5º Domingo da Páscoa - Ano A (2026)
Podcast disponibilizado todos os sábados no YouTube e todas as plataformas de áudios. Gravado por João Victor Nogueira, Fundador do Projeto Madre Teresa e Advogado, Autor do Livro “O que Acontece Verdadeiramente na Santa Missa” (Cultor de Livros, 2022), Mestre (UFCG), Graduado em Filosofia e Teologia.
Evangelho (Jo 14,1-12)
- Aleluia, Aleluia, Aleluia.
- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai senão por mim.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João.
-Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1 "Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. 2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, 3 e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. 4 E para onde eu vou, vós conheceis o caminho". 5 Tomé disse a Jesus: "Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" 6 Jesus respondeu: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. 7 Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes". 8 Disse Felipe: "Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!" 9 Jesus respondeu: "Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: 'Mostra-nos o Pai'? 10 Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. 11 Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. 12 Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai".
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
- Importância de não desistirAcalmar a agitação interior · Fé em Deus e em Jesus · A casa do Pai e as moradas · Falta de morada interior no homem moderno · Nomadismo existencial e comparação · Ansiedade no Brasil
- Tempo DivinoSignificado do tempo pascal · Retorno à Última Ceia em tempo pascal · Clima de despedida e tensão na Última Ceia
- Caminho, verdade e vidaAdesão a uma pessoa, não a uma ideia · A verdade com rosto e mãos · Encontro com Jesus como caminho
- Medo e Controle PsicológicoTomé e a honestidade na dúvida · Neurose de controle e planejamento estratégico · Dificuldade em suportar o mistério · Filipe e a histeria diante da angústia · Busca pelo milagre de balcão · Ver a grandeza de Deus no ordinário
Meus queridos irmãos, estamos caminhando pelo tempo pascal. Esse tempo tão luminoso da liturgia. 50 dias em que a igreja inteira vive na alegria do ressuscitado, como se o domingo de Páscoa...
se desdobrasse, semana após semana, em camadas tão profundas de significado. O evangelho de hoje mesmo nos transporta para um momento muito específico e, surpreendentemente, não é um momento posterior à ressurreição como nos evangelhos anteriores que ouvimos nos domingos passados.
Hoje a liturgia nos leva de volta à última ceia. É no mínimo intrigante que, em pleno tempo pascal, a igreja nos faça retornar ao cenáculo na quinta-feira à noite. Por favor, por favor, se coloque naquela ocasião. O clima ali não era de festa. O clima era de despedida, de tensão. Judas havia acabado de sair para trair o mestre.
O ar estava pesado. E é exatamente nesse cenário de angústia e de sombras que Jesus profere palavras que atravessam os séculos. Não se perturbe o vosso coração.
Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Interessante, minha gente, porque Jesus lê o ambiente. Ele percebe o medo. Se formos a língua original do Evangelho de João, o grego, a palavra usada para perturbe é tarasô.
que significa agitar, revolver, como se faz com a água de um mar revolto durante uma tempestade. Jesus está olhando para aqueles homens e vendo que o interior deles é um mar em fúria. Quantas vezes na nossa vida também nos sentimos assim?
agitados, temerosos diante do futuro, tentando desesperadamente controlar o incontrolável. Pois bem, e é exatamente aqui que ele diz, na casa de meu pai há muitas moradas. Vou preparar-vos um lugar. A palavra grega aqui para moradas é monai, que vem exatamente do verbo que significa permanecer, habitar.
Ou seja, Jesus não está falando de um condomínio fechado no céu com vários quartos, vários cômodos Ele está falando de um estado de comunhão Ele está dizendo, vocês terão um lugar permanente Atenção, permanente no coração de Deus
Por favor, vamos parar um pouco nisso, porque há no homem moderno uma falta de morada interior. A gente vive na era do nomadismo existencial, nós somos andarilhos. A gente passa a vida cruzando distâncias físicas e psíquicas, às vezes literalmente voando de uma ponta a outra do país.
emendando aeroportos, reuniões, demandas. Pulamos de afeto em afeto, de um feed de rede social para outro, de uma ansiedade a um novo projeto, sem nunca repousarmos em nada sólido, sem nunca nos mantermos naquilo que programamos. Somos inquilinos das nossas neuroses.
Sempre com a mala na mão, pronta para a gente fugir do silêncio, para a gente fugir de nós mesmos, para a gente fugir da monotonia que a vida em si tem. Existe na vida essa dimensão, minha gente.
Por isso a gente deveria, nesse mundo tão volátil, nos mantermos firmes nos propósitos que firmamos diante do Senhor. Há uma frase tão bonita de Dom Henrique. Não desiste no momento de treva aquilo que decidiste no momento de luz.
Ou seja, nos mantermos. Santo Agostinho deu uma frase tão linda. Nos fizeste para ti, Senhor. E inquieto está o nosso coração, até que repouse em ti. Reparem, ele não disse que o coração está triste.
Que o coração está perdido. Que o coração é pecador. Não, ele disse que está inquieto. É uma palavra, minha gente, cinética. Ou seja, que descreve movimento sem destino, energia sem repouso. Agostinho levou décadas vagando por filosofias, por seitas, por prazeres, por intelectualismos. E no final ele descobre que toda aquela errância não era fraqueza.
Na verdade, era o coração fazendo a única coisa que sabe fazer quando não encontrou ainda o seu verdadeiro lugar. Continua procurando. Procurando, buscando. Quantos de nós estamos assim? Não estão tristes?
Não estão depressivos, mas estão inquietos. Não tem paz, não repousa a paz em si. Hoje um problema tão sério, a comparação. A inquietude da comparação, você fica se comparando com os outros. Toda hora, a todo momento.
A Organização Mundial de Saúde, em 2025, disse que o Brasil é o país com o maior número de pessoas ansiosas no mundo. Atenção, quase 10% da população sofre algum transtorno de ansiedade. Ou seja, representa, minha gente, 18 milhões de brasileiros que vivem nessa situação. Que é um transtorno, que é uma doença, que precisa de acompanhamento médico. E por isso é preciso muita responsabilidade para falar disso.
Por isso, também que o evangelho de hoje cai como uma luva. Não se perturbe o vosso coração. Os estoicos dizem uma coisa interessante. Se você tem um problema, você deveria fazer a seguinte pergunta. Primeiro, isso está sob o meu controle?
Se a resposta para essa pergunta for sim, então você resolva. Haja, mude. Se a resposta for não, então aceite. Aceite, deixe ir. Pare de sofrer por antecedência. É o que na filosofia a gente chama de dicotomia do controle de apetito.
E é exatamente nesse ponto que o Evangelho nos surpreende e vai infinitamente além da frieza da sabedoria grega. Jesus não é um coach estoico lhe ensinando a tolerar o caos da vida com resignação, com aquela... Não é isso. Ele não diz apenas aceite, ele diz não se perturbe o vosso coração. E diz, tendes fé em Deus, tende fé em mim também.
O que o Senhor está dizendo aqui é formidável, minha gente. Ele te dá um lugar real para ancorar esse coração inquieto. Ele te dá um endereço. Não é para você aceitar e ficar no além dessa coisa abstrata. Ah, eu aceitei esse problema e agora... Não, não. Descanse em Deus. Acolha em Deus.
Viva nessa paz de saber que a sua vida, como diz as escrituras, está nas mãos de Deus. Aceite, mas aceite em Deus, sabendo que você tem onde repousar. Interessante porque, após ele dizer isso, aparecem duas personagens no Evangelho que somos nós.
O evangelho é implacável, viu minha gente? Implacável. Olhem bem. Aqui aparecem Tomé e Filipe. Primeiro levanta-se Tomé. E é preciso dizer o seguinte. Tomé tem uma virtude. Ele é honesto. Porque reparem bem na cena. Enquanto todos os outros estão quietos, tentando parecer que entenderam o que Jesus tinha dito. Tomé levanta a mão.
E naquele clima tenso, fala o que todos estavam pensando. Senhor, a gente não sabe para onde vai. Como é que a gente pode saber o caminho?
quase irritante na sua franqueza. Mas ela revela também a nossa neurose de controle. Tomé é aquele que, na correria do dia, precisa da jurisprudência pacificada da vida, do planejamento estratégico perfeito. Tomé que é as coordenadas exatas, a rota traçada no mapa, a planilha de riscos e danos.
E a ironia trágica da nossa modernidade é que nós rimos da incredulidade de Tomé para a gente passar a vida tentando prever o imprevisto. A gente fica apavorado com o que foge do nosso script. A gente vive num verdadeiro super endividamento existencial. Ou seja, a gente pega empréstimos de ansiedade do futuro para tentar pagar as inseguranças do presente.
Tomé nos mostra a nossa imensa dificuldade de suportar o mistério, de suportar o processo. E Jesus com uma paciência, meu Deus, com uma paciência, não saca um mapa do bolso.
Ele não nos dá uma tese acadêmica, uma regra moralista, um silogismo filosófico impecável. Não, ele responde com uma frase que atravessa os séculos. Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
E aqui está o ponto central, porque isso é muito forte. Apesar da gente escutar, de modo que essa frase até fica um pouco clichê, mas ela revela o cerne daquilo que Bento XVI nos recordava. O cristianismo não é, em sua essência, a adesão a uma grande ideia ética, ou a uma teoria, a uma filosofia. O cristianismo é um acontecimento. É o encontro com uma pessoa.
A verdade, minha gente, a verdade não é um conceito frio debatido numa tribuna. A verdade tem rosto, suor sangue, tem mãos calejadas e lava os pés de seus amigos. Se você está de mãos dadas com essa pessoa, você já está no caminho. Mesmo que a neblina não te deixe ver o próximo passo, mas você já está. Aí depois disso, vem Felipe.
E se Tomé representa a nossa neurose do controle, Felipe é a pura histeria. Ele diz, Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.
Pense comigo, minha gente. Filipe andou com Jesus por três anos. Ele viu a água virar vinho, ele viu os pães serem multiplicados, ele viu os mortos se levantarem. Mas na hora da angústia, do taraçou, da tempestade interior, ele pede um show pirotécnico. Filipe sofre.
daquela postura daquele cristão que diante de um marrevolto não quer aprender a navegar, que diante de um problema, de um sofrimento, não quer fazer daquilo um instrumento de santificação, de amadurecimento, mas ele quer que Deus mande um helicóptero de resgate, num passe de mágica, para salvá-lo daquela situação. Ele busca, Felipe é aquele que busca o milagre de balcão.
Como é difícil para nós, assim como para Filipe, ver a grandeza de Deus escondida no ordinário, na simplicidade do pão de cada dia, no suor do nosso trabalho, na beleza discreta do amor cotidiano. Por isso Jesus, com uma certa tristeza, uma certa decepção, responde Há tanto tempo eu estou aqui convosco e não me conheces, Filipe?
É uma frase que tem essa tristeza de Jesus. Que olha, meu Deus, há tanto tempo eu estou aqui com eles e eles não ainda entenderam. É impressionante como Deus age de forma tão encarnada. Tão vulnerável. Tão frágil.
Nós procuramos um Deus distante, minha gente. No fundo, a gente queria um Deus intocável, envolto em raios e trovões. E tropeçamos no Deus que se faz carpinteiro, que chora a morte de Lázaro e que nos convida para jantar. O que esse evangelho de hoje nos pede, minha gente?
Nós somos chamados a fazer essa semana um bonito exercício. Quando nos sentirmos perdidos, e todos nós nos sentimos em algum momento, em vez de buscar primeiras respostas nas redes sociais, na opinião dos outros, ou naquela voz ansiosa que fala dentro da nossa cabeça, a gente deve parar esse nomadismo, essa ansiedade, essa correria, e pensar como Teresa de Lisier, eu sou o que Deus pensa de mim.
É uma frase bonita, para a gente repetir todos os dias essa semana, para a gente gravar no coração. Eu sou o que Deus pensa de mim. Eita, minha gente, nessa frase há tanta cura, nós podemos ser curados por essa frase. Ah, mas o que vão pensar de mim? Eu sou apenas o que Deus pensa de mim. Ah, mas o que vão falar de mim?
Qual julgamento farão de mim e da minha família? Eu sou o que Deus pensa de mim. Veja, é tão profundo porque eu sou não o que eu penso de mim necessariamente. Porque às vezes o que eu penso de mim é errado. E em todos os casos o que eu penso de mim não é suficiente. Porque a gente não se conhece completamente. Agostinho diz isso. Tu mais íntimo de mim do que eu mesmo. Eu sou o que Deus pensa de mim.
É um exercício difícil, viu, minha gente? Duro, exigente, mas que cura. Cura como nenhum outro. Como nenhuma terapia, como nada pode curar. Eu sou o que Deus pensa de mim.
É preciso então que essa semana abandonemos as exigências de Tomé, a nossa necessidade adoecida de ter o controle de todos os nossos planos e processos. É preciso que abandonemos a miopia de Filipe, que nos cega para o milagre, que é o simples fato de encontrarmos o Senhor, de reconhecermos, minha gente, que somos...
infinitamente amados por ele meus irmãos quando a tempestade chegar não peçamos a Deus apenas para mudar o clima lá fora peçamos a graça de encontrar aquela monai que fala o evangelho de hoje aquela morada inviolável dentro de nós onde Cristo descansa
Que a Virgem Maria, a primeira e mais perfeita morada espiritual de Deus nesta terra, nos ensine a sublime arte de acolher o mistério sem tentar controlá-la. Que ela nos eduque a silenciar o ruído do mundo para ouvirmos a voz do seu Filho. Assim seja. Amém.
Meus irmãos, estamos caminhando neste tempo pascal. Vamos com ele até o dia 24, que será o domingo da descida do Espírito Santo, o domingo de Pentecostes. Eu gostaria de pedir a todos vocês que rezassem pelas intenções que trago em meu coração, de modo especial pela aquisição da nossa casa-série do Projeto Madre Teresa em Patos. Todos nós, membros do projeto, empenhemos-nos por rezar por essa intenção especificamente.
Aqueles que puderem façam jejum, ofereçamos ao Senhor sacrifícios por este bem para a evangelização e a salvação das almas. Estamos sempre juntos aqui no nosso podcast. Peço humildemente que você compartilhe, curta, comente, para que a palavra de Deus chegue a outras pessoas, sobretudo aquelas que necessitam ouvi-la. A todos vocês, um grande abraço, uma ótima semana e até o próximo episódio, se Deus quiser.