5º FrESTA Áudio Livro: Éramos Felizes por Juá Jacarandá
“Éramos felizes” é uma narrativa de memória da vida de Raimunda Medeiros, conhecida como Valdira, mulher indígena nordestina cuja trajetória faz a travessia entre territórios e gerações. Em primeira pessoa, ela costura experiências de infância no sertão cearense, migrações marcadas por coragem, necessidade guiadas pelas forças da natureza. São demarcados os desafios de reconstruir a vida em diferentes regiões do Brasil, ao mesmo tempo em que valores como felicidade, família e união resistem.
Entre viagens em caminhão pau de arara, travessias de barco, vivências na floresta amazônica e retornos ao Ceará, Valdira compartilha histórias que revelam a força dos vínculos do seu povo e a sabedoria dos mais velhos. Suas lembranças transformam o cotidiano em memória coletiva, revelando afetos, perdas, conquistas e a espiritualidade que sustentaram toda sua caminhada.
Narrado hoje na voz de Juá (ou Gegê, como carinhosamente ela chamava a sobrinha Gizele) , o livro é um testemunho ancestral que reafirma a importância de conhecer as próprias raízes. Ao narrar sua vida, Valdira também conta a história de muitos — de famílias que migraram, lutaram e permaneceram unidas, construindo, com dignidade, seus caminhos pelo mundo.
Juá Jacarandá
- Historia do FrevoMemórias de infância · Migrações no Brasil · Desafios da vida · Cultura e pertencimento · Sabedoria dos mais velhos
- A vida no sertãoInfância no Ceará · Família e união · Desafios da migração
- Experiências na AmazôniaVida na floresta · Desafios e adaptações
- Retornos e recomeçosVolta ao Ceará · Mudanças familiares
- Memórias e IdentidadeImportância das histórias · Sabedoria ancestral
Em um passado recente, a pergunta era até quando? Permanecíamos vivos nas fissuras, nos espaços vazios, nas lacunas que habitavam as perguntas que alimentavam nossa espera. Movidos pelo desejo de escuta, vestíamos palavras e transformávamos a fresta num elo, numa rede de pertencimentos.
Depois, aos poucos, voltamos a respirar a plenos pulmões. Cantamos, escrevemos, encontramos quem esperava toda sorte de troca boa. Seguimos juntos, com a força redobrada, transformando saudades em poesia. Nossa busca passou a ser encontrar o ponto de ruptura e, diante dele, sem economia de afeto, recobrarmos a nossa integridade. Existir junto fez mais sentido. Encontramos as histórias que nem sequer imaginávamos que existiam.
Ali a gente soube que a maior tecnologia que existe é a imaginação, que somos florestas, somos cidades, somos rios inteiros, que cada vez que meninas e meninos brasileiros aprendem a ler, seja com os olhos ou a ponta dos dedos, eles tomam seus destinos nas mãos. A cultura.
É a rede mais potente de um povo e o dia em que já não nos lembrarmos disso, teremos nos tornado um deserto débil de seguidores. Em 2026, a fresta completa cinco anos. Essa jornada que começou online, saiu das telas, se tornou híbrida, tendo a acessibilidade como premissa cada vez mais forte.
Serão 70 horas de programação intensa, trazendo uma celebração da leitura para além dos livros, do viver para além das telas e do sonhar para além do sonho. Bem-vindes à nossa fresta, que ela nos guia a quem somos e ao que realmente importa.
A imagem de capa da obra é um pôster vertical com design em grade. Ao fundo, há uma grade de 12 retângulos coloridos em verde limão e azul água, organizados em três fileiras de quadrados. Alguns quadrados contêm uma imagem em preto e branco de uma mulher que tem em torno de 30 anos, cabelos e olhos escuros, utilizando uma beca de formatura e um jabô, um acessório de babados colocado na gola e ela está olhando para a frente.
Os outros quadrados são fotos de um quintal com árvores e plantas rasteiras. As imagens são ligeiramente translúcidas e têm um efeito granulado que fazem uma sobreposição entre si. Em uma camada acima dessas grades de imagens, no centro, há uma grande faixa retangular de papel marrom texturizado com as bordas rasgadas.
Na faixa, o título Éramos Felizes está escrito em letras maiúsculas e minúsculas na cor branca. Abaixo do título, no canto inferior direito da faixa de papel, o nome da autora, Juája Carandá, está escrito em letra cursiva verde escura.
Éramos Felizes. Histórias de Valdira. Este é um livro de narrativas orais da ancestral Raimunda Medeiros, com organização e narração de Juá Jacarandá Quichelô. Dedicatória. Dedicamos este livro a toda a árvore genealógica de nossa família, desde os mais antigos até os mais novos.
Há um povo que se formou em muitos lugares, especialmente no sertão cearense, em nosso Alto do Jacu, na comunidade do Gaspar, na Lagoa do Jatobá e no Riacho do Meio, em memória de Manuel, José, Antônio e Francisco Arnaldo. Também de nossa querida Valdira, nossos queridos irmãos, tios, pais, avôs, filhos que se encantaram e deixaram sementes de saudade.
Também memoramos nosso querido paizinho Miguel e mãezinha Maria, troncos velhos da nossa família. Com amor para a família de Tia Valdira, os netos Enzo, Gabriel, Maria Laura, Maria Sofia, Maria Esther, Jonas e Tati.
Que sejamos gratos às andanças dos nossos familiares e vejamos a importância de conhecer nosso passado e a nossa história com sabedoria, pertencimento e orgulho. Nós somos originários de um povo guerreiro e feliz.
Apresentação. Este livro partiu do desejo de documentar a história de Valdira Medeiros, esperando que aqueles que acessam essa história e que fazem parte da família também se percebam de alguma maneira dentro destes movimentos de amor e luta que teceram nossos troncos mais velhos, sempre em busca de melhores condições de vida para todos os membros de suas grandes famílias.
Essa busca também é a própria vida acontecendo, pois, com certeza, somos seres humanos sem fronteiras e a nossa natureza sempre foi o movimento por toda a Terra. Tia Valdira foi considerada em vida, por nós, uma grande anciã, que levou consigo o amor e as memórias mais especiais.
Memórias estas que representam algumas gerações das famílias Medeiros, Lopes, Gomes, Neves e Silva, dos territórios da cidade de Quichelô e Iguatu, mas que foram se espalhando por Pindoretá, Brasil.
Aqui está uma pequena amostra dessas lembranças, pois seria difícil colocar em livro tudo que nossos parentes já viveram. Inclusive, seria difícil colocar aqui até mesmo tudo que a tia Valdira vivenciou, pois a palavra escrita possui suas limitações. Hoje, este livro ganha um tom mais saudosista e tranquilo, com a passagem da nossa querida Valdira para a nossa infinita morada ancestral. Portanto, estes fossem rememorar, contar e escrever, e...
vale principalmente como lembranças para todos de que devemos buscar nas palavras dos mais velhos quem realmente nós somos, o que nossos antepassados vivenciaram e todos os sacrifícios que foram feitos para que hoje pudéssemos nos constituir neste mundo.
Muitos ensinamentos, recordações e histórias devem ser transmitidos com muito carinho e admiração, para que os mais novos cresçam com um sentimento grandioso de pertencimento e gratidão a alguns seres que talvez nem mesmo puderam de fato conhecer.
Com humildade e habilidade de contação, tia Valdir apresenta para nós, em primeira pessoa, um pouquinho das aventuras que passou desde jovem com sua grande família e analisa as idas e vindas que ela fez. Este foi um trabalho que nós fizemos quando ela estava com 70 anos, em um período auge da pandemia.
E com certeza é uma leitura intimista e válida para todos aqueles que são do nosso tronco familiar, mas também para aqueles que desejam se comunicar de alguma maneira com a sabedoria da contação de história e de relato pessoal, que ao mesmo tempo um relato coletivo. A vida é um tear de histórias, e cada um que conta a sua também conta de vários outros.
Valdira foi a minha maior incentivadora na retomada das nossas histórias ancestrais e indígenas, de um povo que se movimenta na terra com a natureza, desde nossa ancestral Carolina até aqui.
Valdira, para mim, significa sabedoria de alguém que sempre soube o que é ser uma ancestral, antes mesmo de ancestralizar. Em memória dela, Inatequié, gratidão e boa imersão. Joa Jacarandá, GG, sobrinha e aprendiz de Valdira. Formada socióloga, educadora especial e liderança cultural do povo que chelou.
Capítulo 1. Heranças Muambas. No dicionário, muamba significa tipo de cesto para transportar mercadorias. O significado para nossa família é um povo que anda com mochila nas costas, para lá e para cá, carregando casa, coração e história. Os famosos muambeiros.
Eu, Raimunda Medeiros de Lima, gostaria de contar um pouco da minha vida nesses meus anos. Comecei a memorizar os acontecimentos que nessa minha vida foram se passando. Eu nasci num sítio chamado Lagoa do Jatobá, dia 6 de fevereiro de 1948, no meio-dia de uma quinta-feira. Sou filha de Miguel Medeiros da Silva e Maria Neves Medeiros, pessoas simples, mas muito animadas.
Eles viviam da agricultura, casaram em 1945, e em 1946 nasceu o primeiro filho, que foi chamado de Manuel. Logo depois dele foi eu, que fui apelidada como Valdira, e não sei dizer o porquê, pois desde que me entendo por gente, eu sou chamada assim. Da infância, tenho boas lembranças, éramos uma família feliz.
Meus pais passavam muito amor para os filhos. Sim, porque foram nove filhos. Criou-se oito. Chamados eles Manuel, Valdira, Antônio, Maria, Pedro, José, João, Francisca e Arnaldo. Todos naturais do sítio Lagoa Jatobá, menos a Francisca, que nasceu na Amazonas, mas cresceu no Ceará.
Pai tinha um pouco de terra para trabalhar e também tinha uma criação de gado e ovelhas. Tudo simples, mas dava para o nosso sustento. Éramos felizes e não sabíamos. Meu pai Miguel era um homem que sonhava sempre com o melhor para a família. Pensava em ir embora para uma cidade, mas a mãe Maria não queria. Este desejo dele de ir embora da lagoa se arrastou por muitos anos, até que um dia ela consentiu.
Então, ele vendeu o terreno, os bichos, e fomos toda a família embora para uma cidade chamada Iguatu, que fica no centro-sul do Ceará. Isso aconteceu em 1958. Lá em Iguatu, ele alugou uma casa e colocou os filhos para estudar. Minha mãe fazia merenda para vender na escola. E ele comprava criação, matava e vendia.
Lembro, não chegou a um ano, ele já começou a falar novamente que não dava pra ficar lá. Era 1958, um ano de seca, meu pai começou a falar pra minha mãe que ia embora, e por coincidência ela tinha uma irmã que morava lá no Amazonas. E lá se fomos nós, com Deus, a coragem e os filhos.
Pensem, eu com 10, outro com 9, outro com 8, outro com 6, outro com 4 e um com 2 anos, que era o João. Nesse mesmo mês que meus pais resolveram ir para o Amazonas, foram também dois casais conhecidos com os filhos.
O que mais me chamou a atenção nessa história é que o transporte que a gente saiu do Iguatu era um carro com uma carroceria bem grande, coberta com uma lona, que nós chamávamos de pau de arara. Fomos neste transporte até São Luís do Maranhão. Como não tinha transporte até Manaus, iríamos até São Luís e de lá nós continuaríamos o percurso de navio.
Quando chegamos em São Luís, os responsáveis pelas famílias arrancharam-se numa casa velha, tipo uma hospedaria ou uma casa de farinha. Essa casa não tinha parede, era um vagão com um morão no meio do salão. Ali eles amarravam as redes. Um punho ficava nesse morão, no meio da instalação, e os outros punhos nos caibos que ficavam ao redor da casa.
Todos no mesmo lugar, não sei quantos eram, mas sei que ficava muita gente deitável no chão, umas cocheiras. A nossa mãe, Maria, forrou com os panos o chão e lá ficamos por dois meses ou mais, não lembro bem. Acho que eram umas 150 crianças e adultos nessa hospedaria. Vocês imaginem a higiene.
Não existia água, apenas a do mar. Para beber, era comprado. Os tempos passaram e nada de navio. Os responsáveis começaram a se preocupar com a situação, que tinha muitas crianças, pessoas velhas, e eles já começavam a adecer, até mesmo morrer.
Nossos responsáveis, como meu pai e também os adultos que eram nossos amigos, resolveram sair de lá num barco chamado Jangada. Não sei, acho que esse barco era 6 metros por 6. Sei que colocaram umas 50 pessoas entre crianças e adultos e mais ou menos uns 50 sacos de legumes. Imaginem, um quadrado de 6 por 6, uma só entrada e saída.
Aí só tinha uma janela, botava a cabeça e ia jogando o corpo lá dentro pro buraco. Esse barco, a jangada, é movimentado pelo vento, com a ajuda de uma vela. Embarcamos às 18 horas, destino a Belém do Pará. Às 7 horas, a maré levou o barco para dentro e estava em cima do lastro um jangadeiro.
Como falei, era tanta gente que não demorou muito, as pessoas começaram a passar mal. Vômito, diarreia. Começou pelas crianças e em seguida os adultos. Foi muito terrível. Lembro que já não tinha mais onde colocar os vômitos. Tudo já tinha sido usado como bacia.
por último foram os lençóis, tudo ia sendo jogado no mar. Foi aí que o responsável pelo barco, o jangadeiro, percebendo que ia morrer muita gente naquela situação, colocou a cabeça na janela do barco e perguntou, querem voltar? Todo mundo respondeu pela mesma voz, volta, volta e volta.
Aí foi onde se percebeu o maior amor de Deus em nossa vida. Meus amigos, esse barco tem uma vela de mais ou menos 12 metros de altura. E essa vela que comandava o barco com a ajuda do vento. A ponta da vela não pode encostar na água. E neste momento ela encostou na água duas vezes. Só por Deus nos salvamos para hoje eu poder contar essa história da minha vida para vocês.
Chegamos no mesmo lugar em que havíamos saído há quatro horas. Como costuma a maré subir e baixar, quando chegamos, ela já tinha baixado. Então, no lugar da água tinha muita lama, muitos insetos de toda qualidade. Então, muitas pessoas saíram do barco em cima da lama, mas meus pais, com uma família, ficaram no barco, escolhendo esperar até a maré voltar de manhã.
Quando nós chegamos no lugar da hospedaria de manhã, já não tinha lugar para nós. Não lembro como foi o final desses dias em São Luís. Eu lembro que meu pai e um amigo dele resolveram viajar de avião. O amigo do meu pai, que se chamava Duca, a família era grande. Não dava para levar todo mundo ao mesmo tempo, pelo dinheiro que se tinha acabado. Os mais velhos ficaram na hospedaria e ele levou os pequenos e os mais jovens.
Meu pai com a família e outros casais, que eram família desse Duca, também viajaram de avião. O trajeto durou duas horas até Belém do Pará. E do aeroporto fomos direto para o Cais. Mas só íamos viajar no outro dia à noite. Como nós não tínhamos mais dinheiro, ficamos lá até a hora da viagem.
Finalmente chegou a hora do embarque destino à Amazonas. Lembro que era um navio pequeno e simples, sem segurança. Foi um mês viajando nesse navio. Mais ou menos, né? Só penso que quem sofreu mais foram as mães que tinham que se desdobrar em cuidados dentro daquele navio. Nossa mãe com seis filhos. O mais novo com um ano que estava doente de sarampo.
E ela foi uma guerreira, viu? Eu imagino que pra ela foi o mês mais comprido da vida. Finalmente, depois de passar muito tempo, nós chegamos em Manaus, às seis horas da tarde, sem conhecer nada, feito o bicho do mato em um mato que não conhecia.
Os homens falaram com o responsável do caisse e lá mesmo ficamos. Tivemos a ajuda de pessoas que por lá passavam e esperamos duas noites em um dia. Os casais que viajaram com a gente seguiram em outra direção e o meu pai, com a família, foram para um lugar chamado Curarizinho, região de garapés e matas. Era lá que a minha tia Veranda e a família estavam morando.
Pegamos um barco de Manaus, então, até Curarizinho. Viajamos mais três horas, mais ou menos, em água corrente. Quando chegamos na casa da tia Veranda, era cinco horas da tarde. A mãe ficou espantada a ver a irmã dela falando lá do alto. Suba, comadre! As casas de lá eram rexingas e era feita em cima de girais, pois lá chovia muito, mais ou menos era assim o ciclo. Seis meses de chuva e seis meses de sol.
Como a gente morava nas rexingas e a casa era feita de madeira em cima de girais, a altura era mais ou menos uns 15 metros. As casas eram tampadas e cobertas de palha de palmeira. Pelo menos a nossa era assim. Quem podia mais era com madeira, se não era com palha mesmo.
Lembro que a minha mãe era a que mais sofria com a gente. Ficava preocupada com medo de tudo. Lá era a mata, né? E nós ficávamos longe uns dos outros. Os mais próximos eram minha tia, mas era mais ou menos uns 15 minutos da minha casa para ela. Como era a mata, tinha todo tipo de bicho, vocês imaginam. Onça, cobra, jacaré, porco do mato, macacos grandes. Não adianta botar tudo.
Graças a Deus, durante esses três anos que a gente morou lá, nunca fomos atacados por nenhum bicho. Só meu pai, né, que uma vez foi atraído por uma sucuri. Ele foi pescar com o caboclo e aí foram puxados pela bicha. Ele não conhecia, mas o caboclo, muito sabido daquelas vivências, percebeu.
Tentaram sair dali com o barco e não conseguiram. Para conseguir escapar da sucuri, o caboclo usou uma sabedoria deles que era pôr a roupa pelo avesso para conseguir quebrar o encanto da cobra. Assim foi feito e assim deu certo. Graças a Deus não aconteceu nada. Não pescaram, mas ficaram vivos.
A minha curiosidade é que lá era uma região chuvosa, dividida em seis meses de chuva e seis meses de sol. A gente andava para todos os lugares da terra, mas tinham lagos que eram só de canoa, que se conseguia passar e pescar. Para trabalhar também, outras rexingas, tudo tinha que ir de canoa. Até ir às casas dos conhecidos, tudo que a gente fazia era de canoa naqueles meses de chuva. Depois elas ficavam encostadas.
E era engraçado quantas vezes amanhecia e na canoa tinha animais como jacaré, cobra, peixe. Pena que nesse tempo não tinha tecnologia para ser registrada as aventuras que a minha família viveu. Lembro com saudade, pois éramos felizes e crianças para entender aquilo. Mas nunca passamos fome nem doenças. Deus foi maravilhoso para conosco. Quando a gente estava se adaptando no lugar, aí meu pai comprou um terreno para nós vivermos.
Ele tinha dado uma fiança num terreno, mas não tinha recebido ainda. Só ia receber o terreno quando terminasse de pagar. Antes de terminar, ele já desistiu da compra e perdeu tudo. Começou a falar em voltar para o Ceará. Pois é, ele tinha mãe viva e falava que era saudade que tinha de voltar para perto da mãe.
Minha mãe concordou e em 1961 nós voltamos. Uma coisa maravilhosa entre esse ano é que nasceu o sétimo filho da minha mãe lá no Amazonas. Era uma menina que se chama Francisca. Naquela época, a maioria das crianças nasceu com a sabedoria de mulheres que eram chamadas de parteiras. Mamãe, com a ajuda da parteira, fez o milagre da vida e trouxe para nós a pequena Francisca.
Mamãe não queria que as crianças de casa vissem esse milagre acontecer e ficava o tempo todo pedindo para Maria pegar os outros meninos e ir buscar água lá longe, sendo que tinha água para todo lado. Quando eles chegavam, mamãe mandava eles derramar tudinho e ir buscar de novo. E assim veio Francisca.
De lá saímos, ela tinha seis meses, era uma bonequinha. Eu fiz uma festa com a chegada dela. Foi a comemoração para voltar para o Ceará. Eu cuidava da neném enquanto meus pais cuidavam da viagem. Então, gente, fizemos o mesmo roteiro de três anos atrás.
Com uma diferença, hein? Minha querida tia Veranda veio também. Resolveu voltar com a gente pra nossa alegria, ela e o marido. Tinha os seus treze filhos também. E ela estava com a Lucinha na barriga. Essa era uma mulher guerreira.
São os meus primos filhos de tia Veranda e tia Antônio Henrique. Luiz, Francisco, Zé Ayrton, Toinho, Manuel, Paulo, Henrique, Maria Socorro, Luísa, Terezinha, Francisca, Beta, Lucinha e Giovanni. Capítulo 2. Toda volta é uma nova ida.
Sim, essa vida tem surpresas. Sabe quem encontramos no cais de Manaus? Lembra dos nossos amigos que foram conosco pra lá? Que tínhamos nos separado em Manaus, um pro lado e o outro foi pro outro. Três anos se passaram depois de separados, nunca mais tínhamos nos encontrado. Só que na volta pro Ceará, o destino juntou os amigos. Duca do Marizinho com a família.
Então, essas cinco famílias embarcaram num navio chamado Tamandaré Amirante. Ao contrário do que nós fomos, era um grande navio. Três andares muito luxuosos, muito divertimentos. Festa de todo jeito, cinema, teatro, muitas coisas. Eu já tinha 14 anos nessa volta. Me lembro dessa viagem como se fosse hoje. Embarcamos em Manaus, destino a Fortaleza.
Mas não sei o que aconteceu que era para ser 30 dias e ficamos 42 dias, porque chegando em Belém do Pará, nós paramos e ficamos lá 12 dias. Os passageiros não sabiam de nada, mas ao perguntar para os marinheiros, eles respondiam dizendo que a parada era porque estava acontecendo uma revolução e que estavam proibindo os navios viajarem.
Tinha a ver com a renúncia do presidente Jânio Quadros e a campanha da legalidade para assumir João Goulart, que visitou Belém nesse mesmo período em que ficamos parados lá. Mas isso viemos saber bem depois. Vou falar como era um pouquinho da rotina nesse navio que a gente viajou. Tinha de tudo de bom e do melhor. Mas tinha uma coisa que era meio esquisita.
A dormida dos homens e das mulheres eram separadas. Maridos de um lado, esposa do outro. Todos só ficavam juntos nas refeições. A segunda classe do navio era animada. Era onde ficavam os divertimentos. Nós subíamos para a proa do navio todas as tardes para apreciar a vista e também o show que dava as baleias e os golfinhos. Era muito bom e divertido.
Há um detalhe, no mesmo navio vinha uma família que tinha um menino de 16 anos. Bonito, dizia ele que se apaixonou por mim. Chegou lá até ir falar com a minha tia e também com meus pais. Minha mãe falou pra ele que não tinha condições, que eu era uma menina e não tinha como casar. Que era o que ele queria comigo, viu?
Eu criei um medo desse rapaz e fiquei me escondendo o tempo todo. Me escondi dele bastante tempo, mas ele não desistiu e ficou lá. Toda viagem insistindo em namorar comigo. Chegamos em Fortaleza.
E lembro como hoje que todos desceram do navio e ele com os pais vieram falar com a gente novamente, dizendo que era para nós ficar se correspondendo para quando chegasse a hora de eu namorar. O meu pai não aceitou e cada um seguiu seu destino. A família dele era de Jaguarido.
Foi a última vez que nós se vimos. A minha família e da tia Veranda vieram de trem para a cidade de Iguatú. Chegando lá, tomamos um transporte para o sítio Gaspar, onde moravam meus avós por parte de minha mãe, Manuel Gomes das Neves, e a madrasta da minha mãe, Joaquina. A minha avó já falecida foi Carolina Neves. Ela teve uma história muito sofrida, pois perdeu seus pais muito cedo em uma migração que não sabemos exatamente os detalhes.
Conta a história que ela foi encontrada sozinha embaixo das oitcicas e foi adotada por uma família. Casou muito cedo e não teve direito a uma infância. Deveríamos nós saber mais sobre ela. Sobre nossa ida ao Gaspar, lá fomos bem recebidos, entre amigos e família. Foi festa uma semana, pessoas nos visitando e tudo mais.
Uns 15 dias depois, fomos para a Lagoa do Jatobá, onde morava minha avó, mãe do meu pai. Lá é que a festa foi grande, só felicidade. Meu paizinho Miguel já começou a arrumar moradia. Alugou uma casa de um senhor chamado Emílio Maia. Era afastada das outras, num sítio que tinha um grande açude e muita fartura de fruta, banana, goiaba, de todo tipo.
Mudamos pra lá e começamos uma nova vida. Começamos a estudar, particular com uma senhora chamada Maronice, esposa de um sobrinho da minha mãe, o Osmar. Passamos mais ou menos um ano trabalhando e estudando lá. Depois, meu pai comprou uma casinha com um pedaço de terra lá no sítio Caissara. Mudamos pra lá, em seguida nasceu o oitavo filho da nossa mãe, lindo menino. Colocamos o nome dele de Francisco Carnaldo.
Como eu já tinha 18 anos, fiquei muito envergonhada por mãe ter tido uma criança com uma casa que já era cheia de moças e rapazes. Que ingenuidade da minha parte, né? Depois eu amei ele e gostava muito dele, mais do que dos outros irmãos. Era meu bebezinho também. Nós éramos felizes e sadios, até que um dia, dois anos que ele já tinha, era um domingo.
José, João e um primo da gente que moravam vizinhos de nós saíram para brincar. Eles resolveram serrar um galho de cumaru para ser roda de um carrinho de lapo. Não sei como, o Arnaldo tinha ido com eles e ficou logo embaixo do pé de cumaru. Os mais velhos subiram para serrar o galho. Quando a galha caiu, foi diretamente no braço do Arnaldo. Caiu em cima do ombro dele, foi cortando entre braços, sendo horrível.
Ele tirou o cotovelo e o punho do lugar. Quando a gente ouviu os gritos que eu saí correndo, vi ele todo banhado de sangue. Lembro que ele nem chorou e vinha sustentando o bracinho. Minha mãe e meu pai se desesperaram, arrumaram um carro para levar ele ao médico. O pior é que era distante da cidade, estava muito inverno. Levaram para uma cidade chamada Oroes e lá o médico fez quase nada. Ele estava quase morto por perder muito sangue.
Meu pai foi o primeiro doador de sangue pro Arnaldo. Aí os médicos apenas costuraram o braço dele e nada mais. E o Arnaldo ficou 15 dias em oróis. Não colocaram a junta dele no lugar, nada disso. Por esse motivo, apelidaram o Arnaldo de mãozinha, meu querido irmão. E dessa maneira, ele é vivo e querido nas nossas memórias.
Depois que ele foi enviado para um tratamento no Iguatu. E graças a Deus ele viveu até os 52 anos, teve três filhos e netos. O período da doença dele eu sofri, mas cresceu meu entendimento de que tudo está nas mãos de Deus. É tudo como ele quer. Continuamos morando na comunidade caissara e estudando com a Leda Coelho. Fiz o quarto ano com ela.
Como as coisas eram difíceis lá na Lagoa do Jatobá e tinha muita criança e ninguém para ensinar, eu fui convidada para ir ensinar essas crianças uma temporada. Eu ganhava pouco, mas me sentia realizada e feliz. Fiquei lá uns dois anos ensinando e nesse tempo eu consegui levar a palavra de Deus para os adultos de lá, como catequista também.
A palavra de Deus foi um amor que meus primos José e Irismar nunca deixaram e continuaram mesmo depois que eu saí. Meu pai, Miguel, como vocês sabem, gostava muito de mudar. Olha, estava com sete anos que nós estávamos lá no Caiçara, em cima do que era nosso. Ele vendeu o sitiozinho para ir trabalhar e morar lá na Barra, pertinho do Iguatú.
Essa propriedade era do senhor Chico Noro, casado com Marieta Nicolau. Ele era de lá mesmo, da Barra. E nesse tempo, já tinha 22 anos, o Manuel tinha 23, a Maria tinha 20, o Antônio 21. Nós éramos os mais velhos. Eram os que trabalhavam na roça com meu pai. Plantávamos milho, feijão, algodão e outras coisinhas.
Meu pai gostava muito de trabalhar e sempre estava com muitos trabalhadores. Nas colheitas era a faixa de uns 25 homens, 30 pessoas direto dentro de casa passando um mês lá. A minha mãe já tinha mais ou menos uns 50 anos e já tinha uns problemas, umas doenças. Dizem os médicos que eram os nervos, mas ela ficava ruim pra caramba. Ficava muitos dias sem poder fazer nada, ficava muitos dias sem poder fazer nada, deitada, sem se levantar.
Eu, como era mais velha, tomava conta da luta e era mais ou menos 30 pessoas. Era gente demais. Não era fácil, mas vivemos três anos nessa luta, nesse mesmo sítio na Barra. Os filhos mais novos e a Maria ficavam na casa que a gente tinha na Iguatu, pra poder estudar. Depois desses três anos, meu pai tinha conseguido já comprar duas casas no Iguatu e um carrinho chamado Jeep.
Antes de nós sair desse lugar que chamava Sítio Miragem, o Manel, que era o mais velho, completou 25 anos e logo foi embora para São Paulo. Ficamos mais um ano trabalhando nesse mesmo terreno, com muita dificuldade, mas eu gostava do movimento e das minhas paqueras. Um dos meus paqueras foi trabalhador do meu pai e se chamava Francisco Nunes. Começou essa paquera e depois ficamos noivos, mas em seguida a gente mudou e ele foi embora trabalhar na Bahia.
A gente se correspondia por carta. Ele era sabido, era até um engenheiro, mas como no Iguatu não tinha disso, ele teve que ir pra roça. Enfim, a gente ficou três anos e depois não deu certo que ele queria casar só no civil e eu não aceitei. Nesse intervalo de idas e vindas, nossa família já morava no Iguatu e eu fiz um curso de costura no Senai.
Meu pai não passou um ano e já pulou para outro terreno, um sítio chamado Carnaúba. O dono desse sítio era Luiz Matos. E esse homem queria que meu pai empenhasse suas duas casas para poder trabalhar no sítio. Era como garantia do empréstimo que ele estava dando para investir no terreno, o dinheiro que meu pai precisava.
Ele pagaria com as duas casas, caso não pagasse o empréstimo. Minha mãe, para esse negócio dar certo, teria que assinar. E ela não assinou. Começou, então, a discussão entre pai e mãe por conta disso. Passou um tempo e ele convenceu a minha mãe, mas ela resolveu assinar uma casa só. A casa de moradia que era nossa, ela não assinou. Aí eles fizeram negócios e foram trabalhar no terreno do homem.
Passamos o ano todo nesse terreno e, por incrível que pareça, meu pai perdeu a casa. O inverno não deu pra pagar. Nesse tempo do ano que a gente trabalhou lá, eu sempre estava no meio pra ajudar. Lá eu conheci Luiz Brandão. Começamos a namorar e eu gostava muito dele. Passei um ano namorando com ele, mesmo sem pai querer.
Acabou-se o namoro e ele foi embora para São Paulo, isso mais ou menos em 74, que ele veio embora para o sudeste. Nesse mesmo ano, meu irmão que tinha ido embora, o Manuel, veio passear. Fazia seis anos que o Manel estava em São Paulo e não voltava para o Ceará. Passou uns seis anos e mais ou menos, em 74, minha avó Maria Medeiros, mãe do meu pai, faleceu.
Manuel começou a falar em voltar para São Paulo. Isso começou lá para 1975. E meu pai queria ir com ele. Meu irmão achou melhor não. Falou para ele, pai, a gente vai, eu vou levar a nega, que era como ele me chamava, que ela já tem uma profissão e é mais fácil arrumar um trabalho.
Eu era costureira e era fácil arrumar trabalho naquela época. Aí eu e o Manuel ia trabalhando em São Paulo para arrumar uma casa e depois levar o povo todo. E isso aconteceu. Em 1977 para 1978, estavam todos em São Paulo, pai com os oito filhos. Pois bem, estávamos todos juntos novamente.
Começamos todos a trabalhar e todos eram felizes. Mas, como sempre, em 1980, começaram os problemas, né? Foi eu com duas cirurgias grandes e depois a Maria Valdeni causou e teve que lidar com as dificuldades também que eram da sua família. Meu pai infartou, mas graças a Deus recuperou. Em seguida, ele estava com um problema nos ossos, a osteoporose.
Os seus ossos se quebraram com facilidade e ele tinha que fazer cirurgias. Fez várias, mas não ficou bom. Nesse período, nós mudamos para uma pensão, que passaria a ser de minha responsabilidade. Lá já tinha alguns inquilinos que ficaram conosco e um deles era o Severino, meu esposo.
Passei cinco anos namorando com ele, certo de que eu era a única namorada dele, mas me enganei. Em novembro de 1983, eu descobri que o Severino era noivo de uma menina da Paraíba. E ele acabou voltando para casar. Eu fiquei triste, mas a vida continuou. Ele foi embora e nós ficamos em São Paulo. Seis meses depois, meu pai já estava doente e começou a pedir para ir embora para nossa casa no Iguatú.
Os outros ficaram em São Paulo trabalhando para mandar dinheiro para mãe e pai. Papai continuou cada vez mais doente e minha mãe tinha que trabalhar na roça, ao mesmo tempo cuidar do marido. Não era mais nova, já tinha seus 66, cansada, já começou a adoecer, mas mesmo assim não falou nada. Uns meses mais ou menos depois, eu recebi uma carta da minha comadre Rita, que Deus descanse ela, casada com meu tio José, irmão do meu pai.
Nessa carta, ela falava que eu tinha que ir embora para ajudar minha mãe. Não pensei duas vezes, eu conversei com a Francisca e ela aceitou também. A gente fez um acordo na firma e fomos embora. Eu já tinha meus 32 e ela já tinha uns 26. Eu agradeço a Deus e a comadre que me aconselhou, porque foi a coisa mais certa de toda a minha vida, cuidar dos meus pais. E lá ficamos cuidando dele e trabalhando de costureiras.
Capítulo 3. Todo fim é um recomeço. Tanto eu como a Fran pegava as costuras na fábrica e fazia em casa. Não sei bem, foi pouco tempo, a Francisca achou que não daria pra ficar lá no Ceará e voltou pra São Paulo. E eu continuei, pois pai cada dia estava mais fraco, os ossos todo dia se quebravam, era muito triste.
Mas não tinha muito o que fazer, a não ser cuidar e ficar do lado dele, dando carinho e compreensão sempre, né? Também tentei fazer os gostos dele, tudo o que ele queria. Eu e mãe ficamos o tempo todo do lado dele.
O meu pai sofreu muito. Até dois anos, mais ou menos, não aguentou, mas também não reclamou, nem pediu pra morrer. Ele deixou bom exemplo pra nós. Venceu todos os problemas dele, sem reclamar. No dia 24 de março de 1986, ele foi pra Deus. Sofremos muita partida, mas continuamos. A mãe, eu, José Adail.
José já estava noivo, a Fran já tinha voltado para São Paulo. Eu continuei com a mãe, aí começou uma nova fase da minha vida. Retomei a história que tinha começado ainda em São Paulo antes de meu pai morrer. Antes dele partir, eu namorava com o João Paulino, fazia tempo. Mas eu acho que ele não queria nada comigo.
Vocês lembram que meu irmão José Adail tava pra casar? Vocês não entenderam nada, né? Quinze dias que meu pai tinha morrido, adivinha quem me ligou? Lembra do meu namorado que tinha em São Paulo que foi pra casar na Paraíba? Pois é, era ele mesmo que estava me ligando. Também eu não sei se foi um empurrãozinho do destino, eu sei lá. Sei que ligou umas três vezes durante o mês. Disse que queria conhecer o Ceará.
Meu irmão José ia casar e convidou ele para ser testemunha de casamento. Foi só isso que deu. Ele aceitou, não sei se é destino ou outra coisa qualquer. Só sei que voltamos no dia do casamento do meu irmão e com seis meses depois estávamos casados no dia 20 de dezembro de 1986 na igreja Nossa Senhora Santana de Guatu. O melhor deste casamento foi a chegada do meu filho Jonas.
Nós morávamos no Iguatu, na rua 13 de maio. Nove meses depois, nasceu o filho muito amado. Ele tinha nove anos quando minha mãe fez a passagem dela dormindo igual um anjo e nós viemos morar na Paraíba, onde o Severino ainda tinha pai e mãe.
Nós não tivemos mais filhos e tudo continuou. 32 anos se passaram e os pais dele já morreram. Jonas já se casou, já me deu netinhos, que são a continuação e a alegria para enquanto nós formos vivos. Meus três irmãos vivos moram em São Paulo. Maria, João e Francisca. Hoje o João mora com a esposa Bé, tem um sítio, são felizes com seus netinhos, assim como minha irmã Maria Valdenir, que está em Osasco.
A Francisca está em São José do Rio Preto e mora com a única filha que ela tem, a Gegê, minha bebê. E eu, com ela, estamos neste presente momento redigindo minha história. É, porque quatro irmãos já morreram, Manuel, José Adail, Hernaldo e Antônio. Mas as memórias nunca morrem, elas enchem nosso coração de saudades e saudades sempre é de coisa boa.
E esse é um livro simples de alguns momentos da vida de Raimunda Medeiros, que é conhecida como Valdira. Uma mulher que não parou quieta em lugar nenhum e que gosta muito de recordar as histórias e origens da família para que não se esqueça nunca de suas raízes que foram crescendo e continuam se espalhando pelo mundo. Agradeço a vida, agradeço a Deus e a todos os membros da minha família.
Valdir é uma mulher cheia de memória que viverá para sempre em suas histórias e feitos. Essa habilidade de comunicadora foi admirada por estar presente até mesmo em momentos de extremismo e violência flagrante.
Sua irmã mais nova, minha mãe, se recorda de um episódio fatídico em que Nossa Valdira muito ensinou sobre companheirismo, dignidade e morte. Ela contava para mim, eu não lembro mais, mas ela me contou. Se eu não estou ruim da minha mente, é que aconteceu isso. Quando a gente morava na Barra, no Ceará,
Lá era um tempo do algodão e vinha muitos homens de fora para trabalhar na cata de algodão. Eram vários homens de várias cidades ali de perto. Quando chegava o final de semana, eles iam para um povoado pertinho de casa, beber, se encontrar.
E as pessoas também, no final de semana, no dia de sábado, iam para essa cidade, ou iam para o povoado comprar alguma coisa. Aí ela contava que teve uma...
Sempre existia briga dentre eles, os homens de vez em quando, tinha pequenos desentendimentos, um ficava com raiva do outro, mesmo no trabalho, sem motivo, alguma coisinha simples. Mas só que dois homens lá brigaram durante a semana, e um ficou com muita raiva. Aí ele pegou e jurou de morte o outro, só no íntimo dele.
Aí ele esperou chegar ao final de semana e foi para a cidade. Aí o outro foi, não é nem para a cidade, é um povoado, eu chamo que é a cidade, mas não era, era síndico. Aí lá eles beberam e o homem, os dois começaram a discutir de novo, o homem pegou uma faca e deu várias facadas no homem. Aí ele ficou muito mal jogado assim.
na calçada, né? E ninguém fazia nada. E a minha irmã Valdir, ela sempre gostou muito de ajudar as pessoas. Ela não via sofrimento, porque ela não gostaria de ajudar. Aí ela se aproximou do homem, mesmo o homem lá sangrando, morrendo, aí ela pegou e foi dar um pouco de...
digamos assim, um suporte, umas palavras de conforto para ele, segurou na mão dele, falou que Deus estava com ele, que ele ficasse calmo, e colocou ele assim, praticamente deitado assim nas pernas dele, a cabeça, e foi lá acalmando ele, e o homem morreu lá, morreu nas pernas dela, porque ele era de fora, ele não tinha família.
Não tinha ninguém por ele naquele momento ali, ele era uma pessoa abandonada. Aí ela pegou e ficou conversando com ele, falando de Deus até ele morrer. E o outro homem, o que matou, continuava lá do lado assim, sabe, andando assim, ao redor nos terreiros com a faca na mão. E vários homens lá...
que trabalhava com eles, ninguém fazia nada. E o homem com a faca, né? Ameaçando. Falando assim, eu jurei que eu ia te matar, que você me fez muita raiva. E vários homens lá, que trabalhavam com eles, ninguém fazia nada. E o homem com a faca, né? Ameaçando. Falando assim, eu jurei que eu ia te matar, que você me fez muita raiva.
Por isso que eu te matei. E ninguém corta, ninguém corta, porque senão eu mato. E os vários homens ao redor, assim, olhando. Aí ela falou, olhou para os homens, o homem morto lá, e os outros tudo olhando, o cara com a faca na mão, jurando, né? Aí ela falou para os homens assim, e vocês não vão fazer nada, homens? Vocês vão esperar o quê? Ele já matou um homem e está com a faca, vocês não vão fazer nada.
Tira a arma desse homem, ele é um só, tira essa faca, vocês são vários. Aí os homens foram se aproximando, foram cercando ele, mandando ele jogar a faca, até que ele jogou a faca. Mas assim, ela contava isso, que ela teve muita pena do homem morrer ali, e ela não queria que ele morresse sem uma atenção, sem um cuidado.
E ela sempre foi assim, ela gostava muito de ajudar as pessoas. Ela estava sempre querendo ajudar principalmente os irmãos, os sobrinhos. Quando tinha qualquer probleminha nas famílias, porque sempre tem de irmão, de sobrinho.
Sempre, qualquer coisa, ela fazia questão. Ela estava sempre ligando para os irmãos, para os sobrinhos. Quando tinha alguma coisa, ela ia lá, conversava. As pessoas muitas vezes nem pediam a ajuda dela, mas ela ia falar, Mano, por que você não faz assim, assim, assim? E ela sempre tentava ajudar. Muitas vezes ela conseguia ajudar.
Muitas vezes ela ajudava até sem poder, mas ela ajudava. Quando ela morava lá na Paraíba, morou muitos anos na Paraíba, na terra do marinho dela, e os vizinhos dela todos gostavam muito dela, porque ela sempre gostava de ajudar. Com a palavra, ou com qualquer coisa que ela tinha na casa dela, se tiver sobra, ela nunca deixava ficar jogada, ela sempre dava para o vizinho, sempre gostava de agradar.
E assim era minha irmã Valdir, uma pessoa maravilhosa, pessoa muito boa. E Deus atendeu o pedido dela, porque ela sempre dizia que não queria ficar sofrendo em cima de uma cama.
dependendo dos outros para fazer as suas coisas, esperando os outros. E ela sempre orava e pedia a Deus, meu Deus, se for para eu ficar sofrendo, que eu morra rapidinho, sem dar canseiro para ninguém. Eu estou preparada para ir. E foi assim. Eu fui fazer a cirurgia dela e morreu. Mas eu creio que ela está bem. Se existe outra vida que a gente não sabe, mas eu penso que ela está bem.
porque Deus é conforto, é amor. Deus ama todos, os bons, os ruins, mas aqueles que pedem e confiam nele, eu tenho certeza, tenho assim, certeza, certeza, a gente não tem, mas eu acredito que ela está no bom lugar. Assim como todos nós, quando chegar a nossa hora também, se a gente pedir perdão a Deus pelos nossos pecados.
Ele pode nos acolher também no reino dos céus. Estamos aqui só de passagem. Da nossa família de oito irmãos, já foram cinco. Agora só tem três. Eu, minha irmã e meu irmão João e minha irmã Maria. Pois é isso. Estou dando esse depoimento porque com certeza ela ia ficar muito feliz.
Ela gostava muito de conversar, de ser uma pessoa comunicativa, uma pessoa amiga. Se ela puder, que a gente não sabe como é outra vida, e se desiste de outra vida, espírito, ela deve estar bem feliz.
Essa é uma obra de Joao Jacarandá, que chelou com colaboração de pesquisa de Valdira Medeiros, voz de Joao Jacarandá e Francisca Medeiros e cooperação de áudio de Jandélia Andu Potiguara. Créditos do audiolivro. Produção Cia Apocalíptica. Desenho de áudio, som de cena.