Entre a Dor e a Memória: O processo do luto
Falar sobre luto é, de alguma forma, falar sobre a própria vida. Porque perder faz parte do existir, ainda que ninguém nos ensine como atravessar esse caminho.
Neste episódio, abrimos espaço para olhar o luto para além da morte. Falamos sobre perdas que silenciosamente nos atravessam: o fim de um relacionamento, a ausência que fica, os sonhos que não se concretizaram, as mudanças que nos obrigam a viver de um jeito diferente. O luto não começa apenas quando alguém vai embora, mas quando a ausência passa a fazer barulho dentro de nós.
A partir de uma perspectiva da psicologia, refletimos sobre como cada pessoa vive o luto de forma única. Não existe um roteiro, não existe um tempo certo, não existe comparação possível. O que existe é a experiência, muitas vezes confusa, dolorosa e não linear, de aprender a conviver com aquilo que não está mais.
Também falamos sobre a importância do silêncio, da rede de apoio, da espiritualidade (quando faz sentido) e, principalmente, do respeito ao próprio tempo. Nem sempre palavras consolam. Às vezes, a presença basta.
O luto não é algo que se supera, mas algo que se aprende a carregar de um jeito diferente. E, aos poucos, aquilo que era dor intensa pode dar lugar a memórias que aquecem sem apagar o amor que ficou.
Se você está vivendo um processo de perda, este episódio é um convite: sentir também é um caminho.
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- Luto infantilImportância de incluir crianças no luto · Informação imediata e exata sobre a morte · Encorajamento para compartilhar a dor familiar · Perigos de explicações lúdicas e não funcionais
- Individualidade do lutoLuto não padronizado · Fatores que influenciam o luto · Comparação de lutos
- O luto como oportunidade de aprendizadoRessignificação de prioridades · Aprofundamento de relações · Transformação pessoal através da dor
- O luto como processo não linearFases do luto · Choque, reconhecimento e adaptação · Reações de aniversário e datas comemorativas
- Morte e LutoLuto além da morte · Perdas não reconhecidas · Ausência que faz barulho
- Relação entre atenção, concentração e memóriaO objeto amado dentro de nós · Aprendizados e memórias · Vínculo que permanece
- Recursos para lidar com o lutoEspiritualidade e fé · Rede de apoio social · Recursos pessoais
- Aconselhamento psicológico e lutoTerapia como suporte · Aconselhamento para famílias · Quebrar tabus sobre a morte
- A importância de viver bem
Bom dia, queridos ouvintes. Hoje estamos aqui para falar algo que todo mundo vai viver em um momento, mas que ninguém está preparado para isso. Como o Hamilton deixou no episódio anterior, esse spoiler, então hoje nós estaremos aqui falando...
sobre o luto. Então, bom dia para quem está aqui nos ouvindo nessa manhã de segunda-feira, mas também para quem não está nesse bom dia de segunda-feira, uma ótima tarde, uma ótima noite. Seja bem-vindo a esse espaço. Oi, Hamilton. Bom dia. Para a gente é bom dia. Para a gente é bom dia. Boa madrugada, Thais. Exatamente, é isso. Uma boa madrugada. E hoje nós estaremos falando sobre o luto, né, Hamilton?
Sim, sim, né? O quanto que é um processo tão complicado na nossa vida, que como você começou falando, todos vamos viver de alguma forma e de várias maneiras também. A gente às vezes tem o hábito de olhar para o luto como apenas a perda de alguém.
Mas quantas perdas nós vivemos na nossa vida? A gente até começou a falar um pouco sobre isso no episódio anterior e que também nos trazem experiências de luto. Principalmente quando são coisas muito significativas na nossa vida. A perda de um emprego, a perda de um animal de estimação e que às vezes são lutos até não reconhecidos. Então tudo isso a gente vai olhar aqui hoje e discutir com calma.
É isso mesmo, porque o luto não começa só quando alguém vai embora, assim como nós falamos no episódio anterior, que nós queríamos dar uma continuação para falar exatamente hoje sobre essas perdas, o que dói mesmo. E o luto começa quando essa ausência começa a fazer um barulho, que é o barulho exatamente daquilo que não tem, que é essa ausência mesmo. Então ele começa exatamente nessa ausência, o que ninguém consegue ensinar.
que é o quê? O silêncio, né? Porque o silêncio que fica, ele atormenta. E atormenta muitas vezes de várias formas, na nossa vivência, no nosso cotidiano, na nossa rotina, que é aprender a viver de uma forma diferente após essas perdas, essas ausências na nossa vida.
Não conversamos sobre isso, né? As pessoas não falam sobre morte, não falam sobre perda. E daí acontece que a gente acaba não sabendo como lidar com isso. Um ponto que eu gostaria também de começar trazendo, o quanto que o luto a gente não pode padronizá-lo, né? Existem algumas coisas no luto...
que são compartilhadas entre as pessoas e que a gente precisa olhar para isso para poder encontrar uma normalidade na vivência desse luto. E por que eu digo isso? Porque existe um luto que é tido como complicado e que alguns autores até descrevem como patológico, apesar que essa expressão eu acho um pouco exagerada porque o luto é uma experiência de vida.
A gente não pode ficar patologizando as experiências de vida, mas isso não significa que elas não se tornem complicadas de serem vividas. Então, o luto tem ali as características mais universais para a gente ver essa coisa da normalidade do que é vivido, mas a gente não pode desconsiderar nunca.
As particularidades. Porque cada pessoa vai vivenciar esse luto de uma maneira diferente. E uma mesma pessoa, vivendo lutos em momentos diferentes da vida, também vai vivenciá-lo de formas diferentes. Por quê? Porque a vivência do luto depende de alguns fatores. Por exemplo, quem foi a pessoa que morreu? Qual era o grau de ligação entre nós?
Como foi a morte dessa pessoa? Se é uma pessoa que já estava no processo de adoecimento, a forma como vou viver esse luto é diferente de alguém que morreu, por exemplo, de forma inesperada porque se envolveu num acidente. Ou de uma pessoa que tirou a própria vida.
E são lutos diferentes. Então, uma mesma pessoa que vive essa experiência porque perdeu pessoas diferentes, vai ter uma vivência diferente de luto. Quanto mais pessoas diferentes. Então, a gente não pode olhar para o nosso luto e achar que a outra pessoa deveria vivê-lo da nossa forma. Eu acho que esse é um ponto importante para a compreensão, para o acolhimento. Porque, às vezes, é o que acontece. As pessoas não têm muita paciência, porque talvez elas lidam de uma maneira diferente e esperam isso das outras pessoas também.
Sim, e o que você estava falando me fez recordar, Milton, em um dos estágios que nós passamos pela época da faculdade, que foi exatamente trabalhar com o luto. E eu lembro que o que as pessoas iam procurar não era o conforto sobre a perda, mas elas queriam escutar histórias parecidas com a que é uma forma de reconhecer. E aí, quando você fala, é exatamente aquilo que a gente traz sempre para os pacientes que estão nesse processo do luto, de que...
Essa dor não é comparada a uma outra dor. Uma mãe que perdeu um filho, a esposa que perdeu um marido. Então, cada um vai ter o seu processo individual. Por mais que a gente procura, porque é aquilo que se assemelha à nossa dor, é onde a gente acredita que vai procurar um conforto, um refúgio. E a gente é que sabe que não. Porque é isso. De repente, uma pessoa que tem uma história de perda de filho que não tem uma história de perda de filho.
e a outra mãe, elas têm uma vivência diferente, uma história diferente, ou até mesmo da própria superação. Então, de repente, para quem está ali ainda vivendo esse luto, fala assim, como ela já conseguiu superar isso? E aí essa comparação acaba sendo ainda muito mais dolorida e sofrida.
Sim, né, você falando, tem outros fatores, agora eu acabei pensando aqui, fatores mais pessoais mesmo, por exemplo, a questão da espiritualidade, algumas pessoas encontram apoio na fé que elas têm para passarem por esse momento, e é uma coisa que a gente não pode desconsiderar, outras experiências de luto e como que ela encontrou recursos para lidar no passado, podem ser resgatados numa experiência de luto atual? É claro, né, a gente tem que olhar sempre para as particularidades, mas são ferramentas que de repente a pessoa já tem disponível com ela.
o grau de conexão social que essa pessoa tem a rede de apoio, que é o que a gente sempre fala no momento presente, que ajudam também a lidar com a experiência do luto, então tem esses fatores que envolvem como que aconteceu a morte, como que era a relação da pessoa com a pessoa que morreu mas também tem os recursos pessoais que também precisam ser considerados e que num processo psicoterapêutico
eles são, de alguma forma, explorados, investigados, para que a gente consiga construir recursos para que a pessoa passe por esse período. E, falando sobre isso, né, vamos lá, peguei aqui a questão da espiritualidade. Uma pessoa pode ter a questão da fé muito presente na vida dela, e outra pessoa não. Então, não tem como, ah, mas confia em Deus. Mas, para a pessoa que realmente tem a fé dela, talvez isso faça sentido. Mas, para quem que não tenha, talvez não. A gente tem que ter essa sensibilidade.
Exato, porque isso é muito nítido, exatamente, não só nisso, mas até no episódio anterior nós falamos sobre muito isso, o que a gente leva, aquilo que a gente traz que é nosso para o outro, sem perguntar de fato o que o outro precisa. E quando você fala sobre essa questão da fé, que acredito que em algumas pessoas acabam sendo mais fortes, que é isso, você precisa ter fé, você precisa rezar, precisa procurar uma igreja.
Mas e se a pessoa não tem isso? Ela vai procurar só porque ela está necessitando naquele momento, acreditando em algo que não vem para ela como realmente uma força. Então ela vai buscar algo que ela não acredita e ela acaba se frustrando muito mais. Então precisamos também tomar cuidado com aquilo que é nosso, que funciona para a gente, mas que não vai funcionar para o outro. Então fazer com que aquilo...
que era curar a dor que o outro está passando, porque uma coisa que eu observo muito também, e aí você pode comentar, falar sobre isso, as pessoas que têm a questão de perder mesmo, que vem essa questão de estar trabalhando o luto, de estar vivendo o luto, mas eu não queria perder o vínculo, eu não queria esquecer, porque a gente acredita nisso, eu vou esquecer essa pessoa, o jeito dela, a risada dela, e a gente não perde.
Eu acredito fielmente nisso, que a gente nunca perde esse vínculo, porque esse vínculo foi criado e ele continua no quê? Nas memórias, nas histórias, nas fotos, naquilo que foi construído. No entanto, num processo dentro da psicoterapia, do nosso setting terapêutico, a gente revive essas histórias, a gente traz isso para a pessoa.
Sim. Os psicanalistas, aí, vamos falar dos psicanalistas agora, eles falam algo que é a internalização. Sabe que é quando a gente consegue encontrar um espaço no nosso mundo interior para aquela pessoa que se foi. Eu até separei uma frase de um psicanalista, é Carl Abraham, o nome dele. E ele diz assim, o objeto amado não se foi, pois agora eu o levo dentro de mim.
São as histórias que a gente tem, as características que eventualmente a gente compartilha, os aprendizados que aquela pessoa deixou pra gente, sabe? Eu lembro, tem uma coisa, meu avô, por exemplo, meu avô morreu em 2019, só que tem uma coisa que eu aprendi com ele que eu trago até hoje, que é sobre cozinhar.
E ele tinha um jeito lá de picar alho que eu pico até hoje. Então assim, de certa forma, ele tá em mim ainda. Com as conversas que a gente tinha, os conselhos que eventualmente ele dava pra mim. Eu me lembro de muitas coisas, é claro, não de tudo que a gente, né? Mas tem muitas coisas muito importantes que eu guardo comigo. Uma coisa que também eu lembro muito do meu avô. O quanto que ele era uma pessoa disponível pras outras.
e muito respeitador também então ele saia na rua, todo mundo era amigo dele ficava às vezes um pouco envergonhado porque todo mundo cumprimentava ah, esse aqui é meu neto e ele falava isso com orgulho e eu me lembro também do orgulho que ele dizia isso então são coisas que a gente vai guardando dentro da gente e que depois no momento de saudade a gente vai resgatando é o que acalenta, né é o que vai confortar
Isso, tá o quentinho no coração, né? Exato. No primeiro momento, o luto, ele é uma dor horrível. Só que depois ele vai dando lugar pra isso, né? Com o tempo. Uhum. Exato, né? Então, o luto, ele acaba sendo também uma resposta emocional de uma parte nossa física, nossa parte psicológica, diante exatamente dessa perda. Então, quando a gente fala sobre o perder, não é só sobre a morte, é sobre exatamente...
O que a gente tinha de convivência, que é o vínculo que a gente está falando, que é esse medo de perder, e de perder esse fim de relacionamento, a perda de um sonho. A pessoa tinha tantas vontades, desejos ainda. E isso acaba trazendo esse sentimento de imaginar ou de pensar assim, nossa, aquela pessoa só está triste.
É só uma tristeza, mas vai passar. Mas às vezes não é só uma tristeza, porque a gente entende que isso, na parte nossa fisiológica, acontece outras coisas também. E que é o que a gente precisa tomar cuidado. Pode sofrer? Pode chorar? É permitido, claro que é, né, Milton? Somos seres humanos, né? Temos todos os direitos de sentir essa perda, essa dor. Mas a gente precisa tomar cuidado com...
qual isso está mexendo com o nosso próprio funcionamento, da nossa rotina, para a gente pensar exatamente no que a gente precisa do cuidado também.
Sim, sim. Eu vou aproveitar isso que você trouxe para trazer dois pontos. O primeiro é sobre a questão do processo do luto. Tem um livro que é Perdas Necessárias e tem um capítulo que é muito interessante, que é Amor e Luto. E a autora traz uma coisa que é muito interessante. As fases do luto não devem ser compreendidas como um pelo que devemos passar, mas como um pelo que estamos passando.
levando-nos ao reconhecimento dessa dor não como um estado, porque isso é muito interessante. Às vezes, quando a gente está passando pela dor do luto, parece que nunca vai passar e que aquilo vai ser permanente. E ela coloca que essa dor não vai ser um estado, mas um processo. E isso é muito legal, porque processo tem uma continuidade, tem todo um momento que é vivido.
E é um processo de adaptação à perda que nós estamos vivendo. E por que isso também é importante? Daí eu vou trazer um pouco da Gestalt Terapia. Na Gestalt, a gente tem a questão do Self, e nós temos as funções do Self. Sobre Self eu posso falar no outro momento, porque é uma coisa mais complexa. O que eu quero trazer é que dentro do Self, dentro dessas funções do Self, nós temos a função personalidade. O que é isso, a função personalidade?
ela compõe a forma como nós nos narramos. São as nossas identidades. E daí, quando a gente tem uma perda, por exemplo, sei lá, perdi minha mãe. Eu vou perder o papel de filho. Eu sei que minha mãe sempre vai ser minha mãe dentro de mim, não, não, não. Só que fisicamente, eu perdi o papel de filho. E isso mexe na minha função, personalidade. Na forma como eu me narro. Porque agora eu não tenho mais a minha mãe que me confirma que eu sou filho dela.
Porque ela não existe mais, né? Por mais que simbolicamente eu continue sendo. Mas vamos pegar aqui a coisa concreta.
e daí eu tenho que me reorganizar internamente nessa narrativa de quem eu sou. Eu perdi um papel, sabe? A mesma coisa se eu perco um emprego, eu não sou mais o profissional daquela empresa, isso mexe na forma como eu me narro, como eu me identifico, e daí é um processo de adaptação, de readaptação à forma como eu me coloco no mundo e como eu me identifico também, percebe? Então é uma coisa que leva tempo, por isso é um processo.
E daí, a autora, ela coloca três momentos. O momento do choque, que é quando a gente recebe aquela notícia e não consegue acreditar. E ela coloca uma coisa que eu achei muito interessante, né? Que a morte é um dos fatos da vida que reconhecemos mais com a mente do que com o coração. Então, de repente, a gente sabe que a pessoa se foi, a gente sabe o que tá acontecendo. Mas emocionalmente, é muito difícil de conseguir entender o que tá acontecendo.
Depois ela traz um reconhecimento, que começam a vir aquelas manifestações que você falou sobre choro, as lamentações, mudanças de comportamento que acabam acontecendo. E daí eu entro aqui no segundo ponto que eu queria trazer. Que é assim, né? A gente estava falando sobre não comparar a experiência do outro com a nossa. E tem muitas pessoas que são levadas pelo ímpeto de oferecer palavras de conforto pra alguém.
Só que isso nem sempre funciona. E por que que não funciona? E daí é interessante porque ela traz aqui no livro uma passagem de um outro autor, que eu não sei quem é, mas ela colocou aqui. É como se fosse alguém falando para outra pessoa que vem tentar trazer essas palavras de conforto. Olha só, a pessoa que está em luto respondendo.
Sua lógica, amigo, é perfeita. Sua moral, tristemente verdadeira. Mas desde que a terra se fechou sobre o caixão dela, é isso que eu ouço, não o que você diz. Olha isso aqui, por mais que as pessoas dizem que vai ficar tudo bem, não sei o que, mas tudo que está na nossa frente é a morte.
É a perda. Console-me se quiser. Posso suportar. É uma esmola bem intencionada de palavras. Mas nem todos os sermões, desde Adão, fazem a morte ser diferente da morte. Por isso que talvez seja tão difícil essa coisa de tentar consolar alguém em palavras e que não funciona tão bem assim, pelo menos não nesse primeiro momento. Porque tudo que a gente consegue ouvir é que a gente perdeu alguém.
A gente sempre traz, fala muito sobre isso, né? Sobre tomar cuidado com essa ansiedade, com essa necessidade nossa da fala. Antes do episódio, eu e o Hamilton ainda estávamos falando exatamente sobre isso.
essa necessidade, às vezes, de não deixar o silêncio. E, às vezes, o silêncio é necessário. O silêncio precisa acontecer. Porque é importante aquele momento do silêncio. Não existir silêncio. O mundo seria exatamente um barulho, um tormento. E não, o silêncio existe porque ele é necessário. Então, tomar cuidado com isso, que muitas vezes é realmente nosso, essa necessidade da fala, de acalmar. Às vezes, a pessoa nem quer, ela só quer ficar em silêncio mesmo, ou que você esteja do lado dela e não fala nada. Ok.
Se nem a nossa vida é linear, por que a gente acredita que num processo do luto isso vai ser com essas etapas todas, ou que precisa ter uma etapa para isso acontecer? Então hoje você pode estar bem, e está tudo bem estar bem, se sentir bem. Sim.
e no outro você pode sentir como se tudo tivesse voltado. Mas se permitir é isso, porque a gente fica, às vezes, até nesse questionamento interno, de que assim, nossa, mas eu estava tão bem ontem, para mim estava tudo ok, e essa sensação de que precisa passar, que essa dor, porque se foi uma perda de uma história que foi construída, como não sentir essa perda? Não tem como...
a gente abster dela, não tem como a gente tirar ela e apagar. Afinal, foi uma pessoa muito importante. É diferente quando a gente, não é que a gente não sinta, porque a gente tem a empatia, enfim, tudo mais. Mas de escutar que, olha, nossa, o fulano, o vizinho lá, não sei da quanta da pessoa veio a falecer. Na hora a gente se entristece, comenta e tudo, mas a gente sabe que a gente não vai viver aquela dor, porque não era uma pessoa da nossa convivência, do nosso cotidiano, mas a família lá está vivendo.
Agora, quando a gente está passando por isso, eu falo que até essa questão de não sermos gentil com se permitir sentir e chorar, isso nos faz mal também. Sim. É muito bom que você tocou nesse ponto, porque essa autora que eu falei, ela também traz sobre isso, sobre o quanto é que esse processo do luto não é linear realmente. Olha só, ela compartilha aqui uma outra citação, né? Estamos sempre saindo de uma fase, mas ela volta.
girando e girando, tudo se repete, estarei andando em círculos? Essa é a sensação às vezes, de que nossa, isso aqui nunca vai passar, e tem muitas coisas que acabam acontecendo, a gente acaba lembrando da pessoa, tem aqueles momentos que são as reações de aniversário, por exemplo, você lembra da data de nascimento da pessoa, tem a data da morte, outras datas comemorativas, que Natal, por exemplo, que reúne todo mundo.
E daí aquela pessoa não vai estar lá, fim de ano. E outros momentos também que a família acaba compartilhando. Então percebe como que não tem como ser uma coisa tão linear assim. Você passou dessa, agora você vai pra essa, agora você vai pra outra. Não, é uma coisa que se mistura. Então é como você disse, às vezes a gente parece que tá tudo bem, aparentemente. Mas de repente o coração aperta. A gente pode sonhar com a pessoa. Porque daí a gente revive sentimentos e a gente não controla isso. Não controla, é.
Porque o luto, eu acredito, Hamilton, que o luto a gente não supera, não é uma questão de superação. Eu olho o luto como algo que a gente aprende a carregar de um jeito diferente. Então, assim, ah, eu superei. Não, aprendi a carregar de uma forma diferente, eu aprendi a viver de uma maneira diferente, porque é esse diferente.
porque nada vai ser igual como era antes, porque a pessoa já não tá mais ali. Sim. Não sei como as pessoas olham pra isso, pra essa superação, mas pra mim é isso, não é um processo de superação.
E também, é assim, é muito bom você trazer isso também, porque, vamos lembrar, né, em outros episódios também a gente acabou comentando um pouco sobre isso. Na sociedade de hoje não tem tanto espaço para o sofrimento, então parece que tem uma cobrança para que a gente supere a perda de alguém que era muito significativa na nossa vida, e como que a gente pode usar uma palavra tão... que nesse contexto acaba sendo tão fria, de superar, superar uma pessoa que para a gente era muito importante. Não, então é um processo que no final a gente vive uma aceitação.
Uma adaptação do que aconteceu. A gente começa a se reerguer, a reconstruir a nossa vida, a colocar aquela pessoa que se foi num novo lugar dentro do nosso mundo, que não vai ser a mesma coisa, só que a gente nunca vai esquecer. Sabe? Igual, meu avô, hoje, a gente tá gravando o episódio hoje, dia 1º de maio. No dia 1º de maio de 2019, foi o dia que tava enterrando meu avô. Porque no dia 30 de abril que ele faleceu.
E hoje é um dia que eu tô lembrando, sabe assim, me falando de um assunto como esse. E claro, só que hoje não tô mais com a dor de antes. Só que querendo ou não, acabo lembrando de como é que foi esse dia, das coisas que a gente viveu juntos, me lembro do processo de adoecimento dele, como é que foi tão triste acompanhar, porque eu lembro que ele era uma pessoa que gostava muito de tomar água.
Tanto que eu aprendi com ele. Tô sempre com meu copinho de água. Ele vai ficar cuidando dos meus rins. Porque ele tinha um cuidado com o meu dele. Um brinde ao seu avô por isso, né? Porque a água, ela é essencial à nossa vida.
exatamente, e eu lembro que no final, ele não podia tomar água, e como que ele tinha que fazer, era molhar tipo um algodão, pra pôr na boca pra molhar, que ele não podia tomar água, olha como que era, né, então assim, eu acabo lembrando, e era muito triste, só que ao mesmo tempo eu relembro de momentos muito felizes, o quanto que ele era uma pessoa alegre, divertida, autoastral, que fazia piada com tudo, não tava nem aí, então assim.
Sabe? É isso, assim, a gente vai colocando aquela pessoa no novo lugar na nossa vida, a gente não supera, eventualmente bate aquela coisa de, nossa, que pena que aconteceu, era pra ele estar aqui. Mas, assim, ao mesmo tempo é aquela coisa de que, é, aconteceu, então agora tenho que viver da melhor forma que eu puder, honrando a história dele e a memória dele. É isso mesmo, porque o luto não tem um manual, assim como a vida não tem um manual.
mas existem os caminhos que possa e que pode nos ajudar, que é isso, é esse diferente, né? Porque a gente passa a viver de uma maneira diferente, que é isso. Eu permiti sentir, não tentar acelerar o processo, falar sobre a pessoa, sobre a perda. Eu sei que no início, às vezes, as pessoas não querem falar, porque é um lugar que dói, né? Mas manter vínculos com as pessoas que são próximas.
Buscar por rede de apoio, porque isso também é importante. As redes de apoio, elas são essenciais, mas... Essencial assim, ó. Imagina que você está passando por esse processo de luto, você precisa da pessoa, mas a pessoa, ela vem nesse lugar da ansiedade, que ela quer tirar a sua dor, que ela quer ajudar, que ela quer resolver a sua vida. Você que está vivendo luto, você pode falar para ela também, olha, você pode só ficar do meu lado, assim, em silêncio um pouquinho, assim, eu só queria a sua companhia.
Porque até isso a gente tem dificuldade de verbalizar. E o quanto é importante a gente aprender a buscar esse lugar. Porque muitas vezes as pessoas falam assim, nossa, mas será que agora eu vou ter que fazer terapia porque eu estou em luto? Não é que esse seja o processo, né? Não é que a gente precisa fazer terapia para cuidar disso. Porque a gente precisa permitir, a gente precisa sentir.
Quando o Milton falou lá no início sobre essa questão, né, que muitas vezes acaba colocando como uma questão patológica, dentro da TCC, o que a gente sempre comenta, fala e a gente estuda é que até dois anos é um luto permitido, a gente vai viver.
os momentos altos, os momentos baixos, que é o momento que está bem outro, sentir que parece que regrediu tudo. Só que quando você percebe que isso está te levando para um caminho mais dolorido, mais difícil, que você está deixando de viver, de fazer as suas coisas, de ter vontade de fazer o que é da sua rotina, do seu cotidiano, o que a vida começa a perder a cor, o brilho, aí acho que é um...
É essa questão do alerta de você pensar, talvez aqui eu precise de um profissional para me ajudar. Sim, sim. Eu concordo com você, porque às vezes, né, existe nessa coisa, vou chamar de luto complicado.
nesse luto complicado às vezes, o que acontece é que a pessoa não consegue entrar nesse momento de reestruturação da própria vida, ela está muito presa ao que aconteceu, a figura da pessoa que se foi, e daí pra ela é muito difícil se libertar disso, e são alguns indícios de que talvez ela esteja vivendo um processo complicado realmente, que precisa do suporte, de um acompanhamento de alguém
A gente sempre precisa estar muito atento a nós, olhar para dentro, respeitar o nosso momento, se dar conta de que o luto é uma experiência inevitável diante de perdas significativas, só que estar consciente também, está muito difícil para mim, eu não estou conseguindo dar continuidade para a minha história, não estou conseguindo ver possibilidades de continuar.
Aí vale a pena realmente olhar pra isso. E eu diria que eu nem esperaria a questão dos dois anos. E eu sei que isso na literatura é um consenso realmente. A gente aguarda esses dois anos e tal. Mas se antes desses dois anos a pessoa tá sentindo uma angústia muito profunda, muito dolorosa, sabe aquela coisa sufocante?
Talvez seja o momento também de pedir, né, de ir em busca de um apoio, de um suporte, de uma ajuda profissional, pra poder acompanhar nesse momento também. Mas tem a questão, sim, desses dois anos, que são muito, é muito, é que é o luto, né, uma coisa complicada de, como você falou, não tem um manual, né, não tem, ó, viva dessa forma, é assim, não é assim.
Cada pessoa tem que estar atenta à sua própria experiência. Eu acho que cada um é o melhor termômetro que tem para si mesmo, sabe? De olhar para dentro e se dar conta. Está sendo insuportável? Então, vou buscar ajuda. Estou de boa? Estou conseguindo levar? Então, vai levando, experienciando esse momento da vida. Experenciando? É, porque não tem mesmo o manual. Por mais que a gente queira, não tenha, né? Não é linear, nem a nossa própria vida, como eu falei, é. Mas a gente precisa olhar...
E eu acredito que seja um pouco da reflexão que todas as pessoas possam fazer nesse momento em que vive ou está vivendo luto.
não nesse processo inicial, mas depois, é sobre o que ele transforma. Porque querendo ou não transforma, Milton, a gente aprende a ressignificar as nossas prioridades, a maneira como a gente olha para a vida e aquilo que a gente quer viver. Acho que, querendo ou não, aprofunda algumas relações, porque a gente fala assim, nossa, eu gosto tanto do fulano, eu não convivo, eu...
Tenho deixado tanto de viver isso. Então são essas reflexões. Então querendo ou não, por mais que seja dolorido, isso também traz muitas reflexões. Acredito como tudo na vida que a gente passa, nas maiores dificuldades, porque acredito que na alegria ninguém pensa, ninguém me refletia isso. Mas é no momento de dor, no momento de perdas mesmo que...
a gente faz essas transformações, a gente faz essas reflexões, porque o luto não vai diminuir o amor nunca de quem partiu, mas ele vai revelar ainda mais o tamanho do amor que a gente tinha por essa pessoa, e talvez a pessoa que tinha significado que quando eu falo sobre essas relações profundas, a gente vai querer ficar mais perto daquela pessoa, porque aquela pessoa nos faz lembrar algo que o outro tinha.
É, o luto pode ser uma oportunidade para a gente criar coisas novas. Tem um relato nesse livro, Perdas Necessárias, olha que interessante. É de um pastor que perdeu o filho dele muito pequeno, porque o filho dele tinha uma doença, que ele envelhecia de forma mais rápida que as outras. Então, quando ele chegou na adolescência, é como se ele já estivesse na idade idosa, sabe? Então, ele morreu bem cedo. E olha só o relato dele, do pai desse menino, né? Sou uma pessoa mais sensível.
Um melhor pastor, um conselheiro mais compreensivo por causa da vida e morte do Aaron, do que poderia jamais ser se ele não tivesse existido. E eu devolveria imediatamente tudo isso que ganhei se pudesse ter meu filho vivo outra vez. Se pudesse escolher, eu desistiria de todo o crescimento espiritual e profundeza de sentimento que ganhei através de nossa experiência.
Para ser o que era há 15 anos. Um rabino comum, um conselheiro indiferente, ajudando alguns e incapaz de ajudar outros. E pai de um garoto feliz e inteligente. Mas não posso escolher. E como ele não pode escolher, então ele vive. Esse pastor melhor que ele conseguiu se tornar, essa pessoa mais sensível que ele conseguiu se transformar.
que conseguia ajudar muito mais do que ele ajudava antes. Então a experiência que ele... Porque perceba o que ele colocou aqui. Ele não colocou só a questão da morte. Ele colocou a questão da vida. Ele não desconsiderou a vida do filho dele. A morte foi uma parte. E a morte, ela não pode suprimir.
todo o restante, tudo que foi vivido antes, tudo que foi aprendido antes. Não. Então esse processo de luto pode ser também um convite pra gente olhar pras coisas que a gente conquistou com aquela pessoa, as coisas que a gente aprendeu com ela, e as coisas que a partir disso, da oportunidade que tivemos de tê-la na nossa vida, poderemos construir a partir daqui. Ele reconheceu que ele não pode escolher...
mudar o que aconteceu, mas ele pode escolher como se posicionar daqui em diante. E ele quer colocar em prática todo o aprendizado que essa experiência lhe trouxe. Acho que esse é um convite para todos nós que passamos por uma experiência como essa. O que ela pode nos ensinar? Claro, talvez no primeiro momento a gente não consiga pensar nisso. Mas depois de um tempo, ressignificando o que foi vivido, talvez a gente consiga encontrar essa resposta. O que a vida requer de nós a partir daqui.
O que a vida exatamente requer de nós? O que eu posso fazer? Como eu posso viver da melhor forma? E a gente vai entendendo que não é nem para o outro, é para a gente mesmo, né? Porque reconstruir não precisa ser um processo solitário. Pode vir com as terapias, pode vir com vínculos, pode vir com esse espaço que a gente fala que é o espaço seguro. Seja de um familiar, de um amigo, que, né?
tem uma história pra contar, ou até mesmo da própria família. Porque vem muito essa questão também de uma culpa, né, Milton? Acho que a gente não falou sobre isso, às vezes até da culpa, né, de estar esquecendo, de estar deixando de pensar, de lembrar na pessoa. E não é, a gente pensa exatamente de como eu posso ressignificar isso, porque a pessoa vai estar presente. Assim como o Milton falou que hoje ele percebe muito do avô em coisas que ele faz, claro que nem tudo vai ser consciente.
Mas em alguns momentos ele vem a lembrar quando ele começa a falar sobre o avô, contar uma história. E é exatamente isso que a gente vive. A gente vive a história dessas pessoas ressignificando aquilo de quem ela foi, de quem ela era. Porque a gente não vai contar as coisas tristes dessa pessoa, a gente vai contar a parte melhor que ela tem. Exatamente. Não é assim que acontece?
Sim, sim. E sobre essa questão do luto que a gente está conversando, eu acho que também é muito importante a gente trazer sobre como que nós lidamos com as crianças. Como que a gente as inclui.
na vivência dessa experiência, porque também existe uma certa ideia de que a gente não tem que falar sobre isso com uma criança, porque não, vamos poupá-lo, mas não. Inclusive, nesse livro, a autora traz o quanto que é importante trazer um apoio para essa criança vivenciar a experiência do luto, principalmente quando se trata do luto por um pai, por uma mãe.
Porque numa idade muito precoce, essa experiência de perder um cuidador pode trazer efeitos ao longo da vida. A autora coloca aqui, como que a gente pode cuidar dessa criança? Primeiro que seria muito interessante nós termos o cuidado de nutrir bons relacionamentos com as crianças desde o começo da vida delas, porque isso, numa situação de perda, vai servir como um fator de proteção.
Só que, para além disso, a autora coloca aqui a informação imediata e exata sobre a morte. Ou seja, é claro, a gente vai lapidar as nossas palavras, a gente vai tomar cuidado com a forma como a gente vai trazer esse assunto para a criança. Porque, vamos lembrar, ela é uma criança.
Não vou falar com ela como eu falaria, tipo assim. Mas a gente vai conversar com ela sobre o que está acontecendo e vamos incluí-la. E por fim, o encorajamento para compartilhar a dor da família. Então é compartilhar mesmo, assim. A gente está sofrendo e imaginamos que você também esteja.
Se precisar conversar, nós estamos aqui. Dar esse espaço para as crianças, para os adolescentes também, muito importante. Mas oferecer esse espaço, mostrar que podem conversar sobre isso e que nós vamos ouvir, que não é um tabu, que não é um assunto que não pode ser compartilhado, que não pode ser lido. Não, é oferecer essa escuta e a companhia. Estar junto. Para as crianças isso é muito importante.
O que você fala é verdade, porque quanto mais a gente não fala sobre esse assunto dentro de casa, não é que seja um, ah, eu preciso falar isso de uma forma recorrente, não. Mas quando a gente traz alguns assuntos, como exatamente o momento falou, de colocar, ah, isso é um tabu, ou eu não vou falar, eu não sei falar, é procurar, então, por um profissional que possa te orientar em como você possa conversar. Porque, gente, muitas vezes as pessoas acham que procurar por um profissional, por um psicólogo,
para fazer só terapia, mas a gente tem dentro da psicologia algo que se chama aconselhamento. E nesse processo, a gente consegue, então, ajudar essa família, ou essa mãe, ou esse pai, a trazer esses assuntos para ser abordado dentro de casa, ou no momento do luto, exatamente da perda da mãe ou do pai, que você possa conversar com teu filho, trazer isso, e não fingir que nada aconteceu.
porque tem aquela coisa de que, assim, vai passar. Então, eu não vou ficar falando para essa criança não ficar, sabe, alimentando isso, ou não saber, ou mentir. Porque eu vejo, eu já vi, e acredito que ainda possa acontecer em algumas famílias, essa questão de não deixar a criança participar de nada, de nenhum processo. E aí, a pessoa virou uma estrelinha. Como que essa pessoa virou uma estrela? É lúdico.
É, mas não é funcional. Porque ela também tá vivendo uma dor de algo de uma pessoa que nunca mais ela vai ter na vida dela. Então tá, virou essa estrela, mas virou essa estrela como? Da onde? Como que ela chegou a virar essa estrela? Ah, ela tá dormindo. Tá, mas ela vai acordar alguma hora? Né? Tá dormindo pra sempre, mas o que é dormir pra sempre? Tem criança que tem trauma de não conseguir dormir. Então é como eu consigo falar isso? O Hamilton tá aqui.
balançando a cabeça, porque a gente, é assim, como profissional, a gente escuta essas histórias, assim, então, é dolorido, porque depois, quando chega na fase adulta, a criança, o adulto, né, que era a criança, não sabe lidar com essas questões.
E tem problemas, às vezes, até mesmo na questão de dormir, porque é isso. Nossa, se eu dormir, então eu vou morrer. Nunca mais vou voltar. É verdade, né? Às vezes até é uma coisa que vira inconsciente, assim. Você falou, pode ser lúdico, mas não é nem um pouco funcional. E às vezes esse adulto, né, chega e não consegue lidar com a morte. Tem muita dificuldade de falar desse assunto, de pensar nisso. E a gente deveria poder pensar no assunto, porque é uma coisa que faz parte da vida. Não tem como. E, assim, falar sobre isso até nos prepararia pra esse momento.
Só que se a gente lá pequenininho acaba aprendendo que é um tabu, que existe toda uma coisa ruim quando a gente tenta falar sobre isso, o quanto que é velado, escondido, nossa, então a gente cresce com essa crença de que não vamos olhar para isso, não vamos discutir isso. Então muita dificuldade que a gente tem hoje...
de lidar com a morte, com a finitude, com os desdobramentos que isso tem, é porque lá atrás nós não fomos de forma saudável acolhidos nesse processo. A palavra que você usou, essa expressão, acho que tem que ficar marcada assim. Pode ser lúdico, mas não é funcional. E não é mesmo. Não é. Então é isso. Então assim, a questão da psicologia não é só para terapia, é exatamente para esse aconselhamento.
Como eu converso? Como eu falo? O que eu respondo? Porque o medo, às vezes, de conversar é do que eu vou responder se a criança me perguntar X ou Y. Sim. Então, é ter essa abertura, a maneira como eu posso conversar e posso falar. Porque as mentiras que a gente conta, elas são, depois, na vida adulta, complicadas para lidar, trazendo mesmo como um trauma. Então, a gente precisa quebrar esse tabu.
interno de que a criança... Eu sei que existe uma questão de proteção, né? Ah, eu vou proteger. Mas ninguém fica, de fato, protegido de dor.
Sim. E a proteção em excesso acaba sendo pior do que outra coisa. Porque se você protege demais, aquela criança, no caso, ela não desenvolve estrutura pra lidar com as dores que você acabou de mencionar, que são inevitáveis. Então, assim, é claro, o acompanhar já é uma forma de proteger.
Agora, impedir, blindar a criança de sentir algo não é proteger. Nós estamos oferecendo para ela um desserviço, porque nós estamos tirando dela o direito de aprender a lidar com os desconfortos da vida, criar estrutura para isso. E quando eu falo sobre criar estrutura, é tanto interna quanto externa. É ter o reconhecimento de que no momento de aflição, de angústia, de dor, de pesar, eu posso compartilhar isso com outras pessoas, que também é um recurso possível. Percebe? Então assim...
proteger demais não é o caminho mais saudável. E, de novo, depois quando a gente chega na vida adulta, quantas pessoas vêm com inabilidades na vida, às vezes não sabem o básico, porque não foram ensinadas. E daí a terapia é clara, é um espaço para poder aprender isso. Mas será que não poderia ter aprendido antes? Será que não teria sido poupada de tantos outros sofrimentos por conta dessa proteção em excesso, que acabou deixando ela mais vulnerável para essas coisas? Então são coisas que valem a pena a gente pensar. Faz sentido.
É, exatamente. Aprender a quebrar esse tabu. Esses assuntos que a gente acha que não pode... Ai, não vamos falar sobre isso porque é pesado demais. Ai, não precisa ser falado, mas todo mundo vai passar. Nós não estamos protegidos da dor, da perda de ninguém.
quando a gente fez o estágio do luto ficou claro o quanto que as pessoas sentem falta de ter espaços pra poder conversar sobre isso e eu acho que uma das coisas que facilitou esse falar sobre a morte é porque nós estávamos em grupo
Tanto em questão de profissionais, na época estagiários, né? Só que tinha eu, tinha você, tinha mais algumas pessoas que estávamos em formação. Então a gente podia se apoiar. Só que também tinham os participantes do grupo que vieram em busca de um espaço mesmo pra isso. E eles compartilhavam as histórias ali e o que ficava claro.
Que aquela experiência não era tão individual assim. Que a dor não era uma coisa só minha, do tipo, nossa, eu tô sofrendo, por que eu tô sofrendo? Não, era uma... foi um momento que as pessoas puderam se identificar com isso. Tanto que você mencionou isso no começo do episódio. Mas o que acontece é que as pessoas conseguem entender que, opa, peraí, é uma experiência que todos vivemos e que podemos compartilhar.
podemos falar sobre isso, eu acho que foi isso que foi tão brilhante naquela época do nosso estágio porque foi a permissão pra falar e a permissão pra sentir também as pessoas ali puderam se emocionar puderam compartilhar coisas então assim, vale a pena a gente ter esses espaços, imagina se a gente tivesse isso nas nossas famílias imagina se a gente pudesse conversar sobre isso com a pessoa que tá ali, talvez num processo de finitude, mas
Como conversar sobre como é que foi a nossa história? Como é que tá sendo pra ela se despedir? Saber que tá se despedindo? Eu sei que pode parecer meio mórbido, mas se a gente tem essa experiência, não é mórbido. A gente consegue entender. Tem muitas coisas que às vezes os não ditos são ditos. Assuntos que poderiam ficar inacabados. Podem ser resolvidos naquele momento. Por quê? Porque nós tivemos abertura pra encarar a realidade e enfrentá-la de peito aberto.
Agora, quantas pessoas que vivem aí com culpas, com arrependimentos, com situações que não foram encerradas, porque não tiveram a coragem de olhar para o que estava acontecendo e se permitir a conversar sobre aquele momento. Eu sei que não é fácil, sei que isso exige da gente uma dose de coragem, de força, mas a gente vai construindo isso. E a gente não precisa passar por isso sozinho também.
Não precisa. E você foi falando, eu fui me reconhecendo em algumas questões, assim, né? Vou contar uma historinha. Esse estágio que nós estamos mencionando, para mim seria um dos piores, assim, mais difíceis. Um dos mais difíceis para mim que era sobre luto. Por quê? Querendo ou não, dentro da minha família sempre foi uma questão de ter um tabu mesmo para falar sobre. Então, cada um sentia de uma forma individual.
Eu perdi meu pai muito cedo, perdi meu pai aos dois anos de idade, estava quase para completar três, e o meu irmão tinha cinco anos. E a minha mãe, ela não sabia, não sei nem se era um tabu, mas ela não sabia lidar com aquilo mesmo. O meu irmão teve uma série de problemas com a questão de ter vivido o luto, porque ele viu o acidente na época que aconteceu do meu pai.
E ele ficou um tempo sem falar, ele perdeu a fala, ele iria voltar a falar, mas ele precisava novamente viver, segundo a psicóloga na época, viver um novo trauma, ou algo que impactasse para que essa voz voltasse novamente a sair, ele voltasse a falar. E eu ainda era muito pequenininha, com dois para quase três anos, talvez assim, para minha mãe eu não tivesse sentido nada, porque com dois anos, três anos, quem é essa criança?
para falar de sentimento de emoções, não é? Ainda parece naquela época, né, que a gente tinha tanto conhecimento. É isso, exatamente. Então, claro que a gente também, né, a gente está falando sobre tabu, mas é claro que a gente entende que também, às vezes, falta um pouco desse conhecimento, sim. Porque nós não somos obrigados a saber de tudo, mas nós podemos procurar a partir do momento que a gente tem um conhecimento.
Então, para mim, sempre foi uma questão muito reservada em sentimento de sentir, ou de falar sobre o luto, sobre, né, ai, eu perdi alguém, e ficar falando, fomentando isso na família. Então, quando chegou esse desafio sobre esse estágio, eu falava, eu verbalizava, eu falava assim, eu não vou conseguir, nossa, vai ser um desafio, e foi um dos estágios mais lindos da minha vida, porque eu realmente, assim, vivi, eu me permitia viver esse estágio, estar lá.
e entender que aquilo fazia parte da vida, e que precisava ser falado. Então, eu ressignifiquei isso ali naquele momento, trouxe para a minha vida essa questão de poder falar, de sentir, de comentar com a minha mãe, de conversar com ela sobre isso, até mesmo com a minha própria filha. Então, eu falo que foi uma experiência de vida que valeu muito ter passado por isso.
para poder exatamente entender o meu lugar de fala, até mesmo na escolha do que eu quero no meu fim, na minha finitude, na minha vida. Eu não sei se eu vou chegar a ficar em um... A gente não sabe do nosso final como vai ser, mas é de pensar o que eu, Thaís, quero. Eu quero ser enterrada, eu quero ser creme. O que eu quero, de fato? E são coisas que a gente não pensa, porque a gente só pensa viver. Mas a gente não vai só viver um dia, vai chegar o nosso fim. Então é...
até acalmar essa questão de que eu sei que é um lugar dolorido. Eu estou dizendo isso, eu sei que não é um lugar fácil, tá, gente? Não estou dizendo assim, nossa, parece fácil isso que a Thais está falando. Não, não é. Mas quando a gente aprende a ressignificar isso, a gente aprende a viver de uma maneira diferente. Porque a gente vai entendendo, de fato, o que a gente quer para a nossa vida.
A gente aprende. Não tem como. É um aprendizado que a gente vai tendo. É um aprendizado. É isso. A vida é um aprendizado. Exatamente. Bom, eu acho que estamos nos encaminhando para o nosso final. Senão esse episódio vai ser de duas horas mais.
A gente pode voltar em outros momentos para falar sobre isso, mas tem uma coisa que eu gostaria de compartilhar, que tem a ver com o episódio anterior. Primeiro, agradecer a Glória, psicóloga, que deixou alguns comentários lá, nos parabenizando pelo conteúdo. A gente fica muito feliz pela sua companhia, viu, Glória? É isso mesmo, a Glória tem um lugar cativo no nosso coração também.
Exato. E daí, a minha tia, a Cris, que também é a presidente do fã-clube. É isso aí, Cris.
Ela também, ela tentou comentar lá no Spotify, mas como ficou um pouco grande o que ela ia comentar, então o Spotify não permitiu, por conta do número de caracteres. Então ela mandou pra mim, né, um pequeno depoimento e autorizou que a gente compartilhasse aqui no Insight. Ela falou em relação àquele episódio sobre fim da vida, né, sobre as perdas. Ela comentou que o conteúdo foi muito especial, porque nesse mês completa sete anos, que o maior amor da vida dela foi morar no céu.
E que ele faria 78 anos se estivesse conosco. E que o aniversário dele seria no dia 25. Que é o meu avô, né? O pai dela.
E ela comentou que reviviu muitas coisas, ouvindo aquele conteúdo, comentou sobre morar em Taubaté, então que ela sempre se cobrava por estar presente com a família dela, né? Por estar presente e pela ausência, de repente, por conta da distância. Porque tem uma coisa que acontece, né? Que a vida da gente nos leva pra lugares diferentes, faz parte, não tem como. Às vezes a gente não consegue evitar isso. E daí ela colocou aqui que com a enfermidade do pai, que é meu avô, né?
que era irreversível sobre a questão da cura então ela não pensou duas vezes ela largou tudo e viveu os 16 dias que ela pôde com ele no hospital e ela colocou que foram os dias mais bem vividos com ele, que ela se dedicou exclusivamente a ele isso é muito interessante, né? porque, enfim às vezes a gente acaba se emocionando um pouco também eu tô tô aqui com o lixinho de lágrimas e aí
Ai, Cris, você tá fazendo eu e o Hamilton. Então, né? Aí ela colocou que se dedicou a ele exclusivamente, em ouvir tudo que ele tinha pra dizer, em rir e chorar juntos, né? Esses dias foram únicos. E ele comemorou o aniversário dele dentro do hospital, onde seria o último dele, sem que a gente pudesse ter tanta certeza assim.
O nosso irmão, meu tio, levou bolo, salgadinho, refrigerante e fez a felicidade dele. Lembra que a gente comentou sobre, às vezes, comemorar o aniversário do hospital? Sem sabermos que tão em breve, no dia 30 de abril, ele partiria.
Mas trago no meu coração sua presença sempre viva. Parabéns, Hamilton e Thaís. Vocês abordam os temas de uma maneira muito especial, que sempre tocam o meu coração e me fazem refletir positivamente. Eu me lembro, ela comentando, acaba me lembrando um pouco sobre esse período, quanto que foi tão difícil, tão doloroso. Porque você viveu junto, né, Hamilton? Com ela isso, né? Tô aqui, gente.
Ai, Cris, a gente tocou o seu coração e hoje você tocou o meu. Sei que o momento faz parte dessa história, mas hoje foi eu que fui tocada por isso também. Sim, né? Então, é isso, assim, o que ela colocou aqui, né? Sobre aproveitar esses últimos momentos, poder comemorar a vida dele, de certa forma, que foi o último aniversário, mas eu sei que ele partiu sabendo o quanto que ele era amado e, de certa forma, honrado. Acho que isso é o mais importante. Exato.
a gente conseguir demonstrar o quanto a gente ama. Sim. E que foi o que vocês conseguiram. Isso é lindo. Sim. Então, gente, sobre esse episódio de hoje, somando com o episódio anterior, vivam a vida da melhor forma que vocês puderem com as pessoas que vocês têm apreço, que vocês amam. Porque um dia a gente não vai estar aqui, elas não estarão mais, o que restarão serão as memórias que a gente tiver a oportunidade de construir, as experiências que a gente compartilhar.
Então, às vezes, não se permitam levar, serem levados por pequenas coisas, por picuinhas, por brigas que poderiam ser evitadas. Se questionem quando estiverem num momento de desentendimento, será que precisa ter a proporção que está tendo? Porque, de repente, ao invés de todo o amor que poderia nos confortar, pode restar um arrependimento pelas oportunidades que perdemos, de estar juntos, construindo memórias felizes. Então, vivam a vida com sabedoria. Eu acho que a melhor forma de morrer bem é vivendo bem.
é exatamente isso, é vivendo o bem é a gente aprender a não ser tão orgulhoso e de repente reconhecer e se perdoar e pedir desculpa pro outro, porque a gente fica às vezes nesses questionamentos ai não vou, porque aqui tem que ser eu porque é sobre você não é sobre o outro e reconhecer isso, porque é exatamente a vida é sobre o que é agora é o que a gente consegue fazer nesse momento presente porque a gente não sabe qual é o dia
De amanhã, qual que é o próximo passo, qual é a próxima etapa. Por mais que a gente possa planejar uma vida, mas a gente não sabe qual é o ponto final dela. Então a gente tem que viver as reticências que a gente ainda tem antes de chegar nesse ponto final. Exato.
E é isso, aproveitando então esse momento, esse depoimento, as coisas que foram revividas, eu gostaria sim de dedicar esse episódio ao meu avô, onde quer que ele esteja, Egisto, Alberige, Neto. Sim, com certeza. Ele está sempre vivo dentro da gente. É isso, e vai permanecer vivo enquanto se permitir. Tem uma frase que eu gosto muito, que eu sempre falo, né? Ninguém morre enquanto permanece vivo o nosso coração.
Então essa é uma frase, uma vez, que me marcou muito. Eu li isso em algum lugar e foi exatamente dentro de um cemitério. Eu não lembro qual foi o momento de quem era a pessoa que estava ali no momento em que eu perdi.
Mas eu estava sentadinha e veio um papel. Eu sentei assim, não tinha nada, gente, não tinha nada. E quando eu olhei assim do lado tinha um papel, não sei se alguém colocou, enfim. E estava exatamente essa frase, assim, ninguém morre enquanto permanece vivo no nosso coração. Então é fazer com que essas pessoas amadas, queridas, elas exatamente sejam vivas nas nossas lembranças, no nosso coração.
E é isso, vivam bem. Cris, sinta-se abraçada aqui por mim, viu? É isso, finalizamos esse episódio aqui, eu chorona. Uma boa semana, obrigada, meu, por esse episódio. Porque, querendo ou não, é isso, né? São coisas que também vão mexer com a gente. É isso aí, obrigado, Thaís, obrigado a quem nos ouviu. Semana que vem, a gente continua por aqui. Isso aí, até a próxima semana.
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