essa coisa de retiro de empresa, enfim. Mas é isso, cara, assim. Eu acho que, por exemplo...
Tem situações na segunda temporada que, sei lá, no começo, enfim, dando um spoiler pequeno aqui, né? O cara do RH, da empresa, pede em casamento uma funcionária da empresa lá no primeiro dia do retiro, sendo que nem é namorado dela. E nunca pegou ela.
Eu não sei se eu acho... Cara, eu não sei. Pra mim não faz muito sentido assim, sabe? Claro, é uma situação criada ali pra criar um constrangimento, pra mostrar que essa galera é meio maluca, pro cara que é a pessoa real ficar numa situação, né? Já de que porra é essa. Mas não ficou bem construído.
Eu não sei, cara. Eu não gostei muito. Eu achei uma situação que não... Eu achei tão fora da realidade, assim, sabe? E eu acho que a temporada toda ela joga um pouco nessa linha, assim, sabe? Ela vai criando situações. Tem um arco muito grande ali, muito detalhado mesmo ali. Enfim, eu tô com medo de dar spoilers aqui. Mas é isso, né? Tipo, ah, o cara vai trabalhar nessa empresa. Essa empresa é pequena, de família.
o chefe vai se aposentar, vai passar o bastão para o filho, o filho é incompetente, o filho não está dando conta, está constrangendo ali o pai, possíveis clientes, está perdendo clientes, o pai considera vender a empresa. Aí chega o comprador de potencial para se retirar, o bababá, são que são gente ruim. Aí o cara real fica desconfiado, meu Deus, isso aí não está certo, enfim. Enfim, tem um arco tão...
Enfim, faz sentido o arco, tá? Mas eu não sei se pra esse tipo de projeto, que a gente sabe que é falso, eu não sei se precisa de um arco tão bem construído, tão bem detalhado, que demora pra acontecer, que tem mil situaçõezinhas, bobinhas, algumas engraçadas, outras que eu acho que nem funcionam tanto, sabe? Aí é um show de talentos que vai ter, sabe?
E aí vai ter os talentos lá da empresa, vai ter da outra empresa que quer comprar, aí vai ter esse conflito, e aí vai ter... Eles vão num bar, e aí vai ter um cara fazendo hipnose, e aí eles vão falar altas barbaridades, os personagens e tal.
Alguma situação engraçada, mas assim, eu não sei mesmo, eu acho que fica cansativo, sabe? Eu acho que acima de tudo fica cansativo. E é isso, como a gente já conhece, a gente já sabe mais ou menos pra onde vai, eu fico, tá, vambora, sabe? Me entrega logo o que eu quero ver, sabe? Me entrega a revelação, dá o cheque pra esse cara, vamos ser felizes, é isso aí, sabe? Eu não sei, eu não... Eu achei realmente a experiência muito cansativa.
Cara, ouvindo você, e aí eu vou levantar uma provocação, eu quero te ouvir um pouco mais, que você falou muito sobre a arena e sobre o plot, o arco longo. E eu acho que o que eu curti na primeira temporada, eu acho que uma coisa que você falou que é muito importante e interessante, é que é uma sitcom.
E aí, o arco longo não importa tanto. Até a revelação, tá? Porque eu tô... Na primeira temporada eu ainda defendo isso. Na primeira temporada a gente sabe no primeiro episódio que a gente quer ver o que vai acontecer e a gente aguenta todos aqueles. Porque, na verdade, não é a arena, não é o arco longo, são os personagens. É ver essa galera lidando com as situações. Então, talvez... E aí eu não vi. Talvez o que seja...
legal e mais interessante, que talvez eles não tenham acertado no ponto pelo que eu estou te ouvindo, é fazer personagens que a gente queira ver passando por situações. Porque era isso. No primeiro episódio da primeira temporada, a gente queria ver como é que a estrela vai lidar com isso. Como é que a menina que não quer estar no júri vai lidar com isso.
Como é que o cara que só entrou no júri porque quer pegar uma menina vai lidar com isso? Como é que o advogado, que é um merdão, vai conseguir defender aquele cara que fez claramente um crime? Então, assim, eu me lembro muito bem, além do...
personagem principal ali, que era o que a gente quer ver sendo revelado, de vários outros personagens. Então eu queria ficar com eles, sabe? Eu acho que na segunda temporada, os personagens secundários ali, do elenco, eu não acho que eles são memoráveis mesmo, sabe? Não são, eu não tenho muita curiosidade. Eu acho que na primeira, eu não lembro tanto agora, tá?
pra te dizer qual era o destaque, assim. Mas, eu realmente não me chamo atenção, assim. Tem até um pessoal junto engraçado, eu acho que tem situações engraçadas também, de palestras nessas segundas, de convidados, né, que não são do elenco fixo. Mas é isso, assim, a dinâmica de sitcom do núcleo duro ali...
Eu não acho tão... É isso, eu não acho tão interessante. Eu não acho que funciona tanto. Enfim, combinando isso tudo com esse arco super detalhado, que eu não sei se precisa tanto, longo, demorado, com uma certa previsibilidade, porque a gente já conhece a série, né? Enfim, isso tudo junto, eu acho que me desanimou um pouco, sabe? Acabei falando pra caralho, dei spoiler pra caralho. Eu contei, expliquei, tem que acontecer. E que, vamos falar mais. Eu não falei o finalzinho, mas eu acho que o finalzinho é fácil deduzir também.
mas vou te falar mais, é incrível você ter falado todos os spoilers porque não verei, eu já senti que eu assisti a temporada aqui com você é, estraguei a experiência e talvez os nossos ouvintes possam se poupar também é, a gente tinha que ter falado antes, não escute essa conversa
Mas, enfim, mas, cara, eu fiquei meio chateado, assim, porque eu preferia a primeira. Não achei ruim mesmo, assim, eu só achei mais ou menos, assim. Eu daria uma nota, sei lá, daria uma nota 7, talvez. 7,25. 7,25, assim, que eu aprecio o esforço que foi feito. Quando você vê no episódio...
Você vê, realmente, é muita gente envolvida. Você vê que, realmente, assim, o roteiro tá super... Tá super estabelecido ali. Os atores são... Enfim, eles são bons, né? Não é que eles improvisam ali bem com o cara lá, que eles chamam de herói, né? Mas, enfim, pra mim, infelizmente, não rolou tão bem quanto, por exemplo, a segunda temporada de The Pit, que eu achei do mesmo nível, né? Como a gente conversou no outro dia. Cara, você acabou de dar uma nota alta.
pra uma nota que se eu recebesse em qualquer roteiro meu, eu acho que eu simplesmente jogaria fora. Apreciar o esforço. Isso talvez seja a pior coisa pra se falar sobre qualquer criação do mundo. Cara, mas apreciar o esforço é importante pra caralho, cara. A gente sabe quanto trabalho que dá. Mas você não quer ouvir isso.
É, não vai ser um comentário que você vai fazer numa leitura de um roteiro de um amigo. Pô, cara, apreciei muito seu esforço, mas, porra... Você gastou horas aqui mesmo, né?
Bom, você me poupou horas. É ótimo que você apreciou o esforço deles, mas eu não o apreciarei. Vamos falar do nosso convidado de hoje, Bruno. Filipe, a gente teve o prazer de conversar com o Juan Julián, autor roteirista da Globo, co-criador da série Reencarne, também dos longas Ritmo de Natal, Roubo do Cão, também fez o especial Encontro de Vilães na Globo.
fez parte também da equipe de colaboradores da novela Dona de Mim além de roteirista, ele também é escritor escreveu diversos livros então ele administra em paralelo essas duas carreiras no audiovisual e na literatura falamos bastante sobre isso falamos sobre escrita de novela falamos sobre os longas que ele fez, especialmente o Roubo do Cão que tem uma premissa muito legal também e
Foi um papo ótimo, cara, com o Juan, que já estava na nossa lista para participar aqui do podcast há muito tempo, e foi um grande prazer. Cara, é realmente, o Juan, um cara, pô, incrível a trajetória dele, um cara que surgiu da literatura, eu sempre fico muito fã dessa galera que vem da literatura para o roteiro, vamos ouvir que foi bom demais.
Juan Julián, seja muito bem-vindo ao meu tratamento, cara. Prazer tê-lo aqui com a gente. Oi, Bruno. Oi, Filipe. Obrigado pelo convite. O prazer é todo meu de estar aqui batendo esse papo. Olha, você falou meu nome certinho. Geralmente as pessoas erram. É, eu pesquisei, cara. Eu escutei Juan Julián, Juan Julián. Eu sempre aceito, eu sempre aceito. Eu respondo, mas você falou certinho. Cara, eu tava muito apreensivo com isso, cara. Eu fui pesquisar, eu fui ver vários vídeos.
É ruim, né, chamar a pessoa errada. Mas, ó, seja bem-vindo. Está em casa. Obrigado, obrigado. Para começar a conversa, cara, vamos falar um pouquinho do começo da sua trajetória? Eu acredito que tenha sido a literatura. Chuto eu, né? Se for o caso, enfim, você vai me explicar.
O que você tinha em mente, assim, você queria escrever, beleza, queria escrever seus romances, você já queria ser roteirista também, já vislumbrava isso aí no futuro, talvez, ou nem passava pela sua cabeça? Eu queria entender um pouquinho da sua mentalidade, sabe? Como é que foi essa transição para o audiovisual, que também não foi... Imagino que você esteja fazendo as duas coisas em paralelo, né? Mas, enfim, como é que você foi parar também, sabe? No audiovisual.
Ótimo, Bruno. Eu sempre fui apaixonado por audiovisual, sempre fui apaixonado por cultura pop, na verdade. Eu era muito fanboy, assim. Eu sou dessa geração que cresceu com essas grandes sagas de fantasia. Percy Jackson, Narnia, Harry Potter, Crepúsculo. Eu consumia muito tudo isso e sempre fui muito fascinado por esse universo.
E também consumindo muita novela. Eu cresci com os meus avós e assistia novela o dia inteiro com ele. Chegava da escola e assistia novela. Então, sempre fui muito apaixonado por esse universo. Com isso, veio o desejo de trabalhar com audiovisual, de trabalhar com escrita, mas parecia muito distante.
Porque ninguém da minha família é desse rolê. Minha mãe é motorista de Kombi, meu pai era motorista de ônibus. Então como é que você vira roteirista? Como é que você escreve uma novela? Ou como é que você vira autor de livro? Parece algo muito distante. Então eu não me permitia muito sonhar de fato com isso, né? E encarar o audiovisual como uma profissão possível. Aí eu lembro que na faculdade eu fui fazer relações internacionais, depois eu fui fazer direito. E na paralela...
Estava trabalhando em um escritório de advocacia chato pra caramba. Estava muito infeliz com a minha rotina. E na paralela eu comecei a escrever o meu primeiro livro, que foi O Querido Ex. Tinha passado por um término, e esse término acabou motivando esse livro que é um pouco pessoal, que é um pouco ficcional. Mas era muito uma história que, enfim...
É uma história que eu gostaria de ter consumido quando era mais novo. A gente estava vivendo aquele boom dos YAs no Brasil com Vitor Martins, Lucas Rocha, Clara Alves, Rai Tavares. E aí o querido E surgiu nesse contexto. Eu publiquei ele de forma independente na Amazon.
porque também mercado editorial, como é que você chega numa editora, quais são esses caminhos, né? Tudo muito nebuloso. Então eu encontrei a autopublicação. Aí comecei a divulgar meu livro. E aí nesse processo de escrita, eu me encontrei, profissionalmente amava aquilo, amava aquele processo. Comecei a estudar, então fui fazer uma pós-graduação em escrita criativa.
Comecei a fazer curso de roteiro, curso de escrita criativa Na paralela do meu day job Que era lá no escritório de direito E aí na Bienal de 2019 aqui no Rio Teve o episódio de tentativa de censura De livros com protagonismo LGBT pelo Marcelo Crivella Nosso prefeito da época E eu brinco que o Crivella mudou a minha vida
Porque eu tinha um livro LGBT lá na Amazon que até então era meio índia. Eu ralava, fazia parceria com página de divulgação literária, fazia promoção, sorteio. Eu lembro que eu tinha 500 downloads do meu livro acumulados em seis, sete meses.
E aí um dia, que foi esse dia da Bienal, eu tive mais de 10 mil e-books vendidos. E aí o livro acabou viralizando. Isso chamou a atenção da Galera Record, que é o selo jovem do Grupo Editorial Record. E eu relancei o livro de forma física por eles no ano seguinte. E aí, enfim... O Crivella fez eu perceber que era possível viver da escrita. Grande Crivella! Grande Crivella, mudou.
Mas o livro estava na Bienal? Ele estava na Bienal? Você tinha se autopublicado também fisicamente? Ele estava na Amazon e eu tinha feito uma parceria com uma editora bem pequena daqui do Rio de Janeiro, que era a Transversal. E tinha, tipo, 15 exemplares físicos num stand escondido na Bienal.
Só que eu, cara, eu fazia, eu fiz uma campanha de divulgação do livro, mandei fazer, marca a página, ia para a fila dos autógrafos dos colegas e apresentava meu livro. Tinha alinhado divulgação com umas páginas no Twitter que divulgavam livro e-book, páginas de divulgação de conteúdo LGBT. Então, assim, eu estava na Bienal ali, eu fui todo dia naquela Bienal.
divulgando o livro. Então, quando estourou, meio que as coisas se conectaram. E ali eu pensei, cara, é possível mergulhar nessa carreira, é possível ver disso. E passei a olhar a escrita não como um hobby, não como um side job, mas como realmente uma possibilidade.
Nossa, quem diria, Krivelen fazendo alguma coisa. Ô, Ruan, me diz uma coisa. Desse livro pra frente, você publicou mais outros livros. Aí você já, logo depois da Bienal, você já fez esse acordo com a galera, recorde. Sim, foi na Bienal que eles me procuraram. Na própria Bienal que eles procuraram.
Logo depois, logo na sequência, eu recebi uma DM da Rafa Machado, que é a editora do seu. Achei até que era fake pra sua gente. Eu tô anos correndo atrás de editora, correndo atrás de agente, todo mundo diz não. Porque, cara, quando você tá começando, ninguém quer te agenciar. O que você tem pra mostrar? E a editora me manda uma DM falando Oi, você quer publicar seu livro com a gente? Eu achei até que era pegadinha.
Mas rolou. Foi logo na sequência da Bienal, logo depois desse episódio. E aí o livro ficou assim. Acho que foram 100 dias em primeiro lugar na Amazon. Foi uma mudança realmente. Mas aí eu queria saber como é que foi esse momento de troca de trabalho.
E aí até começar a pensar no audiovisual, porque pelo que eu entendi, nesse primeiro momento, era uma coisa mais literária mesmo, pelo que eu estou entendendo aqui. E aí saber como é que foi esse caminho de fiz isso aqui, tem esse outro lugar também que eu gostaria de dar uma olhada.
Sim, cara, o que mudou minha visão e me fez olhar para o audiovisual como uma possibilidade foi o laboratório de narrativas negras da Flupe em parceria com a Globo. É um laboratório que eles abrem todos os anos. Você submete uma sinopse de um projeto que você tem. Eles selecionam, acho que entre 30 e 40 projetos e aí você passa por uma imersão de alguns meses com autores, roteístas, diretores, para desenvolver aquele projeto.
Eu me inscrevi, foi em 2019 também, eu me inscrevi no laboratório da Flup. Aí me inscrevi, assim, uma amiga me mandou, que sabia que eu tava escrevendo, sabia que eu curtia. Falei, cara, eu tenho um projeto aqui, vou inscrever o que de ruim pode acontecer. E aí eu fui selecionado, e assim, o laboratório mudou a minha vida.
porque pude fazer contatos, conhecer pessoas. E para além do instrumental prático que aquilo me deu, de entender quem é quem, quais são os caminhos para apresentar um projeto, quais são os festivais, quem são as pessoas, como é que você chega na minha produtora, como é que você chega num canal.
Acho que eu me empoderei vendo que aquilo era possível, porque eu vi pessoas que vinham de lugares parecidos com o meu, pessoas parecidas comigo, e que estavam vivendo do audiovisual, que estavam contando as suas histórias. Então, a Flup foi muito importante para mim. E foi onde eu conheci o Igor Verde, que foi meu mentor, porque ele já era roteirista da Globo, e que me chamou para participar, para escrever a minha primeira série, que foi o Reencarne. Então, eu conheci ele ali na Flup também.
O Juan, e aí a sua primeira... Você teve essa experiência no laboratório e tal, que foi ótima, né? E aí a sua primeira experiência oficial, assim, trabalhando com o roteiro foi já na Globo?
Não, não. Eu trabalhei antes na Play 9, que é uma produtora de audiovisual voltada para a internet. Então eu comecei escrevendo roteiro de vídeo para a YouTube. Então eu escrevi para o canal da Paola Carosella, da Giovanna Elbank, o que tem na minha bolsa. Algumas webséries que eles tinham lá. Fiquei quase um ano trabalhando lá na Play, escrevendo speech para a marca. Tudo que vocês imaginam.
escrevendo roteiro pro YouTube. E foi uma experiência muito rica pra mim. Acho que você vai desenvolvendo o músculo da escrita. E às vezes eu vejo gente perguntando como eu começo. Eu falo, cara, agarra a primeira oportunidade que você tem de trabalhar com aquilo que você gosta. Porque às vezes a gente fica tão focado.
naquele filme ou naquela sala de roteiro, que a gente deixa passar uma série de outras experiências que orbitam esse universo e que podem servir como portos de entrada. Eu comecei meu primeiro trabalho de roteirista, eu fui lá na Play 9, fiquei um ano lá. Mas o primeiro trabalho na ficção, depois foi o quê, exatamente?
Olha, enquanto eu estava na Play 9, eu desenvolvi um projeto para a boutique com a Rai Tavares, que acabou não indo para frente, mas foi o meu primeiro paycheck de uma ideia original que a gente conseguiu vender para uma produtora. E logo depois, depois desse ano, na Play 9, eu recebi o convite para entrar na Globo, onde eu estou desde então. Então, todos os meus trabalhos de ficção para o audiovisual foram dentro da Globo.
A gente vai chegar, acho que talvez seja interessante a gente meio que numa linha do tempo que faça sentido, mas eu fiquei curioso ouvindo uma parte da sua resposta, que pelo que eu entendi, na Flup você começou a desenvolver o reencarne que...
lá na frente se tornou a série recente. E aí eu queria saber se é isso mesmo, é um projeto que você já tem há bastante tempo, acho que a gente vai acabar falando dele lá atrás, pulando um pouquinho para frente, mas eu queria saber, então, ele já existe há muito tempo, foi lá mesmo e como é que foi essa primeira ideia?
Não, não, Filipe. Na verdade, na Flup eu conheci o Igor Verde e o Reencarne era um projeto original do Igor. Ah, tá. Mas ele não tava com o projeto lá? Não, não tava. Eu entrei na Flup com outro projeto que depois eu fui parar em lugar nenhum. Um projeto de gaveta.
Na época, quando eu me formei em RI, eu fiz uma monografia sobre a criação de campos de concentração para homens gays na Xixênia. Era um assunto super árido. E eu fiz essa monografia, ela foi premiada na faculdade, ela foi lida por, sei lá, meia dúzia de pessoas, igual qualquer trabalho acadêmico.
E aí eu transformei isso num projeto audiovisual, num longa. E foi esse projeto que eu submeti pra aprovação na Flupe. E é engraçado, né? Porque a gente tem projetos que às vezes não são desenvolvidos, que não vão pro ar, mas que, cara, te abrem várias portas. E foi o caso desse projeto pra mim. Foi através desse projeto que eu entrei na Flupe, que eu conheci com o Igor. Aprendi um monte porque eu fiquei desenvolvendo esse projeto durante meses lá.
E a gente teve a consultoria do Jorge Furtado, do Lázaro Ramos, uma galera bem legal.
Então foi um projeto que me abriu portas, apesar dele não ter ido pra frente. Ele cumpriu o seu dever. E aí eu acabei conhecendo o Igor, a gente ficou muito próximo. E quando ele apresentou o Reencarne na Globo, ele me chamou pra sala de roteiro, pra colaborar. Aí foi quando eu saí da Play 9, em 2020, 2021, e fui pra Globo.
De qualquer forma, já com o Reencarne lá em 2020. Isso, isso. O Reencarne foi a primeira sala. E o Reencarne foi uma experiência muito legal. Porque imagina, era a minha primeira sala de roteiro. Tinha sonhado com aquilo durante muito tempo. Então eu cheguei morrendo de medo nas reuniões.
E o Igor, o Elísio e a Amanda, que são os autores da série, eles combinaram que eles iam fazer uma sala horizontal. Então, quando eu entrei na série, eu entrei também como coautor, e não como colaborador. Então, isso veio com uma responsabilidade, um peso e também um medo de fazer merda muito grande. Mas foi muito legal, porque eu tive a oportunidade de...
Cara, eu escrevi a minha primeira série em um formato bem diferente, tendo autonomia e tendo a minha voz ouvida, né? E chegando num resultado no qual eu me vejo, que foi muito legal. Então, assim, foi uma oportunidade bem especial e muito graças a essa galera, né? Graças a esses criadores que olharam pra mim na minha primeira...
aula de roteiro e me convidaram pra dividir uma coautoria, né? É muito raro nesse mercado que a gente fica louco com crédito, que a gente se vê invisibilizado, enfim, todo esse debate. É raríssimo. Fui muito sortudo de ter a minha primeira experiência nesse lugar, assim, eu aprendi muito.
E o terror já era um gênero que você curtia também, né? Eu sei que você tem livro também que tem uma coisa de zumbi, né? Mas é um gênero que você já tinha, assim, trabalhado de alguma forma na escrita, que você já curtia também como público?
Amo, sim. Sou muito fã de terror. Eu escrevi o Viralizou, que é um livro sobre um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro. E eu chamei o Igor pra escrever comigo. Então, quando ele me chamou pro Reencarne, pra série, eu falei, ok, vou fazer uma série com você, mas você faz um livro comigo. E aí a gente escreveu, que é um terri, na verdade. O Viralizou, essa mistura de terror com comédia, a gente, surpreendentemente, foi indicado ao Jabuti com esse livro.
Era uma piada, porque esse livro é uma grande brincadeira, uma grande patacoada. Eu falava pro livro, cara, a gente vai ser indicado ao Jabuti com esse livro. De forma irônica, porque assim, ele não tem nada que se pareça com um livro indicado ao Jabuti. E aí quando rolou, a gente falou, cara, realmente, essa história de projeção, de falar pro universo aquilo que você quer, funciona.
Mas sim, eu sou um grande fã do gênero. Eu tinha feito o curso do Dante Vest sobre o terror. E o Reencarne, a gente acabou tendo bastante liberdade. Acho que por ser um conteúdo pro streaming, a gente teve a possibilidade de tensionar vários tropos do gênero. A gente tem protagonismo LGBT, a gente levou a história pra Goiânia. É uma série bem... que experimenta bastante.
Oran, eu queria te perguntar sobre, ainda nesse período dessa coisa de entrada na Globo, um pouco de como é que ficou a sua cabeça nessa coisa dos dois chapéus. Porque, por exemplo, viralizou, você aproveita e convida o Igor para escrever com você. Você também tem mais um outro romance, O Maldito Ex. Você continuou meio que com...
Duas janelas abertas, você... Porque, assim, é uma trabalheira, né? Escreve o livro e é muito solitário, de certa forma, né? Tudo bem que você fez ali depois uma parceria, mas eu queria entender, assim, como é que foi a sua ideia...
carreira mesmo, assim, de o quanto investir na parte literária, o quanto investir ali do seu tempo, sua vontade, tudo, né? Nessa parte do audiovisual, como é que você, nesse momento, assim, se dividia e como é que é até hoje em dia?
Então, acho que as coisas se complementam. O audiovisual paga as contas. A gente não ganha dinheiro com um livro no Brasil. Um livro que vende 10 mil exemplares já é considerado um best-seller. E aí, o que as pessoas não sabem é que o autor recebe 10% do valor de capa. Então, se um livro é 40 reais, você vai receber 4 reais. E aí, imagina, você vende 2 mil livros em um ano e já é coisa dessa.
as contas, ninguém consegue viver de fato com a venda de livros no Brasil, assim. Mas a literatura, ela me preenche, assim, a literatura é o espaço da liberdade, onde você não tem orçamento, onde você não precisa aprovar a sua ideia com um milhão de pessoas, então eu posso fazer um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro.
Parar pontinho Niterói Ter uma protagonista que é uma funkeira Bissexual Que derrota os zumbis com o poder da sua voz Eu posso pirar Na literatura Então eu não abro mão desse meu espaço da liberdade Não tenho orçamento
precisa aprovar o que eu escrevo. E a literatura também me dá algumas credenciais como roteirista. Acho que ela me deu uma certa legitimidade. Tenho entrado nesse espaço, já com alguns livros publicados, eu acho que me ajudou a abrir algumas portas. Então as coisas vão se complementando. Mas eu acho que...
Assim, é isso. O audiovisual é o meu dia-a-dia. Eu tô há um tempo sem lançar livro, justamente porque ano passado eu tava colaborando com novela, escrevi uma novela pela primeira vez, e aí é impossível você fazer outra coisa que não seja novela. E a gente tem que entregar seis capítulos por semana. Então você trabalha de domingo a domingo. Então eu tô há um tempo sem lançar livro, mas eu não abro mão de jeito nenhum, porque esse é o meu espaço da liberdade. A liberdade é irrestrita.
Juan, eu acho que daqui a pouquinho a gente pode entrar mais nesse assunto da novela, que eu acho que pode ser legal. Mas eu queria te perguntar ainda sobre esse paralelo da literatura com o roteiro, audiovisual. Como é que é assim? Como é que o seu processo criativo se diferencia, assim, nessas duas áreas, assim? Você, por exemplo, você começou na literatura, né? Então, talvez...
você tenha começado sem muitos cacoetes do audiovisual. A gente sabe que são processos diferentes, mas que eles conversam. Eu me pergunto se você, por exemplo, costuma fazer uma escaleta detalhada para planejar a história dos capítulos, ou você, como você falou agora, você vai num flow mais livre mesmo, mais solto, até por rebeldia.
Como é que é isso? Como é que esses processos conversam com outros? Se eles são parecidos? Se eles são radicalmente diferentes? Queria entender um pouquinho disso. Como é que é para você? Nossa, essa é uma ótima pergunta, Bruno. E eu sinto que eles são cada vez mais parecidos. E cada novo livro que eu escrevo se parece mais com o processo de escrever um roteiro. Justamente porque o livro acabou virando a exceção. Como o meu dia a dia é escrever roteiro, é o que eu faço todos os dias.
Quando eu sento para escrever um livro, eu agora invariavelmente faço uma escaleta. Eu faço o perfil dos personagens antes. E é muito engraçado eu olhar para aquele do ex, que foi um livro que eu escrevi quando eu estava na faculdade, sem nenhuma pretensão, sem nenhuma técnica, inclusive. E eu sentava e escrevia. É um livro epistolar, né? São as cartas que um jovem faz para o ex-namorado dele.
que entrou no Big Brother e virou basicamente a Juliette. Então era um flow criativo. Eu tinha 22 anos. E agora, quando eu fui escrever o... O Tejo viralizou, mas depois de viralizou, eu participei de uma coletânea, finalmente 15. Foi um conto, mas mesmo sendo um conto, eu sentei, eu escaletei. Antes eu fiz ficha de personagens, antes vem o arco do meu personagem. Então eu cada vez mais escrevo o meu livro como se fosse um roteiro audiovisual.
Mas você, por exemplo, quando você está com uma ideia original, assim, sei lá, esse teu ímpeto de escrever sobre alguma coisa, você consegue identificar o que você acha que vai funcionar para qual formato?
Ou até por conta desse momento que você está trabalhando muito mais com o roteiro audiovisual, você tem pensado cada vez mais já as histórias como roteiro e aí a exceção mesmo que é livre. Como é que é essa ideia ali na gênese da ideia para alguém que tem esses dois lugares?
É engraçado, porque o viralizou, a primeira ideia dele foi de um argumento de longa. Eu liguei para ele e falei, Igor, eu quero fazer um longa sobre um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro. Aí a gente desenvolveu um argumento e óbvio que a gente não conseguiu levar esse argumento para lugar nenhum, porque você bate na porta de qualquer produtora, na porta de qualquer exaportismo, você fala, quero fazer um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro, e o cara fala, não, né?
É difícil. Por conta do gênero, por conta do orçamento, assusta. Cara, a gente não vai conseguir fazer isso como filme, então vamos fazer como livro. Então eu acho que as ideias elas nascem e aí a gente vai adaptando, ainda mais nesse mundo que a gente vive hoje.
Você pensa num filme, ele pode virar uma novela vertical que pode virar um livro, que pode virar uma série. Então eu não boto numa caixinha, não. Acho que depende da vontade, do desejo. Meu próximo livro é uma história que eu já tentei apresentar, não foi pra frente. Eu falei, bom, eu vou fazer isso, transformar isso num livro porque não tá rolando. E aí, talvez, com um livro e esse livro estando certo, isso possibilita que essa história chegue no audiovisual. Eu acho que é cada vez mais misturado, assim. Não.
não cristalizo a ideia em um formato específico, não. E como é que costuma surgir uma ideia para você de um projeto? Pode ser literatura, também audiovisual, acho que o processo vai ser parecido, uma ideia interessante vem, seja lá para qual mídia for. Mas assim, tem uma forma mais recorrente que costuma parecer uma ideia? Sei lá, é de uma...
de uma história que você ouviu, é uma notícia que você leu, é de uma conversa, às vezes é uma conversa de bar, às vezes é uma premissa que vem assim, uma premissa com o cara meio high concept, que às vezes surge numa conversa, no famoso e-si, e o que vem primeiro? É um tema? É essa premissa? É um personagem? Como é que funciona pra vocês, geralmente?
Nossa, Bruno, eu acho que depende muito do projeto. Eu acho que cada ideia chega de uma forma. Por exemplo, O Roubo do Cão, que foi o meu último filme, foi uma mistura de fatores. Eu tinha assistido uma pesquisa de mercado na Globo, onde eles estavam falando sobre a ascensão do mercado pet.
e da dificuldade do mercado pet de se inserir em alguns produtos. Aí eu fiquei com isso na minha cabeça. Cara, mercado pet, mercado pet. Estão de olho no mercado pet. E aí eu tenho uma chihuahua. Eu estava passeando com ela na rua e um cara abordou a gente e queria comprar ela. E eu achei uma loucura. O que é isso, brother? É, sim. Ele que falou 10 mil pela sua chihuahua. Eu falei, moço, não.
Que isso que muda esse brother ali, gente. E tem valor, cara. Assim, tava andando com ela ali em Copacabana. O cara... E aí foi andando atrás de mim, aumentando o valor. Querendo comprar minha cachorra. Falei, cara, não, ela não tá à venda. Aí eu fiquei surpreso com essa situação. Lembrei da bendita pesquisa. Que eles estavam de olho em produtos audiovisual pra inserir marcas no mercado pet. Falei, cara, eu vou fazer uma história com isso. E aí surge o roubo do cão e tem essa cena no filme, né?
então acho que surge de coisas do dia a dia histórias da minha família, né o querido ex do meu primeiro livro é muito baseado em algo que aconteceu comigo, então acho que cada história vem de uma forma, o encontro de vilães né, que foi uma criação minha com o Ricardo pro show de 60 anos da Globo, é porque eu tinha assistido Detona Ralph e tinha a cena icônica do encontro das princesas
Então quando fizeram lá uma reunião pra o que a gente pode fazer no show de 60 anos, eu falei, gente, vamos fazer um encontro de vilães. A primeira ideia foi até, vamos fazer uma festa de pijama das vilães. Depois a gente foi amadurecendo a ideia. Mas eu acho que é uma mistura de tudo. É referência, é pesquisa, é dia a dia, é a conversa do ônibus, é a história da família. E acho que é sair, tá sempre buscando sair da sua bolha, né?
Por exemplo, recentemente eu comecei a praticar jiu-jitsu Que é uma coisa que eu nunca tinha imaginado fazer Mas já era um super viado fazer jiu-jitsu Cara, e há tanta história O que te atraiu no jiu-jitsu? Cara, a possibilidade de fazer um esporte de alto impacto Eu já tinha feito judô Na minha infância, eu gostava muito Fiquei tentando parar E aí um dia um namorado de um amigo olhou pra mim e falou assim Cara, você tem porte pra fazer jiu-jitsu, hein? Por que você não faz?
E eu tava fazendo crossfit e parei Porque meu joelho começou a ficar ruim Falei, vou parar de fazer crossfit, mas preciso de algo Que seja bom pra ansiedade Que me deixe morto e exausto Aí fui atrás do jiu-jitsu, e cara, no jiu-jitsu Eu luto com uma galera que eu nunca falaria No meu dia-a-dia Meu principal parceiro do jiu-jitsu Com quem eu mais caiu na porrada é o PM E a gente troca altas ideias
E com isso vem inspiração. Então acho que tá sempre buscando coisa nova, tá sempre se comunicando com pessoas que, a princípio, você não daria muita atenção. Isso me enriquece muito. Essa história do cachorro não me desceu aqui, cara. Ô, Bruno, quanto pra vender o Mica? O Rufinhos é mais caro. Eu sei que o Rufinhos você venderia mais caro. O Mica, cara, 12 reais um Guaravita.
Pode levar, cara. Pode levar. Cara, eu fiquei... Eu ainda fiquei com medo do cara, sei lá, ir atrás, tentar roubar. Eu fiquei... O que isso é essa, né? Ali na pressa da Anhangalim me ofereceu 10 pau pela minha. Caralho. Fiquei horrorizado. Pô, que agora é foda, né, cara? Só tem maluco. Cara, o cara tava tomando uma cervejinha e veio tentar comprar minha cachorra, sabe? Bom, te deu uma ideia, né? A gente tem exatamente essa cena. Fabíola Oliveira tentando comprar uma chuala por 10 mil reais.
Vamos falar um pouquinho sobre novela. Você falou lá no início da conversa que você, até por conta da sua criação, com seus avós, era fã do gênero. E aí você começou a trabalhar no gênero, porque eu acho que é um gênero que ele tem...
uma particularidade, você falou ali, para entregar seis episódios por semana, ele tem, sei lá, uma espécie de quase que o roteirista de novela tem que ser moldado para poder dar conta de uma novela.
Aí eu queria saber como é que foi esses seus primeiros envolvimentos, e assim, imagino que tenha sido um desejo ativo seu, e também, a partir do momento do desejo ativo, como é que é, beleza, agora realizei meu sonho, tenho que lidar com o que quer dizer realizar meu sonho, que é...
160, 180 capítulos por mim. Foram mais de 220... Dona de mim, foram mais de 220 capítulos, porque a novela foi estendida. Caraca!
220, como é que é? Beleza, agora que eu tô aqui, eu vou ter que encarar essa maratona. Como é que é esse momento, assim, na sua vida? Filipe, foi incrível, mas eu sei que foi incrível porque eu tinha uma ótima chefe de sala, uma ótima criadora comandando esse barco, que foi a Rosane Svartman, pra mim, a pessoa que mais sabe de novela no Brasil. E ela sabe conduzir uma sala de roteiro de novela como ninguém. Então, é...
Acho que a Rosane, estar com a Rosane fez com que a experiência fosse enriquecedora e não assustadora. Apesar de exaustiva. Chega um momento em que está todo mundo muito cansado. Porque, imagina, a gente literalmente entregava seis capítulos por semana ao longo de meses. Mas como foi o processo até chegar em Dona Edmina? Acho que quando eu entrei na Globo... ... E aí
automaticamente veio o desejo de fazer novela. Porque, sei lá, se trabalhar no McDonald's, eu não vou fazer um Big Mac. O lugar que mais sabe fazer novela. E, cara, preciso passar por essa experiência aqui dentro. Então, comecei a perturbar as pessoas. Falaram, quero fazer novela, quero fazer novela. Na época de Vai na Fé, eu cheguei a escrever um e-mail enorme pra Rosane. Muito cara de pau falando, Rosane, quero trabalhar com você.
Não rolou lá em Vai na Fé. E aí, quando ela tava montando a sala de dona de mim...
Eu tinha acabado de passar por um processo interno que eles fizeram um laboratório de formação de autores para a novela das sete. Então, eles pegaram autores que ainda não tinham muita experiência em novela e que queriam fazer novela, fizeram uma imersão, a gente estudou com a galera, eles trouxeram os maiores autores da casa para dar aula, fazer workshops com a gente. E aí, no final desse laboratório, eu fui para a novela da Rosane.
botar em prática aquilo que eu tinha aprendido. E foi muito rico, assim. A Rosane sabe fazer novela como ninguém. Ela tem uma coisa que é incrível, que ela manda feedbacks. Ela mandava feedbacks das cenas. Era um luxo, assim. Ela mandava as cenas e depois ela retornava com uma análise das cenas. Eu não sei como ela tinha tempo pra fazer isso. E ela tem um método muito legal e isso varia muito, né?
Cada novela é uma experiência completamente diferente porque depende do autor titular. E cada autor titular trabalha de uma certa forma. A Rosane faz um método de writer's room e ela divide os personagens por autor. Então nós éramos cinco colaboradores e cada colaborador tinha os seus personagens. Que a gente abria as cenas daqueles personagens, a gente sugeria a trilha para aqueles personagens. Claro que às vezes trocava, a gente tinha liberdade para sugerir histórias para a novela inteira.
mas tinha uns personagens que andavam com você. E um desses personagens que caíram comigo foi o personagem do Lennon, do L7, o Rian, que era um rapper que tinha sido preso e ele sonhava em sair da prisão pra reconquistar a mulher que ele amava e refazer a vida dele como cantor de rap. E eu fiquei apavorado, porque eu sou fã de Taylor Swift. Me deram um rapper pra escrever.
falei fudeu mas foi muito legal porque me tirou da minha zona de conforto, eu comecei a ir pra batalha de rima comecei a mergulhar nesse universo, a trocar com o próprio Lennon pra entender o que ele sentia do personagem questões da embocadura e foi muito legal pegar
O Rian lá no iniciozinho, preso, que era um personagem, uma trilha C, e ele acabou virando um personagem bem especial na história. Então foi muito maneiro. Mas, cara, a novela é uma maluquice, porque no meio do processo você tem pesquisa qualitativa, então você precisa fazer ajustes de acordo com a opinião do público.
Tem uma hora que tudo que contam pra você acaba virando história, porque não tem mais de onde tirar. Então, assim, um amigo meu tava falando de um burnout que ele teve na época da faculdade, que ele começou a fazer uso de medicação pra melhorar a performance dele. Eu falei, desculpa, Tiago, mas vou usar isso na novela. Virou a trilha da irmã da protagonista no momento que a gente tava.
O que fazer com essa menina? Não tem mais história. Lembrei de uma história de um amigo. Então, é um processo muito vivo, né? Você escrever enquanto tá indo ao ar, ter a interferência do público, de pesquisa, de canal, encaixar merchan no meio do caminho. É, assim, é uma maratona, é uma maratona.
Como é que é essa parte do merchan pra você, assim, tipo... É um desafio, assim, que a gente sabe, né? Como, enfim, é uma coisa que faz parte da engrenagem, né? Que é importantíssima, mas nem sempre acaba saindo de uma forma orgânica, né? Na narrativa e tudo mais. Como é que é lidar com essas demandas? Como é que foi essa experiência pra você? Fazer funcionar, né? Fazer funcionar.
Eu acho divertido, primeiro, que a intrínseca é com o modelo de negócios, né? A novela existe dentro desse modelo de negócios, onde a publicidade ocupa um espaço fundamental. Então, a gente... Eu celebro isso. Eu acho o máximo quando entra uma marca, quando as marcas entram na novela.
Em Dona de Mim, a Rosane dividia um pouco essas atividades, eu fazia com a Renata Sofia, essa interface com a área comercial. E a gente tinha trocas, mas eram trocas bem positivas, até porque o canal tinha...
Bem certo de que a história vinha em primeiro lugar. E a Rosane também é muito atenta a isso. Então quando ia um pouco além, quando o texto ficava um pouco demais, quando não entrava de forma orgânica na cena, ela apontava. E eu tive uma experiência com isso também em ritmo de Natal.
que no meio das gravações foi meu primeiro filme, no meio das gravações a gente descobriu que ia ter Coca-Cola no filme e foi muito legal, porque mais uma vez é uma marca que dialoga com a temática do filme, com o momento do Natal, e a gente conseguiu botar na trama de uma forma que fez super sentido então acho que tem em mente que a história vem em primeiro lugar e que faz parte do modelo de negócios eu sempre celebro quando tem uma marquinha querendo entrar na e...
no conteúdo. É, e talvez até a sua experiência lá atrás, na Play 9, né? Sim, era muito... Gente, na Play 9 era...
Era assim, bem descarado, né? Então, eu já acho um luxo a gente poder integrar o produto na história. Não precisava parar a história pra falar do produto. E a gente fez merchan muito legais, né? Teve a dona Jura participando de uma cena na padaria que a gente tinha, também de forma super orgânica. A tinta da Souvenir, que a gente tinha a Sofia, que era uma criança, e a Sofia rabiscava a parede.
E aí a gente pôde mostrar a tinta da Souvenir que, enfim, limpava. Agora eu não lembro direito. Mas foram cases que entraram de forma bem orgânica, né? Em mérito da equipe comercial, da Rosane, da direção. Acho que todo mundo se envolve para fazer isso da melhor forma possível.
Ô Juan, você falou aí sobre o filme, falou sobre novela, falou sobre série. Eu queria saber se tem algum desses formatos que você... Na verdade, até ia perguntar se você se sente mais à vontade, mas eu queria, na verdade, saber assim, o que você sente que é prós e contras da comparação entre os formatos, sabe? O que você...
sente que você curte mais, você tem mais dificuldade comparativamente entre esses diferentes formatos que são bem diferentes. Nossa, é difícil comparar, Filipe, porque até quando você fala de novela, cada novela, cada faixa horária tem a sua especificidade. Então, por exemplo, quando você está fazendo uma novela das sete, que é um horário que o público está mais disperso, porque...
A galera está chegando em casa, a dona de casa está botando a mesa. A gente precisa trabalhar com mais reiteração. Também é um horário que tem mais jovem assistindo a televisão. Então a gente tem uma liberdade maior para botar personagens jovens. E ao mesmo tempo não dá para ter trilhas muito complexas porque o span de atenção é muito baixo. Ninguém está prestando atenção.
muita atenção na TV desse horário. Diferente do horário das nove, onde você pode ter uma trama mais densa porque você tem uma atenção maior do espectador. E até quando você olha pra semana da novela, o que a gente chama de bloco,
a maior parte das pessoas só assistem entre dois e três capítulos. Então você não pode assumir que a informação que você deu ontem é que o cara vai lembrar hoje, porque geralmente esse cara não assistiu ontem. Ele precisa sentar hoje na frente da televisão e entender tudo o que está acontecendo. Então a trama anda um pouco mais devagar, você precisa reiterar.
Você precisa ser um pouco mais didático e ainda assim dinâmico e ainda assim capturar a atenção. Então eu acho difícil pra caramba fazer novela das sete. E na série, por exemplo, reencarna, a gente pode fazer algo que é um pouco... Acho que na falta de uma palavra melhor, sofisticado. Não é sofisticado a palavra, mas eu posso me dar o luxo de assumir que o meu espectador está prestando atenção naquilo que eu estou falando.
Então eu posso trabalhar com pistas, eu posso trabalhar com ganchos menos explícitos, eu posso ter uma história que anda um pouco mais rápido. Então eu acho que cada formato acaba tendo o seu jeitinho.
Mas eu sou apaixonado, assim, por novela, cara. Acho que a possibilidade de conversar com a minha avó, sabe? De conversar com todo esse Brasil, de conversar com milhões de pessoas todo dia. E o desafio de passar uma mensagem pra pessoas que pensam completamente diferente, pra pessoas de lugares completamente diferentes, tentar fazer a galera rir, sendo que o humor é completamente diferente de um canto pro outro. Eu acho esse desafio muito, muito rico, sabe? Então, acho que assim...
É algo que só a gente faz, né? É algo que só o brasileiro faz. Esse canhão que é a novela só existe aqui. Então eu sou fascinado por telenovela por conta disso, Filipe. O Juan, considerando todos os formatos que você já trabalhou, falando das etapas tradicionais do desenvolvimento, da escaleta, da construção de personagem, de abrir cena, você tem uma etapa que você gosta mais? Alguma etapa onde você sente que é mais forte também?
Acho que não, Bruno. A gente aprende a fazer tudo, né? Na novela, eu só abria cena, né? Quem escaletava era a Rosane. E aí, você precisa de um músculo pra fazer uma escaleta. Ela escaletava tudo sozinha? Ela escaletava tudo sozinha. Uau!
A gente tinha uma reunião que a gente chamava de reunião de bloco toda segunda-feira, onde a gente definia o que ia acontecer naquela semana. Então juntava toda a sala de roteiro, a gente ficava o dia inteiro no Projac, preenchia um quadro inteiro com todos os beats daquela semana e a gente identificava os ganchos. Os ganchos de cada capitular. Na segunda vai acontecer isso, na terça vai acontecer isso e assim por diante. A Rosane pegava esse quadro, sentava e escaletava.
Ela mandava a escaleta para a equipe de roteiro com as cenas divididas. A gente abria as nossas cenas e mandava para ela. Então, assim, escaleta de novela exige esse músculo que só vem com muita prática. A Rosane fez mais de 200 escaletas. Então, é pesado.
E diferente de um filme, diferente de uma série, né? Então, quando eu escrevo meus filmes, roubo do cão, ritmo de Natal, tenho oportunidade de escaletar. O próprio reencarne, a gente dividia a escaleta. Então, cada episódio, uma pessoa escaletava. Mas eu gosto de todo o processo, assim. Não tem uma parte favorita. Tem uma que fala assim, ah, eu sou bom em tudo. Eu sou bom em tudo, gente. Eu sei que a galera geralmente... Eu posso dar resposta.
A resposta mais comum que a gente escuta é do galera que gosta de abrir cena. É o diálogo e tal. Alguns falam de estrutura, alguns são da galera mais nerdola.
E tem uma galera que foge do argumento. O diabo foge da cruz. O argumento é complicado. Talvez você até curta o argumento, né? Considerando a proximidade do texto. Cara, eu gosto muito de fazer argumentos, de fazer bíblia, porque eu me sinto escrevendo um livro. Os argumentos acabam sendo muito literários. Então, para mim, é super confortável sentar e... Enfim, eu me sinto contando uma historinha diferente. Uma escaleta que tem... Se precisa ser visual, tem a questão do tamanho.
me divirto fazendo argumento. Juan, até por conta dessa sua proximidade com o mundo literário, eu imagino que com fãs também. Eu queria saber se muita gente vem atrás de você procurando
dicas pra entrar no mercado tanto no literário quanto no audiovisual imagino que seja uma coisa que você deva ter por conta desse contato diferente de um roteirista que as vezes as pessoas não tem ideia de quem é o fato de você ser autor ele te coloca a frente de um certo público que aí depois vai ver as outras coisas que você faz eu acho que
Isso é uma peculiaridade que tem com os roteiristas que são autores. Eu queria saber se isso é comum realmente, que eu estou te perguntando, que eu estou intuindo, e quais são as dicas que você dá, caso você não dê para essa galera, mas para uma galera que está querendo se destacar nas duas áreas, quebrar esse início.
Ótima pergunta, Filipe. Eu acabo recebendo, sim, muitas questões nesse sentido, até porque na literatura eu escrevo para um público jovem adulto. Eu escrevo para adolescente, jovem adulto. Então, o Bienal, o evento literário, vem muita gente que lê, que quer escrever, que pede dica. E, assim, acho que o nosso mercado tem uma coisa muito legal, que é se você senta com diferentes roteiristas, cara, você vai receber diferentes, vocês sabem disso.
Diferentes respostas de como começar, de como iniciar na carreira. Acho que não tem um caminho das pedras pré-definido. Eu não fiz cinema. Eu fiz Gelações Internacionais e fiz direito. Pré-faculdade direito na metade para poder trabalhar com audiovisual. A Rai Tavares começou a escrever no Fanfic, no Watchpad. Mas eu acho que o que essas histórias têm em comum é, primeiro, uma coragem de se expor, de botar a sua história no mundo.
Acho que hoje com internet, com a publicação, você tem, principalmente na literatura, uma possibilidade de testar, de experimentar, de entender quem você é antes de fato entrar no mercado. Eu sempre falo para as pessoas experimentarem. Cara, escreve, publica, entende o que você gosta, o que te motiva. E acho que também é muito importante a gente entender o nosso ecossistema. Entender esse passo a passo.
quais são as produtoras, o que você precisa ter para vender um projeto para uma produtora, o que você precisa ter para ser interessante como um colaborador de uma sala de roteiro, qual é o seu interesse, com o que você quer trabalhar. Isso vem com equipação em eventos, rodadas de negócios, estar nos lugares, consumir conteúdos com o próprio primeiro tratamento, entender quem é quem. Acho que isso é muito importante nesse início. Foi o que me ajudou bastante.
Tentar conhecer as pessoas, conhecer os lugares, as ferramentas que estavam à disposição e ter essa cara de pau, cara. É isso, eu mandei um e-mail há quatro anos atrás pra Rosane de Martins falando, oi, Rosane, meu nome é Juan, tô aqui, quero trabalhar com você.
rolou de eu colaborar na novela dela depois sabe, é a mesma coisa com o Reencarne, o contato que eu fiz lá com o Igor, ele ter sido o meu mentor eu ter conhecido ele, ter rolado essa conexão, me abriu portas a gente vai conhecendo parceiros, colegas ao longo do processo então acho que é aproveitar isso também
Juan, perfeito, cara. A gente tem nosso bloco final, que a gente faz as mesmas perguntas para todo mundo que passa por aqui, tá bom? Para a gente encerrar. Então vamos lá. Para começar, qual é o melhor roteiro que você já escreveu, na sua opinião? Pode ser um episódio de alguma coisa, pode ser um projeto como um todo, pode ser até um livro. Vamos abrir para você que tem esse perfil também. Pode não ter sido produzido, pode ter sido produzido, você que sabe.
Eu acho que o meu favorito sempre vai ser o mais recente, né? E o mais recente foi O Roubo do Cão, o filme lá do cachorro que tentaram comprar, o cachorro ganha que tentaram comprar na rua. Foi muito legal fazer um filme infantil que bebe muito da fonte do Esqueceram de Mim, Beverly Hills Chihuahua, mas traz esses signos para a nossa realidade. Então a gente tem uma menininha que é uma protagonista preta, o filme se passa no engenho de dentro, a gente brinca com a estrutura das casas brasileiras.
pra brincar com essa história de invasão. Então, assim, o caco de vidro em cima do muro que o pé dos bandidos de entrarem. É meio que o nosso esqueceram de mim, BR. E eu acho divertidíssimo, assim. Tá lá no Globoplay, pra quem quiser assistir. E qual é o pior roteiro que você já escreveu? Pode não ter sido produzido também, vale qualquer coisa, tá? Nossa, o pior roteiro... Pô, tem algumas cenas do Lennon lá em Dona de Mim que eu vacilei.
Até pegar... Elas não ficaram ruins, porque a Rosane faz uma redação final, então ela melhorava, mas até eu pegar a embocadura dos caras, não estava tão legal, não. Assim, tive uma curva de aprendizado. Boa resposta. E, Juan, o que você assistiu? Aí pode ser qualquer formato, pode ser série, pode ser novela, pode ser longa, pode ser nacional, pode ser estrangeiro. Quando você terminou de ver, você pensou pô, eu queria ter escrito isso.
Eu amei essa pergunta, Felipe. Eu sempre quis que alguém me perguntasse isso. Porque eu saí exatamente com essa sensação de bares, bares, bares. Eu saí... Morte, morte, morte. Eu saí do cinema assim, em êxtase, falando meu Deus do céu. Era o sonho da minha vida ter escrito esse roteiro. Eu me vi e ele falou, eu queria ter escrito isso. Sou eu, sou eu. Eu escrevi esse negócio. Não é possível.
Eu amo esse filme. Eu amo. Bodies, Bodies, Bodies. É a primeira vez que a gente tem essa resposta. Eu curto bem esse filme também. Caraca, eu acho que... É um filme que eu acho que ele é meio subvalorizado, né? Eu não vejo tanta gente falando dele. Super. E assim, cara, é uma locação, um filme barato.
Aquele diálogo que ela fala que os pais são professores de universidade, mas é uma universidade pública, e ela é rica assim por conta disso. Eu me divirto tanto, tanto. Eu acho pop atual. Eu fico tenso. Eu me divirto. Eu amo Boys, Boys, Boys. Eu amei essa pergunta, Filipe. Boa, boa.
É, a resposta inédita mesmo aqui. E, Juan, para terminar, cara, qual é o projeto que você tem que você não conseguiu realizar, que está no topo da sua lista de desejos? Pode ser para qualquer formato, não precisa nem revelar tantos detalhes, pode ser mais misterioso. Existe algum projeto que está posicionado ali no topo dessa lista?
Bruno, eu quero muito fazer a adaptação do querido Waze, né? Do meu primeiro livro, assim. Acho que tem esse valor sentimental. Os direitos do livro, eles estão com o Gil Barone, da Beja Flor Filmes, que é a mesma produtora que fez Alice Júnior.
É um filme que eu amo, assim. É um super parceiro. E a gente tá aí tentando viabilizar esse filme. Mas, assim, é meu projeto do coração. Porque é a adaptação do primeiro livro que eu escrevi. O livro que mudou a minha vida. Que abriu muitas portas. Então, acho que seria bem simbólico ver essa história no ar, sabe? Então, assim, o meu xodózinho é aquele que eu tô correndo atrás. Sempre correndo atrás dessa adaptação aí.
Legal, Juan. Torce, cara, pra rolar. E agradece, cara. Obrigado pelo papo. Foi ótimo, cara. Foi muito legal. Volte sempre aí. Será um prazer recebê-lo novamente. Eu que agradeço, Bruno, Filipe, pelo tempo, pelas perguntas. Acho super chique estar aqui no podcast de vocês. Muito obrigado. Obrigado você, cara. Obrigadão.
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