Episódios de Portugueses no Mundo

Portugueses no Mundo - programa

04 de maio de 20261h2min
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Dois caminhos e muitas histórias para contar. A Elsa Marta Soares está nos EAU desde 2022 e trabalha como terapeuta da fala. O Tiago Carruço vive na Sérvia há 10 anos, onde mostra os Balcãs a quem os quer conhecer.

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Participantes neste episódio3
A

Alice

Host
E

Elsa Marta Soares

ConvidadoTerapeuta da fala
T

Tiago Carruço

ConvidadoEmpreendedor turístico
Assuntos8
  • Mentalidade EmpreendedoraCriação de agência de viagens nos Balcãs · Desafios do turismo pós-pandemia e guerra · Expansão do negócio para Europa de Leste
  • Viagens internacionais e experiências culturaisAdaptação cultural em Abu Dhabi · Desafios profissionais em Abu Dhabi · Choque cultural na Sérvia · Cultura dos Balcãs · Impacto da guerra no Irã nos EAU
  • Manutenção de amizades à distânciaAmizade entre Elsa e Tiago · Uso de tecnologias para manter contato · Desafios de fuso horário e tempo
  • O conceito de 'casa' para emigrantesSentimento de pertença em Abu Dhabi · Construção de raízes na Sérvia · Treino do desapego e novas redes
  • Terapia da fala em contexto multiculturalAdaptação profissional em Abu Dhabi · Aprendizagem da língua árabe · Intervenção com crianças multilingues · Envolvimento familiar no tratamento
  • Dicas para aprender idiomasDificuldades no aprendizado do árabe · Desafios do alfabeto sérvio (latino e cirílico) · Comunicação em países eslavos
  • Percepção de Portugal no exteriorPortugal como país privilegiado · Visão de Portugal como país exótico · Sistema educativo português
  • Recomendações de viagem e gastronomiaPontos turísticos em Abu Dhabi e Belgrado · Sabores locais: sopa de lentilhas, ale, carac, carne grelhada, piesca pizza, aivar, ráquia
Transcrição168 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Hoje temos viagem marcada com duas paragens bem diferentes. Uma no Médio Oriente, em Abu Dhabi, outra no coração dos Balcãs, em Belgrado. Dois portugueses, dois caminhos e muitas histórias para contar. A Elsa Marta Soares está nos Emirados Árabes Unidos desde 2022, onde trabalha como terapeuta da fala. O Tiago Carruzzo vive na Sérvia, depois de um percurso por diferentes países, e hoje dedica-se a mostrar os Balcãs a quem os quer descobrir.

Elsa e Tiago, bem-vindos a esta casa, uma casa que é também a vossa casa, a casa dos portugueses no mundo, na rádio. Vamos começar pelo início, porque as histórias têm todas um era uma vez. Como é que é o vosso era uma vez? O que é que foi o impulso para sair? Elsa.

Olá, muito obrigada pelo convite, com muita alegria que estou aqui com a Alice e com o meu grande amigo Tiago. E portanto, Alice, vir para os Emirados foi uma surpresa inesperada. O meu marido veio seis meses antes e depois eu juntei-me a ele seis meses depois.

E cá estamos nós a construir o nosso caminho num país totalmente diferente daquilo que eu alguma vez vivi. Tiago, a sua história, antes de ser escrita aí na Sérvia, passou por outras geografias. Como é que é o seu Era Uma Vez um Português no Mundo? Sim. Antes de mais, obrigado pela oportunidade. Mais uma vez, Alice, de falar consigo. E agradeço também à Elsa, que me estendeu o seu convite.

Portanto, fantástico estar aqui a falar com as duas. A minha história, na verdade, começa na Eslovénia como estudante Erasmus.

portanto não foi aquele desejo assim de sair para ir trabalhar. Isso facilitou tudo o que veio depois, por isso é que estou a falar desse momento, porque a partir do momento em que nós enquanto estudantes saímos há seis meses, no meu caso, saímos do nosso país, depois tudo o resto é fácil, porque esse será o primeiro momento, as primeiras dúvidas, vou ou não vou.

a partir daí se essa experiência correu bem tudo o resto vem mais facilmente depois disso eu fui para a Espanha trabalhar no programa em novo contacto e foi muito bom porque era um país onde eu queria ir queria estar há algum tempo sobretudo para aprender a língua e porque tinha noção de...

das ligações económicas a Portugal. Portanto, para mim era importante mais ou menos dominar, digamos assim, esse país e essa língua. E depois foram surgindo outras oportunidades no Brasil e aqui na Sérvia, onde já estou há 10 anos também. 10 anos. Bom, antes de ir para as perguntas seguintes, e até porque a Elsa disse, aqui estou com o meu grande amigo.

Como é que se mantém uma amizade a tantos quilómetros de distância? Vocês são os dois portugueses, têm em comum o facto de serem portugueses no mundo, mas vivem tão longe um do outro, tão longe de mim e do nosso país. Como é que é manter uma amizade nestas circunstâncias?

Elsa? Ora bem, eu quando dentro do nosso país, Portugal, fui migrando de Braga para o Porto, do Porto para a Leiria, não é? Quando trabalhei no Instituto Politécnico de Leiria, na Escola de Saúde, conhecia então o Tiago e tínhamos longas conversas sobre a vida, sobre o que ansiávamos sobre a vida, o que ansiávamos para o nosso futuro e lá nos íamos assim empurrando os dois nos sonhos de cada um.

E ficou uma ligação muito forte, de muitas conversas que não se podem ter com todos os amigos, aquelas conversas muito profundas. E a partir daí essa ligação ficou e fica para sempre.

Sempre que eu vou a Portugal e sempre que o Tiago vai a Portugal, tentamos estar, a família dele e a minha família, o que nem sempre é fácil e nem sempre acontece. Muitas vezes nós quando estamos juntos temos de contar o número de anos em que nós ainda não nos tínhamos. Uau! Porque depois até perdemos a noção. Mas durante o ano vamos sempre falando muito, muito ao telefone, vamos acompanhando muito o percurso um do outro. Certo, Tiago?

Sim, certo. O telefone e as novas tecnologias permitem afrontar estes momentos de forma muito mais simples, estar longe.

casa, da família e dos amigos, estejam eles em Portugal ou noutro país qualquer. Acho que aqui a nossa maior dificuldade, para mim e para a Elsa, é encontrar o tempo adequado para a gente falar. Pois quando falamos podemos estar horas a falar. Mas porque a Elsa está talvez umas três horas... À nossa frente? À minha frente?

Ah, então é duas neste momento à minha frente. Bom, vamos dizer as horas a que estamos a gravar para percebermos em que fuso horário estamos. Em Lisboa são 12h31. Na Sérvia é 1h31, portanto é só uma hora a mais.

Aqui são 3 e 31, mas vamos ver, isto depende, quando a hora muda em Portugal, eu fico aqui mais distanciada. E depois também, continuando o raciocínio, não só o fuso horário, mas também nós temos, não sei, uma vida ativa os dois e, portanto, acaba por sobrar pouco tempo para marcar estas chamadas. Mas devo dizer que acrescentar algo em relação àquilo que a Alça disse, que obviamente é correto,

Mas eu devo dizer, frisar, que a Elsa foi importantíssima para este meu passo para vir para a Sérvia. Porque eu vim de certa forma assim, digamos em modo freelance, portanto não tinha aqui um emprego, não tinha nada aqui que realmente me obrigasse a estar cá. Portanto foi de livre e espontânea vontade que vim para cá. Ainda assim tinha algumas dúvidas, porque não é o país mais evidente para se emigrar.

E a Elsa deu-me muito apoio aqui nesta questão de... Eu queria vir, mas não tinha a certeza. Enfim, é um país que está um bocadinho menos desenvolvido do que Portugal, há menos oportunidades de trabalho, etc.

E ela deu muita força para eu vir. E ainda bem que assim é, porque já estou cá há 10 anos. E talvez se não fosse o empurrão que ela me deu, o empurrão psicológico, talvez eu não tivesse vindo. Portanto, Elsa, obrigado. Na altura, quando começaram a ter estas conversas, ainda antes de serem português no mundo...

Imaginavam que o mundo vos levaria para as geografias onde estão hoje. Este tipo de experiência passava pelas vossas conversas?

Eu sabia que o Tiago com toda a certeza iria. Eu disse, nunca tive dúvidas por um segundo de que o Tiago sairia de Portugal. Eu sabia que o meu caminho tinha que me levar para algum lado, diferente daquele onde eu estava, apesar de eu ser muito agradecida por todas as experiências que vivi em Leiria, mas sabia que havia um percurso.

mas honestamente imaginar que iria sair para o mundo, acho que não. Falávamos muito destas questões do Tiago, explorávamos, imaginávamos até como seria ou o que seria, mas eu própria e vi-o a sair primeiro de Portugal, não é? E eu fiquei na altura e nunca, na altura não passaria pela cabeça que eu estaria aqui hoje. Tiago. Sim.

A mim passava pela cabeça que a Elsa ia sair de Portugal e muitas vezes isso acontecia nas nossas conversas, eu dizendo-lhe eu acho que Portugal é um país pequeno para ti, pequeno entre aspas, não é? Porque a nível profissional há determinadas experiências que é difícil ter em Portugal.

ou, por exemplo, o número de empresas grandes é reduzido ou está muito localizado em Lisboa, por exemplo. Portanto, é difícil aceder a determinados postos de trabalho. Mas eu costumava dizer à Elsa, eu acho que fazia-te bem teres uma experiência internacional e acho que ia cair muito bem no teu currículo. A Elsa tem um currículo extenso e valioso e até raro em Portugal, na área dela.

E, portanto, eu achava que ia contribuir para o desenvolvimento dela, enquanto profissional e, sobretudo, humano, sair e ter uma experiência fora. Não em particular porque ela precisasse, mas porque eu, já tendo estado fora, achava que é importante.

É muito importante, diria quase para toda a gente, para toda a gente talvez, ter uma experiência fora, porque nós aprendemos imenso sobre nós enquanto pessoas, sobre nós enquanto portugueses, sobre o nosso país, nós quando não saímos de um determinado país ou de uma determinada cidade.

habituamos-nos à forma de fazer e de estar, e isso para nós é a regra, é o normal, portanto, não temos termos de comparação. Até coisas simples, sei lá, as infraestruturas públicas, o atendimento público, a forma como se conduz, se somos mais ou menos educados.

E isto é preciso depois sair para dizer, ok, estive num país que eventualmente é mais avançado que o meu e as coisas fazem-se de forma diferente, ou estive num país que é menos sério que o meu e há mais corrupção, ou há mais isto, ou há mais aquilo, são...

não há reciclagem, já há reciclagem ou vou para a Escandinávia e afinal nós achamos que reciclamos e não reciclamos nada em comparação com o que eles reciclam, estou só a dar exemplos muito básicos. Todas essas experiências nos fazem depois olhar o mundo com outros olhos. O mundo e para nós próprios. Mais uma vez, enquanto pessoas e enquanto portugueses. Sem dúvida. Tendo em conta que conhecem tão bem a história um do outro, quem é que acham que arriscou mais?

A Elsa que vai para esta primeira experiência, que na verdade é a primeira experiência, mas para um país completamente diferente? Ou o Tiago que foi andando de experiência em experiência? Eu ia dizer nunca mais parou, mas a verdade é que parou porque já lá vai mais de uma década na Sérvia. Tendo em conta o conhecimento que têm da história um do outro, quem é que arriscou mais neste caminho?

É importante aqui dizer que quando o Tiago sai para a Sérvia, e eu fico em Leiria, também me custou um bocadinho isso, o meu grande amigo sai, o meu grande companheiro de conversas, vai embora e eu fico. Mas eu fui acompanhando desde o momento zero, realmente um Tiago que foi para a Sérvia com uma questão que é...

Foi construir um projeto de base. Portanto, eu com certeza mudei muito de cultura e para mim foi um choque, tenho que ser honesta, a fase inicial foi um choque, mas eu vinha para um trabalho já determinado. O Tiago teve que arregaçar as mangas e eu sei valorizar isso, estarmos num país que não é o nosso, arregaçarmos as mangas do zero e construir algo é muito duro e eu fui acompanhando isso.

E o Tiago foi passando por este processo de construção do seu projeto de turismo, no fundo, tendo ali pelo meio muitas surpresas, como foi o Covid, por exemplo, e que também eu estava ali a acompanhar sempre esse percurso.

E realmente o Tiago deu um salto de fé e é incrível, ainda hoje a gente vi para esta entrevista estava a pensar nisso, é incrível como a consistência que eu fui vendo, consistência, resiliência e resistência, vemos um Tiago com um projeto construído como está agora, é incrível.

a falar a língua do país, que também acho uma coisa inacreditável. Já lá vamos. Tiago, isto cá à primeira vista podia parecer que Elsa teria arriscado mais. Começar do zero num país que não é o nosso deve ser arriscado, tem os seus riscos. Sim, embora a Sérvia não é o país mais óbvio, como eu disse no início.

E é verdade que eu me propus a construir aqui um projeto ligado ao turismo, portanto, basicamente, eu tenho um pequeno tour operador de nicho que opera viagens para agências de viagens portuguesas e brasileiras aqui na região dos Balcãs e um bocadinho pela Europa de Leste também. Portanto, propus-me isso e as coisas, finalmente, diria, estão a correr bem porque houve muitos desafios, passaram 10 anos.

Eu pensei que ia ser bem mais rápido, mas realmente o Covid atrasou imenso, foram vários anos parado. Mas não importa. Agora, o desafio é grande, mas talvez não seja assim tão grande, porque eu já tinha algum background desta região, não só da Sérbia, mas dos Balcãs, da antiga Jugoslávia. Eu já tinha vindo cá várias vezes e já conhecia aqui um bocadinho da cultura, da língua anel e também não conhecia muita gente.

Acho que para mim, sinceramente, não foi um passo tão difícil. Quer dizer, eventualmente, a quem nos está a ouvir, vir para a Sérvia soa como ir para a Conchichina. Para mim não era assim. Portanto, acho que o desafio foi ligeiramente inferior para mim. Ainda assim, grande, mas ligeiramente inferior. Acho que em relação à Elsa, é verdade que quando nós vamos já com algo...

montar, preparar um trabalho, alguém que nos receba, eventualmente é mais fácil, mas acho que também a zona e o país é muito mais afiante que o meu.

Enfim, embora o inglês sirva tanto aqui como nos Emirados, mas é verdade que em termos de cultura e costumes, o Dubai ou os Emirados está noutra liga, porque a Sérbia é até um país bastante parecido com o nosso em termos de cultura, costumes, etc. As pessoas são muito parecidas conosco, o tipo de vida que levam, etc., os valores.

Portanto, aí acho que ela se arriscou muito mais e se calhar a prova está que recentemente houve estes problemas todos com o Irão, que também afetaram os Emirados. Portanto, desse ponto de vista há de ter sido e há de estar a ser um desafio bem maior que o meu.

Vamos então olhar para aquela fase inicial e falávamos agora dos desafios, das diferenças culturais, do chamado choque cultural e a Elsa dizia que nos primeiros meses não foi fácil. No que toca hábitos, religião, papel da mulher, o que é que foi mais difícil, Elsa, de aceitar ou compreender quando se chega e se dá início ao processo de adaptação nos Emirados Árabes Unidos?

O grande primeiro desafio, tenho que dizer, é que o meu marido veio para um projeto profissional num emirado que se chama Flugeira e eu vou para um projeto profissional em Abu Dhabi. Nós estamos então a três horas de distância um do outro, durante dois anos ficamos a três horas de distância um do outro.

Esse foi o meu primeiro grande desafio. Portanto, todo o meu ajuste aos Emirados foi basicamente sozinha. Conseguindo ver pelas razões profissionais que estávamos a passar na altura, eu via o meu marido uma vez por semana. Portanto, isso para mim, já culturalmente para mim, já foi uma grande dificuldade, porque estava 24 horas por dia, não 24 horas, mas numa vida normal com o meu marido.

Depois, em termos culturais, sendo eu terapeuta da fala, eu lido com crianças e lido com famílias. Ora bem, vejamos, o choque cultural não se relaciona só com a interação com famílias árabes, sabendo então que eu não lido só com famílias emirátis, mas lido com todas as famílias do Médio Oriente.

mas também lido com famílias do Japão, da China, do Azerbaijão. Vamos dizer que, em termos culturais, principalmente a parte profissional, inicialmente foi um grande choque, porque as famílias funcionam todas, as famílias são sistemas, e eu trabalho com o sistema da família.

E os sistemas funcionam de forma muito, muito, muito diferente. O que se pode dizer, o que não se pode dizer, o que se pode fazer, o que não se pode fazer, como se pode comunicar ou não se pode comunicar. Fiquei surpreendida, obviamente, com a relação deste país árabe com a mulher, no sentido de que sinto-me respeitada, sinto-me protegida e, portanto, foi...

Uma expectativa ao contrário, eu vinha com a expectativa de ter que me proteger e na verdade, por inerência, sou respeitada. Claro que todos os costumes gastronómicos, e é mesmo importante dizer isto, é que nos Emirados nós estamos a lidar com centenas e centenas de culturas diferentes.

E esse para mim é que foi o choque cultural. São muitos choques culturais ao mesmo tempo. E eu lido com essas pessoas ao mesmo tempo. Por outro lado, honestamente, o grande, grande choque cultural é este de chegarmos a um país onde temos pessoas que são da faixa de Gaza.

são da Síria, são da Palestina, e eu ao fim do dia pensar, eu amanhã consigo regressar ao meu país se eu quiser, mas estas pessoas, a maior parte delas não pode regressar aos seus países. Isto para mim foi o grande choque, o maior de todos, até hoje. Não saber que vinha de um lugar de privilégio.

Ter a noção que a gratidão, temos que sermos gratos por podermos ir para o nosso país e por lá termos crescido e vivermos em paz.

Tiago, antes da Sérvia e há pouco, quando falava do seu percurso, referiu a Eslovénia, Espanha e Brasil. Quando se chega à Sérvia e já, na verdade, o Tiago já conhecia o país, já conhecia a região.

Ainda há choques culturais, depois de tantos países e de tantas experiências, apesar de conhecer a Sérvia, quando passa a lá viver, encontra uma Sérvia que, na verdade, não conhecia. Como é que descreve, nesta altura, a cultura dos Balcãs? Ok, a resposta ainda há choques culturais, sim e não.

e já vou falar um bocadinho mais sobre isso, mas queria pegar aqui no que a Elsa disse, porque isto é importantíssimo e eu concordo, ou seja, nós em Portugal criticamos muito o país, o que é normal em todos os países, mas por vezes não temos consciência de que nós pertencemos a um país que, embora seja...

relativamente menos desenvolvido no clube dos grandes, ainda está no clube dos grandes. Nós estamos a competir na Liga dos Campeões, se calhar somos um dos mais fraquinhos da Liga dos Campeões, mas estamos lá. E quantos gostariam de estar? E nós, quando vivemos em Portugal, nem sempre temos noção disto.

É um país que eventualmente está nos 35 ou nos 40 mais desenvolvidos do mundo, é mesmo assim. Portanto, se houver cerca de 200 países, estamos bem. Isto é algo que se percebe quando saímos do país. Nem é preciso sair para fora da Europa.

Porque, por exemplo, a Sérvia está na Europa, não está na União Europeia, mas pertence ao continente europeu, e está claramente abaixo de Portugal em determinados campos.

nomeadamente a qualidade da democracia sei lá o acesso a determinados serviços públicos a qualidade da sua economia também embora tenha vindo a melhorar muito nestes 10 anos mas gostava de focar isto nós somos privilegiados e por vezes não nos apercebemos depois em relação à sua questão é assim é verdade que quando passamos por vários países récem

vamos ganhando alguma bagagem para novos saltos. E diria que a minha experiência no Brasil foi bastante curta, foram só seis meses, mas não foi a mais positiva de todas, porque eu estava a trabalhar no setor da construção e, portanto, é um setor difícil de trabalhar em qualquer país, mesmo um país dito desenvolvido, porque há corrupção, enfim, há várias coisas à volta. Num país como o Brasil é ainda mais difícil.

e portanto depois disso voltar à Europa, mesmo que seja com uma Europa menos desenvolvida, é sempre fácil. Ok? A Sérvia não tem muitas diferenças culturais para Portugal, portanto não tem nada a ver com o que a Elsa relatou.

Nós facilmente estamos um dia em Portugal e um outro dia aterramos na Sérvia. Não é o nosso país, não é a nossa língua, etc. Mas em termos de costumes é muito parecido. O papel da mulher, por exemplo, na sociedade é muito parecido. Portanto, aí não há diferença nenhuma. Em termos de liberdades não há diferença nenhuma.

Portanto, eu não senti esse choque cultural quando vim. Já conhecia aqui relativamente bem a cultura dos Balcãs, já tinha estado na Eslovénia, embora a Eslovénia se pareça mais a Portugal do que a própria Sérvia, mas já tinha viajado bastante aqui por estes países, portanto, já sabia mais ou menos o que esperar.

Foi muito fácil a adaptação por causa disso. Eu acho que não tive querido a adaptação. Lá está, eu não havia estado em Portugal no outro dia, estava na Sérvia. E a vida continuou. Acho que agora, passados 10 anos, tenho mais desafios do que tive na altura, o que é fantástico. Mas a Alice ficou aqui num bom ponto, que é quando a gente aprofunda numa sociedade, numa cultura, vamos percebendo...

que aquilo que conhecemos no início não é inteiramente verdade, ou não é a verdade toda. Porque é fácil a gente, quando chega, estar num mundo dos patriados, saímos com outros estrangeiros, temos acesso a muitas coisas e vivemos uma vida talvez mais brilhante do que aquilo que o sérvio médio vive.

Depois, quando entramos numa família sérvia, eu, entretanto, depois casei-me com uma Sérvia. Portanto...

A partir daí, vamos descobrindo o dia-a-dia mais profundo, como aconteceria em Portugal também, não é? Um estrangeiro que vai para Portugal seis meses ou um ano e vive em Lisboa, acha fantástico os restaurantes e os bares e as saídas, e vai passear, vai viajar, vai conhecer o resto do país. Portanto, esse lado é fantástico. Depois, há o outro lado, não é? O tal em que a gente se queixa do dia-a-dia, dos salários baixos, da dificuldade em progredir em algumas áreas.

E eu aqui também comecei a ver isso mais tarde e agora vejo claramente que há coisas que não funcionam tão bem. Portanto, acho que é mais difícil agora e, por exemplo, é um país menos amigo dos empreendedores, tem mais barreiras, tem mais impostos, tem mais dificuldades por não estar na União Europeia.

portanto também vejo esse lado que na altura quando vi não via nós somos as nossas circunstâncias o Tiago consegue imaginar-se a viver num contexto como o da Elsa? sim, perfeitamente sim, sim o Tiago tem uma grande atenção

Acho que seria relativamente fácil, apesar de todas estas diferenças culturais e religiosas, como é um país muito internacional, onde quem fala inglês tem uma vida perfeitamente normal, acho que já seria um desafio...

Se fosse a primeira vez, sim, acho que seria um desafio enorme. Mas depois deste contexto que já tenho, acho que seria relativamente fácil. No que toca ao trabalho e ao vosso percurso, a Elça há pouco já falou da sua profissão, é terapeuta da fala. Como é que é ser terapeuta da fala em Abu Dhabi?

teve que se adaptar profissionalmente, a profissão muda em função do país onde estamos, como é que é fazer terapia da fala por aí? Olha, isso foi um grande, grande, grande, grande desafio, não é? Também tive que ir aprender árabe, a ler e a escrever, tive que ir aprender para também compreender os sons da língua, é claro que a terapia da fala não é só produzir sons, é muito mais do que isso.

Neste momento trabalho com crianças com problemas graves do neurodesenvolvimento, com afeição da comunicação, da linguagem, da fala, trabalho com gaguejo. Foi um grande, grande reajuste que eu tive que fazer, obviamente amanhã.

o conhecimento das diferentes línguas e o impacto que isso tem, mas fui descobrindo também uma forma de, quando trabalho com crianças, de ir envolvendo os pais, e o que acontece nas minhas sessões é, eu falo inglês na maior parte das vezes, as nenes falam inglês, mas depois eu peço aos pais russos para falarem russo, às mães chinesas para falarem mandarim, portanto, o que eu for dizendo numa língua, eles vão...

dizendo na outra, porque estamos no fundo a fazer intervenção com crianças multilingues. Também aprendi que se eu comunicar de uma determinada forma para determinadas culturas não vou ter sucesso na intervenção, portanto há culturas para as quais eu sou mais simpática, mais portuguesa, há outras culturas para as quais eu sou muito mais assertiva, mais ríspida para conseguir o envolvimento dos pais.

porque se for demasiado não assertiva não consigo esse envolvimento. Isto foi uma aprendizagem diária que envolveu muita frustração pelo caminho, um reajusto constante, constante, constante, e saber que hoje em dia o meu gabinete não pode ter só a cadeira para a mãe, para a terapeuta e para a criança. A maior parte das vezes eu tenho que ter a cadeira para a mãe, para o pai, para a avó.

para a nana e para a criança e eventualmente para os tios que se juntem, não é? A família árabe é uma família que se move em conjunto. O que tem sido muito, muito interessante, não é? Enquanto a Beto de Fala em Portugal, a maior parte das crianças, honestamente, era acompanhada.

unicamente pela mãe. Aqui vemos pais muito ativos no acompanhamento da criança. E é muito interessante porque vemos também o pai e a mãe a meio do dia a fazerem questão de pararem os seus trabalhos para virem à consulta com a criança. Tem sido, sabe, os valores da família. Eu acho que é isso. Acho que estou a regressar à observação dos valores originais das famílias. Aquilo que uma vez talvez já tenha sido em Portugal.

Mesmo esse conceito de que é preciso uma aldeia para criar uma criança, as famílias árabes são muito isto, não é? Portanto, tem sido muito, muito interessante e tem-me ajudado muito enquanto profissional também. Bom, falávamos aqui desta questão profissional, já sabemos que o Tiago é um empreendedor.

Como é que nasce esta ideia de criar uma agência de viagens, acho que é assim que lhe podemos chamar, nos Balcãs? Porquê apostar nesta região do mundo? O que é que quer mostrar às pessoas que elas normalmente não veem quando viajam?

A ideia surge precisamente porque eu já tinha viajado muito por aqui e países como a Bosnia, a Sérvia, o Montenegro, sei lá, a Macedónia eram algo que para mim era natural, portanto eram nomes que não eram estranhos. Vamos nos pôr há 20 anos atrás ou 15 anos atrás.

porque eu na verdade comecei pela Eslovénia, como eu disse, em 2005 e a partir daí fui viajando muito. Todos os verões ou quase, sempre que tinha férias, vinha aqui para esta região e queria ver novos países, novas cidades, etc. E portanto, foi numa altura em que estes países ainda eram muito desconhecidos, acho que ainda são, mas na altura ainda eram mais, e as pessoas até olhavam com algum receio, eu diria.

Por exemplo, quando eu dizia para a Bósnia, perguntavam-me, mas isso é seguro? Porque ainda tinham ficado ali com a imagem... A ideia da guerra dos Balcãs, não é? Exatamente, das guerras dos anos 90, portanto, precisamos de falar 10, 15 anos mais tarde, e estes países ainda tinham uma imagem um pouco negra, digamos. Portanto, eu fui-me percebendo que pouquíssima gente, pelo menos em Portugal, viajava para estes países.

e também que há muitas coisas para ver. Portanto, nós, sobretudo por falta de informação, achamos que um país que nos é estranho não tem nada para ver. O que eu vou fazer para a Bósnia? Não há lá nada para ver, não é? Ou para o Cazaquistão, não sei, para a Mongólia, para o Zimbabue. Pronto, neste caso eu conhecia bem esta região e sabia que havia aqui pérolas autênticas a nível arquitetónico, a nível natural.

a nível de diferentes culturas e religiões, porque aqui nos Balcãs é o ponto de encontro entre a religião católica, ortodoxa e muçulmana, com um pouco de judaísmo pelo meio também. Pouco, porque no Holocausto, pronto. Antes do Holocausto havia grandes populações judaicas, mas que eles apareceram. Portanto, eu percebi que havia aqui um...

muita coisa para ver, havia aqui um nível de beleza grande que não estava a ser explorado. Então, já há alguns anos que eu tinha esse sonho de voltar aqui à região do Balcãs, de morar cá, em especial aqui na Sérvia, e depois quando vim percebi que tinha que fazer alguma coisa da vida, porque eu tinha contas para pagar, e um negócio ligado ao turismo foi o que me pareceu mais plausível. Portanto, decidi montar esta agência de viagens.

para trazer públicos de língua portuguesa a esta região. Uma vez que as empresas locais já trabalhavam muito em inglês com públicos de vários países, eventualmente também de Portugal e do Brasil, mas eu queria oferecer algo em português e esse foi diferenciado.

Bom, e já percebemos que o projeto, numa fase inicial, encontrou algumas pedras pelo caminho, nomeadamente aquela pedra gigante que atrapalhou o mundo em 2020. Nesta altura, como é que está este projeto? Melhor do que aquilo que tinha imaginado? Muitos portugueses, muitos brasileiros a quererem conhecer esta região do mundo?

Numa primeira fase até foi correndo bem. Eu comecei logo em 2017 e 2019 foi um ano em que se fizeram muitos tours, para ser sincero. Em 2020 tinha boas perspectivas, houve várias empresas portuguesas até grandes do setor que me contactaram para organizar tours aqui, portanto as expectativas eram boas. Ainda era uma fase inicial, mas com boas expectativas.

os negócios ligados ao turismo pararam. Depois, em 2022, ainda estávamos com o Covid e há mais uma grande pedra no caminho, que se chama guerra na Ucrânia, porque, apesar de estarmos relativamente longe, estamos na Europa do Leste. E, portanto, as pessoas, tanto em Portugal como no Brasil, e acho que um pouco, em geral, pela Europa Ocidental, não conhecem muito bem os países, as fronteiras.

países é que fazem fronteiras uns com os outros, portanto, puseram um bocado tudo no mesmo saco e, de repente, há uma guerra na Europa de leste. Portanto...

Eu falei até com outros colegas, sei lá, que trabalham mais a Croácia, a Polónia, por exemplo, e disseram a mesma coisa. Portanto, foi um ano em que praticamente tudo foi cancelado. Depois, ao longo de 2023, 2024, esta ideia foi se recuperando. Portanto, as pessoas deixaram de ter medo que a Rússia fosse invadir Berlim, Paris, Lisboa. Portanto, ok, está ali restrito à Ucrânia e, portanto, podemos viajar para outros países da região.

E então a atividade foi recuperada, eu diria, sobretudo a partir de 2024. E agora estamos em 2026, a verdade é que as coisas foram acontecendo e felizmente houve alguns clientes.

e organizaram algumas agências de viagem que nos pediram tours aqui na região dos Balcãs e que gostaram e que nos foram sugerindo organizar em outros países. Portanto, foram-nos furtando um bocadinho aqui também a sair da nossa zona de conforto. Estou a falar no plural porque já há várias pessoas incluídas aqui no projeto.

E, portanto, diria que já respondemos um bocadinho pela Europa de Leste. Neste momento temos um tour de 49 pessoas na Alemanha e na Polónia. Sei que a Alemanha não é a Europa de Leste, mas enfim. E pronto, já fizemos outros na Europa Central, a Lugria, a República Checa, a Áustria, a Eslováquia. No próximo ano já temos tours preparados para os Bálticos, portanto, Estónia, Letónia e Lituânia, e também no Cáucaso.

a Georgia, a Arménia e a Azerbaijão, estão aqui um bocadinho em stand-by, precisamente por causa da questão do Irão, que são países que estão ali próximos, mas enfim, essas coisas estão a acontecer, portanto, estou contente com o avançar do projeto até aí. Bom, o que também está a acontecer, e o Tiago há pouco...

que fez referência a esse aspecto, é o conflito no Irã, e que numa primeira fase colocou ali os Emirados também no centro, por assim dizer, deste conflito. Como é que está o vosso dia-a-dia, Elsa, deste ponto de vista? Há medo nas ruas? Vive-se normalmente? Muita preocupação?

Ora bem, portanto, tudo isto foi inesperado, não é? Nós aqui nos Emirados não estávamos à espera de nada disto. Havia também muitos planos, amigos que vinham, vários amigos até que vinham e exatamente o...

O primeiro grupo de amigos que vinha para nos visitar chegaria a 29 de fevereiro, e isto começou tudo a 28 de fevereiro. Portanto, claro que, vamos lá ver outra vez, há aqui um choque cultural.

Os expatriados europeus que vivem aqui e os expatriados de países que vivem em guerra há muito tempo. As reações foram totalmente diferentes mediante a experiência. Portanto, para os expatriados de países que vivem em guerra desde sempre, é uma tranquilidade imensa, porque em comparação com outros países...

Este país tem um nível de segurança incrível e de proteção antimíssel, tem três níveis de proteção antimíssel, que é incrível, não é? Mas eu não tinha noção nenhuma disto porque eu nunca tinha vivido em momentos de guerra. Pronto, portanto, quando isto começa, a 28 de fevereiro, há um choque. Todos os amigos portugueses que vêm viajar, nós pedimos para cancelar.

E obviamente eu nunca tinha visto mísseis da minha janela, eu nunca tinha visto explosões da minha janela. Isto foi tudo muito novo para mim, muito inesperado e obviamente não desejado. Isso criou um nível de stress imenso.

portanto eu agora continuo a trabalhar em Abu Dhabi mas vivo em Fugeira, portanto eu fiquei sem ir, como são três horas de viagem, eu fiquei sem ir trabalhar sete semanas, porque a interseição dos mísseis...

pode calhar em qualquer lugar dos Emirados, e os mísseis não são coisas pequenas. Portanto, toda essa incerteza causou stress, causou dúvida, houve muitos expatriados que se assustaram e foram embora, tivemos a questão também dos turistas que estavam aqui, mas a forma como os Emirados Árabes Unidos se organizaram, honestamente, para mim foi incrível, porque apesar de haver muitos mísseis,

foram interceptados, e isso é o que faz a diferença. Os turistas que aqui estavam presos porque não havia aviões, por causa da segurança, o governo assumiu todas as despesas dos turistas.

nos dias extra que eles aqui ficaram. Calhou de eu ter amigos, portugueses, turistas, que estavam em hotéis no Dubai. Claro que as pessoas ficaram altamente estressadas. Neste momento, a partir do momento que existiu o cessar-fogo...

Ora, a nossa vida voltou totalmente ao normal, não é? Portanto, inicialmente havia muito... Pois claro, toda a nossa vida foi sendo gerida por alarmes, não é? O governo tem um sistema de alarmes, sempre que existe uma ameaça de míssil, os alarmes tocam e nós temos que procurar aquilo que eles chamam o shelter in place, que é dentro dos edifícios procurar zonas seguras até a ameaça passar. Tudo isto foi novidade para mim.

não gostei de viver essa fase aqui, obviamente. Ao mesmo tempo sou agradecida, porque é algo dicotómico, não é? Estamos sob ataque, mas ao mesmo tempo eu senti-me segura. Sabemos também que...

como toda ficou tudo muito condicionado mesmo a alimentação mas nada disso notou, não é? portanto não deixou de haver alimentos nos supermercados não deixou de... agora o que se nota aqui e que se nota no mundo todo é obviamente um aumento dos preços a todos os níveis, mas isso é um impacto mundial honestamente a base que é a segurança já nos sentimos como nos sentimos seguros durante o ataque e agora muito mais desde o cessar fogo

Bom, assumimos logo no início desta conversa que são amigos, conversam muito, continuam a manter esta amizade à distância e, mesmo antes de serem portugueses no mundo, já conversavam sobre esta possibilidade.

De que conversam hoje em dia? Têm muitas curiosidades sobre o país um do outro, sobre as diferenças culturais. Eu costumo lançar este desafio aos portugueses para colocarem uns aos outros conversas sobre os países onde estão ou sobre as histórias de cada um. Tendo em conta que vocês conhecem bem a história de cada um, não sei se têm alguma pergunta para fazer um ao outro neste momento. Queres começar, Tiago?

Bom, a pergunta seria aberta, seria como é que está a tua vida, Elsa? Como é que está a parte profissional? Porque também já não falamos há algumas semanas, essa é a verdade. Já falaste aqui um bocadinho de como é que está esta parte associada ao conflito no Irá. Está mais tranquilo, eu não sabia.

Não sei exatamente que pergunta te faria. Seria uma pergunta aberta, em geral, da vida. Como é que vai a vida? E a partir daí acho que desenrolaríamos uma conversa de horas e horas.

É isso que nos acontece, Alice, exatamente. Isto começa com temas muito gerais e abrangentes e depois acaba em temas muito específicos desta vida cotidiana, de temas mais específicos não tão falados, acho eu, que temos aqui, que conseguimos os dois também explorar. Portanto, o que é que nós conversamos hoje em dia?

Sempre que temos a oportunidade de falar, porque agora com certeza o Tiago com as suas duas bebês, as suas gêmeas, fica tudo muito mais difícil estar numa fase também bebês lindas, que eu tenho que dizer também, que fica este encontro, obviamente, as nossas conversas...

Fica mais difícil, as nossas conversas também se baseiam pelas fases que vamos vivendo, não é? Isso também é muito giro, porque eu e o Tiago estamos a acompanhar as diferentes fases um do outro. A questão é que nós sabemos que quando começamos a falar precisamos de tempo, por isso é que eu acho que isto nos torna as coisas mais difíceis, porque sabemos que 5 minutos não vão chegar, 10 minutos não vão chegar.

Porque dos temas do passado, dos temas do presente e dos temas do futuro, nós temos muita coisa para explorar. Portanto, é o que lhe digo ali, se nos deixasse aqui, nós aqui ficaríamos. Até à noite. Bom, na verdade não... Diga, diga, Tiago. Não, eu ia só dizer que aquela parte de maior curiosidade, um pelo outro, já passou em relação à saída de Portugal, não é? Porque o ponto de hoje lhe ligado, é exato.

e também é um país que não tem muitas diferenças. Eu tinha muito mais curiosidade, acho eu, em relação à Elsa, porque é um mundo novo que eu não conheço, nunca estive nos Emirados ou no Médio Oriente.

Portanto, tinha muito mais curiosidade de saber como é que é, como é que é, como é que é a organização da vida, como é que se faz negócios, como é que se está numa reunião, tudo isto é novo, não é? Aqui, não. Portanto, esta fase, a Elsa também já está há uns bons anos lá, portanto, esta fase já passou. Falamos mais, talvez, de temas pessoais até da nossa atualidade.

O que é que se está a passar quando não tanto do país, da população, etc. Já passou essa fase. O que é que vocês gostavam que quem nos ouve soubesse do país onde vocês vivem? Porque muitas vezes temos uma ideia...

porque ouvimos dizer, porque lemos nos livros, mas a verdade é que nunca fomos ver se realmente era assim ou não. O que é que gostavam que quem nos ouve soubesse, neste caso dos Emirados Árabes Unidos, mais concretamente da Abu Dhabi, onde está, Elsa?

Olha, sabe Alice, eu reflito sobre isso muitas vezes, o Tiago disse isso no início e é verdade, o Tiago também foi uma inspiração para eu, e dizia-me isso muitas vezes, vai para o mundo, vai ver o mundo, e realmente, uma coisa é irmos de turistas, não tem nada a ver o ser turista ou viver num sítio. Sabe o que eu acho? Eu penso que eu, e vou falar de mim.

Eu, enquanto portuguesa, pensei e achei, e assim fui criada, porque era uma pessoa que realmente dava o meu melhor para respeitar o outro. E quando Tiago falou deste desenvolvimento pessoal, eu acho que este país trouxe-me muito isso. Acho eu este caminho de olhar mais para dentro. E sabe, respeito. Eu sinto que este é um país...

onde realmente se respeita a diferença. A diferença cultural, a diferença gastronómica, a diferença religiosa. E quando eu falo disto, falo que em Portugal, se víssemos determinadas coisas que vemos aqui, ainda há muito uma tendência a um comentário. Aqui não, é natural.

A diferença é natural e o respeito pela diferença é natural. E isto é um nível tão profundo, esse nível de respeito é tão profundo que eu não consigo explicar até as pessoas virem aqui e sentirem. Obviamente que há tradições, há costumes. Vamos ver, eu se for a uma reunião, eventualmente, eu enquanto mulher não poderei dar um... passou bem a um homem.

Mas não porque não valorizam o meu... Não me valorizam, mas sim porque me respeitam. O homem não pode tocar na mulher. Portanto, é tudo a forma como nós vemos, não é? Quando eu aqui cheguei, os homens não entravam no elevador e eu achava isso um desrespeito pela minha cultura. Porquê é que não entra no elevador? Na verdade, é o respeito. Não quero que esta senhora se sinta sozinha com o senhor dentro do elevador. Também existe aqui um... E aí

Há um marco religioso que eu considero muito importante e muito determinante em Abu Dhabi, chama-se Abrahamic Family House e terminarei assim com este exemplo. Abrahamic Family House é uma estrutura construída com uma igreja, uma sinagoga e uma mesquita.

E está tudo dentro do mesmo espaço. E todas as pessoas vão cumprir os seus deveres religiosos a este mesmo espaço. E eu posso dizer que é este sentimento que eu sinto aqui, o respeito pelo ser humano. Até mesmo durante este período de guerra, estas pessoas que têm mais experiência com a guerra sempre aceitaram.

e respeitaram que existem as outras que não lidam tão bem com isso e apoiaram-nos nesse caminho. Portanto, respeito. É isso que eu queria, acho que é aquilo que eu mais aprendi com este país. Tiago? O que diria é, há uma frase célebre que diz qualquer coisa do tipo, viajar é perceber que se está errado sobre todos os outros países.

E é isso que eu diria, venham visitar a Sérvia, porque se há alguém que ainda tem este tipo de preconceitos que falamos, sobretudo com a Sérvia e com a Bósnia, sei lá, com estes países por causa da guerra dos anos 90, Kosovo, por exemplo, deixem esses preconceitos de lado, venham viajar, nomeadamente para a Sérvia, há voos diretos de Lisboa e do Porto, portanto, é relativamente fácil de cá chegar.

e vão se surpreender porque a maior parte das pessoas realmente não têm grandes expectativas sobre estes países, não sabem muito ou nada sobre estes países, e depois vai perceber que há aqui uma cultura muito amigável, sobretudo para connosco, portanto dizer que somos portugueses nesta região.

É uma porta aberta, as pessoas põem logo um sorriso enorme, têm, não sei, fantasia com Portugal, acham um país assim já meio exótico, qualquer coisa assim já a caminho da América Latina, digamos, portanto, um país quente, pessoas simpáticas, uma língua bonita, jogamos bem à bola e também gostam de futebol, portanto, as pessoas são muito simpáticas em geral, connosco ainda mais.

Gostam muito de jantar, de tomar café horas e horas, como nós, sentar-se à mesa, conversar. É muito fácil conhecer pessoas, é muito fácil fazer amigos. Eventualmente, se não fosse assim, eu não tinha vindo, porque eu realmente não conhecia praticamente ninguém enquanto cá cheguei.

Uns seis meses foi o meu aniversário e eu convidei talvez 30 pessoas que tinha conhecido, entretanto, e apareceram 40. Uau! Ou alunos que não seram dos amigos. Eu estava à espera que eu precisassem 10 ou 15, não é? Há sempre alguém que não vem e como estava cá há pouco tempo também não tinha amigos, amizades profundas, naturalmente. Portanto, apareceram mais pessoas do que aquelas que eu tinha convidado. Acho que já diz muito da forma de estudar dos sérvios. Mas não é só dos sérvios, é um bocadinho extensível aqui a toda a região.

As pessoas às vezes pensam que a Sérvia, nem sabem bem no mapa onde é que está, o que é normal, pensam que está perto da Rússia. Não está, portanto está na zona sul da Europa, na península dos Balcãs, perto do mar Mediterrâneo, embora não tenha costa. Mas isto é para dizer que esta região tem, embora não sejam latinos de origem, de língua...

um caráter muito latino, muito quente, muito fácil de lidar. Portanto, acho que é isso. Venham porque vão se surpreender. Há coisas para ver, as pessoas são simpáticas e podem passar aqui umas férias boas e inesperadas. Ter uma boa surpresa.

Bom, ficam aqui essas recomendações, essas imagens, esses retratos sonoros, por assim dizer, dos países que vos acolhem. São casa ou é difícil chamarmos casa a um país, a um lugar tão diferente daquele onde crescemos? Quer dizer, no caso da Sérvia já percebemos que não é assim tão diferente. Elsa, e no seu caso, sente-se em casa por aí ou é difícil chamar casa a esse lugar?

Sinto-me em casa. Fui construindo essa casa, não é? E este país também me ajudou a ir construindo essa casa. É casa quando nos sentimos seguros, é casa quando nos sentimos apoiados, é uma casa que me ensina muito todos os dias. O Tiago estava a dizer isso há pouco e realmente...

É um país que me empurra todo, mas é que todos os dias, eu nunca pensei que isto fosse possível, mas é um país que me empurra para fora da minha zona de conforto todos os dias, todos os dias, e eu acho que isso, mas é um país que para além de me empurrar para fora da zona de conforto, me dá soluções, não é? Portanto, é casa no desenvolvimento enquanto pessoa, é casa no desenvolvimento profissional.

é casa nos meus colegas de trabalho, é casa nos amigos, nas amizades que tenho vindo a desenvolver. Tem um lado muito duro, esta casa. É uma casa onde eu tenho que saber despedir-me de muitos amigos. É um país onde entram e saem muitas pessoas.

Portanto, este treino do desapego, vamos dizer assim, a pessoa vai e custa, não é? Quando nos custa construir uma rede num país que não é o nosso, custa-nos quando é essa rede, e custou-me muito isso agora durante este período de guerra, não é? Que houve muita gente que saiu do país, muitas pessoas da minha rede saíram do país.

e isso deixa-nos de alguma maneira desconfortáveis. Mas a casa é o sítio onde nós aprendemos, e a casa é o sítio onde nós nos sentimos bem, seguros, bem recebidos, bem tratados. É muito interessante, eu ando muitas horas sozinha na estrada.

E não alguma única vez onde eu tivesse um problema fosse de dia, de noite, de madrugada, onde estas pessoas não me venham sempre perguntar se eu preciso de ajuda e ficam ali até terem a certeza que o meu problema está resolvido. E isso é casa, não é? Sem dúvida. É onde crescemos todos uns com os outros. Tiago, esta sua casa ganha mais forma quando...

Se junta a família sérvia, as filhas que agora nasceram aí, este significado de casa, se é que já existia, ganha uma dimensão ainda maior? Sim, claro que sim. Sendo uma família, digamos, mista, vamos sempre ter duas casas, no fundo. No meu caso, eu penso que poderia ficar aqui a ver perno.

Mas a verdade é que cada vez me serve mais um sentimento ou um pensamento de voltar a Portugal. Também pensando, acho que as minhas filhas têm 15 meses, um dia elas vão ter que entrar para a escola primária e eu acho que gostava que elas fizessem a escola em Portugal. E, portanto, o sistema educativo em Portugal. Não sei se vai acontecer.

Portanto, um regresso a Portugal está em cima da mesa, não para já, mas para os próximos anos. Mas sim, como a Elsa disse, o local onde a gente constrói raízes, onde nos sentimos seguros, onde desenvolvemos a nossa atividade, onde gostamos de estar, passa a ser também a nossa casa. Nunca perdemos a primeira, mas passamos a ter uma segunda.

Bom, a nossa conversa está ótima, mas tem que terminar. E agora vou fazer-vos umas perguntas para respostas rápidas. O local que seja obrigatório conhecer quando se visita o local onde vocês estão? Em Abu Dhabi, Elsa? Mesquita. Tiago, em Belgrado. A Fortaleza de Calé, é grande.

Bom, depois de conhecermos estes dois locais, temos que nos ir sentar e comer qualquer coisa. Um sabor local, para o bem ou para o mal, que seja obrigatório provar. Elsa. Sopa de lentilhas, para começar, e diria que de sobremesa, um ale. Isso é o quê?

O Mali é um tipo de sobremesa feita com pão que eu não sei porquê, sabe uma casa. E beber carac. Carac é uma espécie de café, não é? É chá, café, especiarias, sem dúvida. Experimentar. Tiago.

diria comer carne grelhada em geral, talvez uma piesca pizza, que é um hambúrguer típico aqui das Elas dos Balcãs, com caimac ou aivar. Caimac é uma espécie de manteiga, de aquecimento para queijo, qualquer coisa que eles põem a derreter em cima da carne e a torna deliciosa. O aivar é uma espécie de molho feito de pimenta, que também é muito bom e é muito típico daqui.

acompanhado de uma ráquia, que é uma aguardente, diria de o que eles chamam assim, que é a aguardente de ameixa.

que é o mais típico aqui da região. Ótimas sugestões. E agora quero uma palavra na língua que se fala no país onde estão. Portanto, em árabe e em sérvio. Pode ser a palavra que mais gostam, a que menos gostam, a que dizem mais vezes, a que tiveram mais dificuldade em aprender, a mais fácil, a mais engraçada. Só têm depois que dizer o que é que significa.

E só uma, é isso? O exercício é esse. Mas se quiser dizer mais do que uma, está à vontade. Eu vou dizer o que eles dizem todos os dias frequentemente, que é Marhaban, Wallah, Yallah, Masalama e Shukran. Vamos a isso, vamos às traduções.

Portanto, marhaban é bom dia. Yallah é, vamos, despachem-se, despachem-se. Walá, que bom, que bom. Masalama é até amanhã. E chukran, muito obrigada, Alice. Tiago. Vou ter que dizer lyubav. Lyubav significa amor, uma vez que encontrei aqui talvez o amor da minha vida.

Rebala, que significa obrigado. Já disse a Xilvobitsa, que é a guardiante da meixa. Vou dizer uma engraçada, que é Kikiriki, que significa amendoim. Kikiriki. Uau! Pronto. Bom, seria a altura de fecharmos, mas tenho curiosidade sobre esta questão da língua. Como é que foi aprender duas línguas?

No caso de cada um, no caso da Elsa, o árabe, no caso do Tiago, o sérvio. Como é que foi aprender estas línguas que são tão diferentes das nossas, que são línguas que nós não ouvimos no dia a dia? Portanto, não só serão difíceis de aprender e ainda esta quase que ideia do desconhecido, não é? Porque não é uma língua que nos entra em casa diariamente como o inglês, por exemplo. Como é que foi este processo, Elsa?

No meu caso é um processo constante, vamos ver, o árabe muda de país para país, portanto eles próprios entre eles não se entendem, não é? Portanto há diferentes tipos de árabe, há o árabe formal, mas mesmo assim cada um fala na sua maneira, portanto existem estas palavras mais frequentes. A minha luta enquanto a interpreta da fala aqui é que os árabes continuem a falar árabe com os seus filhos, porque há esta...

Eu estudo generalizado do inglês, por ter muitos expatriados, e portanto isso limita um bocadinho a aprendizagem da fala, porque não se fala todos os dias, ou com toda a gente, ou não é muito frequente, é mais o inglês, mas eu realmente tive que ir para o ensino formal, do aprender a ler e escrever, foi uma...

Foi uma aventura, não é? Porque eles têm sons que nós não temos na nossa língua, têm formas de produzir os sons e de posicionamento dos órgãos articulatórios que nós não temos na nossa língua e, portanto, foi mesmo um treino mental para conseguir até ouvir esses sons. Hoje em dia, portanto, já tenho percepção desses sons, já as palavras mais frequentes também consigo identificar.

Manter uma conversa em árabe, ainda não estou aí. Tiago? Bom, a verdade é que não é uma língua simples. Acredito que o árabe seja bem mais difícil. Ainda assim, para descrever o sérvio, diria que...

que é da família do russo, não é uma língua eslava. O russo talvez as pessoas tenham mais perceção. Isso significa que tem pouco ou nada a ver com o português, com as línguas latinas. Tem pouquíssimas palavras em comum, pouquíssimas. Portanto, temos que aprender do zero.

como se estivéssemos na escola primária antes, como se fôssemos bebés, é mesmo assim. Claro que depois de 10 anos é possível aprender e falar, e sobretudo quando entramos numa família local, então temos muito mais exposição à língua, e isso faz toda a diferença, não é? Quem vive aqui 10 anos, mas não tem muito contacto com os locais, lá está, não sei, tem mais contacto com os patriarmos, fala sempre em três, vai vender muito pouco. Vive num ambiente multicultural.

Exato, vai aprender muito pouco da língua local. Diria que tem mais uma dificuldade adicional, que é...

O sérvio usa dois alfabetos, é a única língua da Europa, eventualmente do mundo, não sei, que usa dois alfabetos. Portanto, usa o alfabeto latino e o cirílico, que é precisamente o que se usa na Rússia. E os dois são oficiais, portanto o latino é o nosso, não é? E qualquer coisa na rua pode estar escrita num alfabeto ou no outro. Portanto, a dificuldade aumenta quando há coisas ou instruções, seja o que for, que está escrito.

no alfabeto cirílico, portanto, há que aprender aquelas línguas que no fundo também não são assim tão difíceis, mas o primeiro impacto é que é difícil. E já agora, só uma observação, tem uma vantagem aprender Sérvia que é poder comunicar com os Balcães, porque no fundo a Sérvia, a Bósnia, a Croácia e o Monte Negro têm a mesma língua, embora cada uma te chamem uma coisa diferente.

É como se nós chamássemos português, brasileiro, moçambricano, bolado, mas estamos todos a falar a mesma coisa, com algumas variações regionais, portanto é muito útil nestes países. E em qualquer país de língua eslava, e aí já estamos a falar muito mais, Lugânia, sei lá, Polónia, República Checa, Lováquia, Rússia, obviamente, e outros, há ali muitas...

até manter conversas simples, que já me aconteceu nestes países, conseguir manter conversas simples com pessoas na língua local deles e eu a falar em sérvico. Mas sim, é difícil, mas no fundo é possível, como tudo. Bom, um desafio dentro do desafio que é ser português no mundo. Entre o Médio Oriente e os Balcãs...

Ficamos hoje a conhecer duas histórias que mostram como não há um único perfil de imigrante, de ser português no mundo. Há caminhos muito diferentes, feitos de decisões, oportunidades e muitas vezes de reinvenção. A Elsa e o Tiago lembram-nos que sair de Portugal é também abrir portas a novos mundos e ao mesmo tempo descobrir novas versões de nós próprios. Obrigada aos dois, Elsa e Tiago.

Obrigado. Eu volto na próxima semana com mais Histórias com Gente Dentro. Até lá. Boas conversas.