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Recomeços: A Arte de se Reconstruir

11 de maio de 202646min
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Em algum momento da vida, todos nós somos atravessados por recomeços. Alguns chegam silenciosamente, outros rasgam nossa rotina sem pedir licença. O fim de um relacionamento, a perda de alguém querido, uma mudança de carreira, a aposentadoria, os filhos saindo de casa… Existem mudanças que nos obrigam a reconstruir não apenas a rotina, mas também a maneira como enxergamos a nós mesmos.

Neste episódio do Insight, conversamos sobre os aspectos emocionais, psicológicos e até biológicos envolvidos no ato de recomeçar. Falamos sobre como o cérebro humano busca previsibilidade para gerar segurança, por que mudanças podem despertar ansiedade, medo e sensação de desorganização interna, e como certos recomeços podem ser vividos como experiências de luto, mesmo quando não envolvem morte.

A partir de reflexões da Gestalt-terapia, da neurociência e da teoria do apego, exploramos o impacto que vínculos, narrativas pessoais e padrões emocionais exercem sobre a forma como lidamos com mudanças. Afinal, muitas vezes não sofremos apenas pela perda de alguém ou de alguma situação, mas também pela perda da identidade que construímos naquele contexto.

Esse episódio é um convite para olhar para si com mais gentileza durante os períodos de transição. Porque recomeçar não significa apagar o passado, mas aprender a reorganizar a própria existência diante daquilo que a vida transformou. Talvez o recomeço não seja sobre voltar a ser quem éramos, mas sobre descobrir quem podemos nos tornar depois da mudança.

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Assuntos5
  • Identidade e recomeço após términosPerda de identidade construída em relacionamentos · Questionamento 'Quem sou eu agora?' · Autorreflexão e reencontro consigo mesmo
  • Teoria do apego e validaçãoModelos internos de confiança e afeto · Busca por validação externa · Experiências infantis e reprodução de padrões · Relacionamentos saudáveis vs. violência internalizada
  • Reprogramação cerebralRotas neurais e reorganização · Economia de energia e sobrevivência · Previsibilidade e segurança · Neuroplasticidade
  • Lag BaOmer e o LutoLuto por perdas significativas não relacionadas à morte · Sistema nervoso simpático e hipervigilância
  • Narrativas pessoais e função personalidadeConstrução da identidade através de histórias · Crenças limitantes e auto-sabotagem · Ressignificação de narrativas · Gestalt-terapia e função de personalidade
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Bom dia, queridos ouvintes, estamos aqui para mais um episódio e hoje nós vamos falar sobre recomeços, recomeçar. Bom dia, Milton. Bom dia, Thais. Bom dia para quem nos ouve também. Um tema muito necessário, até porque a gente vem aí de uns episódios falando sobre terminalidade e tudo mais. Hoje falando sobre recomeço. Isso mesmo, né? Existe uma...

que as pessoas dizem muito quando alguém passa por uma grande mudança, uma perda mesmo de agora precisa seguir em frente. Mas ninguém explica o que acontece por trás desse seguir em frente, que dentro de cada ser humano, quando a vida muda, e dependendo dessa mudança, mexe com a rotina, e não é só com a rotina, né, Milton? A gente entende que é uma parte nossa do cérebro, é uma parte nossa da nossa...

identidade, do nosso sistema nervoso também, e até mesmo na forma quando a gente percebe a nossa própria existência, trazendo para você isso, né? Sim, sim. Você falou uma coisa que eu achei legal, que é sobre a questão do cérebro. Tipo assim, a gente pode pensar, por exemplo, uma pessoa que sempre faz o mesmo caminho para o trabalho, e de repente ela precisa mudar aquele caminho, aquele trajeto.

porque tá tendo alguma obra, aconteceu algum acidente, e daí tem um momento que, quando é essa readaptação, que é muito desconfortável, né, porque é uma novidade ali, e daí essa coisa, porque assim, tem toda uma rota já, meio que estabelecida, quando a gente fala num âmbito mais cerebral, tem aquelas coisas que já são construídas.

As rotas neurais, vamos colocar dessa forma. Porque daí quando você tem que fazer um caminho diferente, você tem que reorganizar essas rotas. Então, quando a gente fala sobre essa coisa de recomeçar, tem também um componente cerebral. Não é apenas a coisa do fato em si, mas os impactos que isso gera na gente. E também, como você falou, a questão da existência. Eu lembro que no último episódio, eu falei um pouco sobre a questão da função personalidade, que a gente fala muito em gestaltoterapia.

E é muito isso, porque como eu citei naquele momento, né? A gente vai ter que fazer uma reorganização da forma como a gente se vê e da forma como a gente se coloca no mundo. Então, por mais que o discurso do recomeço seja um discurso, às vezes, muito bonito, muito incentivador, né? Tentando fazer com que as pessoas não recomecem e tal. Só que muitas das vezes não leva em consideração exatamente o que você trouxe. A dificuldade que, às vezes, esse recomeço traz, porque a gente vai ter que se libertar.

de muitas coisas, até no sentido afetivo, a gente vai ter que entender que certos papéis, de repente, já não nos cabem mais, e assumir outros é um processo complexo. Sim, exatamente, porque os recomeços, então, nem sempre eles vão parecer fáceis, para algumas pessoas, sim, são bem difíceis.

E como o Milton estava falando da questão do cérebro e eu trouxe aqui, o nosso cérebro, gente, ele não gosta de incerteza. Ele não gosta. Então, tanto do ponto neuropsicológico quanto da parte do neurobiológico, o cérebro foi desenvolvido para prever. Então, previsibilidade significa segurança e imprevisibilidade significa insegurança.

Então, quando o nosso cérebro tenta constantemente antecipar o ambiente, é para economizar uma energia e aumentar a nossa sobrevivência. Por isso que rotina, quando a gente fala sobre rotina aqui, padrões, repetições, gera uma sensação de estabilidade para o nosso cérebro. Então, isso acaba acalmando e trazendo uma certa segurança para a gente.

Sim, é tão curioso, né? Porque realmente a gente tem, quando a gente pensa nessa questão mais cerebral, a questão da economia de energia. Então a previsibilidade traz essa economia de energia que é uma questão de sobrevivência também, né? Gastar o menos de energia possível para poder ter uma energia quando for necessário num momento mais impactante e tudo mais.

Ainda mais quando a gente pensa, vamos lá, vamos voltar um pouco na história da humanidade, né? Se a gente pensa nos nossos ancestrais, que viviam em situações muito mais perigosas, tipo na savana, com feras e tudo mais, então eles tinham que ter energia pra quê? Pra fugir, pra sair correndo, pra poder lutar, enfrentar o perigo. Então, essa coisa de ter tudo certinho, previsível, ajudava muito na questão da economia de energia.

A gente trouxe isso conforme a gente foi evoluindo, mas isso nos acompanha. Então, sim, a gente tem muito... É confortável o costumeiro, o conhecido. Tanto que a gente fala de zona de conforto. Num nível biológico que você está trazendo, pode ser muito confortável. Só que num nível psicológico, emocional, de repente deixa de ser confortável. Porque talvez existam necessidades emocionais.

que não estejam sendo atendidas naquela situação que a gente está vivendo. E daí o recomeço, ele se torna necessário. Só que por mais que seja necessário, ao mesmo tempo tem essa batalha aí com o nosso aspecto mais biológico, porque a gente vai ter que se mexer. A gente vai ter que sair do que a gente já conhece e adentrar o desconhecido, que é uma situação nova, tem um vazio ali. E daí eu pensando no nível cerebral, é como se o cérebro estivesse sendo jogado num lugar que ele não tem conhecimento nenhum. E ele vai ter que reaprender.

a funcionar, digamos assim. Então, é muito legal isso que você trouxe, porque desmistifica a ideia do recomeço. Exatamente. E assim, pra mim, eu sei que a gente já trouxe, não é o que a gente vai falar aqui, mas assim, a mudança, gente, a dor da mudança, ela também traz pra gente um pouco da experiência do luto. Não que ele seja totalmente um luto, mas ele pode ser uma experiência vivida como luto. Então, muitas pessoas acabam acreditando.

como a gente já falou, mas só repetindo aqui, que o luto é apenas diante da morte. E não, dentro da psicologia a gente entende que o luto começa por várias questões emocionais, de perda significativa, não só da perda significativa de alguém. Eu também estava até falando sobre isso, no caso de uma separação, uma mudança financeira, um diagnóstico.

A mudança de uma profissão. Quando os filhos saem de casa. Ah, o ninho vazio. Isso, o ninho vazio, né? O adoecimento também, porque às vezes a pessoa perde uma liberdade que tinha antes.

Então, a gente entende que existem outras coisas. E aí, quando o Hamilton estava falando sobre essa questão, me veio o sistema nervoso simpático entrar em ação, que o Hamilton já falou sobre essas coisas aqui. Sim, simpático. Isso vem, gente. É, né? Não deveria ser simpático, né, Hamilton? Porque ele aumenta tanta coisa ruim, né? Não é assim, né? O sistema nosso nervoso simpático, ele entra em ação. Então, ele aumenta o nosso cortisol.

a questão da hipervigilância, que é esse estado de ação-reação, a dificuldade até mesmo de relaxamento, insônia, ansiedade, exaustão. Gente, é tanta coisa. Então, o sofrimento não é só emocional. O corpo inteiro da gente está tentando entender como a gente vai sobreviver a esse novo cenário, a essa nova mudança. Mesmo a mudança sendo uma coisa positiva.

E daí eu aproveito para trazer sobre esses recomeços depois de perdas afetivas. Porque a gente precisa considerar algumas coisas que eu até listei aqui. Quando a gente termina um relacionamento, por exemplo, seja porque a pessoa faleceu e a gente acaba passando por um término, obviamente. Mas também tem os términos de divórcio, separação dos namorados, enfim, acontece. Só que assim, o que acontece? A gente também perde rotina.

que estava estabelecida, os planos que eram compartilhados, a identidade que era construída naquela relação. Então, vamos lá, vamos pegar aqui. A Thaís tem a relação dela com o marido dela, que é o...

Maurício. Maurício. Eu evitei falar alguma vez aqui, né? Dá problema isso depois, né, Milton? Brincadeira, gente. Então, assim, a Thaís, ela é a Thaís na relação com o Maurício, mas porque é o Maurício. Se fosse uma outra pessoa, seria uma outra identidade pra Thaís dentro de um relacionamento. A gente tem que considerar isso também. E o futuro, que é também imaginado. Quando acaba um relacionamento, tudo isso se desfaz, de certa forma.

Então a pessoa acaba sofrendo não apenas porque ela perdeu alguém ou algo, mas também porque ela vai ter que rever a identidade dela sem aquele vínculo que havia sido estabelecido ao longo de tanto tempo, muitas das vezes. Então esse recomeço também tem que passar por aí. Quem sou eu? É um questionamento. Quem sou eu agora? É começar a voltar pra dentro, antes de já ir partir pra outra coisa. Não.

É fazer uma autorreflexão. Agora que eu não tô mais com a pessoa com quem eu dividi a vida. Quem sou eu? Como é que eu me vejo nesse momento agora? Sem mais aquela pessoa. Então, talvez o recomeço, um dos primeiros passos do recomeço, seja, sim, o olhar pra dentro. Sabe? É o reencontro.

Porque é muito forte isso quando a gente vê na clínica Pessoas que chegam com essa queixa De que terminaram o relacionamento Nossa, e agora o que eu faço? E muitas das vezes elas não estão conseguindo se encontrar Você falou sobre essa questão da identidade É muito real, né? Porque daí quando você fala sobre esse término Exatamente é uma perda de uma identidade De quem sou eu Sem tudo aquilo que eu vivia

Então, esse recomeçar, esse olhar para si, de quem sou eu fora disso, para esse novo, não é que eu perdi os meus valores, não é que eu me perdi. Mas a gente se encontra nele o outro e se encaixa. Um relacionamento é isso, né? Então, é uma perda mesmo dessa identidade. Então, de um resgate de si para um novo eu. Nossa, foi muito... Essa a gente tem que colocar no mural.

Vou sair totalmente da minha abordagem agora, hein, Hamilton? Que orgulho! Quem sabe seja o chamado, hein? Oh, meu Deus! A gente fala sério, mas a gente brinca tão bem, né? Mas tem uma teoria, Hamilton, que eu tava lendo sobre ela, assim, que é a teoria do apego. Você conhece a teoria do apego? Sim, sim.

Então, ela foi desenvolvida pelo John Balbae, acho que é esse o nome dele, assim que pronuncia, acredito que seja isso. Então, ele era psiquiatra e também psicanalista. E ele trouxe essa teoria, que é a teoria do apego, e ele propõe que é um sistema de comportamento, vou até ler para poder não dizer bobeira aqui, que é um sistema de comportamento inato destinado realmente à sobrevivência.

No caso aqui ele coloca assim, motivando o bebê a buscar proximidade e segurança junto ao cuidador. Nada mais é do que a gente faz a vida inteira. A gente desenvolve esses modelos internos de confiança e afeto ao longo da nossa vida. E a gente vai buscando então esse apego, buscar por isso, e eu posso não falar só sobre essa questão do apego, mas essa questão de identificação.

e a gente busca por essa validação também. Então, existe um pouco de tudo, e é exatamente por isso, né? Então, quando a gente pensa nessa questão de vínculos afetivos, a gente precisa tomar cuidado também com essa questão da nossa própria saúde mental, com esse apego, estou fazendo assim como se estivesse todo mundo me olhando, né, gente? Um apego entre aspas. É, exatamente, um apego entre aspas.

mas a gente espera muito por essa validação, que é onde a gente precisa tomar cuidado, porque os recomeços é um recomeço muito particular, é um recomeço meu, de mim, comigo mesmo.

Sim, e vale a pena também, né, o questionamento assim, como que eu busco essa validação? Sabe por que eu trago isso? Tem pessoas que quando são mais novas, né, às vezes elas passam por experiências de abuso, por exemplo, na infância. Isso são casos reais. E daí, só que assim, aquela criança, vamos pensar na criança que não tinha o suporte da família, então sofria o abuso de alguém.

Só que essa mesma pessoa que praticava o abuso com essa criança, também oferecia um certo suporte, um certo acolhimento. E daí a criança começa a crescer entendendo que, de repente, para ter uma validação, uma aceitação, uma confirmação de alguém, ela precisa se submeter a situações de abuso. E daí quando chega na idade adulta, às vezes reproduzindo...

Isso também. Quantas pessoas que não se quentam de que, nossa, meus relacionamentos sempre acontecem a mesma coisa. Eu sempre me coloco como última opção ali, eu sempre me coloco por baixo. Então, vale a pena essa reflexão também. Como é que eu tô buscando e como é que eu aprendi a buscar essa validação? Será que essa forma, ela precisa se manter? Ela é funcional? Ela é saudável?

Ou ela não está me adoecendo. Enquanto eu busco algo que sim eu tenho necessidade. Mas eu estou buscando da forma errada. Porque de repente. Eu posso encontrar validação. Em relacionamentos saudáveis. Em pessoas que me confirmam. Que me acolhem. Que me respeitam. Só que vamos lá. Talvez até de forma inconsciente. O que eu internalizei. É que para ser aceito. Para ser validado. Para ser confirmado. Eu preciso me submeter. A uma certa violência. Então a gente tem que tomar muito cuidado. Com as experiências infantis.

Não que elas sejam deterministas, mas elas podem ter muita influência em como a gente depois vai se comportar na vida adulta. Naquele livro que eu trouxe semana passada, Perdas Necessárias, a autora fala um pouco sobre isso. O quanto que às vezes nos relacionamentos românticos que a gente estabelece...

na nossa vida adulta, é quase como uma tentativa, muitas das vezes, de resolver questões que ficaram inacabadas com nossos cuidadores, por exemplo. Então, por isso que eu digo que essa coisa do recomeço vale muito a pena a gente olhar para dentro e fazer uma autoanálise de como a gente tem se comportado.

para poder entender nossos padrões também, e conseguir uma compreensão de onde eles vêm, como que eles foram se construindo, para que a gente possa desconstruí-los, e ter uma abertura para novas formas de ser, e estar no mundo também. Exatamente, Hamilton. É isso que a gente está falando, por mais triste que seja, às vezes eu escuto as pessoas falarem, por que eu não consigo sair dessa situação?

Por que eu não consigo olhar que isso talvez seja um relacionamento tóxico? Ou por que o fulano e o ciclano não saem? Gente, é só sair. A gente escuta muito isso. Mas, quando a gente tem essa mudança, ou a gente pode fazer essa mudança, pra quem está ali, não é só uma perda daquela situação ou um ganho. Eu digo perda porque pra pessoa ela tá entendendo que talvez ela esteja perdendo.

mas assim, quando há essa mudança, ela acaba perdendo a referência emocional. Eu não sei se eu estou entendendo o que você está dizendo, se é isso mesmo, dentro do que eu estou olhando para o que você trouxe, Hamilton. Mas quando a gente já perde essas referências emocionais, que é para a gente poder, então, nos resgatar, para buscar essa nossa identidade que está em crise, eu penso muito em um conceito de uma psicologia narrativa, que ele explica que...

Nós construímos nossa identidade através das histórias que nós contamos sobre nós mesmos. Então, assim, o que você está contando sobre você? Qual é a sua narrativa, a sua história? Ela te pertence de fato? De quem sou eu? Qual é o meu papel? Qual é a minha vida que traz significado de fato? Ou eu estou vivendo...

Esse apego que é que eu falei de ter perdido, mas na verdade é um ganho, sobre essas referências emocionais, isso faz sentido? Sim, porque lembra aquela questão da função personalidade, que é como nós nos narramos. E aquilo que a gente narra sobre a gente acaba se tornando uma verdade. Então, se eu coloco que eu sou uma pessoa que, por exemplo, eu sou um fracasso.

Ok. Então eu começo a evitar situações na vida porque eu tenho isso narrando sobre mim. Eu sou um fracasso. Então por que eu vou tentar? Por que eu vou me permitir aquela oportunidade que está surgindo? Sendo que eu conto por aí, falo sobre isso, acredito nisso, que eu sou um fracasso. Então aquilo que a gente fala a nosso respeito acaba se tornando uma verdade. E de repente nós não somos de fato um fracasso. Talvez a gente tenha condições, a gente tenha capacidade, habilidades.

Só que a gente fica tão enraizado naquela frase, que às vezes nem é nossa, que de repente a gente ouviu de alguém, e a gente fica reproduzindo isso como se fosse uma verdade suprema, e daí ela vai se tornando realmente uma verdade, mas por quê? Porque a gente evita situações, ao invés de tentar se permitir a elas. Só que é muito interessante, porque pelo menos na gestaltioterapia, quando a gente vai trabalhar essa questão da função de personalidade, a gente fica muito atento ao que a pessoa diz sobre ela, a como ela se narra nas sessões.

E daí tá, ela pode vir com essa crença super rígida de que eu sou um fracasso, beleza. Só que conforme ela vai compartilhando coisas na sessão, de repente vão aparecendo exemplos de situações em que ela se deu bem. Só que, vamos lá, como ela narra...

sobre o fracasso de forma tão assídua, ela não consegue se dar conta dos momentos de sucesso na vida dela. Então a gente, enquanto terapeuta, acaba sinalizando. Ô fulano, você percebeu que você acabou de falar uma coisa que você se deu bem? Que você conseguiu concretizar com eficiência?

Você percebe isso? Opa, a pessoa dá um start nela. Nossa, é realmente eu conseguir. Aí a gente convida a pessoa a começar a ressignificar aquela fala que ela tem de que eu sou um fracasso. Vamos tentar mudar isso? Você não é um fracasso. Às vezes eu fracasso.

Mas às vezes eu também acerto. Começo a mudar a narrativa que a pessoa faz sobre ela mesma. E daí ela começa a mudar o olhar que ela tem sobre ela. E isso é importante para o recomeço. Sabe por quê? Que não adianta a gente dar palestra. Sabe assim, acredite em você. Você é o... Não adianta. Porque a gente tem que fazer um trabalho muito mais profundo. Por isso que coach não dá certo. Você está falando e eu estou pensando exatamente, né? Essas mudanças. Mas sabe, eu estava lendo... Não.

Algo sobre essas questões. Porque ontem eu tava assistindo. Abrindo um adendo aqui, gente. Que também é importante dentro disso que a gente tá falando. Exatamente porque quando a gente pensa em cuidado. De cuidar mesmo. Então você não vai em qualquer médico. Pra ser cuidado de qualquer jeito. Você procura o melhor especialista. Naquilo que você precisa. Num endocrinologista. Numa ginecologista. Numa cardiologista. E porque quando você olha pra sua saúde mental. Você não procura o melhor profissional pra cuidar.

Então eu falo assim, que eu estava vendo lá que assim, quem quer atalho vai encontrar qualquer coisa, né? Então vai acreditar nas promessas que é eu cura a sua vida em 10 sessões. E, poxa, é uma vida inteira. Como que uma pessoa vai curar a sua vida em 10 sessões, né? Então é tomar cuidado para isso. Porque quando a gente pensa nessa questão mesmo de reprogramação, de neuroplasticidade, gente, neurociência, tá? Não é balela, não é qualquer coisa que a gente está falando.

mostra que a nossa capacidade de cérebro, o nosso sistema nervoso, ele se modifica através das nossas conexões neurais, então a estrutura, as nossas funções em resposta, experiências, nos aprendizados, nos estímulos, até nas questões de lesões. Ontem eu estava até comentando com uma paciente sobre a questão da música, que a Neurociência vem trabalhando muito a questão da música, e que eles têm conseguido, dependendo do estado que o paciente está,

criar essas conexões neurais com o paciente que está em coma induzido e através da música fazer com que haja conexões e estímulos neurais. Então esse fenômeno, gente, ele é tão incrível, né? Ele é tão bem explicado como o nosso cérebro se adapta, ele se reorganiza ao longo da nossa vida, que a gente precisa olhar exatamente assim, ó. Eu consigo me reorganizar, eu consigo me readaptar,

Eu consigo olhar pra mim e dizer que eu posso, ao invés daquele olhar que a gente tem às vezes de fracasso, né? Ah, eu sou um fracassado mesmo. Ah, eu não consigo. Olha quanta coisa ruim você tá jogando pra você em palavras. É de acreditar e olhar pra você, porque o recomeço, ele depende de você, ele não depende de ninguém.

Mas é isso que você falou, é muito importante das pessoas terem claro pra elas que o recomeço depende da gente. É uma atitude, uma postura que a gente adota na vida. Você falou da neuroplasticidade, achei muito legal. Sabe por quê? A gestaltioterapia ela tem um dos embasamentos dentro do existencialismo. O existencialismo, ele traz pra gente a noção de que o ser humano ele é um eterno vira-ser. Ou seja, ele tá sempre se refazendo, se reconstruindo.

Sabe aquele ditado de que não se ensina truque novo pra cachorro velho?

isso até pode fazer sentido talvez no mundo animal, não sei não tenho conhecimento pra falar se cachorro aprende ou não, mas em questão de seres humanos isso não é verdade, porque como você falou, tem a questão biológica da neuroplasticidade o nosso cérebro, ele tem a capacidade de se readaptar em certas situações e isso é muito interessante tem estudos que mostram as vezes as pessoas que sofrem tipo assim uma lesão e acabam perdendo a visão ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao

Outros neurônios acabam sendo, de certa forma, estimulados para poder meio que, esqueci a palavra agora, mas compensar, compensar a perda daquela função que ele teve. Você pode até falar melhor do que eu sobre isso. Mas é que mostra o quanto que nós, enquanto seres humanos, temos a capacidade de nos reerguer, de nos reinventar. A gente não precisa viver condenados a uma história que a gente sempre se... A gente sempre repetiu para nós mesmos.

sobre ela, ou a gente sempre ouviu alguém contando sobre nós pra nós mesmos, sem questionar sabe, quantas pessoas acabam vivendo vidas porque alguém determinou, e não, a gente pode se reinventar sim, a gente pode sair desse lugar a gente pode se refazer, se o nosso cérebro é capaz de se refazer em certa medida, por que que nós não seríamos? É claro isso envolve medos, inseguranças incertezas, envolve, e é por isso que existem os processos terapêuticos pras pessoas terem o suporte pra poderem encarar ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao

essa mudança, esse recomeço. Mas a gente pode, desde que a gente acredite. Isso, eu ia falar exatamente isso, desde que a gente acredite. Se você não acreditar em você mesmo, não olhar para isso como eu posso, eu consigo, e tentar exatamente por um novo caminho, um novo recomeço, você vai ficar afadado, cansado e estagnado no lugar que você está e nessa zona de conforto, que é eu sou assim mesmo.

mas eu sou assim mesmo porque eu estou querendo e eu estou me permitindo ser assim mesmo. Gente, recomeçar não é fácil. Eu entendo que biologicamente também é muito cansativo, porque o cérebro está reaprendendo como viver sobre aquilo. Então, a minha pergunta para vocês é assim, vocês estão vivendo ou vocês estão sobrevivendo? Recomeços são precisos, eles são necessários em vários momentos da nossa vida.

Então a gente precisa pensar nesse papel do pensamento de que não é só o pensar positivo, né? Porque a gente fala assim, ah, olha lá, papo de novo de... Porque parece um papo de coach, né? De, ai, tem que pensar positivo. Mas, de novo, a lei da atração, o universo, ele conspira quando a gente passa a pensar positivo e agir com aquilo também de forma positiva.

não é só eu sentar e esperar. Então, quando a gente olha para essa questão do pensamento, dentro da TCC, eu costumo muito usar, eu acho que dentro da Gestalt também tem algo parecido com isso, que é a questão de trabalhar o RPA, que são os registros de pensamentos automáticos, ou RPD, que é desfuncionais.

de que como eu falaria isso para outra pessoa? Você entende que quando você tem um pensamento negativo sobre você, e aí você olha de um outro lado, tendo uma outra visão, como você falaria isso para uma pessoa? Você nunca vai falar de forma negativa e punitiva? Você sempre tem uma palavra bombosa, um aconselhamento, uma coisa que impulsiona o outro, então por que não olhar dessa forma para você também? Então a gente trabalha muito isso, que é uma coisa que acaba ajudando também a diminuir essas distorções negativas.

É importante mesmo a gente prestar atenção nas palavras que a gente usa a nosso respeito, né? Porque elas se tornam, de fato, uma verdade. Porque querendo ou não, como a gente falou agora há pouco, né? Se a gente acredita que a gente é um fracasso, a gente não vai se permitir a experiência. Se não se permitir a experiência, se a gente não vive nada. Não vivendo nada, a gente retroalimenta aqueles sentimentos de ser fracasso. Então a gente mesmo cria o nosso fracasso.

E não que a gente, sabe assim, então é um olhar para dentro. Avançando um pouquinho, também queria trazer uma coisa sobre o recomeço profissional. E talvez você até possa compartilhar algo pela sua história, você também passou por isso. Mas o quanto que também é um processo trabalhoso, mas por vezes necessário.

Em relação ao profissional, a gente pode falar também sobre identidade, porque, de novo, não diz respeito apenas ao trabalho, diz respeito à rotina que a pessoa tinha, ao pertencimento com os colegas de trabalho, aquilo que ela fazia, o reconhecimento pelo trabalho dela. Quantas vezes eu ouvi de pacientes que entraram na aposentadoria e que trazem o quanto sentem falta desse reconhecimento, porque quando trabalhavam eram reconhecidas, eram valorizadas.

Função social também, um outro componente muito importante nessa questão da identidade profissional. Quando alguém perde ou muda de emprego, ela acaba também perdendo ou tendo que mudar a narrativa sobre si. É quando surge a pergunta.

Quem sou eu agora? Sem mais esse papel que, de repente, por tantos anos eu fui desempenhando. Daí também a importância, né? De antes de falar de recomeço, talvez lá no começo da nossa questão profissional, também é interessante a gente pensar assim, olha. Tudo bem, você, sei lá, vamos pegar o nosso exemplo. Nós somos psicólogos. Mas nós, enquanto psicólogos, não podemos nos resumir apenas a esse papel, porque, eventualmente, pode chegar o dia que a gente não consiga mais exercer a nossa profissão por alguma questão.

E daí, o que a gente vai ter? Pra nos definir, pra nos ajudar a nos identificar. Então assim, a Thais, enquanto psicóloga, ela não é só psicóloga. Ela pode ser outras coisas também, que tenham a ver com trabalho, mas não necessariamente, não apenas. Então por isso também é tão importante a gente olhar pra nossa vida e não resumi-la ao trabalho. Porque senão esse processo de recomeço se torna complicado também. Porque a gente fica tão enraizado, tão atrelado a uma determinada função profissional.

E quando a gente perde aquilo, quantas pessoas que não adoecem? A gente até, eu acho que comentou sobre isso em alguns episódios anteriores, mas muitas pessoas adoecem de fato por conta disso. E adoecem mesmo, Milton. Eu falo que a gente precisa ter muita certeza daquilo, porque o medo dele sempre vai existir, tá tudo bem ter medo. O medo dele só não pode ser o nosso bloqueador, o nosso paralisador de que, ai, não sou capaz, que é o que a gente tá falando, é de...

eu confio, eu sei que é isso que eu quero, independente do que os outros vão falar ou julgar. Porque querendo ou não, como você comentou, que eu tenho sobre essa questão da mudança de profissional, eu lembro do que eu escutei muito. Então, quando eu pensei em fazer a transição de carreira, porque eu vinha da área financeira, trabalhei praticamente, acho que a minha vida toda até então, a psicologia entra na minha vida com a parte administrativa e financeira,

Eu sempre sentia algo em mim, mas eu não sabia o que era essa mudança. Mas eu sabia que aquele lugar não era meu, mas era uma coisa que eu também amava fazer. E depois eu descobri que esse amar fazer é porque eu lidava com muitas pessoas, eu conversava com muitas pessoas. Então eu tinha um pouco, um conforto de não estar sozinha no meu ambiente de trabalho. Tipo, eu e os meus papéis, sabe? Eu tinha pessoas pra conversar durante o dia. Eu tinha...

atividades que não eram isoladas. E quando eu fui sentindo essa vontade de trocar, e que eu comentava, e eu falava, e eu já estava casada, eu já tinha uma filha, então até dentro da minha casa foi uma pauta muito delicada, de que eu era louca, de que eu não poderia fazer isso, porque isso ia mexer demais com toda a estrutura familiar.

Não só isso, mas também com a questão do que as pessoas de fora falavam. Não, você não vai fazer isso. Olha, é a sua cara fazer isso, mas... Ai, nossa, largar uma profissão para começar outra sim, porque querendo ou não, eu já estava praticamente com uns 30 anos. Nossa, você vai largar tudo? E eu sei que foi difícil, porque tinha esse limitador que era o que as pessoas falavam, mas se eu não tivesse muito certa daquilo que eu queria, que é exatamente isso que eu falo...

Você ter certeza do que você quer, qual é o seu caminho. Você traçou o seu caminho? Mesmo eu estando casada e eu ter pontuado que aquilo era importante para mim, eu fui. Com medo mesmo, mas eu fui. Então, eu abandonei a minha carreira. Na época, eu decidi, eu tinha estrutura, né? Graças a Deus. Mas, assim, tem gente que continua trabalhando e, aos poucos, fazendo essa transição. E está tudo bem também. É o que funciona para aquela família.

Só que no meio desse caminho, a Milton acompanhou uma parte disso, eu fui fazer o quê? Fui fazer comida saudável. Fui vender marmitinha, fui vender bolo caseiro, fui vender pão, que era aquilo que eu sei que eu faço também, que eu gosto de fazer. Então eu aproveitei coisas que eu gostava para poder me ajudar financeiramente naquele momento, para não ficar só dentro de casa estudando. Seria sacanagem, porque como mãe, esposa e dona de casa, não era só aquilo, porque tinha outras coisas também no meio desse caminho.

Então, assim, foi um caminho que eu decidi fazer e que eu fiz e que hoje eu tô aqui, com toda a bagagem que eu tive que me ajudou a me fortalecer ao longo do caminho, eu fiz a transição e eu falo que foi uma das melhores coisas que eu fiz, porque eu tinha certeza daquilo. E hoje eu amo o que eu faço. Claro que, como toda profissão, gente, tem os desafios, né? Porque eu amo isso que eu não tenho desafios. Assim como a Milton também não tem os desafios dele no dia a dia, às vezes na clínica mesmo.

mas é uma coisa que aconteceu. Então, o recomeço, ele nem sempre é fácil, mas se é o que você quer, ele é necessário, então faça. Na área profissional é esse o recomeço meu.

É, tem uma coisa que eu achei legal, que tem a ver com o que você falou, né? Que assim, ó, recomeçar profissionalmente não envolve somente aprender algo novo. Só que muitas vezes reconstruir a confiança em si mesmo. É. E você falando sobre isso, acho que você passou por isso também. Foi. É, porque o caminho foi tortuoso. Mas é pra um outro assunto esse que não é agora.

Quem sabe no momento que a gente fala sobre profissões aí. Mas foi um caminho de cinco anos assim, que tinha dias que eu falava, por que eu decidi fazer isso? E aí eu voltava, porque eu escrevi uma frase mesmo, de quando eu comecei, até eu finalizar, que aquilo seria a minha âncora. Então, sempre que eu pensava no caminho de por que eu fiz isso, eu ia ler essa frase para mim.

abastecer que aquilo era importante pra mim, porque aquilo me pertencia, aquilo era sobre mim, não era sobre ninguém. Eu precisava buscar algo que fosse meu e não de ninguém.

Bom, e falando sobre essas questões de começo, eu também tenho um outro tópico que eu acabo lembrando e que chegou na clínica recentemente, que é sobre a questão de quando os filhos saem de casa. Seja porque vão estudar em outro estado, ou porque eles vão morar sozinhos, já chegou a uma certa idade, ou porque eles se casaram e também vão com isso ter que sair de casa. E daí muitos pais experimentam o que a gente chama de síndrome do nem vazio.

Tem gente que acaba, às vezes, desconsiderando esse sofrimento de muitos pais, mas é um sofrimento bastante real e muito significativo. Porque, de novo, é uma mudança de papel. Vamos lá, uma pessoa que se dedicou a vida inteira ao filho e, de repente, aquilo...

tinha uma importância tão grande na sua vida, porque era sempre aquele cuidado, aquela presença, aquela constância. E de repente não vê mais o filho dentro de casa, compartilhando a vida. E dessa pessoa pode passar por um processo, né, que a gente pode até comparar com o luto mesmo. Porque é uma questão de pais e filhos, você pode até falar com mais propriedade que você tenha a experiência de ser mãe, mas a ligação, o vínculo ligado, né, da maternidade, da paternidade, que você tenha a experiência de ser mãe.

É um vínculo muito profundo. Você colocou aquele serzinho no mundo. E de repente ele está voando. E você vai ter que acompanhar o voo dele. E muitos pais passam por conflitos. Nesse momento conflitos internos. Conflitos no relacionamento. Mas também há um momento de convite. Há uma reconstrução das próprias experiências. Do que eles podem agora viver. Das oportunidades que a vida pode trazer. Mas também...

De estabelecer uma nova relação com aquele filho agora adulto. Daqui a pouco pode vir os netos. E agora eu vou ter um novo papel. Eu vou poder participar da vida do meu filho de uma outra forma. Então olhar para a saída dos filhos como um momento de reconfiguração da relação. Pode ser muito mais saudável e benéfico do que esse olhar do tipo. Nossa, eu perdi meu filho. E agora, que dor no coração.

Não, você não perdeu o seu filho. Você perdeu, talvez, a forma de se relacionar com ele. Mas vai vir aí um novo formato, provavelmente, com novas experiências que vocês poderão compartilhar também. Fora, claro, a oportunidade que você tem de olhar pra dentro novamente e poder se dar conta de que eu posso viver agora que eu não tenho mais aquela responsabilidade tão presente do cuidado com os meus filhos. E aí, isso te faz sentido?

Aí, Zami, eu acho que não só na questão de pensar em um nenhum vazio, claro que a minha pequenininha é pequena ainda pra mim, né? A longe, né? Espero que sim, né? Que isso seja lá igual eu, que já casei perto dos 30. Mas teve sim pra minha mãe, eu lembro como foi que ela ficou, como ela se sentiu. Mas teve uma coisa que eu não sei se não é falada ou não é comentada, mas eu lembro que pra mim também foi um...

muito difícil, porque eu sempre fui muito próxima, muito... Uma filha mesmo que era parceira da minha mãe, de contar tudo, de dividir minha vida com ela. Eu lembro que quando eu casei, eu sei que foi pra ela difícil, mas eu fingi que pra mim tava tudo ok, né? Pra confortar ela, mas eu lembro que foi difícil. Eu fiquei um mês chorando à noite. Eu falei assim, gente, ou meu marido agora separa de mim, porque eu fico chorando à noite.

Isso vai passar uma hora. E assim, ele foi muito paciente. Nesse um mês de, olha, tá tudo bem, né? Uma nova mudança, né? Isso vai passar, isso vai entrar num lugar de conforto. E realmente, assim, entrou. Mesmo porque eu não perdi o vínculo com ela, que é o que vice-versa, né? Tanto a mãe quanto o filho, eu acho que, exatamente, que esse vínculo vai morrer, que esse vínculo não vai ter mais. Porque pra mãe, quando a gente pensa nessa questão do ninho vazio, né? Quando eu recebo as mães trazendo esse assunto.

O ninho vazio, gente, é porque você tinha toda uma rotina, você vai ter que readaptar. Porque você tinha o horário que a pessoa chegava, a roupa que a pessoa usava que você lavava, porque geralmente é a mãe que faz isso. Era a comida preferida do filho, às vezes nos finais de semana. Era sentar na mesa para todo mundo comer junto.

É o cheiro do perfume, é o jeito que entra dentro de casa, o portão que não abre mais do mesmo jeito. Então, existe várias questões sobre esse ninho vazio. Não é só pelo filho que foi e não está mais dentro de casa, mas é por toda a rotina que se tinha antes. E é criar essa nova rotina que é difícil, não é impossível. Mas ela demora um pouco, né? Mas ela acontece de uma forma depois tranquila.

Sim. O importante é manter os vínculos. Isso, é, exatamente, é os vínculos. Aí você passa aí na casa da mãe pra poder almoçar, porque aí você sente falta daquela comida, daquele macarrão de domingo. Sim. De repente a mãe vai almoçar na casa do filho, sabe assim? Eu te servi a vida inteira, agora você vai me servir um pouquinho. Exatamente. Então é um pouco disso, é trazer um novo significado pra essa nova rotina, né?

Porque se a gente não olha pra isso, a gente vai trazer isso em sofrimento. Não é que a gente não possa sofrer, mas a gente não pode querer viver nesse sofrimento. Sim. Eu achei muito legal.

que você trouxe, porque geralmente, quando a gente fala de ninho vazio, a gente só olha pros pais. Mas às vezes os filhos... É, pra mim foi difícil. Então, não é? Os filhos também podem passar por algo parecido. Não sei se ninho vazio seria o nome, né? É.

Acho que é da teoria do apego mesmo, né? Esse apego que a gente tem à casa da gente, ao quarto da gente, às manias da gente. Sim, sim. Até porque se você sai de casa por um casamento, por exemplo, aí você vai estar convivendo com uma outra pessoa.

que tem interesses diferentes, hábitos diferentes, isso pode trazer um certo desconforto no primeiro momento, então isso gera também algumas questões mais emocionais, enfim, mas eu achei bem interessante essa visão que você trouxe, porque a gente acaba deslocando um pouco o olhar de só um fator e ampliando a perspectiva. Todos acabam sofrendo, de certa forma, embora nem todos digam, e cada um lida com o sofrimento de uma certa forma, mas todo mundo passa por essa mudança.

Nossa, é, eu falo que é viver, gente, é isso, a gente não é, não tem essa coisa linear de que, por mais que o sonho era, né, do filho, por exemplo, casar e a mãe também, né, saber que o filho ou a filha vai casar e que ele tá formando uma nova família e de que vai trazer netos, né, que eu falo que tem pais que querem netos, tem pais que já não, né, não, não vem trazer pra mim, não. Mas por mais que tenha esse momento gostoso de querer viver isso...

Existe essa questão também, claro, de e agora? Como vai ser esse novo novo? Sim. Mas ele acontece, não se cobrar tanto, acho que essa questão de ser mais gentil com a gente mesmo, que a gente acaba não sendo, é muito mais punitivo e duro com a gente, ao invés de se tratar com gentileza.

Então, acho que a minha resposta é um pouco disso, sabe? É de que... Essa reflexão de que a gente precisa ser mais gentil com a gente. Dar as permissões, mas não deixar que essa sua permissão se permita estar nesse lugar por muito tempo. Porque a gente precisa sair desse lugar que é ruim, né, gente? Sofrer é ruim. Eu não sei pra quê, né? Eu falo por mim. Eu e o Thais não gostam. Quando eu falo pras pessoas que vêm pra terapia...

quando eles vêm com essa questão, eu falo, você gosta de sofrer? Porque eu preciso entender como que funciona aquilo para a pessoa. De verdade, eu já ouvi assim, é que eu estou tão acostumado com isso que parece normal. Então, a gente normaliza uma coisa que não é para ser normalizado. Sim, sim. E daí vale a pena a problematização, né? É, exatamente. Porque recomeçar não é simplesmente continuar, né, Milton? É realmente assim.

atravessar um processo psicológico profundo, onde o nosso cérebro vai tentar criar novas formas de existir. Talvez a gente vai sentir que a gente está atrasado ou que a gente está adiantado demais. Mas é o seu processo. É pensar que não existe nada igual. Porque essa coisa da comparação, né? Ai, fulano saiu disso melhor. Por que eu estou sofrendo? É seu processo.

É você que está em reconstrução, não é o outro. Sim, perfeito. Isso é para fechar com chave de ouro. A gente tem que se concentrar no nosso processo, na nossa experiência, porque a nossa experiência é diferente. Vamos pegar aqui, você e eu. Você tem habilidades que de repente eu não tenho.

Então não tem como eu me comparar com as suas conquistas, com aquilo que você tem de sucesso na sua vida, porque talvez aquele não seja o meu caminho. Porque nós somos pessoas diferentes, com recursos diferentes. Então eu preciso me concentrar naquilo que eu tenho. Se eu quero recomeçar, se eu quero continuar, enfim, eu vou olhar praquilo que eu tenho, praquilo que faz sentido pra mim, praquilo que eu posso fazer. E que assim, vai ter a ver com a minha identidade, né? Porque senão eu tento ser a Thaís, só que eu não sou a Thaís.

Não tem como. O Fritz, né, já dizia uma coisa sobre isso aqui. Como é que é? Tinha uma coisa que era muito interessante do Fritz que... Eu não vou lembrar exatamente o que era. Mas era tipo assim, uma girafa que quer ser um elefante e não vive a girafa que ela é, vai sempre viver em sofrimento. Mas quando ela se apropriar da girafa que ela é, então ela vai se dar conta do potencial que ela tem de comer as folhas mais verdinhas do topo da árvore. Sabe assim? Enquanto que o elefante não tem essa permissão.

ele tem outras coisas que ele pode fazer que a girafa de repente não mas se a girafa não se dá conta do que ela se apropria do que ela pode do que ela consegue, ela vai sempre viver frustrada enquanto que teria um grande potencial ali que está sendo desperdiçado então, coisa que vale a pena a gente refletir isso que possamos ser nós mesmos então sem querer ser outras coisinhas suportar o nosso próprio processo olhar pra gente ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao ao

exatamente com essa questão de o que eu quero é meu, é meu processo. Então, como eu quero atravessar esse caminho? Ah, para o outro foi mais fácil? Ok. Ah, para o outro foi mais difícil? Para mim não é a comparação. É o que você quer, é como você quer fazer, é como você quer atravessar esse caminho. E é isso. Está difícil, então, gente?

Aqui, ó, estamos aqui, somos psicólogos, né? Falamos disso o tempo todo pra vocês sobre a questão da terapia, de buscar a terapia, né? A gente vai fazer um episódio um dia aqui inteiro falando assim, ó, por que as pessoas têm medo da terapia? É uma boa ideia, uma boa ideia. Não é? Por que as pessoas não procuram? Sabendo o que às vezes precisa e fica mapeando ou fingindo que tá tudo bem.

Sim, perfeito. Eu gostaria de agradecer mais uma vez a Cris, que o último episódio da semana passada deu repercussão. Foi um episódio emocionante, inclusive. Foi. Deu muita coisa. E ela trouxe uma questão aqui que eu achei muito legal, que eu gostaria de compartilhar.

que é o quanto que ela se sente tocada pelo nosso trabalho, ela percebe que tem evoluído com os aprendizados que vem tendo todas as meias nos ouvindo. Thaís, você me abraçou hoje e abraça em todos os episódios de segundas-feiras. Ah, que linda. Obrigada, Cris. A gente fica muito feliz. A gente até chorou no final do outro. Pois é. A gente aqui é nadíssimo.

Quem ainda não ouviu, corre lá para ouvir. Exatamente, gente. Obrigada, Milton, por esse episódio. Acho que foi tão interessante falar sobre isso, porque os recomeços, eles são necessários. Muitas vezes a gente precisa olhar para isso. Nem sempre a gente vai atravessar com uma certa resiliência, porque nem sempre a gente precisa disso. Mas é encontrar o nosso ponto, do A ao B, daquilo que a gente precisa para seguir. E se está difícil, não consegue fazer isso, procura ajuda.

É isso aí. A gente não precisa trilhar sozinhos. Obrigado, Thaís, também. Uma boa semana pra você e pra todos que nos ouviram. É isso. Obrigada, gente. Até o próximo episódio. Boa semana.