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eu só to com insonia – Miojo

05 de janeiro de 2021

Já era bem tarde e estava brigando para tentar arrumar meu sono completamente desregulado. Peguei meu celular e decidi colocar alguma coisa para tocar, para ver se eu pegava no sono mais rápido. Vasculhando algumas coisas, achei um podcast de um cara que se propunha a reflexões não muito convencionais, com episódios super curtos. Ouvi o primeiro episódio e, no segundo, ao invés de bater a sonolência veio uma fome irremediável. E como todo bom glutão madrugadeiro, tive a excelente e talvez a mais clichê de todas as ideias: Fazer um miojo.

O Macarrão instantâneo tem todas as características que satisfazem o ser humano desesperado, munido de algum tipo de larica, sem dinheiro e sem tempo. Basta alguns minutos e voilá, temos uma iguaria que se não for a das melhores, satisfaz o desesperado. O miojo é uma espécie de primo pobre da Macarronada, apesar de seu criador, o senhor Momofuku Ando – que tem um excelente nome – ser considerado o rei do macarrão. A Macarronada tem um espaço que o miojo nunca vai ter. A macarronada é o centro das atenções do domingo, enquanto seu modesto primo é comida cativa de estudantes e fudidos.  Ela tem até a criação disputada entre chineses e italianos e o primo, coitado, ganha o título de instantâneo.

Pensando nessa cronologia um tanto triste do alimento que iria comer, resolvi dar um carinho a mais ao senhor miojo. Um singelo upgrade no seu tempero pronto. Peguei um poco de Shoyou e uma maionese de chipotle que estava escondida no fundo da minha geladeira e coloquei a água para ferver.

E água foi fervendo.

Fui observando aos poucos as pequenas borbulhas surgirem, pouco a pouco, e fui imaginando o orgulho que eu daria para o Sr Miojo que com certeza não estava esperando ser consumido as 3 da manhã de uma terça feira e muito menos ser tunado. Fiquei imaginando Dona Macarronada, meio perplexa, meio invejosa, olhos semicerrados encarando a felicidade de um ser que deveria ser subjugado ao reino dos insumos insonsos. E brava, com fortes toques de insanidade, se levanta gigante, escorrendo molho pelo seu corpanzil cozido e aponta o dedo macarrônico na minha cara e brava: VOCE SE ARREPENDERA DISSO, SEU MOLEQUE.

Prato pronto, pozinho e shoyo jogados e a maionese de chipotle juntando todo aquele amor entre os ingredientes em forma de cremosidade.

Comi sem o menor esforço.

Ainda desperto, resolvi reabrir o notebook e terminar o texto que eu estava escrevendo. E, meio que do nada mesmo, alguma coisa bem estranha começou a acontecer dentro de mim. Não era uma sensação muito boa, parecia que meu intestino tinha ganhado vida. Resolvi por não me preocupar com aquilo, estava bastante concentrado no texto. E aí, veio a segunda onda. E dessa vez parecia que eu estava parindo um alienígena e ele estava querendo sair pelo meu umbigo. Traumatizante. Suando e já em pleno desespero, corri para o banheiro. Maldosos irão dizer que tudo foi culpa da estranha mistura de ingredientes, mas eu tenho certeza absoluta que foi a maldição dos deuses da macarronada.

Sentado no trono da derrota profunda, suando como se estivesse no inferno e chorando de cólica intestinal, descobri que é melhor não irritar certas entidades. Ser disruptivo tem um preço meio caro, e as vezes podem existir soluções mais simples. Como comer uma bolacha de agua e sal por exemplo.
Mas eu só tom com insônia