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Quedas de idosos já são um problema de saúde pública

08 de julho de 202612min
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As quedas que costumam ser comuns entre os idosos são assunto do Panorama podcast dessa semana. Um em cada quatro idosos brasileiros que moram nas cidades já sofreu algum tipo de queda no período de um ano, segundo estimativa do Ministério da Saúde. E os especialistas alertam que as quedas não devem ser consideradas normais. É preciso entender as causas e buscar maneiras de preveni-las. O grande número de quedas entre os idosos brasileiros já coloca o problema como uma questão de saúde pública no Brasil. Para tratar do assunto, o jornalista Fernando Gomes conversa com a geriatra Ana Cristina Nogueira Borges, coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Geriatria da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e com a fisioterapeuta Raquel Bosco, coordenadora do Serviço de Fisioterapia do Hospital Madre Teresa.
Participantes neste episódio1
A

Ana Cristina Nogueira Borges

ConvidadoEditor e apresentador
Assuntos4
  • Idoso com HerançaProblema de saúde pública · Ministério da Saúde · Organização Mundial de Saúde
  • Desafios com envelhecimentoCausas extrínsecas (ambiente) · Causas intrínsecas (saúde) · Osteoartrite · Sarcopenia · Doença de Parkinson · Doença de Alzheimer
  • Demissao e ConsequenciasÓbitos · Internações · Contusões · Traumatismo cranioencefálico · Fratura de colo de fêmur
  • Saúde e bem-estar dos idososAtividade física regular · Fortalecimento muscular · Caminhadas · Estudo de Otago
Transcrição20 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz 1

Olá, tudo bem? Nas cidades brasileiras, 1 em cada 4 idosos sofre algum tipo de queda a cada ano. A estimativa é do Ministério da Saúde. E para quem está acima dos 80 anos, o índice é ainda maior. As quedas já são consideradas como um problema de saúde pública e os profissionais alertam que a queda de um idoso não pode ser considerada normal. É preciso investigar as causas para saber se existem outros problemas associados. Eu sou Fernando Gomes, editor e apresentador do Panorama, e no podcast dessa semana eu converso com a geriatra Ana Cristina Nogueira Borges, coordenadora do curso de pós-graduação em geriatria da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, e com a fisioterapeuta Raquel Bosco, especialista em gerontologia e coordenadora do serviço de fisioterapia do Hospital Madre Teresa.

O nosso assunto: as causas e consequências das quedas dos idosos. Vamos acompanhar? Ana Cristina, eu queria começar te perguntando o seguinte: com essa questão do envelhecimento da população num ritmo acelerado aqui no Brasil, essa questão das quedas, a gente já pode considerar isso como uma preocupação maior, uma questão de saúde pública?

ACAna Cristina Nogueira Borges

Então, esse tema quedas é uma preocupação tão grande a nível mundial, né, que é considerado uma das grandes síndromes geriátricas. Ou seja, um dos grandes problemas possíveis de ocorrerem em pessoas idosas, tá? Existe até um dia considerado para se chamar atenção com relação à prevenção de quedas, que é o dia 24 de junho, que foi estabelecido pela Organização Mundial de Saúde e que foi acatado pelo Ministério da Saúde. Existem inúmeras possibilidades de causas para ocasionar quedas em idosos, inclusive queda ser manifestação atípica de doenças em idosos.

Por exemplo, a pessoa tá gripada ou tá com mal-estar ou uma pneumonia e não apresentar sintomas típicos das doenças específicas, mas sim apresentar uma queda. Existe também a possibilidade de causas extrínsecas, por exemplo, questões do ambiente, né, que a Raquel com certeza vai mencionar, às vezes ali degraus, piso escorregadio, tapete, má iluminação, às vezes até a roupa de cama mesmo do idoso arrastando no chão, né? O idoso que levanta muitas vezes à noite para urinar e vai, escorrega.

E vários fatores também intrínsecos que são problemas, que podem ser problemas de saúde, por exemplo, dificuldades para caminhar. Às vezes a pessoa tem uma osteoartrite, uma artrose, que as pessoas costumam chamar, é uma lentificação andar, problemas de sarcopenia, que são diminuição da massa, da força muscular, várias causas que provocam instabilidade postural, por exemplo, doença de Parkinson, outras doenças, por exemplo, a doença de Alzheimer numa fase já mais moderada, avançada, e até mesmo descondicionamento físico, aquela pessoa que não tem o hábito de fazer atividades físicas ou que não se alimenta bem, não ingere de forma adequada proteína, menos calorias, então ela vai enfraquecendo a sua musculatura e isso também aumenta muito o risco de quedas.

?Voz 1

Raquel, vamos entrar na área aí da fisioterapia. Você tem notado, por exemplo, um aumento nesse índice, nesse número de idosos? Alguma característica específica? Ou quais seriam essas, dentre essas causas que a Ana Cristina coloca, quais seriam as mais comuns e mais frequentes de acontecer?

?Voz 2

Eu acho que a grande preocupação hoje, como a Ana comentou, é uma situação de saúde pública, pensando inclusive no Brasil. Ano passado, esses dados que você comentou sobre o SUS, nós tivemos 9 mil óbitos.

?Voz 1

Óbitos. A gente vai mostrar depois alguns dados mais específicos.

?Voz 2

E se a gente pensar em 9 mil óbitos no ano, são quase 24 idosos falecendo todos os dias.

?Voz 1

Pois é, mas em função exatamente das quedas? Em consequência das quedas? Como é que é isso? Eu fiquei um pouco assustado com esse dado.

?Voz 2

Em consequência. Quando você comentou em torno de 50 mil internações, são mais quase 120 mil consultas e internações juntas. Ano passado, o que que é a grande questão? Quando o idoso cai, mais ou menos em torno de 20 a 30% dessas quedas são quedas consideradas graves. Então a gente tem os idosos que caem, tem escoriações, tem aquele roxo e não acontece nada de mais grave, mas tem uma parcela que é significativa, em torno de 30%, que são aqueles idosos que vão ter consequências graves e que vão precisar de uma assistência.

Então a gente tem as contusões, nós temos o traumatismo cranioencefálico e o pior de todos, na verdade, é o que é a fratura de colo de fêmur. E que essa fratura vai exigir a internação hospitalar. E a internação, né, a gente que trabalha com essa faixa etária, ela tem uma série de consequências muito ruins, Fernando, no sentido assim das possibilidades de piora. Então, se você tem um idoso, né, quanto mais idoso, quanto mais velho cronologicamente, a gente tem mais repercussão sistêmica.

Esse idoso pode incorrer com várias complicações no peroperatório, quer dizer, durante a cirurgia e no pós-operatório. Se esse idoso, por exemplo, ele opera e permanece uma semana internado numa UTI, por exemplo, com uma complicação, uma arritmia cardíaca, um quadro de uma pneumonia, por exemplo, ele pode perder até 30% da massa magra.

?Voz 1

Você se imagina, só naquele período no hospital, na restrição.

?Voz 2

Então assim, é um idoso que já vem com processo de sarcopenia, às vezes já um idoso que tá com uma situação mais fragilizada, ele interno por um procedimento de grande porte, que é uma cirurgia de quadril, ele às vezes sai do hospital com uma funcionalidade absolutamente comprometida.

?Voz 1

Ana, eu queria que você falasse um pouco mais dessas doenças que podem estar relacionadas às quedas, que seria osteoporose, a sarcopenia que você falou. Tem alguma outra que pode gerar algum tipo de favorecer algum tipo de queda?

ACAna Cristina Nogueira Borges

Então, é assim, no geral, todos os aparelhos podem estar associados a riscos de queda, né?

?Voz 1

É possível identificar? Por exemplo, o idoso caiu, depois que ele caiu consegue se perceber qual foi o motivo daquela queda e para prevenir justamente as outras.

ACAna Cristina Nogueira Borges

Isso, aí muitas vezes o médico que vai atender o idoso, a forma de avaliar essa pessoa idosa vai ser diferente. Se esse idoso deu entrada numa UPA, num pronto atendimento, se esse idoso teve uma injúria grave, como Raquel comentou, por exemplo, uma fratura, precisou ser internado, vai operar. Se teve às vezes um traumatismo craniano, hematoma subdural, também é caso de internação muitas vezes, né? E assim, ambulatorialmente, que eu falo assim, no ambulatório do SUS, né, nas faculdades, nos atendimentos que a gente faz aos idosos, a gente faz uma metodologia de avaliação que chama AGA, que é Avaliação Geriátrica Ampla.

E através desse instrumento de avaliação, a gente tenta identificar inúmeros fatores de risco para quedas. E aí, ao final, a gente descreve como uma lista de problemas, né? E depois fazemos o nosso plano de cuidados, sabe? Então, na lista de problemas associados aí à queda, você pode ter, por exemplo, um déficit visual. Às vezes uma pessoa tá com catarata, não tem dado conta, não tá enxergando bem, aí não vê ali uma diferença no piso e cai, né?

Um problema respiratório. Vamos supor, uma pessoa que tem um quadro de DPOC, já fumou muito ao longo da vida, tem enfisema, tem asma, aí tem falta de ar, não tem a mesma capacidade aeróbica para fazer as suas atividades no dia a dia, e aí aumenta o risco de quedas. Da mesma forma, as causas cardiovasculares, então arritmias, insuficiência cardíaca. A Raquel bem lembrou aqui uma questão muito comum, que é a hipotensão ortostática.

Então o profissional da saúde precisa medir a pressão dessa pessoa ou idosa, deitado e em pé, porque é assim que a gente vai conseguir diagnosticar essa queda de pressão quando muda da posição deitado para em pé.

?Voz 1

Raquel, eu queria falar um pouco da questão da prevenção. Atividade física regular, ela é recomendável para todo mundo, né, o tempo todo. Mas no caso do idoso, como é que é a frequência, a intensidade? É um pouco diferente? Como que ele pode, vamos dizer assim, um idoso saudável que quer fortalecer os músculos e evitar as quedas. Ele precisa de orientação, né?

?Voz 2

Muito. Eu acho que é fundamental. São as várias fases da vida, né? Quando a gente tá lá crescendo, a criança, o jovem, o estímulo à atividade física nessa faixa etária, ela é muito importante para que lá na frente, quando esse jovem se transformar no idoso, ele tem aquela, primeiro, aquela memória muscular da atividade física bem feita nessa fase da vida. E porque o que a gente percebe muito? A gente tem um momento do adulto em que a sobrecarga de trabalho, de várias funções, principalmente a mulher, com dupla jornada, tripla jornada, quando a gente fala em atividade física obrigatória e esse banco muscular que a gente precisa construir ao longo da vida, é uma situação que é o mundo real, o mundo ideal.

A gente muitas vezes não consegue dentro de uma realidade do mercado, da vida das pessoas, falar: olha, você precisa de uma atividade regular, atividade regular, frequente, contínua, né, uma musculação, Pilates, ou seja, qualquer coisa. Então eu falo muito assim, que a gente começa a ter esse banco, Fernando, antes de chegar aos 60 anos. Então alguma coisa no trabalho, eu posso, se eu trabalho num prédio, eu posso subir um lance de escadas, eu posso fazer uma caminhada no meu horário do almoço, que a gente cresça e estimule isso nessa faixa etária pré o processo de envelhecimento, né.

Quando a gente realmente tem esse marco cronológico de 60 anos, a gente tem, né, um cuidado muito maior. Então, passa a atividade física a ela ser uma variável assim quase que fundamental, ela é uma das primeiras, né? Tem um estudo feito na Nova Zelândia, um estudo daquele de Otago, né, que fala da atividade física, eles ajuntaram um grupo, fizeram um grupo de idosos acima de 80 anos, a maior parte desses idosos com quedas anteriores, e fizeram um programa de atividade física 3 vezes por semana.

Exercícios físicos de fortalecimento e 2 vezes caminhadas. E esse estudo foi replicado internacionalmente, por vários países, e houve nesse estudo uma redução de até 40% do índice de quedas após esse protocolo de 1 ano. Então a gente precisa e deve ter uma regularidade, e aí são profissionais dedicados para isso, né? A geriatria, o geriátrico é fundamental como esse maestro dessa orquestra do envelhecimento, e todos nós da área, cada um na atuando para isso. Então tem como prevenir?

?Voz 1

Tem.

?Voz 2

E qualquer idade, né, Ana? Qualquer idade que a gente começar a fazer atividade física, nós vamos ter benefício.

ACAna Cristina Nogueira Borges

Exatamente.

?Voz 1

E esse foi mais um podcast do Panorama. Entrevista completa você acompanha no portal da Assembleia, a lmg.gov.br/tv, ou no nosso canal do YouTube. O título é Quedas de Idosos. A produção é da Helena Câmara, edição de imagens da Leonora Malá. Edição de áudio do Jean Miranda. Nosso diretor de TV e de gravação é o Vander Jorge. Se você gostou, compartilhe com os amigos. A gente se vê no próximo podcast.