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O que muda com acordo entre Mercosul e União Europeia

04 de maio de 202611min
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O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra em vigor nesta sexta-feira (1º). 

Negociado por 26 anos, ele cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo e vai reduzir tarifas de importação de produtos europeus que chegam a países do bloco (incluindo o Brasil), e também sobre produtos brasileiros e de outros países exportados à Europa.

Participantes neste episódio1
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Alan Blanco

HostJornalista
Assuntos3
  • Acordo Mercosul-UEEntrada em vigor e escala do acordo · Impacto nas exportações brasileiras · Benefícios para a indústria brasileira · Aplicação provisória e análise jurídica · Redução progressiva de tarifas · Recuperação de espaço comercial europeu na América Latina · Projeções de crescimento econômico · Distribuição de cotas de exportação entre países do Mercosul
  • Situação Econômica ArgentinaPrograma 'Inocencia Fiscal' de Javier Milei · Histórico de desconfiança com o governo argentino (Corralito) · Hábito cultural de guardar dólares · Resultados modestos do programa de incentivo · Desafio de reconstruir a confiança nas instituições
  • Manchetes InternacionaisFilipinas acusam China de pesquisa marinha ilegal · Cortes de produção de petróleo · Estreia e faturamento de 'O Diabo Veste Prada 2'
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Oi, bom dia, como vai? Esse é o Estratégio do Dia e eu sou o Alan Blanco. Antes de começar o episódio 3, manchetes rápidas do mundo lá fora. Filipinas acusam a China de realizar pesquisa marinha ilegal em águas disputadas no mar do sul da China. A China negou, surpreendendo zero pessoas. Ele tenta equilibrar cortes de produção de petróleo com pressão nos estoques para resistir ao bloqueio americano.

É basicamente tentando fazer malabarismo enquanto alguém apaga as tochas. E a sequência de O Diabo Veste Prada estreou e já faturou 233 milhões de dólares pelo mundo. Agora, o que a gente veio de verdade discutir hoje? Primeiro, depois de 26 anos de negociação, que é tempo suficiente pra uma criança nascer, crescer, terminar a faculdade, entrar em crise existencial e ainda assim não saber o que fazer da vida...

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor. Mais de 80% dos produtos que o Brasil exporta para a Europa passam a ter tarifa zero. A conta é grande, mas sem letra miúda e a gente vai ler ela junto. Segundo, Javier Meleik é convencer os argentinos a tirarem os dólares debaixo do colchão. E o número que já está lá é impressionante, 170 bilhões de dólares fora do sistema bancário. O problema é que quando um governo já confiscou o dinheiro das pessoas uma vez na...

história recente, confia em mim dessa vez, é uma frase que não cola fácil. Então, fica com a gente porque são dois temas bem interessantes, lembrando que você pode seguir nosso videocache, é só entrar no nosso perfil e colocar pra seguir, assim você fica atualizado diariamente do que acontece no Brasil e no mundo, episódios aí de segunda a sexta. Inclusive, bora começar.

Então vamos começar falando sobre o acordo do Mercosul com a União Europeia, que entrou em vigor no dia 1º de maio. 26 anos. Esse é o tempo que levou para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia sair do papel. A negociação atravessou governos de esquerda, de direita, crises financeiras, uma pandemia e, claro, 11 filmes da franquia Velozes e Furiosos. E, finalmente, no dia 1º de maio de 2026, o acordo entrou em vigor. Então vamos ao que interessa. O que muda?

A primeira coisa a entender é a escala. O tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo um mercado de 780 milhões de consumidores e economias que somam 22 trilhões de dólares. Isso não é pouca coisa. É o tipo de número que faz qualquer economista parar, respirar fundo e dizer...

Bom, então, olha, para o Brasil especificamente, o impacto mais imediato está nas exportações. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, mais de 80% dos produtos que o Brasil vende para a Europa passam a ter tarifa de importação zerada já nessa fase inicial. São mais de 5 mil produtos com tarifa zero de cara, bens industriais, alimentos, matérias-primas. E aqui tem um detalhe que surpreende, o setor que mais se beneficia no começo não é o agronegócio.

É a indústria. Dos quase 3 mil produtos com tarifa zerada logo de cara, cerca de 93% são bens industriais. Seja máquinas, equipamentos, compressores, bombas industriais, peças mecânicas. Praticamente tudo que o Brasil exporta nesse segmento para a Europa passa a entrar sem pagar pedágio na fronteira. E isso, meus amigos, tem potencial real de mudar a posição competitiva das empresas brasileiras lá fora.

Quando você zera o imposto de entrada, você não só abarateia o produto, você muda a conversa com o comprador europeu. De repente, o preço que antes estava fora do alcance passa a ser viável. Mas espera, tá? O acordo tem nuances importantes. A aplicação está sendo feita de forma provisória, decisão da Comissão Europeia, inclusive. Em janeiro, o Parlamento Europeu encaminhou o texto para análise do Tribunal de Justiça na União Europeia, que ainda vai avaliar se tudo está juridicamente compatível com as normas do bloco.

Esse processo pode levar até dois anos. Ou seja, o acordo está valendo, sim, mas sob condição. É como alugar um apartamento enquanto a escritura ainda está sendo lavrada. E nem todos os produtos têm tarifa zerada de uma vez. Para setores considerados mais sensíveis, a redução é progressiva. Os prazos chegam a 10 anos na União Europeia, 15 anos no Mercosul e, em alguns casos, até 30 anos. 30 anos! Seu filho pode nascer, crescer, virar negociador comercial e ir lá assinar o próximo acordo antes disso acontecer.

Do lado europeu, a lógica é clara. Saiba que a participação da União Europeia no comércio do Mercosul caiu de 23% para 14% entre 2001 até hoje. Com um acordo, a Europa expande sua rede comercial na América Latina para cobrir 97% da economia da região, comparado a 44% dos Estados Unidos e 14% da China. Em outras palavras, a Europa está tentando recuperar espaço em uma região em que a China e os Estados Unidos estão disputando cada vez mais intensidade.

A Bloomberg Economics estimou que o acordo pode impulsionar a economia do Mercosul em até 0,7% até 2040. Parece pouco? Em escala de PIB, não é tão pouco. E para a Europa, o ganho projetado é de 0,1% após 15 anos. É modesto, mas consistente com o que grandes acordos comerciais costumam entregar em economias já desenvolvidas. O que ainda vai ser definido são os detalhes operacionais, incluindo como as cotas de exportação vão ser distribuídas entre os países do Mercosul, A A

Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai vão ter que sentar e dividir o bolo. E se você já viu como funciona a divisão daqueles bolos comunitários de aniversário de cidades do interior, você já imagina que essa conversa não vai ser simples. No fim das contas, o que o acordo representa é uma aposta, de que os mercados mais integrados são mais resilientes.

de que reduzir barreiras cria mais oportunidade do que ameaça, e de que 26 anos de negociação valeram o esforço. A prova real vem agora, com a implementação. Acordos comerciais são como... como academia. O que importa não é assinar o contrato, é aparecer toda semana.

E agora vamos falar de argentinos e os dólares debaixo do colchão. História bem curiosa. Alejandro Lamas vendeu carros usados em Buenos Aires por décadas. Nesse tempo ele desenvolveu uma habilidade pouco comum. Ele consegue identificar uma nota de dólar falsa pelo tato. Ele passa os dedos sobre o papel, sente a textura e sabe. Não é um superpoder. É uma consequência natural de receber pilhas e pilhas de dólares em espécie dos clientes ao longo dos anos.

notas úmidas, amassadas e às vezes inclusive com cheiro de colchão velho. Porque lá na Argentina, guardar dólar em casa não é coisa de gente excêntrica, é estratégia de sobrevivência financeira. Vamos entender. As autoridades argentinas estimam que cerca de 170 bilhões de dólares estejam fora do sistema bancário, ou seja, na mão dos cidadãos, em casa, em cofres particulares ou no exterior. Pra ter escala, 170 bilhões de dólares é mais do que o PIB inteiro de países como Bulgária ou Croácia.

É uma quantidade absurda de dinheiro rodando fora da economia formal. E Javier Mele, o presidente da Argentina, quer esse dinheiro de volta nos bancos. O programa criado para isso se chama Pode Tirar do Colchão, que dessa vez é sério. Mentira, é inocência fiscal o nome. E o nome já diz muita coisa sobre essa estratégia.

A ideia é simples, se você depositar economias em dólar não declaradas, o governo não vai perguntar de onde veio esse dinheiro. Sem fiscalização, sem explicações, sem processo. Abre aspas. Não terão que dar explicações, fecha aspas. Disse a agência tributária argentina no lançamento do programa em fevereiro.

O raciocínio econômico faz sentido. Se você conseguir trazer de volta mesmo que uma fração desses 170 bilhões de dólares para o sistema formal, isso injeta liquidez na economia, aumenta o crédito disponível e estimula o consumo e o investimento. É dinheiro que hoje está parado, literalmente está parado, embaixo do colchão, e que poderia estar lá trabalhando.

O problema é que os argentinos têm motivos históricos muito bons para não confiar nessa promessa. Em 2001, o governo argentino, desesperado para manter dólares na economia durante uma crise brutal, impôs o chamado corralito, ou seja, converteu à força os depósitos em dólares para pesos e ainda limitou saques em dinheiro. Os pesos que as pessoas receberam no lugar dos seus dólares perderam 75% do valor nos meses seguintes. Traduzindo, quem tinha dólar no banco foi literalmente roubado pelo governo.

24 anos depois as pessoas ainda se lembram Não é paranoia, é memória econômica E memória econômica é uma das coisas mais difíceis de apagar Porque tá ancorada em perda real, em trauma financeiro concreto Você emprestaria dinheiro pro seu tio de novo Depois de ele ter comprado um celta por 70 mil reais do cara do TikTok E não ter te pagado de volta?

Eu acho que não. O hábito de comprar dólar virou parte da cultura lá na Argentina. Os argentinos adquirem cerca de 2 bilhões de dólares em moeda estrangeira todo mês, número que pode saltar para mais de 6 bilhões de dólares em períodos de estresse político como eleições. Não é especulação, é defesa. E tem até folclore local em torno disso. As notas mais antigas de 100 dólares, aquelas com um retrato menor de Benjamin Franklin, emitidas há mais de 30 anos, tem nome próprio.

e são negociadas com um pequeno desconto no mercado informal argentino. Existe, portanto, ali um mercado secundário de classificação de notas de dólar. Isso diz muita coisa sobre como o dinheiro circula por lá. Mas voltando ao programa de Milley, os resultados até agora são modestos, tá? Os depósitos em dólar subiram menos de 1 bilhão de dólares desde o lançamento da inocência fiscal em fevereiro. No universo de 170 bilhões de dólares, isso é...

Menos de 1%. É o tipo de resultado que faz a equipe econômica olhar para os dados e suspirar fundo. O próprio Milley reconheceu a dificuldade, disse que é uma lei revolucionária, mas você não pode impor a coisa à força. Ele disse isso em uma entrevista recente, com uma certa frustração perceptível, segundo a reportagem.

O ministro da Economia, Luiz Caputo, insiste que a situação é diferente agora, que o governo atual é responsável fiscalmente, que os depósitos em dólares estão no nível mais alto desde 2001, e que, para os poupadores, manter dinheiro em casa é irracional, porque o dinheiro perde valor sem render nada. É basicamente o seu tio batendo na porta da sua casa depois de ter pintado o Celta.

Só que tudo isso é verdadeiro, e ainda assim não está funcionando na velocidade que o governo esperava. O Banco Nacion chegou a lançar uma campanha de humor com colchões reclamando que não conseguem dormir por causa do dinheiro que carregam. O slogan é, alivie o seu colchão. É criativo, e também é uma medida do tamanho do desafio. Quando você precisa personificar um colchão para convencer as pessoas a confiarem no sistema bancário, a tarefa não é pequena.

Adrian Yard Buller, economista-chefe da Facimex Valores, resumiu bem, abre aspas, o potencial é enorme, dado a escalada dos ativos que os argentinos mantêm fora do sistema, mas vai ser preciso mais do que essa lei para mudar o comportamento. É preciso reconstruir a confiança nas instituições e isso leva tempo, fecha aspas. E Alejandro Lamos, o vendedor de carros que aprendeu a identificar dólar falso pelo toque nos dedos, disse no começo da matéria, concorda com a mensagem do governo, deposita os lucros do próprio negócio.

Mas, entende seus clientes, diz que já se passaram 25 anos desde o curralito e as pessoas ainda se lembram, dizendo que 50 anos de instabilidade fizeram os argentinos do jeito que são, e que vai levar mais 50 de governo fazendo as coisas certas pra fazer eles esquecerem. É gente, 50 anos. É um prazo longo, e que consegue ser ainda mais longo do que o período que durou as negociações do acordo do Mercosul e União Europeia.

E, gente, uma pergunta pra vocês. Vocês conhecem parentes, pessoas que guardam dinheiro debaixo do colchão aqui no Brasil? Já passaram por essa experiência? Deixa aqui nos comentários se você tem avós ou avós que faziam isso e que talvez ainda façam. Deixe que eu quero ler no episódio que vem. E a gente se encontra lá, gente. Tchau, tchau. Big beijo.

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