Podcast com Camila Genaro - Fresta 2026
Esse podcast faz parte da programação da 5ª edição do Fresta - Jornada Literária Apocalíptica.Neste episódio Kiara Terra recebe Camila Genaro, contadora de histórias falando sobre a formação cidadã a partir da Contação de Histórias e os seus desdobramentos.
Kiara Terra
Camila Genaro
- Formação cidadã através da contação de históriasImportância da imaginação · Mudança de paradigma na leitura · Diversidade na narrativa · Identidade caissara · Feminismo e narrativas
- Calendário Fuvest 2027
Em um passado recente, a pergunta era até quando? Permanecíamos vivos nas fissuras, nos espaços vazios, nas lacunas que habitavam as perguntas que alimentavam nossa espera. Movidos pelo desejo de escuta, vestíamos palavras e transformávamos a fresta num elo, numa rede de pertencimentos.
Depois, aos poucos, voltamos a respirar a plenos pulmões. Cantamos, escrevemos, encontramos quem esperava toda sorte de troca boa. Seguimos juntos, com a força redobrada, transformando saudades em poesia. Nossa busca passou a ser encontrar o ponto de ruptura e, diante dele, sem economia de afeto, recobrarmos a nossa integridade. Existir junto fez mais sentido. Encontramos as histórias que nem sequer imaginávamos que existiam.
Ali a gente soube que a maior tecnologia que existe é a imaginação, que somos florestas, somos cidades, somos rios inteiros, que cada vez que meninas e meninos brasileiros aprendem a ler, seja com os olhos ou a ponta dos dedos, eles tomam seus destinos nas mãos. A cultura.
É a rede mais potente de um povo. E o dia em que já não nos lembrarmos disso, teremos nos tornado um deserto débil de seguidores. Em 2026, a fresta completa cinco anos. Essa jornada que começou online, saiu das telas, se tornou híbrida, tendo a acessibilidade como premissa cada vez mais forte.
Serão 70 horas de programação intensa, trazendo uma celebração da leitura para além dos livros, do viver para além das telas e do sonhar para além do sonho. Bem-vindes à nossa fresta, que ela nos guia a quem somos e ao que realmente importa.
Pessoal que está em casa, é com muita alegria que eu recebo minha amiga Camila Genaro, que é uma contadora de histórias, que tem muito tempo de estrada, assim como eu, que faz leitura crítica, que escreve para adultos, escreve para crianças, faz participação em programas de rádio, enfim. Uma pessoa que leva a história para muitos lugares diferentes. Hoje a gente vai conversar sobre a formação cidadã a partir dessa atividade que é a narração de histórias.
e todos os seus desdobramentos. Camila, querida, muito bem-vinda.
Muito obrigada. Nossa, que honra. Que honra ser convidada para participar desse podcast com você. Porque a gente é amiga, né? Além de tudo, nós somos amigas. E eu acho que a gente nunca teve uma conversa tão próxima assim a respeito do nosso ofício, né? A gente conversa sobre muitas coisas, mas conversar sobre o nosso ofício. Mas antes de tudo, posso fazer minha autodescrição? Isso, eu ia te fazer esse vídeo.
me escutando, me vendo através dos seus ouvidos. Eu sou uma mulher branca, de cabelos grisalhos, que hoje está preso com o rabo de cavalo. Eu estou usando um óculos amarelo com bolinhas pretas, uma camiseta branca e uma corrente, um colar que tem uma medalha redonda. No meu fundo, no fundo da minha tela, são quadros com frases escritas numa parede branca.
Pronto, eu tô aqui no meu quarto, não dá pra ver muito bem o que tem atrás de mim, eu tô no lugar mais silencioso da casa, eu falo aqui da Itália, e agora a gente tá gravando à tarde, é manhãzinha no Brasil e à tarde aqui. Eu sou uma mulher branca de 1,64m aproximadamente, um cabelo preto, curtinho, tô com uma regata preta, um brinquinho pequeno, e hoje, só hoje, eu não tô com meu batom vermelho, que eu sempre coloco.
Hoje nós não estamos de batom, nem maquiadas. Olha só. Isso é inédito. É inédito. A gente está muito pronta, mas talvez a gente esteja com uma abertura para uma conversão um pouco mais íntima dentro da nossa casa, para quem está ouvindo a gente. Essa conversa vai chegar a muitos lugares, porque está numa edição do Fresta comemorativa, muito especial.
Ká, me conta um pouco, conta um pouco para quem está ouvindo a gente, acho que o festival serve muito para isso, para trazer uma voz de quem já tem bastante tempo de estrada, para contar das trajetórias possíveis através da palavra. Me conta como é que foi essa transição da Camila, que fazia um outro trabalho, eu não vou dar muito spoiler, porque eu já sei essa história, mas conta para quem está ouvindo, como é que as palavras te encontraram, como é que a coisa aconteceu?
Então, quando eu tinha mais ou menos uns 14 anos, eu comecei a fazer magistério. Na época, se fazia magistério para estudar, para ser professora. Sim. Hoje temos outros cursos para isso, mas antigamente era o magistério. E aí, durante o magistério, eu descobri um curso de contação de história.
Eu falei, mas meu Deus, vou lá ver o que é isso aí. O que é isso, né? E fui fazer o curso. Era um curso do Proler, na época, que estava chegando em Santos. Eles estavam saindo, criando raízes no restante do Brasil. Está indo no Rio de Janeiro e criando raízes em outros lugares. Fui em Santos, que é onde eu moro. E aí eu fui lá fazer esse curso. Cheguei no primeiro dia, eu super tímida, muito tímida.
Eu tinha um pânico de falar em público. E eu falei, meu Deus, o que eu estou fazendo aqui? Porque no primeiro dia já era para interpretar uma história, fazer vozes, não sei o que. E eu falei, não vai dar certo isso. Só que eu sempre fui do palco, porque eu dançava.
Eu dançava Flamenco, eu dançava em Valé, eu dançava em Valé. Então, eu sempre fui no palco, mas eu era no palco, aquele palco que eu tava ali, fazia, né, minha performance e, né, obrigada, é isso aí, agradece, vai embora. Mas aí eu descobri um outro palco e eu gostei desse palco.
E aí, mais ainda, as pessoas que estavam ao meu redor começaram assim, mas gente, você sempre foi contadora de histórias aqui do nosso meio, você sempre fez caras e bocas para contar histórias, sempre foi uma contadora de histórias. Então eu descobri, naquele curso, a contadora de histórias que já existia dentro de mim.
Ok, ele podia sair para o mundo. E aí eu comecei a usar a contação de histórias como uma ferramenta de aprendizagem na sala de aula, como se falava antigamente. Como uma ferramenta de aprendizagem para a sala de aula. Então eu era a professora que contava histórias, né? Para ensinar, né? Para ter essa relação de ensino e aprendizagem. Então eu contava histórias para ensinar matemática, contava histórias para ensinar história, para geografia, para não sei o que. Eu contava histórias para ensinar.
Até que as pessoas começaram a ver que eu fazia isso e começaram a me convidar para fazer isso, do restante da escola. E depois, fora do muro da escola. E eu comecei a ganhar dinheiro, eu faço isso, gente. Lá em 97, eu comecei a...
Não sabia o meu primeiro cachê. É a partir daí que eu conto. Inclusive, os meus anos de estrada, né? Da contação de história. A partir do meu primeiro cachêzinho ali, né? Em 1997. E a partir de então, eu levei a contação de história e a sala de aula durante um tempo. Até que as histórias me chamaram. Fizeram um chamado. E eu atendi esse chamado.
Não foi fácil atender. De verdade, não foi fácil. Porque a gente fica entre o certo, o estável, o confortável, e o sonho, o desejo. Mas o incerto. Não sabia. Na época, ninguém falava de contação de histórias.
Não, a gente não tinha um de internet que aproxima os outros narradores e nem nada. Mas eu fui descobrindo que existia um mundo lá fora que tinha pessoas que faziam a mesma coisa que eu fazia. E eu queria estar junto com essas pessoas, sabe? Eu queria aprender com elas, eu queria estar junto nos encontros. E isso a sala de aula não me permitia.
Até que eu adoeci, assim, de verdade, por conta de tudo, né? De sistema. O sistema te engole realmente da educação. O sistema te engole se você não tiver ali muito num propósito. E eu adoeci. E nesse período, eu já era mãe do João Pedro. O João Pedro fez um desenho.
De uma mulher chorando. E eu disse assim, ai filho, coitada, ela tá chorando. E eu disse assim, é você. Ai, ai, ai, que dor no coração. Aí caiu a todas as minhas fichas do tipo, qual a mãe que eu quero ser. Ai, eu quero ser a mãe que seja exemplo pros seus filhos. Eu quero ser a mãe que vive chorando, doente, cansada.
Ou eu quero ser a mãe feliz. Eu quero ser a mãe... E aí eu decidi, então, sair da sala de aula. Com o empurrão, inclusive, da minha diretora. Aí eu sempre conto essa história, porque a diretora virou pra mim quando eu voltei de licença, porque eu fiquei realmente de licença, fiquei doente. Quando eu voltei da licença, ela disse assim, o que você tá fazendo aqui ainda? Vai voar, passarinho. Troca os seus óculos. Que é uma das frases que eu uso, inclusive, em um dos livros meus no final. Troca os seus óculos.
E eu disse, você vai me mandar embora? Ela falou, com toda certeza. Aí, todo mundo me achando extremamente louca, né? Óbvio, porque, né? Tinha uma vida de adulto, né, gente? Boleto, filho, alugar. E aí, você fala, hum. E aí, todo mundo imagina, que maluca. Como assim, gente? Do que essa mulher vai viver? Como assim? Mas as portas foram abrindo e eu fui entrando. Eu não sabia direito onde ia dar.
confesso, mas eu tinha muita certeza do que eu queria. Eu queria ter a caixa surpresa, que ia sair objetos de dentro da caixa surpresa e eu ia contando histórias com objetos e eu sabia o que eu queria. Isso me levou, inclusive, para a televisão.
eu nunca imaginei um dia apresentar um programa de televisão contando histórias. E isso me levou pra televisão e me levou pra muitos lugares, assim. E foi massa demais, assim. E aí me fez encontrar pessoas incríveis também pelo caminho, né?
É muito louco porque a gente fica sempre nesse pêndulo do que é a segurança e do que é gerir o próprio desejo na vida e fazer trabalhos que façam sentido e tudo mais. Existe um estigma muito colocado de que o artista é a pessoa que não vai ganhar dinheiro, que a arte é difícil.
Existe um estigma muito grande e a ideia de que o artista não vai ganhar dinheiro, que o artista vai ser sofrido e fazer arte é difícil no Brasil. E se a gente compra, a gente ganha só uma justificativa para ficar parado no mesmo lugar.
Existem muitas histórias, existem muitas possibilidades e existe muita transformação em curso. A gente tem um país hoje sendo transformado literalmente pelas histórias. Acabou de sair uma pesquisa dizendo que as pessoas que mais leem no Brasil são jovens negros periféricos, principalmente mulheres. Quem lê hoje são mulheres negras brasileiras periféricas. Isso é uma mudança de paradigma enorme. Quer dizer, as mudanças estão em curso.
e a gente precisa se colocar na estrada. Eu tenho um amigo que diz, bota a mão que a vida se apresenta. Então é um pouco isso. Em algum momento a gente tem que botar a mão. E que bom que você botou, Caio. Chegou até aqui e a gente está tendo esse papo tantos anos depois, nesse tempo tão bonito, que é o tempo de agora, onde a gente pode olhar de trás para frente, todas as coisas que aconteceram e tudo mais. E sobre o tema...
sobre a formação cidadã através das histórias, eu queria que você falasse um pouco como é que esse tema te pega, por qual viés você olha? Lá atrás, quando eu comecei a contar história e as pessoas me entrevistavam e falavam assim, por que você conta história? Eu já tive muitas respostas para essas perguntas. Ah, eu conto histórias para encantar, eu conto histórias para... Hoje não.
Hoje eu percebo que a gente conta histórias para humanizar, para a gente não esquecer que nós somos humanos, para que a gente não esqueça da nossa cidadania. Não que as histórias tenham esse dever. A história não tem um dever disso. Não tem, né? Não, não tem.
Mas as histórias nos permitem enxergar por diversos prismas, por diversas bolhas, através dos algoritmos, sabe? Porque o algoritmo só dá para a gente o que a gente consome. Então, se a gente vai consumir um lado, o algoritmo só vai entregar esse lado. E as histórias não. Elas permitem que a gente passeie por todos os conflitos que são humanos.
que são inerentes da gente. Então passa por todos os sentimentos, por todas as emoções, por todos os caminhos, como a Chatelzinho fala pra gente. Então, assim, as histórias, elas permitem que a gente enxergue o humano que tá ali. E aí, permite que a gente fale aquelas duas palavrinhas mágicas, o eu também.
Porque o eu também traz essa questão do pertencimento, né?
E aí, para além de tudo isso, claro, tem a ampliação de vocabulário, tem o desenvolvimento da imaginação, tem a organização do pensamento narrativo, tem a elaboração dessas emoções todas que eu falei para vocês antes. Tem tudo isso. Porque assim, a gente é humano, e aí antes da gente ensinar a ler as palavras, a gente ensina a ler o mundo.
E não tem coisa melhor para ensinar o mundo do que através das histórias que esse mundo conta? Porque desde que o mundo é mundo, se conta história. Ali, na pedra desenhada e depois através da palavra e depois da escrita, desde que o mundo é mundo, se conta história. E as histórias fazem parte da gente.
Quando a gente acorda de manhã e fala assim, bom, vamos lá, o que a gente vai viver hoje? E a gente encontra as pessoas na rua, e cada uma depois conta as suas histórias. A partir do momento de, nossa, hoje tá calor, né? Menina, tá calor. Olha, porque hoje a gente tá aqui nessa fila, e aí as pessoas se abrem pra contar histórias das suas vidas, numa fila. Porque nós somos seres de histórias. Nós somos vestidos de histórias.
o tempo inteiro. E a história como essa formação humana, essa formação cidadã, ela está ali, ela está intrínseca, sabe? Eu não vejo como não relacionar a contação de histórias como formação humana.
E se a gente pensar hoje, essa formação está passando por um momento muito delicado. Hoje a gente tem crianças que não contemplam, crianças que estão o tempo inteiro nas telas, e as telas fazem uma coisa muito cruel, que é entregar só um lado, como você disse, o algoritmo, só um ponto de vista.
Quando a gente conta histórias, ouve histórias, e se abre para uma coisa que a gente sempre fez, que é a vida para além das telas, a gente tem a chance de enxergar por outros paradigmas, por outras cosmologias. Eu queria te contar que quando eu vim para cá, para esse lado do mar, fui morar em Portugal, eu tinha uma visão do que era contar histórias e do que era o meu repertório que se transformou completamente.
porque eu descobri como mulher estrangeira que eu era uma mulher branca, privilegiada, da Zona Oeste, paulista, do centro financeiro do país. Isso eu já tinha uma pista muito importante quando comecei a viajar o Brasil. Mas sair do Brasil me fez perceber o quanto o meu repertório era majoritariamente construído por histórias europeias. Ou pelas ditas histórias de tradição oral, que são histórias que têm uma forte raiz europeia.
que, claro, encontrou a cultura brasileira, negra, indígena, mas que tem uma diretriz europeia muito centrada, e aí quando cheguei aqui, eu ouço as histórias aqui, as que são as tradicionais de oralidade brasileira, e vejo a diferença. A diferença é mínima. Elas são histórias europeias que circularam um pouco pelo Brasil. Eu quanto...
Existem outras maneiras, outras histórias, outras leituras absolutamente diferentes e muito relevantes, que talvez sejam as verdadeiras histórias clássicas brasileiras. E o quanto essas histórias estão suprimidas ali no dia do folclore, na escola.
é a nossa da gente dizer não gente, não é folclore porque folclore é um nome horroroso folclore é o nome do gringo que vem e fala, olha, uma cultura popular que bonitinha, ai tão exótica tão folclórica e existe um juízo de valores imenso, uma diferença entre a historinha folclórica e a história clássica, porque a história clássica merece entrar no currículo diariamente e folclore não, folclore é uma coisa de segunda categoria só em agosto né tchau
Deixa um dia só para isso, para essa coisa pitoresca que é a história. Só que não é pitoresco, é nosso. E aí reconhecer isso e silenciar essa voz eurocentrada para ouvir quem realmente conta que hoje são corpos negros, são corpos indígenas, são pensadores de outra cosmologia que não é uma cosmologia branca, urbana, eurocentrada, é muito importante.
tem sido para mim uma descoberta enorme nesse sentido. E quando a gente fala em formação cidadã, a gente precisa, talvez, ampliar, abrir, quebrar esses muros e olhar para dentro do que é esse país continental, que é o Brasil, e como se posiciona em relação ao mundo, inclusive. Acho que a gente está num momento muito de virada de chave com essas outras vozes tomando lugar.
o acesso à universidade por pessoas negras, indígenas, e os livros que começam a ser traduzidos, a gente tem uma mudança enorme em curso. E é muito bonito a gente visibilizar isso, muito importante. Acho que os saraus, os islãs, as histórias em lugares onde a coisa faz sentido de dentro para fora. Eu queria saber um pouco como é que você vê essas histórias e a sua escolha de repertório.
E esse cenário hoje brasileiro? Eu passei por esse caminho que você fez também. Qual a diferença? As duas aqui querendo conversar. Eu tenho duas cachorras. Elas estão querendo conversar também. As duas querendo conversar. E aí, eu passei por esse caminho que você fez. Eu comecei a tentar entender quem eu era nesse mundo.
Porque eu contava as histórias, como você falou, as ditas clássicas, as ditas de tradição oral, que alguém foi lá e recolheu essas histórias, e eu contava. Só uma interrupção. Esse alguém, quase sempre um homem, um heterossexual, paulista, ou do sudeste brasileiro, que vai lá na fonte, escreve, ganha direito autoral,
E não dá a fonte, não diz de quem ouviu. Geralmente. Você é autor desconhecido. É. Exatamente. E era nessa fonte que a gente bebia, né? Até porque o acesso era diferente, né? Os nossos acessos eram diferentes. E aí, ainda era nessa fonte que a gente bebia. E quando eu comecei a viajar, eu chegava na cidade com três histórias e voltava com seis, com sete.
porque os lugares também me contavam as suas histórias, as suas lendas, os seus mitos, enfim. E aí eu falava, uau, histórias de onde eu vivo. Eu comecei a cavucar, então, histórias Baquite Santos e histórias caissaras. E eu fui entender, inclusive, a minha identidade caissara.
O que é muito maluco, porque a gente vive numa cidade, você fala assim, meu Deus, tem uma história muito além da chegada e da colonização, e a gente precisa cavucar essa história. E eu comecei, então, a buscar essas histórias daqui da região. Então, eu comecei a contar muitas histórias caissaras.
E também já contava as histórias africanas, as histórias de Yorubás, principalmente, porque faz parte da minha raiz, da minha religião, do meu sagrado. E já contava essas histórias. Mas sempre com a preocupação das pessoas falarem assim, ai, é macumba, né? E eu escutava isso também. Ai, Camila, você não vai contar macumba aqui hoje, né? Era desse jeito.
E aí, eu comecei a fazer, então, adaptações. Hoje eu olho e falo assim, ai meu Deus, eu fiz isso. Mas assim, fiz.
para que chegasse em algum lugar, de alguma forma, as histórias de tradição yorubá, os mitos yorubá. Da mesma forma que a gente fala de Poseidon, da mesma forma que a gente fala de Thor, da mesma forma que o cinema fala de vários heróis, e que são partes da mitologia grega, romana.
Do mesmo modo que a gente fala de Santa Clara, de São Francisco, de histórias... Eu queria muito levar isso. Eu queria muito falar sobre. Muito. E aí eu fui encontrando brechas para poder contar, sabe? Aquele negócio de dizer sem dizer.
E é muito ruim, isso que eu estou falando já faz muito tempo. E aí eu estou introduzindo no repertório ali, o pescador e a sereia, e falando de formas diferentes e tal, até que não teve jeito, gente.
Eu falei, não, eu preciso incorporar realmente essa identidade, a identidade caissara, a identidade da Camila, mãe santo da Camila que vive dentro do axé.
Eu vou incorporar isso na verdade também, na minha narrativa, porque faz parte de quem eu sou. E faz parte da minha formação humana. Faz parte de quem eu sou. Mas assim, teve resistência, tem até hoje, né? Resistência, muita resistência. Então, mas o meu repertório, ele foi construído a partir dessa vivência mesmo, sabe? De perceber que as histórias eram além dessas histórias que a gente bebia lá atrás.
da vivência era outra. E muito a partir da minha vivência mesmo de terreiro. Muito a partir da minha vivência do chão mesmo, do terreiro. E muito a partir das histórias que eu encontrava aqui na minha região, dos pescadores, das pessoas que viviam do mar. Muito a partir desse momento.
Hoje, isso quer dizer que eu não conto outras histórias hoje? Conto também. Conto, gente, porque a gente conta de tudo. Eu costumo dizer que todas as histórias cabem, todas as histórias... Um contador de histórias pode contar todas as histórias? Pode. Mas nem todas cabem na boca de um contador de histórias. Eu acho que a gente tem que saber qual a história que cabe na nossa boca.
E olhar que existem múltiplas vozes. Todas as vezes que uma única voz está contando todas as histórias, a gente está perdendo. O único povo está contando todas as histórias, a gente está perdendo. Um único ponto de vista, uma única cosmologia, um único modo de ver. Eu acho que...
O próprio compromisso com o ofício de contador de histórias é um compromisso com diversidade, assim, ao meu modo de ver. Acho que tem duas coisas que, para mim, são muito diretrizes. Se eu conheço um contador de histórias que quer contar todas e não silencia...
para que outra pessoa conte uma história que faz muito mais sentido dentro da sua história? Vou dar um exemplo, para ser mais objetiva. Histórias do povo negro. Se tem uma contadora de histórias negra, é ela que vai contar. Não sou eu com essa cara branca. Agora, se ela não tiver, eu conto.
Entende? E aí eu preciso não ir, não ir, ó, que há paz em não ir, pra que ela possa ir no meu lugar, porque a voz dela, o corpo dela, a história dela, a ancestralidade dela possa ser ouvida. Tem esse viés e tem um outro viés, que é, poxa, eu não respeito muito quem não gosta de criança, sabe? Eu preciso confessar isso pra você. Um contador de histórias que diz assim, ah, eu conto histórias e tudo, mas com criança, eu não respeito.
Porque eu acho que os nossos mestres nas narrativas são aqueles que estão fazendo um trabalho de olhar o mundo pela primeira vez. É quem está vivendo as experiências iniciais. São eles, os nossos mestres maiores. Então, alguém que não respeita esse lugar, que não é o lugar de um vir a ser, não. É um lugar que é pleno. A criança já é tudo, não é que ela um dia vai se tornar nada. Ela já é onde ela está.
um grande mestre e alguém que produz cultura acerca do mundo, acerca de si mesmo. Então, eu acho que essas duas coisas são muito importantes quando a gente pensa nas histórias enquanto um espaço de formação cidadã. Amada, agora me conta um pouco sobre o trabalho com adultos, que eu sei que você faz também.
Sim, e muito também a partir das minhas experiências e das experiências das mulheres que estão à minha volta, assim, sabe? Quando a gente vai ficando mais velha, hoje eu estou com 45 anos, a gente também começa a encontrar, a encontrar, até encontrar, melhor dizendo.
os nossos feminismos e as nossas feminilidades, e as nossas mulheridades, né? E aí, lá em 2018, 2018, eu fui convidada para participar num programa de rádio, contando histórias num programa de rádio, A Hora do Sabado. E, então, toda semana eu estava lá contando histórias nesse programa.
E escutando muitas histórias de mulheres, né? Através das colunas da rádio, através das entrevistadas. O Hora do Sabá é um espaço de visibilidade da mulher arteira e fazedora. Então, assim, é um programa feminista, uma revista colaborativa feminista. E aí eu comecei a ter muito mais proximidade. E esvazer mesmo essa reconexão. Porque quando a gente é pequena, a gente vai lá, a gente larga.
os nossos feminismos, né? É a tal da jornada da heroína, que a gente se descola da mãe, descola do feminino, descola de tudo isso, pra poder chegar pertinho de uma identidade masculina, de ser a guerreira, de ter a força, de conquistar o mundo, e aí chega uma hora que você fala assim, não é nada disso.
Eu não quero chegar, eu não quero ser a guerreira. Guerreira, deixa pra Xena ser guerreira. Deixa a Xena. Não quero ser guerreira. Não quero ser esse título. Não quero ter... Você começa a fazer esse reencontro com esse feminino que você abandonou lá atrás pra dar conta de outras demandas. E eu comecei a fazer esse reencontro.
Eu comecei a escrever muito timidamente, contos curtos. Contos, assim, muito tímidos, assim, em casa, deixava quietinho. Até os dias que eu coloquei no Instagram essas histórias curtas. E aí uma delas viralizou, enfim. E aí nisso, então, se tornou um livro curtinho também, pequeno. Chamamos Mulheres que Costuravam Silêncios e Outros Contos.
Que falam muito da nossa jornada, assim, sabe? Das nossas sombras, dos nossos encontros e reencontros. E sempre encontrando uma sábia, uma mais velha, que vem aqui, dá a mão e resgata a gente.
e fala assim, olha, então, dá a luz, né, pra gente, assim, e essa mais velha, essa sábia, às vezes, pode ser a gente mesmo, inclusive, né? Então, é... dos nossos encontros do nosso passado com o nosso presente, aí a gente entra no lugar mais quântico da história, mas, assim, é... E aí eu comecei a gostar de fazer isso, sabe?
Eu gostei, eu gostei, porque eu comecei a ter respostas muito legais das mulheres que me ouviam e me leem. E eu comecei a, inclusive, escutar essas histórias delas e também transformar em microcontos ou minicontos, assim, para colocar no Instagram ou então para juntar, para, de repente, fazer mais uma lição do livro. Mas eu gostei muito disso, assim.
De encontrar e reencontrar. Porque é a história lá do eu também, que eu falei lá no começo, né? Nossa, gente, eu tô com 45 anos, eu tô passando por isso, isso, isso, isso. Ah, eu também. Ah, porque a perimenopausa tá me deixando enlouquecida, porque eu tô com névoa mental, porque eu tô com isso, porque eu tô com calorão, porque eu tô com secura, porque eu tô... Eu também.
Ah, porque eu tô com um problema, assim, eu também. O tal do eu também, sabe? Então, eu também gosto de escutar essas mulheres. E a partir de então, também tô fazendo rodas de histórias com essas mulheres, né? Pra gente dividir essas histórias. Tá sendo tão incrível, tá sendo tão... A gente vai se descobrindo, né? Através do outro, e o outro vai se descobrindo através da gente.
Eu acho que esse é um poder da coletividade, né, cara? Ser mulher sozinha é muito difícil, acho que ser mulher é uma coisa que faz muito, muito, muito, muito bem para todo mundo e é muito fortalecedor. E uma coisa bonita desse festival é que ele tem muitos coletivos.
Tem um outro podcast que eu fiz também, que foram três participantes, de meninas que fazem um trabalho com mulheres, e é incrível. Olhem os podcasts depois. Mas tem um caráter muito coletivo no próprio festival, na ideia de chamar todo mundo. Ele é construído pela Companhia Apocalíptica, que é uma companhia grande, que é um coletivo grande e consistente.
do interior paulista e que trabalha muito no sentido de visibilizar os artistas da região, e nesse festival, enfim, para além da região, mas também como uma das diretrizes principais, que é dar voz e dar um olhar para o que está sendo produzido em Rio Preto e cidades próximas. Eu queria te agradecer, amada, queria te agradecer a conversa, a presença, dizer que você, inclusive, tem uma parte do festival para lançamento de livro.
Seria muito. É colocar o livro, talvez na próxima edição, como um lançamento dentro do festival. Vamos saber isso. Hoje é noite. Hoje, quando eu digo hoje é noite, porque a gente está gravando no dia 24 de abril.
E no dia 24 de abril, vai acontecer hoje à noite, e para você que vai escutar a gente depois, aconteceu, o lançamento das Mulheres que Costuravam Silêncios e Outros Contos na plataforma, no YouTube, da companhia, do Festa, da Companhia Apocalíptica. Tota, vai ser?
em tempo real, dá tempo de assistir que é hoje à noite, pra quem tá ouvindo depois lá no YouTube, porque vai ficar tudo lá vai ficar esse registro lindo e depois vocês podem ter acesso ao livro enfim, lá vocês encontram todos os caminhos pro livro chegar até vocês e é isso querida, muito obrigada e a gente segue em contato tá bom, Lita? vamos sempre vamos sempre
E pra quem tá ouvindo a gente, fiquem atentos às próximas edições do podcast e a essa edição do Festa que tá bonita demais. Até a próxima. Quer fazer mais alguma falinha, cara? Faz um agradecimentozinho. Eu vou embora, então. O que eu vou fazer?
Todo mundo do festival, muito obrigada pelo convite. Todo mundo que está ouvindo, muito obrigada pelos ouvidos atentos. Que as histórias sejam um caminho de humanidade, como eu disse para vocês lá no começo. Que a gente se encontre através das histórias. Que a gente faça um lugar bonito de se viver. Eu tenho muita esperança nesse lugar, sabe? Eu acho que é por isso que eu conto história até hoje, porque eu esperanço.
Eu esperanço nessa juventude que está vindo, que está fazendo coisas bonitas, produzindo cultura nas praças, nas ruas, com seus slams, com as suas poesias. Eu tenho com a produção da periferia, que está chegando nos grandes centros e tendo esse lugar, sabe? De pertencimento também. Isso é formação humana. Isso é formação cidadã, sabe? E é para isso. É para isso que eu estou vivendo hoje, para ver essa transformação.
essa transformação da nossa sociedade como a gente conversou até agora assim muito obrigada pelo convite