Rebelião escrava no Brasil - Parte III
Agindo sob pressão popular, as autoridades locais também puniam os atravessadores confiscando suas mercadorias.Em 1834, um desses comerciantes apresentou queixa ao Tribunal da Relação contra um inspetor da freguesia de Santanado Catu, que segundo ele havia tomado ilegalmente uma cargasua. O acusado defendeu-se revelando à corte os métodos docomércio clandestino e a reação do povo. Segundo ele, os negociantes costumavam simular “obrigações de pagar [dívidas]com farinha ... para se subtrairem a levá-la ao mercado, conduzindo-a por atalhos desviados da estrada pública”. O momento era “de fome extrema e grande clamor dos moradoresd’aquelle lugar”. Pressionado por esse “clamor”, a autoridade teria obrigado o atravessador a vender dez quartas emeia de sua farinha ao povo por um preço razoável.O estabelecimento de “preços justos” era uma forma dejustiça popular direta semelhante ao saque, embora menosdrástica. Os consumidores forçavam as autoridades a pôrfreios nos especuladores. Esse controle do mercado se parecia com o que Edward Thompson chamou de “economia moral do povo” (moral economy ofthe crowd), conceito que utiliza para discutir o fenômeno na Inglaterra do século XVIII.O atravessador brasileiro, como o inglês, representava o espírito usurário próprio da economia de mercado em expansão.Sua prática se chocava com o caráter ainda paternalista quepredominava nas relações sociais, não obstante a naturezaplenamente comercial da economia de exportação. Pressionadas pelo povo, as autoridades procuravam impedir que a selvageria inerente ao monopólio da moralidade do lucro viesse aperturbar o precário equilíbrio social da província.Os dirigentes baianos andavam genuinamente preocupados com o potencial explosivo dos acontecimentos. O presidente da província alertou o governo nacional sobre o “descontentamento no povo pelo excessivo preço dos generos, principalmente os de primeira necessidade” ?0 Estava claro aosolhos das pessoas encarregadas da lei e da ordem provinciaisque a tendência do povo urbano para a rebeldia se relacionavafortemente com o alto custo de vida. As revoltas popularesdessa época — tema do próximo capítulo — foram, pelo menos em parte, motins por comida, ou o que na historiografiade língua inglesa chama-se mais precisamente food riots.