Episódios de Vale a pena com Mariana Alvim

T4 #45 Filipa Fonseca Silva

05 de maio de 202649min
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Quando se estreou na literatura, foi a primeira autora portuguesa a chegar ao Top 100 da Amazon. Desde então publicou mais de uma dezena de obras, algumas com adaptação ao cinema. Agora, quais os livros que marcaram esta convidada, que é também fundadora do Clube das Mulheres Escritoras?

Os livros que escolheu:

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll;

Puro, Nara Vidal;

Os Meus Sentimentos, Dulce Maria Cardoso;

Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago.

Outras referências:

Alice Do Outro Lado do Espelho, Lewis Carroll;

Saramago:

Deste Mundo e do Outro (Crónicas);

A Caverna.

O Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos;

O Mel Sem Abelhas, Judite Canha Fernandes.

Alguns dos livros que publicou:

Os 30: Nada é como sonhámos;

Admirável Mundo Verde;

Napoleão, O Camaleão;

O Elevador;

E se Eu Morrer Amanhã?;

A Mulher por Detrás da Parede.

Recomendei:

Terra Estreita, Mafalda Santos;

O Deus das Moscas, William Golding;

Maggie O’Farrell:

Hamnet;

Estou Viva, Estou Viva, Estou Viva.

Ofereci:

Minúscula, Marta Coelho;

O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox, Maggie O'Farrell.

Os livros aqui:

www.wook.pt

Assuntos9
  • Recomendação de LivrosAlice no País das Maravilhas · Puru, de Nara Vidal · Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso · Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago · O Mel Sem Abelhas, de Judite Canha Fernandes · O Deus das Moscas, de William Golding · Hamnet, de Maggie O'Farrell · O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox, de Maggie O'Farrell · Minúsculo, de Marta Coelho · Terra Estreita, de Mafalda Santos · O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos
  • Invisibilidade FemininaViolência e espera em relações clandestinas · Estefânia (protagonista) · O papel da amante na literatura · Julgamento social e empatia
  • Obras de Filipe Afonseca SilvaOs 30: Nada é como sonhámos · O Elevador · E se Eu Morrer Amanhã? · A Mulher por Detrás da Parede · Napoleão, o Camaleão
  • Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria CardosoAlcoolismo e acidente de viação · Reflexões sobre o pós-25 de Abril em Portugal · Relação pai-filha e ligações à PIDE · Reescrita de obra após perda de dados
  • Filipe Afonseca Silva: Trajetória e TemasCarreira publicitária e transição para escrita · Crítica social e fragilidades humanas · Feminismo e questões ambientais · Adaptação de livros para cinema
  • Puru, de Nara VidalEugenia no Brasil dos anos 30 · Literatura gótica · Personagens: Lázaro, Dália, Lubélia, Alpínia
  • Sonhos e Aspiracoes PessoaisSucesso na Amazon · Memória de cenas específicas
  • Movimento de MulheresApoio e promoção de autoras · Divulgação da literatura feminina
  • Ensaio sobre a Cegueira, de José SaramagoPandemia de cegueira · Resistência à leitura de Saramago
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Olá, sou a Mariana Alvim. Bem-vindos ao Valapena, o meu podcast onde falamos de livros favoritos e por vezes vamos da ficção para a realidade. Com o apoio da Wook, a maior livraria online portuguesa. Fiquem por aí. Valapena.

A minha convidada de hoje é a escritora Filipe Afonseca Silva, nascida no Barreiro, licenciada em Comunicação Social e Cultural pela Católica. Trabalhou durante vários anos como criativa publicitária, antes de se dedicar mais intensamente à escrita. Estrelou-se na literatura em 2011 com os 30 Nada é como sonharmos. Vou ter que falar sobre este livro.

É o único livro de um autor português a chegar ao top 100 da Amazon na altura. Desde então publicou mais de uma dezena de obras entre romance e conto e crónica e ensaio e literatura infantil, com vários títulos traduzidos, finalistas de vários prémios, prémios literários. O livro Elevador foi adaptado para uma curta-metragem e o Senhor Morrerá Amanhã está em desenvolvimento para cinema. Uau! E o projeto venceu o concurso do Instituto do Cinema e Audiovisual da UICA para desenvolvimento de guião. Filipe, amei, dente que sim.

É também fundadora do Clube das Mulheres Escritoras, já tive aqui a oportunidade de falar sobre isto várias vezes, já recebi várias convidadas desta comunidade que é dedicada a apoiar e promover as autoras. A sua escrita move-se entre a crítica social, as fragilidades humanas, o feminismo, as questões ambientais, sempre com uma voz sensível e muito atenta ao mundo. E entre a publicidade e o sucesso da sua obra, a Filipe construiu uma voz muito própria na literatura portuguesa contemporânea.

Tudo está disponível online, hoje vamos é conhecer o último romance que escreveu e claro...

a Filipe Leitora. Bem-vinda! Muito obrigada. Esta introdução já nem sei o que dizer. Obrigada. Já tudo certo, não é? Está tudo certo. Diz a Filipe antes, se eu me enganar é alguma coisa, tu corris-me à vontade. Bom, olha, antes de mais, antes de conhecer a Leitora, claro que temos que falar sobre a mulher por detrás da parede. Aliás, antes disso, vamos ao livro que eu dei aqui um parênteses que tinha que falar sobre isto. Os 30 nada é como sonhámos.

Porque eu lembro-me disto há muitos, muitos anos, aliás, foi em 2011 que o lançaste, foi pouco depois.

com este fantástico chegar ao top 100 da Amazon primeiro livro português e o convidado, eu já estava no café da manhã onde eu estou desde 2013, portanto, até assim para essa altura para falarmos sobre isso gostei imenso do livro, lembro-me perfeitamente e acho que há disso isto há uma fala de Santos que já esteve neste podcast que eu esqueço-me imenso, e já percebi, graças a Deus que não é só comigo, esqueço-me imenso dos romances que eu leio e desses 30 lembro-me perfeitamente de uma cena em concreto a grávida que não se porta bem

a Joana já não lembrava mas não sei se calhar por não estar à espera e achei assim boa a motora com lata que não é não é preciso lata nenhuma mas apanhaste-me de surpresa

E acho que fiquei um misto de... Ah, com o rio! Sim, e eu lembro-me muito bem, acho que foi também a primeira ou a segunda vez que eu estive na Feira do Livro de Lisboa, numa sessão de autógrafos, e que tu, na altura, fazias a voz da Feira do Livro. Da Praça Leia! Da Praça, e vieste comigo, tipo, largaste o que estavas a fazer, e dizes, Ai, Filipe, vem só aqui só para dar um beijinho, porque gostei imenso do teu livro. E aquilo para mim foi tipo, uau, a Mariel vindo ao meu livro!

e tu lembras de ter sido à rádio? lembro-me a Feira de Livro foi antes ou depois? eu acho que a Feira de Livro foi antes ok, e depois a Feira de Livro foi antes depois fomos à rádio, acho que foi com o André Henrique exatamente, tu eras amiga do André, não é? já estamos juntos no Católico ok, ele dizia-me, uma amiga minha não saia de livro da Amazón claro, tenho que ficar sim, a Amazón foi no ano seguinte 2012 ou 2013 só só só só

E o nosso café, esta equipa, com o André, na altura e com a Joana, começámos no início de 2013, portanto sim, meu Deus, há quanto tempo. Há muito tempo. E eles crescem, porque entretanto já escreveste uma data de coisas, uma data delas, tudo bom, tudo conceituado e com boas críticas e elogiado. E agora há mulher por detrás da parede, que gostei muito, estás de parabéns. Parte triste, que é uma história baseada, quer dizer, são muitas, são muitas mulheres, não é? Há muitas mulheres que sentem isto.

É uma amiga, te posso perguntar, é uma amiga para já, a sinopse, é uma mulher que vive um romance à espera que o homem casado por quem ela se apaixona, larga a mulher por ela. Sim, pronto. É clássico. Muito resumido, exatamente. Mas pegando nisto, tu dizes que é a história de muitas mulheres, não é? E que é inspirada uma história real. Sim, mas eu não conhecia a pessoa. Isto foi-me contado por uma amiga que é assistente social de pessoas em fim de vida.

E na altura estava a assistir esta senhora, que morreu pouco depois, que estava muito revoltada e tinha mesmo aquele sentimento de que a vida dela não valeu nada, porque é muito triste, não é? Uma pessoa chegar ao fim da vida com essa angústia.

E que a razão era porque tinha vivido a vida toda em função daquele homem, naquela relação, que ela sabia que ia ser sempre assim, mas que ela nunca pediu mais. Mas o que me provocou estranheza na história é que havia mesmo uma parede e não é metafórica. Ou seja, este livro fala de paredes que podem ser metafóricas, de pessoas que vivem em romances clandestinos ou que, por imposição da sociedade, não podem assumir a sua relação, o seu amor.

mas neste caso havia mesmo uma parede, literalmente, literal, porque ele comprou o apartamento ao lado da dela, eles viviam em cidades diferentes, deitaram uma parede abaixo e fizeram uma parede móvel a separar os dois apartamentos. Portanto, quando estavam os dois sozinhos, a parede estava aberta e, portanto, circulavam entre os dois apartamentos como se fosse um só. Mas quando a família dele o ia visitar...

ele fechava a parede e ela ficava ali, a assistir à vida conjugal, à vida familiar do seu grande amor, mas do outro lado da parede. E foi isso que me fez querer escrever esta história, não só para falar de todas as mulheres e homens que vivem em situações de não poderem assumir a sua relação, mas também porque, de facto, eu queria saber quem era esta mulher.

Como é que uma pessoa se sujeita a este tipo de situação? Situação. Uma violência, não é? Está sempre à espera, não é? À espera barra com a esperança. Exato. Eu já conheci uma vez há muitos, muitos anos e tentei abrir-lhe os olhos, não era amiga íntima, mas ela partilhou comigo, portanto aproveitei para dizer-vos lá, mas eu estou a ver a cena de fora e isto não está bom para ti. Pois. Não, não, mas eu sei que ela é largada.

E há muito essa coisa. Eles dão-lhes a esperança, não é? Pode ser ao contrário. Exato. A esperança é alimentada, porque é uma situação confortável para a pessoa adulta, neste caso, e para a outra, às vezes, há toda aquela ilusão, toda aquela, no fundo, deixam-se aliar numa situação, muitas vezes.

sabendo que nunca vai haver nada dali, mas há sempre aquela esperança, vão se arrastando, os anos vão passando, e eu acho que, quer na literatura, quer mesmo na sociedade, nunca se dá voz a estas pessoas, não é? Porque há muitos romances sobre adultério, podemos começar na Ana Caranina, ou no Flaubert, mas, por outro lado, é sempre, nesse caso, era a mulher que trai, ela é que é casada e ela é que trai,

Há outros romances em que o homem trai, mas está o romance no ponto de vista desse personagem. E a amante, a outra, é sempre uma personagem secundária, é sempre alguém que não tem muita voz.

E que é sempre vilanizada, não é? É sempre apresentada como alguém mau. A outra. A outra. A que rouba maridos. A que destrói casamentos. A que destrói casamentos. E muitas vezes não é isso, não é? Porque a única pessoa no meio deste trio que tem responsabilidade é o homem, não é? E no fundo nós somos ensinados a desculpabilizar os homens por estas transgressões.

e sempre a apontar o dedo às mulheres, a ambas a legítima porque se ela traiu é porque o casamento já não ia bem provavelmente a culpa era dela que se desleixou, que se ticou aos filhos há sempre esse discurso assim muito patriarcal e a amante que é, lá está, arroba maridos a pessoa péssima

que não merece nada e que merece ser maltratada. Tu já tiveste alguém, porque às vezes quando se fala, se escreve sobre alguns temas, às vezes há feedback de pessoas que pensaram por isso, não é? Isto já mexeu com alguém, já alguém chegou a ti? Já, mais do que uma pessoa. E achas que ajudou? Sim, já foram...

Meia dúzia de mensagens de mulheres e o livro só saiu há cerca de um mês que vieram ter comigo e agradecer eu de ter escrito esta história porque passaram pelo mesmo passaram por algo parecido e que as ajudou também de alguma forma

a dar-te se calhar voz, não é? É uma coisa que nunca pode ser exteriorizada e falada abertamente. E alguma pergunta difícil, e o que eu não tenho nada a ver com isso, mas vou perguntando se puder, há alguma ainda a passar por isso? Ou seja, que haverá? Ah, mas desde que te contactaram, porquê é que eu pergunto isto? Porque eu acho que este livro, espero...

Da mesma maneira que eu falei nesta situação com uma amiga que eu estava a ver a cena por fora, porque é mais fácil por fora, não é? As pessoas que vão ler estão por fora, não é? Portanto, se alguém está a passar por isso, eu acho que este livro tem essa, espero eu, não é essa emissão, porque não há obrigação, mas que ajude nesse sentido é vou-te mostrar uma história parecida com a tua, vista de fora. Vê agora a tua história, vista por fora.

Pode ser que ajude alguém também, que no presente esteja a passar por isso. Sim.

Se bem que, por enquanto, essas mensagens que recebi, as pessoas falaram sempre no passado. Já passei por isso, não sei. E pode ter que ajudar e não te chegue a ti, não é? Exato. Mas eu também acho que, tal como aconteceu com a tua amiga, eu acho que é muito difícil as pessoas, quando estão dentro da situação, conseguirem perceber. Porque para elas há sempre aquela ilusão. Ah, mas comigo é diferente. Porque isto é um grande amor. Claro. Eu senti e senti. Espero que isto seja uma ajuda.

para as Stefanias da Vida que é o nome da protagonista e também não é

Não é desculpar, mas é fazer entender, ou seja, para quem não passou por isso, ou para quem veio de fora, também percebê-la. Ou seja, há aqui uma empatia em vários lados da moeda, não é? E que pode ser passado por outras situações que não sejam o adultério, não é? Eu acho que no fundo o que eu tentei fazer, ou o sentimento que eu quero com que o leitor fique, é um bocadinho também aquela coisa de...

Nós somos muito rápidos a julgar os outros, seja numa situação de autotério, seja no que for, alguma coisa que seja errado ou socialmente pouco aceitável, nós somos muito rápidos a julgar. Sim, não sabemos as circunstâncias por trás. Mas é isso, muitas vezes não sabemos o que é que levou aquela pessoa a tomar aquela decisão má, errada, mas... e era essa também que eu queria que o leitor pensasse, reflete isso um bocadinho, pode não reconhecer nenhuma história, nem nunca ter passado por nada parecido com isto.

Mas até que ponto é que nós somos tão rápidos a julgar e devíamos, se calhar, quando ouvimos uma história, mesmo que seja muito escabrosa, tentar ver porquê que aquilo aconteceu, não é? Exatamente. E ao mesmo tempo, tentei neste livro não me desprezar o...

o que o adultério causa na família ilustrítima tu não julgaste tu partilhaste tu não és julgadora aqui tu não estás a defendê-la tu estás a mostrar cada um que tem o seu juízo mas

Mas é importante conhecer a Estefânia, não é? Claro, mas precisamente para não melindrar também as pessoas que estão do outro lado e que são a mulher legítima, que sofre e que depois um dia vem a saber e que também conheço muitas e por isso tentei sempre não dar nenhum lado à história. A história está contada por ela, pela Estefânia, é quase como uma confissão e depois cada um faz o seu julgamento.

mereceu, se não mereceu o que é isso de merecer se fez bem, se fez mal se devia ter feito assim se devia ter feito assim e isso cabe ao leitor depois descobrir e decidir nem é avaliar, é decidir, exatamente até não podemos falar, claro, em relação ao fim mas até esse fim, essas questões que tu disseste agora também se aplicam ao fim, não é? mas isso é toda uma outra questão e não posso...

Não pode ser spoiler. A mulher por detrás da parede. Só um parente. Esta é a minha amiga, felizmente, isso foi há muito, muito tempo. Éramos adolescentes crescidas, já quase. Young adult, não é? E felizmente ela acabou por perceber o que é que eu estou aqui a fazer. Pronto, acordou e graças a Deus saiu desse ninho de esperança e desse rumoinho. E está tudo bem. Teve uma vida saudável. Muito bom. Exatamente, sem paredes. Até a parede também é aquilo de tens uma parede à frente e não vês nada, não é?

Até a metáfora está cá. É isso. E aqui é literal. A mulher por detrás da parede.

Muito bem, parabéns. Obrigada. Agora antes de conhecermos a Filipa Leitora, quiz rápido, três coisas que gostas, duas coisas que não gostas. Lembras-te do que me disseste? Lembro-me que gosto muito de praia.

Sim. Não me daste ideias desde então, não é? E que o Benfica. Pronto, é uma coisa que eu acho que publicamente... Eu tenho um lugar cativo. Só a ser fundadora do estádio daqueles que... Que giro, ok. Antes do novo estádio, já eu tinha um lugar cativo no estádio.

Mas é aquelas histórias tipo, tu nasces e já tens cartão de sócia, não? No meu caso, não. No meu caso, na minha irmã sim, porque ela é muito mais nova e nós já éramos todos adolescentes e quando ela nasceu dissemos, não, temos que ir já hoje. Mas no meu caso foi mesmo uma escolha. Sim, porque eu na minha infância toda nunca liga nenhuma a futebol. Eu até me irritava bastante lá em casa estarem sempre a ver futebol.

E só depois dos anos 90, quando já fui para o secundário, para o sétimo ano, é que comecei a ter ali uns amigos na minha turma, que eram doidos por futebol, e comecei a prestar mais atenção, e um dia o meu avô levou-me a um jogo no Estadio da Luz, que ele tinha um bilhete a mais.

E eu fiquei completamente deslambrada com tudo, com o ambiente, com o estádio, com a energia, com o jogo. Acho que aquilo até foi uma homenagem ao Eusébio. Então, antes do jogo principal, houve um jogo de veteranos. Foi assim uma coisa que ficou, pronto, ficou. Marcou-te, a gente então continuou. Depois aí fui-me fazer sócia.

Mais uma coisa que tu gostas, eu acho que eu adivinhava Acessórios Brinkos e sapatos Sim, sou muito doida por brinkos e por sapatos Agora mais por brinkos do que por sapatos Porque depois de ter filhos comecei a usar mais Confortáveis Confortáveis, mais rasos

Primeiro porque tinha que correr atrás dele, se empurrar o carrinho, essas coisas. Mas houve uma altura na minha vida que eu andava sempre de salto-saltos. Fantástico. Andar de bicicleta, a ir para o Estádio da Luz, a ir para o Barco Alto. A correr atrás do autocarro. Sempre de salto-saltos. Barco Alto, colchão é peço para salto-saltos. Sim, sim, sim. E as pessoas ficavam a olhar, mas como é que tu consegues andar aqui? E lá andava eu.

Hoje já não consigo fazer isso. Perdi o hábito. Mas era mesmo doida, completamente doida por sabatos. E os brincos sempre foi assim uma coisa que eu adoro. Eu acho que a primeira vez que eu senti assim uma coisa pelos brincos até foi com a Margarida Pinto Correia. Ela apresentava o jornal do Canal 2, acho eu. E ela usava um brinco de cada. Diferentes. E eu tipo...

como é que é isso? mas talvez estás com brincos iguais claro, estes são iguais, mas quer dizer, são um bocadinho diferentes porque isto é da Alice no Poís das Maravilhas então lá está o coelho, do outro lá está a Alice ok, já vejo melhor mas sim, adoro, adoro brincos olha, e são parentes muito rápidos, mas os teus filhos estão inscritos no Benfica? não sei se é inscrito se diz esse sim, desde a primeira hora de vida no caso da minha filha, não, porque ela nasceu um domingo

Mas no caso do meu filho, o meu irmão, como o parto foi à tarde, o meu irmão foi para a secretaria do estádio e ficou lá, à espera que o miúdo nascesse, para o meu pai tirar uma fotografia a sair do bloco. A sair do bloco. A sair do bloco mesmo. A sair do bloco, mandar para ele, para ele poder fazer o cartão. E quando eu estava no recobro...

Já era sócio. Já era sócio e o meu irmão foi-me visitar e foi-me entregar lá o cartão. Olha, a prioridade. Antes de ver o bebê. Antes de ver o bebê, fui-me dar o cartão. O meu marido é do Porto, não achou muita graça, mas pronto. Olha, o teu irmão foi primeiro, não. Seu marido tinha que estar no hospital. Tinha que ir ao Porto, não andava, gente. Não andava, perdeu. Duas coisas que não gostas. Lembras-te o que é que me deseste? O que é que eu te disse? Frio.

Frio. Adei frio. Somos gêmeas para usar na ciência. Não consigo. Há ali dois ou três dias quando começa o frio, que até é giro. Vai, é giro. Aquela sensação de vestir um casaco ou pôr um cascó. Mas pronto, ao fim de três dias já chega. Por favor, por favor.

Outra coisa que tu não gostas, estás tramada, sobretudo porque tens filhos, é obrigatório, temos que cozinhar todos os dias, temos, quem estiver em casa e quem puder cozinhar, não é? Mas não gostas de cozinhar, mas falo, ou tens a sorte do marido que cozinhei e tu não fazes? Não, não, não sei o que faço, mas sim, infelizmente.

É o castigo, é para obrigação, não é? E pronto, às vezes até... Não é que eu cozinho mal, até pronto, uma pessoa que cozinha todos os dias, há bastante aprende a cozinhar, não é? Remédio. Não tem outro remédio. Mas toda a logística de pensar o que é que vai ser, o que é que não vai ser, ontem foi carne, hoje tem que ser peixe, hoje não sei o quê, eles têm que comer coisa, hoje têm que fazer sopa.

toda essa logística, depois o supermercado depois o de manhã já estar a descongelar a comida para o jantar, quer dizer, eu ainda não tomei o cana almoço já estou a pensar ai peraí, tenho que descongelar e depois tenho que descongelar a mais porque eles levam para a escola ai, não, não é assim, eu se reganhasse o euro milhões era uma das coisas que eu queria era um cozinheiro, um chefe e ele que tem as ideias ele que vai para a escola

E está tudo bem para mim. Eu só digo mais ou menos o que é que eu gosto e não gosto. E de resto, era uma sonha. Era perfeitamente. Está na minha lista de verão-me hoje também. Ok, de vez em quando posso ser um desejo. Olha, hoje quero o cabarão. Só para matar a saudade. E os meus dizem, outra vez.

Só estão de me dar ideias. Não, ainda por cima é isso. É que quando estou sozinha, eu quero lá saber. Às vezes até faço uns ovos mexidos, qualquer coisa, umas papas de aveia. Agora com filhos, há sempre essa coisa, não só de que tens mesmo cozinhar, mas se é nutritivo, se não é nutritivo, se tem que comer isto, não é comer aquilo, se tem. E a fruta e a salada e a sopa e o rei que eu parto. É verdade, é verdade. Se eu não tivesse filhos, era torradas e ovos mexidos. Esparguia de vez em quando, se não me dá saudade. Bom, vamos à julia.

só só

Os livros que tu escolheste, engraçado, os teus brincos a serem da Alice, porque é exatamente o primeiro livro que tu escolheste, a Alice no País das Maravilhas. Lewis Carroll. Adoro. Tu lês com que dá a ler, mas isto tem que ser uma recordação antiga, não é? Eu acho que só li esse livro mais na adolescência. Claro que já gostava da história por ter visto o filme da Disney, que é bastante diferente do livro original, não é? Que já mistura os dois, esse e o do outro lado do espelho.

mas, portanto, tinha aquele muito imaginário da Alice, mas ler, ler só foi já mais na adolescência e depois reli já várias vezes, porque realmente acho que é, para já é um marco na literatura

que deixou de ser tão didática para ser mais fantasiosa, não é? Eu acho que o Lewis Carroll deve ter sido dos primeiros autores que deixou de... O livro não tinha nenhum propósito, não é como Os Irmãos Grimm ou outras histórias infantis. Bem, Os Irmãos Grimm são infantis, mais ou menos. Também sou. Pronto. Mas...

Acho que foi a primeira vez em que não havia uma moral da história, aquilo era só o nonsense, é só o... é bastante até rebelde, porque numa época vitoriana, Lewis Carroll acaba por criar este mundo em que não há regras, em que tudo pode ser posto em causa, e esse exercício de ser uma criança a espantar-se com os disparatos que vê à sua frente, mas isto não é assim em ele, mas porquê que não há de ser assim?

porque é que não há de ser assim, não é? Eu acho isso delicioso e pronto, e depois tem várias camadas e isso quando uma pessoa lê como adulto já tem uma leitura muito mais filosófica, mas quando lês como criança é só aquele imaginário incrível de que tudo pode acontecer, as lagartas que falam e o chapeleiro doido e as... Rinha como alfetiu. Rinha como alfetiu. Rinha de copas. É delicioso. E o gato e o coelho branco. Sabes que isto aconteceu, eu tive aqui também uma convidada que foi a Mia, a Mia Tomé.

que me falou que diz que teve um impulso para ler o Frankenstein e eu não pensei, olha que engraçado que a mim nunca tinha ocorrido nós achamos que conhecemos a história e senti-se em relação a este livro eu acho que li, e lembro-me do livro até fisicamente, das ilustrações, em miúda mas de facto era um livro giro para reler porque eu sei a história porque já vi as adaptações hoje não é, sabes a premissa, sabes que ela cai na toca de coelho e tem todo um mundo novo há o filme até do último Tim Burton, exatamente com o Johnny Depp e aí

E o outro, do outro lado do espelho que é a continuação, ainda é mais fora, tem um episódio lindo que é quando o unicórnio se assusta porque vê um humano tipo, ai não sabia que eles existiam afinal eles existem que é uma coisa um bocado como nós quando pensamos nos unicórnios, acho maravilhoso

Que bom, e este Lewis Carroll, esta inspiração veio porque ele era diácono, ele era matemático também, trabalhava lógica e fotógrafo e poeta e escritor fez essas coisas. Aliás, ele não se chama Lewis Carroll, ele se chamava-se Charles Ludwig Dotson. Nem sei dizer bem, Dotson. Dotson, não sei o que é.

Isto é o século XIX. Então, ele havia o diretor da igreja, da Christ Church, e era a filha dele, que ele também fotografava, além de outras pessoas, que contava histórias, era um conto que ele improvisava para Alice e para as irmãs, enquanto fotografava e fazia um passeio de barco. Estou bem entretenido e inventou essa loucura. E deve ter percebido que fez sucesso.

vira livre, e ele fotografou escritores, atores, cientistas muitas crianças, era foi mesmo considerado um dos fotógrafos andadores mais notáveis da era vitoriana incrível, eu adoro estudar essas coisas porque já não me lembro, são coisas que tu sabes sim, na altura quando estudas ou quando ouves falar, pronto, e aí se criou este universo

que mudou tudo, não é? Que influenciou arte, cinema psicologia, cultura pop. Completamente, ainda hoje tantos e tantos artistas que são influenciados por este imaginário da Alice. Que maravilha, escrita em 1865, a Alice no País das Maravilhas, fica aqui a dica, até porque muitas vezes perguntam-me livros para crianças, ótima ideia. Ótimo. Os clássicos, lá está.

Agora vamos para um contraste, vamos para um romance curto de terror literário, da Nara Vidal, a brasileira. Eu adoro o nome do livro, Puru. É incrível. E este livro foi uma surpresa enorme. Eu já tinha ouvido falar da Nara. E o ano passado, ali num evento na Cidadela de Cascais, ela estava lá e era um evento com vários autores, tipo uma mini feira de livros de autoras.

E eu estava lá, e estavam outras autoras do clube das minhas escritoras, e estava à Nara. E eu comprei o livro, já tinha ouvido falar, mas sem saber sequer sobre o que é que era. E já que ela lá estava, vou levar este. Assim ela assina, conversa com ela. Conversa um bocadinho com ela, não sei o quê. E pensei, pronto, ok, que giro. Que giro. Bem, quando eu começo a ler o livro, o livro foi muito para lá de tudo o que eu imaginava. É um livro muito pequenino.

E é a história de uma vila no Brasil, nos anos 30, em que... Uma vila inventada, não é? Santa Graça. E em que há três mulheres velhas que vivem com um menino que ninguém percebeu muito bem, se é neto, se é sobrinho, neto, se é o quê.

e que elas são quase vistas como umas bruxas, porque há ali um caldeirão e há um miúdo, e todos os meninos pobrezinhos que passam pela casa delas desaparecem, e no fundo é uma história sobre eugenia, que é uma coisa que...

que ainda hoje devemos estar atentos, sobretudo quando há discursos altamente xenófobos e racistas, mas que eu não sabia, de facto nos anos 30 no Brasil existiu mesmo um movimento que queria impor a eugenia para acabar com as raças não brancas.

e portanto tentavam impor a esterilização das mulheres e de facto este livro vai buscar e é um livro tão pequenino mas com intensidade é assim muito gótico acho que este livro é mais do que tudo é literatura gótica faz um bocadinho lembrar esses imaginários quase também de Tim Burton que é o teu género, que é engraçado é por acaso é um género que eu nunca escrevi mas que eu adoro assim

Eu fui ver isto da Eugenia e há muito mais e o caso mais conhecido é o nazismo vai por ser que eu disse as raças puras e é obviamente entre aspas e esse movimento eu não sabia dos anos 30 Sim, eu fui ver porque vi lá uma referência e acho que é logo no início do livro

que fala de uma lei ou de um diploma que estão a tentar passar, e eu depois fui ver se aquilo era real ou se era inventado, e vi que realmente não é inventada, essa parte não é inventada. Existiu mesmo um movimento nessa altura para tentar impor esta eugenia.

para a raça ficar pura é uma cidade fictícia de Minas Gerais, exatamente e decorre nos anos 30 eu adoro os nomes, eu adoro estes personagens o adolescente que tu falaste é o Lázaro e depois a frase é são três mulheres velhas que moram numa casa grande também velha

E ele tem mais ou menos 15 anos e é a Dália, a Lubélia e a Alpínia. Os dames são muito deliciosos. E esta é a Nara Vidal, escritora, editora, tradutora, professora. Vive em Inglaterra desde 2001, então ela estudou letras no Rio de Janeiro. Mas depois mudou-se para o Reino Unido, onde fez mestrada em Artes e Herança Cultural e especializou-se em Shakespeare.

Ai, não sabia. Que engraçado. E pronto, e depois é conhecida, olha, como obras, marca, portanto as suas obras são marcadas por temas como o feminismo, o silenciamento das mulheres, lá está o racismo, memória e violência estrutural. E depois é toda, olha, um bocado como tu e as tuas contorrenhas do teu, do clube das mulheres escrituras, né, dedica-se mesmo à literatura portuguesa. Ela tem uma revista literária, é também professora de escrita criativa e literatura, e é criadora da revista literária Capitulina, que é dedicada à literatura portuguesa, e também já recebeu um prémio.

E depois tem como tu, Filipe, tem contos, tem ensaios, tem literatura infantil. É. Eu não falei no teu Napoleão, pois não, ou falei. Napoleão, acho que não. O teu Camaleão, como é que é? Napoleão, o Camaleão. O meu filho adorou. Foi. Pronto, fica aqui também. Literatura infantil da Filipe e da Nara Vidal. Cheio de obra do Sorte, Mapas para Desaparecer, Eva, O Puro, Caníbal e outros contos e Shakespeareanas, As Mulheres em Shakespeare.

Puro. Mais um. Agora vamos para uma portuguesa, Os Meus Sentimentos, da Dulce Maria Cardoso.

Este livro, para já, eu já disse isto publicamente várias vezes, e há Dulce, pessoalmente, que ela é realmente uma das minhas escritoras preferidas e acho que é uma referência na literatura contemporânea. E estes meus sentimentos foi um dos últimos livros que eu li dela. Eu comecei pelo Retorno, depois na altura li a Eliette, quando saiu, em 2016 ou 17.

E depois li o livro de contos, de contos não, de crónicas. As crónicas, sim, a autobiografia não autorizada. E só mais tarde, há uma idosa de anos, é que eu li estes dos meus sentimentos, porque a minha mãe é a minha biblioteca, a minha mãe é uma compradora compulsiva de livros desde sempre. Às vezes perguntam-me, ah, eu costumava ir à biblioteca? Nunca, nunca tive esse hábito, porque a minha mãe era a minha biblioteca.

todos os géneros, todos é uma pessoa que compra livros por impulso por impulso, olha gostei do título sem querer saber se é homem, se é mulher, o que é que trata raramente a minha mãe lê sinopse é tipo, olha parece-me bem comprou o livro pela capa sim, muitas vezes pela capa ou sim por alguma coisa que ouviu falar que chama a atenção e quando não gosta consegue parar de ler?

Não, tem esse problema. Pois é assim, eu paguei e agora vou ter que ler. Não, eu tive esse problema durante muitos anos. Mas depois de ter filhos, deixei esse problema. Se tens menos tempo livre, é mais valioso. Exatamente, o tempo é muito valioso. Se não está a dar, não está a resultar, por muito que digam bem daquele livro, se calhar para mim, naquela altura, naquela fase, não dá. Portanto, fica do lado.

Mas a minha mãe sempre, e eu fui lá à livraria, à biblioteca da minha mãe, e disse, ah, ainda não li este, a Dulce, vou levar. Bem, e fiquei maravilhada, acho que é o segundo romance dela, e é uma história sobre uma mulher que está alcoolizada e que tem um acidente de viação. A Violeta. A Violeta, e ela fica encarcerada, pendurada de cabeça para baixo, pelo cinto.

à espera de socorro e durante todo esse processo, enquanto vem, não vem, bombeiros, não bombeiros, ela vai pensando em vários acontecimentos da vida dela, da filha, dos pais, o pai tinha ligações à PIDE.

havia um irmão bastardo, portanto há ali todo um bocadinho também da nossa história com esta relação que a Dulce já no retorno nos trouxe, que são os temas do depois da guerra, o que aconteceu e depois do 25 de Abril.

no caso do retorno foi a história dos retornados que ela também é e aqui foi exatamente como é que se vive depois, não é? em que ainda está muito vivo quem é que era do sistema quem é que não era do sistema, quem é que apoiava quem é que não apoiava

e durante alguns anos houve assim muitas fricções e eu não sei se eu senti mais de alguma forma porque eu sou do Barreiro e é uma terra que viveu muito isso. O Barreiro era um retudo comunista, foi uma das cidades onde o partido, aliás tem lá a sede, mais se desenvolveu e mesmo antes do partido os movimentos sindicais.

porque tinha lá primeiro o comboio e depois a cuve, portanto sempre foi uma terra com muita contestação e clandestinidade durante o antigo regime. E depois do 25 de Abril também foi uma terra que teve aqui muitos excessos de querer quase que apagar a memória e querer quase que culpar as pessoas. Sim, porque tu eras, não sei o quê. Não, aquele era amigo não sei de quem, aquele era...

Então, sempre houve ali uma grande tensão, eu lembro-me só quando vim para Lisboa é que comecei a ir para a rua comemorar o 25 de Abril, porque no Barreiro, comemorar o 25 de Abril era assumir-se como comunista.

PCP mesmo. E portanto... E ainda hoje estará assim? Hoje já está mais diluído. Tem que estar, não é? Até porque há pessoas novas que terão ido para lá e que... O Partido Comunista já não está na Câmara, teve durante 30 ou mais anos. Mas houve uma altura em que era quase tudo o que tivesse que ver com o 25 de Abril era ex-comunista.

logo, acho que é catalogado e se não fosses então é porque eras fascista durante muitos anos, ali os anos 80 houve um bocadinho esta e a Dulce pega nisto através também de

Dos flashbacks da Violeta. Da Violeta, do pai, da relação do pai, do bastardo, das ligações que o pai tinha. E ao mesmo tempo a reflexão de uma mulher que, com muitas falhas, também vamos entendendo, se calhar, porque é que ela bebe, ou não, a relação com a filha.

É mesmo incrível. E a Dulce escreve maravilhosamente, recomendo a toda a gente. Os meus sentimentos. Ganhou vários prémios, grandes prémios, grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, da União Europeia para a Literatura, e há uma história deste livro que eu penso que, meu Deus, o Gálterá sofrido na altura, parece que sofre por empatia. Este é o segundo começo dela, como tu disseste, e é verdade.

Ela teve um vírus no computador e ficou sem o livro, já estava escrito, e reescreveu-o. E eu sempre ouvi falar nisto, e tive uma vez o privilégio de a conhecer num festival de literatura. Convidei-a para este podcast. Ainda não consegui, mas fica aqui o recado, o desejo.

adorava receber a Lucia Maria Cardoso, mas então eu disse é verdade, Lucia Maria, é mito ou é mesmo verdade? É mesmo verdade. Eu também já vi que a Ana Léo disse que disse que a Ana Léo disse que foi um vírus. E ela disse que o que é mais fascinante e para mim completamente até perturbador, porque eu era completamente incapaz, acho eu, é que ela agora faz sempre isso. Exatamente.

Portanto, naquele dia, ela reescreveu o livro quase de cor, não é? Tipo, pronto, perdeu-se, portanto foi. E depois tu tiras as gorduras, o que ela diz, eu retivo o que era mais importante. Portanto, na verdade, quando eu reescrevi, ou seja, ficou melhor. Aqueles mal que vem de por debaia, não é? Mas depois, a partir de aí, faz exatamente o que se escreve. E apaga. E apaga a mãe, ela diz, eu não guardo para não ir lá. E eu apago.

Ai, que horror. Eu ficava doida. Eu ficava doida. Você não tem que me incomodar, tio? Exato.

Mas pronto, é mesmo admirável essa capacidade que ela tem de escrever. Mas eu não sei se calhar, eu para mim até porque não teria tempo, eu já quase não dei tempo para escrever o livro. Quanto mais apagar tudo e começar tudo outra vez.

quem leu a Eliette, aconteceu muito no início deste podcast já foi há quatro anos fãs que escolheram a Eliette para esta conversa dissemos à espera da sequela, da continuação não, não, e foi aí que eu comecei a ouvir ela demora mais tempo do que só pronto, mas interessante fez outras coisas e de facto deve-lhe roubar tempo mas grande perfeccionista e grande escritora sem dúvida, os meus sentimentos

E pronto, acabamos com este campeão de bilheteiro e sai sobre a cegueira, claro, o José Saramago. Já deve ter sido falado aqui num mês. Foi, sobretudo na primeira temporada. Foi assim um recorde. Depois abrandou, mas é sem dúvida o livro mais falado neste podcast. É assim, eu, há vários livros do Saramago que eu poderia trazer.

Adoro todos os nomes. Este foi o teu primeiro? Este foi o primeiro. Mas nem sei porque eu de facto ainda no outro dia recomendei o Evangelho segundo Jesus Cristo que é super divertido, embora as pessoas possam achar que não. E foi polêmico, foi esse que o levou a ser escumulgado. Exatamente, por uma opção dele, imaginas. Alto escumulgado. Ora, vai. Mas este foi o primeiro porque eu vou explicar.

Eu não tive que ler o memorial do convento.

Ah, eu tive. No secundário. Ainda bem. E, portanto, não tinha nenhum contacto com o Saramago. Eu devia falar, obviamente, de Saramago. E o meu primeiro contacto com a escrita do Saramago foi na faculdade, porque na cadeira de literatura tivemos quase um semestre inteiro a dar crónicas, porque era o curso de jornalismo e, portanto, demos literatura, mas ali... Então passámos os cronistas desde o Furnal Lopes. E o Saramago tem um livro que é delicioso, que é deste mundo e do outro, só assim só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só só

de crónicas que ele escrevia na altura, não sei em que jornal. E eu fiquei completamente fascinada, mas este homem escreve, como é que é possível? Isto é maravilhoso, como é que eu nunca li nada de Soramara? E peguei o memorial do Convento, que era aquela referência que eu tinha de ouvir falar, e li 10 páginas e pensei, não, isto não é possível, não pode ser.

Não pode ser, não vou ler isto, isto é péssimo, como é que alguém escreve umas crónicas daquelas? Isto é uma seca. Pronto, eu tinha 18 anos, 19 anos, que eu acho que não é ainda, muito menos os 16, mas continua a não ser a idade ideal para ler a moral do corpo. Acho que é uma atrocidade fazerem isso aos adolescentes. E, portanto, tive ali muita resistência depois a voltar a ser amago. Fiquei assim um bocado, ai não, isto é uma seca. Depois eu ganhei um prémio novo, a gente falava...

em 98, depois eu entrei na faculdade em 97 e eu, pá, não consigo, não consigo mas acho tanto é sempre naquela pá, Filipe, desculpa lá tu queres ser escritora, tu escreves e não lês um romance das cróricas não conta, tens que ler um romance de ser amado, então comecei a perguntar, quer à minha mãe quer a outras pessoas que eu sabia que eram muito fãs, por onde é que eu ia-te começar? Já excluindo o mural do convite, não vou voltar lá mas ajuda-me e foi unânimo e foi um romance

As três pessoas que eu perguntei, todas me disseram, ah, então escrevi o ensaio sobre a cegueira. E assim foi. Então eu levei o ensaio sobre a cegueira para a minha lua de mel. Ah, imagina. Tudo a ver. E fiquei completamente rendida, apaixonada, não só pelo livro em si, mas pela escrita, pela ironia, pela cabeça daquele homem. E pronto, e foi uma paixão que...

entretanto já li, acho que já li quase todos acho que me falta o manual de caligrafia e acho que me falta só dois ou três para ler a obra completa, por isso há muitos que eu poderia recomendar o Todos os Nomes, a Caverna Mas antes de me dizeres a morte Sim, também gostei mas a Caverna, a Caverna também é incrível

Pessoal, não vais ser isso aqui ainda. Tudo o que a Filipe está a dizer, eu vou anotar e vou pôr no discrítico do episódio. Isto quase acho que já nem temos que vender aqui a premissa, vá, mas sim. Todos ficam cegos, é uma epidemia. É uma epidemia. Uma pandemia de cegueira. Só uma personagem é que não fica cega. E pronto, a Jéssara Marques já está mais do que vendido.

Agora, tu já me conheces este podcast, já sabes esta pergunta que vinha aí. É para escolheres um. Alice no País das Maravilhas, puro, danada, Vidal, Os Meus Sentimentos, de Luz Maria Cardoso e o Enseio sobre a Seguera, da Sarah Max. Se tivesse que falar só, ó, dia 2, vá, com o que é que ficaste assim mais coração cheio com o que livro? Isso é tão injusto. É, não sei, é mesmo muito difícil. Então, eu posso fazer outra pergunta? Diz-me só, outro livro tu adoraste que não coube nestes quatro.

É esse? Isso ainda é mais difícil. Então vai, tu escolhe um. Aquilo leite, eu leio muito, eu tenho esse problema. Eu leio muito. É tão difícil. Mas custei mais quanto na vida, não é? Pode ter um que te tenha marcado. Olha, por exemplo, eu lembro-me, já não lembro da história sequer, lembro-me que há muitos anos o meu filho...

mais velho era bebê lembro-me de ficar doida com a Sombra do Vento do Carlos Ruiz, já foi agora até uma edição nova e tudo e lembro-me de muito cedo ficar presa, logo que é muito bom quando tu percebes cedo que vais adorar e lembro-me no fim de estar tristíssima por estar a acabar ou lembro-me da cor púrpura que foi o primeiro livro que me fez chorar estás a ver assim uns mais especiais o primeiro livro que me fez chorar foi o meu pé de laranja linda meu Deus

E voltei a chorar agora recentemente quando reli. E não releste? Estava a existir com o meu filho. Ah, não vou ler. Então eu quis reler para lhe vender melhor. Mas vou recomendar outra autora portuguesa, porque lá está. Sou fundadora do Clube das Minhas Escrituras e nós fazemos tudo para divulgar a literatura escrita por mulheres. E por isso vou escolher a Judite Canhos Fernandes com o Mel das 100 abelhas.

Judite Canha Fernandes. Sim, recomendo muito. Também é um livro muito pequenino. Eu adoro livros pequeninos. Há pessoas que só gostam de livros grandes. Há pessoas, até leitores meus, que me dizem ah, os seus livros são tão pequenos. Mas o que eu gosto nos livros pequenos, quando são bons, agora estou uma...

estou a falar como leitora, não estou a dizer que os meus são bons porque são pequenos, é que quando eles conseguem ter uma profundidade tão grande em menos de 200 páginas eu fico, tipo, como é que é possível e o caso da Nara Vidal tem isso e este Mel Sem Abelhas também, que é a história de uma mulher que é raptada na sua tribo no século XVI

E todo o percurso dela da tribo para o barco negreiro até à ilha da Madeira, onde vai trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar. O mel sem abelhas é porque era uma expressão usada para designar o laço da cana-de-açúcar. É o mel sem abelhas. E toda aquela descrição da viagem, de estar agrilhoada, de...

Aquilo é mesmo, e a Justi é poeta também, portanto, a escolha das palavras, a musicalidade, o tema é horrível, é mesmo violento. Pode dizer, sem spoiler.

Não, o tema da escravatura e desta personagem é tudo a descrever o que é que ela sentia e os ferros, a pele... É que as livros que tu vês e que tu sentes o cheiro. Estás a sentir o cheiro, estás a sentir o calor na pele, o sol, estás a sentir aquilo tudo, mas depois a Judite a escrever poesia. E é... recomendo muito. Boa, mel sem abelhas. Depois também deixo aqui no descritivo do podcast.

Agora, recomendo alguns livros. Este não trouxe porque calculei que já tivesses, da Mafalda Santos, também do clube, e que já cá esteve neste podcast, o Terra Estreita. Já tenho. Pronto, e tu há pouco falaste que gostas assim de cenas moradas. Isto é um bocadinho também ser amagueano, não é? Que a premissa é essas pessoas que se tocarem morrem. Exato. Então pronto. Já leste? Ainda não li. Está lá na minha estante.

fui ao lançamento, claro sou muito amiga da Mafalda e estou toda josa de lhe pegar mas ainda está lá na pilha há sempre uma pilha eterna e depois relejo pedre laranja lima e outros não, mas esse era esse, relejo numa hora sim, é pequenino eu tenho aquele de capa azul turquesa capa mole velhote, velhote

Não, eu acho que este comprei porque não encontrava o meu. Pois, o original, claro. E então comprei... E tu não tinha neste ano. Acho que deve-se ter perdido em mudanças. Olha, das premissas aqui que tu me foste dando, lembrei-me também de um que eu aprendi sobre este livro também neste podcast, já foi há imbecil tempo, foi a Sara Prata, a atriz, que buscou este livro, e eu não tinha ouvido falar, que é o Deus das Moscas, que é um grupo de rapazes que sobrevivem a um acidente de avião, ficam isolados numa ilha de deserto.

É maravilhoso. Ah, já lhe disse? Olha, até eu assustei. Sabia que ias gostar. Pronto, depois é isso.

ok, primeiro temos que nos organizar e depois já luta pelo poder e já, e mesmo crianças acabam por se... Exatamente, e põe-la também essa questão de se a maldade é uma constristencial, se a maldade é inata. E é um livro que eu recomendo muito e que eu também só li já nos meus 30's, talvez mais perto dos 40's.

e há muitos livros que isso me acontece sobretudo assim clássicos, uma pessoa não tem tempo nem vida, não é? Finalmente vou ler este clássico e depois penso que burra, como é que tu passaste a tua vida toda sem ler isto? Como é que é possível? Não precisa fazer isso, é bem-vindo é uma expressão que tens de dizer à tua mãe que é a Tsundoku já ouviste falar de essas expressões japonesas que é as pessoas, e eu sou essa, eu sofro disso compras mais livros do que aqueles que vais conseguir ler E assim só

E tu hábitos de leitura, lejas a toda hora, todos os dias, sempre que podes. Tens um livro atrás. Sempre que posso, sim. Claro. Sempre. Claro que leio. E disseste isso. Agora para oferecer livros. Ah, que bom. Tenho um livro para te oferecer.

que se já o tiveres, não faz mal, tenho um plano B, mas na verdade vou começar pelo plano B. Porquê? Porque eram livros. Isto é muito engrafico, porque há muitos escritores, e tu sabes isso melhor que eu até, e daí também o Clube das Mulheres Escritoras, há muitas escritoras pouco conhecidas em Portugal. E que pena, porque há grandes talentos, ou porque não tem ainda... Quem é que foi? Há pouco tempo também me falou numa...

Foi uma fala Santos, não é Rita Cruz, que não sequer tem redes sociais. É a Rita Cruz. Mas aí até a opção dela, ok, mas mesmo tendo redes sociais é uma chatice o texto de trabalhar as redes. E então, isto para dizer, peço desculpa a quem não consigo divulgar, não consigo divulgar tudo o que quero, claro, e tenho às vezes também a pedirem-me, não é? Ou a sugerirem-me. E o que eu digo sempre, olha, durava, mas eu não dou vazão a tudo.

Mas já cá esteve neste podcast, gostei muito do livro dela, é minúsculo. É Marta Coelho, escreveu um livro chamado Minúsculo. Ah, já ouvi falar deste livro, mas não ligo.

Pronto. E é uma história de amor, na verdade, é uma menina que sofre de ansiedade e que está aqui com um problema que é quem sou eu quando não escrevo? Porque ela vive a escrever e de repente tem ali uma situação em que não consegue escrever. E então, pronto. E depois até aqui há uma, eu não sei quem é, mas a Daniela Amar que é a fan, deve ser uma booktalker ou uma bookstagramer. Bookstagram.

fangirlish wondering, e diz uma história tão imprevisível quanto a vida e tão reconfortante quanto uma taça de cereais, apaixonei-me chorei, delirei com todas as peças do plot que se foram encaixando, é 5 estrelas para mim, e eu adorei esta crítica porque já é muito simpática está aqui no livro, e de facto tens muitas surpresas, e tens detalhes e há aqui uma sensibilidade muito gira, e então era para também, olha, para te dar a conhecer a Marta Coelho, que é uma vida que não trabalha nada às redes, é exageradamente tímida mas é um talento que gostava de lhe dar voz. E pronto, curiosa.

E depois, tive que esta sugestão para ti Também comprei para mim, ainda não li, mas eu adoro a Maggie O'Farrell, conheces? Ainda não li nada dela Não, pronto, Hamnet Não leio o Hamnet na altura Porque quando há assim muitos buzzes, às vezes deixo passar Será que isto é mesmo bom? Será que não é? E deixei passar E agora que eu vejo o filme Viste o filme? Não vi Então não vejo, é incrível Eu normalmente não vejo o filme porque já sei a história Eu quero sempre ler primeiro

Pronto, exatamente. Eu já tinha lido. Já sei as histórias que eu uso ver o filme, mas pronto. Mas eu já ouvi falar deste livro também, O Estranho Desaparecimento de S. Melanix. Ora bem, então isto é, vou ler aqui a sinopso. No meio da safra uma cotidiana na sua loja de roupa vintage e enquanto tenta evitar os avanços do seu namorado casado, Iris recebe um telefonema surpreendente que é, pronto, basicamente ela tem uma tia que está prestes a receber alta do hospital onde esteve internada durante mais de 60 anos, mas ela não sabia que tinha esta tia.

Portanto, também dela dizer que era filha única. Pronto, depois quando ela vai sair do hospital, vai trazer segredos que é capaz de mudar vidas. Portanto, que verdades é que ela vai herdar desta tia? Estou curiosíssima porque eu adoro esta autora. Uma primeira, a minha primeira verdade... Experiência. Exatamente, com esta escritora. Já falei aqui neste podcast, é o Estou Viva, Estou Viva, Estou Viva. É não ficção. Recomendo-te, adoro. Já falei aqui.

O Hamnet adorei. Percebo isso está a dizer de Foz do Buzz, mas este vale mesmo a pena. E o filme também é incrível. Portanto, este será Adorei a Premissa e a Maggie O'Farrell, com certeza um seu de qualidade.

Um bocadinho de Estefânia, não é? Um bocadinho esta... Sim, sim, sim. Um homem namorado casado. Muito bom. Exatamente. Eu adoro esta história. Aliás, o meu ICM... Tudo que meta pessoas mais velhas fora da caixa, como o meu ICM Caramagher, que tem a minha Helena.

Adoro, acho que é muito importante dar voz também às pessoas mais velhas que fazem parte da nossa sociedade e que muitas vezes acabam por se esconder e terem histórias incríveis, como terá com certeza esta tia Esme. A tia Esme. E diz-me uma coisa, o seu Morrer Amanhã vai para cinema, já tens timings?

não, ainda não tenho timing sei que a produtora é a ocupar a produtora do rabo de peixe muito contigo mas ainda não sei quando é que vamos começar que as pessoas leiam antes de ir para o cinema exatamente, agora é a hora de ler e este presente então o Estranho de Desaparecimento de Erma Lennox da Maggie O'Farrell muito obrigada eu gostei de ter esta conversa até que enfim

Obrigada, Filipe. Muito boa, obrigada, Mariana. E o livro da Filipe, o último, são muitos, a mulher por detrás da parede. Obrigada quem nos ouve, para a semana mais.