A MENINA SEM ROSTO
Estava bastante calor e a festa completamente lotada. Já havia bebido umas quatro ou cinco garrafas de cerveja, muito longe de ser suficiente para embebedar, mas o necessário para encher a bexiga e procurar o banheiro. Comentou com os colegas de roda sobre a urgência e prontamente foi apontado um corredor à esquerda, perto daquela fila enorme, com a placa “Apenas mulheres”. O toalete feminino, como sempre, parecia lotérica em dia de pagamento. “Deposite aqui a sua urina”, pensou dando uma risada de canto de boca, enquanto atravessava aquele mar de gente. “Mais uma para a poupança de piadas de tiozão”.
Enquanto cumpria sua missão fisiológica, maquinava os próximos passos que daria na festa. Mais uma Brahma? Mais umas quatro, com certeza. Talvez desse em cima da amiga do amigo, já eram duas da manhã e nada de paquera. Com toda e absoluta certeza do mundo faria isso. Era sexta feira, dia que as coisas eram permitidas, dia de correr riscos. Amiga de amigo é um perigo.
Foi saindo do banheiro com todo o itinerário na cabeça, plano traçado com perfeição. Percorrendo o caminho de volta, o som aumentando gradativamente, os canhões de luz contra seus olhos e um pouco de fumaça, viu no fim da fila uma silhueta dançante. Sensualmente dançante. Balançava seu corpo de maneira hipnótica, como uma serpente completamente encantada com a música. Seus movimentos estavam simbioticamente ligados às batidas que saíam das caixas de som. A cada curva que ela fazia com o quadril, ele ficava mais hipnotizado.
Mudança de planos. Dentro dele foi nascendo uma estranha e absoluta necessidade de ir falar com ela . Ou pelo menos vê-la de perto. Como aquelas obras de arte que, mesmo vendo de longe, nos dão a sensação de querer cada vez mais se aproximar. Uma pintura.
Chegou rápido, antes que o feitiço dela e a coragem dele acabassem. Trocaram comprimentos, nomes e, da parte dele, vários elogios. Enquanto conversavam, ele tentava de todas as formas ver seu rosto no meio daquele lugar mal iluminado. Não conseguiu. Mas seguiu com o plano de não sair no zero a zero em um fim de semana. Investiu o que tinha de melhor do seu acervo de cantadas. Conseguiu duas ou três risadas que somadas deram um beijo. Uma bela equação.
Saiu dali resoluto de que a noite havia valido a pena, uma sensação indescritível de vitória, a ser comemorada com mais uma bebida. No caminho até o bar, foi pensando em como ele não conseguia ver o rosto dela e como aquilo não importava muito. A memória mais importante estava alocada naquele beijo, quente, demorado, apaixonante. E na dança. Se pegou pensando que caiu em uma das maiores armadilhas da noite: se apaixonou pela primeira bitoca.
Lembrou de uma história que aconteceu na época do colegial. Durante os três anos, ele e os colegas viam a mesma menina passar perto do banco onde eles se sentavam. Nunca dava para ver ela de frente. Sempre de costas. Isso acabou virando uma lenda entre os amigos. Quem a visse de frente estava fadado a uma maldição terrível. Ela virou uma espécie de medusa.
Hoje, se deixou levar pelo feitiço e, graças ao escuro, não se transformou em pedra.