Episódios de Áudios de Alma para Alma

Como Calar a Voz Crítica e Ser Mais Compassivo Comigo? PART I

07 de maio de 202655min
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Neste episódio de Áudios de Alma para Alma, exploramos a voz crítica interna... aquela parte de nós que julga, pressiona, humilha, exige e nunca parece estar satisfeita.

Porque é que somos tão duros connosco?
Porque é que a autocrítica parece, tantas vezes, necessária para funcionar, melhorar ou não falhar?

Falamos sobre a compaixão não como “pena” ou passividade, mas como coragem, força, sabedoria e cuidado perante o sofrimento humano — o dos outros e o nosso também.

Ao longo do episódio vais compreender:
• O que é realmente a compaixão
• Porque o cérebro humano é naturalmente mais crítico do que compassivo
• Como a evolução nos tornou hipersensíveis à rejeição, crítica e humilhação
• Como internalizamos vozes externas e começamos a atacar-nos a nós próprios
• As funções da voz crítica e porque é tão difícil largá-la
• A diferença entre autocorreção saudável e autodestruição
• O “eu inadequado” e o “eu detestado”
• Como começar a desenvolver uma voz mais compassiva, firme e segura

No final, deixo-te perguntas profundas para começares a compreender melhor a tua própria voz crítica:
Do que é que ela te está a tentar proteger?
Qual é o medo por trás da autocrítica?
O que achas que aconteceria se deixasses de te atacar?

A forma como falas contigo pode tornar-se um lugar de ameaça ou um lugar de segurança.
E aprender compaixão não é deixar de crescer... é deixar de te destruir enquanto tentas crescer.

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Participantes neste episódio1
C

Catarina Barros

HostPsicoterapeuta
Assuntos6
  • Empatia e abraço vs. condenaçãoDefinição de compaixão · A voz crítica interna · A evolução do cérebro e a atenção ao negativo · Internalização de vozes externas · Funções da voz crítica · Os três pilares da compaixão: sabedoria, força e cuidado
  • Autossabotagem e PsicologiaSistema de ameaça e defesa · Modelagem e internalização de vozes externas · Impacto das figuras de vinculação · A relação de eu para eu
  • Liderança, Compaixão e MetasSabedoria e contexto · Força e coragem para enfrentar a dor · Cuidado genuíno (caring) · Diferença entre compaixão e hiperproteção
  • Autofala e autotratamentoTolerância a emoções desconfortáveis · Autocompaixão como base para o crescimento · A importância da relação consigo mesmo · Exercícios para lidar com a voz crítica
  • Metáfora da ostra e da pérolaSer 'bonzinho' vs. ser 'bom' · Dizer 'sim' e suas consequências · O crescimento pessoal através do 'não'
  • Voz Batista para CriançasSinalização de ameaças · Remediação de falhas e erros · Comando e rotulação · Expressão de raiva internalizada · Função persecutória e auto-ataque
Transcrição119 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá pessoal, sejam bem-vindos a mais um episódio do podcast Álvios de Alma para Alma e nós hoje vamos falar sobre o autocriticismo e a compaixão. Como é que eu posso calar esta voz crítica que me persegue, que me chateia, que me põe tão mal, que berra aqui na minha cabeça e me está sempre a pôr para baixo e ouvir mais a minha voz compassiva?

que nunca ouço, parece que nem existe. Mas ao mesmo tempo eu consigo ser tão compassivo com os outros, e vamos explorar isso porque se calhar não estamos a ser compassivos com os outros, não sabemos bem o que é compaixão, mas vá, tenho esta ideia que sou tão compassivo com os outros, mas depois comigo parece que não consigo. E hoje nós vamos falar sobre tudo isso.

quer sobre o autocriticismo, quer sobre a compaixão. E é possível que eu até divida este episódio em dois, porque tenho muita coisa para dizer sobre cada um destes tópicos e ao mesmo tempo eu queria trazer exercícios. Claro que sejam possíveis vocês fazerem sozinhos, porque eu tenho toda esta responsabilidade enquanto psicoterapeuta, também não colocar aqui exercícios, que só numa terapia individual é que é seguro de os fazer.

Mas vou tentar trazer alguns que eu acho que são apropriados e se podem ser possíveis e pode trazer uma luz para vocês que me ouvem e que às vezes não têm possibilidades de ter um acompanhamento mais individualizado. E é para isso, não é? E é por isso que eu crio este podcast, para que este conhecimento seja mais preparado e de forma gratuita, que é tão importante. Mas deixem-me começar por falar sobre um bocadinho a compaixão.

Porque eu sinto que as pessoas não sabem muito bem o que é a compaixão. Acham que ser uma pessoa compassiva é ser aquele bonzinho, o que faz tudo pelos outros, o que faz tudo, o que não tem limites. Ser uma boa pessoa é isso, é o que faz tudo. Ser nice, ser simpático, isso não é compaixão. Isso não é de todo a compaixão.

Ser uma boa pessoa é muito diferente de ser uma pessoa boa. O adjetivo estar antes ou depois o nome tem uma diferente conotação. E é muito fácil de eu explicar isto se vocês pensarem muito. Num outro exemplo, um homem grande. Portanto, quando o adjetivo aparece depois o nome, um homem grande é muito característico, é muito físico, é muito...

realista, é um homem grande e um grande homem, para aparecer o adjetivo antes, é muito mais abstrato, é muito mais uma qualidade mais abstrata sobre o homem. Por exemplo, deixem-me pensar, uma mulher pobre, a mulher pobre.

real, não é? Está a falar sobre a capacidade socioeconómica, portanto é possível de medir, como um homem grande é possível de medir, é algo real, está-me a faltar a melhor palavra para eu explicar isto, mas é mais real, é mais sustentível, é mais palpável, enquanto que uma pobre mulher, muito mais abstrato, é muito mais sobre uma outra qualidade que eu quero falar. Então ser uma boa pessoa...

Eu quero ser uma boa pessoa. Eu quero ser uma pessoa boa. Ok, podem achar uma pessoa boa. Uma pessoa bonita. Mas eu quero ser uma bonita pessoa. Eu quero ser uma boa pessoa. Esta qualidade inerente e mais abstrata sobre quem eu sou. Ok? Mas vamos aqui para o português. Depois vocês vão ler os meus livros. Eventualmente, num futuro próximo, espero eu. Mas está compaixão não é sobre o bonzinho. E eu às vezes trago...

esta metáfora, esta analogia que eu uso muito em Magética, as analogias na terapia individual, que é, imaginem, não sei se já disse isso no podcast, acho que não, mas pode ser que já tenha usado esta aqui no podcast. Imaginem, tem aqui uma historinha do João e do Pedro. E, portanto, o João tem um trabalho, tem o carro dele, tem a vida dele e tem um grande amigo que é o Pedro. E um dia o Pedro...

Liga ao João e diz assim, olha, não tenho como ir para o trabalho, podes-me levar? E o João diz, olha, posso? Posso. E pronto, se leva e corre, tudo bem. É um bocadinho chato, porque o Pedro, o trabalho do peso fica no Porto e o João trabalha em Braga, imaginem. Mas pronto, uma vez não são vezes, não é? Lá vamos ser uma pessoa boa e vamos dizer que sim. Dia seguinte, porque foi tão confortável para o Pedro, ele liga outra vez, olha, podes-me levar? Eu posso.

outro dia, outro dia e o João diz sempre que sim, não é? Porque ser uma pessoa boa é dizer sempre que sim e estar disponível para os outros e ajudar os outros e que amigo sou eu, porque imaginem o Pedro tem uma família o Pedro tem que pagar quantas e ele precisa que eu leve ao trabalho porque ele não vai chegar tarde e isso reflete depois no ordenado dele e eu sei a vida que ele leva ele precisa de este trabalho, ele precisa de estar lá a tempo e horas E aí

E, portanto, eu tomo quase a responsabilidade de fazer isso por ele, até porque eu sou amigo dele, que eu tenho que ser um bom amigo, dizer que não e ter todas estas repercussões próprias, se ele chega-me atrasado ou se perde o trabalho, não consigo lidar com isso e é responsabilidade minha e, portanto, eu tenho que dizer que sim, porque isto é ser uma boa pessoa e um bom amigo. E, portanto, vai dizendo que sim, sabe? O João começa a ficar uma chatice, porque o gás óleo está caro.

O gás, olha, está a Karina por cima, encareceu tanto. E o João começa a chegar a estar a trabalho, porque imaginem, ele trabalha em Braga, não é? Eu acho que foi Braga que eu disse. E o Pedro no Porto, ele tem que ir ao Porto e pôr-lhe para Braga. O pessoal do Norte compreende. E o pessoal do Sul, espero que dão bem, não é? Porque nós somos portugueses, somos estudianenses que não sabem as... Não vou fazer mais críticas aos Estados Unidos, porque realmente não vale a pena. Anyway, portanto...

O João começa a lhe custar caro e começa a escatar o trabalho e tudo mais. E a esposa dele começa a lhe dizer, tens de dizer alguma coisa, mas ele, ai, mas eu não vou ser um bom amigo. Um dia lá o João diz assim, olha Pedro, não te posso levar, não posso, não posso. E o Pedro passa-se. O Pedro passa-se, como assim, vou escatar, tens no sucesso de como estás a fazer, tens no sucesso das consequências que isto tem. Eu preciso da tua boleia, é só dar boleia, qual é que custa, não é?

Olha, não posso. E ele fica-se a sentir muito mal, o João. E o Pedro fica tão mal e tão chateado com ele que perde mesmo aquela amizade e chateia-se e nunca mais fala com ele. E o João fica-se a sentir péssimo. Pronto, nunca mais falaram. E passado um ano, o Pedro passa pelo João. E o João ficou assim um bocadinho nervoso. E o Pedro é tudo contente, vai à beira dele e já me dizia muito. Olha, aquilo que te fizeste foi a melhor coisa que me podia ter acontecido. Teus-me dito que não. Porque agora, imagina.

E depois que eu consegui juntar dinheiro e paguei a minha carta, passei logo à primeira. Pensava que nunca ia ter capacidade e afinal tenho capacidade de achar uma carta. Olha, sou assim tão mau e nem tens noção. Eu até consegui comprar um carro. E agora eu tenho um carro e vou todos os dias para o trabalho e está. Foi a melhor coisa que me aconteceu. E a pergunta que eu faço é quando é que o João foi a melhor pessoa? Não é?

Foi quando dizia sempre que sim e ajudava e vamos lá e mais uma vez e outra vez? Ou quando disse que não? Porque às vezes nós queremos ser os bonzinhos da sociedade, porque a sociedade diz mesmo isto, nós temos que estar sempre disponíveis e o sim, não é? Estar sempre lá para os outros e ajudar e tudo mais, porque isso é ser uma boa pessoa. Só que às vezes quando não estamos nesta posição de fazer muito pelos outros, até cresce o nosso ego.

Não é? Cresce. Porque de alguma forma o João estava a impedir o Pedro de evoluir. O João estava a tomar uma responsabilidade que não é dele, da vida de João, da vida de Pedro, e a colocar sem querer. Claro que nós fazemos isto muitas vezes. Outras vezes é muito inconsciente. Quando nós estamos a ajudar, há aquela sensação de que eu, se consigo te ajudar, eu estou melhor do que tu. Eu sei mais, eu estou melhor, eu tenho mais posse, eu tenho mais disponibilidade. E isto engrandece-nos.

Então também não estamos a ser boa pessoa que é para nós, que é para eles. Porque estamos a inabilizar, a fazer com que eles não tenham espaço para crescer. Que não consigam fazer as próprias coisas, que acham que nunca vão conseguir. Portanto, nós não estamos a ser bons para eles nem para nós. Porque estamos a aumentar o nosso ego e a achar que nós somos a última bolacha do pacote. E que sabemos tudo, e que somos maravilhosos, e que boas pessoas, e que fazemos tudo pelos outros. Às vezes nós colocámos-nos nesta posição.

É claro, por uma insegurança nossa, em que nós precisamos muito da validação externa e mostrar que fazemos muito pelos outros e que fazemos 30 por uma linha, quando não se calhar não estamos a ser pessoas e nesses casos eu até acho que há aqui qualquer trauma, qualquer dependência emocional, qualquer trauma de nos acharmos inferiores e que necessitamos lá estar sempre para os outros porque senão até nos podem abandonar.

Mas aqui teria muitas outras coisas para eles me usar. A coisa mais importante que eu quero que aqui entendam é quando é que o João foi a melhor pessoa? Quando estava sempre a dizer que sim? Ou quando finalmente disse um não? E permitiu ao outro crescer, aprender, ser resiliente, juntar dinheiro, comprar um cabo, o que quer que seja na vossa vida. Apliquem isto para a vossa vida. Quando tratou o Pedro como um igual.

E é ele próprio, não é? O João deu-se a permissão de dizer que não e sentir o desconforto para ele próprio também crescer e perceber que é igual aos outros, não é? Mas bom, portanto eu quero que aqui sintam que é realmente a compaixão.

A compaixão não é só ser o bonzinho, não é, nem tem nada a ver com ser bonzinho, muito pelo contrário. E eu quero falar dos três pilares da compaixão. Mas antes eu quero dar uma definição de compaixão, em que a compaixão tem estas duas vertentes, se vocês gostarem de ler sobre o Budismo, e o Dalai Lama fala muito do compaixão, ele fala muito que a compaixão é esta empatia em ação. Ou seja, tem a parte empática, a parte da sensibilidade ao sofrimento dos outros e ao nosso.

Portanto, é estarmos sensíveis, atentos ao sofrimento, não só dos outros, mas também ao nosso. Sermos empáticos até connosco. E ao mesmo tempo, uma segunda vertente que é a ação. Mas uma ação sábia. Portanto, a compaixão é esta sensibilidade ao sofrimento dos outros e ao do próprio. Com um compromisso, digamos assim, genuíno, de tentar prevenir ou reverter.

ou aliviar o sofrimento do outro ou do próprio. Portanto, sensibilidade mais uma ação sábia, numa tentativa de aliviar ou prevenir o sofrimento do outro ou do próprio. E o que é que é isto da ação sábia? Portanto, a compaixão tem três vertentes, ou três pontos, três dimensões que a constituem. Os três alicerces da compaixão são. Portanto, por um lado...

Por um lado, é sabedoria. Uma pessoa com compaixão, uma pessoa compassiva, é sábia. A nossa voz compassiva, que às vezes não existe, ou que existe, mas é muito baixinho que ouvimos, porque a voz crítica é muito alta. A voz compassiva é sábia. O que é que eu quero dizer com isto? Imaginem. Deixei cair aqui a minha garrafa da Bertito. Catarina dá uns anos. O que é que ela quer dizer?

Meu Deus, só fazes na ira, já sabia? Pusei essa água, já sabia, já sabia, porque é que eu enchi o raio de água, já sabia que eu sou desmazelada, ou eu sou traquina, já esqueci-me do atletivo que eu saiba, sou muito, não é? Ponho as mãos pelos pés, como é que é? Ah, esqueci-me. Pronto, sou muito isso, não é? Já sabia que ia cair. Para quê? Já sabia que o raio de água ia cair. Eu ia dizer coisas piores, não é? Já sabia.

Tu és sempre a mesma coisa. Não faz uma em condições. Esta era. Não faz uma em condições. Sempre a mesma coisa. A voz crítica, vocês conseguem compreender que ela só está a olhar para a água e para o jarro ou para a garrafa que caiu. Ela é muito básica. Ela vê um erro, ou vê uma falha, ou vê uma circunstância e, meu Deus, pior coisa do mundo. Ela está muito só naquilo. Fica muito linear.

Portanto, há isto, fizeste um erro, és péssima. A voz compassiva, ela é sábia. Ela vê a realidade por aquilo que a realidade é. E o que é que a realidade é? Ok, houve aqui uma falha, houve aqui um erro, houve aqui um descuido, até um acidente. É flexível. Há muitas possibilidades de nomearmos o que aconteceu. Portanto, ela viu o que aconteceu.

Ela entende o que é voz crítica. A presença da voz crítica. No sentido em que. O porquê de eu ser logo muito crítica comigo. Claro. Claro que a Catarina vira água e acha-se logo que é uma falhada. Porque aconteceu-lhe aquilo. E eu colou outro. E aquele trauma. E aquela memória. E aqueles pais críticos. Ou aquela professora crítica. Ou até sociedade. As mulheres não saibam para nada. Sei lá. Mil e uma coisas. Portanto. A voz compassiva.

ela não vê só o que está a acontecer. Ela vê o que está a acontecer com um contexto do que a pessoa vive. E viveu. E também se coloca um bocadinho no futuro. Portanto, no passado, no presente e no futuro. O que é? Ok, isso aconteceu. O que é que vamos fazer? Vamos limpar a água. É água, não é veneno. Vamos limpar. Portanto, um paninho, limpas, enche outra vez que quiseres, colocas assim, pronto, Catarina. Aconteceu algum mal no mundo? Não. Ah, pronto. Pensei que sim.

Portanto, há esta sabedoria, a voz crítica não é sábia. A voz crítica vê uma coisa e tira logo as conclusões dela, sabe-se lá de onde. Tira conclusões péssimas, negativas muitas vezes, a maior parte das vezes, ameaçadoras. Porque podemos chamar a voz crítica, mas podemos chamar logo as ameaçadoras. Já chamámos muitas coisas, eu e os meus pacientes, eu às vezes digo, para eles nomearem, a Cristina, como é que é essa a voz crítica? A Cristina, olha, está aqui a Cristina a falar comigo, ai, lá vem a Cristina.

E outros nomes piores, às vezes desenhos animados, às vezes, sei lá, de um político. Eu já ouvi um que a voz crítica chamava-se André Ventura, porque só diz as neiras. A CUT nunca segue. A CUT nunca segue não ser política, a sério, a minha vida é isto. Anyway, portanto, a voz compassiva é sábia, ela vê o que acontece. Num contexto do porquê que eu sou assim reativa.

ou num contexto de passado, portanto, quando ela acontecia algum desastre, algum acidente, criticavam-a logo. Mas vamos dar uma outra alternativa, vamos falar de uma forma diferente, portanto, flexível, e resolver o problema. Portanto, a voz compassiva é sábia. Ao mesmo tempo, portanto, sabedoria, o segundo pilar é força e coragem, porque só uma pessoa compassiva consegue ser corajosa.

Porquê? Porque ser compassivo envolve não fugir da situação, não evitar. Ser compassivo envolve sentar-me com a dor. Está a doer, eu fico aqui. No exemplo da água, que é muito básico, mas existem exemplos muito mais até dramáticos, eu viro a água, ou eu faço um erro, ui meu Deus, só alguém descobre. Fugimos até, ui, esta água está aqui virada, quem é que virou? Ai, não sei.

Eu não estava aqui. E para outros, eu, os que fazemos um erro qualquer, sou a pior coisa. Meu Deus, eu sou o pior do mundo, vou-me despedir. Não posso ficar sem trabalho, que eu vou ficar no rolho da rua e depois eu vou viver debaixo da ponte. Tu és sempre a mesma coisa, tu és a pior do mundo, sai daqui. E fica lá o erro. Evitamos, fugimos dele, não queremos lidar. É preciso muita coragem para sermos compassivos com nós. O que é? Virar está, o e é desconfortável.

E ativa-te aqui a tua voz crítica. E ativa-te aqui traumas. E ativa-te aqui o teu criticismo. Mas vamos ficar aqui. Vamos resolver. Eu estou aqui contigo. Vamos. Força. Força para resolver o problema que criaste. Ou foi um descuido. Foi um acidente. Acontece. E nós vamos reparar. Mas foi um grande acidente. Imagina de carro. Foi um grande acidente. Eu vou ter que pagar imenso. Pronto. E vamos pagar. Ainda bem que é dinheiro e não é a tua saúde.

Se a questão é só dinheiro, estamos aqui. Vamos ter que trabalhar mais? Trabalhamos força, vamos conseguir. Há força e há coragem para enfrentar a situação, para lidar o melhor possível com ela. Portanto, a voz compassiva é forte, ela é sábia, ela é corajosa e ela também é cuidadosa. Há aqui uma gentileza genuína, um caring, um cuidado.

É uma validação, um cuidado. Estou aqui contigo. A voz é cuidadosa, é amorosa, é carinhosa. O que é, Catarina? Viraste a água. É água. É água. Olha, se passasse, era pior. É água. Tudo bem. Não partiu nada. E se partisses, compravas outro copo. Compravas outra garrafa. Ai, mas é tão caro um copo. Não é. Vais ali aos chineses. Vais ali aos 300. Já não existe 300, não é? Vais ali aos 300.

está tudo bem. Imaginem, porquê que eu estou a falar destes três pilares? Portanto, sabedoria, força, coragem e este caring, este cuidado, esta gentileza. Porque às vezes nós achamos que estamos a ser compassivos e não estamos a ser. Imaginem, imaginem aquela mãe que faz tudo pelo filhinho, faz tudo, não é? Já vi.

jovens, adolescentes de 8 anos, e a maizinha, 20 anos, a maizinha está ali a escolher os alimentos e a cortar a carninha e não sei o que mais, então é desses níveis, ok? Faz tudo, tudo é mais alguma coisa. E eu sinto muito cada vez mais isto com as novas gerações, porque estamos a... E eu compreendo porque é que os pais estão a cuidar, não é cuidar a palavra, mas a proteger tantos filhos, porque...

de alguma forma, uma projeção, como não foram protegidos, agora querem proteger porque não querem que os filhos passem por aquilo que eles passaram, e tudo bem, só que também estamos, não é? O pêndulo da vida é mesmo isso, é extremos, até nos equilibrarmos. Estamos aí para o outro extremo, estamos a proteger demais, em que, não é? Quando eu estava aulas, alunos, em que os pais faziam os trabalhos deles, e disseram-me isso numa apresentação, eu fiquei louca. Como assim?

Vais ficar licenciado para o ano e tu estás-me a dizer que foi o teu pai que fez o teu trabalho? Como assim? E eu quando me conto isto a outros colegas, às vezes até relativizam de género. Olha, pelo menos esse pai quer saber. E eu, pois, vamos olhar para o lado positivo, mas eu fico escandalizada. Ou, por exemplo, entrevistas de trabalho e ser a mãe a ligar, a dizer, olha, está doente, não pode. Não pode. E o quê? Como assim?

Então eu venho trabalhar e a mãe que me está a ligar. E doendo já eu digo uma coisa muito positiva. Às vezes é o meu filho que está muito nervoso. Não vai conseguir ir. Ou os pais virem e eu fico assim. Esta pessoa tem 25 anos e está aqui com a mãe. É chocante. Para mim é chocante. Porque é isso. Nós estamos a ser muito compassivos. E por exemplo, esta mãe ou um pai muito hiperprotetor. Isto não é compaixão. Isto não é... Imaginem.

a parte do caring, do cuidado e tem a parte da força uma mãe muito forte que faz tudo pelo filho e lutou muito e eu valido isso mas não tem a sabedoria, não tem o discernimento de saber quando e onde usar este caring e esta força portanto não é compaixão falta-lhe aqui uma vertente falta-lhe o discernimento de saber quando e onde ser compassivo ou por exemplo, ser compassivo não é o mas não é o julistante

O João. Ou não é aquele que vê alguém, não é? Numa situação delicada, que não tem carro, e diz assim, olha, leva o meu carro. E tu? Olha, eu vou do Uber. Eu ainda me ponho com mais gastos na minha vida para ajudar um outro. Eu prejudico-me para ajudar um outro. Eu não sei nadar e vou tentar salvar o outro.

Isso não é ter discernimento, isso não é ter sabedoria. Ok, compaixão é arranjar uma outra forma até de ajudar o outro, mas que também não me ponha em perigo. Se eu não sei nadar, eu não me vou atirar para um rio. E que não me ponha em sarilhos ou em situações bem graves, às vezes, na loucura de ser uma boa pessoa e de mostrar a mim própria que eu até sou boa pessoa. Isto não é compaixão. Isto não é ser boa pessoa. Achamos que sim, e às vezes temos as melhores intenções, mas em bom português...

Não, não vou dizer o macaco. Boas intenções, está um inferno cheio. Vamos dizer essa. O português é delicioso porque tem aqui cada provérbio e cada coisa, mas não vou dizer essa. Portanto, isso é ser compassivo. Tal como não é ser compassivo, aqueles psicólogos ou aqueles terapeutas que conseguem ver um padrão num cliente. Portanto, cliente tem este padrão. Portanto, tem sabedoria de perceber, de discernimento, portanto, esta infância, este trauma, estas coisas, isto.

E ele está sempre a repetir isto nas relações dele. Mas eu não vou tocar nesse assunto porque é muito delicado. Então, há uma sabedoria e há um cuidado que está ali para ajudar, para estar lá com a pessoa, conversar com a pessoa, mas eu não vou tocar no ponto. Não há força, não há coragem. A gente tem que ter assim, olha, tens aqui este padrão. Como é que nós podemos curá-lo? O que é que nós podemos fazer por ele?

Faz sentido isto? Faz sentido que isto, isto e isto leve a ser assim? A ter estas ações? Isto é ser compassivo. E muitas vezes, não é? Os novos clientes que eu tenho, a maior parte deles já passaram por outras terapeutas e por outras terapias e ficam sempre muito chocados.

que chegam à terapia comigo e é assim, não é só para conversar aqui. Por isso é que eu deixei de ir às outras terapeutas, às outras terapeutas, porque eu só conversava. E eu para isso fico em casa, ou eu falo com uma amiga, vou ao café, fica mais barato. Porque a terapia não é só termos ali aquele cuidado e carinho, que é importante. E termos nós a sabedoria, mas não implementar, não termos a força, a coragem de fazer os exercícios, de fazer o que precisa ser feito.

Claro que há sucessões que a pessoa vem só vomitar, às vezes é mesmo vomitar, vem só falar, vem mesmo descarregar, mas já a pessoa tem que levar algo, não é? Ela paga um serviço, tem que haver aqui uma cura, tem que haver aqui uma evolução, tem que haver aqui um desenvolvimento e se estás em terapia há muito tempo e não sentes isso, algo nos está a correr bem, ok? Tal como não é ser compassivo, ser uma boa pessoa, aquele amigo que tem a sabedoria, digamos assim, consegue ver para mim que está a fazer as neiras, que está numa relação tóxica.

Estão aqui os padrões. E tenha força de dizer a um amigo, estás numa relação tóxica e acaba com isso. Isto não é compaixão. Nós temos a sabedoria de ver o padrão que a pessoa está a passar, que lhe faz mal, etc. Que às vezes o próprio amigo não consegue ver dele mesmo. E nós vemos, e nós entendemos.

E nós temos a força de o comunicar e a coragem de dizer e a coragem de estar ali com o amigo e ouvi-lo e estar ali com o desconforto e tolerar o desconforto. Mas depois não temos o cuidado. A gentileza genuína, o querer saber. Dizemos de uma forma, sai dessa relação. O que é que estás a fazer? Isto não é compaixão também. Compreendem? Compreendem que o compaixão é uma força, é uma coragem.

É também uma vulnerabilidade, mas não é uma fragilidade. E claro que é muito difícil nós termos esta voz e ouvirmos esta voz compassiva. Porque não é um natural. E eu quero que isso fique muito bem claro aqui. Eu já deixei em vários episódios isso claro. Mas nem todas as pessoas ouvem todos os episódios. Então há coisas que eu realmente tenho que repetir e que eu acho importante repetir. Que é, o nosso cérebro não se desenvolveu para nos dar paz. Para ter uma voz compassiva.

um Buda dentro de nós, meditar, ser o natural. Não! O nosso cérebro evoluiu para nós sobrevivermos. É uma máquina de sobrevivência. E, portanto, o que é que isso envolve? Envolve que eu vou estar mais atenta a estímulos negativos. Naturalmente, a nossa baseline, digamos assim, é estarmos atentos a estímulos, a situações negativas. E, portanto, se temos mais atenção a coisas negativas, vamos memorizar mais coisas negativas. Portanto...

É natural isso, porque eu tenho que estar atento, se esta fruta está estragada, que eu posso ficar doente. E posso já não estar aqui, eu tenho que estar atento ao leão, tenho que estar atento à inflação, tenho que estar atento ao preço do gás óleo, eu tenho que estar atento ao desemprego, tenho que estar atento ao que acontece no mundo, porque pode-me acontecer qualquer coisa. E portanto, nós fomos formatados ao longo da nossa evolução, a estarmos atentos mais a coisas negativas, a estarmos preparados, a estarmos em ação.

E ainda hoje, não é? Saberíamos as notícias, saberíamos as redes sociais. O que mais se valida é este estado de medo, estado de angústia, de ansiedade e ao mesmo tempo de motivação de fazer e acontecer e precisas trabalhar cada vez mais para ganhar mais para estar aqui na rodinha do hamster e um dia vais chegar lá, mas não sabes aonde é que quer chegar. E se chegas, depois tens que ir para o outro lado também. Portanto, num movimento desenfriado para saber-se lá de onde.

E aqui eu já estou a tocar no tópico dos nossos três sistemas de regulação emocional, que eu tenho um episódio só sobre regulação emocional e estas necessidades básicas, porque de facto nós temos a necessidade da sobrevivência e este sistema de ameaça e defesa, nós temos a necessidade de construir, de ganhar mais, de ter motivação, de fazer e acontecer para nós, de evoluirmos até, de um ponto de vista até mais espiritual, nós temos essa necessidade.

de alcançar mais, de fazer mais, mas nós também temos uma necessidade básica de pertença, de segurança, de conexão. Portanto, nós temos necessidades básicas que precisam de ser atendidas. O problema e a questão é que as pessoas estão muito mais a viver, estão muito mais a sobreviver até do que a viver, estão muito mais com estes sistemas.

de regulação emocional, de ameaça e defesa, de motivação ativada, dopamina, as recompensas a curto prazo, está muito mais ativado os sistemas de ameaça, ansiedade, medo, as pessoas vivem em ansiedade e medo constante. E claro que o sistema de ameaça está ligado à nossa voz crítica. A nossa voz crítica está-nos sempre a dizer cuidado com aquilo, cuidado com aquilo outro. Tu não viste aquilo? Tu não sei o que mais? Porque ela serve estes propósitos. Imaginem, a voz crítica

A voz crítica vai-vos estar a fazer olhar-se para as ameaças. Por exemplo, nunca amas mais que ele vai-te deixar. A ameaça não é preciso ser só guerra, questões financeiras. A voz crítica é criativa. Ela vai estar a fazer com que tu olhas. Presta atenção a ameaças internas criadas pela cabeça.

Externas também, mas imaginárias. Nunca amas mais, que ele vai te deixar. Não faças mais isso, que ninguém vai gostar de ti. Cuidado, cuidado, cuidado. Saís do trabalho, que vais ficar pobre. E tu realmente és pobre, tu não saís para nada. Ela é criativa. E a voz crítica vai ter muitas afirmações, e são afirmativas mesmo.

de prestar atenção a ameaças. E por isso é que a voz crítica está tão ligada ao sistema de ameaça. Mas, por favor, quem não viu, que vá ver o meu episódio sobre os nossos três sistemas de regulação emocional e o que é realmente a regulação emocional. Que não é só meditar e um journaling e vai estar bem. Não, a regulação emocional tem muita coisa. Ok? Que eu hoje não vou entrar porque...

Este episódio vão ser dois episódios, porque eu já estou a desprezar completamente. Vão ser dois episódios, porque eu nem falei bem do autocriticismo, não é? Mas, ok, portanto, vejam o episódio das regulações da recolação emocional para entenderem ainda melhor o autocriticismo, de onde é que ele vem e como ele está ligado a esse sistema de ameaça. Portanto, o nosso cérebro evoluiu realmente para sobrevivermos e para alcançarmos mais, mas também para nos sentirmos seguros e conectados e desligarmos e sentirmos tranquilos.

Ao mesmo tempo, portanto, porquê que nós temos muito mais facilidade de estar conectados com a voz crítica? Por causa da nossa evolução, da forma como o cérebro evoluiu, das pressões sociais atuais, das notícias, tudo o que está a acontecer, dos nossos sistemas que às vezes vivemos em ansiedade e medo sempre, e isso está ligado com o sistema de ameaça, que está ligado com o autocriticismo. Ao mesmo tempo, o autocriticismo também surge das nossas experiências, desde a infância até agora, não é? E em castes figuras?

externas viraram internas. Portanto, se calhar o autocriticismo que nós vivemos na nossa infância com os nossos pais, com os professores, com a sociedade enquanto menina e mulher, desde quem é a mulher que não cresceu com um criticismo sobre o corpo dela e como ela devia ser e o que é que devia fazer está muito estrutural.

É estrutural, infelizmente, na nossa sociedade. Para já. Para já. E, portanto, estas vozes externas viram vozes internas. Aquilo que nós vimos e sofremos por outras pessoas, depois é o que nós fazemos connosco próprios. Portanto, às vezes também o que vimos, por exemplo, se vimos a mãe, sempre que deixava cair um pai... E aí

está sempre a deixar aqui tudo. Realmente, ou partir um prato e ela critica-se ela própria, às vezes não é preciso criticar a criança, às vezes nós aprendemos também por modelagem, que é este efeito, ou este fenómeno na psicologia, que nós aprendemos com os outros, segundo aquilo que eles fazem com eles próprios. Portanto, se a mãe regula as emoções a fumar um cigarro, é muito mais provável a segarar do que tu fumes.

Se a mãe regula as suas emoções a passar-se e a gritar, é muito mais normal que depois na vida adulta tu grites e digas assim eu estou-me a tornar a minha mãe e eu não gosto. É modelagem. Se a mãe fazia algum erro e dizia assim meu Deus, o final do mundo, blá blá blá blá blá blá blá tu vais fazer isso contigo. Portanto, nós internalizamos aquilo que vimos no mundo externo. Porquê também? Porque o nosso cérebro é altamente social. É uma das nossas motivações e necessidades básicas esta conexão.

Esta segurança e esta conexão, este amor e pertença como necessidade básica. E portanto, tendo nós um cérebro altamente social, uma das coisas que nós mais temos medo e daquelas que nós mais tentamos que não nos aconteça é ficarmos sozinhos. É não sermos humilhados, é não sermos rejeitados. E para isso, nós vamos tentar ser melhores.

Só que muitas vezes a nossa tentativa de sermos melhores, ou de fazermos as coisas melhor, para gostarem de nós, para não sermos rejeitados, para não sermos humilhados, para não sermos deixados de par, deixados sozinhos, a forma de nós nos tornarmos melhores, que parece muito a forma de nos amarmos, de cuidarmos de nós, não vai ser por amor, vai ser por crítica.

E porquê? Porque imaginem, se as primeiras figuras de vinculação, ou seja, os primeiros modelos de amor que nós tivemos, um pai, uma mãe, uma avó, um cuidador, se eles nos criticavam, e se nós validámos isso como uma forma de amor, que é, ele só quer o melhor para mim, claro que depois nós vamos validar internamente que o criticar-me é o querer o melhor para mim, é o parar de ser parva. Então a minha tentativa de melhorar,

Não é na base do amor, mas é na base da crítica da humilhação interna, muitas vezes. Claro, se o pai e a mãe me amaram assim, é porque isso é amor. De alguma forma. Isto é tudo muito inconsciente. Eu só estou a dizer para a vossa consciência. O que acontece? Claro que se os pais fizeram assim, é porque deve ser assim. Nós validamos o que os pais fazem. Nós validamos as primeiras figuras. E isto de uma forma, muitas vezes, inconsciente.

Então, a forma como nos amaram, muitas vezes, é a forma como nós vamos amar a nós próprios. Entre aspas, aspas, amar.

E não quer dizer que não nos amaram, amaram da forma como sabiam. E claro, no contexto em que tinham e conheciam, e na história de vida que tinham, e nos traumas que passaram, fizeram o melhor que podiam, ok. Eventualmente chegámos a esse ponto, mas antes nós precisámos de entender o que se passa. É que às vezes as pessoas querem, ah, os pais fizeram o melhor que podiam, sem antes processar o que se passou. E então dizer isto, os pais fizeram o melhor que podiam, é uma forma de suprimirem toda a dor. Então primeiro temos que olhar para a dor, entendê-la, conhecê-la, luz.

E depois sim, depois eu estou em paz. Não podemos dar mil passos à frente, estar em paz sem realmente estar. Uma paz podre, não é? Mas aqui vem o autocriticismo. E o nosso objetivo é, sabendo isto, sabendo que o nosso cérebro evoluiu desta forma, todas as pressões sociais, a modelagem, os pais, os professores, a vida que levamos, o nosso cérebro social, as nossas motivações internas, o sistema de ameaça. Somedem.

Um resumo muito teórico de várias coisas. Sabendo um bocadinho de tudo isto, que agora sabem, o que é que nós queremos? Nós só queremos tentar ganhar uma tolerância às emoções e situações desconfortáveis e conseguirmos gerar emoções mais agradáveis. Se vocês conseguirem tolerar emoções desagradáveis e autogerar,

com cada vez mais fácil e rapidez, emoções agradáveis, já estão lá. Nós não vamos reduzir, eliminar 100% o autocriticismo. Podemos, quase no 100%. Eu acho que me encanto por aí. Depois de um longo percurso e de muita prática. Mas ele vai existir. E não é ele deixar de existir que eu vou ficar bem. É a forma como eu falo para ele. É a forma como eu acolho. É a forma que eu entendo.

Eu entendo o meu lado crítico, de onde ele vem, o que ele me quer dizer, os medos que ele tem. E eu atendo, olha, fala comigo. O que é que queres dizer? O que é que se passa? Qual é o medo que estamos aqui a falar? Qual é a emoção? Qual é a memória que foi aqui ativada? Porquê que estás a reagir assim? É ter esta compaixão até pelo crítico. Mas chegaremos lá.

primeiro eu quero vos dizer o que é este autocriticismo. Portanto, onde é que ele vem? Já vos expliquei um bocadinho. E o que é este autocriticismo? Este autocriticismo é uma relação de eu para eu. É uma relação interna que nós desenvolvemos de uma parte nossa com outra parte nossa. E, portanto, uma relação entre a nossa parte, ou uma parte nossa, dominante e hostil,

Com uma parte nossa que se sente ou que é subordinada e receosa. Então há uma parte minha que é dominante e hostil. Tu não seres para nada. Com uma parte que eu viço e ela é subordinada. Ela sente-se inferior, sente-se abaixo, com menos poder. E que só tem que ouvir aquilo e acatar. E ao mesmo tempo receosa, com medo e triste.

E com danos. Porquê é que me estás sempre a dizer isto? Isto é o autocriticismo. Esta relação entre duas partes nossas. De eu para eu. Em que nos tratamos a nós próprios como se fôssemos o nosso competidor mais forte. O nosso maior inimigo ou o nosso subordinado. Uma parte nossa da nossa voz crítica trata a outra parte nossa como subordinado. Como o meu escravo. Faço o que quero de ti. Digo-te o que quero. Tu ouves o que queres e o que não queres.

Por isso é que nos faz tão mal. Isto pode parecer assim um bocadinho estranho, não é? Como assim? Duas partes dentro de mim? O que é isto? Está atento. Quando tu és crítico contigo, não existe uma parte tua que fica triste, com medo, cansada, a sério. Não existe. E não existe, não consegues sentir na tua voz crítica uma parte tua. Crítica mesmo, é uma parte tua.

dominante, como se soubesse tudo e não sabe nada, hostil, mázinha, diz coisas muito mázinhas. Porque há autoavaliações muito negativas, há uma vergonha interna. Porque imaginem, a voz crítica, eu chamo-lhe crítica mas podem dar outros nomes, como eu já disse, pode ser a voz ameaçadora, porque ela pode dizer várias coisas. Imaginem, a vossa voz crítica tanto pode dizer que é a voz crítica,

que vos está a tentar proteger uma ameaça, não é? Como eu dei o exemplo há um bocadinho, do género, não comas tanto porque senão ele vai-te deixar, portanto há aqui uma ameaça que tu não estás a ver, eu estou a tentar cuidar-te dessa ameaça. Como ela pode ter a função, digamos assim, a função ela tem duas, mas já chego lá. Portanto, ela pode estar a tentar remediar falhas e erros, do género, faz sempre isso.

Tu és sempre a mesma coisa, fazes sempre a mesma coisa. Estás sempre a falhar, estás sempre a fazer erros, estás sempre a dizer as neiras. Como ela pode ter, a voz crítica pode ter um ar muito de comando. Para de comer. Para de fazer isso. Para de ser assim. Para. Já chega. Já chega de seres inútil. Já chega de seres otário. Já chega de não sei o que mais. Já é insuficiente, não achas?

Como ela pode também rotular, como vamos, a voz crítica pode ser muito disto. Tu és inútil, tu és parva, tu és burra, tu és gorda, tu não saís para nada, tu és feia. Como a voz crítica também pode ser muito uma expressão de raiva, que não pode ser expressada para os outros muitas vezes.

Então nós internalizamos essa raiva no sentido de... Por exemplo, não posso dizer isto, senão ele vai me deixar, mas é isto que eu sinto. Eu sinto que ele não gosta de mim. Eu sinto que ele está a fazer isto por maldade. Olha, já viste o que é que ele fez? A voz criativa é quase assim. Tem raiva, mas não pode fazer. Já viste o que é que ele fez? Ele fez outra vez aquilo? Tu já lhe tinhas dito?

Não já, Catarina Braves? Já lhe tinhas dito que ele não podia fazer aquilo. E ele faz. Então é porque ele não gosta de ti. Vês como ele não gosta de ti. Olha, que sempre soubeste. Não é? Ou, eu pedi àquela minha amiga para não falar com aquela. E ela falou. Vês como ela é falsa? Vês? Vês como tu não tens amigas? Tu achas que tens amigas, mas não tens amigas? Tu achas, mas elas não são verdadeiramente tuas amigas. Portanto, há aqui uma raiva com os outros, ou com o mundo, ou com alguma coisa, não é? Então, vamos lá.

que eu não posso expressar para eles, porque até tenho medo de expressar. E eles, primeiro, verem que eu sou má pessoa, verem que eu tenho maldade, verem que eu sinto isto em relação a eles, e que eles me deixam mesmo. E, portanto, como eu não posso expressar para eles, eu internalizo e a voz crítica está aqui a dizer, olha, como ninguém gosta de ti, porque ninguém me gosta de ti porque não mereces. Porquê que eu gostar? O que há que há para gostar de ti, Catarina Barros? Não é nada. Não é nada.

Portanto, ela serve para canalizar esta raiva, ela serve para rotular, e ela às vezes pode ser isto tudo, imagina, vocês podem não ter só uma destas opções. Vocês podem, e muitas vezes é o que acontece, ter todas estas, que é sinalizar ameaças, a vossa voz crítica pode estar sempre a sinalizar ameaças, vão-te deixar, para de comer, não vão gostar de ti, vais ser rejeitada, olha, vais cair porque tu és toda ajeitada, vais cair aí e vais passar uma vergonha.

De falhas e erros, estás sempre a falhar. Claro que fizeste mal, tu só fazes mal. Tu não sabes nada. De rotular, tu és inútil, tu és burra, tu és gorda, tu és isto, tu és aquilo outro. Expressar raiva, não é? Realmente não gostam de ti. Pode ser uma, pode ser todas elas. Imaginem, eu estou a dizer muitas coisas negativas desta voz crítica. Só que é assim. O ser humano é inteligente. O ser humano é muito inteligente.

Se a voz crítica fosse só negativa, nós íamos ficar com ela. E só se nos fizesse sofrer, nós não íamos ficar com ela. Imaginem, se alguma coisa me magoa, eventualmente, eu paro de me dar com essa pessoa, ou tiro essa coisa, se me estão a cortar. Portanto, se a voz crítica, a voz crítica diz estas coisas todas, e é tudo isto, e faz-me mal, mas ela mantém-se.

Porquê que eu não a mando ir embora? Porque a voz crítica também serve propósitos. E tudo que tem um propósito na nossa vida não vai embora. Até nós entendermos o propósito e ressignificarmos, ou entendermos que podemos ter uma outra voz, uma voz compassiva, ou a voz que vocês quiserem chamar, que vai surgir o mesmo efeito, mas com menos dor. E, portanto...

A voz crítica normalmente tem uma ou duas funções para o indivíduo. E por isso é que ele não a deixa. Porque é aquele exemplo que eu vos dei há um bocadinho. A forma de meus pais mamarem era criticar-me. Sim, mas é uma forma de me motivar para ser melhor. Então, a minha voz crítica é a minha forma de eu ser melhor. Então, a voz crítica pode ter esta função autocorretiva de estar... Porque é isso que ela vos diz. Eu estou aqui para te ajudar, não é? E eu digo, realmente, tu tens que estar aí para me ajudar. Porque eu senti...

Não sou motivada, eu sem ti não faço as coisas em condições. Tu é que deixas-me atento ao mundo. A voz crítica tem esta função autocorretiva de eu estou aqui para minimizar erros e falhas e tentar corrigi-los ou preveni-los. Só que imaginem, quando eu digo isto, e sabendo que o autocriticismo é uma relação de eu para eu, há uma voz que está a dizer para julistrar os meus amigos.

Estás a falhar. Não é suficientemente bom. Precisamos de mudar. E há um outro eu que vai recebê-lo com. Claro, eu ainda sou inadequado. Eu ainda não sou suficientemente bom. Eu realmente ainda não sei fazer as coisas ou eu não faço bem. Eu realmente uma vergonha por ser quem é. Uma vergonha por aquilo que faz. E um sentido profundo de inadequação.

Ou a voz crítica pode ter outra função, pode ter as suas. Para os críticos experts, como eu era, tinha tudo isto. Que é uma função persecutória. Em que não é sobre melhorar, minimizar falhas e erros e corrigi-los. É sobre eliminar partes nossas. Isto está errado. Tu és errada. Isto é horrível. Precisamos eliminar esta parte tua.

Como assim tu falas muito em público? Que chata que tu és. Vês como é que foste chata? As pessoas estavam fartas de aturar. Elimina isso em ti. Chega, tu não podes ser mais assim. Porque senão vão-te rejeitar. Persecutória. E portanto, se temos uma parte nossa persecutória a dizer assim. Elimina isso teu. Isto não é bom. Isto não é aceitável. Não é possível de ser amado. Em que nos pune. E tem ataques autodirigidos.

Portanto, há uma pessoa que nos está a atacar e a dizer que somos errados efetivamente e que temos que eliminar partes nossas, vai haver uma outra parte nossa que vai ouvir aquilo e no fundo sente-se o quê? Isto é inconsciente, mas... Não sente-se só inadequado. Sente-se errado. Sente-se detestado. Claro, eu tenho que eliminar isto meu. Isto é feio. Isto é horrível. Eu odeio essa parte minha. Eu detesto.

Então imaginem, e sobre isto tudo da auto-versão, eu também tenho um episódio sobre a auto-versão, sobre não gostarmos de nós próprios, e eu quero que tu ouças esse episódio, se tu sentes que não gostas de si próprio, por favor ouve, porque pode ajudar muito a curar e libertar-te disto. Quando nós entendemos este autocriticismo, o que é? De onde ele vem? O que ele nos diz?

E porquê que no fundo nós inavalidámos a existência dele? Porque no fundo achámos que precisámos dele para corrigirmos partes nossas ou eliminar partes nossas para um dia sermos amados, aceitos, maravilhosos? Quando nós entendemos tudo isto já estamos a meio passo da cura porque entendemos que se calhar não está a funcionar. Porque o que os estudos mostram é mesmo isto. As pessoas que mais autocriticas são, são as que com o pior desempenho em todos os níveis, podem ver os estudos,

sei lá, de empresas, de desenvolvimento pessoal, de psicologia, mas também de psicologia empresarial, com menos desempenho, com mais evitamento, em que não fazem as coisas com medo e raro, que não fazem as coisas porque acham que não são bons, com menos autoestima, com um conceito, autoconceito difuso, ou seja, não saber bem quem são, o que é que são bons, mais inseguros.

Cás tantas, eu quero que tu entendas que há outro caminho para tu te melhorares a ti própria, para seres uma excelente pessoa e realmente uma boa pessoa. Uma pessoa compassiva não só com os outros, mas contigo própria. Porque é este exemplo que eu dou muitas vezes a clientes, principalmente com perturbações alimentares. Que é, claro que tu podes chegar lá das duas formas. Tu podes chegar a esse corpo XPTO a criticar-te em restrições.

A ir ao ginásio todos os dias, a magoaste mesmo, de dizer, não consigo mais, mas eu tenho que fazer mais, eu tenho que não sei o que mais. Nesse esforço e nessa angústia, ou tu podes chegar lá por amor. E se calhar vais chegar a outro sítio ainda mais bonito. E outro sítio ainda mais tranquilo. E em que não o estás a fazer na base da ameaça e do autocritismo, porque o autocritismo é isto, não é? É o sistema de ameaça, é alguma coisa de mal vai acontecer.

Nesse sufoco, nessa ansiedade, nesse medo contínuo. Tu é que escolhes a relação que és ter contigo próprio. Quando tu entendes que a relação que tu tens contigo próprio é a relação mais importante da tua vida e que cabe a ti transformá-la, tanto tu entendes que tens poder e que precisas usar esse poder a te ouvir.

que tu dizes a ti própria e tu vais ouvir para o resto da tua vida. É aquela relação que vai ficar sempre. Que eu 100% digo isso. Todas as outras pessoas podem ir embora, mil e uma coisas podem acontecer. Esta voz interna está aí. E quando tu entendes que tens o poder para transformar e escolher como queres falar contigo, entanto, tens a chavinha para realmente te dar amor, para realmente chegar a um sítio que tu queres.

mas na base do amor. Porque é possível. É possível ser a mulher com um corpo bonito, com saúde, que gosta dela própria, através de comer bem, porque quer comer bem, de ir ao ginásio porque quer estar bem, quer ter saúde, quer se auto-regular.

que toma as suas vitaminas, que bebe a sua aguinha, que até põe uma garrafinha toda bonita, que se cuida. É possível chegar lá através do cuidado, da força e da sabedoria. É possível chegar lá através da voz compassiva e é isso que os estudos até mostram, se quiseres ciência. Não funciona a longo prazo, destruíste para chegares a algum lado. Vais ficar todo roto e se calhar nem chegas lá, desistes. E se chegares a algum lado vais querer outro, porque nunca é o suficiente.

Não te destruas. Constrói-te, transforma-te. E portanto, sobre esta voz crítica, eu só queria dar alguns exercícios. Vamos ficar com o pai, meu Deus. Alguns exercícios. Sobre a tua voz crítica, está com ela e pergunta-te do que é que me estás a tentar proteger? Porque imagina, se eu estou numa situação de ameaça,

em que eu estou reativa, em que não faço nada de jeito, em que não sei o que... O que é que eu me estou a tentar proteger? Qual é o teu real medo? O que é que está aqui a acontecer? Do que é que tens medo? O que é que está por trás da crítica? E um exercício que eu faço muito com clientes é essa voz crítica, como é que ela fala contigo? Ela é agressiva? Ela fala alto?

Ela é forte. Tem voz de homem ou de mulher? Ela faz-te lembrar alguém? E ao início é estranho. Não, é a minha própria voz. Mas a forma como ela fala contigo? Lembra-te de alguém? Alguém falava assim contigo? Ok. Isto é importante. De onde é que ela vem?

do que é que ela me está a tentar proteger, como é que ela fala comigo. E depois, qual é o meu maior medo de largar o autocriticismo? Porquê é que ela está aqui comigo? Porquê é que eu ainda o valido de alguma forma? Nem que seja de forma inconsciente. Porquê é que eu ainda não soltei a mão dele? Porquê é que eu ainda o ouço tanto? Qual é o meu maior medo? Que se eu o largar, eu ainda fico mais gorda, mais feia, mais burra, mais o quê?

Porque isso é ele que te está a dizer, ou ela que te está a dizer, porque ela não quer ser largada. Ela quer continuar aí e vai te convencer muito bem. Está atento ao que ela te diz. E eu vou parar por aqui e vou mesmo deixar a compassividade e os outros exercícios de cura para o próximo episódio. E portanto, no próximo episódio eu quero trazer mais exercícios para vocês porem na prática.

mais explicação, mais do que esta voz compassiva, a importância dela, para vocês. Portanto, vão ouvir o próximo episódio para se curarem e se libertarem mesmo desta voz crítica. Porque vocês merecem isso. Vocês merecem ter uma boa relação convosco próprias. Que a vossa relação seja reguladora, autoreguladora, que seja tranquila,

vos traga paz. E é na base da paz que nós podemos expandir e sermos cada vez melhores e boas pessoas. Ok, muita coisa para dizer, mas eu vou deixar mesmo para o próximo episódio. Um beijinho. Vemo-nos então daqui a um bocadinho para vocês. Sei, depende de quando eu postar, não é? Que agora também, como é que eu vou postar cada um para vocês não ficarem aqui sem uma parte e sem a outra.

Mas, então, vemos aqui uns dias, se calhar, vemos aqui um bocadinho, vemos aqui uns minutos, uns segundos, umas horas, depende de quando vocês me encontrarem, é isso. Se gostaram deste episódio, deixem o vosso like, partirem com pessoas que acham que isto é importante, permitam-me chegar a mais almas, de alma para alma, não é? E não é o nome deste podcast. Permitam-me chegar a mais almas, ajudem-me a ajudar cada vez mais. E é isso.

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Como Calar a Voz Crítica e Ser Mais Compassivo Comigo? PART I | Castnews Index — Castnews Index