Podcast com Pâmela Ramos- Fresta 2026
Esse Podcast faz parte da programação da 5ª Edição do Fresta - Jornada Literária Apocalíptica. Neste episódio Kiara Terra recebe Pâmela Ramos , artista, educadora social, poeta, performer e produtora de projetos voltados às infâncias, com atuação na cultura afro-brasileira e na criação coletiva.
É criadora do Sarau Carol Líricas, no Litoral Norte de São Paulo, e co-criadora e coordenadora do Sarau Inverso. Atua como mestre de cerimônias e desenvolve oficinas de escrita e cadernos artesanais, com foco na literatura como ferramenta de expressão, memória e formação.
Kiara Terra
Pâmela Ramos
- Memória e NarrativasOficinas de escrita · Narrativa oral
- Literatura
- Saraus e ColetivosEspaços de expressão · Aquilombar-se
Em um passado recente, a pergunta era até quando? Permanecíamos vivos nas fissuras, nos espaços vazios, nas lacunas que habitavam as perguntas que alimentavam nossa espera. Movidos pelo desejo de escuta, vestíamos palavras e transformávamos a fresta num elo, numa rede de pertencimentos.
Depois, aos poucos, voltamos a respirar a plenos pulmões. Cantamos, escrevemos, encontramos quem esperava toda sorte de troca boa. Seguimos juntos, com a força redobrada, transformando saudades em poesia. Nossa busca passou a ser encontrar o ponto de ruptura e, diante dele, sem economia de afeto, recobrarmos a nossa integridade.
Existir junto fez mais sentido. Encontramos as histórias que nem sequer imaginávamos que existia. Ali a gente soube que a maior tecnologia que existe é a imaginação. Que somos florestas, somos cidades, somos rios inteiros. Que cada vez que meninas e meninos brasileiros aprendem a ler, seja com os olhos ou a ponta dos dedos, eles tomam seus destinos nas mãos. A cultura.
É a rede mais potente de um povo e o dia em que já não nos lembrarmos disso, teremos nos tornado um deserto débil de seguidores. Em 2026, a fresta completa cinco anos. Essa jornada que começou online, saiu das telas, se tornou híbrida, tendo a acessibilidade como premissa cada vez mais forte.
Serão 70 horas de programação intensa, trazendo uma celebração da leitura para além dos livros, do viver para além das telas e do sonhar para além do sonho. Bem-vindes à nossa fresta, que ela nos guia a quem somos e ao que realmente importa.
Gente, é com muito prazer que eu abro hoje esse podcast da Cia Apocalíptica no Fresta, no nosso quinto Fresta. E eu tenho a alegria de convidar para conversar com a gente a Pamela Ramos. Ela é artista, educadora social, poeta, performer, produtora de projetos voltados para as infâncias. E ela tem uma atuação muito importante na cultura afro-brasileira e na criação coletiva.
Ela criou um sarau chamado Carol Líricas, no litoral norte de São Paulo, e ela é co-criadora e coordenadora do sarau Inverso. Ela atua como mestre de cerimônias, desenvolve oficinas de escritas, cadernos artesanais, com foco em literatura, como ferramenta de expressão, memória e formação.
Ela realiza a contação de história em SESC para público infantil, integra literatura, oralidade, cultura popular. É com muita alegria que eu vou conversar com ela sobre um tema que me é muito caro, que são os griots do século XXI. Seja muito bem-vinda, Pâmela.
Oi, Kiara, boa tarde. O prazer é todo meu estar aqui. Obrigada pelo convite apocalíptica, fresta. Eu vou fazer a audiodescrição de mim para a gente começar, tá?
Combina? Eu sou uma mulher preta de pele retinta. No momento, eu estou usando tranças longas de cor castanha. Uso um piercing no nariz, ferradura. Estou usando uma camiseta preta com escrito protagonistas. E um macacrão sentada na frente do meu computador e falando com você.
Joia! Vou fazer a minha autodescrição também. Eu sou uma mulher branca, de pele bem clara, o cabelo bem preto. Uso quase sempre um batom vermelho, tenho 1,64m, mais ou menos. E gosto muito de roupa vermelha, quase sempre estou com roupa vermelha, hoje estou de preto. E acho que é isso.
Pâmela, me fala um pouquinho do seu trabalho, querendo. Eu li algumas coisas que são as mais importantes, mas me conta um pouco da sua história, como é que você chegou na literatura, como é que você chegou na contação de histórias. Me conta um pouquinho da sua trajetória.
Sim. Cara, tudo começou em 2014, aqui em São José do Rio Preto, tinha um sarau chamado Sarau Urbano. E um dia eu fui, conheci a primeira vez, depois voltei, escrevi alguma coisa e senti que naquele lugar era um lugar seguro pra eu falar sobre as coisas que eu escrevia. E a partir daí eu nunca mais parei.
Depois do sarau urbano, eu fui viajar como artista de rua independente. Fiz um fanzine, chamar Ei Mulher, teve só a primeira edição. E esse fanzine eu viajei por mais de 100 cidades. Eu tenho muito orgulho de falar sobre isso.
vendia ele no semáforo, vendia nas praças, porque um período foi o meu único sustento, vender poesia e contar histórias para as pessoas, né? Eu viajei por quase sete anos, de uma filha nesse período. Sim, durante esse período eu vou morar no litoral norte de São Paulo, conheço o sarau...
sarau suburbano, e depois eu recebo o convite para fazer o sarau na Casa das Carolinas. É uma casa, um consultório médico, na verdade, só que com ervas, as mulheres trabalhavam com ervas, elas prescreviam ervas para as doenças das pessoas. E aí esse coletivo me convidou para fazer esse sarau, era...
o bairro, exato, era um... Cara, como é que é o nome? Ele em Camburi.
No alto da cachoeira é muito simbólico esse lugar. E aí nós fizemos a luz de vela, foi muito legal, foi uma galera muito importante. O Brenalta estava lá, que é uma referência para mim de poesia, de poeta. Depois disso, retorno para São José do Rio Preto. Tenho toda uma história fora da arte, fora da literatura. Encontro as minhas amigas, Tati e Agnes, e a gente decide fazer um sarau.
Encontro a Tati no Sesc e falo pra ela, vamos fazer um sarau? Vamos fazer um sarau? Passou-se um ano, a gente se reencontrou e fizemos o sarau inverso. A primeira edição foi muito legal. Em junho agora a gente completa três anos de coletivo e de sarau. Sim. Hoje você mora em Rio Preto e trabalha com esse coletivo. Como chama o coletivo, Romelan?
O coletivo chama-se A Inverso. Começou com o sarau inverso. Certo. Você tem uma história muito bonita com os saraus. Foi um lugar que você disse que foi o primeiro lugar seguro onde você podia falar as suas coisas e tal. E esses espaços, os saraus, os coletivos, acho que há pouco tempo...
Eu conheci uma palavra que fez muito sentido para mim, que foi o aquilombar-se.
a ideia de um espaço de reencontro, um espaço de expressão. E eu queria que você falasse um pouco sobre o tamanho que esse sarau tem na vida de quem participa, na sua vida e nas cidades. Eu queria que você falasse um pouco sobre os sarau, porque tem muita gente que está aqui ouvindo a gente e que tem um conhecimento limitado sobre essas práticas.
Sim, é... O sarau tem esse viés de aclombamento mesmo, onde as pessoas podem se expressar, né? Eu já passei por vários sarais, inclusive saraus. Saraus ou sarais? Nossa, não faço ideia. Sarais ou saraus?
confirmando, o correto é saraus. Mas, enfim, qualquer uma das coisas. Se for um ou se for outro, a gente faz um neologismo e tem licença poética para isso. Manda ver. Aqui em Rio Preto, não só o sarau urbano, fez com que várias pessoas se descobrissem enquanto poetas. Também teve o sarau da Apocalíptica.
Aqui em Rio Preto mesmo, não tinha um lugar onde as pessoas se reuniam para falar sobre poesia. E aí, quando surge o Sarau Guano, é um mix de pessoas, de público. Tinha a Dona Ninfa, que tinha 80 anos, que era maravilhosa. Tinha crianças, tinha eu me descobrindo, tinha...
tinha MCs que iam lá recitar os seus raps em forma de poesia. Então, para eu, enquanto poeta, esse lugar seguro, esse espaço seguro, conforme eu disse, que foi, no meu caso, o primeiro sarau, me mostrou que... Como é que eu posso te explicar? Que...
Existem diversas formas da gente se expressar, mas a poesia é o que me deixou e que deixa muitas pessoas mais à vontade de falar o que quer, claro que com consciência, de se manifestar, de impor seus limites, de falar de saudade, de falar de amor. Então, eu me senti acolhida e me senti segura.
E eu acho que, para quem não conhece um sarau, eu recomendo ir. E no sarau não vai só pessoas recitar poesia, vai pessoas cantar, vai pessoas performar, fazer grafite. É muito amplo o sarau, né? É um encontro de artistas mesmo. Não precisa ser um artista profissional, precisa querer fazer arte, querer ser arte, ser poesia.
Dá para a gente dizer que é um palco aberto? É um palco aberto. É sim, é um lugar de manifesto. É um lugar onde as pessoas podem ser. Sim, sim. Isso é cada vez mais raro, né? Pamela, a gente tem esse lugar aí...
virtual, que fica todo mundo falando sozinho, né? Sem interlocução clara, sem olho no olho e faz uma falta tão grande, não só na nossa imaginação, na nossa capacidade poética, mas no nosso corpo também, né? Ver gente existindo de verdade, se transformando na nossa frente é muito bonito, é muito mobilizador.
Nós estamos na era digital, onde está todo mundo muito próximo, mas todo mundo muito distante, não tem essa troca de energia. É ver a pessoa nervosa para recitar, ou então chorando. Essa energia que só o presencial consegue nos dar esse afeto, essa troca verdadeira de sentidos, de sentimentos.
E acho que tem uma coisa muito bonita também, do coletivo, é que a gente, muito diferente, no sentido de cada um estar num momento, às vezes cada um tem uma idade, cada um tem uma história de vida, e de repente todo mundo se encontra ali, e o que importa é que as pessoas estão juntas, e estão olhando juntas para as questões, isso é de uma força muito grande, e aí eu queria entrar com você na conversa sobre os griots.
do século XXI, como é que você vê essa ideia dos griots, dos contadores de história contemporâneos, urbanos? Como é que é a sua visão, Pamela? Olha, é... Os griots eram os mais velhos responsáveis por guardar as...
as tradições e repassar isso na África. E agora, no século XXI, os griots contemporâneos somos nós aqui conversando. Como é que eu posso te dizer? Eu tenho uma grande referência de griot pra mim, que é o Taroba.
que a primeira vez que eu ouvi essa palavra foi dele, inclusive temos uma poesia, que eu falo para ele que eu sou a guardiã dessa poesia, que eu repasso para todas as pessoas. Então, os griots contemporâneos estão por toda parte, na música, na poesia, a gente tem a Conceição Evaristo, a gente tem o Emicida, que é um grande griot, que fala para muitas pessoas também.
Aí eu fiquei me perguntando quem são os griots do meu território, né? Foi quando eu lembrei do Taroba, foi quando eu lembrei de Ana, foi quando eu lembrei das pessoas que me incentivaram a ser poesia.
E eu acho que o papel, eu me sinto uma griô, inclusive, admiro todos os contadores de histórias, você é uma contadora de história também, então essa missão da gente passar para as crianças, para os adultos, para os mais velhos, enfim, para todas as histórias é uma...
É uma forma muito potente da gente preservar a nossa cultura, da gente repassar os nossos ensinamentos, o que a gente acredita enquanto verdade. Então eu vejo os griots como contemporâneos, como os artistas, performers, MCs, poetas, enfim, as pessoas que conversam, que repassam algum ensinamento de alguma forma.
Sim, isso que você disse é muito bonito, né? São os guardiões da palavra, os guardiões da história, os guardiões da poesia. E é muito forte, acho que no Brasil... A...
capacidade narrativa, capacidade de oralidade mesmo, de contar as histórias de boca. Isso tem uma força muito grande, que eu acho que é uma força que vem principalmente como herança do continente africano, que tem culturas tão fortes que são culturas orais, são menos da escrita e mais da oralidade, nas quais esse acordo da palavra é muito importante. Sabe, Pamela, eu conto histórias há bastante tempo.
E uma vez eu passei uma vergonha tão grande, tão grande, tão grande, tão grande. Uma menina lá de parelheiros, né, de um coletivo de uma biblioteca comunitária lá, a Adriele, falou assim pra mim, vou te contar uma história, você conhece? E me falou o nome de um país africano.
Eu falei, conheço onde eu fui? Eu falei, na África? Ela falou, não, meu bem, na África é pouco. Aonde? Em que? Em que lugar? Porque a África é um continente. E aí eu não sabia de onde era a história. E ela disse, então não tem problema. Eu vou te falar o nome de um lugar e uma história desse lugar para que você agora saiba.
Ela me contou uma história africana muito bonita, assim, do Zimbábue, e uma história que me marcou muito. E aí eu fico pensando o quanto a gente precisa dar nome, né, hoje, para de onde vem essa cultura, para a força que isso tem, para quem é que estava fazendo esse lugar do guardião da palavra há mais tempo.
de que continente vem, e o quanto é fundamental a gente dar nome para isso e conseguir dar o devido valor, que é gigantesco, na formação do que é ser brasileiro. Você me contando essa história também me lembrou de uma outra história. Olha nós fazendo... Vamos lá ver.
recentemente eu fui fazer uma formação com as crianças uma vivência com as crianças numa escola de colégio particular, aqui de São José do Rio Preto e foi muito legal eu tenho uma musiquinha que eu canto sempre, que é Fungaláfia
E aí eu cheguei lá contando, eu falei, vamos começar, eu vou ensinar para vocês uma saudação em Yorubá, que chama Fungalafia, e aí cantei, Fungalafia, Axé, Axé, e tem os movimentos.
E aí as crianças achando legal, põe a mão na boca, põe a mão no coração, passa a mão nos antebraços e aponta para o outro. E a tradução dessa música é E as professoras começaram a ficar com os olhos cheios de lágrimas. Sabe quando você olha? Toda vez que eu faço essa...
Canto essa musiquinha para iniciar alguma oficina, alguma coisa, as pessoas se emocionam muito, porque é muito verdadeiro, né? Quando a gente fala, eu não tenho cartas na manga, o meu coração está pronto para te receber, para te acolher. Também fiz uma outra oficina de encadernação, que falava sobre o descanso.
E essa oficina foi muito legal, muito legal mesmo. Tinha uma senhora, tinha uma psicóloga, tinha uma dona de casa. E aí comecei cantando fungaláfia, né? Pra dar uma descontraída. E falar sobre o descanso, sobre como nós, enquanto corpo negro, enquanto um corpo feminino, entende o descanso.
E uma das pessoas dessa oficina, uma senhora, pegou e falou assim, é engraçado, eu nunca parei para pensar que eu não descanso, eu estou o tempo todo fazendo alguma coisa, ou eu estou limpando a minha casa, ou eu estou cuidando do meu neto, ou eu estou...
o tempo todo eu estou servindo alguém e eu nunca estou descansando. E falar sobre isso, sobre o descansar, trouxe várias histórias para ela. Então, ela teve um momento griô dela de falar que ela não descansa, de como é a vida correria dela. Então, eu entendo os griôs contemporâneos como pessoas que relembram as suas histórias e repassam. Pode ser numa oficina, pode ser numa vivência, dia a dia.
Não sei se eu fugir um pouco. Não, não fugir não. É isso mesmo. Sabe quando você me disse isso? Me veio uma frase prontinha, assim. Acho que os griots hoje têm um papel de serem guardiões da palavra e das histórias, mas também de fazer uma coisa muito rara no nosso tempo, que é dar passagem às histórias que precisam ser contadas.
Tem um tipo de permissão que a gente dá quando a gente escuta o outro, quando a gente conta do nosso, que é como se a gente abrisse e falasse, ó, tá aberto para as histórias que precisam ser contadas. Pode trazer sua memória, né? Tem as histórias do público. Eu sempre tenho a sensação, Pâmela, que quando a gente conta uma história, a gente acorda as histórias que as pessoas viveram.
E que aí não vai dar jeito de contar sozinho. A gente vai ter que contar levando em consideração a memória, o corpo, a história daquela pessoa desde o começo. E é muito bonito você ser contadora de histórias e ter essa formação no saraus. Eu acho que os saraus são berços muito importantes de autores e contadores de histórias.
Sim. Nós estamos numa geração em que todo mundo quer falar muito, né? Todo mundo quer falar de si, das ideias, dos anseios, e pouca gente quer escutar. E o sarau é o espaço onde a gente consegue escutar, né? A gente pede minuto de silêncio. Tem vezes que a gente nem precisa pedir para o silêncio, porque as pessoas estão ali dispostas a te ouvir, né? Tem uma história também? Posso contar?
Todas que você quiser, Pâmela. Pode contar todas. Tá. Nós fizemos uma edição de sarau onde eu recitei uma... um reze yorubá.
E aí veio uma outra pessoa e recitou um rezo indígena. E uma outra pessoa falou uma outra coisa em outra língua. E a gente, dentro desse sarau, tivemos várias culturas presentes, várias línguas. E foi tão emocionante. Eu posso recitar esse rezo? Eu ia te pedir isso, por favor. Recita pra gente. Você faz podcast há muito tempo?
Esse podcast do Fresta, eu faço as entrevistas, mas eu faço bastante, desde a pandemia, vai que eu posso dizer que faço. E tem uma curiosidade, quando eu era criança, apareceu um gravador na minha casa com fita cassete. E a minha brincadeira preferida era ficar gravando a minha voz. Então eu contava histórias, fazia o entrevistado, o entrevistador, fazia a vinheta de abertura. Eu estava pirando na voz em gravar e tal. Quando eu fui fazer o podcast, eu falei, mas isso eu sei fazer, gente.
desde o penteeiro. Disso eu sei brincar, então faz tempo, faz muito tempo.
E você sabe que o celular pode ser o instrumento griot também, né? O gravador pode ser o instrumento griot, os podcasts também, né? Tudo que vira registro e partilha pode ser considerado como algo griot. E o legal do celular é que torna isso algo global, né? Que todo mundo pode ouvir, não fica num lixo, não fica só dentro da nossa bolha.
O provérbio Yorubá é assim, ó. A-je-je-wo, kanko, guibé e guibaliori. Com apenas uma mão não se pode levantar uma cabaça cheia a cabeça. Esse provérbio fala muito sobre a união, sobre a força. É essencial, né? A gente se unir.
É um provérbio que eu acredito que todo mundo tinha que repassar, né? E todo mundo tinha que ouvir, todo mundo tinha que refletir sobre ele, né? Sozinha a gente não vai em lugar nenhum. Eu, por exemplo, se estivesse aqui sozinha nesse bate-papo, não ia ser um bate-papo, né? Ia ser só reflexões. Então, sozinha a gente não chega em lugar nenhum.
Isso é uma força de resistência tão importante, né? Nesse mundo que prega que você tem que ser sozinho e que são só as suas boas ideias solitárias que vão fazer com que alguma coisa mude, né? Isso é tão forte, Pamela, assim. É tão contracorrente nesse mundo que a gente vive, né? De solidões.
de indivíduos tão sozinhos, que já estão sozinhos e se sentindo tristes desde a adolescência, agora, desde a infância. É tão importante a gente fortalecer essas redes, se perceber pertencendo a uma rede grande, assim. É uma... Acho que os griôs do século XXI têm uma tarefa que não é pequena, no sentido da importância dela, do tamanho. Você se sente uma griô?
Quando eu estou com as pessoas lá contando história com aquele monte de gente, eu tenho a sensação que sim. Alina, que ela tem uma força, tem uma potência bonita de estar diante do outro. Tem uma história que você gosta muito de contar. Tem uma história que você fala, essa história eu preciso contar para um monte de gente o tempo todo.
Ou uma que te marcou muito. Sabe que nesses... Eu conto já há muito tempo. Nesses anos todos, eu tenho a sensação que a gente vem no mundo pra contar só umas cinco histórias.
Sabe? Não são tantas. Eu conto muitas. O repertório é gigante porque eu conto há muito tempo. Mas eu acho que são poucas as histórias que vieram pra gente, pra gente exercer mesmo as histórias. Por isso que elas voltam. Eu tenho sim. Tem umas três que parecem que estão comigo desde sempre.
que levantam perguntas que me mobilizam até hoje, que tem uma ambiência, uma força. Você tem, Pamela, essas histórias? Ou essa história? Eu tenho uma poesia que é a sua griô dessa poesia. Posso recitar? Nossa, por favor, é um privilégio.
Essa poesia é um manifesto, na verdade, do Flávio Henrique dos Santos, chama Perfil Padronizado, é assim. O perfil da beleza padronizada é branco. O nariz tem que ser afinado, empinado igual do branco. Cabelo esticado igual do branco, costumes, tradições equiparadas com a do branco. E eu ouvi tudo isso e na sequência me deu branco.
Minha roupa falaram que é de macumbeiro e que o meu cabelo é sujo. Gingo minha capoeira no terreiro, das minhas raízes eu não fujo. Que a minha religião é feitiçaria, oração com tambores dizem que é tudo magia. Mas o grito da liberdade ecoa e eu cantarei forte na chuva ou na garoa. Ei, deixa eu ser do meu jeito.
Ei, deixa eu ser do meu jeito. Me respeita, porque eu vos respeito. Perfil padronizado do Flávio Henrique dos Santos. Eu amo, amo essa poesia. E eu...
Todo lugar que eu falo, eu preciso mostrar para essas pessoas que tem alguma coisa errada aqui, está faltando alguma coisa aqui. Padrão está errado, eu vou lá e recito. Um dos lugares foi num trabalho meu super formal, numa DDS, sabe essas reuniões que tem antes de começar o trabalho? Falei, ah, eu vou ler essa poesia aqui. Trabalhava com muitos homens.
E sempre tinha um que chamava de neguinho, de pretinho, essas brincadeiras no pejorativo. Depois que eu assisti essa poesia, mudou os olhares, mudou as falas. Ah, não. Foi muito legal. Ah, tá boa. A gente precisa dizer, né? Uhum. Quem é branco precisa ouvir. Eu tenho pensado muito, sabe, Pamela, sobre o quanto a presença de uma pessoa branca é violenta em si.
Ela é violenta. Se uma pessoa branca existe perto de uma pessoa preta, a presença dela já é violenta. A cor da pele, o que ela representa, a ancestralidade dela, já é em si violenta. Eu vivi um movimento no Brasil muito importante. Quando eu comecei a contar a história, não tinha muito, porque eu comecei em 98.
Nem existia muito como profissão, assim. E eu vi as vozes negras tomando espaço.
as vozes, e não só as vozes, mas a escolha das histórias, a que continente, e a que culturas, e a que palavras, e a que línguas, e a que texturas, e a que imagens essas histórias celebravam. Então, houve um levante muito grande da voz de mulheres e de homens pretos e as suas histórias.
Acho que é muito importante você trazer, muito importante aqui nesse podcast, que é um podcast do Fresta, que a Companhia Apocalíptica faz.
nesse festival já há cinco anos, e é um festival que quer muito visibilizar as culturas do interior de São Paulo, principalmente no noroeste paulista, em preta região. Essa fala é muito importante. E eu aqui, conversando com você, para quem está ouvindo esse podcast, não sai. A gente está aqui no computador, e a gente podia ficar só a voz, mas aí a gente escolheu fazer, abrir a câmera. E aí a gente está se vendo, e a gente está se vendo uma mulher preta e uma mulher branca.
E eu queria dizer para você que hoje eu tenho consciência que eu sou herdeira de uma série de privilégios.
dos meus antepassados e privilégios que foram conquistados e mantidos e são mantidos no Brasil a custa de muita dor da população preta. E o único papel que me sobra é o papel de te ouvir. Sim. Te ouvir e te abrir espaço.
Sabe o que acontece, Chiara? A gente vive numa disputa de narrativas, sabe? Uma disputa de narrativas. E aí, ser griot também, hoje, é uma disputa histórica, né? Porque quem conta a história? Como que conta a história? A partir de onde, né? A gente está num mundo que... Nossa história, nossa cultura preta foi apagada. Foram tantas memórias negras apagadas que ser griot, como eu me considero, é um ato político.
É uma forma de eu reivindicar os meus direitos, de fazer uma reparação histórica. E é muito pequenininho, perto das atrocidades que a gente sofreu e a gente vem vivendo. Recentemente, a ONU considerou o período de escravidão como o maior crime contra a humanidade.
Olha, demorou anos e ainda tem os países que mais explorou são os países que não concordaram com isso. Negaram. É uma aberração muito, muito, muito grande. Mas você diz que é pequeno. Eu queria dizer para você que não é pequeno, porque 51% das crianças brasileiras são pretas.
E a hora que elas te enxergam, te olham, elas falam, uau, então dá para a gente ter orgulho de quem é. Isso é de um tamanho imenso, assim, porque isso vai atingir o filho dela, o neto dela, o bisneto dela. Você navega para frente aí séculos de transformação muito profunda.
inclusive esse projeto que eu desenvolvo nas escolas, que chama Quintal Afro-Brasileiro nas Escolas, eu levo um pouquinho de tudo, um pouquinho de arte, um pouquinho de contação de história.
E é um pouquinho da dança, e é muito bonito ver os olhinhos das crianças olhando para mim, assim, falando, é possível, existe uma pessoa, você é de verdade, você está falando de coisas legais, é possível, sabe? Eu estive em uma escola em Mirasol, onde uma menininha, Sephora, inclusive foi a...
chama a gente, eu escrevi um livro que fala sobre esse projeto, de como que é, e a Séfora foi uma menininha que me encheu os olhos, e quando eu vi ela, quando a gente se olhou, ela me olhava com um olhar de tipo uau, quero ser como você, quero falar como você, aquele olhar de esperança, e nesse livro que ainda não foi publicado,
e um dia será, eu conto a história da minha cunhada, da minha ex-cunhada, a Rosângela Tula Ribeiro, que é professora do ensino fundamental aqui em São José do Rio Preto, tem um projeto muito lindo com as crianças, inclusive ela foi professora da minha filha, e ela me ensina muito, todos os dias.
Ontem mesmo, olha essa história, ontem mesmo, no final da última semana, os nossos filhos estudam no mesmo projeto. E a gente tem o hábito de trançar o cabelo deles na go. E a minha filha...
não sei por que motivos, olhou para a carta do Malik, olha o nome, e falou que o cabelo, que a testa dele era grande. Aí a Rô, com muita delicadeza, me ligou e falou, olha, nossos filhos estão tendo um atrituzinho aí, vamos conversar. E quando eu passei o telefone para a Pérola, ela falou que...
Ela falou com a pérola de uma forma tão linda que eu comecei a chorar. Ela falou assim, a gente já conversou sobre isso na escola, você não pode falar da imagem da pessoa. Se você acha que você não tem esse... Não sei, as palavras foram tão lindas que eu não estou conseguindo reproduzir agora. Mas ela quis dizer basicamente que a gente não tem o direito de falar do outro.
A partir do que a gente pensa. Se vai ferir a outra pessoa, então é melhor não falar. E foi muito bonito. E aí ela falou assim, a gente... Eu falei pra ela, eu queria ter tido essa conversa com os meus pais antes, sabe? Eu queria que os meus pais dialogassem com outros pais quando esses conflitos acontecessem sobre aparência, sobre textura de cabelo, sobre cor de pele. Então, é...
Nossa, e foi muito legal. E me impactou muito a forma que ela chegou até eu pra gente conversar, pra conversar com as crianças. Foi muito legal. Não sei porque eu lembrei disso agora. Não, porque tem... Os educadores são, talvez, os grioso há mais tempo, né? E que estão ali com quem está no comecinho da vida, né?
E que tem jeito muito delicado da gente conversar com as crianças antes dos estigmas, dos preconceitos se instalarem, assim, né? A gente vai ali no começo da vida, a gente consegue manter uma integridade que vem com elas, né? Que depois vai se perdendo. Você tem uma filha, Pâmela? Eu tenho uma filha que se chama Pérola. Certo. Minha doutora Pérola. Um quanto anos ela está hoje?
A Terua tem nove anos. Nove anos, tá no quarto ano. É uma menina muito especial, muito carinhosa. Tá conhecendo o mundo da forma mais bonita que pode possível, assim. É muito bem acolhida.
A professora de dança dela é uma querida, Carol Koff, que faz um trabalho muito legal de conscientização também. O Projeto Aquarela, eles fazem um trabalho muito legal de falar mesmo. A Lu Pequim, que é a coordenadora, eu trabalhei lá, fiz estágio.
E ela senta com as meninas e elas explicam sobre preconceito, explica sobre textura de cabelo, explica, sabe? Tem esse cuidado de explicar e de falar com as crianças de uma forma não julgando, não repreendendo, mas mostrando o porquê, com toda aquela delicadeza, que não é fácil falar com criança. Você, enquanto conta as histórias, sabe, né? O nosso público mais difícil são as crianças, se eles são sinceros.
É porque com eles só vai sobrar falar a verdade. Nenhuma outra estratégia vai dar certo. E aí, para falar a verdade, a gente tem que ser muito corajoso, né? Porque a gente vai ficando adulto e vai ficando muito cheio de amarra. Vai pensando, nossa, mas será como é que eu falo? Mas será como é que não sei o quê? Mas ali só vai funcionar olhando no olho e falando a verdade, né? Abrindo o coração. E aí a gente...
consultar a gente num lugar muito da delicadeza mesmo, assim, né? Eu acho que é legal. Sabe que eu conheço, nesse tempão todo, bastante contadores de história, mas os contadores de história que se encantam verdadeiramente pelas crianças e pelas suas histórias, são, para mim, os verdadeiros, os genuínos. Os contadores de história, raiz, assim, são esses que...
Você pode jogar eles numa escola que eles, sabe, vai dar bom.
que a coisa vai funcionar, né? Porque as crianças são... são perguntas ambulantes, né? São um monte de perguntas por segundo. E aí a gente precisa ser muito verdadeiro. Só vai sobrar ser verdadeiro, assim. E mesmo diante das histórias duras, difíceis e violentas, ser verdadeiro é o que a gente pode fazer por elas, e pela gente também, né?
E me conta hoje, assim, a sua área de atuação. Hoje você conta as histórias, faz as oficinas, os canais. Sim, hoje em dia eu trabalho no CAPS infantil.
Trabalho bem legal como arteterapia. Eu sou narradora de histórias, na verdade. Trabalho no CAPES infantil há um ano, com crianças de 4 a 18 anos. O motivo de eu estar no CAPES é por conta da contação de história mesmo. Foi um diferencial no meu currículo.
Também atuo como produtora cultural, coordenadora do Sarau Inverso, sou mestre de cerimônias também, né, já.
Aí, na Apocalíptica mesmo, tive a honra de conduzir o Sarau Urbano em uma das edições. E o meu trabalho é mais voltado para literatura. É difícil falar da gente, né? Nossa, é dificílimo, Pamela. É dificílimo. Olha, é um aprendizado que você nem imagina. Eu tenho pensado muito sobre isso. É muito difícil, porque o negócio é que a gente muda.
Aí a gente fala da gente, mas a gente está em plena transformação. E quando a gente trabalha com esse tipo de...
você faz, que eu faço, o trabalho também é vivo. Então, assim, uma coisa que é mais prioridade hoje, no outro dia ou outro tá mais prioridade, nossa, tudo escapa, porque a gente tá falando de uma coisa que tá agudada na gente, né? Pamela, me conta, Pamela, me conta quais são as suas referências hoje. Se a gente for pensar como uma griot, como uma contadora de histórias, como uma mulher preta, antirracista, quem são as suas grandes referências na literatura e na arte?
Na literatura, a minha maior referência é, claro, que é Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, mas tem uma poeta em especial que me faz ir longe, acreditar mais ainda no meu potencial, que é a Estela do Patrocínio. Não sei se alguém conhece Estela do Patrocínio, para quem não sabe, ela foi uma poeta.
que ficou internada em um manicômio na época da higienização, higienização das pessoas, onde todo mundo que era negro e estava perambulando pelas ruas, eles tacavam no manicômio. E aí Viviane Mosdé, que é uma...
antropóloga muito, muito, muito boa, descobriu em uma dessas... A Viviane Mosé lançou um livro com os seus falatórios, que chama Reino dos Bichos e dos Animais, é o meu nome. E aí uma colega minha, Ana Cláudia Magalhães, que trabalhava na época na Biblioteca do Senac, me apresentou essa mulher.
E eu me apaixonei por Estela do Patrocínio. Recentemente fui para São Paulo ver um espetáculo da Viviane Mosé. Furei fila, recitei uma poesia para a Viviane. Se abraçamos. Ela falou Estela do Patrocínio, que é a Estela do Patrocínio. Tem uma frase dela muito bonita, que é assim. Eu nasci louca. Os meus pais queriam que eu fosse louca. Os normais tinham inveja de mim, que era louca.
A Estela fala sobre essa loucura que é mais uma lucidez, né? E ela fala de uma forma muito bonita os falatórios dela. É o único livro que tem publicado. Ela nunca escreveu, ela sempre falou. Então, a Viviane transcreveu áudios dela. Ela gostava de escrever em papelões e tal. E quando ela esteve lá nessa colônia...
duas estagiárias gravaram esses falatórios, que hoje virou esse livro, O Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome. Então, eu queria muito que todo mundo conhecesse Estela do Patrocínio, lesse esse livro, ouvisse os áudios dela, que agora é público. Inclusive, Sarah Ramos fez um ótimo trabalho, tornou esses áudios públicos. Todo mundo tem acesso. Então, conheçam Estela do Patrocínio, que ela é maravilhosa.
A temporal ela é. Que presente, Pamela. Que presente conversar com você, amada. Olha, essa edição do Fresta, que é a quinta edição, está muito especial. E essa conversa vai ficar comigo. Vou levar.
as suas palavras, a sua história, a sua trajetória toda, a sua força, o seu talento, a sua integridade vão comigo. Que presente, que privilégio. Vou te convidar para assistir as coisas do Fresta, que vão acontecer presencialmente, para também ficar perto da gente no formato híbrido.
E eu espero que a gente se encontre e tenho o privilégio de mais vezes te receber no Fresta para muitas ações. Queria te abraçar, não só eu, o Fresta, mas também a Companhia Apocalíptica, pela sua importância na região e no Brasil e pela sua voz, querida.
O fresta tem uma... É algo muito importante na minha vida profissional enquanto oficineira. A minha primeira oficina de poesia aconteceu no fresta há dois anos atrás. Muito legal. A potência veio de lá. Estarei no fresta agora também com duas oficinas muito legais, oficina de encadernação e uma coisa inédita para a galera que gosta de...
que tem vontade de publicar seus mini-livretos. Eu venho com microeditora, isso, ateliê de microeditora. Isso, o que nós vamos fazer nessa oficina? Posso falar rapidinho? Claro. As pessoas vão poder publicar, se alguém tiver alguma publicação, eu vou ajudar a diagramar, ensinar como que faz, e fazer a costura manual para publicar os seus livretos de até 15 páginas.
Fique ligado na programação, tá muito linda. Adoro a Apocalíptica. Acho incrível o trabalho que eles fazem na cidade. Já fiz várias oficinas, inclusive. Um beijo pra Fer. Wesley, é Wesley, eu acho que é o produtor aqui que...
Foi incrível, eu falei pra ela, pra ele. O Wesley, tô muito nervosa. Ele, não, fica tranquila, que área maravilhosa. Sabe? Tô muito feliz, muito feliz pelo convite, muito feliz por estar aqui, muito feliz por ter fresta aqui na nossa cidade.
Ah, espero que a gente consiga se ver presencialmente. Quando for junho, julho, agosto, setembro, eu tô por aí. E se tiver a mão preta, eu vou te dar um toque pra gente se encontrar no Sesc, tomar um café, conversar, trocar um pouco. Mas te agradeço demais, demais, demais, demais. Muito obrigada por esse papo, querida. E espero que a gente se encontre mais vezes.
Tá bom? Eu que te agradeço, tá? Um beijão. Um beijão e a gente se vê até a próxima. E pra quem tá ouvindo a gente, fiquem atentos, porque a gente tem outros episódios também do podcast e o Fresca tá só começando com programação presencial e também programação online.