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Felipe Nunes, da Quaest: como se faz uma pesquisa eleitoral

03 de julho de 202629min
0:00 / 29:06
Um dos institutos de pesquisa mais prestigiados do país é mineiro e fruto de uma paixão: um caso de amor entre o cientista político Felipe Nunes e a pesquisadora Renata Salvo, que se tornou, há dez anos, casamento, na vida pessoal, e a Quaest Pesquisa. Neste bate-papo, Nunes conta essa trajetória e fala sobre diversos aspectos que compõem uma pesquisa, desde a metodologia utilizada, passando pela legislação à diferença de credibilidade entre os diversos institutos. E, em ano de eleições, ele faz questão de lembrar: “a pesquisa mede a intenção de voto, quem vota é o eleitor”.
Participantes neste episódio2
S

Sidney Gomes

HostJornalista
F

Felipe Nunes

ConvidadoCientista político
Assuntos6
  • Metodologia de PesquisaPesquisa domiciliar · Pesquisa digital · Amostras híbridas · Condomínios de alto padrão
  • Financiamento de PesquisaNota fiscal · Financiador · TSE · Pesquisas sem financiamento
  • Mascote da Justiça EleitoralDivulgação de pesquisa · Transparência · Justiça Eleitoral · TSE · Intenção de voto
  • Pesquisa QuaestQuaest Pesquisa · Felipe Nunes · Renata Salvo · Carreira acadêmica · Formação nos EUA
  • Críticas e Controversas MenoresPolarização política · Críticas às pesquisas · Lulista · Bolsonarista · Termômetro eleitoral
  • Análise de empresas e setoresPercepção de marca · Reputação · Credibilidade · Valores brasileiros · Evitar crises
Transcrição57 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
SGSidney Gomes

Olá, eu sou Sidney Gomes e este é o Sem Protocolo, o nosso bate-papo direto, sem complicações, sobre os assuntos que importam aqui no Parlamento e no cotidiano dos mineiros. De contagem para o mundo, eu converso hoje com cientista político, professor, comentarista de política, escritor também e fundador do Instituto de Pesquisa Quest, Felipe Nunes. Seja bem-vindo ao Sem Protocolo, Felipe.

FNFelipe Nunes

Eu que agradeço o convite, obrigado, que bom tá aqui. Espero que a gente consiga sem protocolo nenhum falar o que precisa.

SGSidney Gomes

A ideia é essa. Nem a gente queria trazer você muito tempo, que bom que conseguimos agora, né?

FNFelipe Nunes

Deu certo.

SGSidney Gomes

Felipe, vamos começar falando da Quest. A Quest mudou sua vida?

FNFelipe Nunes

Claro que mudou. A Quest é fruto de um processo que pouca gente sabe, que é uma paixão, mas não é pela política não. Eu em 2016, completamente apaixonado pela minha esposa Renata, a gente se encontra e decide que A gente queria fazer um projeto juntos. Então, a Quest é uma mistura de uma vida pessoal, de Felipe e Renata, e um projeto profissional. Ela já trabalhava com pesquisa, eu vim ali de uma carreira acadêmica, com um pezinho em algumas consultorias.

A gente se une e esse casamento vira um casamento e, ao mesmo tempo, uma empresa. A Quest é fruto de uma paixão de duas pessoas.

SGSidney Gomes

É, e você falou aí da sua pesquisa, você é cientista político.

FNFelipe Nunes

Sim.

SGSidney Gomes

E, mas ao mesmo tempo, agora você virou uma vitrine em relação a essa questão de pesquisa aqui no Brasil. Você estava preparado para essa exposição? Você sempre foi desavergonhado para falar? Como é que foi isso? Porque agora que você está muito em evidência, você estava preparado para isso?

FNFelipe Nunes

Eu acho que a gente nunca está preparado 100% para o que aconteceu, até porque foi tudo muito rápido, né? A gente estava falando aqui, a Quest está completando 10 anos. Uma empresa mineira, né? Uma empresa... Eu sou de Contagem, sempre gosto de ressaltar isso, mas criada aqui em Belo Horizonte. Renata de Curvelo, mas também criada em BH. A gente decide fazer esse projeto junto. E assim, eu sempre gostei muito de— eu cheguei a fazer teatro uma época, sempre gostei dessa história de me comunicar.

Já tinha ali um pé nisso, mas preparado para exposição, ou como se eu tivesse buscado isso, não. Não, a minha carreira era uma carreira acadêmica. De professor. Eu fui muito bem aconselhado por professores que me disseram que eu tinha que, depois de fazer o que eu fiz no Brasil, eu tinha feito mestrado e tal, era importante que eu fosse para os Estados Unidos buscar uma formação ainda mais rigorosa.

SGSidney Gomes

Porque o que tinha lá?

FNFelipe Nunes

Métodos quantitativos. A ideia era estudar profundamente matemática, estatística e programação. E os meus professores diziam, vai ser muito importante você ir para fazer essa formação e depois voltar para disseminar isso aqui no Brasil. E foi exatamente o que eu fiz, seguindo esses conselhos. Então assim, eu era professor e professor, como você sabe, adora dar aula, estar ali com os alunos e tal. Eu enfrento essa coisa das câmeras e da exposição pública como professor, tanto que no meu Instagram está lá, Professor Felipe Nunes.

É para ressaltar essa ideia que é a minha identidade. Eu sou empresário, eu sou escritor, professor, né, sou pai de família, sou atleticano, mas principalmente, principalmente professor, que eu acho que é o papel de valorizar isso que é tão fundamental no Brasil, que é a educação.

SGSidney Gomes

O Felipe, e a QS surge e cresce num— eu vou te falar, você fala se faz sentido isso que eu tô falando— e cresce no momento em que um instituto que era referência aqui no Brasil, que é o Ibope, perdeu força, se fragmentou, deixou um pouco de lado essa questão da pesquisa eleitoral, o Ibope entrou para o imaginário popular, cultura popular. A gente fala, ah, eu fiz isso, mas não deu Ibope, né? Faz sentido isso? Esse vácuo foi ocupado pela Quest?

FNFelipe Nunes

Na vida tem que ter um pouco de sorte. Eu acho que a gente tem que ter competência, e essa competência tem que estar toda preparada para quando a sorte aparecer, a oportunidade aparecer, você tá pronto para ela. Eu só não concordo com a ideia do enfraquecimento. Acho que você tem toda razão, o Ibope é hoje um um substantivo, né? É uma palavra que a gente utiliza às vezes, um advérbio, às vezes um adjetivo sobre o da Ibope ou não.

Mas eles, os brasileiros que criaram o Ibope, venderam o Ibope por uma empresa norte inglesa. E essa venda aí sim acabou abrindo um espaço, porque deixou de ser uma empresa focada naquilo que eles faziam. O Ibope sempre foi muito forte em mídia, em medição de audiência. Por isso que Ibope é sinônimo de audiência, né? Mas eles tinham uma parte de inteligência política. Com a venda para os estrangeiros, essa coisa meio que, de fato, o foco das pessoas mudou um pouco.

E aí eu acho que a Quest ocupou de fato esse lugar. E é muito legal, porque eu me sinto de alguma maneira carregando a tradição da boa pesquisa brasileira, criada, desenvolvida aqui no país por tantos institutos. Veja você, e aqui eu queria, faço questão de referenciar, o Ibope, o Datafolha, a Vox Populi, o Ipesp, sabe, para citar 4 dos tradicionais, mas tem tantos outros, o MDA, que também é mineiro. Então, a ideia hoje, você tem, né, o Brasil tem grandes institutos e é muito legal a gente poder, ainda muito jovens, conseguir carregar essa tradição e levar adiante, sempre com inovação, com mudança, esse modo de fazer pesquisa.

SGSidney Gomes

E o que que é mais importante para pro instituto de pesquisa? Eu pergunto isso até como jornalista, porque a gente tende a dar pesos diferenciados para institutos diferentes. Faz, você vê uma pesquisa e fala, foi tal instituto, vamos ver com calma. Eu imagino que a credibilidade seja um dado importante para sobrevivência, mas para você, o que que é mais importante para o instituto?

FNFelipe Nunes

Então, é claro que a credibilidade, né? Quando vocês leem as pesquisa e diga assim, não, essa é uma pesquisa da Quest, o que as pessoas estão basicamente dizendo, não, essa é uma pesquisa que eu acredito, confio, porque ela é feita de maneira correta, séria, técnica. Os resultados que essa pesquisa apontou nos últimos anos são resultados que confirmam o que se esperava em relação ao processo na sociedade, ou seja, é uma pesquisa que mede corretamente a temperatura da disputa eleitoral.

E é uma pesquisa que consegue auxiliar os tomadores de decisões estratégicos, as empresas, a tomar decisões corretas. Hoje, você imagina, a Quest é uma empresa hoje que tem um hall de clientes privados enorme. As pessoas me conhecem e conhecem o trabalho da Quest pela parte pública, mas metade do faturamento da Quest hoje já é um trabalho que não tem nada a ver com eleição.

SGSidney Gomes

Para empresas do uso diário, né?

FNFelipe Nunes

As grandes empresas brasileiras Companhias brasileiras, hoje todas são clientes da Quest. Então, graças a Deus, isso para a gente é um negócio muito legal. E isso é construção de credibilidade, isso é construção de ao longo do tempo você ir apontando corretamente a tendência. Eu tenho um pedaço do meu trabalho que é voltado para eleições e é óbvio que estamos chegando aí num processo eleitoral, as pessoas vão acompanhar as pesquisas.

Você imagina, nós vamos fazer mais de 200 pesquisas para Globo e suas afiliadas esse ano. Isso é uma vitrine também espetacular e um trabalhão de botar isso de pé. Mas a gente não vai abandonar o trabalho privado. A gente, por exemplo, tá lançando agora um trabalho de grupos focais sintéticos, que é a gente desenvolveu uma tecnologia em que você consegue fazer grupo focal para empresa usando tecnologia de IA. Treinamos uma IA própria da Quest e estamos lançando isso para o mercado.

Isso é completamente inovador no mundo e uma tecnologia brasileira desenvolvida aqui em Minas Gerais e que vai repercutir no Brasil inteiro. Os grandes bancos, as empresas que têm que testar campanha, que têm que testar argumento, todas consumir essa tecnologia. Então, esses dois mundos hoje dialogam. Para conseguir tudo isso é o seu nome com seriedade, com rigor e com credibilidade ao longo do tempo.

SGSidney Gomes

Eu ia falar disso mais para frente, mas já que você entrou na questão dos grupos focais, todo mundo vê a pesquisa quantitativa, mas fala para a gente também como que é trabalhar com as pesquisas qualitativas.

FNFelipe Nunes

É, eu... Quando as pessoas me perguntam o que é a Quest, Eu digo, a Quest é uma house, é uma casa de inteligência. Uma casa de inteligência, ela tem uma série de ferramentas que são utilizadas para produzir um conhecimento rigoroso e técnico e ajudam aí na tomada de decisão e no conhecimento. Então, isso significa a pesquisa quantitativa, que é essa que geralmente o pessoal vê na televisão, a Quest divulgou a pesquisa de avaliação e tal.

Tem as pesquisas qualitativas, que são as entrevistas em profundidade, a gente Coloca as pessoas para conversarem. É mais ou menos o que a gente está fazendo aqui, só que com uma técnica de pesquisa, os grupos focais, as entrevistas em profundidade. Você tem os monitoramentos hoje de rede social, que são fundamentais. Nós desenvolvemos tecnologia para isso, o Índice de Popularidade Digital, que eu criei e patenteei. Então, quando você junta a escuta quantitativa, a escuta qualitativa e o monitoramento digital, você passa a ter o rol completo de tecnologias para informar a tomada de decisão.

A Quest é uma casa de inteligência justamente porque o nosso objetivo, Sidney, não é só o trabalho do, ah, X% vai votar em um ou outro, mas é entender de maneira completa o comportamento dos brasileiros.

SGSidney Gomes

E aí é isso que eu falei em relação, tal pesquisa foi feita por tal instituto, é você, eu sei que é difícil para você falar como dono de um instituto em relação aos outros, mas é um problema mais de credibilidade ou é apenas de metodologia?

FNFelipe Nunes

Não, eu acho que uma coisa tem a ver com a outra, quer dizer, e eu não tenho problema nenhum de falar disso não, pelo contrário. É? É, não, porque a gente—

SGSidney Gomes

Que bom, que bom.

FNFelipe Nunes

Eu acho que quanto mais transparência a gente tem com as pessoas, mais credibilidade a gente tem, né? Então existem diferentes metodologias para fazer pesquisa. Eu busco ser sempre um metodólogo, né, que é a minha formação. Eu fui para o doutorado nos Estados Unidos buscar essa formação em método para trazer o melhor que eu podia para o Brasil. Então eu busco ser sempre o melhor, eu quero obviamente estar ali afinado, eu quero, sabe, estar mais rigoroso, com a tecnologia mais inovadora.

A gente acabou de lançar agora um produto que chama Lupa, que ninguém vai conhecer, produto para dentro da Quest. É um sistema de controle de qualidade de pesquisa que você não tem ideia. A gente vê em tempo real como as entrevistas estão sendo feitas, a gente escuta as gravações enquanto as entrevistas estão sendo feitas, a gente tá ouvindo, tem um time todo, a gente tá mapeando o GPS de onde cada entrevista acaba sendo conduzida, de modo que se o entrevistador tá longe do do lugar em que ele foi designado para fazer a entrevista, o nosso time de qualidade fala, tá errado.

E aí, o tablet que a gente usa para fazer, ele só habilita a entrevista quando o entrevistador chega no lugar que ele foi especificado. Então, assim, a gente está fazendo o melhor para trazer esse rigor, essa qualidade. Então, é claro que tem diferenças de investimento e tal, é normal do mercado. E eu sempre acho que isso é um ponto que a gente acumula, sabe? Ao longo do tempo, as pessoas passam a confiar mais em alguns institutos porque dizem, não, essa turma eu acompanho, essa turma faz um bom trabalho, essa turma monitora bem, faz de maneira séria.

E eu acho que esse é um jogo cotidiano, você tem todo dia regar essa plantinha da credibilidade e obviamente apostar em inovação, metodologias novas, tá sempre antenado, Porque o mundo, Sidney, tá mudando rápido demais.

SGSidney Gomes

É, a gente tá ficando até tonto, né? E eu vou te perguntar uma coisa que eu sei que para você não é problema. É, você preza pela transparência, como disse aqui, porque para as pessoas também é importante saber quem encomenda uma pesquisa, quem financia uma pesquisa, quem paga por ela. Por que que isso é importante?

FNFelipe Nunes

Primeiro, eu não divulgo pesquisa que não tenha nota fiscal, que não que não tenha financiador, que não tenha uma pessoa que pagou por aquele trabalho. Porque é meu trabalho. Você não está aqui fazendo esse podcast de graça, você tem um salário e tal. Todo mundo que está aqui fazendo, os câmeras, a iluminação, todo mundo tem que trabalhar. O meu trabalho é fazer o quê? Meu trabalho é fazer pesquisa. Só que tem um ponto, eu preciso ter clareza, Eu sou, como você disse, uma pessoa que ganhou relevância pública e eu tenho que ter responsabilidade com isso.

Eu tenho que ser transparente com quem está lendo o meu trabalho e dizer o seguinte: Esse trabalho foi feito dessa maneira e foi remunerado desta forma por tal pessoa. Por quê? Não porque isso influencia, eu não acho que o cara foi pago por um... Não, o instituto é sério.

SGSidney Gomes

Eu imagino que quem contrata quer saber a verdade.

FNFelipe Nunes

Claro. O cara vai gastar um dinheiro e tal. Mas é muito importante as pessoas entenderem que é trabalho. Não tem, ah, vou fazer uma coisa legal aqui, vou divulgar um número. Não. Se alguém está divulgando um número sem mostrar que aquilo é trabalho, aí eu desconfio. Eu acho que o financiamento das pesquisas é um tema importante, porque está aumentando demais o número de institutos fazendo pesquisas sem financiamento e isso é perigoso.

Porque aí você começa a se perguntar: quem está pagando por aquilo? Porque alguém tem que estar pagando. Se você está escondendo de alguma maneira quem está pagando, isso é estranho. E aí, só para ser honesto e justo, porque eu sei que esse é um tema polêmico, mas importante. Eu não estou dizendo que os institutos são proibidos ou deveriam ser proibidos de fazer pesquisa, por exemplo, de divulgação de marca. Às vezes você está precisando divulgar a sua marca, está começando, Você faz ali uma pesquisa em que você financia o estudo e divulga a sua marca, as pessoas falam, olha que produto legal e tal.

Isso é do jogo, é até saudável que isso aconteça. Eu não estou querendo que a gente censure as pesquisas, mas você não vai me dizer que tem alguém fazendo R$15 milhões de pesquisa de graça, está tudo registrado no TSE, é só olhar aí, tem marca que gastou R$15 milhões. Ano já, não chegamos nem no meio do ano, com pesquisa sem dizer de onde veio o dinheiro.

SGSidney Gomes

Por quê, né? Para quê, né?

FNFelipe Nunes

Isso é estranho, isso não acho que é legal não. A gente tem que mudar essa regra.

SGSidney Gomes

Falar um pouquinho, você já falou aí que 50% do faturamento da Quest não é com pesquisa eleitoral. Por que que essas empresas te procuram? O que que elas querem saber?

FNFelipe Nunes

Elas querem entender fundamentalmente como o cliente, o consumidor, compreende a marca dela Qual é a percepção? Qual é a reputação? Qual é a credibilidade? Quais são as fortalezas e fraquezas? Por quê? Porque as empresas já entenderam que não é só a qualidade transacional do produto que importa. Hoje, o consumidor compra preço, claro, compra pela qualidade, mas ele também compra pela reputação. O cliente hoje cada vez mais quer saber quem está produzindo e por quê.

Então, quando a Quest se especializa em entender de Brasil, quando eu publiquei O Brasil no Espelho... Vou mostrar aqui, pronto.

SGSidney Gomes

O nosso diretor Bianchi.

FNFelipe Nunes

O guia para entender o Brasil e os brasileiros. Eu estava fundamentalmente fazendo referência a quê? A quais são os valores dos brasileiros, porque isso importa na maneira como a gente consumo.

SGSidney Gomes

E é um caso de transparência, uma pesquisa encomendada pela Globo. Está claro no livro o tempo todo, desde o início. Tem até, começa com o texto de uma executiva da Globo.

FNFelipe Nunes

Fiz questão, pedi a ela que fizesse, porque eu acho que é importante que as pessoas entendam. Olha, a TV Globo, que contrata muita pesquisa, TV Globo faz pesquisa o tempo inteiro, desde sempre, né? Neste caso, encomendou à Quest um estudo para entender valores brasileiros e eu adorei fazer, porque isso me deu capacidade de aprofundar o que eu já vinha fazendo nos últimos anos e entender mais. Então, as empresas perceberam que quando você entende de consumidor, de valores brasileiros, de atitudes, você se conecta melhor.

E outra coisa, você evita crise, né? Porque recentemente você pode olhar aí, todo mundo tá acompanhando a gente, sabe? Não vou falar de marca nenhuma aqui, Mas algumas marcas passaram por crises, crises de reputação que tinham a ver com política e tal. Então, monitorar, entender a percepção sobre as marcas, Sidney, evita que você se posicione de maneira errada, que você fale uma fala que pode gerar uma polêmica desnecessária. Então, hoje as empresas privadas estão muito preocupadas com a reputação, estão muito preocupadas com o desempenho delas. Porque elas sabem que isso faz preço.

SGSidney Gomes

O Felipe, e você falou da metodologia da Quest agora há pouco, desse monitoramento que vocês estão fazendo, que vocês desenvolveram. Tem pesquisa que são feitas só por telefone, outras só pela internet, outras vão a campo ali na rua abordar as pessoas. Isso tem mudado ao longo do tempo? Como é que é o trabalho da Quest em relação à metodologia, ou isso varia de pesquisa para pesquisa? Na verdade, de instituto para instituto também.

FNFelipe Nunes

Utiliza todas as técnicas de pesquisa disponíveis, a decisão sempre é: qual é a melhor técnica dada a pergunta de pesquisa que a gente tem? Então, a discussão na Quest não é se fazer campo é melhor, se fazer telefone é melhor, se fazer na internet é melhor. Isso para mim é bobagem. É sempre uma pergunta de qual técnica vai que vai responder melhor à demanda que eu tenho. Então, por exemplo, nas eleições, campo de eleição eu prefiro fazer todo domiciliar, face a face.

Por quê? Porque a eleição é uma decisão geral, geralmente um volume enorme de pessoas participam, e para você selecionar corretamente as pessoas para construção da amostra, você tem que evitar uma coisa que na eleição e na política estão ficando cada vez mais importantes, que é a paixão. Quando você faz uma pesquisa em que a paixão da pessoa é que determina se ela vai participar ou não do estudo, você enviesa o resultado. Como é que você resolve isso?

Você, instituto, é que tem que desenhar uma amostra que seja representativa da população e seja representativa de que modo? Ela tem que conter os apaixonados, que respondem a pesquisa, ficam loucos para responder, e os não apaixonados, que se você não for atrás dele, ficar de cima enchendo o saco, amolando, ele não te responde.

SGSidney Gomes

Pois é, o IBGE no último censo relatou dificuldade em entrar na casa das pessoas. Com o Instituto acontece parecido? Claro, as pessoas são resistentes.

FNFelipe Nunes

As pessoas no Brasil adoram responder pesquisa. Como a probabilidade de participar de uma pesquisa é pequena, Você sabe que ganhar na loteria é mais fácil do que responder uma pesquisa.

SGSidney Gomes

Eu imagino, porque isso eu ia até conversar com você mais para frente, porque as pessoas falam, mas ninguém nunca me abordou. Eu vou contar um relato pessoal. Eu fui abordado pelo Datafolha.

FNFelipe Nunes

Olha que chique!

SGSidney Gomes

E aí eu fiquei, já fiquei feliz, falei, pô, demorei 40 anos aqui para ser abordado pelo Datafolha. Aí começou ali com a parte, com aquele questionário sócio-econômico. Exato. Na hora que chegou profissão jornalista, não deixaram. Por que que não deixaram?

FNFelipe Nunes

Que absurdo!

SGSidney Gomes

O que que tem contra a gente?

FNFelipe Nunes

Não tem nada contra vocês, mas é que cada instituto usa obviamente uma técnica, um método. Mas nesse caso, eu imagino que o Datafolha tem ali um crivo, que é jornalistas têm um papel público, né, uma função, mais ou menos como funciona ali a pesquisa. E aí isso pode enviesar as respostas, então eles podem acabar evitando, né. Cada um utiliza de uma maneira. Mas pena, você quase então foi entrevistado, mas nesse caso não pôde. É, cada instituto vai usar uma técnica, cada instituto vai usar uma tecnologia, uma forma de fazer.

No nosso caso, o eleitoral é exatamente essa dinâmica presencial, face a face. Ser entrevistado por um instituto não é fácil, você tá vendo que foi raro no seu caso, mas as pessoas gostam de participar. Elas fazem questão, é muito interessante isso. Onde é que a gente está encontrando mais dificuldade? Nos condomínios de alto padrão e alto luxo. Então, é muito mais difícil você falar hoje com um eleitor que tem renda alta no Brasil, com a metodologia que a gente faz.

E é por isso que esse ano, vou te dar aqui um outro spoiler bacana, A gente está lançando um tracking de pesquisa, que é aquela pesquisa feita todo dia, híbrida. Então, a gente vai fazer entrevistas com a classe C, D e E de maneira presencial e vai fazer entrevistas com a classe A e B de maneira digital. A gente fez uma série de estudos, na Quest tem um laboratório que fica... Eu brinco, que são cientistas, ficam ali o dia inteiro trabalhando, fazendo experimentos.

E no último ano, a gente investiu muito em pessoas que têm capacidade e conhecimento disso que a gente chama de amostras híbridas, em que você pega um pouco de um estilo para outro e combina. Então, acho que o debate não é sobre qual técnica é melhor, o debate sempre é qual é a melhor ferramenta para responder à pergunta que você tem hoje. Hoje a gente tá lançando esse tracking misto, híbrido, porque a gente acha que isso vai tornar mais eficiente o processo de fazer pesquisa.

SGSidney Gomes

Ah, muito legal. Nos últimos anos, como tudo, você mostrou nesse seu livro Biografia do Abismo que o Brasil rachou, né? Tá calcificado, tá, enfim, as pessoas polarizadas, polarizado, o Brasil polarizou. E como tudo, como o establishment, como se diz, né, as universidades, os meios de comunicação, tudo ficou na berlinda. As pesquisas não fugiram dessa regra. E as críticas às pesquisas, geralmente eu noto uma coisa meio cínica, porque se o seu candidato tá bem, você acredita na pesquisa.

Se o seu candidato tá mal, o problema é da pesquisa. Como que você lida com essas críticas?

FNFelipe Nunes

Não, eu lido bem. Outro dia eu recebi uma, foi engraçado, uma pessoa que trabalha comigo, que foi meu aluno. Eu tenho muitos alunos que depois, eu continuo sendo professor, como diz, não abro mão disso, que eu adoro a sala de aula. E aí um desses alunos que hoje trabalha comigo me mandou uma mensagem falando, professor, professor, o fulano tá aqui falando, criticando e tal. Falei, gente, que bom, porque as pessoas só imaginam alguém importante no Brasil parou para prestar atenção no trabalho e fazer uma crítica a ele.

Isso não pode ser um problema, né? Eu acho que o problema tá na violência, o problema tá na desonestidade.

SGSidney Gomes

E esse negócio do fala mal, mas fala de mim o tempo todo é chato também, né?

FNFelipe Nunes

Mas é do jogo. Não adianta eu querer participar de um processo público como esse e achar que todo mundo vai gostar, que todo mundo vai ser— Ó, eu guardo, eu tiro print do Twitter. Quando a pesquisa— vamos falar aqui um pouquinho só do tema— quando a pesquisa mostra avaliação do governo Lula crescendo, eu sou chamado de lulista. Quando a pesquisa mostra o Bolsonaro, o Flávio melhorando nas pesquisas, eu sou chamado de bolsonarista.

Quer dizer, a melhor demonstração de que eu tô fazendo o meu trabalho é que a minha técnica, o meu termômetro, ele vai medir a febre. Minha questão não é se a febre é alta ou baixa, a minha questão é medir a febre.

SGSidney Gomes

Se o termômetro está certinho, está calibrado.

FNFelipe Nunes

A minha questão é o mercúrio calibrado do termômetro. Esse é meu trabalho. O meu trabalho não é torcer para A ou B, mas o mundo torce. Eu não posso brigar com o mundo, eu tenho que lidar com o mundo. Então assim, violência, xingamento pessoal, ofensa pessoal, ofensa à minha família, isso eu não tolero. Processo todo mundo, porque isso não é do jogo democrático e eu não concordo. Acho que tá errado. Claro, eu não faço isso com as pessoas, eu não quero que elas façam comigo de maneira injusta.

Agora, críticas ao meu trabalho, dizer que preferia de outro jeito, falar que não gostou, eu respeito, gosto e acho que é do processo. Lido muito bem com isso. Inclusive, como te disse, faço coleção, porque adoro. A mesma pessoa que me chama às vezes de ah, chama de B, o que para mim é uma demonstração de que eu tô no caminho certo.

SGSidney Gomes

Ô Felipe, e você considera que a nossa justiça eleitoral, a legislação eleitoral, tem desempenhado um papel importante no apoio à lisura desse processo das pesquisas? Seja proibindo uma pesquisa ali que tá meio obscura, sem dados ali no TSE, sem transparência, ou então proibindo de publicar ali em cima da Agora, como é que você tem visto a abordagem?

FNFelipe Nunes

Primeira coisa importante, Sidney, é bom que as pessoas que estão nos ouvindo saibam disso. Não há, não há nenhum país no mundo com tanta organização para divulgação de pesquisa como o Brasil. Cara, nesse negócio de pesquisa, a gente tá muito à frente dos outros. Você imagina, qualquer cidadão brasileiro que tá assistindo agora pode entrar no site do TSE e vai pegar? Porque antes de divulgar a pesquisa, eu tenho que dizer ao TSE como eu vou fazer a pesquisa, qual questionário eu vou utilizar para fazer a pesquisa, qual amostra eu vou utilizar para fazer a pesquisa, o número de entrevistas, os lugares.

Eu tenho que dar o detalhamento técnico inteiro. Não existe isso em nenhum lugar do mundo. Isso é um nível de transparência absurdo. E é isso que possibilita que os partidos políticos, a sociedade, o Ministério Público e a Justiça organizem um pouco o jogo, porque tem obviamente, como todo lugar, tem jornalista picareta, tem jornalista sério, tem instituto de pesquisa picareta. Isso aí, meu amigo, não tem jeito, é do jogo. Tem advogado, tem político, tem uns picareta e tem uns bons.

Então assim, eu acho que a Justiça, eu confio no trabalho dela e acho que ela tenta fazer o melhor que ela consegue. Muitas vezes ela erra. Justiça também é feita de seres humanos. Muitas vezes ela extrapola, toma medidas que não devia. Eu sempre sou diretor de relações institucionais da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Portanto, tenho um papel inclusive de relacionamento com o poder público para a associação. Eu digo sempre, nosso papel é ajudar a justiça a entender o que a gente faz, Porque, Sidney, só para concluir, o juiz não tem obrigação de saber tudo, mas ele tem que decidir sobre tudo, certo?

Qual é o nosso papel? O nosso papel é, com total transparência, ajudar o juiz a entender que às vezes uma decisão que ele tomou, porque ele não é obrigado a saber tudo, está errada. E aí ele corrige a decisão. Então, eu confio e espero que esse ano a gente tenha um TSE O TRE e a Justiça Eleitoral como um todo fazendo um trabalho impecável, que eu acho que é muito importante que os brasileiros acreditem e confiem. Eu confio. E lembrando que a gente tem eleição esse ano, eu queria deixar esse recado: pesquisa não é um instrumento de previsão eleitoral.

Pesquisa é um instrumento de mensuração da temperatura eleitoral naquele momento. Nosso trabalho não é dizer assim, ó, vai ser daquele jeito. Quem tem a obrigação de votar em A e B é o indivíduo. Aliás, ele tem liberdade, o eleitor é soberano. A gente só mede o que que ele acha que vai fazer. Olha a diferença: a gente mede intenção de voto, a gente não mede voto. Eu tenho intenção de emagrecer, mas entre ter intenção de emagrecer e emagrecer existe um pedaço grande.

Pode ser que eu não faça exercício, que coma demais. Então essa pergunta que você me fez é muito boa, eu tô me alongando nela porque eu sei que ela deixa muitas dúvidas, mas é muito importante que as pessoas entendam como a gente faz, porque a gente faz, e a relevância do que a gente faz.

SGSidney Gomes

Obrigado pela presença aqui. Já estavam brigando comigo aqui por causa do tempo estourado, mas não tem jeito. Quando entrevistado é bom assim mesmo. Obrigado, viu, Felipe?

FNFelipe Nunes

Obrigado, prazer estar aqui. Parabéns pelo trabalho.

SGSidney Gomes

Obrigado. E você assiste ao Sem Protocolo na TV Assembleia pela TV aberta ou pelo streaming. O nosso videocast está disponível no YouTube e no seu tocador de podcast favorito. Não tem desculpa para ficar de fora. A direção desse episódio é de Érica Araújo e Leandro Mascarenhas. Produção de Helena Câmara e Tatiane Fontes. Áudio Jean Miranda e edição de Vitor Caldas. Até o próximo!