Episódios de Isto é o Povo a Falar

Paulo Teixeira e Remy Gorga Neto - Cooperação global benefício local

06 de maio de 202650min
0:00 / 50:00

A cooperação é essencial num mundo onde há cada vez uma maior polarização e onde as verdadeiras necessidades dos povos não encontram respostas mesmo a nível governamental. Ainda há tempo para inverter este ciclo?

Participantes neste episódio3
J

João Nuno Pinto

Host
P

Paulo Teixeira

ConvidadoPresidente da direção da Cooperativa do Povo Portuense
R

Remy Gorga Neto

ConvidadoPresidente da Organização das Cooperativas Brasileiras no Distrito Federal
Assuntos6
  • Proteção do agronegócio brasileiro no acordo UE-MercosulFeira de tecnologia do agronegócio · Seminário Brasil-Portugal de integração agroalimentar · Acesso ao mercado europeu via Portugal · Acordo Mercosul-União Europeia
  • Fórum Portugal-Nação GlobalOrganização e objetivos da cimeira · Cooperação Portugal-Brasil · Resiliência geracional de cooperativas · Inovação e inteligência artificial no cooperativismo
  • Impacto do cooperativismoDesconstrução de ideias equivocadas sobre cooperativismo · Cooperativas como solução transversal · Diferença entre projetos de governo e projetos de Estado · Formação para membros de cooperativas
  • Cooperação interinstitucionalNeutralidade política e ideológica do cooperativismo · Parceria entre governos e cooperativas · Frente Parlamentar do Cooperativismo no Brasil · Agenda Institucional do Cooperativismo Brasileiro
  • HabitaçãoProblema da habitação em Portugal · Exemplos de sucesso de cooperativas habitacionais · Gestão de condomínios por cooperativas · Especulação imobiliária e cooperativas
  • Língua PortuguesaPortugal como porta de entrada para o Brasil na Europa · Rede das Comunidades de Língua Portuguesa · Influência histórica portuguesa no mundo · Alianças transnacionais de povos
Transcrição136 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Estamos aqui para dar voz ao povo. Em defesa dos cidadãos. Pela dignidade humana. Todos temos deveres, mas também todos temos direitos. Será que existe justiça? Isto é o povo a falar.

Olá muito, boa noite e bem-vindos a mais um Isto é o Povo a Falar. O programa está consigo de segunda a sexta-feira, neste mesmo horário. A nossa emissão é sempre em simultâneo aqui na Coriagos TV e na Rádio Vida 97.1. E o meu nome é João Nuno Pinto, como pode ver em rodapé. É sempre com muito gosto que diariamente, pelo menos...

Nos dias úteis da semana, chegamos até a sua casa com os nossos convidados e os mais diversos temas. Eu costumo dizer que os temas passam desde aquilo que pertence aqui ao burgo até aquilo que pertence à mundo e visão que temos e ao mundo em que vivemos. Hoje, por incrível que tenha...

pareça, estou apanhado num paradoxo. Se é verdade que vamos cruzar o Oceano Atlântico e vamos falar de algo que pertence ao mundo em geral, a verdade também é que o país com o qual nós vamos dialogar faz parte um pouco da nossa família, para não dizer mesmo

faz parte da nossa história. E com isto, creio que vocês já devem ter descoberto, vamos estar a falar um pouco sobre o trabalho de cooperação com o Brasil. Os nossos convidados de hoje é, começo pela casa, Paulo Teixeira, é o presidente da direção da Cooperativa do Povo Portuense. Eu ia dizer a Dega Cooperativa.

E o nosso convidado transatlântico, o Rémi Gorganeto, que é presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras no Distrito Federal. O Distrito Federal é Brasília, capital do nosso antigo Veracruz.

E se não te importas, não é que eu não te queira ligar, mas vou começar pelo Rémi. Rémi, nós estamos aqui a caminho de uma data, ou a preparar a organização de uma cimeira de cooperativas de língua portuguesa, verdade?

Sim, estamos a preparar esse evento tão importante para o cooperativismo lusófono, um evento que vem de uma iniciativa aqui da nossa parceira, nossa amiga cooperativa do povo portuense, e que no ano passado nós tivemos a oportunidade de realizá-la em Brasília.

E foi um evento importante, como eu disse, porque nós trazemos nesse evento uma ampliação das discussões relacionadas ao cooperativismo nos países de língua portuguesa. Então, aí temos várias temáticas, vários desafios, grandes oportunidades para que a gente possa...

entrelaçar culturas, entrelaçar interesses, necessidades, para que o cooperativismo possa, dentro da sua ideia de princípios e valores, unir os povos e trazer oportunidade e melhoria de vida para as pessoas.

Rémi, acha que no tempo em que vivemos, e já vou depois ter contigo, no tempo em que vivemos com estas tensões, até dentro daquilo que são, às vezes, alianças já com décadas ou mesmo séculos, o cooperativismo faz cada vez mais sentido?

cada vez mais sentido. O cooperativismo é um modelo de organização econômica e social que existe há quase 200 anos e vem a cada período se renovando para atender às necessidades das pessoas e se adaptando aos novos cenários políticos e à geopolítica mundial.

E nesse momento que a gente vive de grandes transformações, o cooperativismo tem mostrado a maturidade para se modernizar e seguir sendo um modelo de negócio, um modelo de soluções para as necessidades e as demandas das pessoas em todo o mundo.

E nos países lusófonos, tenho certeza, junto com o Paulo, a gente tem discutido muito isso, o cooperativismo é uma linha que une e pode trazer um bloco unido de trabalho em cooperação para o desenvolvimento.

desses países, das pessoas e da sociedade. Muito bem. Paulo, eu sei que são vocês que estão a organizar esta Cimeira, mas eu quero pegar em algo que o Rémi disse, que é o amadurecimento e, de alguma forma, também a adaptação do cooperativismo ao tempo em que vivemos.

Será que também ainda é necessário, de alguma forma, desconstruir algumas ideias equivocadas que existem na cabeça das pessoas, das sociedades, sobre o que é o cooperativismo?

Se estás a falar de uma sociedade portuguesa, sim, claramente, decididamente, aliás já falamos disso algumas vezes, as cooperativas são para nós uma forma de intervenção e de melhoramento até do que é o setor privado. São uma forma de melhor organização, de melhor dar solução aos problemas das pessoas e melhor resolver problemas de trabalho das próprias pessoas porque se podem organizar.

De facto, são uma solução transversal, porque podem e permitem a convivência de pessoas do mais diferente tipo de ideias políticas, religiosas, sociais, o que lhe queira chamar, mas também e sobretudo são um caminho que depois se vai descobrindo. Há muito para além do que é a ideia que nós temos das cooperativas, que não se reduzem a pensarmos nela e pensarmos em empresas.

ou pensarmos nelas e pensarmos naquela imagem má que tu gostas tanto, que é de que a enxada é da cooperativa. É uma coisa que para as cooperativas em Portugal ainda hoje pagamos esse preço. Mas quando tiveres a oportunidade de ir ao Porto, vais ver que vamos lá ter um quadro com uma enxada a dizer que a enxada é da cooperativa. Resolvemos fazer isso. Só mesmo.

relembrar esse momento icónico da história portuguesa. Nós fizemos essa surpresa ao nosso presente da mesa, que é o Manoel Sola que gosta muito dessas coisas, então nós roubamos-lhe uma enxada, porque a palavra foi mesmo essa, roubamos-lhe a enxada que ele levou para compor o jardim da nossa nova sede e fizemos daí um quadro a dizer que a enxada é da cooperativa Manoel Sola.

Muito bem. Olha, que passos é que estás a dar? Quais são as tuas expectativas? E o que é que esta cimeira de novembro, creio eu, vai e pode oferecer?

Nós estamos a dar passos, primeiro, no amadurecimento de uma relação de uma parceria que é única, que é exemplar, que é a parceria que temos com a OCBDF, em que, de facto, nós conseguimos comunicar e comunicar Portugal com o Brasil não é, sim, propriamente, uma coisa muito fácil, como ambos já chegamos à conclusão em várias situações que nós achamos que estamos a ser entendidos e não o estamos. Por isso, o que estamos a fazer é, primeiro, definirmos um tema, além de uma data, que é 11, 12 e 13 de novembro, no Porto.

O tema será passado, presente e futuro, o modelo de aprendizagem do cooperativismo fala português, e vai ter coisas bastante engraçadas. A primeira, que vai ser um encontro que será o terceiro, o primeiro e o terceiro ao mesmo tempo, que é o encontro de cooperativas centenárias, cooperativas que têm mais de 100 anos.

explicar-lhes, elas mostrarem-se, perceberem que são importantes para o setor, perceberem que as suas histórias de sucesso, e o Rémi dizia ontem de uma maneira muito feliz, como é que eles ultrapassam a resiliência geracional de se renovarem e se manterem vivas. E a ideia daí é desse encontro, que estará aberto depois para ser assistido por outras cooperativas, fazer daí um livro que será apresentado na semana seguinte.

mas depois estar atento à inovação, à inteligência artificial, às novas formas de organização das sociedades, às novas formas de cooperação que existem e que estão a ser criadas, e não havendo tabus, porque quem fala português sabe que o mundo é a nossa terra, e é a nossa praia, e portanto nós de facto não temos tabus, ou pelo menos foi assim que fizemos os países que temos e que somos todos, em todos os cinco continentes, não.

A Antártida não conta, não é? Aí não há habitantes. Não conta. Não conta. Mas nos outros continentes habitados. E, de facto, a procura é de nós ganharmos...

Alma. Fora relembrar a importância que tivemos no começo de transformações históricas em países tão antípodas dos nossos em termos culturais, como, por exemplo, o Japão. Sim, sim. Como fosse a intervenção portuguesa. Sim, e nós, às vezes, os portugueses deviam viajar mais para o Oriente, porque se alheia percebiam que a imagem que lhes é dita de Portugal, ou que é vendida aqui de Portugal...

nas últimas décadas, não é uma imagem real. Nós somos ouvidos, respeitados, nós somos comunicadores. Até as nossas tradições, que ficaram em locais que ocupámos durante um determinado tempo, não é por isso que foram arrasadas até ao chão. Não foi propriamente quando Roma conquistou Cartago.

Não, não. Aqui não foi preciso destruir nada. No fundo, eu acho que os portugueses percebem que a riqueza, o comércio, e falar com outras pessoas, e trazer e levar coisas, é aquilo que faz a diferença na vida das pessoas. E essa imagem é aquela que queremos procurar transmitir. Não sei se depois adiantamos mais alguma coisa, mas eu queria aproveitar algo. Tu dizes que o Remi disse, que é a resiliência geracional de cooperativas, que já são muito antigas, para apontar para algo.

Aquilo que nós temos visto muitas vezes em democracias liberais, por assim dizer, é que quando eles apresentam, apresentam planos de governo, ideias de governo, mas depois ficam aquém na execução. A cooperativa parece uma fórmula que funciona ao contrário. Identifica uma necessidade e depois coopera e trabalha até aquela necessidade estar resolvida. Será assim?

Tem um pouco disso, fazendo essa correlação que você acabou de fazer com os países e os projetos de governo, que muitas vezes são projetos de governo e não projetos de Estado, então tem um determinado período de execução e se muda o governo, muda todos os projetos. A cooperativa tem uma visão mais perene desse trabalho, porque nasce da necessidade das pessoas.

que necessidades essas não quer dizer que elas sejam atendidas em determinado tempo, mas elas desenvolvem uma atuação para atender as necessidades das pessoas enquanto elas existirem, dentro da atividade que ela realiza. Eu estou a pensar, por exemplo, em cooperativas de habitação, porque é um problema grave em Portugal neste momento.

E aquilo que eu vejo, que eu me recordo até da experiência de alguns amigos meus, é de que alguns deles avançaram com determinados projetos de cooperativas em bairros pensados por cooperativas.

e vivem muito bem, muito obrigado, aquele bairro foi construído e aquilo para o qual se destinava, o fim para o qual se destinava a cooperação aconteceu. Às vezes o que vemos é governos terminar os quatro anos de mandato, e estou a falar em Portugal porque é o que eu conheço um bocadinho melhor, e nada daquilo que são as promessas eleitorais foram realmente resolvidas.

Você tocou e apontou um exemplo de cooperativas que podem ter início, meio e fim, que seriam as cooperativas habitacionais. Mas eu defendo ainda, e lá no Brasil eu defendi essa ideia, de que as cooperativas, ao mesmo tempo que elas têm um projeto que pode ter fim, que é...

concluir a construção e entregar a habitação, a residência para os seus associados, cooperados, ela pode se transformar e continuar na gestão de vários serviços que são comuns daqueles associados que vivem naquele determinado bairro, naquela determinada...

residencial, a própria gestão do condomínio pode ser feita pela cooperativa, compras conjuntos de equipamentos ou de materiais e utensílios que as cooperativas podem continuar fazendo. Eu estou a ouvir o Rami a falar e estou-me a lembrar da minha viagem em outubro de 2023.

Em Israel, nos kibbutz. Kibbutz são um exemplo de cooperativas que cuidam de todo aquele universo ali, daquela comunidade, e de várias formas. As cooperativas habitacionais, elas teriam como dar continuidade aos seus objetivos, pensando, numa forma mais macro, em todas essas atuações e necessidades das pessoas que não se limitam à habitação. Obrigado.

Mas existem outras que a cooperativa pode atender. Muito bem. A pergunta complicada fica para ti, porque se de alguma forma o movimento do cooperativismo tem esta característica, ou seja, independentemente vá do tempo ou da cronologia do objetivo, aquilo só termina quando o objetivo é atingido, por assim dizer, por que é que não há uma maior cooperação entre os governos e as cooperativas?

É uma pergunta difícil, mas a resposta é fácil. Sobretudo porque o setor cooperativo desconhece a sua própria identidade. Na maioria das cooperativas, as pessoas vão como utilizadores de um serviço, não entendendo uma filosofia que tem que estar por detrás do cooperativismo. E por isso, muitas pessoas, e sobretudo...

até falando das cooperativas de habitação, que é um paralelo diferente entre o Brasil e Portugal, enquanto no Brasil se entende que a cooperativa de habitação tem um princípio, uma enfim, as nossas cooperativas, quando foram pensadas, foram pensadas não de uma maneira como nós nos organizássemos, mas como o Estado organizasse com apoios públicos, com isenção de taxas, com dinheiro à construção daquilo, e com os próprios terrenos, aliás, aí até o exemplo de Águas Claras no Brasil é muito claro.

Mas o que é que acontece aí? Acontece que as pessoas, não percebendo que isso é uma filosofia, as pessoas acharam muito bem egoisticamente que tiveram uma casa mais barata, mas a seguir vão vender a casas especulando e ganhando dinheiro na casa e isso explica mais do que muitas coisas porque é que as cooperativas de habitação do fim do início do consulado do professor Cavaco Silva para a frente não têm a força que têm. Porque, de facto, as pessoas foram para ali, especularam, ganharam dinheiro.

e de repente, como o crédito havia em abundância, havia muito dinheiro, as pessoas podiam comprar diretamente as casas recorrendo ao crédito bancário, com todos os desmandos que a banca na altura permitiu fazer às pessoas, tornando-as muito mais endividadas do que deveria ser, e acabou por não conseguir concretizar o valor.

Nós achamos, e há uma coisa que nós achamos lá em cima, e cá embaixo também há muita gente que pensa, que é uma pessoa, quando entra numa comemorativa, devia ter uma formação do que é que está lá, porque é que está lá. E se há cooperativas de habitação que se transformaram exatamente naquilo que tu disse, e no Rémi, nós, à volta do Porto, sobretudo em Matozinhos, tem.

que criaram a residência para os sénios, para quando as pessoas já fossem velhas ficassem lá. Tem as creches, tem a envolvência, tem os jardins, tem espaços públicos que podem utilizar. A partir de certa altura, e nesta altura nós na habitação já começamos a ter isso,

Já começamos a ter cooperativas em que, de facto, são promotores imobiliários que criam a cooperativa, angariam as pessoas, elas ganham dinheiro comprando a casa mais barata, o construtor ganhou logo do início todas as pessoas para aquilo e aquilo não são cooperativas, ou como nós dizemos na brincadeira, são cooperativas não praticantes.

E, portanto, essas cooperativas que nós hoje estamos cada vez mais a começar a ver aparecer, acabam por fazer com que as pessoas não entendam qual é a diferença de irem ao banco comprar uma casa ou de irem comprar por uma cooperativa. Muito bem. Rami, entretanto, lá no Distrito Federal vai acontecer, a breve trecho também, creio eu, um encontro importante que é a AgroBrasília, verdade?

Sim, a Agrobrasília é uma feira de tecnologia do agronegócio lá da região do Distrito Federal, especificamente em Brasília, que já é uma referência, uma feira já consolidada há muitos anos.

E o ano passado, quando nós realizamos lá a terceira cimeira internacional das cooperativas dos países de língua portuguesa, nós realizamos no mesmo período, na mesma semana da Agrobrasília. E só para... a Curiacos esteve lá presente, não foi? Com o João Carlos Dias? Sim. Ok, só para confirmar. Isso, foi uma alegria tê-los com a gente lá.

E essa feira trouxe alguns resultados de intercooperação e a gente pôde planejar e vislumbrar a continuidade dos nossos projetos.

E disso surgiu a ideia de nós realizarmos nessa Agrobrasília desse ano um seminário Brasil-Portugal de integração de empresas e cooperativas agroalimentares.

com relação ao acesso ao mercado europeu, principalmente dos produtos, das cooperativas do agronegócio brasileiro. Então, nós vamos realizar esse seminário agora na Agrobrasília desse ano, mais precisamente no dia 21 de maio, onde nós teremos aqui de Portugal uma presença importante do secretário de Agricultura do governo português.

do presidente do Porto de Cines, que nós temos trabalhado a possibilidade do Porto de Cines ser um porto de acesso aos produtos brasileiros para o mercado europeu, o diretor da ISEP e também o diretor do Uniave, e todos já confirmados irão participar desse seminário.

Pelo nosso lado do Brasil, nós teremos a presença de autoridades do Ministério da Agricultura, da Organização das Cooperativas Brasileiras, da Embrapa, que é a nossa instituição de pesquisa agropecuária no Brasil, e o sistema OCBDF, Cooperativa do Povo Portuense, nessas discussões que envolvem o acordo Mercosul-União Europeia e possibilidades de parceria para acesso ao mercado europeu, tanto tendo Portugal como nosso parceiro.

com o nosso hub de entrada no mercado europeu. Rami, o desafio para quem nos estiver a ouvir é conhecendo a realidade agropecuária brasileira, onde donos de determinadas plantações têm que ter um avião para se deslocar e ver toda a sua plantação. E, no entanto, o nosso Portugal pequenino...

Onde é que a cooperação aqui se pode dar? Porque, como é que eu ia te explicar, aparece uma formiga ao pé de um mamute, não é? Não dá para a gente comparar isso diretamente. Nós temos uma dimensão muito maior que Portugal. A nossa área agricultável, o Brasil hoje é um dos principais produtores agrícolas do mundo. Sem mexer na Amazônia. Sem mexer na Amazônia.

Então, nós temos o que? Uma questão de agregação de tecnologia, agregação de valor aos nossos produtos. Nós sabemos que a Europa exige produtos mais acabados, de qualidade.

E isso, numa aliança, e tendo Portugal como parceiro, podemos trabalhar isso junto para o acesso ao mercado europeu, que aí a gente abre uma dimensão para 250 milhões de pessoas na Europa. Então, é estratégico. Nós temos uma, a gente comentou logo no início, uma mudança na nossa geopolítica mundial, com tarifas para cá e tarifas para lá.

E hoje a gente precisa muito de uma segurança com relação aos parceiros comerciais. E eu acredito muito que o Brasil, dentro da sua capacidade de produção, principalmente de produtos agroalimentares, pode ser um parceiro e deve ser um parceiro europeu, tendo como porta de acesso o nosso país irmão.

para não dizer pai, avô, etc, que temos a mesma linguagem. Isso dá muitos programas, mas pronto, sim. Com a mesma língua, então, temos afinidades que, guardando as proporções, mas podem ser parceiros nesse olhar para o futuro com relação ao mercado europeu, os acordos bilaterais e acesso ao mercado qualificado. Deixa eu só fazer mais uma pergunta ao Caminho. Eu sou angolano, eu nasci em Angola.

E o Brasil é só um barco e ir em frente, acho que vamos quase diretos a Angola. Nunca foi pensado, especialmente no agro, um investimento brasileiro ou de empresários brasileiros em Angola.

Já existem algumas iniciativas de investimento brasileiros em Angola, principalmente do agro. O cooperativismo ainda não tem essa visão, de repente, de ter Angola como parceiro, mas eu acredito muito e tenho discutido isso com o Paulo.

que a realização desses encontros, como a Cimeira, que foi lá no Brasil, que vai ser agora no Porto, é uma porta para a gente abrir e discutir essas relações. Isto é um triângulo virtuoso, se pensarmos bem. Brasília, Lisboa, Luanda, Luanda, Brasília.

É isso, o cooperativismo tem como construir as pontes nesse triângulo para que a gente possa evoluir em relações de mercado, em relações de desenvolvimento do cooperativismo e depois expandir para os outros países irmãos de língua portuguesa da África também. Muito bem, Paulo, em relação àquilo que o Rémi nos teve a dizer, realmente podemos ser essa porta de entrada?

Eu acho que não devemos. Temos a obrigação estratégica em termos de repensar Portugal e repensar quem fala nesta língua, sermos a porta de entrada, porque infelizmente também não podemos ser muito mais. Nós hoje não temos estruturas com capacidade financeira, não temos entidades com visão estratégica.

Temos, grosso modo, e basicamente, empresas que distribuem comida e são essas os nossos referenciais, o que não é muito bom para um país que já deu tantos mundos ao mundo e tanta coisa fez. Mas acho que nós, hoje em dia, não só temos obrigação, temos a capacidade e a vontade e o querer de podermos introduzir uma mudança, de provar que é possível uma relação diferente com países com quem já tivemos relações qualificadas, que elas sejam no passado, do tipo que foram.

Foram que foram, aliás. Dizias que és angolano. Angola é um país que falou hoje português. Foi o Brasil que, em 1641, pegou nas tropas que tinham expulsado os holandeses, que eram índios e negros, e foi.

limpar Luanda de holandedes, mandando-os para a terra deles, ou para o meio lá da África do Sul. E por isso, essa falta... Com todos os efeitos subsequentes, não é? Com todos os efeitos subsequentes. Mas também, por vermos que o nosso tipo de sociedade é diferente daqueles que construíam aqui na Latém. Com todos os efeitos e qualidades. Acho, sobretudo, que a nós...

E acho que isto, o Mercosul, que finalmente saiu e que é se calhar voltar ao início da Europa, que pelo comércio se faz a diferença, pode significar para a Europa e para a América Latina um polo novo de desenvolvimento numa altura em que o mundo...

unipolar, bipolar, tripolar, como lhe queiram chamar, está completamente a desaparecer e, sobretudo, há novas realidades que se criam hoje, que não têm, ou que no fundo só podem ter por denominador comum a língua pela qual nos entendemos. E, por isso, o Brasil tem que liderar, porque tem...

nesta altura a estrutura humana maior, tem também uma forma de organização estadual que não teve relações que impediram o normal desenvolvimento do que é o comércio e as relações de comércio e da acumulação de riqueza, porque essa é o que a sociedade demoliberal acaba por fazer, ou acha que é isso? Tem os seus desafios, o Brasil, não estamos a falar...

de um país sem desafios também. Sim, mas estamos a falar de um país tão disparo, que tem soluções, que tem sítios em que eles começam a ter os mesmos problemas de envelhecimento de população que nós temos. Daí Angola, porque nós estamos a falar do continente com o maior número de jovens do nosso planeta, a África, não é? Sim, e há quem diga que daqui a 50, 60 anos, Angola terá mais habitantes que o Brasil, porque o sul do Brasil...

já compete com a Europa no trazer pessoas do Nordeste e do Norte, de lá de cima, cá para baixo.

Quando mais, quando daqui a uns anos não tiver essa capacidade, mas tem uma força económica que advém sobretudo do cooperativismo e o sucesso do agronegócio do Brasil está fundado no cooperativismo. As pessoas têm que ter essa percepção quando falam de agronegócio. Estão a falar de cooperativas no seu grosso modo. E nós ao trabalharmos essa realidade da maneira como estamos a trabalhar, estamos a tirar pessoas da pobreza. Tu gostas e usas muito a expressão em relação à China, que eles são um país centralizado que tira pessoas da pobreza.

E só tirando as pessoas da pobreza, das condições, aquelas pessoas podem aceder ao estado seguinte do desenvolvimento e da cidadania autêntica e defendida por cada um. Eu também acredito nisso. Agora, acho que nós aqui temos um desafio que é usar um bocadinho o modelo do Brasil.

como um modelo que nos pode trazer riqueza, riqueza significa melhores salários, melhores condições de vida, melhores acessibilidades, as pessoas viverem mais felizes, já terem tempo para terem e criarem famílias. Nós não nos podemos esquecer que essa é a célula fundamental que nós nunca podemos deixar de ter aqui presente.

e com isso fazer. E por isso, eu sou um grande adepto do companheiros brasileiro. Mas isso quer dizer que nós cantamos o fado e eles é o samba. Eu não sei, o fado tem aquela componente mais saudosista ou negativista. Estirizas as tuas dores de uma maneira, num choras, num outro gastas energia à dança. O nosso Camões antecipou-se ao Feuerbach.

Mas pronto, o amor consome e arde. Enfim, olha, Rémi, por outro lado, eu sei que também, para além desse trabalho que está a ser desenvolvido em relação à Agrobrasília, ao seminário, é importante manter de alguma forma...

relações não só com o governo central, por assim dizer, mas também com os governos estaduais. Aquilo que nós vemos no Brasil e que mencionava o Paulo é que essas pontes estão criadas entre os governos estaduais e o trabalho das cooperativas.

O cooperativo brasileiro está organizado de forma nacional no sistema OCB, Organização das Cooperativas Brasileiras, e cada Estado, cada unidade nossa da Federação tem uma organização de cooperativos daquele Estado. Mas é um governo paralelo? É mais um governo? Ou a cooperação é só entre as cooperativas ou entre as cooperativas e os governos?

Sim, esse modelo de organização é das cooperativas para as cooperativas. Mas o que que traz isso? Eu queria chegar no resultado desse modelo de organização que a gente tem do cooperativo brasileiro, que faz a correlação, a interface com os governos, tanto os locais e estaduais, como a gente lá no Distrito Federal.

como em nível nacional, com a OCB nacional, com o governo federal e o parlamento. Então, nós temos esse modelo de organização, onde cada estado, dentro das suas características, das suas particularidades, tem a interface, o relacionamento com o governo local, defendendo o cooperativismo e sendo o cooperativismo também uma forma de solução para alguns problemas locais dos governos.

Então, essa parceria existe em quase todos os estados brasileiros. Ou seja, o governo pode aproximar-se das cooperativas e dizer olha, nós temos um problema aqui, aqui, aqui, como é que vocês pensam, como é que vocês podem cooperar? Existe algo pensado para dar resposta?

Cada governo, dentro daqueles projetos que a gente acabou já falando, ele pode contar, pode e deve contar com as cooperativas para que esses projetos sejam executados. Então vamos dar algum exemplo. Tem o que a gente está falando do agro. Então o governo lança um programa de apoio à agricultura familiar, que são pequenas propriedades.

E dificilmente o governo poderia executar um projeto desses individualmente com cada produtor. Mas ele tem o quê? Os produtores organizados em cooperativas que, por intermédio da cooperativa, podem chegar a essas políticas públicas até onde interessa, que é o pequeno produtor.

Falamos agora das cooperativas habitacionais, então projetos e programas como já tivemos vários lá no Distrito Federal, onde o governo tem as cooperativas como executora de programas habitacionais, tanto para a classe de renda mais baixa quanto mais alta. Então são formas de cooperativismo atuar na execução e como parceiro dos governos na execução das políticas públicas, que as políticas cheguem dando resultado na sociedade. Obrigado.

E uma vez que falámos de habitação, falámos do agro, cooperativas de saúde, ensino também? Sim, nós temos cooperativas de saúde. No Brasil, nós temos o sistema Unimed, que são cooperativas médicas, que têm estruturas com hospitais. Na época da pandemia, foi fundamental para se vencer todos aqueles desafios. O sistema Unimed contribuiu muito.

com a disponibilidade de leitos e atendimento à população na época da pandemia e atende e serve como parceiro do governo também. Assim como cooperativas de profissionais de saúde, por exemplo, técnicos de enfermagem, enfermeiros, as cooperativas têm condições de atuar junto com o governo para execução de políticas públicas.

cooperativa de transporte, de passageiros, transporte de cargas. Então, todos os segmentos do cooperativismo que está presente nos principais segmentos da nossa economia tem situações em que pode, junto com o governo, parceiro do governo, executar políticas públicas que vão chegar lá na sociedade.

E no Brasil isso não é uma realidade recente, é algo que já está cimentado, pode crescer, e vocês têm o desejo que cresçam, com certeza, mas é algo que já faz parte, por assim dizer, do dia a dia da governação dos Estados e do próprio país. Sim, sim, isso já há muito tempo. O ano passado o Paulo esteve lá.

quando nós lançamos a Agenda Institucional do Cooperativismo Brasileiro, do Sistema OCB. Ou seja, ali nós temos uma relação de várias políticas que são interessantes para o cooperativismo, e isso a gente lança anualmente, entrega aos parlamentares, ao governo, como a nossa, digamos, plataforma de políticas para o cooperativismo. Então, isso, o Sistema OCB, ele...

ele contribui muito para a formulação das políticas para o agro-brasileiro, a questão do plano safra que nós temos anualmente com recursos para financiar a agricultura brasileira. Então isso tudo são feitos, estudos, pelo sistema ACB, que subsidia o governo até para tomadas de decisões nesse sentido. Então isso há muito tempo que funciona dessa forma. E cada vez mais os governos...

tanto locais como nacional, eles percebem a importância dessa parceria e de ter o cooperativismo como uma força de organização da sociedade para a execução de políticas que são fundamentais para os projetos de governo. E nós temos também, só para concluir e agregar mais um pouco, a frente parlamentar do cooperativismo, a gente está falando aqui de governo executivo, nós temos a frente parlamentar do cooperativismo no Brasil.

nacional é a segunda maior frente do nosso congresso nacional com deputados federais, senadores que atuam organizadamente, com apoio do sistema OCB, atuam nas políticas que venham a beneficiar ou mesmo aquelas que a gente não pode deixar que avancem porque venham prejudicar o cooperativismo. Muito bem. E, Paulo, isso é só uma questão de escala?

Porque o Brasil é grande, funciona. Não, acho que não é uma questão de escala, é uma questão das cooperativas se entenderem como parceiros que não o são. Um exemplo que o Rémi há bocado falou e que era importante e que aqui podia ter sido relevante, as cooperativas em muitas terras do interior têm desaparecido. E desaparecido porquê?

Por exemplo, uma questão como a alimentação nas escolas, que faz parte de uma atribuição dos municípios no Brasil, aquilo são feitos editais, que são formas de concurso público, mas são entregues às cooperativas. Ou seja, permitem que as cooperativas na terra continuem a poder agregar valor, mantendo pessoas a ganhar bem, em vez de nós termos o que temos aqui, que é um sistema em que temos três grandes empresas.

mais uma ou duas subsidiárias, às vezes cá também pertencem às mesmas, a se virem refeições aos miúdos, com qualidades duvidosas e, sobretudo, com comida mutadela dita regenerada, que é uma coisa que nos começam a impor a hoje.

sobretudo também nos supermercados, que é comida que a gente não sabe se não foi feita há 3, 4 dias. Quando se o serviço fosse objetivamente dito, vou dar um exemplo, Vila do Conde que tem muita parte agrícola, o leite que os miúdos bebem fosse leite de cooperativas, a comida que os miúdos têm, os lenches, os pequenos almoços, os almoços foram em serviço pelas cooperativas, mantínhamos pequena produção, pessoas que pagam e gostam de pagar impostos, querem que os seus filhos fiquem bem, e tínhamos aqui um modelo de sociedade.

que está também em causa, que é uma sociedade livre. Isso para mim é muito importante e por isso, apesar do tempo que tenho, achei que era importante relevar isso, até porque o Rémi há bocado falou, o ano passado, a Agenda Institucional do Cooperativismo, o Presidente Márcio da OCB disse duas coisas que para mim me marcaram. Uma, eu tenho aqui mais de 100 parlamentares do país a quem estou a pedir contas.

E eu, as cooperativas do ano passado, faturaram 3,3 trilhões de reais. 3,3 trilhões, isso significa que não é só ajudar, é também ter algum retorno. Sim, retorno, exatamente.

Ou seja, há aquele princípio de dou para que des, que os latinos diziam do outro des, que é nós hoje aqui percebermos que fazemos parte de um todo, que é aquilo que também nós nos esquecemos, as comunidades organizadas, o coletivo de diferentes, como eu gosto muito de falar, hoje em dia é subvalorizado politicamente, quase pelo espectro político todo, porque, pronto, de facto, temos ainda alguns democratas cristãos e sociais cristãos, mas o resto das pessoas...

defende um modelo em que a repartição é uns ficarem com tudo e depois os outros vão lutar pelas migalhas com os que ficam com tudo. Mas aqui eu tenho outra questão, e esta questão é muito genuína da minha parte, é como se fosse mesmo o João Nuno que está a colocar esta questão.

Às vezes dá a sensação, por não conhecer com certeza, ou porque o pensamento vem daquilo que é narrativa ao longo do tempo que vamos tendo em relação à cooperativa, que é só para que o pequeno não sofra tanto. Ou seja, não dá a sensação de que a cooperativa sirva de tração também para crescimento.

Eu dou-te um exemplo muito típico. Nós temos à volta do Porto uma solução de cooperativas de energia, que daqui a seis, sete anos já irão todas fazer à volta de cem anos, foram criadas pelas forças vivas da terra, produzem energia e vendem-na mais barata aos seus sócios e são os principais financiadores das políticas públicas dos territórios em questão. Tivemos para deixar de ter isso quando o anterior governo tentou acabar com isso.

estranhamente, mas tentou fazer isso. E nós temos... O anterior governo... António Costa. Portanto, o governo socialista tentou acabar com cooperativas de energia... Tentou criar um modelo que ia acabar com que as cooperativas não pudessem funcionar da maneira que funcionam. Porque o que elas fizeram foi quando o Estado não tinha dinheiro para fazer a rede elétrica, eles fizeram-na. Quando o Estado não tinha capacidade para fazer a transformação, eles fizeram-na. Quando era preciso fazer...

políticas públicas, o Estado não tinha que estar e eles fizeram. Portanto, é muito mais do que ajudar, digamos, as necessidades. É fazer parte de... Nós conseguimos produzir mais, mais barato e os excedentes, porque nós não gostamos de falar em lucro nas cooperativas...

os ex-dentos serem reaplicados na sociedade, porque isso vão trazer melhoria de vida a toda a gente e basta andar por Mordosa, Roriz, nos Conselhos de Paredes, Passos de Ferreira e Santo Tirso, que têm uma experiência que merece ser estudada e que merece ser replicada, podiam não fazer. Aqui falam de superar a vítima, mas quando olhamos está tudo na mesma.

Nós, hoje em dia, como diziam, a dívida não é para se pagar. Mas nós, hoje em dia, ouvimos falar de tantos números que eles já não nos dizem nada, não é? Exatamente. Nem temos a percepção do que é, não é? Exatamente. É uma das técnicas de propaganda, mas é melhor ficar por aqui. Rami, em relação... Isto é uma pergunta mais política. Não tem a ver com política, mas tem a ver com o momento político que se vive um bocado por todo o mundo.

há muito antagonismo. Isto é um desafio também para aquilo que é a gênese do cooperativismo? É um desafio grande, acho que para qualquer segmento da sociedade, não só para o cooperativismo.

mas é algo que reforça uma atuação que é basilar para o cooperativismo, que é uma neutralidade política ideológica. Nós temos que estar preparados, como eu coloquei aqui, várias ações de parceria com o governo, seja ele de esquerda, de centro ou de direita, para atender as necessidades das pessoas, principalmente das comunidades onde as cooperativas estão inseridas. Então, esse antagonismo...

E essa, vamos dizer...

A situação mais radical, ou é a extrema direita ou a extrema esquerda, traz uma situação que é importante fazer a gestão disso e de não trazer isso para dentro do cooperativismo, mas saber atuar com esse ou com aquele dentro das necessidades, das perspectivas que as cooperativas têm. Então, sendo apolítico, partidário e ideológico, mas nós não somos apolíticos.

O cooperativismo tem que transitar junto aos governos e o governo pode ser a hora de direita, a hora de esquerda, a hora de centro e nós temos que ter a habilidade de estar nesse relacionamento com diferentes correntes ideológicas e políticas. Até porque, na verdade, a fazer parte do cooperativismo e na liderança do cooperativismo, tem pessoas tão diferentes como aquelas que acreditam numa república e outros que preferiam ter um rei para meter uma coroa na cabeça.

Perfeitamente. Dentro de uma cooperativa você tem inúmeras correntes de pensamento, ideológicas, etc., que cada um tem a sua forma de pensar. E a gente, como cooperativa, tem que fazer isso e conduzir isso de forma a não contaminar a cooperativa com esses posicionamentos.

Muito bem. Olá, Paulo. Eu vou-te colocar aquela questão daquilo que acho que nós perdemos. Nós, Portugal, a tal soft power e a utilização deste fio condutor que a história nos deu, nós não escolhemos, que é o português, para criar um bloco cooperativo, vivendo nesta fase em que, sei lá, alianças milenares podem estar em desagregação.

Sim, acho também que nós, nos últimos tempos, tenho-me sentido um bocado confortado, porque tenho estado e participado em alguns projetos que eu acho que estão a fazer de uma maneira subterrânea. E quando digo subterrânea, não é escondida, mas é feita.

O trabalho que é feito, por exemplo, por uma organização que é a UCLA, que é a União das Capitais dos Países de Língua Portuguesa, é um trabalho que é feito e é meritório. Há depois, isso tem que se tornar um desígnio. E o desígnio passa por nós, por exemplo, entendermos que nós temos instrumentos de intervenção no mundo hoje fortes. Quem são? São os portugueses que estão no mundo. A Rede das Comunidades de Língua Portuguesa, que foi um projeto lançado pela doutora Manuela Aguiari.

que o Dr. José Luís Carneiro também implementou bastante e acho que este governo também o está a fazer, podem ser a maneira de nós podermos estar, ser acolhidos e fazer. Imagina adicionar a isso os nossos irmãos brasileiros, os nossos irmãos angolanos, que estão espalhados literalmente por todo o mundo.

nós temos basicamente a capacidade, e isto foi uma coisa que hoje dizer isto pode ser muito mal interpretado, nós podíamos ser sido a língua franca de África, se tivéssemos trabalhado as coisas de outra maneira, e portanto por isso que os franceses hoje em Angola investem, muito mais que investem, investem nas suas antigas colónias.

do que nós, porque eles de facto sabem a capacidade e a influência que o português como língua, até porque muitos dialetos de muitos povos, sobretudo no Golfo da Guiné, têm muito português, eles entendem o português respeito ao português, nós podíamos ter feito, mas isso tem que ser um desígnio.

E tem que ser um desígnio nosso e tem que ser um desígnio do Brasil. Mas o Brasil tem uma desculpa boa e credível. E que eles são tão grandes e têm tantos problemas que virar-se para fora é um exercício muito difícil porque, de facto, eles conseguem ver o mundo andando nos seus estados todos porque eles têm bocadinhos do mundo lá. Enquanto nós devíamos fazer isso por desígnio porque é isso que nos poderia representar o trabalho que tem sido feito e é um esforço apreciável dos últimos governos nas escolas profissionais.

dando condições aos miúdos que vêm para cá, sobretudo da África, de Timor, para poderem ter oportunidades iguais aos portugueses, com apoios no alojamento, na alimentação. São essas coisas que fazem também a soft power das pessoas. Quando regressam ou ficam cá a melhorar o país...

sabem, gostam das mesmas coisas. Eu tenho um amigo meu de Angola, que foi... é um político de Angola reputado. A primeira coisa que ele fez a primeira vez que foi em Portugal foi ir a Montalegre comprar uma casa.

Porquê? Porque era a terra do seu comandante quando ele era soldado do exército português. Portanto, isso não é uma ligação quase mítica, mística, se diz, mística, mítica não é de certeza. Mística é, e é isso que nós temos que aproveitar, que é nós reconhecermos no olhar, percebermos que eles são dos nossos, quando os atacam estão-nos a atacar a nós, e nós, de facto, acabamos por ser transformados nos últimos 50, 100 anos.

em relações que eram relações próximas, mas passaram a ser relações de alguma coisa de áudio. O áudio nunca construiu nada. Muito bem, Rami, em relação a isto.

Isso eu tenho uma visão da seguinte forma, nós temos, e que a gente tem discutido e debatido muito, e duas coisas que nos unem, que nos ligam, que é o idioma, a nossa língua portuguesa, e nesse sentido que a gente tem trabalhado as nossas cooperativas que têm a mesma base de princípios e valores.

Eu vejo que nessa, que a gente tem percebido aí, o que se chama assim de derretimento dessas relações até milenares de alianças entre governos, a gente pode pensar em alianças transnacionais.

que representem modelos de negócio, modelos de pensamento ou princípios e valores que unem esses povos. Mais do que governos, não é? Exatamente. E o cooperativismo dentro da lusofonia, para mim, representa uma possibilidade desse movimento de organização e de alianças que venham a representar os povos, como você bem colocou.

e fortalecer esses povos através do modelo que está consagrado no mundo há quase 200 anos. Então, acredito muito que a gente possa, pode ser até uma utopia da minha parte, mas que a gente possa trazer essas alianças para um cenário onde não são nações, mas povos, unidos por algumas questões, como a língua, como o modelo de...

de organização socioeconômica, que é o cooperativismo, podem se fortalecer. E aí eu venho para a questão das organizações hoje que já existem e que eu acho que nós estamos perdendo um pouco o passo, perdendo a oportunidade que essas organizações assumam o protagonismo dentro desse cenário. E aí vou trazer o exemplo da OCPLP, que é a Organização Cooperativista dos Países de Língua Portuguesa, que tenho certeza pode ser uma...

uma organização que vá promover isso com muita eficiência. Paulo, para começar a deixar-nos subuzir para a Cimeira, onde é que podemos ir acompanhando, por assim dizer, essas propostas?

Nós vamos ter nas páginas da OCDEF e nas páginas da cooperativa e teremos em breve também, a partir do nosso regresso, quando se fechar do fundo o programa todo agora em Brasília, vamos ter para demonstrar, começar a lançar os nomes, levantar pessoas, trazer pessoas diferentes e, sobretudo, ter lá pessoas.

que vão para lá para se tornar believers, e que eu acho que é uma expressão que os ingleses têm muito boa e que nós aqui devíamos utilizá-la, utilizando, no fundo, perceber o triângulo virtuoso que tu tens, que nós na língua podemos falar do Camões, do padre António Vieira e no Pessoa.

dois deles, um deles andou pelo mundo e os dois deles não vieram de Portugal, vieram de fora de Portugal, um veio da África, outro veio da América. E é isso, a informação vai estar, nós vamos ter muitas boas surpresas e que sejam também uniões de projetos. Muito bem. A Rémi, a Gorganeto, o Paulo Teixeira, muito obrigado por terem estado aqui connosco. E vamos mantendo também a nossa cooperação coreáctrica e com vocês.

Obrigado a si que nos acompanhou em mais este programa. Já sabe que pode rever subscrevendo o nosso canal do YouTube. Obrigado pelas partilhas também das nossas redes sociais. A mim resta-me desejar-lhe um resto de boa noite. Até amanhã à mesma hora. Obrigado.

Música