Episódios de Elas na Escrita

#42 Mulheres que se autorizam na escrita

07 de maio de 20261h7min
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Isabella de Andrade conversa com Dani Arraes e Tatiana Vasconcellos sobre escrita, coragem, síndrome da impostora, jornalismo e as muitas brechas que mulheres criam para conseguir existir artisticamente no mundo contemporâneo.

Autoras de “Para todas as mulheres que não têm coragem” e “Nem toda mulher”, elas falam sobre o processo de se reconhecer escritoras depois de anos trabalhando com jornalismo.

Sobre a dificuldade de se colocar no centro da própria narrativa e sobre como a experiência feminina atravessa seus textos.

Ao longo da conversa, surgem temas como maternidade, liberdade, leitura, redes sociais, capitalismo, atenção, autoria e o desejo de criar apesar do medo.

Participantes neste episódio3
I

Isabella de Andrade

HostApresentadora
D

Dani Arraes

ConvidadoJornalista
T

Tatiana Vasconcellos

ConvidadoJornalista
Assuntos6
  • O Processo de Escrita de LivrosSíndrome da impostora e coragem para publicar · Escrita nas brechas e falta de tempo · A importância de ter um trabalho fixo · O papel da internet e redes sociais na escrita · Para Todas as Mulheres que Não Têm Coragem · Nem Toda Mulher
  • Jornalismo e Escrita AutoralSíndrome da impostora em jornalistas · Transição de carreira para escrita · Crônicas sobre o cotidiano · Dani Arraes · Tatiana Vasconcellos
  • Experiência Feminina e AutoriaA experiência feminina no mundo contemporâneo · Maternidade e trabalho · Capitalismo e insatisfação feminina · A representatividade feminina na literatura · O corpo feminino e a pressão social
  • O Impacto da Leitura e Escrita FemininaO movimento de mulheres lendo e escrevendo · A importância de ler e escrever mulheres · A resistência da atenção na era digital · Clubes do livro como espaço de conexão
  • Legitimando Modos de VidaDesconstrução de padrões femininos normativos · A reivindicação de existência feminina · A importância de se sentir representada
  • O Papel da Comunicação e MídiaA influência da cultura pop na vida das mulheres · A corrida por atenção nas redes sociais · O rádio como meio de comunicação · A relação com a tela e a concentração
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Olá, gente. Sejam bem-vindos a mais um episódio do Elas na Escrita. Hoje estou com duas autoras e jornalistas maravilhosas aqui na minha frente. Estou até um pouco constrangida. Vou fingir costume aqui, gente. É sempre, ó, finge aqui que eu não estou nem aí. Porque eu estou aqui na minha frente com a Dânia Raiz e a Tatiana Vasconcelos. Gente, sejam muito bem-vindas e muito obrigada por toparem participar do Elas na Escrita. Fiquei muito feliz de conseguir reunir vocês duas hoje.

Eu adorei esse convite, porque é a primeira vez que a gente vai falar juntas, né? Sim! Inclusive. Falava pra isso aqui, eu e a Dani, a gente se conhece antes dos nossos livros, né? Antes da gente, acho que, se reconhecer como escritora. Eu tô contente também, obrigada pelo convite. Ai, que legal, é aí que a conversa rende bem, então. Quando, sem querer, eu reúno umas amigas aqui. E pra quem não conhece as duas, mas espero que vocês conheçam, gente, eu vou dar aquela mini biobásica que a gente tá aqui no início do episódio. Então, eu vou apresentar um pouquinho pra vocês.

A Dani, ela é uma das mães do Martim e trabalha com inteligência criativa e escrita, fazendo da palavra o ponto de partida para transformações em diferentes escalas. Ela é uma das criadoras da Contente, um veículo de sensibilização da sociedade que atinge milhões de pessoas a cada mês.

É escritora. O seu livro de estreia, Para Todas as Mulheres que Não Têm Coragem, foi lançado em outubro de 2024 pelo selo Best Seller, da editora Record. Ela é também jornalista, com longas passagens pela Folha de São Paulo. É professora de escrita e fundou em 2021 o coletivo Dupla Maternidade, que reúne mais de 1.500 pessoas de todo o Brasil em espaços de acolhimento e representatividade. Em 2020, ela foi uma das 30 vozes que lutaram para mudar a indústria da comunicação, segundo o papel e caneta.

Pernambucana, ela vive em São Paulo desde 2006. Bem-vinda, Dani. Obrigada. Atuando aí em várias frentes, né? Várias frentes. A gente vê que a da escrita é sempre desse jeito. É desse jeito, né? Eu acho que a gente já entende de cara que a gente vai ter que fazer muita coisa. Então, eu sou feliz com esse caminho. Por muito tempo eu me angustiava. Pensar, então eu não sou só jornalista, eu não sou só escritora.

Depois de um tempo eu entendi. Que bom que não. Olha, tem muitas... Muitas mulheres passaram aqui que tem esse mesmo conflito. E eu tô aqui também com a Tatiana Vasconcelos, que ela é jornalista e atua em rádio há 25 anos. A Nove, ela é apresentadora... A Nove, ela é apresentadora do programa Estúdio CBN. Olha aí, eu falei que eu ia ficar nervosa que eu tava aqui apresentando a jornalista. Até tive que recomeçar na frase. Eu ia falar que assim, tá difícil, porque você tá praticamente no rádio e tô com a outra aqui. Complicou pro meu lado.

Então, a Nove é apresentadora do programa Estúdio CBN nas tardes da Rádio CBN, depois de uma passagem de 11 anos pelos microfones da rádio Band News FM. Ela é autora de Nem Toda Mulher, lançada em 2025 pela editora Telha. É colunista do portal Mina Bem-Estar e foi colunista da Universa do UOL. Ela problematiza o mundo e divaga periodicamente na newsletter Tatiano, que mantém no sub-staque.

Seja bem-vinda, Tati. Obrigada, Isa. Estou contente. Engraçado ouvir outra pessoa falando sobre você, né? Eu acho que a angústia que a Dani teve é a angústia que eu vivo hoje. Eu me reconheço muito mais como jornalista do que como escritora. A escrita...

e a autoria é um caminho relativamente novo para alguém que tem 25 anos de rádio. Isso é algo que acontece muito aqui. Como a gente tem recebido mulheres que escrevem, geralmente são diversas frentes. Já passaram por aqui autoras que têm esse lado da autoria na escrita da literatura, mas são também jornalistas, redatoras e roteiristas, atrizes. Então, vai tudo se misturando, se conectando ali.

E acho que isso conversa bastante com como... Eu gosto de iniciar o podcast, para a gente conhecer um pouquinho mais da trajetória de vocês. E contando um pouquinho para quem está ouvindo a gente, vocês sabem que a gente sempre conversa em duplas, e eu tento, então, reunir duplas ali que de alguma forma se conectam, combinam. Então, eu penso um pouco do livro de vocês, da escrita de vocês. Então, acho que vocês combinam muito nesse tema. Vocês duas foram para livros de não-ficção, além de serem jornalistas.

Então, entrando ali dentro da escrita nesse espaço do livro publicado e falando de mulheres, falando de mulheres no mundo contemporâneo, pensando esse lugar da mulher, pensando nessas experiências das mulheres de diferentes formas. E acho legal que o título de vocês é Dialogue Se Tenciona de Alguma Forma, que venho para todas as mulheres e nem todas as mulheres. Então, achei isso muito legal para a gente poder debater. E pensando um pouquinho nessa trajetória tão diversa de vocês, que a gente estava começando a conversar, eu sempre começo o episódio perguntando como vocês chegaram na escrita.

Então, se vocês puderem me contar um pouquinho dessa trajetória, eu sei que tem muito do jornalismo, e me contar, então, como vocês começaram a se descobrir escritores, tanto no jornalismo, que pode ser importante para vocês, quanto em outros espaços, até chegar no livro também, como foi esse caminho percorrido. Vai, Dani.

Eu ia falar para você começar. Eu escrevo desde sempre, eu escrevo desde criança. Eu fui para o jornalismo meio que assim, ela é boa em redação, vai lá fazer jornalismo. E no jornalismo eu sabia que eu queria fazer impresso, não queria fazer rádio, não queria fazer TV. Hoje em dia, se eu fosse entrar na faculdade agora, eu teria experimentado muito mais, porque eu já fui muito assim, eu quero escrever, quero escrever.

E por muito tempo eu me escondi atrás dessa escrita jornalística, porque eu entrevistava outras pessoas, eu lia livros de outras pessoas e falava com elas, entrevistava elas. E eu ficava com esse lugar do texto autoral meio escanteado. Ao mesmo tempo, eu sempre gostei muito de usar a internet. Então, eu tive blog, né? Na época que ter blog era algo que as pessoas tinham blog e elas eram blogueiras realmente, sabe? Então, assim, eu experimentei...

me colocar um pouco ali. Mas ainda assim, eu também virava um pouco jornalista. O que me fez desabrochar mais para essa escrita autoral, e é engraçado que a gente falou da pandemia aqui nos bastidores, né? Na pandemia, eu percebi muito de cara que aquilo ia durar muito tempo.

E a certa altura, eu tomei uma decisão que era todos os dias eu vou me arrumar para trabalhar, não vou ficar jogada no sofá, porque assim, isso pode acabar com a minha saúde mental. Foi aí que eu comecei a passar delineador azul e nunca mais parei. Olha só. E ali também, eu acho que eu liguei uma chavinha do tipo...

Tá todo mundo numa situação horrorosa. A gente tá num lugar de vulnerabilidade, num escuro mesmo. A gente não sabe o que vai acontecer. Então, todo julgamento que eu sempre tive muito forte em relação a mim mesma, que eu falava assim, nossa, mas pra que você vai escrever algo que é o que você tá pensando, o que você tá sentindo? Você é jornalista, você tá nesse lugar, assim, que você vai reportar. Você não vai trazer sua opinião, sua subjetividade. Naquele momento eu olhei e falei assim,

Nada mais importa. Deixa eu escrever. E aí eu lembro claramente de um texto que eu escrevi que chamava Saudade das Pernas. Um amigo meu virou pra mim um dia e falou assim, eu tô com saudade das pernas de vocês, porque a gente só se vê agora na telinha do Zoom. É verdade. E aquilo me tocou de uma forma tão profunda que eu escrevi um texto de Saudade das Pernas, falando sobre o impacto da pandemia. Foi muito no começo, acho que foi em abril de 2020, um mês de pandemia.

E de como já tinha mudado tudo. Como a gente estava tentando ainda emular uma convivência. Como a gente estava tentando manter uma normalidade. Enquanto o mundo estava de cabeça para baixo. Era bem naquela época das pessoas falando. Não, porque o novo normal agora. E eu assim, gente, parem as máquinas. Não tem nada. A gente está lascado. E a gente não sabe o que vai acontecer.

bora ficar com essa angústia, bora dividir essa angústia porque enquanto a gente achar que o mundo tá funcionando, a gente não consegue viver a dureza do que a gente tá vivendo e aí eu escrevi esse texto e eu lembro que eu ilustrei de uma forma assim bem bem caricata, porque tipo eu fui no play do prédio e tirei uma foto meio das pernas, sabe? Postei assim, e aquilo reverberou muito nas pessoas, que eu acho que eu fiz um trabalho

Era o que elas estavam sentindo também e não tinham conseguido nomear ainda. E eu sinto que esse texto me destravou pra escrever o que se passava na minha cabeça, o que se passava no meu coração, tentando dar conta desse turbilhão que é viver.

Uma amiga minha, Clarice Freire, que até fez a orelha do livro, ela fala, você sempre foi uma cronista do cotidiano. Eu falei, como é bom ter amiga, né? Porque a amiga, ela te levanta e ela te faz, ela te enxerga de um jeito que às vezes você não se enxerga. Então, em retrospecto, eu vejo esse momento como um momento que...

eu comecei a sair de um armário da escrita, sabe? Porque eu falei, eu posso escrever. Eu posso escrever, o mundo está. Ao contrário. E o que eu posso fazer é me organizar internamente por meio da escrita e dividir isso com mais gente. Porque aí eu deixo de me sentir tão sozinha, tão solitária. Então eu vejo esse ponto, assim. Acho que esse é um sentimento bastante comum em jornalistas.

Não importa o que eu penso, eu tô aqui pra colocar pras pessoas que me ouvem, que me leem, o que as outras pessoas pensam. Um especialista, um político, um personagem. Eu tô aqui em função...

de uma informação, de uma análise, de uma reflexão, mas que o que eu penso não importa, é meio isso. O que eu penso não importa. Essa é um pouco, acho que, uma formação do jornalista, né? Jornalista não é notícia e essas coisas todas. Então, eu me encontro muito, assim, no começo da Dani.

inclusive no blog. Eu também escrevo desde criança, diários, jeitos de contar o que aconteceu no seu dia e tal. Eu sempre gostei dessa parte. E no começo ali dos anos 2000, eu também fui uma blogueira, eu também tinha um blog.

E eu escrevia muito no blog coisas que eu vivia na minha profissão, eu já trabalhava em rádio. Aliás, eu trabalhava na CBN no começo de 2000, eu passei seis anos lá, dos meus 22 até os 28, eu era repórter. Então eu cobria muitos assuntos diferentes, ganhava e ia formando repertório, visão de mundo, e fui conhecendo as coisas. E muito do que eu vivia na minha profissão eu escrevia no blog, mas também...

comecei a tatear um jeito meu de escrever. Comecei a tatear um jeito de me colocar naquilo que eu tava sentindo, do que eu tava observando. Então, acho que eu posso considerar que o meu início foi meio esse, assim, me experimentar no blog. Eu tracei a minha carreira toda, basicamente, no rádio.

Eu fiz uma ou outra coisa escrevendo, fiz crítica de livro quando eu era mais jovem e tal. Mas eu voltei e eu nunca parei de escrever, com mais ou menos frequência, com mais ou menos disciplina, regularidade e tal, mas eu nunca parei de escrever. Escrever as minhas coisinhas, deixo lá. E aí, em 2022, eu fui convidada para ser colunista de universa.

E aí eu tinha que escrever um texto por semana. E aí eu quase morri. E aí eu quase morri. E quem me dera, né? É. É meio... Porque que ótimo. Você tem um espaço, uma coluna, semanal, num portal, com aquele alcance, daquele tamanho. Maravilhoso. E meu Deus, e agora? O que eu vou escrever pra tanta gente ler?

E fui me encontrando ali também. Eu tinha uma coisa, a Camila Brandalise, que era a minha editora, ela me sugeriu algum assunto, ou eu propunha alguma coisa, aí eu falava, putz, esse assunto é legal, eu posso ouvir fulano, ciclano, beltrano. Ela falava, mas eu não quero saber o que essas pessoas pensam sobre esse assunto, eu quero saber o que você pensa sobre esse assunto. Então, muito estranho, assim, muito estranho. Apesar, eu sempre digo isso, eu acho super engraçado.

Porque como jornalista, eu sou acusada, entre aspas, de ter muita opinião. E como escritora, eu sou apontada como quem tem pouca opinião e precisa se colocar um pouco mais nos textos. Então eu acho que até hoje é um exercício isso pra mim. Amanhã mesmo sai uma coluna na mina com aspas de pessoas que eu fui ouvir, porque não me senti qualificada o suficiente pra dar um veredito sobre um assunto que eu não domino completamente.

Bom, eu sou jornalista, então eu vou ouvir quem domina aquele assunto e pode me ajudar a enriquecer o que eu tô dizendo. Acho que esse exercício eu faço ainda hoje, então eu ponho um pouco de mim.

Mas eu também gosto muito de ouvir, quem sabe, mais do que eu, quando eu me meto a escrever sobre um ou outro assunto. Mas isso é legal, porque acho que isso dialoga com a trajetória de muitas escritoras, até de literatura, quando a gente pensa em pesquisa, em ouvir, em sair a campo. E muitas delas são jornalistas também, acho que muita gente da escrita também acaba indo para o jornalismo, nessa vontade de escrever. Eu lembro muito da...

A Dani falando, porque eu tive esse começo parecido ali, eu sou jornalista também, eu tive essa fase de, ah, ela é boa de redação, ela gosta de escrever, então vamos fazer jornalismo. E aí tem esse período onde você se vê escrevendo pro jornal e depois você tem que entender, não, mas peraí, onde entra a minha escrita também? Como que eu faço pra equilibrar? Então acho que é uma...

Uma descoberta constante, mas legal que você continuou escrevendo, que você se reencontrou com isso num período recente. E eu queria saber como vocês chegaram, então, nesses dois livros. O Para Todas as Mulheres que não tem coragem e o Nem Toda Mulher. Vocês escrevendo, estando no jornalismo e estando ali com os textos de vocês em casa, que a gente tem muito esse momento ainda de escrever pra gente, de não contei pra ninguém ainda, tô ali comigo mesma na minha cabeça.

Como essa temática começou a surgir pra vocês? De escrever um livro, não vou falar.

sobre mulheres, vai ser a perspectiva das mulheres aqui no contemporâneo, no mundo de hoje, cada um indo ali pro seu caminho, pegando isso de uma maneira, mas como vocês chegaram nessa temática? Foi uma escolha ou foi meio natural de algo que vocês estavam construindo com vocês?

Para mim foi uma mistura, porque eu já vinha escrevendo textos que a gente pode entender como crônicas sobre ser mulher e como a gente se coloca no mundo, como a gente deixa de se colocar, porque o tempo inteiro parece que a gente precisa dar um passo além do que a gente já deu para a gente se autorizar a estar nos lugares.

Então, eu já sabia que eu escreveria um livro de não-ficção. Eu já sabia que teria esse tom pessoal. E quando começou o processo...

Veio a minha impostora dizendo assim, quem é você para escrever um livro? Cara, quem é você para achar que contar histórias que são da sua vida vão interessar alguém? Você não é uma celebridade, você não é uma pessoa com milhares de seguidores nas redes. Por quê? Pra quê? Porque, ao mesmo tempo, tinha muito forte dentro de mim que...

Todas as vezes que eu escrevo, eu crio uma ponte de conexão com as pessoas. É por isso que eu estou na internet e sou fã da internet, mesmo ela sendo tóxica em tantos momentos. Mas assim, a internet mudou minha vida, mudou minha relação com o trabalho. E não passou uma semana que eu não tenho uma troca que seja muito profunda com alguém, porque a certa altura eu escrevi alguma coisa. Então eu sabia que tinha uma força aí. Mas o processo, ele foi tão duro nesse questionamento do quem sou eu, quem sou eu, porque...

E eu acho que isso é uma coisa que acontece com todas as mulheres que eu conheço.

Se tiver uma que não tem a síndrome da impostora, que hoje a gente chama do fenômeno da impostora, me apresente e me conta que eu quero ser amiga, porque eu quero pegar dicas e eu quero pegar por hoje. Eu quero uma aula também. É um dos temas que mais aparece aqui, inclusive, esse momento do quando eu tive a coragem de publicar. Exato. Então, assim, a gente vê uma falta de representatividade. Tem muito mais mulher escrevendo, mas aí quando tem um júri de um prêmio, são cinco homens decidindo qual é o romance do ano e parece que não tem mulheres.

E os candidatos são, em geral, não raramente escritos por homens. Exato. Então, assim, a gente vive nesse mundo que não é desenhado pra gente, por mais que a gente já tenha tido várias conquistas. Então, no meio do processo, enquanto eu ficava remoendo e ruminando na minha cabeça por quê, pra quê, meu Deus, quem é você? Eu falei, hum, tem um fio aqui. E o fio é exatamente essa impostora. Porque não sou eu. Eu não tinha nem coragem de falar que eu queria escrever um livro. Era um desejo gigante, um sonho, e eu não falava.

Eu não falava, eu ficava quieta, entendeu? Porque assim, eu falava, meu lugar é outro. E era engraçado que às vezes eu fazia umas palestras, umas rodas com mulheres, e eu propunho um exercício de coragem e medo. Ainda que você não tivesse. E elas respondiam coisas lindas. E eu escrevia no meu próprio.

Eu quero publicar um livro, eu quero lançar um livro, quero escrever esse livro. E aí quando eu entendi que o fio condutor do fenômeno da impostora, ele permearia o livro, eu falei, é isso, eu não estou falando da minha infância, eu estou falando do que é ser uma menina e ser atravessada por uma violência. Eu estou falando de como é ser uma mulher hoje e estar nessas redes sociais que o tempo inteiro nos vendem um lugar de insatisfação com a gente. Porque você...

Você não é magra o suficiente? Você não tem a pele aí? Exato. Com glow o suficiente? Tudo não pode. Então, assim, aí nessa hora eu falei, beleza. É quase como se eu estivesse pegando a mão de várias mulheres e dizendo assim, esse livro parte de mim pra encontrar você. Pra dizer assim, nossas dores são muito parecidas, por mais que a gente viva...

histórias que a gente vê em lugares diferentes, que a gente tem sotaques diferentes. Mas a experiência de ser mulher nessa vida contemporânea se encontra em muitos lugares. E um desses lugares é esse que fala você não tá pronta ainda. Quando você fizer mais o após, aí você pode ousar, quem sabe, talvez escrever um conto.

Quando, é sempre um quando, é sempre esse autoaprimoramento constante, que eu acho massa e sou fã, mas que nos trava. Eu conheço mulheres brilhantes que não se colocam no mundo do tamanho que elas têm. E aí, isso não é uma questão de uma falta de confiança delas, de uma baixa autoestima. Isso é uma questão de um sistema inteiro que não nos quer ocupando esses lugares. Aí eu falei, pronto, tem um livro.

Ótimo. É muito legal o jeito como você chega ao fio condutor. Ele tava ali já sempre. E a Dani falou sobre capturar sensações coletivas. Acho que é isso. Eu escrevi um livro chamado Nem Toda Mulher, mas Toda Mulher. Vai se identificar mesmo. Porque é isso. Isso perpassa a nossa existência.

Eu comecei a escrever em Universa, fazia um texto por semana. Aliás, um dos meus, sei lá, no segundo mês, estive lá, uma crise. Falei, meu Deus, não tem um assunto.

Fui bater na porta de quem? De Daniela, pra falar sobre a síndrome da impostura. Lembra? Lembro demais. Olha só. Escrevi em Universo em 22, o ano inteiro. E aí, no começo de 23, eu fui escrever no portal Mina Bem-Estar. E tô lá, desde então, escrevendo um texto por mês. Graças a Deus. Respirou. A frequência tá melhor.

E também escrevo do meu ponto de vista, do lugar onde eu existo, que é uma existência feminina, branca, classe média, heterossexual, em tese. Mas que repercute, que reverbera em muitas mulheres como eu, em mulheres diferentes de mim também, porque a existência feminina tem um fio que nos conecta.

Mas eu tô lá, escrevendo um texto por mês. E um dia, um amigo chamado Michel Alcoforado me disse, por que você não faz um livro? Eu falei, acabei de começar uma pós-graduação, justamente, não me achava qualificada o suficiente, fui estudar e tal. Tinha uma menor condição de escrever um livro. Né?

com um programa de três horas ao vivo, dando notícia, após um livro e tal. Ele falou, mas você não precisa escrever o livro, o livro está escrito já. Eu tenho a impressão de que as suas crônicas organizadas, elas captam a sensação, os pensamentos e o modo de existir de um tempo.

Eu não tive desde nunca a menor pretensão de falar em nome de todas as mulheres ou de dizer que este livro captura a existência feminina contemporânea. Não é isso, porque mulher é muita gente, como eu já disse. Exato. Mas eu acho que ele tinha alguma razão no conversar desses textos. E sim, se eu estou aqui há quatro anos escrevendo sobre a existência feminina, sim, eles reunidos vão fazer um panorama de um tempo.

E aí propus para a telha organizar esses textos, achar também um fio condutor, que eu não sei explicar até hoje qual é desse livro, mas fizemos o livro e a gente lançou ele o ano passado, em julho. Na Flip, é. É uma reunião das crônicas que eu já escrevi com um texto inédito que eu fiz para abrir o livro.

Eu nem lembro qual foi a pergunta, mas foi assim que esse livro nasceu. Isso, mas era isso, né? E eu gostei tanto desse lance de colocar um livro no mundo, um negócio que você fez, sabe? A sua observação do mundo. Tem muitas aspas também, opiniões de muitas outras mulheres, sobretudo aqui, que eu fui ouvir. Mas eu gostei muito, assim.

Então, continuar. É isso que eu estava. Vocês pretendem seguir, então? Já tem outros livros chegando pra vocês de alguma forma? Outras ideias de escrito ou ainda não? Ideias a gente sempre tem, né? Ideias a gente tem bastante. Tenho, tenho. Sim, eu acho que a concretude que um livro traz...

alarga a gente de alguma forma. Eu me sinto muito mais corajosa depois de ter escrito esse livro, porque eu precisei mergulhar nos meus medos, nas minhas inseguranças, porque acostumada também a ouvir o outro e acostumada com a internet, eu dei um jeito de conversar com as pessoas pelo livro. Ele é cheio de exercícios que eu proponho para que...

quem estiver lendo, dê uma parada e mergulhe naquele tema e escreva sobre o que aquele tema desperta na pessoa. E aí, quando eu fiz isso, eu falei, caramba, é muito... Essa troca que acontece depois é muito forte. E aí, eu precisei ser muito corajosa pra escrever o meu. E aí, depois de vê-lo pronto...

Dá essa sensação, né? Você sabe, a concretude tá aqui. E a minha parte trágica é que eu perdi meu irmão na pandemia, não pela pandemia, mas naquele momento, meu irmão, a pessoa mais brilhante e inteligente, que devia ter deixado 20 livros escritos. E não deu tempo. E aí me deu uma urgência que eu falei assim, eu preciso deixar alguma coisa aqui. Por quê?

Se aconteceu alguma coisa comigo, pelo menos tinha um livrinho ali, entendeu? Olha esse livro. Olha ela, como ela pensava. Não chama de livrinho, faz favor. Obrigada. É verdade, tô falando de tudo isso. A gente cai às vezes nesse ato. Ah, eu lancei um livrinho. Me deu essa sensação de que eu precisava. Eu precisava e também pensei muito sobre.

esse livro é um retrato de um momento. Eu acho que o livro também traz essa pompa que parece que a gente tem que resolver uma vida inteira ali dentro. Gente, só mais caraminhola na nossa cabeça. E na de quem lê. Pra fazer com que a gente adie isso. Nossa, exato. Então assim, me deu essa urgência. Falei, eu preciso ter.

Também como você. É gostoso demais. Então, assim, vamos já costurando os próximos. É muito legal isso da concretude. Porque muda alguma coisa, né? Você ter o livro em mãos. Mas o mais legal ainda é você trazer isso. Do que ele não precisa também estar sempre pronto. Ou retratar completamente quem você é ao longo da vida. Ou retratar todas as mulheres. Porque a gente vai mudando ao longo da vida. A forma que a gente pensa. A forma que a gente escreve, né?

Às vezes tem coisas que a gente escreveu há anos atrás. A gente escreve muito. Não sei vocês. Que você lê hoje em dia e fala... Ai!

Mas faz parte de quem a gente era. Só que você vai mudando. É muito legal saber que a gente tem essa possibilidade. E o único ser universal é o homem branco hétero do norte global. Ele, quando escreve, não é sobre a experiência dele. É sobre a experiência de ser um ser humano. É da humanidade. Mas se a gente escreve, a gente é uma mulher escrevendo, uma mãe escrevendo. Então, assim, sempre vão nos diminuir. Então, a gente tem que escrever a partir das condições que a gente tem. De quem é a gente hoje.

Porque daqui a cinco anos, eu espero ter escrito outras coisas de uma outra versão minha. E que isso siga. Sim. Pelo resto da vida. Sem essa pretensão de querer esgotar. Porque não se esgota. São pontos de vista. Eu acho que toda a...

Todo esse boom da literatura escrita por mulheres, não é à toa, tem um monte de gente se identificando com as histórias. Tem gente se reconhecendo, dizendo assim, caramba, alguém falou algo que eu sinto. Então eu quero ler isso, eu não quero ler a experiência que é completamente distante da minha vida. E eu acho que isso tem a ver também com a quantidade de mulher que tem se permitido escrever, né? Exato. E eu acredito muito nesse movimento de mulher.

Bom, as pesquisas estão aí mostrando que mulheres escrevem mais, leem mais, compram mais livros.

Você ler outras mulheres, pelo menos a mim, me dá muita vontade de escrever. Muita vontade. Dá, completamente. E talvez, talvez não, acredito que seja, que essa é uma engrenagem mesmo. Acho que quanto mais mulheres leem, mais mulheres se sentem autorizadas a escrever e a levar.

esse sonho, caso seja um sonho, a frente, né? Exato. Tanto que o próprio Elas na Escrita, ele surgiu exatamente daí. Anos atrás, quando eu tava começando a escrever, pensando um pouquinho mais em literatura, olhei pra minha estante e falei caramba, quanto livro escrito por homem e eu aqui querendo começar a escrever, então eu comecei a buscar mais livros escritos por mulheres e aquilo foi me alimentando, foi me dando coragem, foi me dando vontade.

E isso é um movimento muito comum de mulheres, né? Eu mesma fiz isso, eu passei anos sem ler homens.

Porque eu passei a minha vida lendo homens e chamando aquilo de literatura. Sim, aquilo é literatura, mas não só aquilo é literatura, né? Exatamente. Eu me impus ler só mulheres e passei... Acho que até hoje eu leio predominantemente mulheres, leio poucos homens.

Mas pra entender também, quem são essas mulheres? De que jeito elas veem o mundo? Quais são as histórias ficcionais que saem das cabeças delas, sendo mulheres? Essas histórias são parecidas com as histórias que os homens contam? Ou tem um jeito assim ou assado? E eu não quero, com isso, dizer que é um olhar feminino, porque isso não existe.

Mas é a partir de uma existência feminina. Isso sim existe. Eu tenho lido muito mais mulheres do que homens. E aí a gente enriquece justamente esses olhares, né? Quando se pensava que tudo já foi escrito, então pra que escrever? Pra que eu vou escrever? E não, é muito longe. A gente tem uma...

riqueza de olhares muito maior hoje por terem cada vez mais mulheres escrevendo. E os livros de vocês, que têm essa veia de dialogar tão próximo com outras mulheres, por abrir esses espaços de diálogo com o contemporâneo, como tem sido o retorno para vocês depois que vocês publicaram? Porque é muito legal quando o livro chega nos leitores, parece que ele até muda às vezes, né? Muita coisa a gente escreveu, a gente até redescobre, porque leitores trazem um olhar completamente diferente.

O que tem chegado para vocês que mais impactou, mais mexeu com vocês de alguma forma?

Bom, pra mim o que eu ouço muito é, eu sou capaz de ouvir a sua voz lendo o que você escreve. Porque minha biografia no livro faz tanto tempo que Tatiana Vasconcelos fala no rádio que você já deve ter ouvido a voz e a risada dela por aí, porque eu falo no rádio há 25 anos. O prefácio do livro é da Liana Ferraz, que me recebe, assim, na literatura, e é quase uma carta de autorização.

dizendo que você escreve, você escreve uma história por dia no rádio, né? Na sua cabeça, na maneira como você organiza as ideias e fala no microfone. Agora você está encontrando um outro jeito de escrever. Talvez outras ideias por um outro meio, que aí é a escrita mesmo. É claro, são linguagens diferentes.

Mas eu acho que eu aprendi a me apropriar dessa assinatura que é a minha voz e tentar colocar na maneira como eu escrevo. Eu acho que tem dado certo, porque como eu disse, o que eu mais ouço é nossa, eu sou capaz de te ouvir lendo.

Um audiobook, atenção empresas, ia ser. Exatamente. Então, olha, eu compraria. Eu ia falar isso, tem que transformar em audiobook. Mas tem isso, de ouvir bastante isso. E mesmo quem não tá acostumado a me ouvir no rádio, ou quem nunca leu o que eu escrevo, o que eu escrevi em universo, o que eu escrevo na mina.

acha, e aí eu gosto mais porque eu fiz isso sem saber se ia dar certo que tem uma unidade na reunião das crônicas porque às vezes eu escrevo sobre tantos assuntos diferentes que ficou um pouco difícil pra mim costurar e organizar o livro a partir de um fio condutor. Qual é o fio condutor do livro? Não tem, é a existência feminina e eu fui arrumando ali do jeito que eu combinava, que eu achava que combinava, obviamente com a ajuda da Mária, editora.

E eu acho que deu certo, porque eu ouço isso também. Nossa, te ler todo mês é legal, mas ler tudo junto no livro dá uma outra percepção da coisa. Acho que o Michel tinha razão. Completamente. Lendo o livro, talvez encontra-se esse fio condutor que você achava que não tinha e ele tá lá de alguma maneira. Eu vou deixar pro leitor e pra leitora essa missão de encontrar qual é. Exato. E pra você, Dani, o que tem chegado dos leitores? Olha, uma frase que se repete é...

Parece que eu estou conversando com a minha melhor amiga, aquela que vai me acolher, mas que também vai me dar uns sacodes. Ou então, eu quero ler aos poucos, porque está me fazendo acessar coisas que eu nem estava preparada, mas que está sendo muito bom. Várias pessoas falando assim...

eu tive mais coragem depois de ler e finalmente eu estou fazendo tal passo. Tem uma história muito legal que na Flip de 2024 eu tava lá e uma pessoa chegou pra mim e pediu autógrafo no livro e aí no ano seguinte ela veio e falou assim o meu senhor escreveu um livro, tá aqui o meu. E aí eu queria te pedir um outro autógrafo agora nesse lugar. E eu falei, cara, é muito legal. Então assim, tem essa história de um despertar mesmo.

de assim, o que é que na minha vida eu estou deixando de fazer porque eu estou me sabotando, deixando essa impostura falar mais alto e como é que eu atravesso isso, porque eu gosto muito que o nome do livro é Para Todas as Mulheres que Não Têm Coragem e que aqui no Projeto Gráfico

esse não tem outra cor então, às vezes as pessoas leem para todas as mulheres que tem coragem e é uma brincadeira mesmo, porque por mais que a gente tenha todas as nossas inseguranças eu sou cercada de um monte de mulher foda, de um monte de mulher corajosa que, apesar de todas as dificuldades que apesar de todas de um mundo que tenta o tempo inteiro nos sabotar

Vão lá. Vão lá e escrevem e se aventuram e ocupam lugares importantes. Então acho que a gente vive essa dualidade. Por trás dessa impostura tem uma mulher com muita coragem. E o que eu recebo de retorno é...

que as pessoas dizem sim pra fazer esse percurso, pra se reconhecerem, e pra dizer assim, caramba, bora lá, não tem muito tempo pra perder, mas não, bora fazer, que a gente tem que fazer, sabe? E sabe que a primeira vez que eu li a capa do seu livro, eu li assim, como se fosse um adendo, para todas as mulheres que têm coragem...

Não tem coragem. Olha aí. Então, eu pensei nessa dualidade já, porque pra quem tá só escutando, gente, o título é todo em preto e tem um não, que é rosinha e que ele combina com uma estrela, né? Uma parte gráfica que tem ele do lado. Então, dá pra gente ler o tem e o não tem. Esse é muito legal também.

Que eu acho que resume a gente. Exatamente. Porque a gente não vai mais. E eu acho que depois também de certa idade, você não vai mais deixar de fazer. Você vai sofrer. Você vai perder o sono. Você vai ter que chamar toda a sua rede ali pra dizer assim, me ajuda. Mas a gente vai fazer. Porque quando a gente se dá conta desses problemas da estrutura mesmo, do mundo que não nos quer, a gente fala, ah, não quer não? A gente vai.

É isso. Gente, o que vocês foram aprendendo sobre outras mulheres, sobre as mulheres que vocês convivem e sobre vocês mesmas, tanto nos textos desses livros, quando você já escrevia, era os textos das colunas há muitos anos, quanto o Dani nesse livro de agora e também no que escreve nas redes sociais, na newsletter, o que vocês aprendem olhando pra essas mulheres, sobre vocês mesmas? Vocês acham que vocês acabam mudando alguma chavinha?

já receberam algum comentário que talvez estivesse um pouco distante do que vocês pensaram na hora de escrever, que falaram, olha, chegaram algumas coisas que foram me pensando na minha dualidade, o que teve de aprendizado nesse processo de escrita.

Não sei se teve. Não, sempre tem, né? Sempre tem. No processo de escrita ou no geral? No geral. Enquanto vocês escreviam esses textos, se vocês se colocaram pra olhar um pouco mais pra vocês mesmas e foram descobrindo outros lugares, sabe? Nesse diálogo com as mulheres que vocês escreviam. Eu nem sei se eu concordo mais com tudo que tá aqui. Tô brincando, tô brincando. Mas acho que faz a gente rever o que a gente fez, não?

Eu acho que tem uma força muito grande da gente se reconhecer como... Se reconhecer a partir da força que a gente recebe de outras mulheres. Tem um lugar muito forte. Eu troquei muito durante a escrita desse livro com Clarice Freire, que é a escritora. Ela tem o romance chamado Para Não Acabar Tão Cedo e a gente lançou na mesma época. E eu ficava com as minhas inseguranças de um lado, ela com as inseguranças dela de outro. Aí a gente falava, nossa, então...

Ok, tá na checagem aqui, na anamnese, tá todo mundo doida igual. Mas beleza. Aí ela voltava pra mim dizendo assim, caramba, você sabe o que você tá fazendo. E eu falava, Clarice, ela com os livros de poesia dela, ela vendeu milhares de cópias. Ela fez o pó de lua.

que ela foi uma das primeiras autoras a usar a internet. Eu conheci a Clarice pelo Podlu, que tem anos e anos. Bestseller, Zassa, eu falei, pronto. Não sei a bestseller, Zassa, tá aqui. Com a mesma nóia que eu, realmente temos esse problema de estrutura. Mas o que eu acho que é muito impactante, e isso tem a ver tanto com o processo quanto o pós, é o quanto a gente se ajuda, o quanto a gente torce, o quanto a gente se celebra.

Eu até escrevi na Contente recentemente um...

uma coluna falando que, assim, meio que abre mão dessa ideia de que as mulheres querem te ver por baixo, que tem uma mulher pronta pra puxar teu tapete. Você ainda tem muito essa ideia mesmo. E, porque, assim, não é o que eu experimento na minha vida. Eu vejo, assim, as mulheres se ajudando, dizendo assim, ó, vem aqui que eu te ajudo, você me ajuda e aí tem grupo de tudo e a gente quer.

se levantar, se elevar. A gente quer dizer assim, se por muito tempo a gente não pode ocupar, agora a gente vai e a gente vai levar as pessoas juntos. Foi muito engraçado, assim, foi muito curioso porque, assim, teve muito comentário de gente falando...

Nada a ver, as pessoas puxam o tapete, já tive histórias horrorosas, me impactou mesmo, porque foi um volume muito grande de pessoas discordando, o que eu acho ótimo, porque gosto do debate. Mas na minha experiência, na experiência das mulheres que eu conheço, a gente cresce quando a gente se junta, a gente está disposta, disponível, tipo, bora lá. Então, tanto no processo, quanto no pós, e...

Dali pra diante, eu me reconectei muito com a força que existe em a gente estar junto. E quando a gente pensa em gênero mesmo, né? Eu penso, tipo, vários homens que eu conheço, eles não têm aquele grupo de zap das amigas? A gente tem, geralmente, dez, né?

e um é pra uma coisa um é pra outra coisa e faz o grupo, e nananã e eu acho isso, pra além de ser um pouco ansiogênico às vezes, mas eu acho que diz sobre a nossa disponibilidade de criar conexão de trocar, de ouvir de aprender, de melhorar e eu acho isso de uma riqueza, que assim por mais que seja difícil demais ser mulher em vários momentos se der pra vir várias vidas eu quero vir mulher, porque eu vou virJJJ

O que a gente tem, o que a gente cria, só porque a gente se reconhece de cara e porque a gente quer ver as outras crescendo, eu acho das coisas mais lindas que tem. E eu acho que isso tem a ver, obviamente, com uma estrutura que não nos aceita, que sempre diz pra gente que o que a gente faz não é suficiente. Acho que a estrutura ajuda a gente também a se conectar. Eu tive uma surpresa, não sei se é uma surpresa, mas eu fiquei muito contente com a turma de mulheres e eu fiz...

que eu passei a frequentar depois desse livro. E mulheres, desse jeito mesmo. Não, você vai fazer um lançamento, então a gente vai fazer assim, assim, assado. Eu vou estar com você, a gente vai chamar não sei quem, não sei quem, não sei quem. E você vai ver, está todo mundo uma ajudando a outra, entendeu? A Dani vai lançar o livro dela, então vamos oferecer tal coisa para ver se ela não quer que vai mediar ou que vai falar no evento. Nós. Nós.

Esse livro chama Nem Toda Mulher também por uma vontade de legitimar um modo de vida que não é o normativo, ou pelo menos não totalmente. Eu sou uma mulher de 48 anos, eu sou solteira, eu não tive filhos, não pretendo ter, eu em geral não uso salto, eu tenho meu cabelo grisalho.

Esses todos são assuntos que perpassam o livro como uma reivindicação de existência. Nem toda mulher precisa casar. Nem toda mulher precisa ter filhos. Nem toda mulher precisa pintar o cabelo. Nem toda mulher precisa fazer procedimento. Se quiser pode, obviamente. Mas veja, nem toda mulher. Também existem essas e essas são um contingente grande.

Então, acho que uma das coisas que eu ouvi é que bom que você falou sobre isso. Mulheres que, por algum motivo como eu, se sentiram representadas num universo em que nos é cobrado e ensinado a vida inteira que pra ser uma mulher, você precisa procurar um marido. Pra ter valor. Pra ter valor. Tem um roteiro, né? Exato. Exatamente. Esses são os retornos.

Ah, e acho que eu mais gosto, né? Porque você fala, bom, alcancei uma mulher que talvez estivesse se sentindo inadequada e ao ler percebeu que, pô, não, é só um outro jeito de existir no mundo. E essa eu acho que é uma das experiências mais legais da leitura, né? Quando o leitor se encontra, ele entende que ele não tá sozinho, né? Que ele não tá sozinho. Você se encontra ele naquele livro. Então, ó, foi pra todas as mulheres que tem e não tem coragem entendendo que nem toda mulher tem que ser isso. Perfeito, gente.

Eu quero esse merchan. Maravilhoso isso. Gente, e tem uma curiosidade. Vocês escreveram dois livros de não ficção e são jornalistas também. Vou fazer uma pergunta que é meio clichê, mas a gente ouve muito sobre processo criativo aqui. Às vezes muito de escritoras que escrevem ficção.

Então, que tem processos criativos muito diferentes, cada um tem uma trajetória muito diversa. Eu queria saber como é o de vocês, escrevendo, seja todo dia, seja toda semana, seja todo mês, como foi o processo de vocês para escrever esse livro? Vocês pensavam no ritmo? Por exemplo, você falou que as pessoas leem ouvindo sua voz. Você acha que pensa no ritmo na hora de escrever? Ou você já tem esse ritmo da voz? Como é esse processo de vocês para sentar e escrever esses textos?

O jornalismo me ensinou que se você tem um prazo, você vai fazer. Vai como dá. Então, o que eu acho muito bom, porque eu aperto bem minha editora e eu falava, não, agora não, vamos adiar. Aí, a certa altura, ela falou, Dani, ou a gente faz agora ou então vai perder o time, né, né, né.

Foi muito bom pra mim ter essa cartada de outra pessoa. Porque eu tô acostumada há muito tempo a escrever e a publicar na internet. Tipo, a partir do que eu quero. Não tenho alguém me falando pra fazer ou não.

Mas, exatamente também porque eu tenho um trabalho formal, tipo, eu tenho a Contente, né? Junto com a Luísa, minha sócia, e a Ilana, que é nossa redatora, a gente faz um volume gigante de coisas. Então, eu tenho o meu trabalho que ocupa...

Boa parte do dia. O dia inteiro. Então, eu escrevi muito nas brechas. Eu escrevi a final de semana. Eu fui duas vezes no retiro da Indigo, que é escritora. Ela tem um lugar maravilhoso pertinho de São Paulo. E eu fui duas vezes, sei lá, dois dias cada vez. E isso foi muito bom pra eu tentar me concentrar. A certa altura...

Eu falava assim, não, eu vou escrever todo dia. Todo dia eu vou ter que escrever uma página. Independentemente se sair alguma coisa ou não. Então tinha dia que eu bombava. Tinha dia que eu falava assim, o cardápio da semana pode ser tal, tal. Mas eu fiquei fazendo, tentando como uma musculatura. Falei, eu tenho que preencher essa página. E aí poderia preencher com o cardápio. Com qualquer coisa. Se o cardápio vem no dia. O processo criativo, ele é, né? Mas eu falava, eu preciso. E eu preciso ganhar.

fôlego e tudo mais, mas eu fui muito articulando essas brechas, que é o nome da minha newsletter, inclusive, brecha, porque eu acho que ainda a escrita autoral tá muito nesse lugar, e o meu grande desafio é como torná-la parte maior do dia.

Mas aí às vezes eu penso, nossa, mas eu tô escrevendo na Contente, tô escrevendo. Aí o meu traço tóxico é gostar de trabalhar no feriado. Tipo, ontem, feriado. Eu escrevi ontem. Em três horas, eu escrevi tanto que eu falei, ufa, hoje eu já tava numa paz. Eu nem senti ansiedade hoje. Então, o jornalismo me puxa pra esse lado do volume com prazo.

Aí a vida atropela, mas eu acredito muito que quanto mais a gente escreve, mais a gente escreve. Que a fuga para as montanhas, que eu sempre idealizei na minha cabeça, ela pode até acontecer, mas ela vai acontecer uma vez ou outra. Eu quero saber o que é que, se eu faço todos os dias...

o que eu mais quero fazer. Então eu parei de idealizar. Ai, não, porque quando eu tiver tempo... Vamos isolar num casebre no Alto da Montanha e escrever um romance. Não vai acontecer. Você vai escrever... Você pode até escrever, mas nem sempre vai ter o teto todo seu. E eu sempre amei um teto todo seu.

Eu cito no livro, inclusive, mas aí depois eu conheci uma escritora chamada Gloria Andalzua, que tem um livro curtinho chamado A Vulva é uma Ferida Aberta e Outras Histórias. E ela fala assim...

Nem toda mulher. Não sei se ela fala nem toda mulher. Mas ela fala, nem toda mulher vai ter um teto todo seu. Provavelmente a gente não vai ter. A gente vai escrever em cima da mesa da cozinha, enquanto a gente prepara a comida pra criança. Albert Céspedes. E aí, a gente vai fazer isso, porque não fazer isso não é uma opção. Então, a gente vai escrever como dá. A gente vai escrever nessa brecha. E aí eu falei, eu me identifiquei muito, porque por muito tempo, eu esperei.

O teto todo meu, a montanha. E acho que isso tinha a ver também com essa impostora. Porque é isso, é mais uma etapa. Então tem que ter as condições ideais pra você escrever. Amor, você não vai. Você não vai escrever, você só vai adiar pro futuro. E eu quero a minha escrita no presente, eu quero a minha escrita publicada, eu quero a minha escrita chegando na outra pessoa e a pessoa lendo. Então vou ter que fazer quando...

Dá. Nossa, mas eu me identifico muito com essa fala, Dani, que eu já falei algumas vezes isso, justamente sobre se inscrever nas brechas, que a gente lida ali com o trabalho, são, né, e oito horas pedindo trabalho, e o deslocamento, e o compromisso, e o outro projeto. Então, se você não pegar as brechas, não vai acontecer, né? A gente não vai ter esse espaço que seria ótimo, a gente adoraria a casa na montanha, mas é muito difícil. Eu não tenho mais essa ilusão.

Mentira, às vezes eu sonho que eu vou ter uns dias. Ah, vou ter uns dias, aí vou ficar aqui eu, meus livros, minhas referências, minhas músicas, meu note, vou escrever um texto lindo. Nunca aconteceu. Nem deu ter o dia e nem descrever quando tem o dia. É a síndrome Carrie Bradshaw. Totalmente. E sexo no sério. Não, e assim, eu tenho. Eu tenho que admitir, eu tenho. Eu tenho essa síndrome.

Mas eu também olho pra Carrie e falo, ai, que legal. Eu, com 20 e tantos anos, olhava e falava, ai, eu acho que eu gostaria de viver essa vida. E hoje eu vivo essa vida. É gostoso. Brechas é o nome da newsletter da Dani. E o meu último texto na newsletter, no Tatiando,

Eu uso essa palavra. E eu uso essa palavra porque eu ouvi a Liana e a Jana Viscardi aqui falando sobre isso no Elas na Escrita. Foi muito legal o episódio. A gente escreve nas brechas. E é isso aí. É o que dá. É o que tem. Eu, como eu escrevo? Eu vou tendo ideias. Vou anotando coisas. Tem uma página do meu Google Coisas, Docs, que chama Fluxo.

Vai vindo, eu vou enfiando lá, entendeu? Aí às vezes eu tô sem ideia, eu revisito a página, falo, nossa, esse assunto era bom, como é que eu posso desenvolver isso? Putz, isso combina com tal coisa que eu li esses dias, ou tal coisa que eu ouvi, ou tal coisa que eu presenciei, ou lá lá lá. Então eu vou, tem texto que sai a partir de uma depuração e de um tempo que eu acho que eu levo. Acho que pra condensar isso mesmo, não é condensar o processo, é decantar, é o contrário.

de juntar referências, de entender que aquilo dá coisa, mas ainda não tem, e uma hora você senta e vai, sabe? É assim, às vezes. Às vezes é, eu tenho que entregar um texto na quarta-feira, depois do feriado, sobre um assunto que não é que eu já falei muito. Eu vou ter que ler, eu vou ter que pesquisar, eu vou ter que ouvir coisa, apesar de já ter alguma visão sobre aquele assunto.

Então você sente e faz. E como uma trabalhadora da palavra, da comunicação. Você sente e faz. Vai pesquisar, vai ler, vai ouvir. Escreve, reescreve. Também passei um feriado inteiro lidando com o texto. Achando ruim, mexendo. E chega uma hora que você fala. Não importa se você acha ruim, se você acha bom. Tá na hora de entregar. Adeus. Seja o que Deus quiser. Vai com medo mesmo. Entrega.

Porque assim, não é que vai ficar ruim. Eu sei que não vai ficar ruim. Mas às vezes eu olho as coisas e eu falo, putz, eu queria ter tido mais tempo de trabalhar melhor esse texto, de ter escolhido outras palavras, de ter elaborado esse parágrafo e encadeado essa ideia de um outro jeito. Às vezes eu leio o que eu escrevi e eu tenho novas ideias. Eu falo, eu deveria ter escrito dessa maneira e não da maneira como eu escrevi.

Mas eu acho que isso não tem fim. Não tem. A gente precisa se acostumar com isso e, sei lá, tentar fazer melhor no próximo. E também o que é melhor, né? Mas enfim, pra resumir, escrevo nas brechas. Também nas brechas. E sabe uma coisa que eu tenho cada vez pensado mais e feito as pazes? Que é muito legal.

ter um trabalho que paga as contas e não fazer a escrita ser o trabalho que paga as contas. Maravilhoso. Isso é um lugar...

de privilégio, mas também é um entendimento, porque eu fiquei lembrando esses dias que eu estava dando uma palestra e eu resgatei um livro chamado A Grande Magia, da Elizabeth Gilbert, que é autora de Comer, Rezar e Amar, que virou filme com Julia Roberts. E nesse livro, ela fala muito sobre processo criativo. E ela fala, então, sempre escrevi.

De repente, um sucesso. O que é que vem depois daquilo? Pode ser um sucesso ou pode ser um fracasso. E ela teve fracassos e sucessos. E ela falou uma coisa que me tocou muito, que é a seguinte, ela falou, o meu compromisso é com a escrita.

Eu escrevo sempre. O meu compromisso não é com o sucesso. Não é com o dinheiro. Não é com nada. Ela falou, eu já tive épocas em que eu tinha que fazer trabalho X. Que não tinha nada a ver com escrita pra pagar minhas contas. E eu não queria que a escrita fosse atrelada ao meu bem viver. E aí aquilo fica um pouco na minha cabeça, sabe? Acho que a gente faz trabalhos muito legais.

E a gente escreve. É muito bom, porque... E talvez isso seja uma forma, porque a gente está vivendo num mundo de muitas crises, né? Ainda tem a IA, para tirar o trabalho das pessoas que escrevem. E outros tantos. E às vezes, talvez, a gente vá com a sede para que o Se Tornar Escritora venha com...

Não só os livros publicados como uma estabilidade financeira. E nananã. Que talvez a gente esteja depositando coisa demais em algo. Com certeza. E talvez é isso. Eu tenho feito as pazes com isso. Com esse escrever nas brechas. Eu falo, caramba, eu tenho um trabalho onde eu escrevo pra cacete.

E a minha escrita autoral vai nesse lugar? Mas assim, eu estou escrevendo. Eu estou vivendo o sonho. Eu estou vivendo da escrita de diferentes formas. Que é o que eu vejo também nas nossas amigas. Está todo mundo ali. Tem o seu livro, mas está dando aula no lugar, está fazendo encontro no outro, está fazendo comunidade. Por quê? É isso. Cada um vai ter que se puxar.

Que a gente poderia ser um país de muito mais leitores. A gente perdeu leitores. Tem tantas coisas pra resolver. Que é isso, assim. Desidealizar. Tem essa palavra? Tem. Desencastelar. Desse lugar que a escrita vai dar tudo. Não, tu não quer escrever, tu vai escrever. Tu quer publicar, tu vai publicar. Agora, você esperar que resolva a sua vida, talvez venha frustração. Nossa, eu novamente assinando embaixo em tudo.

Porque realmente tem esses dois lados que ficam muito numa balança, que tem um lado que a gente idealiza, não sei se talvez todo mundo já passou por isso, quando tá começando ali, escrever lá naquele início do, ah, eu gosto muito, e você pensa, não, você é escritora e vai ser só isso, eu vou viver da escrita, então parece que aquilo vai resolver sua vida e você vai conseguir fazer só aquilo.

Mas me lembro também de um outro lado, até puxando uma ponta, tinha um professor de teatro meu lá de Brasília, eu faço teatro há muitos anos, e ele fazia, aliás, tem muito tempo que eu não faço, e ele gostava de falar justamente pra ter outras carreiras. Ele falava, não, não fique depositando tudo aqui no teatro.

Porque se você tiver seu trabalho e vier aqui pro teatro depois, aqui no teatro a gente vai fazer o que a gente quiser. A gente não vai ganhar dinheiro aqui, a gente não vai precisar entregar alguma coisa pra ganhar dinheiro. Então tem esse contraponto também, que eu lembro muito desse professor do teatro. Não, vai ganhar seu dinheiro com o trabalho lá, seja o que for. E aqui no teatro a gente faz o que der na nossa telha. E eu tô...

Fala, Dani. Só uma coisinha, você falando de teatro, eu lembrei do Gregório do Vivier, com o Céu da Língua, né? Que pra quem...

É da palavra, é uma peça obrigatória. É uma coisa sensacional. Aí ele faz a peça, ele tá rodando o Brasil e o mundo. Aí eu já vi que ele vai lançar o livro agora, eu acho que é a parte da peça. Aí ele tem um podcast com a Amor Gente que eu amo, que é de notícia. E aí ele tem outro de relacionamento e tem Porta dos Fundos.

Cara, eu vejo ele ali num lugar de... Ele tá experimentando em diferentes suportes, formatos, possibilidades. E assim, ele poderia ter se contentado com o sucesso de Porta dos Fundos. Sei lá, mas o cara tá fazendo mil coisas. Mas assim...

Eu tô acompanhando e tô concordando, tá? A newsletter tá me servindo pra isso também, pra encontrar o que eu quero fazer com aquilo. Porque entrei numa minicrise que é, bom, tá bom, eu tenho uma carreira consolidada, eu sou reconhecida pelo que eu faço no jornalismo, no hard news, na CBN diariamente, eu publiquei um livro, sou reconhecida como uma autora, o que eu vou fazer nessa newsletter? O que eu quero entregar nessa newsletter?

Será que eu preciso seguir uma maldita fórmula para aumentar a comunidade, para depois começar a cobrar assinatura, para mercantilizar isso aqui? Eu quero isso. Eu vou ter que escrever com uma regularidade que vai me obrigar a lançar mão de coisas que talvez eu não queira, para manter essa regularidade e continuar dentro daquele modelinho algorítmico que a gente conhece.

e que eu detesto, particularmente, pra poder ganhar algum dinheiro, eu disse, eu não vou. Eu não quero. Eu quero que isso pareça mais com o que eu fazia no meu blog. Porque você vai ter liberdade pra escrever. Eu não tenho um jeito de escrever, não tenho modelo a minha newsletter. Tem dia que eu quero escrever uma crônica, eu escrevo uma crônica. Tem dia que eu não tenho assunto, eu problematizo a falta de assunto. Tem dia que eu vou falar...

Da Artemis. E as questões todas que passaram na minha cabeça viajante a hora que eu olhava aquele monte de imagem maravilhosa da NASA. Sei lá, tem música no espaço? Se eu for morar na Lua? Que influência vão ter os astros sobre Capricórnio? Coisas assim, sabe? Sei lá. Então, mas só...

Porque eu tenho uma carreira bem sucedida e um trabalho que me paga pra que eu leve a minha vida, eu posso fazer isso. E eu acho que isso a gente tem que dizer, né? O Gregório deve estar ganhando dinheiro com isso tudo que ele faz. Apesar de, obviamente, concordo, estar se experimentando em vários lugares. Sorte a nossa que pode acompanhar tudo isso porque ele é bom demais.

Mas só tendo uma âncora pra você poder experimentar e poder se livrar desse modelo algoritmo que, sei lá, você vai me dar dinheiro um dia, entendeu? Não é isso que eu tô querendo, pelo menos por enquanto.

Não, total. E é isso, assim. Mas eu acho que mais do que o experimentar é assim. Talvez tirar a escrita desse pedestal de que ela vai resolver a sua vida. Que você vai... Porque eu tenho achado difícil mesmo. E eu vejo pelas nossas amigas. Tipo, todo mundo está fazendo algo além do livro. Sim. Eu também acho que eu não conheço nenhuma nesses anos aqui. Quando eu penso, Carla Madeira...

a autora que mais vende livros no Brasil, que ultrapassou um milhão de cópias. Ela é dona de uma agência de publicidade em Belo Horizonte. Não sei se ela atua ainda ou não, mas assim... Mariana Carrara, que publica às vezes um livro por ano, quase tem um baita ritmo. É servidora pública. Exato. E aí eu acho que olhar com esse dado de realidade é interessante. Porque talvez a gente venha com a idealização. Nossa, então eu vou...

Viver de literatura. Eu vou viver de literatura, ou eu vou ser a próxima Carla Madeira. A próxima Carla Madeira talvez esteja dando expediente também. Total, total. E isso é um sinônimo, um indício das crises que a gente vive, dessa falta de um colchão de segurança. Eu queria que a gente vivesse num...

num outro mundo, em que a gente não precisasse trabalhar tanto pra pagar nossas contas. Então, assim, aí a gente pode entrar numa conversa sobre como o capitalismo massacra a gente, como as big techs ainda... O problema das nossas vidas é o capitalismo. Vamos resolver o problema do mundo agora aqui. Eles ainda acrescentam essa corrida maluca que é, e não basta só você querer publicar na sua newsletter ou no Instagram, você tem que topar a corrida, que é uma corrida enlouquecedora. O Instagram lançou, ontem eu vi que tava disponível pra mim.

umas métricas dentro do próprio post. Aí tem assim, tempo de visualização média, três segundos no vídeo. Cara, em três segundos você falou, bom dia. A gente tá deteriorando nosso cérebro. Totalmente. Numa corrida maluca. Não quero mais. Isso é... E a gente coloca dentro dessa corrida, né? Um outro episódio. Então assim, a gente tem que estar... Nossa, eu...

Tudo que puder fazer para combater essa lógica, tenho feito. Inclusive, tô numa briga, não sei como é a relação de vocês com tela, eu ando com uma dificuldade imensa de tirar a cara da tela. Ando com uma dificuldade imensa de me concentrar pra ler.

Tudo que eu puder fazer contra essa lógica, inclusive de trazer as pessoas mais pra perto presencialmente, eu tenho feito. Porque é aqui que tá a vida, gente. Não é nessa lógica doida que inventaram pra gente, não. E eu converso muito isso lá em casa. O quanto realmente isso influenciou nos nossos hábitos de leitura.

Leio muito, desde novinha e tudo. E quando eu era mais nova, eu tinha muito mais concentração pra pegar o livro desse tamanho e ler. Eu ficava ali o dia inteiro viajando no livro. Hoje em dia, às vezes, você tá lendo. Ai, mas peraí, será que não sei o quê? Ai, mas peraí, será que não sei o quê? Então, a gente tem que exatamente quase se policiar e se combater de estar dentro desse lugar e de estar, às vezes, com a escrita dentro dessa corrida maluca. Acho que Dani deve...

diariamente deve pensar nisso, né? Tendo os projetos digitais, porque a gente fica numa corrida mesmo e é muito cruel com a gente. Por isso que eu fico sempre emocionada quando eu penso que alguém escolheu ler.

Já é muita coisa, porque é difícil. Pegou o livro, abriu e sentou. Aí alguém escolheu ler o meu livro. Aí alguém escolheu fazer os exercícios que eu proponho. Aí alguém escolheu me mandar uma mensagem, ou me chamar para um podcast, ou me chamar para participar de um clube do livro, do meu livro. Eu não naturalizo. Eu nunca vou ser blasé. E eu acho assim, eu acho muito...

Eu não me preparei para a parte boa. Eu sofri tanto para escrever que eu ficava... Tudo que vem de boa, eu falo assim, cara, é muito mágico. Porque é isso, a gente tem uma batalha gigante diante da nossa atenção. A nossa atenção está sendo corroída por esse sistema inteiro. E é muito difícil. E é importante a gente ter essa...

essa prática individual. Mas a mudança tinha que ser estrutural e coletiva. Porque não vai adiantar só a gente fazer. Eu também faço. Tipo, eu deixo meu celular no outro cômodo, às nove e meia da noite. E aí fica um livro. Às vezes eu tô com o cérebro, assim, o cérebro com as abinhas abertas. Não consigo me concentrar. Mas eu fico tentando. E aí você já entra na outra seara, né? Tipo, eu tenho um filho e ele me vê lendo. E eu leio pra ele.

A gente tenta ler todas as noites. Então, assim, tem que fazer. Porque daqui a pouco vai querer. O videogame, o jogo.

É um mundo inteiro de distrações querendo tirar a gente disso aqui. E aí quando... Eu fico pensando, a gente é resistência da atenção. E quem lê sabe que tem... Se nutre de outros mundos de uma forma muito poderosa. Então a gente não pode abrir mão disso em prol de uma distração. Que só faz a gente se comparar. Achar que não é suficiente. Que precisa ser mais, mais, mais de tudo.

Nossa, você falou de Clube do Livro, é o espaço mais incrível pra isso mesmo. Você vê aquelas pessoas, né? Escolheram o livro, escolheram se reunir. Estão debatendo sobre algo que saiu da sua cabeça. É muito legal e que encontrou reverberação em outras pessoas. É o máximo. É o máximo. E aí também traz a Terra um número no número, que é o seguinte.

Se você tiver, assim, 30 pessoas numa live. Ah, só vieram 30 pessoas numa live. Eu acho muita gente. Porque eu penso que é gente. Eu não penso que é robô.

Aí se você fez um clube do livro, tem 30 pessoas. Você acha maravilhoso. Mano, é assim, é sensacional. Eu falo o Stanizei, viu? Alô, nordestinos. Eu tô aqui há 20 anos em São Paulo, então perdoe, mas o mano eu uso. 30 pessoas é muita gente. Eu sempre faço o cálculo. Cabe na minha casa? Sabe? Tipo, 30 pessoas lendo um livro, discutindo, dando tempo, dando atenção.

pra aquilo. Nossa, Dani, eu falei disso esses dias lá em casa, juro pra você, porque eu participei de um clube do livro recentemente em Brasília, é de uma colega minha que fundou, jornalista, e ela fez um clube do livro enorme lá, que vai 100, 200 pessoas, e foram umas 150 mulheres no auditório, tava assim. E aí eu voltei pra casa, maravilhada, chocada e tudo, e a gente conversando, a gente falou exatamente sobre isso em casa.

Nossa, imagina, se a gente posta uma coisa, eu coloco um vídeo, faço alguma coisa e dá 100 pessoas, ele e eu falar, né, que dá nada isso aí. Aí você esquece quanto é 100, 150 pessoas, é um auditório lotado de gente. Eu tive que reconfigurar isso. Eu falo no rádio, né? O rádio é um meio de comunicação demais. Umas 45 mil por minuto. Olha só. Por aí.

É um estágio. E aí você lembrar quantas pessoas Você acha que eu penso nisso na hora que eu tô no microfone sem ninguém na minha frente, com a produtora e o operador? Não, não me lembro. Mas às vezes os ouvintes me lembram. É muita gente. É muita gente. São outros números de pessoas que me leem. Então no começo eu falei, mas só isso, gente? Como assim?

Não, calma, se acalma. Eu tenho uma carreira consolidada no rádio, é uma coisa. Estou lançando um livro e inaugurando um novo...

Não vou chamar de ofício, porque não é um ofício. Uma nova skin. Uma nova skin. Calma, querida. Chega pisando devagar. Você tá achando o quê? Não é todo mundo que te ouve que vai te ler. Não é todo mundo que te lê que eventualmente te ouve. São coisas diferentes. Isso me fez reconfigurar tudo mesmo. Recalcular a rota e entender, nossa. Estou entrando num lugar diferente. Num lugar novo. Num lugar onde nunca estive. Num lugar em que não tenho público.

Preciso conquistá-lo. Então, pra mim, 30 pessoas, eu acho foda. É muito, gente. É legal demais. Demais mesmo. É muito. Eu não... Eu sempre fico assim. Eu sempre fico surpresa. Eu sempre gosto. Tudo. Ô, Dani, você acredita, 25 anos depois, no rádio eu ainda fico. Quando alguém eventualmente me diz, ai, eu te ouço. Ai, você jura? Que legal. É porque você não vê, né? As pessoas. É outra relação. Nossa, que bom. Ai, eu te ouço desde que...

E você saber que você chega nas pessoas a partir de quem você é. E lembrar desses números que a internet acaba fazendo a gente esquecer, achando que é pouca gente. Ou desconsiderar, né? Porque virou tanto qualquer coisa, precisa ser...

Na casa do milhar. Exato. Exatamente. Que você acaba desconsiderando o que não é isso. E o que não é isso é valoroso demais. 50 pessoas é muita gente. 30 é muita gente. É isso. Eu adorei que a gente chegou nesse tema pra ir finalizando. Porque acreditem se quiser já passou uma hora. Olha só. Passa muito rápido. Gente, eu gostei muito de conversar com vocês. De verdade. Faria mais duas, três horas aqui. Muito bom ver vocês duas.

E antes da gente finalizar, queria pedir pra vocês deixarem dicas de leituras. A gente sempre deixa alguma dica de livro, alguma autor ou autor que vocês leram recentemente e quiseram deixar aí de dica pra gente, ou recentemente, ou que são livros da vida, o que vier na cabeça de vocês agora.

Bom, como é que eu preciso fazer uma cola aqui? É, não, eu brinco que quando a gente pergunta assim, de repente, a gente tem que começar a avisar, porque eu mesma, se eu sou perguntada dessas coisas de repente, parece que eu nunca nem li o livro na minha vida. É que eu tenho, eu tenho os meus, os meus mais mais, A Louca da Casa, de Rosa Monteiro, acho que pra quem escreve, é um deleite. Eu gosto também. Eu adoro A Grande Magia, da Elizabeth Gilbert, por muito tempo eu tive preconceito, ah, é autoajuda, aí depois eu superei, que eu falo, se me nutre de alguma forma, se me dá um insight...

Tá valendo, gosto. Adoro ele. E aí, podemos entrar na Seara. Vou contar dois que eu li recentemente. Vou contar três que eu li recentemente. Pensando em mulheres. Ilhas Suspensas, da Fabiane Sex. O Ano do Cometa, da Maria Branche. E Vida Doçura, da Anatercia Ponte. Eu li esses últimos. Agora é tudo lançamento.

E eu adorei. Adorei. São histórias muito diferentes. Mas é isso. Lendo mulheres de diferentes lugares. E enaltecendo essa literatura contemporânea. Eu tô precisando ler mais ficção, viu, Dani? Você acabou de me lembrar. Eu acabei de ler Garota sobre Garota, da Sophie Gilbert. Ai, tô louca pra ler. O subtítulo é Como a Cultura Pop Colocou uma Geração de Mulheres Contra Si Mesma.

Dá muita raiva ler esse livro, porque acho que bastante do que a gente disse aqui tá nesse livro, mas obviamente de um jeito muito mais esmeuçado, complexo e amplo. Como a cultura pop de uma maneira geral, e ela vai passando, ela passa pela moda, ela fala da música, ela fala da literatura. Quais são as dinâmicas e de que jeito a indústria é encadeada de modo a fazer parecer...

que a gente tem poder, mas no fim das contas a gente está enriquecendo sempre os mesmos bolsos.

E não são bolsos femininos, como sabemos. Então dá muita raiva. Eu tenho lido muita não-ficção. E Dani também me fez lembrar do caderno proibido de Alba de Céspedes, já que a gente estava falando sobre escrever nas brechas. É um livro sobre escrever nas brechas. Sobre quais são os tempos que uma dona de casa que não se autoriza a escrever encontra para finalmente começar a fazer isso.

São os dois que vêm à minha cabeça agora. Foram ótimas dicas de leitura. E você? Ai, meu Deus, olha eu. Olha a apresentadora sendo pega de surpresa. Só pra saber que você leu recentemente que te marcou. Eu tô lendo agora o que você está enfrentando. Tô gostando bastante. Ai, gente, deixa eu tentar falar dela. Singred Nunes, acho que é isso. Tô doida pra ler também o da Fabi, que você falou.

O da Segred é o livro em que o Almodóvar se baseou pra fazer o filme da Tilda com a Julianne Moore. Isso, isso. O nome, obviamente, a perimenopausa levou, não é mesmo? Exato, eu tô lendo esse agora. De recente, eu gostei muito de análise. Eu li a análise da Veria Conelli, indo em não-ficção. E de ficção que eu recebi recentemente, eu gostei muito do Ressustar Mamuts, da Silvana Tavana. Ela passou por aqui, foi uma das melhores leituras pra mim, assim, que eu tive dos últimos meses. Então, vou desses três aí.

E saímos com um ótimo indicações. Quase me pegou de surpresa. Não conseguia lembrar. Engraçado, gente. Mas obrigada, viu, pela presença. Eu gostei muito de conversar com vocês. Foi uma delícia de conversa. E voltem sempre. Eu amei. Obrigada por essa costura. Por nos colocar juntas. Pra falar dos nossos livros. Tem tudo a ver. Obrigada por proporcionar essa conversa. Amém.

muito contente, gostei também de me ouvir falar como autora de ouvir a Dani e de entender exatamente onde a gente conversa aqui com as nossas obras, adorei Isa, obrigada e obrigada gente que ouviu a gente até aqui até o próximo episódio tchau, tchau